Xerecas, amotinai-vos!!!

Está no jornal de ontem. O tribunal do santo ofício da vez foi novamente fruto de um arranjo muito bem sucedido, armado entre Igreja e Estado, os dois maiores bullies da história do mundo. Neste caso, trata-se do soviete supremo versão 2.0 e da igreja ortodoxa russa. As rés são três garotas desbocadas, condenadas a três anos de xadrez. Assim a banda expressivamente intitulada Pussy Riot (algo como “rebelião da xereca”), uma obscura formação de tendência punk proletária, foi alavancada à súbita fama internacional, tendo reunido defensores em todo mundo, de hipócritas como o governo dos Estados Unidos da América a autênticos, como o eterno Beatle Paul Mc Cartney. Segundo a sentença da juíza ou grande inquisidora, à escolha, as perigosíssimas Nadezhda, Yekaterina e Maria Alekina pagam pelos crimes de sacrilégio, blasfêmia e quebra das regras da igreja. Tiveram sorte. A última herege condenada pelos mesmos motivos foi mandada para a fogueira, a fim de ser purificada dos seus pecados e consequentemente aceita no paraíso. Ao longo dos últimos 5000 anos, pelo menos, esse pacto infalível entre Deus e o Rei tem assegurado o sucesso retumbante do patriarcado calhorda, entronizado sem concorrentes no Oriente como no Ocidente, à esquerda como à direita.  O objetivo é, como sempre foi, desqualificar, submeter, amordaçar, domesticar, encarcerar, adoecer, lobotomizar, humilhar, seduzir, estuprar, ensandecer e abandonar  (quase não consegui sair da primeira conjugação, gente!) o feminino, essa estranha condição, e suas ameaçadoras representantes, herdeiras de Anaith, Cibele, Inana, Eva, Ceridwen e Diana dos efésios, entre outras, de cuja natureza misteriosa, curiosa e pecaminosa os neopatriarcas mercadocratas continuam a se proteger, conquanto lançando mão de novíssimas estratégias de sedição e exploração. É verdade que as três (e não 300.000) xoxotas rebeladas entraram na Catedral do Cristo Salvador para chamar os padres de vendidos e pedir à Virgem Maria para livrá-las de Putin (talvez tenham pedido à virgem errada, só isso). Disseram o que todo mundo já sabe há milênios e o que muitos russos desejam do fundo do coração. Como Lilith, a primeira esposa de Adão, reclamaram que gostariam de ficar por cima, de vez em quando. Como Lilith, foram transformadas em diabas e enviadas para uma temporada no mundo inferior, para aprenderem quem é que manda. Militantes da ecologia e dos direitos das mulheres, não devem ser lá grande coisa em matéria de música (como letristas, pelo menos, deixam muito a desejar), mas isso é o que menos importa aqui. No tribunal, riram o tempo todo da piada grotesca que se desenrolava ao redor. Corajosas, mantiveram-se bonitas e não perderam o senso de humor, para contrastar ainda mais com a feiúra e a estupidez reinantes, mistura do pior do comunismo com o pior do capitalismo confundido com democracia. Cafonice perversa. Espero que esses três anos de cana, caso a sentença termine por se cumprir, tornem as garotas mais rijas, sensíveis e sábias, menos temerárias e mais estrategistas, menos ingênuas e mais poéticas. Afinal nada como uma viagem ao reino das sombras da infernal, feroz e invejosa Ereshkigal para dar têmpera e  profundidade à amorosa e iluminada Inana de Babilônia. Para nós, as fêmeas que lemos as notícias e respiramos aliviadas com nossas liberdades de coleirinha comprida,  satisfeitas com as miçangas, espelhinhos e restos do banquete que o neopatriarcado balança diante dos nossos olhos vidrados, que achamos que virar Barbie na capa de Nova e ser alçada ao cargo de favorita do Papaizão corporativo é chegar ao topo da cadeia alimentar, uma sugestão: acordemos, nem que seja ao som dos insuportáveis ganidos punks das xoxotas amotinadas. Vamos ler mitologia, conhecer Jung e sua turma de rebeldes da imaginação e do sentimento descartados, pesquisar sobre a Grande Deusa em suas infinitas versões, sonhar e anotar os sonhos, convocar imagens de mudança, descobrir que a história não começou nem no Éden, nem com o nascimento de Cristo, nem com as teorias de Freud, nem com a Revolução Russa. Ela começou muito, mas muito antes. Só que ninguém conta a primeira parte. Vamos lá descobrir o porquê.

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“Valente” ou mulheres que correm com os ursos

“Valente” (Brave) é a mais nova animação dos divinos moleques da Pixar. Só isso já bastaria, na minha modesta opinião,  para arrastar qualquer um até o cinema mais próximo. A menos que você tenha sido convencido pela crítica rasa e pretensiosa de que a Disney aguou a Pixar, o que é uma mentira das mais deslavadas. Bem ao contrário, foi a Pixar que deu sustança à Disney e ainda baixou drasticamente seus níveis de açúcar . Ou que você não tenha assistido, por motivos inconfessáveis,  “Procurando Nemo”, a trilogia “Toy Story”, “Wally”, “Enrolados”e assim ainda não foi fisgado pela magia. Ou ainda que você acredite que a Pixar faz filmes “para crianças”, conclusão que encerra duas bobagens fundamentais: (1) a de que você não é criança e (2) a de que existe essa besteira de “gênero infanto-juvenil”, como se as coisas lindas e boas feitas para crianças e adolescentes não pudessem ser fruídas por gente de todas as idades. Tudo bem, a menos que sejam artistas, os adultos são seres humanos que perderam a graça, a espontaneidade e a capacidade de imaginar, maravilhar-se e brincar. Portanto, as belas produções da cultura destinadas às crianças deveriam servir, no minimo, para aliviar  tanto”sabidismo” e confrontar as ingênuas reduções realistas dos adultos (pra mim, realista mesmo é Machado de Assis e ponto final).  Esclarecido o motivo que impediu você, até aqui (se é que impediu), de se esbaldar com a turma da Pixar e suas histórias, vamos falar delas: as histórias. Além de dominar as imagens digitais com maestria semelhante a de outras produtoras que fazem coisas parecidas, a Pixar, porém, não abre mão da qualidade da história que quer contar. Essa obsessão por uma história bem urdida, amarrada, redonda e fluente faz toda a diferença, já que é ela a rede de sentido que sustenta a parafernália dos efeitos especiais e os coloca a serviço daquele enredo que levamos conosco, ao final da experiência, e que continua, dentro de nós, a gerar imagens e reflexões, como este post bem pode confirmar. Como todo mundo sabe (generalização irônica), não existe  performance tecnológica capaz de salvar uma história ruim, empastelada e oportunista. E embora “Valente” seja visualmente lindo, caprichadíssimo, de encher os olhos, como tudo o que a Pixar faz, é a história, como sempre, que nos pega e nos carrega para as profundezas misteriosas da alma, individual e coletiva, a dimensão de nossa vida psíquica que se nutre de fantasia, seja essa fantasia um paraíso após a morte, a trama da novela das 9, o enredo de uma ópera ou o último livro de Amos Oz. Em “Valente”, a Pixar explora o território do feminino selvagem, tema de “Mulheres que correm com os lobos”, o best-seller da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés que muita gente comprou, mas pouca gente leu. Os roteiristas (primeiro uma mulher, depois um homem) beberam de diversas fontes míticas para construir a história, que se desenrola em algum lugar do passado, numa Bretanha celta e pagã.O arquétipo convidado, da Mãe-Filha, brilha através das imagens, dando o toque universal e profundo às estrepolias de Merida, uma garota de emaranhada cabeleira ruiva, indomável como sua personalidade. A rainha, mãe de Merida, é tão amorosa quanto convencional, completamente focada na missão de fazer da filha a princesa perfeita. O rei, por sua vez, é um grande sujeito, dividido entre o orgulho e a admiração que tem pela filha, uma hábil arqueira e cavaleira, e as pressões da vida política, que o forçam a usá-la em favor da união dos clãs, por meio de um casamento arranjado com um filho de chefe. O time de personagens masculinos de “Valente” é de primeira: os trigêmeos endemoninhados, irmãozinhos caçulas de Merida; os chefes dos clãs e seus filhos e pretendentes à mão da princesa, todos ótimos e engraçadíssimos; o impagável e dividido rei-perneta; o príncipe da história dentro a história, que a própria violência e arbitrariedade condenaram a viver na bestialidade, a sombra da natureza selvagem… Todavia é mesmo a mulherada que bota para quebrar na trama de “Valente”, em todos os escalões: a rainha, enquadrada demais, precisa de uma dose de sangue selvagem aplicada diretamente na veia, não apenas para compreender e valorizar a conduta da filha, mas também para integrar sua própria natureza instintiva e indomável; Merida, heróica demais, auto-referente demais, precisa, ao contrário, amadurecer e integrar o feminino civilizado que ela tanto despreza, com sua capacidade de mediar conflitos, negociar,  promover relações; a fabulosa bruxa carpinteira, que coloca Merida e a rainha Elinor na trilha da verdadeira aventura, é uma figura à parte, imprevisível, caduca, a perfeita mulher medial, a velha sábia e perigosa; até Maude, a empregada peituda e medrosa, tem seus momentos de roubar a cena. Atalanta, Ártemis, Vassilissa e outras tantas imagens míticas do feminino selvagem aparecem rebatidas sobre a figura de Merida, propondo um jogo de união de opostos que se desequilibram e compensam, na busca pela inteireza perdida ou ainda não conquistada. Ninguém sai incólume de “Valente”. De cara, a gente ganha um daqueles adoráveis curtas de animação que a Pixar faz como ninguém: “La Luna”, uma história de homens, tão linda e simples que quase eclipsa o longa que vem depois dela. Mas não chega a eclipsar. Só equilibra.

… e o velho volta a servir

Como deixar de fora a Frida?

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo

” Despreza-se o amor velho pelo novo, o novo vai e o velho volta a servir”, dizia minha mãe que, junto com Caetano Veloso, faz anos no dia 7 de agosto. Para provar que, como todo leonino, ela estava certa, aqui estou eu, escrevendo este post num notebook-estepe lento, burro e vira-latas. É que o meu reluzente mac sucumbiu às potências do inconsciente e não aguentou o tranco da última retrogradação de Mercúrio, meu duplo regente (sou Virgem ascendente Gêmeos). Meu mac pifou vergonhosamente, por sorte dois meses antes de vencer a garantia. Diferentemente de Steve Jobs, coitado, se minha máquina não tiver conserto, será substituída por outra, menos suscetível às flutuações zodiacais. Vamos, porém, voltar a minha mãe e seus ditados, herança de uma linhagem de “mulheres engolidas”, como a Metis grega, e que passaram a vida refugiadas no rés do chão da natureza feminina, a pretexto de sobreviver à calhordice patriarcal.  Guardo dela uma coletânea desses lugares-comuns que, se já tiveram o poder de ativar  fantasias matricidas, hoje me divertem e ensinam. À medida que a camada semântica superficial que os recobre vai oxidando, ficando quebradiça e caindo aos pedaços, vou descobrindo, encantada, camadas e mais camadas de imagens vivas, inquietas, suculentas. Tal como seus ditados gastos e remendados, também minha mãe pouco a pouco vai soltando as cascas e peles que  retiveram seu crescimento e a reduziram aos meus olhos. Decidi eu mesma, desde sua agonia, tomar parte dessa derradeira metamorfose. Peguei uma carona no voo da borboleta que se liberta com a dilaceração da pele da lagarta. Tenho provado a doçura dos caroços que a romã só pode oferecer depois da ruptura irreversível da casca, feita da sobreposição de tantas personas, blindagens, condicionamentos, complexos, retoques, de tanta lealdade e servidão ao coletivo e seus julgamentos. Todavia compreender a degradação da pele da lagarta, a fragmentação da casca da romã não é coisa dada. Deve-se aceitar algumas condições nem sempre agradáveis, deve-se obedecer às etapas de um ciclo vagaroso, sutil, aparentemente truncado que demanda muito trabalho invisível por parte de nós, os vivos, com frequentes descidas à escuridão labiríntica das minas da vida subjetiva. Nos meus sonhos, nas minhas flutuações de humor, nas lembranças recuperadas, nas visões da minha própria alma incubada, minha mãe retorna, um holograma vagarosamente desvelado no interior da retorta do alquimista: sendo e não sendo ela, sendo ela e sendo eu, sendo todas as que vieram antes dela, sendo todas as que virão depois de mim. O novo que se vai depois de algum tempo é o provisório e descartável, o que desbota, pega cheiro e perde as tiras. Já o Velho que volta a servir, depois que o prazo do “novo” expira, não é nem senil nem precário nem frágil nem dependente nem anacrônico. É fundador, original, radical, pristino, reparador. Passou de boca em boca, de mão em mão, de cultura em cultura sem se desgastar nem perder o viço, palpitando sob a banalidade redundante da vida (que só pode ser banal para quem a enxerga com olhos banais). O Velho arquetípico, que reenvia o estereótipo provisório e raso à sua natureza perene e profunda, esse Velho nos servirá sempre, na medida em que nós também o servirmos e honrarmos. Vai-se assim a minha mãe pessoal e vêm tomar seu lugar a Mãe transpessoal, a Grande Senhora de muitos rostos, ritmos e humores: Cibele, Shekinah, Ísis, Gaia, Demeter, Diana, a Virgem Maria, Pachamama, a Mulher-Aranha, imagens do feminino das quais minha mãe nunca pode desfrutar, porque sua religião a interditou delas.  Então eu faço isso por ela e sei que agora ela me compreende. Engraçado. Comecei este post  querendo escrever sobre a espetacular animação ” Valente”, da Pixar, mas tive de deixá-la para o próximo, embora aqui o assunto já tenha sido bem introduzido. Minha mãe se interpôs, até porque hoje é seu aniversário.