Ode à vitamina S

Gosto muito de deixar minha imaginação pendular entre os opostos de que este mundo e nós mesmos somos feitos. Opostos que se encaixam e calibram mutuamente, que se estranham e se apaixonam, que antagonizam e colaboram em parceria, que podem até se destruir mutuamente, mas que não sobreviverão um sem o outro. Yang e Yin, côncavo e convexo, luz e trevas, bem e mal, essas coisas, enfim, de que os barrocos baianos e os metafísicos ingleses souberam falar como ninguém. Paradoxos. Oxímoros. O Feminino e o Masculino, por exemplo. Um quer o presente, o corpo em relação com o mundo, a experiência, a encarnação. O outro quer o projeto, o controle e a abstração espiritual e racional que sustentam as fantasias lógicas de um futuro. Só nascemos porque mamãe e papai entraram no jogo dos contrastes, os opostos de uniram e… bem vindo ao jogo você também! Refletindo sobre as pessoas que passam tempo demais a excluir uma polaridade para a afirmar a outra, me veio um insight: de todos os vícios que a gente inventou para dar conta dos perrengues de viver, o pior é o vício da perfeição. Primeiro porque ele quer negar o jogo. Segundo porque todos os outros vícios derivam dele, ou do desejo doentio que o instaura. Um mundo sem dor nem sofrimento, sem mal e pecado, sem ansiedade ou solidão, sem germes nem bactérias, sem preconceito ou pós-conceito, sem acne, celulite e peitos caídos, sem fracassos nem perdas, sem corruptos e bandidos espelha a expectativa irreal e paralisante de uma multidão de seres humanos que, incapazes de jogar com os contrastes, usam qualquer aditivo à mão para afirmar um polo e negar o outro. Tabaco, fármacos, religiões fundamentalistas, ideologias sectárias, treino físico compulsivo-obsessivo, birita, junkie food, ortorexia, drogas legais e ilegais, redes sociais e outras porcarias naturais e sintéticas pretendem – e por mais ou menos tempo, até conseguem – aliviar a aflitiva sensação de que somos filhos vulneráveis dessa mãe louca que nos joga de um lado para outro, chamada Vida. Corta.

No mundo de onde eu venho, a vitamina S era muito usada para melhorar a resposta imunológica das crianças aos invasores naturais, tão indesejáveis quanto inevitáveis. Quer dizer: não que muita gente soubesse disso objetivamente, mas havia uma forte intuição da necessidade dessa interação, até porque a tecnologia médica não era esse deus supremo que é hoje em dia. S é de “sujeira”, para quem desconhece o termo científico. Nossos pais não tinham noção do bem que estavam fazendo, quando se recusavam a desinfetar obsessivamente nossos brinquedos ou quando nos deixavam brincar com nosso grande mestre, o mundo, sem grandes frescuras. Já adulta, um conhecido meu, infectologista, me contou que as lombrigas que tive na infância foram grandes aliadas da minha resistência a gripes e resfriados. Segundo ele, elas ensinaram meu corpo a lidar com agentes patogênicos bem mais punks, como bactérias e vírus. Agradeço sempre às lombrigas que ajudaram a fazer de mim quem eu sou. Ah! O mundo real! Que grande companheiro ele pode ser, quando a gente não tenta inutilmente esterilizá-lo com litros de álcool gel e antibióticos perigosamente desnecessários! A terra e a areia, os pelos dos gatos e cachorros, o ranho e a baba dos amiguinhos com quem trocamos peças de Lego, os biscoitos com meleca e os crocantes tatus-bola que degustamos, num piscar daqueles olhos vigilantes, todas as porcarias invisíveis do chão aonde precisamos engatinhar livremente, a fim de virarmos bípedes competentes! Que beleza é a sujeira, quando ela intervém para moderar a limpeza descompensada! Metafórica e literalmente, a vitamina S (de Sombra, adoro isso) é a melhor imunização contra o vício da perfeição. Ela é uma dádiva, não do conhecimento científico, mas do bom senso, que anda muito em falta ultimamente, malgrado o excesso de informação que nos intoxica com múltiplas paranóias. A vitamina S é uma dádiva do Feminino profundo e escuro, essa dimensão úmida, viscosa da vida a qual atua em nossa psique para que encarnemos mais e melhor, a grande alquimista que trabalha para transformar conhecimento em experiência. Dá pra imaginar que o vício da perfeição anda higienizando os contos de fadas? Histórias sem vitamina S, sem megeras, órfãos, anões e gigantes, desgraceiras e lobo mau… e as crianças, coitadas, vão sendo impedidas de construir defesas simbólicas contra predadores concretos e crises reais.

Uma combinação equilibrada de liberdade e controle resulta na criação sensata e prazerosa de indivíduos mais resistentes, física e psicologicamente: os tais sujeitos resilientes. É a união dos opostos que traz integridade, a qual, por sinal, não tem nada a ver com a perfeição, nada mesmo. No caso da criação dos filhos, tem de ter principio feminino e princípio masculino dinamizando o tempo todo na relação, exercendo forças polares e cooperativas, afirmando parâmetros opostos, sendo cada qual respeitado e acolhido em seu papel e função de ajudar as crianças e os adolescentes a ancorar neste mundo velho sem porteira. Educação de filho é parceria de energias antagônicas. A exclusão de um dos lados desse jogo mutila nossa alma, fragiliza nosso corpo e nos torna prisioneiros de idealizações que nos impedem de viver de verdade. Assim estou aqui hoje para defender as lombrigas e os ogros que nos ensinam a jogar. Vou aproveitar para pedir às mães e aos pais que tentem, mas não com tanta força, como diziam ao Marvin, personagem do Jerry Lewis em “O bagunceiro arrumadinho”: um cara que, de tão ansioso por organizar, convocava inconscientemente um caos proporcional (e calibrador) ao seu desejo excessivo pela ordem. Tudo é compensação, no mistério cósmico-bioquímico-psicológico que é nossa vida na Terra. “Nada em excesso”, ensina o sábio oráculo de Delfos. Nem limpeza, nem água, nem amor. Nem mesmo a bondade, que tem se manifestado, em nossa cultura, como a hipocrisia fashion da correção política, a mera aparência de bondade para exibir aos outros. Este mundo em que seus filhos terão o privilégio de crescer, se vocês permitirem, é lindo e perigoso, politicamente incorretíssimo, cheio de ameaças e oportunidades, de megeras e fadas, de vitórias e derrotas, de picos e vales. Quanto mais vocês aprenderem a transitar entre as polaridades e ensinarem a eles o jogo dos contrastes, melhor eles se sairão como pessoas inteiras e reais. Isso se vocês não quiserem que eles se juntem à horda de pseudo-pessoas, esses estereótipos mal encarnados que andam sonambulando por aí, afligidos pela sinistra doença que os obriga a sacrificar quem eles verdadeiramente são no altar daquilo que eles que nunca serão. Defendam-se e aos seus filhos do sinistro devorador de almas que é o vício da perfeição. O resto se ajeita. Sério.

P.S. – Recentemente ouvi uma notícia auspiciosa: que o FDA proibiu, nos EUA, a venda do sabonete antibactericia Protex, alegando que seu uso indiscriminado está relacionado com o aumento da resistência de agente patogênicos. Vitamina S nele!

Ler e escrever e cozinhar, tudo ao mesmo tempo

bolo de laranja

Carta que enviei para a Nina Horta, colunista da Folha de São Paulo, e que ela generosamente publicou no blog dela, link ao lado:

Prezada Nina,

Li, como faço sempre, sua coluna adorável do dia 15 de janeiro. Não compro a Folha e não tenho muito saco de ler jornal na tela, aliás não tenho muito saco para ler jornal ponto. Mas meu pai me repassa o caderno Comida, enfiado numa cesta, ao lado do bolo de laranja quentinho que a empregada dele, a Tania, faz toda semana para nós, aqui de casa. Andamos meio enjoados de comer o mesmo bolo semana após semana (meu pai é um cara obsessivo), mas se trata de uma oferenda, então a gente não olha os dentes do bolo e o reparte com todo mundo da rua: os guardinhas, os vizinhos, os agregados, os varredores, o povo que passa na porta, vendendo alho e sacos de lixo etc. Já a sua coluna providencia a diversidade no interior da cesta. Se o bolo é sempre o mesmo, sua coluna traz a diferença, embora se repita nos quesitos lindinha, um primor de bem escrita e arrematada. Contudo, desta vez achei por bem fazer um reparo ao que você diz, questão de sintonia fina entre o que pensamos sobre essa coisa medonha que é ir à escola por anos a fio e não aprender a ler, escrever e contar. Contar eu até conto, mas meu negócio sempre foi ensinar a ler e a escrever. Sou professora de Português, do tipo que chamam “especialista” (como se a língua não fosse a generalidade das generalidades), só que dos mais taludos, do Fundamental 2 até a faculdade. Em 25 anos de magistério, minha grande preocupação era a sua: ensinar a ler e a entender o que se lê. Não é tarefa simples. As famílias pouco ajudam e a sociedade brasileira muito menos. Ultimamente todo mundo acha que educar é preparar para o vestibular. Ou que educar é fabricar porcas, parafusos e arruelas para a grande engrenagem da produção e do consumo. Claro que tem tudo isso também, vestibular, mercado, isso faz parte, mas não é a parte mais importante. O Kant dizia que é a educação que nos torna humanos, coisa que não nascemos sendo. Largue o bebê no meio das vacas e, se sobreviver, ele será um bezerro esquisito, não um ser humano. É a cultura humana que modela nossa humanidade, assim como a cultura bovina modela os touros e as vacas. Agora vou direto ao meu ponto: o problema não é a horta, não mesmo, pode acreditar em mim. Às vezes, a horta é a solução, porque pode tornar o aprendizado da leitura e da escrita menos abstrato e mais interessante. Pense comigo: ler e escrever manuais de horticultura; fazer listas de legumes e verduras; calcular a produtividade; brincar de feira, de comprar e vender as coisas plantadas e colhidas; fazer um diário da horta; bolar, escrever e ler receitas em que se usam os ingredientes produzidos pela horta… O professor tem de saber fazer essa mediação, claro, o papel dele é botar as coisas em relação e, se ele não faz, bem, não é professor, sinto muito. Pense em quanta coisa têm em comum a horta e o aprendizado da leitura, da escrita e das contas! O problema é sempre a exclusão: ou isto, ou aquilo. Ou horta ou bunda na carteira por horas a fio, garatujando sinaizinhos que não têm a menor relação com o mundo concreto. Depois vem esse discurso politicamente correto e pentelho de “cuidar do planeta”, ah, me poupem! Mas se os caras nem sabem qual é a cor e que cheiro afinal a terra tem? Eu diria que hortas e jardins e pomares e cozinhas são preciosos colaboradores no processo da educação formal, são coadjuvantes inestimáveis das disciplinas desconjuntadas porque as reúnem num contexto de sentido, de realidade, e ensinam para que serve, de verdade, escrever e ler e contar. Hortas, jardins, cozinhas são representantes do tal mundo real, esse grande desconhecido, cujo acesso e compreensão devem ser mediados, facilitados e aprofundados pelas letras, os números, os símbolos coletivos que temos de aprender direito na escola… e em casa também, porque essa leseira a que você se refere, essa falta de gosto pelas coisas, de gente que não sabe, não faz questão de aprender e acha que tudo tem de chegar pronto e mastigado ou nada feito, essa falta de gosto generalizada vem de casa, da família que não conta histórias, não canta para dormir, não ensina a brincar, não ensina a cozinhar e a arrumar o próprio quarto, não valoriza a cultura material e imaterial que modela a alma das crianças (e a dos adultos também)… Outra coisa é que isso também não tem nada a ver com pobreza ou riqueza: a ausência de desejo, de encantamento com o mundo e suas maravilhas, de tesão por aprender, por se envolver com um trabalho legal é uma epidemia medonha, uma peste que grassa em todas as camadas sociais. O mundo está se transformando numa miniatura chapada, fria e inodora, projetada em telinhas cada vez menores. Minha deusa, por favor, hortas em todas as escolas, públicas e privadas, nas periferias e nos bairros chiques! E bibliotecas e museuzinhos da Emília nas salas de aula! E jardins também, porque somos seres carentes de beleza, porque a beleza nos abre para aprender as coisas em profundidade e para sempre! E muitas cozinhas também, com lições de casa caprichosamente escritas em letra cursiva, em lindos cadernos de receitas, por favor! As letras e os números estão aqui para servir à vida e não o contrário.

Beijos, querida.

Eliana Atihé

Da inutilidade da escola

Prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Riscos do alcoolismo e tabagismo. Perigos da drogadição. Respeito às diversidades. Sexualidade. Princípios básicos de higiene e nutrição. Iniciação à educação financeira.  Práticas ecológicas cotidianas. Direitos e deveres civis. Técnicas de expressão. Boas maneiras. Comunicação. Compromisso social (na prática, voluntariado). Educação no trânsito. Trabalhos manuais. Toda essa dimensão da cultura voltada para a existência e a co-existência está inapelavelmente exilada da escola. A escola não tem nada a ver com ela. Civilizar, no sentido de tornar humano, é obrigação da família. E como a família, por sua vez, cada vez mais delega essa função para a escola, resta aos garotos boiar no limbo que se estende entre os dois jogadores desse perigoso ping-pong.  Eles sabem logarítmos, mas não reciclam lixo. Conhecem de cor a tabela periódica dos elementos, mas não são capazes de preparar uma refeição simples e nutritiva. Desfiam datas e nomes de pessoas e movimentos em profusão mas, na balada, bebem até passar mal ou entrar em coma. Não são capazes de arrumar o próprio quarto, embora falem, no mínimo, duas línguas estrangeiras. Sabem manejar todo tipo de engenhoca tecnológica, mas não usam camisinha quando transam (e o fazem cada vez mais cedo, por motivos cada vez mais banais). Papagueiam discursos politicamente corretos, mas não se constrangem de agir como feitores com a empregada doméstica. São os deformados bem informados, os gênios de cercadinho, os precoces retardados, os bebês gigantes. São os dissociados, que sabem um monte de coisas, mas não sabem viver. Vêm de famílias “estruturadas”, que os perdem de mimos e se recusam a lhes servir de continentes, até porque educar dá muito trabalho mesmo. Frequentam “boas” escolas, que os entopem com conteúdos que, mais dia, menos dia, serão regurgitados no ENEM e no vestibular. O conhecimento que aprendem na escola serve para a escola. Não se aplica a nenhum outro lugar ou situação, a não ser àquele território exíguo que os muros da escola demarcam (e falo da escola privada, claro, essa perversa redoma). Fora da escola, as coisas que a escola ensina viram fumaça, revelando sua completa inutilidade, sua total dissociação da vida cotidiana. Sobre as questões da vida cotidiana, secundárias, convenhamos, a escola lava as mãos. Vida não é com ela. Só vestibular. E olhe lá. Se a familia jogou a toalha, ela é que não vai recolher. Aulas de sociologia e filosofia cuidam de aplicar algumas demãos de verniz sobre a grossa alvenaria desse pragmatismo. Aulas de educação física, onde ainda havia alguma chance para o corpo calibrar a mente,  ou o ateliê de artes, onde os sentidos ainda faziam sentido, vão sendo substituídos por mais aulas de laboratório. A sociedade espera que a escola seja inútil. Quanto menos consciência ela ativar, tanto melhor para a economia. E como o freguês sempre tem razão, esses burraldos brilhantes seguirão engrossando as estatísticas: de contaminação por DSTs, de obesidade e doenças coronarianas, de dependência de drogas e álcool, de gravidez adolescente, de distúrbios alimentares, de inadimplência, de acidentes automobilísticos fatais previsíveis e evitáveis… Sabem tudo… mas não sabem nada. Muitos deles, porém, conseguirão passar no vestibular. A escola, afinal, fez sua parte.

Uma entrevista: para que serve contar histórias às crianças

Íntegra da entrevista concedida em 27  de outubro a Michelle Barreto, para uma newsletter da Fundação Social Itaú

Quais são os benefícios da contação de histórias para a vida das crianças?

O maior benefício de todos é uma alma “bem feita”, o que envolve autoconhecimento,  emoções bem cultivadas e uma imaginação rica, capaz de interferir na realidade para transformá-la de um jeito criativo. Outra coisa é a percepção de que a abordagem objetiva e lógica não dá conta da realidade. Há uma dimensão do real que só pode ser apreendida e vivenciada por meio da linguagem simbólica: as narrativas de fantasia, as imagens, as metáforas, a arte e sua diversidade, as tradições da cultura, a literatura, as religiões (não as instituições religiosas, mas nossa experiência espiritual genuína e profunda), o cinema…  

– Em que áreas do conhecimento as contações de histórias podem impactar positivamente no aprendizado de crianças?

Em todas. O repertório cultural que as histórias oferecem às crianças fornece um fundamento significativo para toda a educação formal que elas irão receber. E para todo o resto também. As histórias servem de base para a construção de uma visão ética e estética do mundo, ou seja, do que é bom e do que é belo, sem a intervenção de moralismos e modismos. Ouvir histórias desde muito cedo ajuda a criança a entrar em contato com a beleza das palavras, dos sons, dos sentidos… Afinal letras e números também são símbolos, imagens que estão no lugar de coisas concretas, de emoções, de eventos e que os representam para nós. Entrar no universo do conhecimento sistematizado tendo as histórias como guias é começar com o pé direito, percebendo que a língua e a matemática não se esgotam na gramática e nas equações. Elas também têm uma dimensão encantadora e misteriosa, que torna o aprendizado formal uma aventura prazerosa e não uma chatice tediosa.

– As contações de histórias podem impactar nas relações familiares? Isto é, favorecer o estreitamento dos laços familiares entre pais e filhos? Como esta relação acontece?

Pais que não encontram um momento no seu dia para contar histórias para seus filhos estão se privando e privando aqueles a quem mais amam de uma experiência afetiva e educativa sem igual, com aquilo que a cultura produziu de melhor: a narrativa e a família. A herança das histórias precisa ser transmitida, em primeiro lugar, de pais para filhos. Ela fala de nossa ancestralidade, de nossa herança antropológica profunda e comum, dos laços que nos unem ao passado e ao futuro. As histórias que contamos aos nossos filhos vêm carregadas com o calor da nossa história pessoal, da nossa voz, do nosso amor… Não existe NADA mais importante do que isso na educação de uma criança.  

– Os pais estão mais abertos para sentar com os filhos e realizar as contações ou eles ainda encaram a contação como algo supérfluo e se prendem na falta de tempo para não contar histórias?

Em cafés e restaurantes, tenho visto pais dando aos filhos pequenos seus Blackberries e I-Pads para não ter de entretê-los com uma história, um desenho, um joguinho simples e concreto compartilhado (palitinho, da velha, forca…). Ficam todos lá, sentados juntos na mesa, mas completamente desconectados uns dos outros, cada qual olhando para a sua telinha. Isso é muito triste. Nos preocupamos tanto em dar boas escolas, em formar nossos filhos para o vestibular, mas nos esquecemos do mais importante: antes do intelecto, vêm as emoções e a imaginação. É uma simples questão de ordem cronológica. Um intelecto poderoso pode facilmente ser sabotado por emoções descontroladas e drenado por uma imaginação pobre ou infantilizada. Há um ditado africano que diz: “É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Educar de verdade dá muitíssimo trabalho, consome tempo (e não apenas dinheiro), implica envolvimento genuíno com o outro. A contação de histórias é um bom exemplo disso.

– Você tem conhecimento de alguma pesquisa que indique a relação entre o fato da família contar histórias diariamente para os pequenos com o interesse pela leitura desta criança na vida adulta?

As pesquisas são inúmeras e quem só se convence com estatísticas pode rastreá-las em bibliotecas digitais de universidades espalhadas por todo o mundo. Mas um olhar mais sensível não precisará delas para se lembrar da própria infância, tenha ela sido encantada pela presença das histórias ou desencantada pela ausência delas. A narrativa é nossa segunda natureza. Nosso cérebro é um processador de histórias, do “case” ao B.O., do contrato à reportagem, do relatório à ata, da novela ao “vídeo-game”… A narrativa dá sentido a nossa existência. Graças a ela, o ser humano sobreviveu, mesmo sendo fraco, sem garras, sem pelo, sem caninos enormes. E construiu a cultura em meio a um ambiente hostil. A narrativa deu sentido à técnica. Ela ainda oferece (mas não sei até quando) significado à civilização tecnológica, para que a gente não regrida à barbárie digital. Se isso não é argumento suficiente para um pai e uma mãe contarem histórias aos filhos, então sinceramente não sei se as pesquisas serão.

 – Quando a leitura não é estimulada em casa porque os pais que não tiveram oportunidade de ter contato com a literatura e, por isso, não se interessam pela leitura. O que fazer? Existe alguma sugestão para este adulto fazer com que o filho seja um bom leitor?

Há duas palavras que ajudam a gente a entender o que fazer neste caso: reparação e superação. Quando algum conhecimento nos faz falta na vida profissional, corremos atrás dele, superamos essa “ignorância” e reparamos um vácuo de nosso repertório. Agimos assim porque sabemos que há uma melhoria objetiva envolvida na aceitação desse desafio. Isso vale 100% para nossa vida em família e nossa vida interior. Se meus pais não me ensinaram boas maneiras quando eu era pequeno, eu trato de aprendê-las sozinho, ou vou ter problemas em minhas relações. Se não tive exemplos de leitura em casa, nem fui formado leitor pela escola, vou atrás de superar esse déficit, ainda que seja em nome da formação dos meus filhos. E aí acabo reparando uma carência de minha própria vida. Em matéria de estímulo à leitura, vale a mesma máxima da educação: ao invés de dar “sermão”, dê exemplo. 

– O que fazer quando as crianças não se interessam pela leitura? Como estimulá-la e tornar a leitura um hábito?

Leia diante dela, para ela, com ela. Consagre um horário para a leitura compartilhada. Ouça-a ler as coisas de que gosta. Peça a ela para lhe contar histórias que ouviu na escola. Estimule-a a transformar os pequenos eventos do dia-a-dia em histórias (os “causos”): na mesa, no carro, na sala de espera… Leia junto com ela o livrinho que ela retirou na biblioteca da escola. Leve-a para ouvir contadores de histórias, para assistir peças de teatro infantil, para conhecer bibliotecas, para ver exposições de arte com temas e artistas interessantes para ela… Converse com ela sobre os filmes e desenhos que ela assiste, os personagens dos vídeo-games que ela joga, os enredos dos livros que ela lê e dos programas de TV a que ela acompanha. Como você vê, tudo isso implica convívio, tempo compartilhado, exemplo, diálogo, interatividade, investimento afetivo. Isso é educar uma criança. De verdade.

– Qual é a importância da contação de histórias para a vida adulta de crianças?

Crianças que ouvem muitas histórias (no contexto interativo de que venho falando) certamente serão adultos mais abertos, curiosos, criativos, tolerantes, cultos e livres. O etologista francês Boris Cirulnik também garante que o contato mediado com as histórias nos provê de uma qualidade importantíssima: a resiliência, ou seja, a capacidade de superarmos e repararmos os traumas inevitáveis que a vida nos impõe. Para ele, a narrativa de fantasia nos ajuda a construir um “refúgio” dentro de nós mesmos, para onde escapamos quando a realidade se torna intolerável. Isso é mais ou menos o que fazemos quando nos entregamos à leitura de um romance bem rocambolesco, em meio a uma crise na empresa ou no casamento. Isso se chama “evasão criativa” e é fruto de uma personalidade resiliente.

– É possível relacionar algumas características das crianças que lêem mais das que crianças que não têm acesso à leitura?

Um aspecto visível é o repertório: são crianças que se comunicam melhor, têm vocabulário maior, estruturam melhor seu texto, seja ele oral ou escrito, desenvolvem o gosto estético para além da oferta paupérrima da TV todo-poderosa etc. De um ponto de vista mais profundo, são crianças mais imaginativas, que aceitam melhor as diferenças, que têm mais senso crítico, que lidam melhor com o lado negativo da vida, mesmo porque as boas histórias nunca excluem os aspectos sombrios da experiência, como o abandono, a dor, a raiva, a perda… São crianças mais centradas, menos propensas à hiperatividade e mais aptas a se auto-entreterem, mais capazes de tolerar imprevistos e contrariedades, com uma vida interior mais rica e organizada. O hábito prazeroso de ler é, nesse sentido, estratégico para a vida.

– Segundo um estudo da ONG Proeco (Projeto Educacional de Conscientização e Orientação), as crianças que mais emprestam livros da biblioteca são as mesmas que passaram mais tempo nas oficinas de contação de histórias. Pela sua experiência é possível dizer que as contações de história contribuem para que as crianças se tornem freqüentadores de bibliotecas?

Sim, claro. Essa relação ocorre, principalmente quando se trata de famílias com menos recursos, mas que prezam a educação de seus filhos. Como essas crianças não podem comprar todos os livros que querem ler, tornam-se sócios das bibliotecas públicas ou frequentadores das escolares (quando elas existem). Quanto às crianças de famílias com mais recursos, isso depende de quanto as bibliotecas são realmente franqueadas às crianças. A biblioteca da escola está disponível e é acolhedora? Os professores mantêm uma interação com os bibliotecários, de modo a realizar atividades em parceria? Os pais levam seus filhos a bibliotecas públicas, ainda que seja apenas para ouvir/assistir contações? A família dá valor aos livros? Frequenta junta livrarias? Visitas a bibliotecas importantes e a boas livrarias fazem parte da programação das viagens em família?

– Segundo uma pesquisa da Universidade de Nevada ter livros em casa é crucial para o aumento do grau de escolaridade dos filhos – e é mais importante do que o nível educacional dos pais. Durante 20 anos, os pesquisadores analisaram hábitos de pais e crianças, assim como seus currículos, e chegaram à conclusão que as crianças que tiveram livros em casa avançaram pelo menos 3 anos no grau de escolaridade em comparação ao dos pais. Você acha que leitura pode impactar no grau de escolaridade conforme aponta a pesquisa da Universidade de Nevada? Por quê?

O impacto da narrativa na vida de uma criança não é de ordem quantitativa, mas qualitativa, o que quer dizer que a dimensão quantitativa será, a seu tempo, naturalmente contemplada. Esses números todos podem até impressionar os mais incautos, mas quem, desde criança, teve a personalidade verdadeiramente impactada pelas histórias sabe que essa pesquisa revela uma parte muito pequena da realidade. “Ter” livros em casa não significa ler livros, muito menos que livros são lidos pelos pais aos filhos. Sim, a leitura oferece um suporte considerável à educação escolar, mas nem sempre as coisas estão envolvidas numa relação simplista de causa e efeito. A “contação” de histórias envolve muito mais: envolve relação, cultivo da alma, transmissão de uma herança cultural que transcende, em muito, a produtividade na escola, essa obsessão das famílias contemporâneas.

 – Qual é a importância de ações como a do programa Itaú Criança da Fundação Itaú Social, que este ano distribuirá mais de 8 milhões de livros com intuito de estimular a leitura de crianças com até 6 anos de idade?  

É uma coisa maravilhosa, uma ação cujo impacto na sociedade brasileira será muito mais profundo, amplo e duradouro do que se pode prospectar objetivamente. Essa idade é chave. Tudo o que virá depois será acréscimo, construído sobre o fundamento dos primeiros anos da infância, que pode ser sólido ou frágil. O mais bonito é que essa é a idade da consciência mágica, em que fazer de conta é a coisa mais importante que uma criança pode fazer na vida. Daí depreende-se que a inteligência racional se constrói sobre uma base simbólica. A brincadeira e a contação de histórias são as atividades por excelência desse período da vida. O resto é perfumaria. O kit de livros é, nesse sentido, um presente às crianças, mas também ao futuro de um país que tem urgência de cidadãos mais educados (num sentido amplo), consistentes, criativos e éticos, capazes de pensar num projeto coletivo, num destino comum. Esse Brasil que nunca chega precisa ser primeiro construído na imaginação de seus cidadãos, para então baixar à dimensão material. Se a gente retoma a máxima de Monteiro Lobato de que “um país se faz com homens e livros”, então essa é uma iniciativa voltada a “fazer a alma” do Brasil, no sentido de recuperar e reparar essa alma que, apesar de vasta, bela e rica, anda abandonada e esgarçada.   

– Iniciativas como esta da Fundação Itaú Social podem contribuir para a formação de novos leitores? De que maneira?

Bom, a próxima etapa cabe exclusivamente aos adultos que receberem o kit. Como você diz, trata-se de uma “iniciativa”, ou seja, a Fundação Itaú Social puxa o primeiro fio da história e as pessoas tecem o restante do enredo. Os destinatários são as crianças. Os adultos são apenas os mediadores. Cansei de ver materiais maravilhosos estocados nas escolas ou guardados nas instituições “porque as crianças sujam e estragam”. Que tal a gente ensiná-las a se relacionarem com esses objetos de grande valor? Isso é parte da educação que elas precisam receber de nós. Se os adultos assumirem de fato o papel de narradores-transmissores da herança contida nas histórias que esses livros carregam, então a iniciativa será um sucesso retumbante. Muitas crianças serão enredadas nas teias encantadas da leitura e nunca mais se perderão dela. E essa história terá um final feliz, ou melhor ainda, não acabará nunca.