Anima nobile canina

Pupi

Puppy

Anima nobile (alma nobre) era como os seres humanos se autodesignavam, em oposição a anima vile (alma vil), a condição atribuída aos animais. Aprendi isso com Monteiro Lobato, meu pai número 2. Nada como ser Adão, aquele cara que dá nome às coisas. Ele usa as palavras a seu favor e as transforma numa fonte inesgotável de autoenganos. Hoje vou falar sobre almas verdadeiramente nobres e deixar o leitor decidir quem é vil de fato na ordem das coisas. Nenhuma das pessoas que meu post homenageia pertence à espécie humana, primeira razão, portanto, para serem consideradas nobres. Meus personagens são pessoas não humanas, porém completamente pessoas, animadas e almadas, plenas de afeto e memória, fieis aos seus vínculos profundos e também autênticas na expressão de seus afetos. Não faltam a elas as melhores qualidades humanas, aquelas que nos fariam dignos da verdadeira nobreza, a qual só existe na prática. Algumas dessas pessoas já partiram. Outras eu só conheci de ouvir suas histórias por anos a fio, desde pequena. Outras ainda estão por aí, passeando pelos quintais e telhados, ocupando almofadas e colos, encantando a vida dos humanos a quem dão a graça de sua companhia. Hoje achei que já está na hora de contar, por escrito e para mais gente, as histórias dos bichos da minha família. São boas histórias, simples e comoventes, cheias de gestos impregnados com os melhores valores humanos, entre eles gentileza, lealdade, coragem, altruísmo.Vou dividir meu assunto em dois posts, um dedicado aos cães e outro, aos gatos, e deixar para mais tarde um terceiro, protagonizado por um pássaro chamado Preto e Pessoa, um jabuti solitário.

JOLI: MUITO MAIS QUE UM BONITÃO

Joli foi o cachorro da infância do meu pai. Bonito, como diz o nome, mas duvido que os donos soubessem disso. Escolheram a palavra porque a acharam, ela sim, bonita e acabaram reunindo a qualidade ao sujeito por similaridade.Vira-latas de pelo longo e sedoso, branco raiado de preto, Joli era um valente do tipo Errol Flynn, que desafiava o laçador da carrocinha dando espetáculos de fuga que os garotos da rua aplaudiam, frenéticos. O homem da carrocinha odiava Joli, que o humilhava publicamente com suas performances. Consta que, diariamente, ele escoltava as meninas da família até o ponto de ônibus e os meninos mais novos até a escola. Certo dia, Joli acordou estranho. Jururu, inapetente, isolado num canto. Meu pai tem certeza de que ele pegou raiva, porque um cachorro da vizinhança com quem Joli não se dava morrera há pouco da doença. Mas Joli não arriscou ficar e a contaminar, a contragosto, a família que tanto amava. Sumiu simplesmente e nunca mais apareceu. Um gesto de infinita nobreza, do qual poucos seres humanos são capazes.

TIGRE CORAÇÃO DE LEÃO

Tigre era o cachorro da minha avó materna, um vira-lata sangue bom, grandalhão, preto, plutoniano, mas com um coração de príncipe. Ele a seguia aonde ela quer que ela fosse, qual um cavaleiro provençal a serviço da sua dama. Porém não foi com ela que ele revelou seu coração de leão. Meu avô era inspetor de quarteirão na cidadezinha, ou seja, era o valentão que defendia a vizinhança de outros valentões, ainda piores do que ele. Um dia, foi chamado para enquadrar um encrenqueiro que fazia arruaça no bairro. Tigre o seguiu. A princípio, meu avô botou o cara para correr no grito, Autoconfiante, contudo, deu as costas ao perigo, na pressa de voltar para a cama, já que era noite alta. Ocorre que o homem estava armado e pronto para lhe dar um tiro pelas costas, não fosse o timing de Tigre, que o interceptou e derrubou. O tiro desviou para o alto, o facínora foi para a cadeia e Tigre roubou do meu avô o título de herói do dia.

DICK, O ESCUDEIRO FIEL

Um tequel miúdo e esperto, pretinho, aficcionado pelo dono, Dick vivia na cola do meu pai, então um mocinho de seus 20 anos. Quando este começou a dar plantões noturnos na farmácia do bairro, aonde trabalhava, costumava voltar de madrugada, a pé, pelas ruas desertas do velho bairro do Cambuci. E Dick ia esperá-lo na porta da farmácia, para escoltá-lo para casa em segurança. Nos dias de trabalho normal, Dick ia levá-lo até o trabalho e então voltava para casa, feliz de ter cumprido sua missão. Acontece que, certo dia, o pior aconteceu. Dick foi atropelado por um carro mais afoito, por sorte, logo na saída da farmácia. Meu pai assistiu a tudo e, aflito, não titubeou: baixou a porta de ferro do estabelecimento e levou o companheiro até a Faculdade de Veterinária, que então ficava pelas bandas da Liberdade. Ele tinha um amigo que era aluno de lá e trabalhava no hospital, o Zezinho. Dick foi internado para entalar a perna quebrada, mas ia ter de ficar lá por algumas horas. E meu pai precisava voltar para reabrir a farmácia. Mal chegou ao balcão e o telefone já tocava. Era o Zezinho, dando a pior de todas as notícias: Dick escapulira do hospital e, mesmo com a fratura na perna, não fora recuperado. Meu pai ficou arrasado, porém não havia o que fazer. A distância entre a farmácia e a faculdade era razoável e Dick não tinha como saber o caminho de volta. Os clientes chegavam, havia injeções para dar, fórmulas para manipular, cortes para suturar… Naquele tempo, a vida de farmacêutico do bairro era bem mais emocionante do que é hoje em dia. O tempo passou, duas, três horas, meu pai trabalhando sem parar de pensar no destino do amigo. Enfim houve uma pausa para respirar e a farmácia esvaziou. Ele saiu à porta para olhar a rua e ficar melancólico à vontade, coisa de que gosta muito até hoje. Foi quando viu, subindo bem devagarinho o morro da rua Robertson, o Dick, de língua de fora, capengando com a perninha quebrada. Sabe Deus como, ele tinha encontrado o caminho de volta para casa, levando apenas o amor por seu dono como guia. Os dois se encontraram e foi uma grande alegria. Meu pai entalou a perna do Dick lá mesmo, na farmácia. E caso encerrado.

PUPPY, A GUARDIÃ DO TESOURO

Fox paulistinha brava como só ela, Puppy foi o presente de consolação que minha irmã ganhou de meu pai, porque ele não a deixou ficar comigo em Guararema, nas férias depois do carnaval. Eu cheguei de viagem e ela já estava lá, um filhote muito lindo, pentelhinho e inteligente como só um fox paulistinha sabe ser. Rabo cotó, latido ardido, sempre alerta, apesar do temperamento Puppy submetia-se a quase todos os abusos afetuosos da minha irmã, que queria fazê-la de boneca. Entre outras humilhações, saia fantasiada de noiva para passear de tarde pela rua, metida num velho carrinho de bebê, com um par de óculos de aros redondos e lentes vermelhas instalado no focinho. Claro que Puppy mordeu mais de uma vez sua dona, sendo que, na primeira, ainda não tinha sido vacinada, o que custou uma série de injeções na barriga que fizeram de minha irmã a celebridade do quarteirão. Nós a púnhamos para dormir conosco, coisa que meus pais proibiam terminantemente, e ele ficava quietíssima, metida debaixo dos nossos lençóis, cada noite na cama de uma. Todavia amar mesmo, perdida e completamente, ela só amava minha mãe, sua deusa. Quando minha mãe saia, Puppy ia buscar alguma peça de roupa ou pé de sapato dela no armário, arrastava até a almofada e lá ficava, guardando o tal objeto transicional com a devoção feroz de um talibã. Ai de quem tentasse tirar dela aquela coisa sagrada! Rosnados ameaçadores, tentativas histéricas de morder, ela fazia de tudo para evitar que qualquer um, até mesmo meu pai, chegasse perto do avatar da sua adorada dona. Velhinha, o faro a confundia e ela frequentemente pegava coisas de outras pessoas (principalmente visitas!), achando que eram de minha mãe. Um amigo da minha irmã viu seu pulôver de cachemir inglês novinho em folha virar um amarfanhado forro de almofada de cachorro e teve de esperar até minha mãe chegar para recuperá-lo, babado e cheio de pelos. Puppy viveu 14 anos e morreu docemente, com minha mãe, sua mais querida, ao lado dela. Foi posta para dormir por um veterinário bonito e bondoso que a chamava de “minha preazinha”.

FRIDA QUE QUASE FOI NOSSA

Frida era a cadelinha schnawzer da namorada do meu filho. Por alguns meses, tempo em que a família dela se mudou do Brasil e Frida ficou por aqui, fazendo companhia a sua dona, que também tinha ficado, fomos um pouco donos dela também. Já velhotinha, era uma pessoa deliciosa, divertida, animada, amorosa. Só entortou com o Carlinhos, nosso gato, claro. Cada vez que o via entrar pela janela, Frida nos avisava, muito ciosa de seus deveres, de que um gato tinha invadido nossa casa e, portanto, tínhamos que tomar providências enérgicas. Devagarinho, com a ajuda de alguns florais e da imensa paciência do Carlinhos, esse gentleman, Frida foi se acostumando com ele, de modo que os dois estabeleceram uma convivência um pouco tensa (por parte dela) e blasé (por parte dele), porém, no geral, respeitosa, embora os olhinhos dela continuassem a expressar, cada vez que ele passava por perto, uma certa perplexidade. Dengosa e diplomática, Frida ensinou meu marido a gostar de cachorros. Foi um adestramento afetivo muito bem sucedido porque não só ele se apaixonou por ela como também cultiva o desejo de adotar um cão, coisa que, até a Frida aparecer, era inimaginável. Já doente, ela passou em nossa casa os últimos meses de sua vida, período em que tivemos a sorte de cuidar dela como se realmente fosse nossa. Choramos muito quando Frida se foi, muito mesmo, ainda mais porque não foi aqui em casa, perto da gente, que ela morreu, mas num hospital veterinário. Até o Carlinhos sentiu a ausência dela, tanto que continua até hoje querendo que coloquemos sua ração em cima de uma mesa, que era a estratégia para evitar as investidas da Frida no prato dele. Da parte de um gato, não deixa de ser uma forma de homenagem.

 

Anima nobile felina

Zelda Fitzgerald, nossa gata pitbull

Zelda Fitzgerald, nossa gata pitbull

MINSK SEMPRE À MINHA ESPERA

Minsk ganhou seu nome do periquito de um conto chamado “Minsk”, se não me engano do Luis Jardim. O menino da história ganha um periquito, abre um mapa mundi em cima da mesa e põe o bichinho para andar sobre o mapa. O periquito para sobre Minsk, na antiga URSS e é batizado. Menina ainda, li o conto na escola e decidi que teria um bicho chamado Minsk, qualquer bicho. Foi um gato. Ganhei de uma aluna da 6a série, cuja gata tinha dado cria. Era preto e branco como o Tao, com uma máscara de Mickey Mouse muito engraçada pintada na cara. Carreguei ele da escola aonde trabalhava para casa metido numa caixa precária, todo nervoso e esticado, miando feito doido. Quando saiu da caixa, vimos que era um Frajola longilíneo, grande e lindo, apesar de um pouco arisco. Já tinha uns 4 meses e ainda não havia sido castrado. Mandamos prontamente cortar as bolinhas dele, que o veterinário veio nos mostrar na palma da mão, como quem oferece duas azeitonas e pede reembolso. Minsk gostava de ficar sentado num pilar ao lado do portão de casa feito uma estátua, na mesma pose da deusa-gata egípcia Bast, guardando orgulhosamente seu território. Era de uma elegância e de uma autoestima insuperáveis. Foi o gato da minha filha então com 5 anos, que o chamava de Minskeilândia, tão divertido ele era. Nas brincadeiras dela, Minsk se prestava resignado a bancar o bebê, até que se enchia de ser agarrado e ninado, dava umas arranhadas e sumia. Era meio selvagem, meio gato de rua e, mesmo castrado, tínhamos certeza de que mantinha casos com gatas da vizinhança. Pelo menos não as emprenhava, enchendo o mundo de órfãos desvalidos. Quando eu dava aulas até tarde, nas noites de quarta-feira, tinha de estacionar meu carro na rua, a um quarteirão de casa, por causa da feira que acontecia toda quinta. Claro que nem sempre eu conseguia parar no mesmo lugar. Mal abria a porta do carro, porém, estivesse aonde estivesse, eu dava de cara com Minsk me esperando na calçada. Era uma coisa mágica aquele gato saber aonde eu ia estacionar toda noite de quarta-feira. Eu o pegava no colo e juntos descíamos um quarteirão até chegarmos em casa. Depois de garantir que eu estava segura, ele escapava pelo vitrô da sala para mais uma noite de aventuras. Livre como era, Minsk acabou morrendo atropelado. Depois de morto, passei meses vendo-o atravessar a sala bem rápido, como ele sempre fazia, esticado e arisco feito uma fuinha.

ZELDA, A DAMINHA DE FERRO

Zelda ganhou o nome do video-game favorito do seu dono, meu filho. Eu soube agora que ela é xará da filha do recém finado Robin Williams e que ele escolheu o nome pelo mesmo motivo. Sempre foi uma gatinha minúscula, desde quando chegou aqui, metida numa caixa de papelão com seus irmãos, usando uma fita vermelha no pescoço. Nós a escolhemos porque ela era uma bolinha branca de pelos macios como algodão, com retoques de nanquim preto espalhados pelo corpo e uma mancha preta bem no meio do focinho. Linda e brava, Zelda nos divertia intimidando gatos e cachorros muito maiores do que ela, inclusive um pitbull que pôs para correr na casa da praia. Quando fica brava, ela incha e dobra de tamanho, bota as orelhas para trás e bufa de um jeito tão ameaçador que nos esquecemos que ela é uma anã e nos recolhemos a nossa insignificância. Recusou-se a aceitar Muriel, uma gata linda que adotamos numa ONG. Abrimos mão de Muriel para a segunda candidata da lista de postulantes a mãe adotiva, porque Zelda simplesmente adoeceu de ódio e ciúme da concorrência. Diga-se a seu favor que ela suportou bravamente a presença de Carlinhos, a quem  rapidamente ensinou quem estava no comando e que se dedicou a detestar estoicamente por todo o tempo em que dividiram um espaço que era dela e do qual ela o deixava ocupar um cantinho. Porém quando a vizinha arranjou uma gatinha siamesa gorducha e mansa, Zelda enlouqueceu. Territorial, obsessiva, paranóica, passava o dia de cá para lá, a vigiar o terreno, mijando em tudo, especialmente nos eletroeletrônicos: a TV de LED, o monitor do PC, as caixas de som, o amplificador da guitarra. Acabou estragando o HD de um computador. Vimos então que ela estava sofrendo muito, tensa, agressiva, inquieta o tempo todo, torturando o pobre Carlinhos, nosso macho beta feminino e complacente. Meu pai tinha acabado de enviuvar e minha mãe e Zelda sempre se deram muito bem. Decidi fazer um teste: levá-la para morar com ele por uns tempos, até o surto passar. Convivendo com meu pai no apartamento, assumindo os territórios que haviam sido de minha mãe, sua poltrona, seu travesseiro, os recônditos de seu guarda-roupa, Zelda fez um pacto com meu pai, um acordo de convivência e lealdade entre mal humorados possessivos e obsessivos. Hoje os dois são companheiros e ele diz que ela o segue e cuida dele o tempo todo. O temperamento dela melhorou muito e Zelda, the iron maiden, virou uma gata de colo, podem acreditar.

CARLINHOS GUSTAV JUNG DA SILVEIRA:  A EMOÇÃO DE LIDAR

Na gaiola do petshop, a ninhada de vira-latas nos obrigava a parar ali todo dia, para brincar com aquelas belezinhas multicoloridas. Eu confesso que remanchei um pouco, antes de aceitar outro gato em casa. Já tínhamos vivido a tentativa malograda de adaptar Muriel e Zelda, e me parecia que um filhote iria deixar nossa caudilha ainda mais maluca de ciúme. Meu marido e meu filho fizeram contrapeso às minhas argumentações e Carlinhos veio morar em casa, pequeno e fofo, um perfeito rajastani, filhote de jaguatirica de olhos amarelos e interrogativos. Foi tão bom que me arrependi de não ter adotado outro filhote da mesma ninhada, um negão de olhos verdes, lindo, que eu sabia que ia acabar sobrando na gaiola, pelos motivos mais desprezíveis. Até hoje me dói essa culpa. Botei o nome de Carlinhos por causa da dra. Nise da Silveira, junguiana que amava gatos e introduziu os bichos terapeutas no reino criativo e amoroso do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ela tinha, entre muitos outros, um gato chamado Carlinhos, sujeito sofrido e com uma bela história, narrada num livro encantador chamado “Gatos: a emoção de lidar”. Daí o nome completo do nosso gato caçula, que também chamamos “o Bebê”: neto da dra. Nise e, portanto, bisneto em linha direta de Carl Gustav Jung, o grande pensador da cultura e criador da psicologia analítica. Meigo e fofo, um falador inveterado, dado a desenvolver longas narrativas, Carlinhos ficou um pouco marcado pela convivência difícil com a tirânica Zelda. Continua tímido, mesmo depois dela ter sido transferida para a casa do meu pai há já algum tempo, nos deixando só para ele.  Adora técnicos que vêm consertar todo tipo de equipamento, o pessoal dos cupins, pintores, pedreiros, instaladores de Tv a cabo e persianas em geral, o que revela sua boa índole. Na difícil provação que foi aprender a conviver com a schnawzer Frida, ele suportou com elegância a animosidade, os latidos agudíssimos (logo ele, que odeia barulho), as perseguições nada lúdicas pela casa. Portou-se como um perfeito cavalheiro, de A a Z. Interesseiro, um verdadeiro esteta na escolha de colos para dormir, Carlinhos escolhe criteriosamente o mais aconchegante em meio a todos disponíveis, tateia e afofa um pouco, para melhorar a textura. Então, depois de rodar em torno de si mesmo, ritualisticamente, por duas ou três vezes, ele se instala no colo eleito como se este fosse uma poltrona viva. Pode permanecer horas a fio aninhado ali, se o escolhido, digno de receber essa alta honraria, assim o permitir. Gosto muito de cães, mas o mistério dos gatos me intriga e atrai para essas criaturas belas e seguras de si, que nos amam e sabem, sim, demonstrá-lo, contra todos os preconceitos que o senso comum construiu a respeito deles. Ser misterioso e independente num mundo de gente óbvia e carente é uma ofensa, quase uma contravenção. Por isso eu amo os gatos. Tenho muito a aprender com eles, com sua diferença (e indiferença para com os caretas), eu que sou, por natureza, uma alma canina.

 Carlinhos medita

Onde está o herói?

Espelho encantado com a diferença

Aquelas revistas Manchete e Fatos & Fotos eram do mês anterior, mas a gente nem ligava. Pelo menos uma quinzena depois de terem saído nas bancas, elas aportavam lá em casa, dádivas requentadas oferecidas em terceira mão por uma prima, casada com publicitário. Primeiro iam para a casa da mãe dela, minha tia. De lá, derivavam para nossa casa, ainda muito inteiras, diga-se em favor de nossa “sócia” de reciclagem. Demorava um pouco, mas a gente aprendia a esperar com gosto. As revistas chegavam em casa e relaxavam, porque sabiam que, agora, durariam meses, quiçá anos. Da sala de estar, passariam ao quarto e do quarto, ao banheiro, onde ficariam até mofar ou se molhar em algum acidente com o chuveirinho. Ou  virar colagens, ter as modelos maquiadas com canetinha, as páginas centrais destacadas para encapar livros e cadernos, as fotos de ídolos fixadas com durex na porta do guarda-roupa… Na nossa casa, as revistas eram como os “animais úteis” de uma disciplina escolar  surreal, chamada Conhecimentos Gerais: tudo se aproveitava, carne, gordura, pele, ossos, dentes, unhas… E afinal, a dança cósmica de Shiva ainda não era tão frenética naqueles anos 1960-70. O prazo de validade de coisas, pessoas e relacionamentos tendia à longevidade. Tinha lá suas desvantagens, claro, mas, no geral, era bom ver o tempo passar e não ser atropelada por ele. Uma semana durava uma semana e não três dias. Dava para esperar cinco minutos sem surtar. Uma revista mensal resumia os eventos e durava, pelo menos, o mês inteiro. Perto de Caras e Veja, aliás, Manchete e Fatos & Fotos eram quase revistas Qualis. Heróis e vilões amadureciam, engajados na batalha do bem contra o mal. O Super-Boy teve tempo para ganhar experiência e se transformar no Super-Homem. Já os meus heróis brazucas favoritos e suas aventuras saiam em quase todos os números das nossas fabulosas revistas recicladas, tão exóticos e  familiares quanto as trincas de príncipes dos contos de fadas e das mil e uma noites que eu tanto gostava de ler. Na verdade, foram mais dois príncipes que três, porque Leonardo já tinha sido expurgado quando tomei consciência do quão interessante era seguir aquela aventura em eletrizantes capítulos mensais. Meu imaginário absorveu aqueles fatos e fotos como faz uma esponjinha nova. E nunca mais os esqueceu. Orlando cabeludo feito um hippie, barba de monge, óculos de fundo de garrafa, dançando, em fluxo, no meio dos índios. Cláudio, comedido e composto, quase um funcionário público de carreira que, no meio da tormenta, e tal qual o Super-Homem, entrava numa maloca, sacava fora a roupa cáqui sempre amassada e saía transformado no Super-Branco-Índio: o cabelo cortado de tigela, a pele riscada de urucum, a máscara de negro jenipapo no lugar dos óculos de aro grosso. Era o máximo. Eles eram o máximo. Os índios eram o máximo. Em meio a reportagens bestíssimas (até a gente, que era criança, desconfiava de tanto ufanismo) sobre o Brasil Grande e o avanço da gloriosa Transamazônica, que já então profetizavam o Novo Código Florestal e outros terrores desenvolvimentistas, os três apareciam às voltas com seu cotidiano que, para mim, era mágico: armando varais de quinquilharias, entrando, destemidos, no coração da floresta, oferecendo aos índios seus espelhos rendidos ao mistério da diferença, metidos em pajelanças, respeitosos nos rituais e animados nas festas, afetuosos, tão sistemáticos quanto amalucados no seu projeto de desvendar brasileiros ancestrais a brasileiros modernos. Todos três expressavam, cada um a seu modo e principalmente quando reunidos na formidável fraternidade chamada “irmãos Villas Boas”, o daimon do herói genuíno, o servidor do coletivo, protetor das culturas, mediador das passagens, mestre-aprendiz, guardião dos limites, que sacrifica sua vida pessoal por amor ao outro. Sempre haverá babacas para dizer que eles estavam alinhados com os militares. Porém, para compreender a missão dos heróis Villas Boas é preciso recuperar o arquétipo e abandonar os estereótipos, os ideológicos em especial. Para quem se refugia da complexidade do real em teorias, doutrinas e dogmas reducionistas de toda sorte, os Villas Boas são, de fato, impenetráveis em sua ambiguidade, irredutíveis como os mais irredutíveis gauleses de aldeia de Asterix, conquanto feitos de carne e osso e contradições. Por isso, achei da hora a ideia de Fernando Meirelles e Cao Hamburger de apresentar o trio a gerações que sequer imaginam que eles existiram, formada, em sua maioria, por tolinhos tão pretensiosos quanto órfãos de heróis que prestem, e brasileiros, anda por cima. Porque a nossa escola inútil não faz isso, ah, mas não mesmo… Afinal a odisseia dos Villas Boas não cai no vestibular. Aliás, com essa escola e nossa cultura com Alzheimer, a moçada anda mesmo precisando de quem se disponha a ajudá-la a conscientizar o arquétipo do herói, por meio de imagens poderosas e transformadoras como as do filme “Xingu”. Quem sabe se, expostos a elas, nossos jovens consigam escapar de uma existência vivida na sombra do herói, onde se tornam vítimas dos poderes defensivos e (auto)destrutivos do arquétipo. Numa cultura árida, materialista e rasa, filmes como “Xingu” funcionam como iniciadores dos cada vez mais frágeis egos jovens, aos potenciais criativos do arquétipo. Por fim, de todas essas imagens instauradoras (um antônimo para “redutoras”), a que ficou gravada mais fundo na minha memória foi a mesma da cena que encerra o filme de Hamburger: do lado de lá do varal de presentes vazio, a figura imóvel, ao mesmo tempo curiosa, tímida e ameaçadora, do gigante krenakarore todo pintado de negro. Uma visão numinosa, um relance do mistério daqueles que marcam a alma da gente para toda a vida.

Serendipities

No circo, com cavalo vermelho

Copiando Chagall para aprender a ver

“Do inglês serendipity: Descobrir inesperadamente uma coisa muito preciosa e importante, que não tem nada a ver com aquilo que, a princípio, se procurava. O significado do termo origina-se de uma fábula persa, ‘Os três príncipes de Serendip’, em que os
protagonistas revelam um dom natural para encontrar coisas de valor, sem procurá-las.”

Mariana procurava um versículo na Bíblia preta e encontrou uma pétala de rosa vermelha. Lucia  revirou o arquivo atrás de uma certidão e achou uma velha carta de amor. Cristina contratou uma boa empregada e ganhou uma amiga fiel. Helena andava atrás de um namorado e topou consigo mesma. Fernando perdeu o emprego e encontrou uma vocação. Beth foi fazer um curso de comida tailandesa e apaixonou-se. Eliza foi comprar um livro de Rosamunde Piltcher e descobriu Rosa Montero. Sueli revirava o dial atrás de Ivete Sangalo e escutou Billie Holliday, cantando “Blue moon”. Ricardo participava de um workshop, cochilou e sonhou que sobrevoava os Himalaias – sem avião.  Emília errou o caminho e conheceu um homem bom. Lília foi à igreja e viu Deus pela janela, sentado num banco da praça. Luís procurava um argumento mais forte quando percebeu que estava errado.  No caminho do supermercado, Silene encontrou um gatinho. Sofia plantou uma goiabeira e, anos depois, colheu muitas pitangas. Osvaldo zapeava atrás de um telejornal e caiu na teia de Almodovar. Dora ficou de repouso três meses e descobriu Amós Oz. Armando entrou no prédio errado e reviu um amor antigo. Me diga agora, sem pensar, qual é a sua serendipity?

A minha história da Mulher-Esqueleto

Clarissa Pinkola Estés reconta essa história da tradição dos inuit. Eu retomo o fio da mesma meada e conto minha própria versão, porque os contos são assim mesmo: são contas de um colar que vão se juntando a cada reconto, formando um círculo dentro do qual se abriga o significado. Se você quiser ler a versão de Clarissa, ela integra o capítulo 5 do livro “Mulheres que correm com os lobos”. 

MINHA VERSÃO

Era uma vez uma moça que desobedeceu seu Pai. Por isso, ela foi atirada no mar, do alto de um penhasco. O corpo dela despedaçou-se lá embaixo. Seu esqueleto, porém, aguentou bem a queda e não se estragou muito. Os peixes comeram sua carne e seus olhos, de modo que só sobraram ossos. Tanto tempo ela passou metida dentro da água que até as unhas e os cabelos desapareceram. Por causa dela, aquela linda baía, cheia de peixes, ficou mal assombrada. Ninguém mais ia pescar lá, com medo de não se sabe bem o quê.

O HEROI INCAUTO

O pescador nunca tida ido pescar por aquelas bandas, muito menos ouvido as histórias da enseada. Chegou lá com seu caiaque, olhou em volta, viu os peixes nadando quase à tona d’água e achou que tinha feito uma grande descoberta. Jogou a rede e logo sentiu a puxada. Ia ter peixe para mais de um mês, pelo tanto que  bicho pesava. No fundo, porém, a rede engachara nas costelas muito brancas da Mulher-Esqueleto. E ela sentiu que começava a ser içada para cima, em direção à superfície, rumo à luz do sol. Assustada, ela lutou como pôde, mas o pescador era forte e estava decidido a não deixar sua presa escapar. De jeito nenhum.

SUR-PRESA!

Quando a rede finalmente chegou à tona, o pescador deu um grito. Enroscada nos fios de seda, lá estava ela, a  Mulher-Esqueleto, muito lisa e limpa, o crânio redondo, os buracos vazios onde seus olhos haviam estado, o horrendo sorriso congelado na boca. Seus ossos estavam enfeitados de algas e corais, de conchas e cracas, mas isso não melhorava em nada a aparência dela. Ao contrário. O pescador começou a remar loucamente em direção à margem. Enredada, a Mulher-Esqueleto foi arrastada pelo caiaque, feito uma esquiadora macabra. O pescador arrancou o caiaque da água e o puxou, sem olhar oara trás, até o iglu que tinha construído nos arredores, pois pretendia ficar lá pescando por algum tempo. Embaraçada na rede, a Mulher-Esqueleto veio junto. Ele juntou a rede, sua preciosa rede, mas ainda não tinha coragem de olhar para trás. E ele se meteu no iglu, crente de que tinha se livrado da coisa medonha.

NÃ NÃ NÃ

Ele acabou de puxar a rede para dentro, com o coração aos solavancos. Foi só abrir melhor os olhos para constatar que os ossos da Mulher-Esqueleto estavam embaraços na rede,  barrando a passagem do iglu com a horrenda figura desconjuntada. Quieta. Parada. Pavorosa. Melancólica e humilde. Tanto que o pescador sentiu pena dela. Viu que era bobagem ter medo de uma coisa tão morta. Teve pena porque imaginou que ninguém chorara por ela, nem preparara o seu corpo para o funeral, nem invocara os deuses para que viessem buscar sua alma. Se ele não a desembaraçasse da rede, teria de jogar a ambas no fundo da enseada. E sua rede era tão boa, feita com fios de seda muito, muito resistentes. Então ele acendeu o fogo, sentou-se diante da Mulher-Esqueleto e começou o trabalho. Para não ter medo, ele trabalhava e cantava: “Nã, nã, nã…”. Ia desembaraçando e cantando. A Mulher-Esqueleto sentiu o toque das mãos quentes do pescador e teve saudade de sua própria pele macia. Ela sentiu os dedos dele passarem sobre as pranchas lisas de seus ossos e teve saudade do tempo em que tinha uma pele morna , que gostava de ser beijada. Por horas a fio o pescador trabalhou. Por fim, conseguiu reaver a rede e livrar dela a Mulher-Esqueleto. E tão cansado estava, tão acostumado com ela, que agora conhecia muito bem, que ele se meteu no saco de dormir, cobriu-se com a pele de foca e caiu num sono profundo.

UM CORAÇÃO DE CARNE E SANGUE

Foi o pescador dormir e a Mulher-Esqueleto acordar, com a luz da fogueira entrando pelos buracos dos seus olhos sempre abertos. Ela espiou ao redor e viu que ele dormia, exausto, metido no saco. Viu também que uma lágrima rolava dos olhos dele, uma desses lágrimas que escapam pelo canto dos olhos, quando sonhamos. Com os ossos estalando baixinho, ela recolheu a lágrima e a bebeu. Ela, que tinha vivido tantos anos metida em água salgada, sentiu passar enfim uma sede antiga, que a água da  enseada nunca pudera saciar. Então ela meteu uma das mãos no peito do pescador adormecido e de lá retirou seu coração quente e palpitante. Pôs o coração dele dentro da gaiola do seu próprio peito vazio e chamou: “Carne!”, com a voz sibilada de quem não tem mais língua. Enquanto o coração dele batia no peito dela, o corpo dela se recheava de vísceras, os músculos teciam-se para cobri-las e forrar os ossos e uma pele macia se estendia sobre tudo aquilo. Olhos escuros agora boiavam nas órbitas, pestanas e cílios brotavam como capim sobre a pele, lábios tenros floresciam, escondendo uma língua úmida e vermelha, mãos redondas e delicadas se desdobravam em artelhos e unhas, seios brotavam no peito…

DE VOLTA

De novo inteira, ela se meteu no saco macio, bem junto ao corpo dele. Recolocou com cuidado o coração dele no peito, pois agora tinha seu próprio coração de volta e não precisava de dois. Ele resmungou e abraçou-a. Morna e redonda, macia e satisfeita, ela suspirou e também adormeceu. Depois disso, eles continuaram juntos e partiram para longe, tiveram muitos filhos e nunca passaram fome ou necessidade, porque as criaturas da água, que era amigas dela, os protegiam e sustentavam.