Uma estranha no ninho das cucas

Faz tempo que eu quero falar dela, mas sempre acabo me esquecendo. Ela era mesmo o tipo de pessoa de quem a gente sempre acaba se esquecendo. Uma figurinha feita para ser a última. Pequena, humilde, apagada, servil, tão secundária que quase ninguém a via. Ela se chamava Benedita, Dita, para os poucos que sabiam que ela existia. Morreu quando eu era pequena, acho que antes ainda de eu fazer seis anos. Não é só que faz cinquenta anos. É que Dita vivia nas beiradas da vida e as recordações que tenho dela, portanto, sobrevivem nas beiradas da minha memória. Será que alguém ainda se lembra dela, agora que minha mãe e suas irmãs também se foram? Eu me lembro de você, Dita, e me lembro bem. Para serem recuperadas, escovadas, esticadas e postas ao sol para secar o mofo, as lembranças que tenho de Dita precisaram de uma vigorosa revirada na minha canastrinha de bilongues, um neologismo “emilista” que vem do inglês: “belongings”. Os meus bilongues são, ao contrário dos da Emília (todos bem concretos), feitos somente de afeto e memória, meus materiais favoritos. O resgate e a reparação das minhas memórias de Dita fazem parte de Bilongues 2013, um projeto que, aliás, acabo de inventar. Este blog está cheio de bilongues, mas só agora me lembrei de Dita o suficiente para escrever sobre ela. Então meu primeiro bilongue do ano veio de Dita, a esquecida. A agregada. A obscura. A invisível. A doce, silenciosa, delicada e meiga Dita. Não sei porque acordei pensando nela.

Minnie e Aby se escondendo de uma leitora

Minnie e Aby se escondendo de uma leitora

Não. Até sei. Ontem à noite assisti de novo “Histórias cruzadas” (The help), um filme que fala, com delicadeza e um impossível humor, sobre relações perversas entre negros e brancos numa cidadezinha do sul dos EUA.Talvez porque janeiro já vai se finando, o que traz uma certa nostalgia do verão idílico que nunca vivemos e, ao que parece, jamais viveremos, nós, brancos e negros, judeus e palestinos, cristãos e muçulmanos, corinthianos e sãopaulinos etc. Domingo besta, bom para colar porta-retratos quebrados, levar a gata para cortar as unhas, conversar amenidades com o pai solitário, escrever inutilidades, remexer velharias. E passar Crisco nas lembranças para renová-las, receita da minha amiga Minnie, personagem de “Histórias cruzadas”. A lembrança de Dita, por exemplo, me visitou há pouco, enquanto eu aplicava henna no cabelo. Primeiro me lembrei dos pés dela, tortos, chatos e pequenos, como se ela fosse uma chinesa que passou toda a vida com os pés enfaixados e acabou por ficar meio aleijada, em honra da veneranda tradição patriarcal de aleijar as mulheres, literal e simbolicamente. Dita também foi vitimada pelo patriarcado, não o dos mandarins da China, nem o dos escravocratas do Mississipi, mas o dos cafeicultores do interior do estado de São Paulo. Era filha de escravos, nascida na fazenda de meu bisavô. Seus pés estranhos, eu soube, horrorizada, mais tarde, tinham sido meio comidos por bichos de pé, quanto ela ainda era criança. Já velha, vivendo na casa de minhas tias solteironas, Dita andava arrastando os chinelinhos de feltro xadrez com seus passinhos curtos e inseguros. E até quando andava, ela servia, lustrando os tacos encerados. Minhas tias, com seu senso de humor corrosivo e nada auto-complacente, chamavam a própria casa de Ninho das Cucas. Com a bancarrota anunciada de meu avô (que não lhe sirva de pena, diria minha mãe), suas filhas vieram para São Paulo, tentar ganhar a vida. Trouxeram consigo Dita, a cuca negra, que não reconhecia outra família além das sinhazinhas brancas a quem passara a vida servindo. Pensando bem, acho que ela tinha, sim, uns sobrinhos em São Paulo, vivendo num bairro afastado, mas eles não eram sua família. Sua verdadeira família era a do fazendeiro protestante que comprou seus pais e a obrigou a se converter, como fez com os parentes próximos e empregados, que isto não lhe sirva de pena. Dita gostava de mim, mas eu, menininha branca ranheta e mimada, tinha medo dela, diziam. Dita gostava de todas as crianças da família, diziam. Minha tia Adelaide, de quem já falei aqui (outro bilongue) no post “Minha tia”, teve uma ideia bem do seu feitio, para abrandar meu preconceito precoce e a dor de Dita, ao me ver chorar de medo dela. Costurou e me deu uma boneca preta, feita de meia, com olhos bordados de retrós, por quem eu me apaixonei perdidamente. Graças a esse avatar caseiro, dizem, aprendi a não temer Dita, cujo único pecado era ser guiné, isto é, da cor do ébano, com olhinhos acesos, sempre lacrimosos, calorosos, empáticos. Dita era uma alma suave. Falava baixinho, vivia num quartinho no quintal, regava as plantas, não incomodava ninguém, nunca. Sempre penso nela quando escuto ou leio o sermão da montanha. Ninguém era, como ela, tão mansa e humilde de coração. Se existe mesmo um reino dos céus e, vivendo nele, um deus amoroso, compassivo e sereno, Dita há de ser uma de suas conselheiras senior. Não tenho nenhuma foto dela, mas tenho uma foto que é como se fosse: eu, de touca branca, agarrada na boneca preta de meia. Essa imagem me comove e me consola. Hoje pensei em você, Dita. Me desculpe o mau jeito, mas eu não sabia que você ia acabar fazendo parte do conselho de nosso senhor Jesus Cristo, ao contrário de meu bisavô, por quem sei que você deve ter intercedido muito. Minha mãe contava uma história ótima em que você era a protagonista chapliniana. Meu bisavô tinha mania de fazer, depois do jantar, uns cultos domésticos diários chatérrimos e compridíssimos, coisa de patriarca narcisista e devoto. Os convocados para ouvir suas preleções eram, claro, as crianças e os empregados, que não tinham alternativa. Certa noite, você se sentou na ponta de um banco junto da parede e cochilou (você cochilava muito, desde menina, sempre sobrecarregada de trabalho). No final, todo mundo se levantou do banco para a oração e você ficou sentada. O banco virou e foi uma risada só. Você salvou aquele povo escravo de faraó como só Carlitos faria: com uma palhaçada e gargalhada geral. Ninguém se lembrava de uma palavra sequer daqueles sermões insuportáveis. Mas todo mundo se lembrava de você revirando de pernas para o ar e acabando misericordiosamente com a tortura. Você era como a Irene de Manuel Bandeira: preta, boa, sempre de bom humor, pedindo licença a São Pedro na porta do céu e ele respondendo: “Entra, Dita, você não precisa pedir licença…”

P.S. – Ontem fui ver “Django livre”, de Quentin Tarantino. Noves fora os habituais despautérios do diretor, alguns bem engraçados, trata-se de uma boa história, muito bem contada, com excelentes atuações. Porém, ao contrário do que li nos jornais, o troféu Mais Escroto do Filme não deve ir para o vilanete Calvin Candy, personagem de Leonardo Di Capprio, mas para o vilão de fato: o preto velho Stephen, um capitão do mato com faro de Cérbero, que exerce seu poder dentro da casa grande. Desempenhado com brilho e um toque de caricatura por Samuel L. Jackson, descobrimos que Candy é pinto perto dele. Boa boa parte da malvadeza do sinhozinho, aliás, deve-se à educação primorosa que este recebeu de Stephen, seu maléfico e astuto consultor para assuntos de escravos.

O mestre...

O mestre…

Stephen encarna uma versão africano-americana, avantajada, de “judenrat” (acho que é assim que se escreve), o escravo alinhado com os algozes de sua própria gente em troca de seus favores. Apesar de risível, Stephen dá muito medo. Fato é que, apesar de todos os mea-culpas genuínos ou hipócritas, dos discursos de reparação e das ações afirmativas, o shoah africano é uma vergonha ainda por limpar, a grande ferida aberta nas almas coletivas de Brasil e EUA. Isso sem falar nas grandes nações civilizadas colonialistas (uma contradição em termos), que não têm como sair de banda, já que não só bancaram a escravidão de muitas e vantajosas maneiras, como continuam bancando o caos que elas mesmas instauraram em diversos países da África. No Estadão de ontem, uma notícia fez a velha ferida babar pus sobre um de nossos mais caros cartões postais: na zona Sul do Rio de Janeiro, um casal estrangeiro teve seu filho adotivo, negro, expulso da loja onde os pais pretendiam comprar um carrão importado porque o gerente o confundiu com um menino de rua.

O aprendiz...

… e seu aprendiz

Besteiras de férias (ou 50 tons de ouro sobre azul)

Leitura, Almeida Junior, 1899

“Leitura”, Almeida Junior, 1899

No Estadão, num dia qualquer de janeiro (nunca sei que dia é, quando o mês é janeiro), o escritor Milton Hatoum espinafrou o que chamou de “literatura de férias”, começando por dizer que o tempo vai se incumbir de apagar bem depressa todos os “50 tons de cinza”, bem como a memória de outras obras apócrifas, escritas apenas para encher os bolsos dos editores, acanalhar a indústria literária “séria” e emburrecer os leitores. Que maravilha se houvesse um contingente razoável de pessoas dispostas a emburrecer com a leitura, alguma leitura, nesta nossa pátria mãe gentil! Eu até concordo com Hatoum em termos, mas acho uma viagem na maionese imaginar que todo mundo deva ler os clássicos, num país como o Brasil, onde as maciças fileiras de analfabetos funcionais tradicionais são diariamente engrossadas com a adesão entusiasta dos analfabetos funcionais digitais. Literatura de férias é uma coisa ótima e até os tais 50 tons têm defensores assaz respeitáveis, como a minha amiga Tereza, que me disse que leu e gostou. E esse negócio de criticar o livro porque a protagonista gosta de apanhar do namorado é uma bobagem tão grande que nem merece comentário.  Basta dizer que “Madame Bovary” estimula o adultério e o consumismo, “Lolita” estimula a pedofilia e a Bíblia estimula a violência contra a mulher, a homofobia e o genocídio (neste caso, infelizmente, a sinistra turma dos sem-metáfora acha que é pra valer). Para dizer a verdade, se alguém tivesse carregado os 50 tons de cinza na mala até os 500 tons de ouro e azul do verão de Barequeçaba e ele acabasse misturado ao equipamento de praia, eu certamente teria me arriscado e, quem sabe, até tivesse gostado, como aconteceu com o vetusto português Lobo Antunes, fã confesso da série da escritora sapeca. Eu ainda não tive vontade de conferir os “50 tons de cinza” (título, aliás, bem brochante), mas meu sobrinho me repassou, lá na praia, o livro que acabara de ler, “Morte súbita”, de J.K. Rowling. Adorei. A mais pura literatura de férias, que só existe para a gente se evadir e relaxar, se entupindo de calorias, açucar e corantes, largado na cadeira-rede da varanda ou na cama mesmo, antes de cair naquele soninho contraventor de depois do almoço. Lendo Rowling, me revi no Guarujá aos 14 anos, indo comprar, aflita, uma nova Agatha Christie na livraria que ficava ao lado do cinema, como quem vai comprar um remédio para cólica. Era preciso substituir urgentemente o livro que eu tinha levado comigo para as férias e que tinha acabado em três míseras horas de chuva. “Por que não trouxe outro?”, perguntava minha econômica mãe. Ora, mãe, porque os melhores livros de férias são os que a gente ganha de natal (caso do livro do meu sobrinho) ou compra durante as férias, certo?

"Lesentes Mädchen", Théodore Roussel (1886-6)

“Lesentes Mädchen”, Théodore Roussel (1886-7)

Literatura de férias é assim: não tem nutrientes, mas é uma delícia, como friturinhas de verão. Com a vantagem extra que não engorda nem dá diabetes. A gente devora em tempo recorde, tal e qual uma porção dourada de bolinhos de bacalhau. Na modesta literatura de férias, está, inclusive, liberada (e até mesmo prevista), aquela olhadinha oportunista no final, para ver como a história acaba antes de pegar o ritmo da leitura.  A J.K. Rowling continua contando histórias com muita competência e sem quaisquer veleidades literárias, como fazia, aliás, Agatha, sua conterrânea mais simplória, porém não menos bem sucedida. Indico o novo livro dela, apesar das resenhas de nariz torcido dos metidos em geral, não só porque se trata de um ótimo suspense, muito bem amarrado do começo ao fim, como também porque acaba revelando a sombra de uma Inglaterra que nós adoramos superestimar, macaqueando nossos antepassados lusitanos. Lá no UK de Rowling, a favela se chama Fields e é um miserável conjunto habitacional popular cujo vizinho aristocrático, Yarvil, um encantador vilarejo, quer mais é que suma do mapa. Quem morre logo no início, de um prosaico AVC, é Barry Fairbrother, um filho de Fields que se dá muito bem em Yarvil, a ponto de ser alçado à condição de presidente  do conselho local. Como prova viva de que, sim, dá para virar o jogo, Fairbrother engaja-se na defesa do favelão de concreto, de seus moradores e de uma clínica popular de tratamento para dependentes químicos, feita para atendê-los. Contrariando interesses de alguns dentre os mais respeitáveis cidadãos locais, o falecido manipula a trama como um deus ex-machina e termina até por ganhar um duplo, na figura de um vingador cibernético muito bem urdido. Violência familiar, xenofobia, adolescentes problemáticos, bulllying digital, esposas perfeitas e esposas insatisfeitas, todo tipo de segredo inconfessável, abuso de drogas e outros assuntos candentes entram no excitante coquetel de frutas para o verão preparado pela mãe de Harry Potter, que se reinventou na trilha das damas do crime e, para mim, acertou o rumo de cara. Sobre o rápido esmaecimento dos 50 tons de cinza da literatura de férias e seu destino sem nobreza, é para isso mesmo que ela serve: para ser esquecida. Nossa cabeça precisa esquecer tanto quanto necessita recordar. É uma questão de saúde mental.