Janaína ou a Consciência Lunar

Iemanjá

Até os mais empedernidos e binários racionalistas reconhecem, ainda que pelo viés do escárnio, que Janaína Paschoal está carregada de energia transpessoal. Eles acertam sem querer, digo, os “inteligentinhos” (salve, Pondé!) , quando dizem que, em sua defesa apaixonada do pedido de impeachment que protocolou em parceria com dois venerandos juristas, Janaína evoca uma mãe-de-santo ou uma pastora evangélica em transe. Mãe-de-santo e pastora, no caso dos memes de Janaína que se tornaram virais na Internet, são termos pejorativos, claro. Os detratores da moça, contudo, não são acusados de preconceito religioso ou coisa parecida pelos militantes da boa consciência. Está tudo bem, já que se trata de um julgamento de valor emitido por aquela ala que pode, impunemente, “xingar” pessoas de mão-de-santo e pastora. Afinal seus representantes são sempre os mocinhos de uma história de versão única, repetida à náusea na tentativa de produzir verdade pela redundância.

Maat

Num nível mais profundo do que o da casca das ideologias, porém, Janaína revela certos atributos arquetípicos que a tornam imprescindível como força de equilibração de um imaginário descompensado, manifestando assim uma energia que Bachof e Jung chamaram de “consciência lunar”. Começa que Janaína assume, sem constrangimento algum, tanto sua emotividade quanto seu fascínio pelo mistério. As feministas a agridem porque ela é feminina e não tem vergonha disso, mas principalmente porque ela se opõe sem temor ao zeitgeist que divide o mundo em dois exércitos inimigos. Em suma, elas preferem defender e praticar o modo de pensar patriarcal. Essa mulherada inadvertidamente a serviço do patriarcado ainda não percebeu que é Janaína, não a presidenta, um símbolo do genuíno feminismo, nestes dias turbulentos que vivemos. É natural que isso ocorra, quando se está congelado em dualismos inultrapassáveis, conquanto também seja uma pena, um equívoco a se lamentar, porque o pensamento unilateral endurece o coração para as variações de ritmo e cega o olhar para as nuances de cor. Aliás já faz tempo que muitas mulheres não reconhecem o feminino quando o veem. Ou talvez seja assim mesmo que tenha de ser. Janaína carrega uma qualidade de loucura sagrada que emana do mesmo arquétipo que, noutro contexto, com carga mais poderosa e consequências mais trágicas, pôs em movimento a formidável Joana D’Arc. Como Joana antes dela, Janaína se predispõe a ser caluniada, enxovalhada, julgada bruxa em defesa de um ideal, podendo mesmo, em nome dele, ser calcinada na fogueira de uma militância puritana e hipócrita. Como se deu com Joana, o valor de Janaína há de ser reconhecido mais adiante, pela revisão de uma Historiografia não aparelhada e aberta à complexidade das forças que nos vivem, coisa rara, mas não impossível de acontecer.

joana darc

Interessante que Janaína é o outro nome de Iemanjá, a senhora das águas da mitologia iorubá. Essa ressonância mítica pode ajudar a esclarecer, num nível mais analógico que lógico, mais imaginativo que racional, porque uma xará de tal orixá não se envergonha de exibir emoções e sentimentos em público, até mesmo derramando, em entrevistas, lágrimas que não parecem ser de crocodilo, sem se preocupar com os/as chauvinistas que a qualificam de histérica. Sim, Janaína tem útero, se é isso que eles e elas querem dizer, coisa que, para Freud, era um defeito de fábrica sem direito a recall. Tem útero, cabelos negros longos e desalinhados e um estilo personalíssimo, que pode incomodar mais pela autenticidade do que pela obediência à moda. Sim, ela chora pela mulher que quer “impichar”, com quem travou contato em dias melhores e de quem teve, àquela época, a melhor das primeiras impressões.

sekhmet

Refletindo mitologicamente, Janaína e sua demanda também me remetem a duas deusas do panteão egípcio: Maat e Seckmet. A primeira é a deusa da Justiça, mas de uma justiça vinculada ao Direito Materno, à Lei do Coração. A segunda, representada com corpo de mulher e cabeça de leoa, encarna a justa indignação e preside a guerra que defende o país contra invasores externos. Quando mobilizada, Janaína arranja e rearranja a cabeleira, o que me faz lembrar de Sekhmet. Quando prende a juba com um grampo, ela me faz lembrar Maat, que usa uma pena de avestruz espetada no cabelo negro e liso. Essa pena não é um enfeite inócuo, mas o símbolo dessa deusa, e serve de contrapeso para a balança em que é disposto o coração do morto, no julgamento derradeiro. Ademais, Janaína também me remete a grega Palas Atena, filha de Zeus (os “pais” e mestres que dividem com ela a demanda), padroeira da polis e de seu cuidado, a política, deusa que cuida para que os crimes sejam julgados e punidos e os miasmas que envenenam a alma coletiva, dissolvidos. Desse modo, Palas Atena protege a democracia ateniense, assim como Janaína se dispõe a defender a democracia brasileira. Sim, os detratores de Janaína temem sua autenticidade, seu destemor e por isso a desdenham. Mais que tudo, porém, intuem inconscientemente a numinosidade que envolve sua causa e transita por sua pessoa. O alinhamento pessoal de Janaína com uma verdade mais profunda ameaça a superficialidade do senso comum que a reduz a fascista, traidora e golpista. Como os gauleses de Asterix, Janaína, porém, é irredutível a estereótipos. No momento, ela está sendo cavalgada por arquétipos e embora talvez não saiba disso, quero crer que ela tem integridade suficiente para aguentar o tranco.

palas atena

Um vilão para chamar de seu

“Quando estou com você / quero ser o tipo de herói / que desejava ser / aos 7 anos de idade / um homem perfeito / que mata.” (Leonard Cohen)

darth-vader

Ele é prático, conveniente, super-aderente, impermeável e fácil, muito fácil de sujar. Na verdade, ele já vem imundo, o que facilita a sua vida. Que sujeito mais útil e funcional! Quanta generosidade perversa! Que serviço inestimável ele presta ao nosso herói favorito, o ego! Todo ego, aliás, tem sua trupe particular de vilões, qual uma companhia mambembe de teatro. Sem vilão, não tem enredo nem catarse, o público não se envolve, impedido que é de se identificar com o mocinho. Nada como um vilão para fazer contraste com aquelas personagens que adoramos ostentar, o santo, o politicamente correto, o idealista que não cresceu, a jovem encruada etc. Acoitado num desvão do nosso bom-mocismo, o vilão é mantido e remunerado por algum recôndito caixa 2 do ego a quem faz falta um bom espelho. Para não ter de lidar com a própria porcaria, tenha sempre um vilão à mão. Receptivo, reflexivo, acolhedor de toda a sujeirada que você não tem a menor intenção de reconhecer como sua e com a qual não tem a mínima vontade de interagir, um vilão pode ser uma tela complacente e leniente, um aterro sanitário na frente do qual sempre se pode estender um lindo cenário pastoril, uma paisagem marinha, até um afresco da Capela Sistina. Sobre o vilão, o herói projeta, sem maior esforço, aqueles pecados inconfessáveis que corroem seu eterno coração de estudante, atributos e incidentes de percurso que não ornam de jeito nenhum com perfis do FB. Lembra do Dorian Gray? Então. O vilão dele é aquele retrato escondido no sótão, que envelhece, se acanalha e apodrece no lugar do modelo (ele mesmo). Fora do sótão, que Dorian mantém trancado, e para a torcida, ele continua a ser o moço lindo, cosmopolita, sempre jovem, o galã elegante e sedutor que faz o que quer e debita as próprias malvadezas na conta do retrato, inacessível ao olhar alheio.  Contudo a maior vantagem que um vilão oferece ao herói é poupá-lo de, de tempos em tempos, morrer e se transformar. O vilão nos protege da consciência que só tomamos por meio da responsabilização por quem somos e pelo que fazemos, ele nos blinda contra as duras revisões da autocrítica que nos possibilitam amadurecer (não falo da autocrítica marxista, que essa só serve se for conivente com a verdade do partido). De braços abertos, com um sorriso malevolente estampado no rosto, o vilão recebe, sem reclamar, todo o chorume que escorre da estátua dourada do herói de espada em riste, adorado por todos, a unanimidade que atrai nosso olhar sempre para o alto, ainda que o fedor do chorume continue a subir do chão. Se for um vilão clássico, inequívoco, histriônico de tão óbvio, será muito, muito melhor. O vilão estereotípico, do Diabo ao Bolsonaro, passando por Judas e Darth Vader, é, mais que um subproduto, uma necessidade do nosso imaginário dualista judaico-cristão-marxista-e-capitalista. Essa herança, uma e a mesma, nos garante que precisamos de heróis ou vilões higienicamente separados, embora ambos sejam faces da mesma moeda. O vilão, porém reconhece, ainda que apenas instintivamente, e muito melhor que o herói, o imenso valor de toda a energia sombria que é desviada das almas dos bons cidadãos diretamente para ele. Falem mal mas falem de mim, é seu lema. Cuspam em mim, por favor, ele suplica, o vilão, mas façam isso em público, se possível diante das câmeras de TV e dos Iphones, para que todos vejam como somos parecidos. Quanto mais simplórios e reativos nos tornamos diante dos vilões, menos nos damos conta de que é assim que reforçamos nossas ligações com eles, ligações essas que nem precisam de grampo telefônico para vir a luz: é só observar as reações-padrão que tanto nos aproximam da vilania. Quando mais maniqueísta nossa reflexão, quanto mais puros nos consideramos, mais o vilão cresce, mais poder ele adquire, mais território ele conquista. Para o vilão, a sombra do outro é força em estado puro. Ele come o lixo que envergonha o herói, e engorda. Destinatário de tantos conteúdos coletivos inconscientes nele projetados, o vilão amealha admiração, ódio e (o que estranhamente ainda nos surpreende), também votos e apoio popular. Hitler, Stalin, Franco, Pol Pot, Pinochet, Fidel, tiranos tão idênticos na essência quanto diferentes na aparência, somente chegaram aonde chegaram graças aos utilíssimos vilões do comunismo totalitário e do capitalismo imperialista, no fundo, a mesma bisca em duas versões igualmente deletérias do mundo e das pessoas. Como também, é claro, dependem do rebaixamento do nível mental da massa que os bancou e ainda banca, mesmo depois que sua volumosa sombra se tornou pública e notória. Começaram heróis e, em tempo, revelaram sua inequívoca inclinação para vilões, embora ainda convençam os pré-púberes psicológicos que se comprazem em acreditar em Papai Noel e na Cegonha.  Essa é a parte mais interessante do vilão. Sua sedução é longeva, assim como a do herói. Não surpreende, já que ambos são arquétipos. Assim como Eros e Tânatos, o Amor e a Morte, eles são gêmeos opostos e complementares. Um sempre puxa outro, é só esperar para ver. “Triste a nação que precisa de heróis”, o clichê de Brecht, bem merece uma versão para este momento: triste mesmo é a nação que precisa de vilões para desviar o olhar dos malfeitos de seus heróis. E dos próprios.