Mãe das invenções

Sábado azul e dourado, adoçado pela brisa quase marinha, depois de dois dias corridos de chuva benfazeja. Caminho pelo bairro aonde passei os últimos vinte anos negociando com as empregadas e faxineiras que, a mando das patroas, mas também por comodismo próprio e quase orgulhosas do desperdício que cometiam, varriam com minúcia as folhinhas da calçada, usando para isso o fluxo da mangueira. “Você ainda vai querer beber essa água!”, eu costumava dizer e elas me respondiam com muxoxos de pouco caso, quando não me ignoravam por completo. Tinham, como 007, licença para matar. Neste sábado, porém, algo mudou e não foi a qualidade das calçadas, que continuam rachadas e irregulares. Primeiro passo por um edifício que exibe uma faixa alardeando: “Usamos água de reuso”. Salvo a redundância, a notícia me enche de ânimo. Penso: que bom seria se esse exibicionismo de bom senso contaminasse os condomínios vizinhos! Dou mais alguns passos até a esquina e vejo uma longa serpente de borracha azul babando sobre a calçada. Me preparo para dar uma bronca em quem quer que segure a outra ponta, mas estaco. Pela sarjeta, desce a água limpa de lençol freático que vejo escorrer por anos a fio por algumas ruas do Brooklin Novo. Uma bombinha jeitosa, estrategicamente posicionada bem na esquina, recolhe a água por tanto tempo enjeitada e é com ela que a calçada está sendo lavada. O zelador não esconde o orgulho quando puxo conversa. “Nossa! Tão simples!”, eu digo. “E a água estava aí mesmo, não é, dona?”, ele me responde com um sorriso largo. Dois condomínios num único quarteirão modificaram enfim, forçados pela necessidade, hábitos arraigados e perversos. Acredito em tudo nesta manhã cheia de promessas. Que nossos deveres terão peso igual ao de nossos direitos. Que vamos economizar água e luz, não como faziam nosso pais, apenas por medo do valor da conta no fim do mês, mas porque queremos, como adultos que somos, reparar o mau uso que fizemos, por anos a fio, de recursos finitos e, se for possível, reverter o cenário apocalíptico que nós mesmos montamos, com nosso desejo predatório e compulsivo de conforto. Que vamos educar nossos filhos ao invés de entregá-los, bárbaros, às escolas, para que estas consertem o mau feito de nossos mimos, culpas e bundamolices (o que as escolas não farão, embora algumas até, por má fé, vendam esse serviço que não podem, de modo algum, entregar). Que vamos nos mobilizar contra os descalabrados do poder público nas três instâncias e deixar claro aos sub-políticos brasileiros que evoluímos da condição de meros eleitores para a de cidadãos cientes de que o cuidado da polis cabe primeiramente a nós. Continuo a caminhar pela rua arborizada e uma imagem me visita, em meio a esse delírio otimista. Na minha memória, ressoa um nome sinistro e incontornável: Ananke, a deusa grega da Necessidade. A tal Mãe das Invenções do velho adágio. A força que nos tange como gado, apesar de nossa ilusão orgulhosa de autodeterminação. Os antigos gregos, sempre eles, deram à Necessidade um nome e também um status que a estabelecia acima (e abaixo) de todos os outros deuses. Os olímpicos chiques e civilizados metiam o rabo entre as pernas quando Ananke entrava em cena. Zeus, o fodão por excelência, deus dos deuses, curvava-se a dela, avassalado pela Necessidade. Nenhum mortal encarnava na Terra sem antes passar por debaixo do trono de Ananke, uma divindade anterior ao advento do patriarcado, muito mais antiga que os deuses do radioso panteão que Zeus estabeleceu. Ela os antecede, assim como outras deusas igualmente ameaçadoras do demiurguinho chinfrim e equivocado que é o nosso ego: Nix, Nêmesis, Ate, as Moiras, as Erínias… Como elas, Ananke vem das trevas profundas de um mundo primal que está dentro e fora de nós. De lá, ela se ergue feito a névoa escura que cobre as regiões aonde habita nossa natureza mais arcaica, irracional, instintiva. Ananke circula nos desvãos da nossa razão redentora. Ela sabota os preceitos maniqueístas de nossa religião expurgada de sombra. Ela se insinua nas rachaduras que as aparências escondem à custa de camadas e camadas de pancake. Ela é o bolor que destroça as boas intenções. O mofo que corrói os currículos. A traça que devora os títulos. A umidade que apodrece os saldos bancários. Ananke é Mãe, contudo numa modalidade muito diversa dessas senhoras que protegem seus filhos até torná-los incompetentes para a vida. Como mãe, Ananke ensina e quando ela ensina, somos forçados a aprender. Sofremos, mas aprendemos. Seu método não é propriamente socioconstrutivista. Ela não tem pena dos coitados. Ela não poupa nem as crianças, nem as mulheres, nem os deficientes físicos. Não se pode aplicar o ECA em Ananke, nem arrastá-la aos tribunais ou à delegacia. Sua pedagogia não é politicamente correta, longe disso. Sua didática se baseia na lei tosca e certeira de causa e consequência. Com Ananke, ninguém precisa esperar a morte para chegar ao inferno. Passamos séculos subestimando o problema da água. Somos brasileiros pobres e dissipadores. Nossa desmedida no uso da água ultrapassou em muito os limites. Acreditávamos que, na hora H, o governo daria uma Bolsa-Banho para todos e o problema seria resolvido à parte de nós, sem nossa participação direta. Como se não fôssemos nós o problema. Como se não estivéssemos pagando por nosso perdularismo, independentemente da capacidade infinita que os governantes, todos eles, têm de mentir e enganar para ganhar eleições. Como se o que perdeu e seu partido estivessem agora fazendo melhor do que esse estafermo que está aí, metendo os pés pelas mãos, servindo ao poder, como sempre. Quando Ananke se apresenta, não temos para onde fugir. Somos irrevogavelmente reenviados de volta aos nossos limites. E então temos de passar, todos, governantes e governados, por debaixo do seu trono. A Necessidade, Mãe das Invenções, nos convoca para a ampliação da consciência e desencadeia em nós uma sorte de criatividade que não é a da malandragem dos números maquiados ou da recusa infantil da responsabilidade. Com Ananke, não tem prestidigitador ou marqueteiro que dê jeito. Ela nos propõe crescer pelo caminho mais duro e também mais eficaz. Resta saber que escolhas faremos, enquanto engatinhamos para passar por baixo do seu trono, torcendo para sair vivos do outro lado.