Visões

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Nada é, para mim, tão concreto e persistente quanto a memória. Nada é, para mim, tão real  e transformador quanto a imaginação. Nada precede a Beleza e o Amor, Afrodite e Eros, mãe e filho, na ordem da realidade como na do mistério, sendo as duas uma e a mesma. A verdade pode se tornar tirânica. A justiça pode se tornar arbítrio. A bondade pode ser pieguice. Já a Beleza nos põe de joelhos, muito antes que soe uma única vogal. O Amor a segue, qual um cãozinho ao seu dono. Eu sirvo à Beleza porque não tenho escolha. Quanto ao Amor, desconheço outra verdade, outra lei. O resto é vaidade e correr atrás do vento, disse Salomão, o homem que não fazia questão de ser nem melhor nem mais sábio do que os outros. Nada em excesso, e nisso o oráculo de Delfos é o único com licença para soar dogmático. Enquanto a vida prossegue, aprendo que menos é mais e mais é nada.

 

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MÚSICA

Não poderei ver um show ao vivo de Leonard Cohen por enquanto. Mas quando encontrá-lo, vou pedir que ele cante “Famous blue raincoat” ao violão, só para mim, de preferência com sua voz de mocinho. Vamos nos sentar numa esquina decadente da Montreal dos anos 1950, beber bourbon sem receio de ressaca e falar sobre sexo e religião, que também são uma e a mesma coisa. Jesus deve aparecer a qualquer momento, com sua mochila de lona verde. Lá vem ele: acaba de virar a esquina, bem acompanhado, como sempre. A morena agressiva, de lábios grossos, olhos chispantes e coxas de ébano, é Kali, a Negra, e não vai topar sentar com a gente, claro. Deixa ela, diz Jesus, largando a mochila no chão, entre resignação e alívio (“essa mulher é muita areia etc”). A morena se afasta furibunda (“ela é assim mesmo”, ele revira os olhos, como no retrato do Sagrado Coração). Penso que ambos formam o casal perfeito, a união dos opostos, a imagem-síntese das núpcias alquímicas. Jesus se junta a nós e pede “Hallelujah”, o que acho meio manjado da parte dele. Só que faz questão da voz demolida de profeta, pelo menos. A luz da tarde está linda, mescla de violetas e dourados, uma banda do mundo luminosa, a outra, já mergulhando em sombras. Obrigada, fui eu mesmo que fiz esse crepúsculo, diz Jesus, em resposta ao meu pensamento que não teve tempo de sair da cabeça. Isso irrita um pouco em Jesus, mas tudo bem. No resto, ele é ótima companhia. Começa a esfriar. As duas bandas da Terra estão escuras agora. Ainda bem que eu trouxe meu famoso xale azul. Pedimos mais uma rodada e Leonard recomeça.

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LIVROS

Eu e Agatha Christie flanando pelas ruas de Aleppo. Já embarafustamos por um souk ruidoso e colorido de doer nos olhos. Já tomamos café, comemos doces e eu consegui comprar, depois de vinte minutos de intensa barganha, duas cópias de cerâmica de figurinhas da deusa, embrulhadas em papel de seda amarfanhado. Chegamos a Estambul vindas de trem de Calais e depois viajamos até a Síria. Sou voluntária na equipe de Max Mallowan, o marido arqueólogo de Agatha, que vai escavar no vilarejo de Chagar Bazar, à beira do Eufrates, na temporada deste ano. Estamos nos anos 1930. Tenho 16 e pretendo ser arqueóloga. Fui aceita por Max com relutância, imagine se essa menina adoece, se se apaixona, que responsabilidade. Nem sei como meu pai deixou. Agatha intercedeu em meu favor, ela é muito convincente quando quer. Disse que vou ajudá-la com os originais do novo livro e estou que não caibo em mim, de alegria e medo. Eu e ela somos as únicas mulheres do grupo. Ela é a grande khatun e eu, sua ciosa carregadora de cauda. Sou um pouco mais velha que Rosalind, a filha que ela nunca leva nas viagens com Max. Aleppo é antiga e venerável, uma cidade sagrada cheia de sombras de deuses que teimam em continuar a existir, um emaranhado de ruas velhíssimas cruzadas por figuras embuçadas, saídas das histórias de Richard Burton.

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Um homem passa por nós, trajes brancos imaculados, capa multicolorida, tarbush negro emoldurando um rosto ocidental e quase feminino, olhos ardentes de Rodolpho Valentino. Falso como o sheik do livro de Edith Maud Hull que resgatei de uma caixa cheia de livros velhos, um tesouro abandonado na calçada pelos vizinhos de minha tia. Falso mas não menos galante por isso. Andamos Agatha e eu de braços dados e nos cutucamos quando o sheik passa por nós qual uma ventania, as roupas amplas farfalhando. A alvura dele me faz sonhar com a luz cremosa de Palmira, a deusa-cidade florescendo em seu oásis. Haveremos de ver Palmira a caminho para o Eufrates. Quero aprender a ser como Agatha: ao mesmo tempo uma khatun e uma menina que se diverte com tudo, que faz a mágica da reparação de revezes quando escreve. E olhe que ela não escreve sobre almas-gêmeas, nem potes de ouro no fim do arco-íris, nem prestimosos esforços para fugir da depressão em duas semanas. Aliás ninguém foi tão fundo na própria dor quando Agatha. Ela mergulhou e retornou da noite escura com uma braçada de crimes para narrar. Talvez por isso ela seja assim, tão inteira, tão honesta quando mente. Agatha me confessa que sente saudades de Aleppo, de Palmira, de Kamichlie, até mesmo da feiosa Amuda. Ela diz: “Inshallah, eu voltarei algum dia e as coisas que eu amo não terão desaparecido desta terra”. Sim, elas terão, minha querida. Nem a gloriosa Palmira restará, abandonada que foi pela civilização que não merecia o paradoxo de sua beleza. Mas que bom que você me levou lá antes.

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Afrodite Go!


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Ouro, prata, bronze, sangue, suor e lágrimas. Rafaela, Robson, Thiago, Isaquias, Maicon, Rafael, Felipe, Mayra, Poliana, Artur, Diego… Na alquimia dos metais olímpicos, não tem almoço grátis e a meritocracia é o Dharma, a Grande Lei Geral. O espírito olímpico é o contrário do coitadismo bolsista sem contrapartida que assola o país e reinventa o coronelismo, agora mais à esquerda. Nas Olimpíadas, estrelas só mesmo os caras do futebol que ou se rendiam ao zeitgeist ou viravam buracos negros. Acabaram se rendendo. Fui contra essa Olimpíada desde o começo. A Olimpíada que nunca foi do Lula. Nem dele nem da Dilma nem do Temer nem do Paes nem do COI. A Olimpíada foi do Brasil dos campeões que trabalham, pagam imposto, fazem trabalho voluntário e se divertem sempre que podem, do Brasil dos campeões da Lava-Jato e das ONGs bem tocadas por gente honesta e inspirada. A Olimpíada foi a glória justa e tardia dos brasileiros pretos pardos pequenos pobres mas também dos brasileiros brancos amarelos louros morenos de olhos castanhos verdes azuis, todos valorosos disciplinados esforçados irredutíveis apaixonados.

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A Olimpíada foi o discurso incontestável, sem palavras porque nem precisava, dos sem ideologia com propósito. Fui contra a Olimpíada e, no entanto, me rendi à Beleza do Corpo no poder. Me deixei arrebatar e subjugar completamente pela Beleza no poder. Me tornei devota da estética ética da Olimpíada, com aquele cenário absurdo de lindo ao fundo, Rio de Janeiro, como eu gosto de você! Até a mentira dos nadadores americanos virou a nosso favor, que anedota feliz e necessária para belos viralatas como nós, mestiços sem raça que ainda não abarcamos a imensa vantagem genética dessa condição! Os deuses nos sorriram lá do Olimpo, na mesa do banquete em que Zeus e Xangô se rendiam aos encantos de Oxum e Afrodite.

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Penso que as Olimpíadas sempre foram e continuarão a ser um portentoso ritual à verdadeira Beleza, a Beleza que vai muito, mas muito além da casca, do simulacro enganoso da aparência, do fantasma descarnado da perfeição retocada e rasa. A Beleza que fenece e pede para desabrochar em Sabedoria. Quanta variedade, que diversidade, que espantosa ode às diferenças, quantos formatos, cores, padrões, pesos, texturas, alturas, larguras, densidades, humores, estilos!

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E que infinidade de gestos, sorrisos, movimentos, penteados, dancinhas, expressões faciais, esgares, gritos, gemidos, sussurros, saudações, urros, quantas linguagens naturais ou convencionais, que comunicação mais eficaz e livre da tirania do verbo que a do corpo falando com habilidade, graça e vigor, unido no pacto indissolúvel com as almas dos atletas. O corpo-alma preciso, escorreito e ágil mas também errático, ferido e alquebrado. Tudo lindo porque íntegro: o topo e o tombo, a dor e a alegria, a frustração e o contentamento, a derrota e a vitória. E como amar um Corpo isento de contrastes? Impossível, diz Afrodite Dourada, a que banha de paixão todas as medalhas olímpicas, esposa que é de Hefésto, o Divino Ferreiro.

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Não, a escola não ensinará nada que preste enquanto não se deixar arrebatar pela Beleza, que os gregos cultuavam porque sabiam que era ela, e não a superestimada razão, o pilar fundamental da civilização. Não vai prestar essa escola ridícula enquanto não servir, de joelhos, ao Corpo e à Beleza, a que se escora na Justiça e na Bondade para se manifestar em plenitude, a genuína força civilizadora do coração humano, a alma da política que serve para servir à polis, a única vacina contra a barbárie de todos os extremismos e fundamentalismos religiosos e políticos que querem dividir para dominar. Não à toa os guerreiros do EI combatem e destroem a Beleza, ocultam a Beleza, têm pavor da Beleza. Eles estão certos. A Beleza dissolve polarizações sem se perder em debates vazios simplesmente porque ela É. Afrodite bota Ares, o deus da guerra, de quatro. E ainda tem, com ele, uma filha chamada Harmonia.

Por causa da Olimpíada, Afrodite Go virou meu APP da hora, instalado de fábrica na minha cabeça, ativado desde o nascimento, agora em versão totalmente atualizada. Que mané Pokemon, suprema babaquice! Eu quero é rastrear a Beleza no Mundo!

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P.S. para Elke Maravilha, deusa encarnada, formidável Baba Yaga que se cansou desta brincadeira e gritou “Fui!”. Elke foi uma porta-voz do Feminino profundo, naturalmente pouco aproveitada e compreendida pelo feminismo patriarcal unilateral. Azar dele. A sabedoria temperada por um irresistível senso de humor, o amor e a originalidade continuam a ser atributos dessa personalidade singularíssima, que confrontou o mundo tolo e fosco da moda e viveu para ser quem o universo precisava que ela fosse, nada mais, nada menos. Elke não deixou herdeiro/a do mesmo porte neste rincão aonde veio aportar, fugindo de Stalin com sua família. Essa devemos a Stalin. Divirta-se, amor. Aliás nem precisava dizer. Beijos.

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No templo da deusa-gata

Zelda Fitzgerald, nossa gata pitbull

Manhã ensolarada de sábado na clínica veterinária Sr. Gato, em Pinheiros. Logo no corredor de entrada, dezenas de gatos cochilam ao sol, escarrapachados em minipufes e minidivãs, decorando o ambiente com sua misteriosa e elástica beleza. E também na beirada de uma janela, sob os móveis de jardim, dentro do tubo de um brinquedo da gatolândia, aonde quer que você olhe, lá estarão eles. Ao lado da porta, sobre uma mesinha de canto, um bolo de chocolate se oferece para ser cutucado pelos devotos circulantes. O bolo fica lá, paciente feito uma oferenda, um comitê de boas vindas meio destroçado e muito tentador. Os gatos nem ligam para ele. Trancada na sua caixinha, nossa pequenina fera, Zelda, ronca e bufa em meio à confusão de feromônios, enquanto espera para ser atendida.  Em volta dela, naquela habitual curiosidade displicente dos felinos, os moradores do templo evoluem graciosamente, oferecendo à gente, que já está lá porque gosta deles, um espetáculo de refinamento que só mesmo Pablo Neruda para descrever. Gatos multicoloridos e mulheres de branco estão por toda parte. A maioral entre elas, suma-sacerdotisa do pequeno templo de Bastet, a deusinha-gata do velho Egito, veste-se de preto, como seria de se esperar.  Para ornar, dois pretinhos básicos, viralatas idênticos, dormem enrodilhados um no outro, enfiados numa prateleira do petshop. Parecem um só gatão enorme, de duas cabeças. A fêmea estampada, espécie de catálogo de amostras de DNAs, exibe sua diversidade genética sobre o balcão da recepção. Uma branquinha de vestido de veludo plush cor de rosa posa, lânguida, sobre um minisofá, com a desenvoltura sensual das modelos de Matisse. Na sala interna, outra gata branca, delicada e suave, quase um filhote, testemunha a selvageria dos homens versus a humanidade dos bichos: alguém jogou ácido sobre a carinha miúda. Com dois buracos rosados no lugar dos olhos corroídos, ela se recupera para ir morar na casa da suma-sacerdotisa. Meiga, resiliente, esfrega-se na minha mão e me dá leves lambidinhas. A modelo de Matisse também tem sua história triste: os lixeiros a resgataram de um saco muito bem amarrado, no qual ela havia sido enfiada para morrer. Teve sorte, mas sente muito frio. Por isso, além do vestido rosa, tem também um casaco de gola de pele e um boné. Os dois irmãos enormes, viralatas lindos e um tanto velhuscos, foram largados lá para serem sacrificados por uma senhora distinta, que os deixava dormir na cama mas, de repente, se enfarou deles. O branco e preto recusa-se a comer e toma Prozac, de tanta tristeza. A suma-sacerdotisa resolveu o problema com alimentação parenteral, mas conta que alguém há de se apaixonar por ele, o que não seria dificil, se as pessoas não tivessem tanto receio de amar, criar vínculos e assumir responsabilidades por outros seres vivos. Uma magnífica gata branca de olhos azuis e densa cauda angorá também espera por um dono que se encante com sua beleza de personagem de conto de fadas. “Nós já fomos deuses no Egito. E você? Quem é?”, eles nos perguntam, com aqueles olhos fixos que parecem enxergar algo que nós mesmos não somos capazes de ver. As lendas do patriarcado convenceram nossa cultura de que os gatos são bichos traiçoeiros, interesseiros,  de parte com o diabo, perigosamente independentes, que gostam da casa e não dos donos. Uma manhã de sábado na clínica Sr. Gato, em Pinheiros, pode rapidamente dissolver esses e outros mal entendidos. Que o destino ainda te presenteie com um adorável gato viralatas, caro leitor. Isso é uma das melhores coisas que posso lhe desejar.

As fabulosas amigas de Cronos

Galinha-perua (fundo aquarelado e canetinha nanquim sobre papel)

Meu marido leu no Estadão e me repassou a coluna do Tutty Vasques de terça passada. Vou ter de falar dela, até porque, quanto usou o termo “idade da loba avançada”, Tutty ativou a senha de dona Clarissa Pinkola Estés. Como loba sobrevivente e veterana, com muito gosto, preciso responder. Fiquei lendo o texto e vendo a Oprah na TV. Sincronicidade absoluta. Você pode achar a Oprah apelativa, se-achona e manipuladora. Ela é tudo isso e não nega. Mas você tampouco pode negar que a Oprah seja uma força da natureza. Uma força tão bipolar quando a própria natureza. Uma força que atua diretamente sobre a concretude empedernida do mundo sem, contudo, intimidar-se com ela. E que geralmente abre espaços para alguma beleza, algum amor, alguma sabedoria. Sou Oprah e não abro. Choro em algumas entrevistas, mas também acho tudo muito brega (inclusive eu mesma). Neste momento, estou lendo Tutty e assistindo, na TV, uma cena do programa de Oprah em que duzentos homenzarrões com olhos marejados seguram seus próprios retratos de meninos, num ritual de superação de algum abuso ao qual foram submetidos na infância. Duzentos homens aos pés de Oprah, aos prantos, feito garotinhos que apanharam na rua e correram para chorar no colo da mamãe. Excessivo? De mau gosto? Duvidoso? Assista cinco minutos de BBB (sem vomitar) e você haverá de achar a Oprah BCBG (como dizem os franceses): bon chic, bon genre. Oprah luta obsessivamente contra o excesso de peso, alisa furiosamente o cabelo, nunca foi nem de longe bonita, não está se esforçando para parecer mais jovem… E que mulher fabulosa ela é. Continuo lendo o Tutty, que agora fala da noiva americana do Paul Mc Cartney, segundo ele, outra mulher fabulosa, mais como resultado de um jeito de estar no mundo do que do atendimento a parâmetros estéticos descartáveis. Esse jeito, afirma Tutty, só melhora com o tempo, suas pilhagens e seus investimentos. Ser fabulosa, então, depende do sucesso de um pacto que a mulher  faz com o velho Cronos, no qual, além de roubar, ele acrescenta. Falo de Cronos, o titã deus do Tempo na mitologia grega, não do Cronos da Natura que, por sinal, é muito bom, mas não renova as células da alma. Pacto fechado, Cronos começa a fazer a parte criativa de sua tarefa (além de continuar a destruir, o que também pode ser muito criativo). Acrescenta novas rugas e outros temas. Cabelos brancos e ideias furta-cor. Alguns quilinhos e muita curiosidade. Uma certa insonia e sua parceira criativa: a inspiração. Tira cintura e põe no lugar uma paleta de cores mais vibrante e ousada. Entre as fabulosas de Tutty, estão, além de Nancy Shevell, a noiva de Paul, Patricia Pillar e Carla Bruni. Na minha estão, além de Clarissa e Oprah, Marina Silva, Bibi Ferreira, Isabel Allende… Isso para citar as famosas porque, se eu for fazer aqui uma lista completa, vou ter de arrolar minhas companheiras de matilha, uma mais fabulosa que a outra. O Tutty termina a coluna dizendo que “só depois dos 45 anos se pode dizer com segurança que uma mulher integra esse seleto grupo (das fabulosas). Impossível identificá-las quando jovens”. Para contrapor às fabulosas, meu marido, sempre provocador, me entrega outro recorte de revista, agora com a foto de uma mulher que deve ter sido muito bonita, mas que hoje, graças ao excesso de botox e preenchimentos, ostenta aquela aparência inquietante e um pouco sinistra das antigas bonecas de louça: dura, lisa, envernizada. Apesar da fama e da grana decorrente, faltou esperteza da parte dela para ficar amiga de Cronos. E ele se vingou, segundo Tutty, fazendo o prazo de validade da beleza dela coincidir com a juventude.

Onde os deuses vêm repousar

Onde os deuses vêm repousar

Arranjinho de flores caseiro: uma oferenda à beleza que não dura

Tempos atrás, fui assistir a uma palestra do professor Junito Brandão sobre “As Bacantes”, no recém-inaugurado SESC-Ipiranga. Velhinho, fragilizado por uma cirurgia muito agressiva, ele parecia, contudo, envolvido por um halo de inspiração e entusiasmo, como se tivesse entrado no Hades e de lá retornado com uma braçada de dias luminosos ainda por viver, presenteados pelo casal infernal, Plutão e Perséfone. Por sorte, o auditório ainda não estava terminado. Uma mesa para o palestrante e algumas cadeiras para o público foram arranjadas num grande hall de entrada, que nem sei se existe ou se é fruto da minha memória truncada. No centro do hall, havia um imenso arranjo de flores, elaborado por uma velha amiga e disposto sobre uma grande mesa redonda, feita de rádica reluzente (estou rememorando, o que talvez signifique que esteja também inventando). No início da fala (que foi lindíssima), o professor Junito festejou seu (breve) retorno à vida que tanto amava e disse umas coisas memoráveis, como se estivesse um pouco alto, como se tivesse engolido um deus, naquele caso, o próprio Dioniso, o protagonista da noite. Um pouco ofegante e muito comovido, Junito declarou: “Se vocês pensam que os deuses estão lá em cima, nos andares e salas da administração, estão muito enganados. Os deuses estão em volta daquela mesa, reunidos ao redor das flores. Onde as flores estiverem, os deuses também estarão”.  Desde esse dia, nunca mais deixei de ter flores frescas dentro de casa. Enquanto ainda fazia suas excursões à feira, meu pai, outro velho dionisíaco a seu próprio modo, me trazia ramalhetes de flores do campo ou gérberas ou lisiantos (tinham de ser as flores que ele escolhia), mais uns chorinhos de botões de rosa, para eu colocar junto às fotos da neta. Depois que meu pai parou de ir à feira, eu mesma passei a sortir a casa com flores. Rosinhas francesas foram as minhas prediletas por muito tempo, com suas delicadas penquinhas lembrando decalques vitorianos.  Num dia em que elas estavam especialmente esplendorosas (o que acontecia pouco antes de começarem a despetalar) , pedi ao Edu para fotografá-las.  Agora ofereço a você, leitor, essa visão fugidia da beleza, que a imagem chapada não foi capaz  de eternizar, mesmo porque alguns sentidos ficaram interditados da experiência. Em seu livro “Meditações pagãs” (Vozes), a terapeuta junguiana Ginette Paris escreve um capítulo inteiro sobre Afrodite, a deusa do amor e também da beleza fugaz, que preside os arranjos florais, os bordados, os penteados, os vestidos, as comidas, tudo, enfim, que enfeita o dia para logo depois fenecer. Diversa da beleza majestosa e perene de Apolo, que perdura nos mármores e bronzes, a beleza de Afrodite é tão ou mais importante para a civilização, por tornar nossa vida possível, por se imiscuir nas frestas do concreto armado da realidade como as plantinhas que florescem entre as rachaduras da calçada. Naquela noite distante e inesquecível, o professor Junito me ensinou que os deuses eternos precisam da beleza efêmera da vida cortejada pela morte, para curar-se de tanto poder. A imagem de um deus-bebê, a dormir, tranquilo, numa manjedoura também ressoa essa verdade simbólica, precariamente equilibrada entre muitos pares de opostos. Pouco depois daquela palestra, eu soube que Junito retornara ao Hades… e dessa vez, não houve jeito de negociar. Hoje, minha imagem de ano novo é a foto de um velho bule de café cuja tampo se quebrou, recheado com um buquê de rosinhas francesas.  Ela contém o voto que faço a mim mesma e que estendo aos meus amigos e a todos que me fazem companhia, quando lêem o que escrevo: que em 2011, a gente saiba arranjar lugares belos, pequenos, provisórios, onde a eternidade se sinta, por um momento, convidada a repousar.

O exílio de Héstia, a verdadeira rainha do lar

Quando eu tinha uns 11 anos, minha mãe me ensinou a lavar a calcinha no banho e a pendurá-la no varal, na área de serviço. Ela também me ensinou a enxugar a tampa da bacia da privada depois de usá-la e a aproveitar a toalha de papel usada no banheiro público para enxugar a pia, porque ela seria usada por alguém depois de mim. Quando eu punha certas roupas para lavar, ela dizia: “Esse vestido está limpo e bem pode ser usado de novo antes de ser lavado. Assim a gente economiza água e energia elétrica, sem falar que a roupa dura mais”. Minha mãe também me ensinou que a gente lá em casa não era sócio da Light, a Eletropaulo dos anos 1960-70. Isso queria dizer que cômodos vazios não mereciam a dádiva da luz acesa ou da televisão e som ligados, porque a energia não chegava de graça em nossa casa. Hoje sei que isso se chama civilidade. Inteligência prática. Racionalidade. Também se chama respeito pelo outro: o que paga as contas, o que usa o banheiro depois de nós, o que lava e passa a nossa roupa. Minha mãe dizia: “Aqui em casa não tem uma fadinha que faz tudo usando uma vara de condão”, mesmo que, na maior parte das vezes, ela mesma encarnasse essa fadinha. É claro que ser de Virgem ajuda muito nesses casos, mas sou muito grata a minha mãe por ter me criado com essa consciência do valor de uso e da conservação dos objetos, da necessidade de desenvolver uma independência e competência para lidar com a realidade concreta. Ao fazer isso, ela me ensinou a atribuir um valor visível e outro, invisível, ao mundo cotidiano, à dimensão banal da realidade. E eu aprendi com ela que nada é banal, nem a calcinha suja misturada com outras roupas no cesto, nem o prato de boa comida jogado quase inteiro no lixo, porque a mãe não teve bom senso para prepará-lo de acordo com o apetite do filho pequeno.  Minha amiga Marina, que foi gerente de uma pousada em Salvador, me contava outro dia de como os hóspedes brasileiros iam à praia, deixando para trás o ar condicionado e a TV ligados e as luzes acesas. Quando ela sugeria que desligassem tudo ao sair do apartamento, eles respondiam: “Mas nós estamos pagando…”. Esse ar condicionado zumbindo ao Deus dará, essa calcinha suja misturada no meio das outras roupas do cesto (quando não jogada no chão do quarto ou do banheiro), essa boa comida desperdiçada não são objetos sem alma, muito menos causas sem consequência. São mensagens de um modo de viver esgotado e decadente, mas também sintomas da repressão, em nossa cultura, de um arquétipo muito bem personificado, como sempre, por uma divindade do panteão grego: Héstia, a deusa guardiã do lar, a senhora do fogo da lareira, filha de Cronos, o Pai Tempo e neta de Gaia, a Mãe Terra. Mas vou falar dela só amanhã, para não desperdiçar a paciência do leitor.