Comédias profundas sobre ritos de passagem para adultos

Duas comédias, uma americana e uma francesa. Dois filmes para assistir muitas vezes e ir descascando, feito cebolas. Duas narrativas construídas em camadas (talvez até involuntariamente pelos roteiristas).  Histórias engraçadas e  profundas, verdadeiros tesouros sobre rituais de iniciação da vida adulta: “Se beber, não case” (“The hangover”, de Todd Phillips) e “A Riviera não é aqui” (“Bienvenu chez le ch’tis”, de Dany Boon).  Na primeira, três amigos programam uma tradicional despedida de solteiro em Las Vegas, às vésperas do casamento de um deles. Um quarto elemento – o irmão bobão da noiva – se junta de improviso à turma, no último momento. Esse personagem esquisito e irritante será o gatilho da aventura que todos viverão e que desencadeará mudanças cataclísmicas nas vidas de todos. Uma viagem coletiva ao mundo das sombras, guiada por um bufão dionisíaco, de onde todos retornam transformados, de moleques crescidos em homens de verdade. Na segunda história, uma pequena família complicada enfrenta as próprias fantasias de felicidade e infelicidade, quando o pai e marido, um burocrata dos correios, pede transferência para uma cidade da Riviera francesa e é enviado a Nord Pas de Calais. Entre expectativas traídas e preconceitos superados, as risadas fazem a gente pensar em como construímos nossos projetos sobre mentirinhas aparentemente inócuas, mas que nos impedem de viver a vida como ela merece ser vivida. Maravilhosamente engraçado, o filme aposta numa relação insólita entre o miniexecutivo contrariado e um carteiro abobalhado que, claro, servirá de guia ao primeiro em mais essa aventura  dionisíaca.

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Cinema e comida da alma: “Soul Kitchen” de Fatih Akin

O filme de Fatih Akin ( Alemanha, 2009) faz uma saborosa e original revisita ao mito do heroi, o que nasceu para servir. Não é para menos que seu protagonista é um alemão, filho de gregos, que mora em Hamburgo, onde toca um restaurante meio trash: o Soul Kitchen. Para ser tão fiel ao arquétipo, o herói só podia ser grego, certo? Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos, a cara e o jeito do Filipe, meu sobrinho) é o esforçado proprietário e chef do restaurante até que charmoso, mas mal cuidado, onde ele cozinha e serve congelados, em geral pratos engordurados bem ao gosto da clientela acima do peso. Esta, por sua vez, adora comer as gororobas que Zinos  prepara em sua cozinha bagunçada e anti-higiênica. Nadine, a namorada que vai morar na China e Illias, o irmão malandro em regime de semiliberdade que precisa de um emprego, fazem parte do inferno astral do pobre Zinos que, para piorar, ainda arranja uma hérnia de disco. Uma luz surge quando ele decide contratar Shain, um chef tão competente quanto doido que, depois de espantar a clientela fiel à junkie food de Zinos acaba por transformar o Soul Kitchen num lugar badalado e lucrativo. Mal sabe nosso herói que será traído por um amigo da onça, Thomas Neumann, corretor de imóveis corrupto que está de olho no ponto do Soul Kitchen. Para fechar seu ciclo de trabalhos de Hércules, Zinos terá de driblar o Imposto de Renda e a Vigilância Sanitária, tudo isso derreado por uma lancinante dor nas costas. Engraçado, ágil, inteligente, surpreendente, Soul Kitchen conta como a alma de Zinos se transforma no caldeirão de Moira, o Destino, à medida que é exposta às provas que a vida lhe propõe.