Feminino: o retorno

Deusa Minerva e o Centauro

Quase cinquenta anos depois das rupturas imprescindíveis do feminismo, em que pé está o Feminino no mundo?

Décadas passadas das rupturas necessárias e urgentes do feminismo, as qualidades do Feminino profundo andam fazendo muita falta, num mundo heróico, polarizado na ação, na competitividade e no conflito.  O bebê foi jogado fora com a água do banho e o feminismo terminou paralisado no tempo e no espaço, aprisionado na mesma armadilha patriarcal que tanto buscou combater.

Vivemos num mundo em que os valores masculinos, ativo-agressivos, de competição, separação e antagonismo, são determinantes, até mesmo na educação das crianças pequenas.

Todos querem ser masculinos em seu modo de atuar no mundo e a energia de compensação, gerada no polo oposto, o Feminino, está fragilizada, quando não ausente. Como energia passivo-receptiva, de relação, colaboração e acolhimento, não apenas reduzido à condição de gênero, o Feminino pode perfeitamente ser expresso tanto por homens quanto por mulheres. A beleza como valor profundo (não simples culto da aparência), a compaixão, o cuidado com o mundo interno, com a casa, com o planeta, com a educação das crianças e com os mais velhos, a gentileza, a receptividade, a introversão, a escuta, a empatia são alguns dentre os valores do Feminino que nossa cultura tem negado e pervertido. Ironicamente, porém, são os mesmos valores dos quais nossa alma tem fome. São atributos da Alma num sentido amplo, a dimensão do mundo interno e também do mundo exterior identificada com a imaginação, a memória, as emoções e os sentimentos: as expressões do Feminino profundo. 

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De que maneiras uma cultura de mercado globalizada como a nossa e as mídias, como estratégias desse modelo  neopatriarcal, atuam para diminuir ou mesmo neutralizar por completo as qualidades do Feminino?

Com a expansão da cultura de mercado globalizada, as mídias cada vez mais vêm atuando no sentido de neutralizar as diferenças individuais e culturais, impondo padrões de comportamento que rejeitam as formas e expressões autênticas do Feminino. Desse modo, as pessoas, as mulheres em particular, veem-se reduzidas a estereótipos, adotados, sem questionamento, como modelo. O consumismo feroz precisa nos reduzir a seres teleguiados, incapazes de refletir sobre o impacto de nossas ações no mundo. E tem se saído muito bem nessa tarefa. De modo geral, as ideologias políticas e religiosas tampouco estimulam a reflexão e o autoconhecimento. Ao contrário: quanto mais nos submetemos a doutrinas e dogmas que nos garantem segurança em troca de inteligência, mais nos afastamos da possibilidade de viver nossa vida de modo autêntico.

Como os estereótipos que servem a essa mesma cultura estão impedindo as mulheres de ser e de amar, e as relações, de amadurecer?

A periguete, vulgar e hipersexualizada, a “fodona” corporativa, agressiva e prepotente, a super-mulher-multi-tarefeira, heróica e maníaca por perfeição são exemplos dessa triste redução do gênero feminino a caricaturas. Uma compreensão do Feminino como força de reparação desse cenário instaura outro olhar sobre a realidade e suas crises atuais, a maioria delas resultantes do esgotamento do modelo heroico, tanto à esquerda quanto à direita.

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Com o Feminino ausente ou empobrecido, como ficam as relações? Ora, é só olhar ao redor.

O Feminino representa a função de relação, um modo de ser e estar no mundo que permite a construção e o cuidado com os vínculos. Com seu gradual esvaziamento, as relações andam cada vez mais superficiais, fantasiosas e breves.  Pessoas sem resiliência, incapazes de empatia, incompetentes para lidar com as frustrações e revezes naturais da vida, infantilizadas e dependentes de remédios e outras drogas, pais que têm medo de educar seus filhos e de servir de continente para eles, nos primeiros anos da vida, transtornos alimentares… Esses  são alguns dos frutos das carências da Alma e da repressão do Feminino no mundo.

E como fica envelhecer?

Envelhecer é o grande tabu da nossa época. Ninguém quer ficar velho. O herói não quer envelhecer, todavia ele não tem escolha. A questão não é se vou envelhecer. É, sim, como vou envelhecer. Há uma obsessão doentia por juventude, triunfo, saúde, sucesso e beleza. As mulheres são as maiores vítimas da pressão para viver de aparências, embora a alma masculina também esteja exausta e perdida. Como o Feminino profundo pode ajudar a gente a lidar com a passagem inexorável do tempo? Como a alma pode nos ensinar a morrer, enquanto nos ensina a viver?

a virgem santana e o menino

7 Comentários (+adicionar seu?)

  1. rubens osorio
    maio 27, 2013 @ 15:26:13

    É uma auto-entrevista? Gostei horrores!!! Viva o Feminino! Bj

    Responder

  2. darci
    maio 27, 2013 @ 15:56:47

    Concordo plenamente com tudo Eli.
    Quero acrescentar que no quesito relacionamento observo que uma parcela muito grande de jovens comporta-se, relaciona-se AINDA com a mesma mentalidade dos meus pais. Vivo numa cidade c/ 4 milhões de estudantes e de um jeito ou outro observo a mesma falta de confiança da qual sofria minha mãe em relação a meu pai, das garotas em relação aos seus namorados e “noivos” (como 2 dos carinhas que vieram na minha casa dar atendimento de informática. Uma delas mesmo depois de verificar que tenho idade p/ ser mãe dela (!) não quis esperar o namorado no carro como ELE havia sugerido). Observo tb como é comum que jovens (às vezes nem tão jovens) com aquela pretensa cara angelical ou de tonta mesmo, em geral são mães solteiras não por opção, mas por burrice mesmo. Existe um reality britânico sobre meninas grávidas e seus dramas decorrentes de sua burrice igualzinho acontece aqui, então deve ser global mesmo. Triste.

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  3. darci
    maio 28, 2013 @ 14:22:30

    Ah isso tem muito! Eta golpe mais antigo, aplicado tanto por tontas de plantão como por espertinhas militantes! Até o Mick Jagger caiu nele, provando que homens, independentemente de quem sejam, emburrecem diante de uma bela burra!

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  4. Paulo Costa de Souza
    dez 09, 2015 @ 14:26:02

    Passei por aqui. Sua página é deliciosa. Abraços e beijos, Paulo.

    Responder

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