#belo, recatado e do lar

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R. já foi herói, numa encarnação vivida e, felizmente, esgotada. Ele se lembra dela como de uma bad bad trip. A história foi normal: o chamaram de fora e ele saiu desembestado. Derrubou portas, cruzou pontes levadiças, decepou a cabeça da Medusa, cavalgou em demanda do Santo Graal, matou alguns leões e foi devorado por outros, deu conta de doze trabalhos sem ter um deus a quem dedicá-los no final. Escalou o despenhadeiro rumo ao topo e de lá pôde ver milhares de cadáveres juncando a planície, apodrecendo. Virou zumbi e depois escravo, por artes de um poderoso feiticeiro do mercado financeiro, salvou uma princesa, contrariada, de ser ela mesma, perdeu sua alma não poucas vezes, a maioria no mesmo casino vagabundo de fachada resplandecente. E cada vez ele a recuperava, a sua alma, mais desfigurada e mutilada. Por fim, seu coração terrorista explodiu dentro do peito no meio de uma reunião com clientes estrangeiros. A pedra rolou de volta e passou por cima dele, arrastando-o consigo para as profundezas do abismo. R. caiu do cavalo no caminho de Damasco e, ao contrário de São Paulo, o apóstolo, mergulhou nas trevas dentro. Muitas e densas contudo penetráveis. Sem trevas, sem iluminação, sis, porque nesta vida não tem almoço grátis. R. passou um longo período vivendo no fundo, onde consertava portas derrubadas por ele e outros heróis reenviados aos próprios limites. Aos poucos, a reclusão forçada transformou-se em recolhimento voluntário e a depressão que não ousa dizer seu nome sussurrou-lhe ao ouvido: sou sua dor. Nessa fase, dia sim, dia não, a cabeça decepada da Medusa aparecia para tomar chá. Não demorou para R. perceber o quanto ela se parecia com sua finada mãe. Certa manhã, enquanto limpava o guarda-louça, ele descobriu o Santo Graal lascado, enfiado no fundo de uma prateleira. Estava lá o tempo todo. E mesmo lascado, era o seu Santo Graal. Fantasmas de leões aniquilados e espectros de velhos sonhos mal digeridos pelos leões que sobreviveram a sua espada vinham sempre rondar seu sono. Ele registrava essas visitas noturnas nas páginas remanescentes de velhos cadernos de receita e depois lia seus relatos para a terapeuta holística, uma senhora de cabelos de bombril, muito atenta, o sorriso maior que a boca. R. vendeu o apartamento equilibrado no alto de uma gélida torre e comprou uma casinha térrea numa vila, com quintal e jardim. O quintal, ele varre três vezes por dia, como forma de meditação animada. O jardim, R. plantou muda por muda e molha religiosamente, ao nascer e ao por do sol, com água de uma cisterna que ele mesmo construiu. Quando chove, R. se farta de escutar o velho som hipnótico das gotas nas calhas enquanto relê Rilke e “Mulheres que correm com os lobos”. Passados uns meses da queda, ele decidiu trocar o carrão por um carrinho de feira. Mais uns meses passados e ele descobriu, surpreso, que podia fazer a própria comida sem delegar aos outros o prazer de lidar com as delícias do mundo concreto. Dispensado de correr e vencer maratonas, ele agora caminha, desfruta a paisagem e, se calhar, ainda ganha o dia. Da produtividade à fecundidade, porém, foi um árduo percurso. R. aprendeu a fazer pão com uma senhora gordota que dá conselhos tolos e ótimas receitas numa revista vespertina da TV. Embora não seja propriamente um virtuose, o perfume saído do forno enche a casa e inebria seu coração remendado. Os companheiros de sua antiga ordem têm pena dele e ele, por sua vez, tem compaixão deles. R. também aprendeu a conversar com os diferentes, entre eles as vizinhas gêmeas octogenárias. Já íntimas, elas lhe contaram ter sido, alternadamente, amantes do mesmo homem por quase vinte anos, até a morte dele. Garotas interessantes para quem antes ele não dedicaria um segundo de seu tempo, quanto mais um olhar de desprezo. Enquanto pratica hatha ioga, R. escuta os eternos concertos de Bach para violoncelo. Inspirado num ásana e no ronronar do instrumento, adotou três gatos escalavrados e cuidou deles como Florence Nightingale cuidaria da própria alma ferida por um morteiro. Os três vingaram, mordem a mão que os alimenta e enfeitam a casa, sagrados e indiferentes. Por fim, R. percebeu que tinha um filho de nove anos, criança mimada, terceirizada e com veredicto de hiperatividade, conquanto prenhe de possibilidades sequer ensaiadas desde o nascimento. Disposto enfim a aceitar o papel, R. decidiu tomar para si a responsabilidade pelo cultivo dessa pessoa em botão, enquanto ainda há tempo para fazê-la medrar. Dessa maneira, agradou deveras a ex-princesa, liberando-a de todo para se tornar a rainha amazona que ela sempre sonhou ser, bem como para viver o tipo de vida do qual ele foi, por sorte, expropriado. Quando mamãe sai em viagem de negócios, ele e o menino vão pescar em Paraibuna, fazer lasanha, dar banho nos gatos, vagabundar, ler gibis. Agora ele tem o que legar ao filho, além de coisas. Foi só depois de entender isso que R. conheceu uma mulher que também adora cinema, aprecia ficar ao lado de alguém lendo em silêncio e, de modo geral, sabe dar valor a perdedores com conteúdo. Ambos se entenderam nos principais quesitos e bastou. Ela tem vocação e carreira, mas não é adicta. Fizeram um pacto que, ao que tudo indica, vem funcionando agradavelmente. Ele mantém seus dias de trabalhar “fora”, contudo ainda prefere ficar dentro, por exemplo, entretendo planilhas enquanto assa um bolo. A vida prossegue, a pendular entre polaridades. R. ama as prendas domésticas como nunca amou o mercado financeiro. Opressão era antes. Mas acabou.

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O sonho acabou

A democracia é um tipo de governo que opera pela vontade da maioria. O PT, de tanto mirar o próprio umbigo e se confundir com a democracia, impediu-se de apreender a essência dessa máxima incontornável. Para o partido do governo, democracia é só quando a maioria está a seu favor. Se estiver contra é golpe, fascismo, vai ter guerra e outros lugares comuns igualmente deletérios da reflexão crítica. Uma visão pueril, calcada em qualquer ideologia que funcione pela redução do mundo a dois campos de batalha mutuamente excludentes. Qualquer mesmo. Lamento que tenhamos chegado a esse ponto, levados pela insensatez da presidente e por sua incapacidade de antever os problemas e pedir ajuda em tempo hábil para encaminhá-los de modo razoável. Agora ela melancolicamente afirma que, se sobreviver, proporá um pacto. Agora? Carente de sabedoria e de outras qualidades femininas positivas, como a capacidade de reunir ao invés de dissociar, a presidente amarga as consequências de sua teimosia, arrogância e procrastinação. Nada mais anti-democrático que a ânsia de se perpetuar indefinidamente no poder e a qualquer preço, de qualquer jeito, fazendo qualquer coisa. O PT e seus mentores ainda têm muito o que aprender sobre a sombra que um ego dessa envergadura projeta e que termina por se voltar contra ele. Prova disso é a Lava-Jato, que refundou o PT e aqueles seus valores antes inegociáveis. O vasto ego petista, em nada melhor do que aqueles que o precederam no poder, não apreende metáforas, por excesso de materialismo sem imaginação. Mesmo assim, desconsiderando o mito e suas lições, atuando o mito ao invés de aprender com ele, o governo está sendo reenviado aos próprios limites, depois de uma hybris avassaladora. Pode aprender com a experiência ou se tornar ainda mais defensivo, reducionista e impermeável do que nunca, heróico que é. Pode recolher-se e revisar humildemente seu projeto ou pode botar suas hostes na rua, para matar ou morrer, por não ser capaz de aceitar o funcionamento democrático de uma sociedade pluralista. É espantosa a semelhança entre coronéis de direita e messias de esquerda. Eles são a cobra que engole o rabo. Todavia o sonho acabou e a vida desperta dá muito mais trabalho, ainda mais em meio à crise geral. Para os que ainda não perceberam a extensão dessa calamidade, o impeachment de um presidente é a humilhação generalizada e compartilhada por todos, seus eleitores ou não. Nada a comemorar portanto. O Brasil está de luto mais uma vez, por seu sebastianismo infanto-juventil que, aliás, já vai tarde.

Naum, meu profeta menor

naum 1Hoje morreu Naum, xará de um dos chamados profetas menores do Velho Testamento, que conheci faz exatos dez anos, durante a produção de uma festa em que eu estava envolvida. A arte na escola era o tema do evento. Quando me pediram sugestões sobre o que apresentar, me veio na cabeça, feito um raio, a cena da prova de artes da peça “A aurora da minha vida”, seu maior sucesso de público e crítica e minha favorita de sua obra, por muitos motivos. A Mônica, que naquela época era uma amiga recém-adquirida, saiu no rastro dele e o encontrou posto em sossego na sua casa em Pinheiros, entre gatos e outras coisas bonitas que ele sabia amar, fazer e reunir. Quando cheguei para uma reunião da tal festa, ele já estava lá, sentado na mesa com aquele sorriso de Monalisa estampado na cara. Quase tive um siricotico. Fiquei olhando para ele e sorrindo de volta, do outro lado da mesa, feito uma palerma. Por sorte, ele adorava palermas. Ficamos amigos. Fizemos o roteiro da tal festa juntos. Fui à casa dele uma ou duas vezes e a gente mais falava bobagem, ria e comia salgadinho japonês do que trabalhava. Naum era uma metralhadora de comentários hilariantes que sempre roçavam o catastrófico, o que os tornava ainda mais hilariantes. Tinha um repertório de tipos maravilhosos, que iam de piedosas velhotas perversas a fervorosos pastores gays, uma imaginação incontrolável e um vocabulário bíblico estupendo, fora os hinos estapafúrdios (e também os bonitos), os corinhos dementes, as citações descontextualizadas que, virava e mexia, ele sacava da cartucheira. Naum era de uma incorreção política escandalosa, não haveria de sobreviver muito tempo à estupidez totalitária das minorias militantes. Era uma espécie de irmão mais novo, mais desbocado e muito paulista de Nelson Rodrigues. Só quando o conheci e conversamos um pouco mais foi que descobri que tinha sido ele o trickster que, na aurora dos anos 1980, plantou na minha alma uma semente de heresia que só haveria de medrar bem mais tarde, sob condições atmosféricas muito tempestuosas. Na verdade, conheci Naum muito antes, em 1981, quando fui ver pela primeira de quatro vezes “A aurora da minha vida”, num festival de teatro que rolou no Municipal, com as melhores peças do ano a preço de banana passada. Um luxo impensável para nós, durangos kids. Naum e Maria Adelaide Amaral puxavam o cordão de ouro, ela com “Ossos do Ofício” e ele com “A aurora”. Acho que era o Pessoal do Vitor que encenava a peça dele, porque me lembro do Paulo Betti e da Eliane Giardini bem mocinhos, fazendo o Doido e a Adiantada, entre outros personagens que salvaram a minha alma do limbo do grupo escolar da ditadura aonde ela ainda penava de vez em quando. Aquilo foi pura catarse aristotélica, um milagre de Dioniso. Ri, ri, ri de ficar doente, de doer o peito, de perder o fôlego e também de chorar. OK, todo mundo ria, mas eu ria mais do que todo mundo e até das coisas que pareciam não ter tanta graça assim. Naum, o profeta menor, estava me curando com seu teatro. Depois vieram “No Natal a gente vem de buscar”, com o grupo Pod Minoga, e “Um beijo, um abraço, um aperto de mão”, com o JC Violla e a Cristina Mutarelli, e a magnífica montagem carioca de “Suburbano coração”, com Fernanda Montenegro e Otávio Augusto, peça musicada por Chico Buarque com canções pra lá de inesquecíveis. Eu pensava em como alguém podia ser tão irreverente e tão reverente, tão livre daquele mundo pegajoso e o  mesmo tempo tão acorrentado às suas imagens e recordações. Naum rasurava e demolia sua própria tradição religiosa para reenviá-la ao sagrado, que há muito andava distante dela. Segundo o profeta menor Naum Alves de Souza, o riso era o único caminho para se chegar a Deus. A beleza também, mas quando se tratava dele, riso e beleza eram companheiros inseparáveis. Artista plástico completo, inventivo, original, multimidia, sou a sortuda possuidora de um deslumbrante casaco de shantung vermelho, dourado e laranja todo desenhado (literalmente) por ele, a roupa mais linda do meu armário, comprada por meu marido num bazar de natal que Naum inventou com duas amigas. Da última vez em que estive com ele, numa exposição no espaço de dança do JC Violla, ri, ri, ri de chorar e perder o fôlego, enquanto desfilavam diante de mim seus desenhos deliciosos, bizarros, provocativos, acompanhados de textos engraçadíssimos, absurdos e também canônicos. Sagrado e vulgar, doutrina e loucura, pureza e perversão, todos os opostos se misturam sem nenhuma decência mas com toda compostura, na obra de Naum, histriônico e escatológico como terão sido os verdadeiros profetas, já que sua missão era sacudir os alicerces do estabelecido e convocar o novo, nem que fosse a golpes de malho. Obrigada, querido, pela sua coragem, talento e senso de humor. Obrigado por ter me ajudado a reciclar e ressignificar minha herança protestante. O Brasil atual, das figuras reptilianas que se arrastam muito abaixo da linha da mediocridade, ficou hoje ainda mais babaca. Com tanto estafermo que bem podia bater as botas, vai logo o Naum, logo ele. Uma merda. Vai entender. Parece bem coisa dele.

P.S. – Ontem me lembrei de que o Naum me chamava de menina-pastora, pura gozação baseada numa garota de uns 12 anos que pregava o evangelho no youtube do jeito mais, digamos, heterodoxo.  naum 3