Saideira

“Escrever na cabeça” é uma atividade improdutiva à qual me dedico com crescente frequência. Fico horas inteiras jogando fora meu tempo útil, entretendo ideias, armando enredos, desenvolvendo personagens a partir de gente que vejo por aí, de histórias que escuto, de situações que sou obrigada a testemunhar ou que investigo por xeretice inata. Faço isso sem registrar nada, sem baixar para o papel ou a tela, até porque, se baixo, o troço desanda e perde a graça, pelo menos para mim. Meu estilo imaginado é muito melhor que a minha escrita concreta, já aprendi essa lição preciosa. E não carece de revisão. Abro uma exceção neste blog.

MACHISTAS

O taxista me contou do amigo dele, uma besta de carga que dobra o expediente para bancar o cartão de crédito da mulher que dorme até o meio dia, a faculdade particular da filha, os games e o mais recente IPhone do filho pré-adolescente. Não troca de carro há cinco anos, está gordo, deprimido e chapado por estresse e falta de sono. Não se encontra mais com os amigos do ponto para beber uma cervejinha e relaxar na noite de sábado ou para jogar uma partida de futebol domingueira. Vergastado pela demanda alheia, cumpre à risca sua sina de macho provedor condenado a mover a roda em favor dos outros até morrer de exaustão. Em suma: machista. À filha adulta e universitária em regime de dedicação exclusiva, ele dá 20 reais toda vez que ela sai de casa, ato que não parece ofender a sensiblidade ideológica da moça que, segundo o narrador, é de esquerda. Recentemente ele abriu, sem querer, uma correspondência de banco que não era sua e descobriu que a marxista da família tem uma polpuda conta de poupança, provavelmente alimentada com os tais 20 reais diários. Já ele não consegue economizar o suficiente para comprar um carro melhor para trabalhar. Um rematado chauvinista, que impede o desenvolvimento de todos a quem provê indiscriminadamente, sem meritocracia, por dever e um tipo de amor que não ousa dizer o seu nome. Ainda não li no jornal (contudo ouvi de fonte limpa) a história do cara que bateu na mulher porque ela, inconformada com a separação, não quis deixar o ex levar consigo o próprio cachorro, no ato do abandono do lar. Não que ela gostasse do bicho, ao contrário. Obsedada por limpeza, ela o odiava. Tanto que matou o cão em seguida, razão pela qual levou uns tapas do sujeito.  No rescaldo, ele foi denunciado por violência doméstica e enquadrado na Lei Maria da Penha. Condenado, frequenta um grupo de terapia. Ela posa de vítima, já que parece que ninguém escutou a história completa e matar animais não é crime. Se você teve um ímpeto parecido com o dele ao ler este caso, cuidado. Pode acabar sendo obrigado a participar de um grupo de terapia para pessoas que consideram mais de uma versão da mesma história.

MENTIRA-OSTENTAÇÃO

Mentir sempre foi moda no Brasil. Agora é fashion total. Mentir para si mesmo virou auto-engano, coisa finíssima, não deixe de experimentar neste verão. Minta no Facebook, por imagens e palavras, é divertido, alivia a depressão por falta de neurônios e não engorda. Melhor: mentir é politicamente correto. Minta com arrogância, minta com prepotência e, se ameaçado de desmascaramento, prepare-se para dar a carteirada. Nesta temporada, quanto maior a mentira, mais simpatia ela mobilizará, mais mentirosos aderirão à sua causa, mais chances você terá de sucesso. Quanto mais auto-confiança tiver o mentiroso, quanto mais alto for o seu ideal, quanto mais gente passiva ele defraudar, quanto mais messiânico for seu estilo mais chance ele terá de continuar rumo ao topo, em sua escalada épica. O mentiroso é sobretudo um forte. Experimente sua própria força mentindo. É viciante. É de mentira em mentira que se chega à verdade, a do mentiroso pelo menos. A direita mente porque é direita, a esquerda mente porque quer ser igual à direita, mas diferente. Mentem os poderosos para dar exemplo aos insignificantes, que mentem porque querem exercer um tiquinho de poder, coisa que a mentira lhes franqueia. Mentem os tiranos dizendo que são democratas. Mentem os democratas dizendo que são honestos. Mentir é tudo de bom: você não estava lá, se estava, não tinha nada a ver com a coisa, se tinha, não viu, não ouviu, não foi consultado a respeito, não é nada do que o outro está pensando. E para mentir comme il faut, negue. Negue a evidência, mas com a contundência lisa que faz a verdade se esconder de vergonha: o cara não era meu amigo, não sou eu na foto, não era eu quem decidia, eu cheguei depois, eu sai antes. Em caso de expressão de dúvida por parte do receptor, seja eloquente, seja loquaz, afirme a barbaridade como se fosse o décimo-primeiro mandamento, a regra áurea. Todo mundo vai acreditar porque o que interessa não é o QUÊ, é o COMO. Intelectuais mentem baseando-se em Greimas. Toscos nem precisam de Greimas, basta-lhes o cinismo e desespero de serem expostos e terem de voltar ao limbo de onde saíram. Minta invocando um deus, qualquer deus. Pode ser o Monstro do Espaguete Gigante daquela religião neozelandesa maluca, que não é mais maluca do que as que excluem e matam, mentindo em nome da fé. A enunciação é mais poderosa que o enunciado. E se não for todo mundo que acredita, não se apoquente. Quem não acreditar vai preferir fingir que acredita ou fazer ouvidos moucos ou vai reclamar com o espelho, para não ter de largar o controle-remoto e levantar do sofá em nome de alguma verdade maior. Por aqui, a gente brinca disso há 500 anos. Mentira é o tema do nosso eterno samba-enredo.

SPOILER

Dr. Tackeray, o protagonista louco varrido drogado genial carente possuído de hybris do seriado “The Knick” morreu. O interessante não é O QUÊ. É COMO.

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A gaita de Stevie Wonder

Minha mensagem de natal do ano passado, que continua servindo para este ano.

Mulher-Esqueleto

O cheiro de bosta de vaca reina soberano no presépio, mas ninguém está nem aí. Um querubim recolheu as asas desengonçadas para ordenhar Zlate, a cabra que Isaac Bashevis Singer emprestou, sem saber que o leite era para um messias. Maria não pode se sentar de tanta dor e está com um pouco de febre também, deve ser a mastite, o menininho ainda não sabe mamar direito. Baltazar se sentou num cantinho para rabiscar o mapa astral, ele nem tinha pensando em dar uma cópia aos pais, imaginem. Gaspar percebe e dá um toque no amigo, melhor não, Balta, deixa eles pensarem que vai dar tudo certo com o filhinho, já é difícil quando a gente não sabe nada. Duas pastoras acabam de entrar, apertando cordeirinhos recém-nascidos nos braços. São um casal de lésbicas lacto-vegetarianas e trouxeram uns queijos de ovelha muito bons para dar de presente à família, nossos bebezinhos…

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Um ano interessante

Em 2012, escrevi esse texto para um TED cujo link está na lista do blog, do lado direito da página. O Facebook o regurgitou ontem e eu me dei conta do quanto ele é importante e do quanto continua valendo, como expressão de um projeto de vida que prossegue e que eu gostaria que chegasse comigo à velhice. Num momento em que ser feminista muitas vezes tem significado estar tomada de histeria ou viver perpetuamente pintada para a guerra, creio que ele pode inspirar algumas boas conversas à antiga, entre parceiros e parceiras, regadas a chá e bolo, talvez a cerveja e mandioca frita, conversas que nos reenviem a nós, seres humanos de todos os sexos possíveis e imagináveis, para o mesmo lugar comum de amor e aceitação da diferença, que é tudo o que precisamos. Como post, ficou longo, mas não precisa ser lido de uma tirada. É até bom ler devagar, aos trechos, mesmo porque a divisão que fiz, com imagens colecionadas ao longo de tantos anos escrevendo este blog, amacia e ilumina o dito. Boa leitura. Bom ano novo. Que 2016 seja, como diz a maldição chinesa, um ano interessante.

A matilha de Hroshige

GRUPOS DE CORPO E ALMA

O lugar de onde quero falar a vocês hoje é o meu coração que envelhece e se transforma. É dele que sai o fio que liga todos os temas e as pessoas que fazem parte da minha vida e que me fazem sentir real: uma mulher de 55 anos de idade, vivendo numa cultura heroica e patriarcal, onde já começo a me tornar invisível. Quero falar de mulheres que se juntam para fazer mais do realizar atividades juntas. Quero falar de mulheres que se encontram para ficar juntas semanalmente, chova ou faça sol, apesar do trânsito, dos afazeres, das distrações com que o mundo nos afasta de nós mesmas e nos põe à deriva, girando feito piões no vazio. São mulheres que, depois de muito avançar, retornam aos mistérios simples e sagrados da natureza feminina, em busca de certas qualidades que andam esquecidas, num mundo que está muito carente delas. São mulheres que se reúnem para cultivar a alma em grupos de corpo presente. Talvez haja só mulheres envolvidas nesta história porque  parece que entendemos mais de cultivo da alma do que os homens. Não porque tenhamos mais alma do que eles, mas apenas por uma questão de sintonia com o corpo e a natureza. Essa afinidade entre a mulher e a natureza levou milênios para ser cozinhada e tecida.
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Agora ela corre o risco de desaparecer, levando consigo Gaia, nosso lindo planeta. Grupos de corpo e alma formados por mulheres falam de outro feminismo, muito antigo, perdido na aurora do tempo. Um feminismo que tem poder para curar nosso coração coletivo, despedaçado por uma civilização que já perdeu sua alma e que ameaça o mundo com uma novíssima barbárie. As experiências de grupos de corpo e alma sempre foram comuns entre as mulheres, que costumam perceber e expressar com facilidade o quanto precisam umas das outras para tocar a vida adiante. Descobri que isso acontece por um motivo simples: as mulheres sabem ficar. Ficaram para trás, plantando e colhendo. Ficaram cuidando das crianças, dos animais e das roças, ao redor do vilarejo neolítico e da maloca. Ficaram fiando e tecendo, narrando velhas histórias, costurando e bordando e lendo e escrevendo diários. Ficaram rezando e fofocando, lidando com plantas, fazendo simpatias, mezinhas, poções, unguentos. Ficaram benzendo, cuidando dos bebês e dos velhos, dos feridos e dos doentes. Ficaram mantendo aceso o fogo no centro da casa, cuidando do coração coletivo, em torno do qual se organizava a vida, onde as histórias eram contadas e as pessoas se aqueciam, conversavam, comiam juntas. A mulheres cultivaram os laços de afeto com a mesma dedicação com que cultivaram hortas e pomares. Os pomares e as hortas serviam para nutrir o corpo. Os laços serviam para nutrir a alma. Encarregadas de ficar para garantir a sobrevivência do corpo e da alma da comunidade, fazíamos duas coisas imprescindíveis para que a vida prosseguisse. Apertávamos os laços, providenciando o cuidado com quem estava nascendo e precisava ter sua alma feita para se tornar humano, porque ninguém nasce pronto. Na outra ponta, desatávamos os laços, garantindo o cuidado com quem ia morrer e precisava ter a alma liberada para partir.
Leda e o cisne, Eliana
Por uma questão cultural, porém, acabamos aprendendo a desprezar quem fica. Fomos levadas a acreditar que ficar significa não se desenvolver, estar sempre parado no mesmo lugar, depender, diminuir. Nesse sentido, fomos ótimas alunas do patriarcado. Num jogo onde quem é mais agressivo e dominador dá as cartas, o feminismo de primeira hora perdeu o rumo. Entendemos que, para sermos respeitadas, aceitas e valorizadas no grande mundo lá fora, precisávamos estar sempre em trânsito, como os homens, sempre envolvidas em atividades como lutar, competir, guerrear, triunfar. São todos verbos intransitivos, vocês perceberam?, verbos que expressam uma atitude individualista, que não considera a existência do outro, a não ser como competidor, servo e inimigo. Compramos esse pacote, jogamos o bebê fora, junto com a água do banho, e pagamos um preço alto demais, quando caímos em mais esse engodo patriarcal. Em troca de uma igualdade que acabou virando, para nós, sobrecarga e imitação do dominador, aceitamos perder nossa conexão com a natureza feminina profunda. Restaram somente as aparências para diferenciar. Consta que fomos nós que inventamos a agricultura, porque tínhamos a curiosidade, estabilidade e a atenção divergente para observar o sol, a lua, a direção do vento, as estações, os ciclos da natureza que ensinam a viver e a morrer. Para observar, é preciso ficar. Olhávamos em volta para coisas aparentemente insignificantes e acabávamos dando a elas significados que se revelavam importantíssimos. Foi assim que vimos as sementes eclodindo e resolvemos imitar a natureza, cultivando comida. Foi assim que encontramos o sagrado no mundo, muito antes dele ser transferido para o céu. Enquanto isso, os homens iam e vinham de realizar seus feitos, pequenos ou grandes, muitos deles relacionados com a pilhagem e a destruição da natureza e dos diferentes, que é outra palavra para “inimigo”.
Sem sapatilhas, só cascos
Deixadas para trás, nós mantínhamos o ciclo da vida fluindo no cotidiano miúdo e simples, que é tudo o queremos de verdade. Dizem que a agricultura e a cozinha nos ensinaram a lidar bem com as transformações. Éramos sedentárias, o que nos permitiu investir na criação de uma cultura estável. Paradoxalmente sabíamos mudar muito melhor do que os homens, que se movimentavam mais do que nós. Nossa sintonia com o corpo e a alma nos permitia ter uma mobilidade que os homens não tinham: desde pequenas, sabíamos viajar para dentro. Na primeira metade da vida, eu também saí, como todo mundo. Saí feliz, mas confesso que me sentia dividida. Eu era professora, o que me permitia ir e ficar. Eu tinha mais tempo livre. Eu me sentia importante, ainda que fizesse uma coisa considerada menos importante (educar, como vocês sabem, é uma coisa desimportantíssima). Mesmo  assim, fui convencida pela cultura dominante de que havia algo errado no meu modelo combinado de viver. Eu não precisava me sentir dividida porque, na verdade, estava integrada: o melhor dos mundos é poder transitar entre as polaridades. Eu deveria me sentir criativa, confortável e plena, mas a cultura patriarcal me convenceu de que eu não ganhava dinheiro suficiente, não me projetava suficientemente no mundo profissional, não era suficientemente agressiva e competitiva. Já minha intuição me dizia que ter tempo livre para cultivar minha alma, as almas dos meus filhos, da minha família, da minha casa (porque as casas também têm alma), era um imenso privilégio e me concedia um grande poder criador.

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo, 1938Eu queria ver meus filhos crescerem, estar com eles em suas passagens, contar-lhes histórias, ensiná-los a cantar, a ajudar, a gostar de animais e plantas, a comer bem, a preparar e partilhar refeições, a se relacionar. Queria ter tempo para namorar meu marido, ouvi-lo, ver filmes com ele, partilhar com ele o silêncio confortável  de ler juntos livros diferentes,  e conversar com ele sobre a nossa vida. Como minha mãe, eu tinha um imenso prazer em ficar: cuidar do jardim, da cozinha, da família, manter aceso o fogo no centro da casa em honra à poderosa e modesta Hestia, deusa do lar. Diferentemente de minha mãe, porém, eu podia sair e viver a vida no grande mundo, praticar minha vocação, circular com desenvoltura no espaço público. Algumas vezes, porém, o prazer de ficar, que eu partilhava com minha linhagem feminina, me deixava constrangida no grande mundo lá fora. Quando deixei a sala de aula, há alguns anos, o meu lado que sabia ficar me serviu de âncora. Saber ficar impediu que eu perdesse a sensação de realidade que vinha do meu papel profissional. Na época, eu vivia um momento de intensa metamorfose e as metamorfoses costumam nos dar essa sensação de perda da própria realidade. Formas externas com as quais eu me identificava estavam desaparecendo, e eu ainda não sabia direito como haveria de sair daquela experiência. A gente nunca sabe, mas às vezes pensa que sabe. Minha sintonia com meu corpo e minha alma me garantiu um razoável conforto para fluir na correnteza da vida que mudava. Eu tinha as histórias, as memórias de família, os estudos de assuntos que ecoavam a minha existência, a escrita, os mitos, a arte, a literatura, o jardim, as imagens nas quais eu me espelhava e que me diziam tudo o que eu precisava saber sobre qual era o meu valor. Minha intuição me dizia que o melhor estava por vir, ainda que eu não fizesse a menor ideia do que estava por vir. Então o melhor veio.

Tudo viagem de volta

Minha experiência com os grupos de corpo e alma começou com um laço muito íntimo e antigo: a aliança mítica das irmãs. Em 2008, minha irmã voltou de uma temporada de três anos no México e me convidou para embarcar com ela numa aventura. Minha irmã é artista plástica e arte-educadora. Ela queria montar um lugar para cultivar as almas das nossas crianças, massacradas por uma educação escolar em que o corpo, as emoções e a imaginação simplesmente não interessam, só atrapalham. Eu sabia disso, porque vinha de quase 30 anos dando aulas, nadando contra a correnteza de transformar adolescentes curiosos e interessantes em autômatos tarefeiros, insensíveis e consumistas. Como não tínhamos cacife para bancar o projeto sozinhas, convidamos outras mulheres que tinham projetos parecidos com o nosso, e formamos o primeiro grupo de corpo e alma: as “ocuilis” (palavra que minha irmã trouxe do México, do velho idioma “náuatle”, e que quer dizer “cobra”, um bicho que troca de pele e simboliza o eterno que sabe mudar). Começamos nosso ateliê depois de comemorar a festa do dia dos mortos. Foi quando meu casulo começou a se abrir e a revelar minha nova forma. No início, eu tinha pensado em coordenar grupos de leitura. Era um projeto mais intelectual, como se, saindo novamente para o mundo, eu precisasse ser apenas racional. Para minha sorte, as mulheres que aderiram à ideia propuseram leituras não literárias, leituras de conhecimento profundo de si, divergentes, analógicas e um bocado irracionais também, textos de mulheres fora da curva, destinados a mulheres fora da curva: contos de fadas, mitos, metáforas. Eram mulheres que tinham desenvolvido muito sua capacidade intelectual e agora queriam se tornar sábias.

a virgem santana e o menino

Assim nasceram as matilhas de leitura, grupos de mulheres que começaram lendo , juntas, o clássico “Mulheres que correm com os lobos”, da analista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés, de onde saiu a metáfora que nos define. Não é coisa nova, muitas mulheres já faziam isso antes de nós. Mas é único, porque fazemos isso de um jeito completamente nosso. Como não podíamos mais ser alcateias, porque já estávamos bem domesticadas, seríamos então matilhas em busca do DNA do feminino selvagem, a fonte de energia vital que continua a se renovar pela vida afora, de que falam os mitos e as velhas histórias tradicionais. As matilhas são grupos de corpo e alma. Nelas as mulheres se reúnem para compartilhar a experiência de ser e estar ao redor do seu próprio fogo criativo, onde são modeladas outras formas de ser e de viver além daquelas que a sociedade aprova. Cultivar a alma em grupo era o nosso objetivo embora, no início, nem soubéssemos disso. Juntas, aprendemos que, quando bem cuidada, a alma secreta os significados que umedecem e fertilizam a vida, fazendo brotar plantas novas em velhos jardins. Aprendemos também que o corpo se transforma criativamente quando a alma está preparada para lhe ensinar como se faz. Aprendemos que a alma é alquimista e o corpo, seu laboratório. Quando um não colabora, o outro adoece. Um não pode viver sem o outro. Aprendemos que o corpo e a alma equilibram a razão lógica e a tornam menos abstrata, prepotente e fria. Somos mulheres que estão reaprendendo a ficar. Cultivar a alma em grupo não tem segredo, só mistério, como canta Marisa Monte. Começa com a gente encontrando a trilha de migalhas de pão que nos leva à casa da bruxa iniciadora de princesas e mendigas , a velha sábia que vai nos iniciar nesse mistério. É preciso olhar para o chão para ver migalhas.

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No chão, estão gravadas nossas pegadas antropológicas. Saber de onde viemos é saber para onde vamos, porque a vida é um círculo, não uma linha reta. Em meio à aparência de novidade que o mundo quer nos impingir, seguimos juntas atrás do que é arcaico, do significado mais profundo e escondido de ser gente, daquela natureza real que não nos deixa ficar invisíveis só porque
envelhecemos. Aprendemos que só a conexão com o arcaico é capaz de convocar o novo verdadeiro. Como disse uma vez o Gerald Thomas, “quem não sabe o que veio antes, não sabe seguir adiante”.
Um grupo de corpo e alma é uma comunidade de iniciação onde aprendemos sobre o lado desvalorizado de nossa natureza feminina e o reparamos da melhor maneira possível: primeiro metaforicamente e depois, na prática. Queremos reinserir no cotidiano as qualidades simples, encantadoras, criativas, terapêuticas, conciliadoras, fecundantes, acolhedoras, ferozes quando necessário, e que espalham ao redor de si e à sua passagem as sementes da genuína beleza, a que nasce do amor e do sentido. Para nós, uma lista de fazeres que cultivam a alma precisa incluir: narrar e ouvir histórias, falar da vida, escutar atentamente, ler e comentar livros e filmes e obras de arte e encontros poderosos, partilhar assuntos importantes que apenas parecem insignificantes, estudar e jogar tarô, chorar de vez em quando, chorar de rir sempre, recuperar velhas prendas domésticas, rememorar as vidas de nossas mães e avós, trocar receitas, invocar imagens de deusas e antepassadas míticas, comemorar festas normais, como aniversários, e esquisitas, como o Dia dos Mortos… Ultimamente algumas lobas vêm se reunindo em outras formações, para cultivar a alma nos ateliês de arte que minha irmã coordena. Faço parte de um deles e posso dizer: é uma experiência impressionante de despertar da criatividade profunda e de cura (para quem sente que precisa de cura, claro).

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A experiência dos grupos de corpo e alma, as matilhas que continuam a se encontrar semanalmente, anos passados, sempre abertas a novas lobas, derivou, a seu tempo, para a Internet. Cultivar a alma na rede é uma coisa ótima e que muita gente já faz. Eu também resolvi fazer, escrevendo o blog da Mulher-Esqueleto. Num grupo de corpo e alma, a gente pode correr o risco de ser quem é. Não precisa dissimular juventude muito menos felicidade no atacado, não tem uma obrigação com o sucesso que esse mundo besta consagra. Podemos expor nossas dores e feridas protegidas por um continente que nos envolve, apoia e convence de que temos resiliência suficiente para superar. Num grupo de corpo e alma, a sensação de ser real é concreta. Sentir-se real não é coisa dada, a gente não nasce com ela, ainda mais numa cultura em que a gente é premiado por se transformar em abstração ambulante. É uma coisa para ser fiada todos os dias, na velha roca da vida, enquanto buscamos nossos elos com o mundo, a inteireza que depende de um pacto consciente com o outro. Só na relação com o outro somos reais, o outro humano e o outro não humano, esse grande Outro que é o mundo. Ninguém vai negar o quão importante foi aprender a partir. Agora precisamos reaprender a ficar. E ficar é verbo de ligação, como bem lembrou minha amiga-loba Regina. Os grupos de corpo e alma nos ajudam nessa jornada de volta para casa, à aurora dos tempos, quando Deus era mulher.
Eliana, Novembro de 2012

Faxina, colagem Eliana