DSM-6a

maluco

Minhas contribuições pessoais para a novíssima edição da “Bíblia de Psiquiatria” (ótima essa metáfora, hein?), a DSM-5, recém-publicada nos EUA. Minha versão é o DSM-6a: “a” de alienígena e de apócrifo. Este post foi inspirado pela leitura de um artigo da Eliane Brum chamado “Acordei doente mental”, publicado no blog da autora:

– Transtorno Bipolar de Mãe de Adolescente (TBMA): A portadora fica radiante que seu filho está crescendo e se tornando independente E fica inconsolável porque ele não é o mais o seu bebê e não quer que ela lhe dê comida na boca em público. Ai, meu Deus do céu, o que é que eu faço agora?

– Síndrome de Poliana Menina, Moça e Velha ou Déficit de Malandragem: A(o) portador(a) tem uma canetinha dourada na bolsa, sempre pronta para transformar os borrões pretos da vida em elefantinhos, ursinhos, florzinhas e outras coisinhas fofinhas. Fofinhas. Fofinhas. Fofinhas.

– Transtorno Narrativo Obsessivo-Compulsivo: O portador tem uma tendência incontrolável para transformar (quase) todos os eventos da vida em história. Travado na fila do banco, ele imagina que aquela velhinha grossa que gritou com a caixa e pisou no seu pé para entrar na fila da terceira idade é, por exemplo, um psicopata serial-killer travestido. Ele começa então a imaginar uma história para ela, só para matar o tempo (desculpem o trocadilho).

– Transtorno Hiperativo por Carência de Limite (THCL) ou falso TDHA: Atinge geralmente crianças e adolescentes cujos pais e mães são uns bananas devorados pela culpa, que se submetem a todo tipo de humilhação pública e privada a fim de dar aos monstrinhos que pariram tudo aquilo que eles mesmos não receberam (e cujo valor pode ser bastante duvidoso) e em lhes negar tudo aquilo de que as pestes verdadeiramente precisam, ou seja: limite. Acostumado a confundir amor com objetos e com sujeição do outro às suas vontades e caprichos, o despótico portador desse quadro apresenta uma lista de sintomas extensa, entre eles: gritar e se jogar no chão para obter compensações não merecidas, comportar-se como um chimpanzé frenético em situações de interação social, chutar qualquer ser animado ou inanimado que se interponha entre o sujeito e o objeto de seu capricho, arrebentar brinquedos, roupas, gadgets tecnológicos (e mais tarde também carros), geralmente recebidos de graça, sem qualquer necessidade de contrapartida, xingar professores e desafiar autoridades em geral etc. Os pais acham que isso significa que seus filhos: (a) têm uma vocação para a liderança (de hordas selvagens, claro); (b) têm temperamento forte; (c) são crianças índigo (seja lá o que isso queira dizer). Os sintomas podem ser facilmente confundidos com os de TDHA.

– Síndrome da Pessoa de Cristal: As pessoas portadoras desse quadro caracterizam-se pela ausência quase absoluta de resiliência, não sendo capazes de suportar revezes, sentir tristeza, administrar frustrações, lidar com contrariedades, empatizar. Fequentemente acomete adultos que foram portadores de THCL na infância e adolescência. Os sintomas podem ser camuflados com o uso de antidepressivos e ansiolíticos, os quais, contudo, evitam que as causas sejam devidamente averiguadas e conscientizadas.

– Chocolatrismo Severo:  A combinação de sufixos é proposital, mesmo porque se trata de uma adição (ismo) e de um culto (tria) ao chocolate, essa dádiva dos deuses maias à humanidade, essa ambrosia do Olimpo, esse elixir da bioquímica das endorfinas, essa maravilha que derrete na boca, nhami, nhami…

– Transtorno da Negação da Queda do Muro (TNQM): Quadro grave, implica a negação obstinada da realidade objetiva, representada por fatos largamente comprovados, amplamente divulgados e facilmente observáveis. Inclui comportamento fanático, baseado em mecanismos de racionalização que objetivam transformar hipóteses em estamentos inquestionáveis e seres humanos em divindades acima do bem e do mal. Dogmatismo e irredutibilidade. Resistência à autocrítica. Mitomania. Autoritarismo e conservadorismo do tipo revolucionário. Paranoia. Comportamento pueril flagrante, muito embora os portadores geralmente sejam pessoas muito inteligentes e cultas. Tendência a matar mensageiros. Assemelha-se ao Transtorno de Apego à Queda do Muro de Jericó, de natureza religiosa. Também conhecido como APA (Alienação pelo Avesso).

– Semostrismo Narcisista Compulsivo-Obsessivo (também conhecido como Espelhismo): O portador tem uma atração irrefreável por espelhos de todos os tipos (reais e virtuais) e procura posicionar-se sempre diante deles para observar-se constantemente, usufruindo a exposição de sua autoimagem inflacionada e superestimada. Quadro clínico hipertrofiado por dispositivos como o Facebook e Instagram.

– Síndrome do Fodão-Merda – Descrita e nomeada pelo dr. Francisco Daudt, que era articulista do Revista da Folha, refere-se àquele merda que age como se fosse um fodão, ou seja, refere-se a todo ser humano que, ciente de que vai morrer e consequentemente se juntar a toda a escumalha humana no mesmo monturo, ainda se acha e faz questão te tratar os outros como se fossem inferiores. Costuma ser reforçada pelo  Déficit de Noção (ver verbete abaixo).

– Transtorno de Isolamento Social Induzido Digitalmente (TISID): Quadro cada vez mais frequentemente observado nos ambiente urbanos e com gradações de gravidade. Os sintomas incluem: conversar por what’s up do I-Phone com a pessoa que está ao seu lado na mesa, no carro, no metrô etc; sair com amigos e passar o tempo todo trocando torpedos com outros amigos; sair de casa de manhã e imediatamente ligar do viva-voz para o seu cônjuge ou o seu filho, que estava ao seu lado três minutos atrás; ir jantar com o(a) namorado(a), levar o tablet e ficar acessando e-mails na mesa, enquanto a comida não chega; terminar uma relação por what’s up; botar um tablet com “A galinha pintadinha” passando, dentro do carrinho do bebê, se possível enquanto ele ainda dorme, para ele não incomodar quando acordar; dar o I-Phone na mão da criança que quer atenção do pai ou da mãe para a formiguinha que está subindo na parede; dar um tablet de presente de aniversário para um bebê de dois anos e ficar orgulhoso do jeito como ele maneja a ferramenta etc.

– Déficit de Noção – Termo genérico e auto-explicativo.

– Síndrome das Listas Infinitamente Renováveis: Descrito com precisão e humor no filme “Alta fidelidade”, cujo protagonista é portador. Trata-se de uma ilusão de controle do caos da realidade concreta, instaurado por meio da instância lógico-verbal, ou seja, da elaboração de listas que são continuamente editadas, desdobradas pela explicitação exaustivametente revisada dos itens constantes das mesmas. Não adianta quase nada, mas dá uma sensação de poder…

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Contribuição da Juci, lá de Barê: “Eu sofro de TAF–Transtorno Analfabetismo Funcional : Pessoa que se reconhece nessa situação, quando lê a Mulher Esqueleto e percebe que ela escreve pra caramba.rsrsrsrsr”

Culta e grossa

medusa

Cultura e grossura. Por alguma razão insondável para mim, as duas jamais deveriam ter se tornado amigas de infância, já que sempre me pareceram, por natureza, auto-excludentes. Na minha cabeça reducionista, onde houvesse cultura não caberia a grossura e vice-versa. Falo da cultura (de humanidades en particular) como repertório pessoal, conquistado pelo sujeito ao cabedal de conhecimento coletivo acumulado ao longo dos milênios de nossa estada neste pobre planeta, e legado aos membros da espécie humana, cultura que deveria atuar, no sujeito e na minha fantasia cartesiana, como um elemento civilizador e não o contrário. Questão de simetria virginiana: a todo conhecimento adquirido “de fora” corresponderia uma ampliação da consciência do sujeito, um conhecimento de si que lhe permitisse, entre outras coisas, evitar as generalizações, investir na busca de uma autocrítica tão afiada e desenvolta quanto a crítica, mediar conflitos, treinar um olhar mais compassivo e integrador da diferença. Repiso aqui o clichê mais que avacalhado e que, contudo, permanece seminovo (na academia, pelo menos, com raras e honrosas exceções), da ciência com consciência. Seria algo como esperar que um “homem de Deus” fosse também um homem bom. Ou que fosse natural a um professor servir de modelo positivo de comportamento para seus alunos. Ou que um político tivesse inclinação inata à honestidade. É estúpido, eu sei, fantasiar que o contato aprofundado de um sujeito com alguma instância da cultura de humanidades deveria torná-lo, em decorrência, um ser humano melhor, um portador e agente da civilidade. Taí um termo que relaciono com cultura, nem sei bem o motivo, uma palavra que pede para ser definida, não por mim, mas pelo Aurélio. CIVILIDADE: “conjunto de formalidades observadas entre si pelos cidadãos em sinal de respeito mútuo e consideração; polidez, urbanidade, delicadeza, cortesia”. Vendo a coisa desse ângulo, a cultura adquirida que investisse de mais consciência seu portador, o dotaria, para começar, de uma visão mais nítida do outro, de uma aceitação da diferença no diferente que, justo por ser diferente, teria algo a lhe acrescentar. Daí o “respeito mútuo, a consideração, a urbanidade, a delicadeza, a cortesia” com esse outro: outras pessoas, outras opiniões, outros paradigmas etc… “Que venham os diferentes”, seria uma invocação digna de uma pessoa culta, “para me ensinarem o que ainda não sei”. E aí começa o problema, porque o mero ato de admitir que não se sabe alguma coisa é de uma civilidade que simplesmente não faz sentido no acervo de comportamentos do culto grosso. Observando como agem muitos daqueles que conquistaram o privilégio de receber uma formação humanista mais ampla, a gente acaba sendo forçada a concluir que não há nada mais equivocado que confundir cultura com civilidade, assim como religião não tem relação alguma com bondade, nem mestria com responsabilidade, nem política com ética. Saber não implica ser. Num mundo em que conhecimento é poder, a cultura sempre funcionou mais como arma letal, energia de dispersão sempre pronta a causar a destruição (nem sempre) simbólica do rival, expediente ativo-agressivo de sujeição e dominação dos que “não sabem” ou dos que “sabem diferente”, embora se trate de dominação e sujeição disfarçadas por sedutores discursos, geralmente impenetráveis aos leigos, discursos de poder, auráticos, repletos de construções e termos tão altissonantes quando a própria Palavra de Deus. Desencarnada, feita recheio untuoso e pouco nutritivo de cabeças falantes que não se deixam moderar pelo peso e os limites do corpo, do tempo e da mortalidade, a cultura virou cacife de carteirada. Confundida com dinheiro, ela é frequentemente sacada da cartucheira do doutor com a famigerada pergunta “Você sabe com quem está falando?”, disfarçada numa infinidade de versões. Talvez por isso, num momento da história do mundo em que tantos sabem tanto sobre tantos assuntos, continuemos reféns de uma miséria absoluta que nada tem de material e que, entre outras coisas, confunde o mero acesso a eletroeletrônicos e o consumo de iogurte industrializado com melhora na qualidade de vida. A extroversão perversa da cultura transformou-a em bugiganga, em verniz, em entulho dourado, e o currículo lattes, por vezes uma peça de ficção, tornou-se o cartão de crédito do Narciso acadêmico: quanto mais pesado de penduricalhos, mais respeitável será seu portador. Se ele tem algum lastro existencial que ancore essa persona hipertrofiada, ninguém sabe. E também não interessa. No reino das aparências, a cultura ostentada como símbolo de status não é menos vil ou cafona do que o carro, as jóias, as marcas, embora estas últimas sejam bem mais honestas naquilo que revelam dos ostentadores. Os cultos grossos sempre me remetem aos obesos mórbidos. Vejo neles o exercício do acúmulo de títulos como esporte, o excesso de gordura intelectual que a cultura retida a girar na órbita do umbigo do sujeito termina por desencadear. Os cultos e grossos me lembram de uma grande árvore que despencou, aqui mesmo, na minha rua, numa daquelas furiosas tempestades tropicais do verão passado. Sua queda revelou a exiguidade das raízes, frágeis, finas, curtas, incapazes de sustentar a imensa copa e o tronco grosso. Uma árvore majestosa, sem vida interior, pensei, quando a vi sendo fracionada pelas motosserras da prefeitura. A coisificação, a vulgarização (que nada tem de democratização), a ideologização da cultura não são novas, mas estão se tornando escandalosamente evidentes, como um rabo de dinossauro num cavalo puro-sangue árabe. O tema me chegou por conta de uma exposição, nas mídias digital e impressa, de uma certa luminar da academia, uma que se destaca por sua grossura tanto quanto pelo extenso cabedal de cultura que acumulou e gosta de exibir com notável agressividade. Trata-se de uma velha senhora que tinha tudo para trazer um pouco de sabedoria e equilíbrio a mais este momento sinistro da vida brasileira, todavia comporta-se em público feito uma menina mimada, contrariada porque os brinquedos não a obedecem como ela contava que fizessem. Muito ciência, nenhuma consciência. Copa magnífica, raízes anêmicas. Há mesmo algo de podre no mundo, quando pessoas cultas se manifestam nas mídias como seres humanos infantis, intratáveis, pequenas entidades raivosas, possuídas de empáfia e arrogância, dominadas unicamente pela soberba do próprio conhecimento. Se aqueles que, em tese, deveriam abrir caminho para o coletivo, na busca de uma vida mais autêntica, agem dessa maneira inqualificável, fica difícil imaginar uma sociedade que caminha para o amadurecimento político, para a justiça imparcial, para a melhora efetiva da vida de seus cidadãos. Em breve, com os cultos grossos deslumbrados cada vez mais ativados pelo narcisismo reinante, teremos pegas no ringue ao invés de debates. E será bem mais honesto, convenhamos.

Miasma

miasma

Tento estabelecer uma relação de proporção entre o dolorido desconforto com a falta de sentido que me envolve em determinadas circunstâncias da vida, e a dor coletiva, vasta, arrasadora, dilacerante da alma do mundo que acomete as vítimas de um genocídio, por exemplo, quando a falta de sentido atinge o zênite e o mundo inteiro se desconjunta. Não tem termo de comparação, claro. Mesmo assim, o miasma da falta de sentido que empesteia o cotidiano miúdo  não se deixa encobrir por fedores mais concretos como, por exemplo, o do rio Pinheiros em dias de grande calor. Os gregos falavam em miasma quando um membro da polis cometia um crime e permanecia impune, contaminando assim, com seu ato desprezível, toda a comunidade que não havia se engajado na reparação. Aquele algo de podre a que Hamlet se referiu, o miasma era, contudo, apenas o efeito de uma causa que clamava para ser exposta à luz da consciência coletiva. Como efeito, ele se manifestava sobre a comunidade na forma de peste, fome, guerra, loucura, entre outras mensagens politicamente incorretas enviadas pelos deuses que, desgostosos com o absurdo da situação, clamavam por justiça dos homens aos homens. Pensando em termos de miasma, dá para entender a pressa e a eficácia da Alemanha em levar a julgamento e condenar rapidamente os carrascos nazistas em Nuremberg. Dá para entender também o pântano no qual a democracia brasileira, e a latino-americana, com poucas exceções, continua a chafurdar (nosso miasma remonta à colonização), um brejo onde a vaca atolou aparentemente sem remédio e que se manifesta de muitas formas, sem iniciativa de reparação possível fora das manobras eleitoreiras habituais, todas, no fundo, em proveito dos que ocupam o poder. Ou talvez o miasma seja mesmo um subproduto daquela porção incorrigível de nossa sombra individual e coletiva, perpetuamente ocupada em produzir o mal puro e simples, o mal banal, como o chamou Hannah Arendt, já que me lembrei de Nuremberg. Nossa porção que milênios de cristianismo ajudaram apenas a escamotear, mas não a confrontar no tribunal de nossa boa consciência, obnubilada pelas ideologias políticas e religiosas. Nosso gêmeo encruado, o monstrinho que vegeta nos desvãos de nossa natureza e que é diabólico apenas porque se dedica a nos manter rachados ao meio, contra todas as oportunidades de integração que a vida oferece. Ultimamente estamos às voltas com a polarização oposta, tão perversa quanto: a banalidade do bem, em que bandidos e assassinos nadam de braçada num mar de direitos do qual suas vítimas estão impedidas de se aproximar. Claro que lidar com a imagem do miasma pressupõe uma capacidade óbvia de imaginar, coisa que pouquíssima gente sabe fazer hoje em dia, à pouco honrosa exceção dos delirantes patológicos e usuários de drogas alucinógenas. O miasma baixa quando o sentido se ausenta e nada é feito para recuperá-lo. Daí esse desconforto de que eu falava lá em cima. Estou, no momento, tentando reparar as causas de um miasma, ainda que apenas subjetivamente e por escrito. Um miasma de família. Estou, no momento, sob o efeito de um miasma que não posso dissipar porque não estou implicada em suas causas. Fui envolvida por ele inadvertidamente, como acontece quando desempenhamos o papel do inocente capturado no vórtice da loucura alheia, em que o alien é um outro que acreditávamos conhecer e amar. A banalidade do bem ataca quando abrimos nosso coração para a pessoa errada, certos de que nossa generosidade só pode gerar mais generosidade em troca. Ledo engano. Pior é perceber que caímos na armadilha de nosso próprio bom-mocismo, como se Poliana tivesse se aliado a mr. Hyde para armar essa tocaia. O complô do inconsciente, como diria o Rafael Lopez-Pedraza. Quando a loucura está no poder, o amor cumpre pena.