“Valente” ou mulheres que correm com os ursos

“Valente” (Brave) é a mais nova animação dos divinos moleques da Pixar. Só isso já bastaria, na minha modesta opinião,  para arrastar qualquer um até o cinema mais próximo. A menos que você tenha sido convencido pela crítica rasa e pretensiosa de que a Disney aguou a Pixar, o que é uma mentira das mais deslavadas. Bem ao contrário, foi a Pixar que deu sustança à Disney e ainda baixou drasticamente seus níveis de açúcar . Ou que você não tenha assistido, por motivos inconfessáveis,  “Procurando Nemo”, a trilogia “Toy Story”, “Wally”, “Enrolados”e assim ainda não foi fisgado pela magia. Ou ainda que você acredite que a Pixar faz filmes “para crianças”, conclusão que encerra duas bobagens fundamentais: (1) a de que você não é criança e (2) a de que existe essa besteira de “gênero infanto-juvenil”, como se as coisas lindas e boas feitas para crianças e adolescentes não pudessem ser fruídas por gente de todas as idades. Tudo bem, a menos que sejam artistas, os adultos são seres humanos que perderam a graça, a espontaneidade e a capacidade de imaginar, maravilhar-se e brincar. Portanto, as belas produções da cultura destinadas às crianças deveriam servir, no minimo, para aliviar  tanto”sabidismo” e confrontar as ingênuas reduções realistas dos adultos (pra mim, realista mesmo é Machado de Assis e ponto final).  Esclarecido o motivo que impediu você, até aqui (se é que impediu), de se esbaldar com a turma da Pixar e suas histórias, vamos falar delas: as histórias. Além de dominar as imagens digitais com maestria semelhante a de outras produtoras que fazem coisas parecidas, a Pixar, porém, não abre mão da qualidade da história que quer contar. Essa obsessão por uma história bem urdida, amarrada, redonda e fluente faz toda a diferença, já que é ela a rede de sentido que sustenta a parafernália dos efeitos especiais e os coloca a serviço daquele enredo que levamos conosco, ao final da experiência, e que continua, dentro de nós, a gerar imagens e reflexões, como este post bem pode confirmar. Como todo mundo sabe (generalização irônica), não existe  performance tecnológica capaz de salvar uma história ruim, empastelada e oportunista. E embora “Valente” seja visualmente lindo, caprichadíssimo, de encher os olhos, como tudo o que a Pixar faz, é a história, como sempre, que nos pega e nos carrega para as profundezas misteriosas da alma, individual e coletiva, a dimensão de nossa vida psíquica que se nutre de fantasia, seja essa fantasia um paraíso após a morte, a trama da novela das 9, o enredo de uma ópera ou o último livro de Amos Oz. Em “Valente”, a Pixar explora o território do feminino selvagem, tema de “Mulheres que correm com os lobos”, o best-seller da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés que muita gente comprou, mas pouca gente leu. Os roteiristas (primeiro uma mulher, depois um homem) beberam de diversas fontes míticas para construir a história, que se desenrola em algum lugar do passado, numa Bretanha celta e pagã.O arquétipo convidado, da Mãe-Filha, brilha através das imagens, dando o toque universal e profundo às estrepolias de Merida, uma garota de emaranhada cabeleira ruiva, indomável como sua personalidade. A rainha, mãe de Merida, é tão amorosa quanto convencional, completamente focada na missão de fazer da filha a princesa perfeita. O rei, por sua vez, é um grande sujeito, dividido entre o orgulho e a admiração que tem pela filha, uma hábil arqueira e cavaleira, e as pressões da vida política, que o forçam a usá-la em favor da união dos clãs, por meio de um casamento arranjado com um filho de chefe. O time de personagens masculinos de “Valente” é de primeira: os trigêmeos endemoninhados, irmãozinhos caçulas de Merida; os chefes dos clãs e seus filhos e pretendentes à mão da princesa, todos ótimos e engraçadíssimos; o impagável e dividido rei-perneta; o príncipe da história dentro a história, que a própria violência e arbitrariedade condenaram a viver na bestialidade, a sombra da natureza selvagem… Todavia é mesmo a mulherada que bota para quebrar na trama de “Valente”, em todos os escalões: a rainha, enquadrada demais, precisa de uma dose de sangue selvagem aplicada diretamente na veia, não apenas para compreender e valorizar a conduta da filha, mas também para integrar sua própria natureza instintiva e indomável; Merida, heróica demais, auto-referente demais, precisa, ao contrário, amadurecer e integrar o feminino civilizado que ela tanto despreza, com sua capacidade de mediar conflitos, negociar,  promover relações; a fabulosa bruxa carpinteira, que coloca Merida e a rainha Elinor na trilha da verdadeira aventura, é uma figura à parte, imprevisível, caduca, a perfeita mulher medial, a velha sábia e perigosa; até Maude, a empregada peituda e medrosa, tem seus momentos de roubar a cena. Atalanta, Ártemis, Vassilissa e outras tantas imagens míticas do feminino selvagem aparecem rebatidas sobre a figura de Merida, propondo um jogo de união de opostos que se desequilibram e compensam, na busca pela inteireza perdida ou ainda não conquistada. Ninguém sai incólume de “Valente”. De cara, a gente ganha um daqueles adoráveis curtas de animação que a Pixar faz como ninguém: “La Luna”, uma história de homens, tão linda e simples que quase eclipsa o longa que vem depois dela. Mas não chega a eclipsar. Só equilibra.

Anúncios

De matilhas a alcateias: dois anos lendo, juntas, “Mulheres que correm com os lobos”

Porta de lojinha em Lourmarin, na Provence

Talvez este devesse ter sido o derradeiro post de 2010. Agora será o primeiro de 2011. A agonia do ano velho costuma ser atropelada por uma ansiedade que inviabiliza os dias do mês de dezembro para as revisões, ao menos as que valem a pena. As que pedem quilômetros de caminhada sem rumo, horas de conversa fiada, noites bem sonhadas, páginas de livros preguiçosamente lidas, cenas de filmes assistidas e comentadas na companhia de gente de quem se gosta, uns tantos litros de caipirinha, eventuais rodadas de buraco, se possível um ou dois crepúsculos daqueles bem alaranjados… Revisões assim levam tempo para baixar, geralmente tempo de férias, palmilhado em sandálias havaianas, vivido na taba, gloriosamente desperdiçado. Uma combinação imprevista de trapalhadas de fim de ano com recordações de deuses e flores me livrou da tentação de escrever uma retrospectiva com padrão globo de qualidade. Hoje, na agonia das férias de verão, quero revisitar (e convidar outras pessoas a revisitarem) a estupenda experiência de ler em grupo, ao longo de dois anos, “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. Começamos em 2009, no ateliê Ocuili recém-nascido, com meia dúzia de mulheres inquietas, novidadeiras, porretas. Era a primeira de três matilhas, todas formadas por cachorrinhas bem adestradas, leitoras leais, sonhadoras sem medo, amigas velhas, novas e recém-descobertas. Almas nada básicas, todas vivendo limiares, trocando de pele, liberando filhos, tentando renovar votos, escrevendo teses, reinventando-se, encerrando histórias, estreando temporadas, desencavando dons… A gente não sabia no que ia dar, se ia pegar, se ia durar, como ia ser. Logo, porém, éramos três matilhas em marcha, nascidas para virar alcateias. Teve gente que caiu fora e a gente acha que foi de medo. Não somos falsas modestas. Dá muito medo mesmo chegar perto do coração da mulher selvagem. Não é para qualquer um. Só Vassilissas arretadas seguram essa onda. O primeiro grupo encerrou a leitura de “Mulheres” em dezembro e já começa 2011 comprometido com mais dois livros: “A ciranda das mulheres sábias”, da mesma Clarissa, nossa fêmea-alfa de plantão, seguido de “O código do ser”, de James Hillman, cuja leitura deve começar somente depois do carnaval. O segundo grupo segue na trilha da mulher-esqueleto, conto-tema deste blog e do capítulo 5 de “Mulheres”. O terceiro grupo, que era quinzenal, torna-se semanal em 2011, para poder caminhar mais depressa pela floresta lado a lado com Vassilissa, a heroína do capítulo 3. Nosso método é o do prazer. Nosso vínculo é o da amizade entre mulheres: ruidosa, bifurcada e bipolar, adubada com lágrimas e risadas, chá e biscoitinhos. Nosso ritmo é o do feminino: lento, circular, repetitivo, criador, com direito a ciclos de penumbra e umidade. Nosso tempo é dado: largamos tudo o que estamos fazendo e vamos desperdiçá-lo juntas, muito coerentemente, com certas coisas que o senso comum considera inúteis, mas que, para nós, são essenciais. Nossa rede de conexões é uma teia embaraçada com filmes, outros livros, baralhos de tarô, sonhos, viagens, amplificações em todas as direções, imagens e mais imagens. E prosseguimos, contra todos os vaticínios pragmáticos. Noite adentro, floresta adentro, alma adentro, despertando nossa intuição soterrada e aprendendo a devorar casinhas de chocolate, para fazer amizade com as bruxas que moram nelas. Como diz a Clarissa: jovens enquanto velhas, velhas enquanto jovens. Evoé, garotas!  Para cima com a viga em 2011!