Fantasmas

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“A colina escarlate”(Crimson Peak, 2015) é meu tema do Dia dos Mortos deste ano e o filme mais recente de Guillermo Del Toro, mexicano que ocupa um lugar de honra no meu panteão de diretores arquetípicos. Um genuíno filme de fantasma, coisa que Del Toro sabe fazer como poucos hoje em dia, com sua fina intuição para o manejo da metáfora. Se você tem medo de fantasma, não assista. Mas se, como eu, os fantasmas ressoam no seu mundo interno, coragem. Você não vai se arrepender. O filme recupera o melhor da tradição literária gótica vitoriana, seja na construção dos personagens, seja na estruturação da narrativa,  seja na ambientação pesada, opressiva: climas, adereços, figurinos e cenários, tudo coopera para espelhar a alma e seus labirintos. Do começo ao fim, permanecemos dependurados de cabeça para baixo, no fio tenso de um bom paradoxo. O Feminino encarna o agente redentor-destruidor do Masculino e, nesse sentido, “A colina” é uma maravilhosa história da parceria e mediação entre opostos-complementares, vivos e mortos, mães e pais, irmãos e irmãs, ego e inconsciente, razão e loucura…

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As fantasias favoritas de Del Toro retomam aqui, com a sensibilidade e a profundidade usuais – e sem maneirismos desnecessários -, o tema do feminino assombrado que inicia uma mulher ingênua nos mistérios do amor e da morte. Um pai superprotetor expõe a filha ao predador, enquanto seu amor por ela igualmente a provê de um animus que, despertado pelas circunstâncias, se revela excepcional. Uma mãe boa e frágil retorna da morte para revelar um importante segredo à filha, segredo que ela mesma acessou ao cruzar o portal, mas que a filha ainda não tem elementos para compreender. Outra mãe, longeva e devorante, investe inadvertidamente numa sucessora ainda mais mortífera. Um homem frágil é assujeitado por uma devastadora anima negativa. Um casamento infernal e outro, celeste, acorrentam os noivos numa tragédia de proporções míticas. Um oftalmogista que acredita no invisível vê o que está posto diante dos olhos, mas que os outros não conseguem enxergar. A natureza se rebela contra a máquina. Aliás a tecnologia aparece como coisa muitíssimo mal assombrada, pura verdade.

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A história fala das fantasias do estilo gótico novecentista como uma reação da imaginação à desolação que a Revolução Industrial impôs à Alma do Mundo, uma reação tão frágil quanto eficaz, porque é na alma que ela se instala. E a alma confronta, com suas fantasias terapêuticas, a sombra da ciência, da indústria e da filosofia positivista. Mais do que tudo, “A colina escarlate” me levou de volta a “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brönte, um dos livros da minha vida, numa viagem de revisão que me esclareceu sobre os motivos do apreço que tenho por fantasmas.  Eles nos assombram e afligem, penso eu, porque são, na essência, mensageiros do inconsciente que assediam o ego para alertá-lo de grandes perigos e ajudá-lo a tomar consciência de algo muito sombrio. O ego, contudo, se defende como pode das coisas que não quer saber.

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A forma fantasmagórica aterroriza o ego, embora não haja nela uma ameaça real, ao contrário. Os fantasmas pretendem revelar um estado de coisas intolerável deslocando o sujeito da zona de conforto, forçando-o a encarar uma realidade que clama por mudança, uma lealdade tóxica, um segredo que apodrece dentro dele. Assim o fantasma de Catarina de “O morro” vem pedir ao Sr. Lockwood tão somente uma escuta para sua história, um pouco de compaixão e ajuda para libertar-se e libertar a vida, ajudando-a a retomar seu curso. “A colina” remete a “O morro” até mesmo nas referências à topografia. Se você subiu numa, pode se arriscar a escalar o outro. Sua alma vai agradecer por mais esse fantasma.

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EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 2: O ELOGIO DA DIFERENÇA

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Sobre as reduções e os julgamentos sumários a que ML tem sido submetido pela variedade de ativismos agressivos, ressentidos e mal-informados que assolam o país e a época (muito semelhante à do FEBEAPÁ de Stanislau Ponte Preta), sugiro adotarmos, com o fito de defender quem, por excepcional, por si só deveria prescindir de defesa, um referencial teórico à altura da complexidade da obra desse destemido gigante sobrancelhudo. A teoria geral do imaginário, de Gilbert Durand, é o melhor referencial que conheço, por ser, mais que uma teoria, uma gnose, isto é, um saber orgânico, vinculado à experiência, do tipo que não visa esterilizar seu objeto mas, ao contrário, revelar o sujeito por trás dele, numinoso a ponto de despertar a paixão investigativa. A contribuição mais rica que os livros de ML fazem à cultura, especialmente a atual cultura brasileira de massa, aguada, vulgar e desnutrida, é, a meu ver e, na esteira dessa teoria, a ênfase no dinamismo dos contrários, na “coincidentia oppositorum” entre os regimes do imaginário heróico e místico, enraizados no pensamento seminal de C.G. Jung. Na construção de seu universo simbólico, ML investe nas imagens de opostos que se complementam e cooperam entre si, porém frequentemente também antagonizam, concorrem e se alternam, enriquecendo as narrativas com a qualidade que Morin denomina “complexidade”, grosso modo, a condição que prevê que os contrários precisam apaixonar-se e não destruir-se mutuamente, em que a  diferença é percebida como contribuição e não como ameaça à identidade. Assim Pedrinho e Tio Barnabé formam, juntos, um lindo dinamismo puer-sênex que se desdobra em outros, igualmente ricos, por exemplo, modernidade-tradição, consciência-Inconsciente (no sentido junguiano dos dois termos), entre outros pares de polaridades possíveis. O menino branco da cidade será iniciado pelo preto velho do campo em saberes que sua escola não lhe ensinou porque sequer suspeita que existam, enquanto finge desprezá-los. ML, conquanto seja um homem de seu tempo, deixa claro que o conhecimento de tio Barnabé emana de uma fonte bem mais antiga e venerável do que a que nutre os saberes superficiais e recentes que a escola promove. Tio Barnabé contribui assim para a formação integral de Pedrinho quando lhe ensina sobre os mistérios do natureza (não a que a ciência pretende esquadrinhar, mas uma outra Natureza, inapreensível aos métodos de investigação da ciência). O primeiro conhece o Outro Lado, os mistérios da floresta e os fantasmas da noite, as forças ocultas que podem dissolver o ego arrogante que investiga inadvertidamente, sem render reverência ao que é mais profundo e infinitamente maior do que ele. Em “O Saci”, para mim a obra-prima da série do Picapau Amarelo, o ego em formação encarnado em Pedrinho, o menino civilizado que se sente superior naquele mundo da roça, é colocado à prova pelo Inconsciente e quase soçobra. Isso só não acontece porque há um par de iniciadores se alternando para acompanhá-lo em seu rito de passagem: um, humano, tio Barnabé e o outro, sobrenatural, o Saci. Os afrodescendentes com inteligência e sensibilidade para perceber o valor e as ressonâncias dessa narrativa se sentirão honrados e lisonjeados com a deferência de ML à Grande Mãe África, a casa original de nossa espécie. Já dona Coisa e sua trupe de não leitores se sentirão humilhados e ofendidos pelo que ouviram dizer de outros desinformados que os precederam no telefone sem fio. Como não se comover com a delicadeza e o senso de humor com que Lobato trama a bela e consistente relação de amizade entre o menino do dia e da cidade e o ente da noite e da floresta, uma relação marcada pela horizontalidade que ao mesmo tempo deixa entrever a sapiência do Saci mentor e a inocência de Pedrinho discípulo.

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Outro dinamismo que ML elabora com encantadora precisão é o que se dá entre Dona Benta e Tia Nastácia e que, para o sujeito desavisado e raso, parecerá desvantajoso para a segunda. Novamente os opostos se alternam e se complementam na relação entre as personagens das duas velhas que dividem a regência do mundo do Pica-pau Amarelo. Uma, a avó branca, heróica, cientificista, positivista, metida a erudita, um poço de conhecimento enciclopédico. Outra, a avó negra, mística e nutridora, acolhedora, a poderosa feiticeira que dá vida e inteligência a um sabugo de milho e uma boneca de pano (seria a má-criação da Emília para com Tia Nastácia típica da relação mãe-e-filha?). No ótimo “O Minotauro”, dona Benta se hospeda na casa de Péricles, em Atenas e lá fica, a tietar filósofos e personalidades da época, alinhada com o patriarcado helênico em toda a sua pujança. Já Tia Nastácia é raptada para o mundo da Deusa, Creta, a fonte feminina e mística que nutriu os esplendores da civilização grega. Lá ela permanece como hóspede do Minotauro, retida no labirinto, temendo por sua vida. Enquanto dona Benta coleciona passivamente deslumbramentos, tia Nastácia vive a aventura dos picapaus na Grécia Antiga e termina resolvendo, na base do imaginário místico, sua questão de vida ou morte com o monstro. Uma cozinha instalada no labirinto, alguns ingredientes e a lembrança do povo do sítio, que ela crê que não tornará a encontrar, a estimulam a fritar os bolinhos pelos quais o Minotauro se apaixona e com os quais se empanturra a ponto de ficar obeso e sequer esboçar ameaça contra os meninos que vem salvar sua querida avó negra. Quem não leu, não sabe que, enquanto dona Benta conta a História do Mundo para as Crianças, tia Nastácia narra as Histórias de Tia Nastácia, um compêndio de contos tradicionais e de fadas, lendas e fábulas de culturas e épocas diversas, complementando-se assim os saberes, os sistemas, as abordagens, os imaginários. De novo, um afrodescentente leitor de Lobato saberá enxergar onde brilha o ouro de sua alquimia imaginativa. Quanto ao não leitor, seja qual for sua etnia, só posso sugerir que o leia antes de, tola e precipitadamente, julgá-lo culpado de racismo. Enfim os exemplos desse dinamismo em ML são tantos, tão ricos e eloquentes, que muitas teses acadêmicas não deram conta de elucidá-los em quase um século. Isso porque ML é, muito mais do que um clássico infanto-juvenil, um escritor-iniciador. Só reitero aqui que, agora mais do que nunca, é preciso ler e reler ML, ler para apaixonar-se por esse demiurgo e seu mundo, reler para defendê-lo da choldra que o enxovalha. Neste momento lamentável de nossa História, em que ML tem sido caluniado e condenado por crimes que não cometeu, é preciso contar furiosamente suas historias para as crianças (e para nós mesmos, que lemos para elas), falar dele, de suas contradições, de seus projetos bem mais futuristas que os projetos da inteligentsia modernista, de sua genialidade, de seu amor pelo Brasil, um sentimento que seus detratores parecem desconhecer, quando incendeiam polêmicas equivocadas ao invés de defenderem a cultura brasileira das saúvas que de fato a parasitam e devoram. Mais Monteiro Lobato e menos baboseira, por amor da infância brasileira. Pronto. Inventei um slogan.

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio

EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 1: DONA COISA E OUTRAS HISTÓRIAS ESTRANHAS

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Para entender e amar Monteiro Lobato é preciso primeiro ler Monteiro Lobato. Se possível, na infância, quando a gente ainda tem a moleira bem aberta para o simbólico e uma inteligência integral  e integrada, que não foi fragmentada pela escola nem violada pelos sonhos de grandeza, sucesso e neurose com que os pais sufocam as crianças cada vez mais cedo, acreditando tragicamente que se trata de expressar algum tipo de amor doentio e deformante. Se você não leu e não gostou de ML, cale a boca, por favor. Você não está remotamente autorizado a fazer qualquer tipo de julgamento preconceituoso e decontextualizado dessa figura única na cultura brasileira, um homem do seu tempo, autêntico, temerário na sua coragem e no seu inegociável amor pelo Brasil, visionário, maluco, frágil, paradoxal, complexo, honesto, brilhante, ousado, honrado e sei lá o que mais. Como vocês puderam perceber pelo ruído de rasgar de sedas precedente, eu amo ML como a um pai, o que ele foi de fato para mim. Meu pai de verdade me deu de presente meu pai Monteiro Lobato, encarnado numa coleção verde que foi a coisa mais linda e importante que ganhei em toda a minha vida passada, presente e futura. Por esse motivo não vou permitir que nenhum(a) desavisado(a) mal informado(a) (estou parecendo a Loretta da “Vida de Brian”) fale mal dele impunemente, ah, não senhor, não vou mesmo. Quem quiser caluniar ML vai ter de se haver com a minha Emília pessoal, que aprendeu tudo o que sabe com a Emilia primeira e única: desaforada como ela, eu boto a língua bem botada para todo o cara-de-coruja-seca que se meter a criticar um autor que não conhece, baseando-se no cretinismo e cabotinismo (palavras do dicionário lobatiano) da correção política vigente, esse vírus maldito e altamente contagioso que espalha uma epidemia de unilateralidade, reducionismo, conflito dispensável e burrice, a se alastrar pelo país feito fogo pelo mato seco. Uma certa dona Coisa cujo nome fiz questão de esquecer, recentemente consagrada cavaleira do reino, andou falando por aí que ia tirar a obra de ML das listas de livros didáticos porque, de acordo com o questionável julgamento dela, trata-se de um autor racista. Para essa senhora, pessoa, aliás, assaz desinformada, eu explico que sua atitude de censura explícita vem prestar um imenso favor à obra desse autor original e transgressivo, um daimon que, faz décadas, fecunda e alimenta a alma das crianças brasileiras, as amarelas, as rosadas, as negras e também as verdes, laranjas e azuis. Já não era sem tempo, dona Coisa! A obra de ML não merece continuar a ser desvitalizada, quiçá destruída, pela porcaria de trabalho que a escola formal faz com a literatura de modo geral, tirando dela todo o sumo e a transformando numa coisa seca, quebradiça, insípida e inodora, deserotizada, a serviço dos protocolos burocráticos broxantes da educação conteudista e sem libido que só enxerga o vestibular na frente e tem como finalidade última transformar seres humanos ricos, imaginativos, inquietos e afetuosos em reprodutores-consumistas-depressivos-e-babacas. Obrigada obrigada obrigada, dona Coisa!!!! Doravante as crianças brasileiras poderão ler ML livremente, sem ter de ler ML obrigadas pela escola para fazer provinhas sem pé nem cabeça e trabalhinhos bizarros que não mais entupirão as lixeiras das salas dos professores!!! Elas poderão ler ML escondido, que maravilha!!!, porque ele será… censurado pela escola!!!! Um golpe de gênio inoportuno esse seu, hein, dona Coisa? Agora as crianças vão se arriscar para roubar os livros de ML dos monturos onde eles serão empilhados, na iminência de virar cinza nos autos-de-fé da cultura do neopositivismo mequetrefe que assola o país. Vão fazer com os livros de ML o que fazia aquele pessoal doido pra ler em “Farenheit 451″( o filme do Truffaut, baseado no romance de Ray Bradbury, está no Youtube, vão lá ver antes que alguma senhora da mesma liga da dona Coisa mande tirar!). Elas vão arriscar a vida por Emília, o Visconde, Narizinho, Pedrinho e o saci! E Deus sabe o quanto eles merecem que as crianças corram esse risco… Que tesão, dona Coisa! Proibindo ML de ser lido na escola, a senhora presta um grande favor à cultura brasileira em geral e à obra de ML em particular. As crianças ficarão doidinhas para ler esse autor proibido, maldito, misterioso, acusado de dizer coisas medonhas e, portanto, excitante e interessante. Que maravilhosa estratégia! Torço muito para que ela dê certo, antes que o cérebro das crianças brasileiras vire mingau, exposto sem reservas como tem sido a diversos tipos de lixo de altíssima toxicidade, com o qual a senhora aparentemente não se preocupa nem um pouco. De minha parte, prometo me esforçar para ajudar na sua cruzada antilobatiana. Isso é o tipo de coisa que ML aprovaria.

Inesquecível tia Nastácia

Inesquecível tia Nastácia

 

 

Viradas

DSC02000Na hora H, por pressa, levei comigo para a praia os livros que estavam mais à mão: “A virada: o nascimento do mundo moderno”, de Stephen Greenblatt (presente da Dê, evoé!) e “O espírito do ateísmo”, do muito fofo André Comte-Sponville, sempre boa companhia, seja em tempos  sombrios ou ensolarados. O primeiro em versão digital, formato de que sempre desconfiei, por conservadora enrustida que sou, e ao qual resisti até aqui. Não mais. Primeira virada de 2014: adoro ler livros em versão digital. Dá pra aumentar o tamanho da letra sem precisar mudar a lente dos óculos, a luzinha da tela é respeitosa e reconfortante, o I-Pad é jeitoso e bom de segurar, posso assumir qualquer posição bizarra que ele se acomoda sem fechar na minha cara ou despregar a página. O segundo, porém, em versão impressa, comme il faut: cheiroso de tão novinho (comprei na livraria Martins Fontes do Leblon, pequenina e arrumada, que adoro), ainda envolvido naquela cinta de papel de cor contrastante à da capa, sempre provocativa (“Os ateus estão condenados a viver sem espiritualidade?”). Um fim de ano filosófico, muito diverso do verão passado, em que só li porcarias ligeiras, deliciosas e hipercalóricas (ver post “Besteiras de verão”). Em termos de leituras, como de reflexões íntimas, portanto, este verão não se anunciava leve. Mas então os dias eram de cristal, animados por um sol recém-inaugurado. E o céu azul, rabiscado de nuvenzinhas garças, era um cut-and-paste de tela de Gainsborough. Beija-flores ventilavam as russélias calorentas, para saqueá-las de seu pólen sem que elas percebessem, como cantava o Kevin Johansen na minha vitrola digital: “Algo parecido flota en mi corazón, suspendido en el aire como un picaflor…” (click no link do lado direito e escute a canção, que me fez lembrar do Gregório de Mattos). Pura verdade. Nesse clima de Éden caiçara, se eu tinha mesmo questões pesadas a ruminar, prefiriria fazê-lo com os epicuristas, uma gente suave, serena e profunda, dona de um senso de humor que considero a quintessência da espiritualidade. Uma gente que acha que a busca do prazer é a razão primeira da existência humana, prazer esse que está longe de ser raso, irresponsável, auto-referente. Um prazer de ser  e estar vivo no mundo, com todas as suas implicações, dores e limitações, e também graças a todas elas. Epicuristas são a turma perfeita para partilhar, no jardim, uma caipirinha de limão siciliano com cravo-da-índia, elaborada com igual capricho pelo livre-pensador Pedro Paulo ou pelo muito evangélico Heres, arrematada num brinde à sombra miraculosa e banal do nosso coqueiro-mor. Pois foi sem querer querendo, e para minha sorte, que carreguei epicuristas comigo para a praia, essa gente agridoce, boa de conviver, com quem nunca se corre o risco dos excessos, positivos ou negativos. Nem niilismos, nem fanatismos (Adorei essa comparação, André, e até já estou usando. Obrigada, como sempre). Epicuristas são como o beija-flor da canção de KJ: eles ventilam a vida para arejar seu cantos escuros e abafados, para persuadi-la a verter sua seiva mais doce e nutritiva. Conheci Epicuro depois dos 35 anos, à sombra de minha tragédia pessoal. Ou seja: na hora certa. Tenho ainda um papelinho amarfanhado, rabiscado há vinte anos, na minha letra garranchenta de sempre, com o Tetraphármakon, o Quádruplo Remédio de Epicuro, que pretende nos aliviar das ilusões que nos tornam infelizes. Está lá o papelinho verde desbotado, espetado no meu mural de cortiça. Começo todo dia olhando para ele: “Não há o que temer quanto aos deuses. Não há necessidade de temer a morte. A dor pode ser vencida. A felicidade é possível”. Antes disso, eu achava, com a miuçalha, que epicurismo era uma filosofia de bandalhos irresponsáveis e hedonistas. Depois de ler o Greenblatt, entendi porque era tão importante caluniar Epicuro, transformando seu perfumado e transgressivo jardim filosófico numa suruba decadente. Se quiser saber o que aconteceu, vá ler você também. Acredito que Jesus era epicurista, mas judeu e religioso, o que atrapalhava um pouco as coisas, mas não muito. A verdadeira atrapalhação veio depois, coitado. Epicuro pelo menos não foi canonizado nem dado como messias, sorte dele. Michel de Montaigne, filósofo querido que me acompanha desde a encarnação passada, é outra personagem modelar do livro de Greenblatt. Montaigne era um epicurista praticante. Aliás só dá para ser mesmo epicurista praticante, já que o epicurismo teórico não existe, até porque Epicuro gostava da simplicidade e da aplicabilidade da filosofia, diferentemente desse povo metido a besta, autoerótico e sectário da academia. O livro de Greenblatt me levou de volta a Epicuro, esse homem de alma compassiva e espírito inquebrantável, que sofria de pedras nos rins em plena Grécia clássica e mesmo assim achava que a dor pode ser vencida. Ele também me levou de volta a Montaigne, que não leio faz tempo, o sábio prático, ensaísta inaugural (inventou o gênero) que nada faz sem alegria (nem mesmo ficar devastado com a morte do filhinho ou do grande amigo La Boétie). Nos epicuristas, encontro a tolerância, a gentileza, a liberdade que ninguém nos rouba, a firmeza com ternura que o Che cunhou em slogan, mas não me parece que tenha continuado a praticar, depois de aderir de corpo e alma a sua ideologia esquizofrênica. E também a abertura à diferença, a curiosidade, a necessidade da beleza, o reencantamento do mundo, o amor como valor fundamental, a sabedoria perene do jardim, em que a vida e a morte passeiam de braços dados, comadres que são. Tudo isso, Epicuro me ensinou quando mais eu precisava aprender. Continuo inscrita no seu curso até morrer, pelo menos, mas ultimamente confesso que andei enforcando umas aulas. Na verdade, cochilei deitada na grama do jardim e o mestre achou que estava ótimo assim mesmo, melhor não me acordar. De lambujem (e que luxo de lambujem!), ainda fui apresentada ao poeta latino Lucrécio, o dáimon de Greenblatt, que escreve literalmente no rastro do primeiro, o autor de um poema espantoso intitulado De Rerum Natura (“Da natureza das coisas”, ver link com PDF neste blog), igualmente perseguido e quase destruído por completo e pelos mesmos motivos óbvios de sempre. O poema a Vênus, deusa do amor e da beleza, chave com a qual Lucrécio abre sua obra, vale, por si só, uma virada.  Obrigada, Dê, pelo Greenblatt que reavivou o epicurismo em meu coração teísta. Segunda virada, mais para revirada: Epicuro revigorado. Nos entremeios, ainda tinha Comte-Sponville, com seu ateísmo mais espiritualizado que qualquer carolice, um epicurista materialista que tem dificuldade para lidar com a mera imaginação dos deuses indiferentes e inacessíveis de Epicuro. OK, ninguém é perfeito. Nem o Comte-Sponville, que pensa e escreve lindamente, ao pulsar de um coração sensível e profundo, além de ser um gato absoluto. Quem encontro lá? Epicuro, Lucrécio e Montaigne, deliciosa sincronicidade! É de Comte-Sponville o trecho que vou transcrever aqui e que li durante o café da manhã do dia 31, a algumas horas da terceira virada, para dois amigos evangélicos que amaram saber o quanto um ateu pode acrescentar aos crentes que não se tornaram fanáticos: “Resumindo: pode-se viver sem religião; mas não sem comunhão, nem sem fidelidade, sem amor. O que nos une, aqui, é mais importante do que o que nos separa. Paz para todos, crentes e não crentes. A vida é mais preciosa que a religião (é o que tira a razão dos inquisidores e dos carrascos); a comunhão, mais preciosa que as Igrejas (é o que tira a razão dos sectários); a fidelidade, mais preciosa que a fé ou que o ateísmo (é o que tira a razão dos niilistas quanto dos fanáticos); enfim – é o que dá razão às pessoas de bem, crentes ou não – o amor é mais precioso que a esperança ou o desespero. Não esperemos ser salvos para ser humanos” (p. 67). Feliz virada.

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Salve Saturno!

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Para quem ainda não sabe ou não se interessa em saber, mas continua a ser afetado por isso, 2013 é um ano de Saturno. Salve, Saturno, que finalmente chegou, para dar forma, limite, sentido e legitimidade às manifestações que começaram mal há três semanas, misturando atos políticos com atos de vandalismo perpetrados contra a avenida Paulista. Pouco a pouco, porém, o senex ou velho sábio Saturno começa a calibrar o puer ou jovem Dioniso. As lideranças do movimento e os representantes do poder público sentam-se na mesa para dialogar, estabelecem-se regras, negociam-se acordos. Salve, Saturno! As imagens das marchas realizadas ontem, salvo atos isolados de gente que só quer aparecer (e mal) na foto, eram outras.  Multidões saíram às ruas para expressar, de modo pacífico e ordeiro, uma indignação patriótica que não é, nem nunca foi, monopólio de grupelhos, mas que representa o sentimento genuíno da maioria do povo brasileiro, em todas as camadas da pirâmide social, do Oiapoque ao Chuí, da esquerda e da direita conscientes, que amam este país e não apenas o confronto. As grandes marchas do Rio e de São Paulo reuniram gente de todas as idades e classes sociais, misturadas na rua sem a orientação sectária dos pseudo-especialistas que, desta vez, não tiveram muita chance de gerar as divisões que tão somente fortalecem ainda mais os poderosos grudados no trono. Só uma turminha de punks extemporâneos deu um certo trabalho para sair do espelho d’água diante do Congresso, em Brasília. Foi engraçado. No Rio e em Sampa, assim como no DF (não acompanhei o que acontecia nas outras cidades, mas sei que havia muito mais capitais envolvidas no movimento), a bandeira escolhida como símbolo da mobilização foi a brasileira, embora ainda houvesse gente defendendo algumas bandeirolas de partidos. As concorrentes, contudo, não tiveram chance: simplesmente desapareceram diante da original. Uma das palavras de ordem era justamente a que evocava a superação do partidarismo esquizofrênico, em nome de uma nação que precisa se sentir como uma nação para poder transformar sua realidade injusta e desumana. O povo que ganha pão e o povo que compra circo do governo federal estavam lá, para azar dos monopolares sem imaginação. E quando as pessoas se olham sem mediadores discursivos, se conhecem e caminham lado a lado num evento como esse, fica difícil jogá-las umas contra as outros, por mais competentes que sejam os discursos. Na multidão, parece que não tinha lugar para classe média fascista e reacionária, nem para pobre folgado e dependente de bolsa-família, nem para estudante vagabundo e baderneiro. Engraçado como, com Saturno para moderar, discriminar e disciplinar, uma multidão pode, sim, dissolver as generalizações mais perversas. Nas marchas que vi pela TV, porque meu corpo não esteve lá, só minha alma, me pareceu que existe um povo brasileiro inteiro e não um povo partido em muitos povos que guerreiam em favor dos poderosos. Imagino que alguns políticos profissionais, daqueles que não temem nem a Deus nem à História, devem ter tremido nas bases, mesmo que só um pouquinho. Mas preciso dizer também que suspeito que o rito de iniciação que marcou essa transição qualitativa e quantitativa foi mesmo o confronto com a violência da polícia, ocorrido em Sampa, na semana passada. Alguma coisa mudou substancialmente desde então. Um pouco da melancolia de Saturno contaminou, sadiamente, a euforia de Dioniso e a calibrou com dor e responsabilidade. A expansiva energia da juventude (de Jove ou Júpiter) viu-se contraída e forçada a se consolidar num projeto. A gravidade pesada de Saturno curou a hiperatividade aérea e sem compromisso de outro puer, Hermes, o festivo deus-padroeiro das redes sociais. Não procuro de modo algum justificar a arbitrariedade e a falta de estratégia e treinamento da polícia para lidar com situações como essa. Quero apenas mostrar que as coisas são do jeito que são e a gente pode compreendê-las melhor a posteriori, quando todas as peças já tiverem sido devidamente encaixadas no tabuleiro pelo desenrolar dos eventos e então enxergamos com mais clareza o cenário, ou boa parte dele. Porém isso é processo e, portanto, depende do tempo. Saturno é o deus Tempo, Cronos para os gregos. Ele pode trazer abundância ou esterilidade. Sabedoria ou caduquice. Pode introduzir uma sadia depressão que nos faz enraizar nossa mania no peso da realidade concreta ou pode nos lançar nos ressentimentos remoídos sem trégua de um passado mal vivido ou não superado. O “ou” de todas as categorias depende da manutenção da faísca acesa: a paixão do puer, que enche o senex de vigor e entusiasmo; o idealismo de puer, que impede que o senex se torne um cínico pragmático; a alegria de puer, que ajuda o senex a ultrapassar as próprias decepções e desilusões; o bicho carpinteiro de puer, que ajuda senex a não se deixar estagnar no poder do jogo ganho. Nas marchas de ontem, o inesquecível dia 17 de junho de 2013, Hermes e Dioniso, Júpiter e Saturno encontraram-se, se abraçaram e, juntos, puxaram o cordão feito de elos que se consolidam, aos poucos, de cidade em cidade do Brasil, para dar um basta a esse mais do mesmo que aprendemos a confundir com política. Não mais. Não desse jeito.

Uma outra história, que fica para uma outra vez

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Querida Tatiana,

Escrevo esta carta minutos depois de saber que você partiu “deste mundo descontente”, como cantou Camões. O velho bardo lusitano que, por sinal, anda sendo usado inadvertidamente, por gente que mal sabe do que está falando, tinha não poucas razões para expressar assim a sua desilusão com o mundo. Eu tendo a concordar com ele: este mundo é mesmo um lugar muito e cada vez mais descontente. Espero que, contente como você sempre foi, encontre, do outro lado, um mundo mais parecido consigo. Especialmente porque você não partiu cedo, tinha 94 anos bem vividos, recheados de livros, de viagens, de amigos, de entrevistas, de palestras, de fãs, de leitores, de artigos, de aventuras, de atos verdadeiramente políticos, em defesa da alma das crianças… Você viveu a sua vida inteirinha, de cabo a rabo, e ainda nos deixou a mais maravilhosa das heranças. A morte de alguém importante e querida como você sempre nos leva de volta àquelas fantasias de infância que certos adultos continuam a alimentar, de um jeito meio extemporâneo e canhestro. Para encarar a realidade de nosso fim, do fim inadiável da nossa historinha, precisamos inventar continuações. Essa é a “outra história que fica para uma outra vez”, como dizia o Júlio Gouveia, o grande amor da sua vida, Tatiana, a cada final de capítulo da adorável e singela versão inaugural para TV de “O sítio do pica-pau amarelo”, que, juntos, vocês criaram, para nosso deleite. O Julio dizia isso e fechava aquele livrão dele, de onde saíam as histórias que a gente assistia de olhos estatelados, muitas vezes enquanto a imagem da TV era acometida de um surto de listas horizontais, que cortavam as imagens e as faziam rodar as telinhas (sim, aquelas eram verdadeiras telinhas!) feito frangos num espeto giratório. Quando ele dizia isso, a gente tinha um siricutico de nervoso, porque queria saber o que ia acontecer e ia ter de esperar uma semana, no mínimo, até a tal outra vez. Eu sinceramente achava que aquele homem sobrancelhudo e bonzinho (mas também ligeiramente malvadinho, dava para ver nos olhos dele que ele gostava de nos deixar dependurados) era o próprio Monteiro Lobato, que adiava nosso prazer por mais uma semana e nos mandava brincar na rua com nossas amigas ou ficar em casa mesmo, brincando de casinha com as nossas bonecas. Foi por causa do Julio e daquela estratégia antiquíssima e infalível que descobri o verdadeiro Monteiro Lobato, um homem muito mais sobrancelhudo do que ele. Monteiro Lobato morava nuns livros verdes que eu tinha lá em casa, mas nunca havia folheado, porque só gostava de ler as histórias da minha coleção vermelha do Mundo da Criança. Suspeito que a cor tinha mais a ver com a minha escolha do que o conteúdo. Eu era muito mais seletiva naquela época. Você e o Júlio me fizeram descobrir a coleção verde e me estimularam a virá-la do avesso, no começo apenas para saber o que ia acontecer na tal outra história que não ficava mais para outra vez, porque eu não conseguia mais largar aqueles livros, um mais maravilhoso que o outro. Minha vida era muito contente, não porque eu tivesse um monte de brinquedos, nem porque eu tivesse um quarto só para mim (eu dormia no sofá da sala), muito menos porque eu viajasse, nas férias, para a Disney. Meu contentamento quase sempre vinha dos livros da minha coleção do Monteiro Lobato. As histórias dos picapauzinhos aliviavam minha dura existência de aluna de escola pública, a semgracice da minha família, as infernais visitas que minha mãe me obrigava a fazer com ela, quando eu sempre podia levar um livro verde comigo, para me salvar do tédio das conversas dos adultos. “Ler não comporta imperativos”, você costumava dizer. Que verdade mais profunda! E como você e o Julio, de repente, fizeram de mim uma menina rica! Será que você pode contar isso ao Julio, quando encontrar com ele? Digo isso sempre para o Monteiro Lobato, mas acho que se você puder contar pessoalmente, ele vai entender melhor. Você me faz esse favor? Quantas lembranças boas eu tenho de você! Uma vez eu te encontrei pessoalmente, chegando de táxi à ECA, de onde eu estava saindo nem sei bem porquê, acho que só para encontrar você, que ia fazer uma palestra ou coisa parecida. Isso faz uns 15 anos, no mínimo. Quando reconheci você naquela senhora sorridente e gorducha, corri para ajudá-la a descer do táxi (acho que não teria feito isso se fosse outra senhora, peça para Jesus que me perdoe por isso, por favor). Você sorriu para mim com suas deliciosas covinhas, olhou dentro dos meus olhos com seus olhinhos vivos e sapecas e logo se agarrou ao meu braço, como se fosse uma tia querida. Eu estava no céu. Acompanhei você até a recepção, descobri não sei como aonde ia ser o tal evento do qual você participaria e levei você até a sala, sempre agarrada no meu braço e conversando um monte de coisinhas. Fui ouvindo aquela sua voz de menina fanhosa, que era uma graça. Entreguei você à moça que a esperava e nos beijamos efusivamente, como se fôssemos grandes amigas. Na verdade, éramos grandes amigas, porque foi assim que você me tratou. Ainda tenho uns livros seus autografados numa Bienal e que você dedicou à Helô, minha filha mais velha, que adorava seus versos traduzidos do russo e do alemão, seus limeriques, suas histórias engraçadas. Quando encontrar com ela, agarre no braço dela como fez comigo e saiam vocês duas, conversando coisinhas. Vai ser como se eu estivesse junto. Não quero viver “cá na terra sempre triste” porque você também se foi. Ao contrário. Fica comigo a sua imagem encantadora de menina-velha, sábia e sapeca, um lindo oxímoro, uma união de opostos, apontando para aquilo que eu quero me tornar quando for velha, sem pretender arremedar sua grandeza, mas somente o seu contentamento. Boa viagem, querida! Um grande beijo da Eli

DSM-6a

maluco

Minhas contribuições pessoais para a novíssima edição da “Bíblia de Psiquiatria” (ótima essa metáfora, hein?), a DSM-5, recém-publicada nos EUA. Minha versão é o DSM-6a: “a” de alienígena e de apócrifo. Este post foi inspirado pela leitura de um artigo da Eliane Brum chamado “Acordei doente mental”, publicado no blog da autora:

– Transtorno Bipolar de Mãe de Adolescente (TBMA): A portadora fica radiante que seu filho está crescendo e se tornando independente E fica inconsolável porque ele não é o mais o seu bebê e não quer que ela lhe dê comida na boca em público. Ai, meu Deus do céu, o que é que eu faço agora?

– Síndrome de Poliana Menina, Moça e Velha ou Déficit de Malandragem: A(o) portador(a) tem uma canetinha dourada na bolsa, sempre pronta para transformar os borrões pretos da vida em elefantinhos, ursinhos, florzinhas e outras coisinhas fofinhas. Fofinhas. Fofinhas. Fofinhas.

– Transtorno Narrativo Obsessivo-Compulsivo: O portador tem uma tendência incontrolável para transformar (quase) todos os eventos da vida em história. Travado na fila do banco, ele imagina que aquela velhinha grossa que gritou com a caixa e pisou no seu pé para entrar na fila da terceira idade é, por exemplo, um psicopata serial-killer travestido. Ele começa então a imaginar uma história para ela, só para matar o tempo (desculpem o trocadilho).

– Transtorno Hiperativo por Carência de Limite (THCL) ou falso TDHA: Atinge geralmente crianças e adolescentes cujos pais e mães são uns bananas devorados pela culpa, que se submetem a todo tipo de humilhação pública e privada a fim de dar aos monstrinhos que pariram tudo aquilo que eles mesmos não receberam (e cujo valor pode ser bastante duvidoso) e em lhes negar tudo aquilo de que as pestes verdadeiramente precisam, ou seja: limite. Acostumado a confundir amor com objetos e com sujeição do outro às suas vontades e caprichos, o despótico portador desse quadro apresenta uma lista de sintomas extensa, entre eles: gritar e se jogar no chão para obter compensações não merecidas, comportar-se como um chimpanzé frenético em situações de interação social, chutar qualquer ser animado ou inanimado que se interponha entre o sujeito e o objeto de seu capricho, arrebentar brinquedos, roupas, gadgets tecnológicos (e mais tarde também carros), geralmente recebidos de graça, sem qualquer necessidade de contrapartida, xingar professores e desafiar autoridades em geral etc. Os pais acham que isso significa que seus filhos: (a) têm uma vocação para a liderança (de hordas selvagens, claro); (b) têm temperamento forte; (c) são crianças índigo (seja lá o que isso queira dizer). Os sintomas podem ser facilmente confundidos com os de TDHA.

– Síndrome da Pessoa de Cristal: As pessoas portadoras desse quadro caracterizam-se pela ausência quase absoluta de resiliência, não sendo capazes de suportar revezes, sentir tristeza, administrar frustrações, lidar com contrariedades, empatizar. Fequentemente acomete adultos que foram portadores de THCL na infância e adolescência. Os sintomas podem ser camuflados com o uso de antidepressivos e ansiolíticos, os quais, contudo, evitam que as causas sejam devidamente averiguadas e conscientizadas.

– Chocolatrismo Severo:  A combinação de sufixos é proposital, mesmo porque se trata de uma adição (ismo) e de um culto (tria) ao chocolate, essa dádiva dos deuses maias à humanidade, essa ambrosia do Olimpo, esse elixir da bioquímica das endorfinas, essa maravilha que derrete na boca, nhami, nhami…

– Transtorno da Negação da Queda do Muro (TNQM): Quadro grave, implica a negação obstinada da realidade objetiva, representada por fatos largamente comprovados, amplamente divulgados e facilmente observáveis. Inclui comportamento fanático, baseado em mecanismos de racionalização que objetivam transformar hipóteses em estamentos inquestionáveis e seres humanos em divindades acima do bem e do mal. Dogmatismo e irredutibilidade. Resistência à autocrítica. Mitomania. Autoritarismo e conservadorismo do tipo revolucionário. Paranoia. Comportamento pueril flagrante, muito embora os portadores geralmente sejam pessoas muito inteligentes e cultas. Tendência a matar mensageiros. Assemelha-se ao Transtorno de Apego à Queda do Muro de Jericó, de natureza religiosa. Também conhecido como APA (Alienação pelo Avesso).

– Semostrismo Narcisista Compulsivo-Obsessivo (também conhecido como Espelhismo): O portador tem uma atração irrefreável por espelhos de todos os tipos (reais e virtuais) e procura posicionar-se sempre diante deles para observar-se constantemente, usufruindo a exposição de sua autoimagem inflacionada e superestimada. Quadro clínico hipertrofiado por dispositivos como o Facebook e Instagram.

– Síndrome do Fodão-Merda – Descrita e nomeada pelo dr. Francisco Daudt, que era articulista do Revista da Folha, refere-se àquele merda que age como se fosse um fodão, ou seja, refere-se a todo ser humano que, ciente de que vai morrer e consequentemente se juntar a toda a escumalha humana no mesmo monturo, ainda se acha e faz questão te tratar os outros como se fossem inferiores. Costuma ser reforçada pelo  Déficit de Noção (ver verbete abaixo).

– Transtorno de Isolamento Social Induzido Digitalmente (TISID): Quadro cada vez mais frequentemente observado nos ambiente urbanos e com gradações de gravidade. Os sintomas incluem: conversar por what’s up do I-Phone com a pessoa que está ao seu lado na mesa, no carro, no metrô etc; sair com amigos e passar o tempo todo trocando torpedos com outros amigos; sair de casa de manhã e imediatamente ligar do viva-voz para o seu cônjuge ou o seu filho, que estava ao seu lado três minutos atrás; ir jantar com o(a) namorado(a), levar o tablet e ficar acessando e-mails na mesa, enquanto a comida não chega; terminar uma relação por what’s up; botar um tablet com “A galinha pintadinha” passando, dentro do carrinho do bebê, se possível enquanto ele ainda dorme, para ele não incomodar quando acordar; dar o I-Phone na mão da criança que quer atenção do pai ou da mãe para a formiguinha que está subindo na parede; dar um tablet de presente de aniversário para um bebê de dois anos e ficar orgulhoso do jeito como ele maneja a ferramenta etc.

– Déficit de Noção – Termo genérico e auto-explicativo.

– Síndrome das Listas Infinitamente Renováveis: Descrito com precisão e humor no filme “Alta fidelidade”, cujo protagonista é portador. Trata-se de uma ilusão de controle do caos da realidade concreta, instaurado por meio da instância lógico-verbal, ou seja, da elaboração de listas que são continuamente editadas, desdobradas pela explicitação exaustivametente revisada dos itens constantes das mesmas. Não adianta quase nada, mas dá uma sensação de poder…

CONTRIBUA, CARO LEITOR! ACRESCENTE O SEU VERBETE!

Contribuição da Juci, lá de Barê: “Eu sofro de TAF–Transtorno Analfabetismo Funcional : Pessoa que se reconhece nessa situação, quando lê a Mulher Esqueleto e percebe que ela escreve pra caramba.rsrsrsrsr”

Besteiras de férias (ou 50 tons de ouro sobre azul)

Leitura, Almeida Junior, 1899

“Leitura”, Almeida Junior, 1899

No Estadão, num dia qualquer de janeiro (nunca sei que dia é, quando o mês é janeiro), o escritor Milton Hatoum espinafrou o que chamou de “literatura de férias”, começando por dizer que o tempo vai se incumbir de apagar bem depressa todos os “50 tons de cinza”, bem como a memória de outras obras apócrifas, escritas apenas para encher os bolsos dos editores, acanalhar a indústria literária “séria” e emburrecer os leitores. Que maravilha se houvesse um contingente razoável de pessoas dispostas a emburrecer com a leitura, alguma leitura, nesta nossa pátria mãe gentil! Eu até concordo com Hatoum em termos, mas acho uma viagem na maionese imaginar que todo mundo deva ler os clássicos, num país como o Brasil, onde as maciças fileiras de analfabetos funcionais tradicionais são diariamente engrossadas com a adesão entusiasta dos analfabetos funcionais digitais. Literatura de férias é uma coisa ótima e até os tais 50 tons têm defensores assaz respeitáveis, como a minha amiga Tereza, que me disse que leu e gostou. E esse negócio de criticar o livro porque a protagonista gosta de apanhar do namorado é uma bobagem tão grande que nem merece comentário.  Basta dizer que “Madame Bovary” estimula o adultério e o consumismo, “Lolita” estimula a pedofilia e a Bíblia estimula a violência contra a mulher, a homofobia e o genocídio (neste caso, infelizmente, a sinistra turma dos sem-metáfora acha que é pra valer). Para dizer a verdade, se alguém tivesse carregado os 50 tons de cinza na mala até os 500 tons de ouro e azul do verão de Barequeçaba e ele acabasse misturado ao equipamento de praia, eu certamente teria me arriscado e, quem sabe, até tivesse gostado, como aconteceu com o vetusto português Lobo Antunes, fã confesso da série da escritora sapeca. Eu ainda não tive vontade de conferir os “50 tons de cinza” (título, aliás, bem brochante), mas meu sobrinho me repassou, lá na praia, o livro que acabara de ler, “Morte súbita”, de J.K. Rowling. Adorei. A mais pura literatura de férias, que só existe para a gente se evadir e relaxar, se entupindo de calorias, açucar e corantes, largado na cadeira-rede da varanda ou na cama mesmo, antes de cair naquele soninho contraventor de depois do almoço. Lendo Rowling, me revi no Guarujá aos 14 anos, indo comprar, aflita, uma nova Agatha Christie na livraria que ficava ao lado do cinema, como quem vai comprar um remédio para cólica. Era preciso substituir urgentemente o livro que eu tinha levado comigo para as férias e que tinha acabado em três míseras horas de chuva. “Por que não trouxe outro?”, perguntava minha econômica mãe. Ora, mãe, porque os melhores livros de férias são os que a gente ganha de natal (caso do livro do meu sobrinho) ou compra durante as férias, certo?

"Lesentes Mädchen", Théodore Roussel (1886-6)

“Lesentes Mädchen”, Théodore Roussel (1886-7)

Literatura de férias é assim: não tem nutrientes, mas é uma delícia, como friturinhas de verão. Com a vantagem extra que não engorda nem dá diabetes. A gente devora em tempo recorde, tal e qual uma porção dourada de bolinhos de bacalhau. Na modesta literatura de férias, está, inclusive, liberada (e até mesmo prevista), aquela olhadinha oportunista no final, para ver como a história acaba antes de pegar o ritmo da leitura.  A J.K. Rowling continua contando histórias com muita competência e sem quaisquer veleidades literárias, como fazia, aliás, Agatha, sua conterrânea mais simplória, porém não menos bem sucedida. Indico o novo livro dela, apesar das resenhas de nariz torcido dos metidos em geral, não só porque se trata de um ótimo suspense, muito bem amarrado do começo ao fim, como também porque acaba revelando a sombra de uma Inglaterra que nós adoramos superestimar, macaqueando nossos antepassados lusitanos. Lá no UK de Rowling, a favela se chama Fields e é um miserável conjunto habitacional popular cujo vizinho aristocrático, Yarvil, um encantador vilarejo, quer mais é que suma do mapa. Quem morre logo no início, de um prosaico AVC, é Barry Fairbrother, um filho de Fields que se dá muito bem em Yarvil, a ponto de ser alçado à condição de presidente  do conselho local. Como prova viva de que, sim, dá para virar o jogo, Fairbrother engaja-se na defesa do favelão de concreto, de seus moradores e de uma clínica popular de tratamento para dependentes químicos, feita para atendê-los. Contrariando interesses de alguns dentre os mais respeitáveis cidadãos locais, o falecido manipula a trama como um deus ex-machina e termina até por ganhar um duplo, na figura de um vingador cibernético muito bem urdido. Violência familiar, xenofobia, adolescentes problemáticos, bulllying digital, esposas perfeitas e esposas insatisfeitas, todo tipo de segredo inconfessável, abuso de drogas e outros assuntos candentes entram no excitante coquetel de frutas para o verão preparado pela mãe de Harry Potter, que se reinventou na trilha das damas do crime e, para mim, acertou o rumo de cara. Sobre o rápido esmaecimento dos 50 tons de cinza da literatura de férias e seu destino sem nobreza, é para isso mesmo que ela serve: para ser esquecida. Nossa cabeça precisa esquecer tanto quanto necessita recordar. É uma questão de saúde mental.

Conduzindo Preciosa

Chá no paraíso, colagem do meu caderno

Chá no paraíso, colagem do meu caderno

Não importa o mundo lá fora. Caos, gente louca se deslocando em carros semi-desgovernados, motoqueiros destrambelhados, carretas que cruzam o farol vermelho. No meu carro, não sou invadida por boletins econômicos obsessivo-compulsivos ou reportagens policiais escatológicas. Tampouco sou irritada até a fúria por publicidade  cretina. Ou interrompida pela hugochavista Hora do Brasil. Não testemunho, perplexa, um trilha sonora em que Caetano é substituído por Michel Teló. Tampouco sou torturada pelos pianinhos dodecafônicos de algum programador cult. Nunca mais, nunca mais, never more, como dizia o Corvo. Essa alforria dos ouvidos eu comprei, usada, por 3 dólares mais frete, com meu primeiro audio-livro da Agência N0 1 de Mulheres Detetives. Já tenho oito caixas, todas arrematadas na bacia das almas da Amazon. Ouço, empresto, me esqueço das histórias e torno a escutá-las, como se fossem novinhas em folha. Já arrebanhei muitos fregueses para a agência e continuo, eu mesma, cliente fiel dessa empresa que, graças a Deus, não é citada nas colunas corporativas fofas, cujas platitudes e bom mocismo posado me dão vontade de vomitar sobre o volante. Com sede em Gaborone, capital de Botswana, a Agência N0 1 de Mulheres Detetives não tem filiais. Minto. Tem sim. Inúmeras. Uma delas está localizada no CD player do meu carro. Outra, eu soube por um documentário que vi na GNT sobre vítimas do 11 de setembro, fica no DVD player de uma senhora japonesa que sofreu severas queimaduras durante o ataque e teve de passar por inúmeras cirurgias nos braços derretidos. No depoimento, ela contava que tinha dias em que perdia completamente a esperança de voltar a ter braços e caia em depressão mais do que justificada. Então assistia aos filmes da única temporada da série, produzida pela HBO, dirigida pelo Anthony Minghela e baseada nos livros do escritor Alexander Mc Call Smith, um amigo querido que nunca vi mais gordo.

Cartaz da série para TV. produzida pela HBO

Cartaz da série para TV. produzida pela HBO

As histórias de Mma (pronome de tratamento tradicional, que significa senhora) Preciosa Ramotswe  tinham o poder de levantar o astral da senhora japonesa de braços derretidos. Nada mal. O Alex (sentiram a intimidade?), criador desse mundo deliciosamente ingênuo, mas nada tolo, muito cioso de seus valores tradicionais, tão engraçado quanto profundo na sua reflexão sobre as coisas da vida, é um senhorzinho de seus setenta e tantos anos, nascido no Zimbabwe, gordinho, olhos azuis, sorriso fácil e gravata borboleta. Médico, ele vive na Escócia, porém ama a África de todo coração e a mostra através do filtro desse amor, o que desorganiza nossos clichês sobre o berço da humanidade, onde vivem os espíritos de nossos mais antigos avós. Botswana é o país que ele escolheu como cenário para as histórias da agência. Além dessa série, ele escreveu outras, em que mistura filosofia, linguística e investigações policiais nada convencionais. Eu até li dois livros de uma detetive-filósofa que ele inventou, mas sou tiete mesmo de Mma Ramotswe e sua turma: a pentelha secretária Mma Makutsi, com seus 97% de aproveitamento na Escola de Secretárias de Botswana; o bovino marido mecânico, sr. J.L.B. Matekoni (que é sempre chamado pelo nome completo, inclusive as iniciais); os garotos aprendizes da oficina, incorrigíveis e adoráveis malandros; os filhos adotivos, um casal de irmãos bosquímanos, a menina deficiente física e doida por motores (ela se chama Motoleli); a enxerida Mma Potokwani, matrona que dirige a fazenda dos órfãos… E mais a trupe de clientes da agência, com seus micro-problemas para resolver, e que contratam essa senhora sábia, afável, conciliadora, com sua compleição tradicional (uma “traditionally built lady” é, em suma, uma gorda, tipo físico muito apreciado em Botswana). Nos audio-livros, a narração é feita por uma atriz sul-africana simplesmente fabulosa, Lisette Lekat, que não apenas lê as histórias, mas as dramatiza, fazendo vozes, sotaques, viajando na melopeia. Com Lisette na narração, as personagens de Alex ganham ainda mais vida e humanidade, o que torna a leitura dos livros especialmente deliciosa. Sem pretensões nem culteranismos, ele fala de relações humanas delicadas, tecidas num mundo ainda meio encantado, parecido com o de Mia Couto: empoeirado e belo, apaixonado por seu gado manso e regido por valores que garantem que a comunidade continue a ser o lugar onde sabemos quem somos e para onde podemos retornar, quando é preciso. Mma Ramotswe é uma dessas personagens portadoras de que fala o Dennis: mais do que a detetive gorda e bonachã, às voltas com seus casos aparentemente irrelevantes, dotada de uma imensa capacidade de empatia e acolhimento, é uma imagem do feminino que resolve. Docemente. Sem dar porrada, fazer ameaças, berrar, dar carteirada, humilhar. Simplesmente chega e resolve. Muitas vezes, só na conversa, frequentemente regada com bules de chá de rooibos, que também é o meu favorito. Com seu red bush tea e sua conversinha macia, Mma Ramotswe umedece e suaviza as encrencas mais cascudas de sua engraçadíssima clientela. E há ainda esses pronomes de tratamento adoráveis: Mma, para as mulheres, e Rra, para os homens, que de vez em quando usamos aqui em casa. Antes do ano terminar, eu precisava falar dela, minha amiga que me faz companhia no trânsito e torna agradáveis os meus outrora estressantes deslocamentos pelos labirintos engarrafados de Sampa. E, de quebra, ainda me ajuda a apurar os ouvidos para a língua inglesa. Posso não entender nada do que dizem os escoceses, mas lá em Botswana, eu entendo tudo. Lá sou amiga da rainha.

P.S. – A Companhia das Letras tem alguns livros de Mc Call Smith publicados, a maioria da Agência No 1 de Detetives Mulheres. Com traduções muito bem feitas, vale a pena começar pelo livro homônimo, e daí pegar “As lágrimas da girafa” ou “Moralidade para garotas bonitas”, ambos ótimos.

Mudo em preto e branco

George-Manawee e Jack

Dois fazem um: razão arrogante e instinto sabido

A metalinguagem deitou e rolou na última cerimônia do Oscar. Metalinguagem já é uma coisa chique, vamos combinar. E quando a metalinguagem vem impregnada de nostalgia, da ingênua e poderosa ilusão de que nosso mundo já experimentou valores mais delicados, sonhou com fantasias mais inspiradoras, teve como modelos heróis mais interessantes, aí então ela fica chique no úrtimo. Mais ainda se levarmos em conta esta Idade do Ferro em que vegetamos, barraqueira, mesquinha, consumista, vulgar, xiita, ignorante e sem imaginação, da qual, por sinal, somos ativos participantes. OK. O Oscar é um prêmio comercial, decadente e cafona, sempre tem uma marmelada para nutrir nossas paranóias, os velhotes da academia são uns reaças (e existe palavra mais reaça que reaça?). Confesso, porém, e sem constrangimento, que continuo acordando (eu que durmo com as galinhas) muito curiosa pra saber quem levou o quê, quem chorou, quem agradeceu à mamãe, quem esnobou o prêmio, quem se vestiu de escada, de caixa gigante de Mayzena ou de piano de cauda e outras bobajadas. Este ano, fiquei intrigada com a grande ausência das listas: o fabuloso “J. Edgar”, de Clint Eastwood, que fez a grande má-criação de contar pra todo mundo que Hoover era gay e filhinho de mamãe dominadora, além de um maluco competentíssimo. Resultado (que eu inventei): a velharada acadêmica botou ele de castigo, juntamente com seu astro, Leonardo di Caprio, melhor ator de 2012 na minha lista de premiações. Eu tinha mal tinha saído do cinema no domingão e a festa do Oscar já ia começar. Saí, por sinal, enlevada pela grande zebra da noite, o delicioso “O artista”, que acabou levando cinco prêmios: sem efeitos especiais, sem cenas de sexo (nem mesmo um bom beijo na boca), de violência explícita, de carros explodindo, de cabeças realisticamente arrebentadas por tiros. E mudo. Em preto-e-branco. Nem Woody Allen, nosso esquisitão favorito em Hollywood, foi capaz de fazer um filme mudo, ainda que sua fantasia nostálgica deste ano esteja alinhada com o astral de “O artista”. Só Mel Brooks teve esse desplante nos anos 1980, mas nem me lembro se “A última loucura” era dos bons ou uma daquelas porcarias que ele filmava para pagar as contas. A transgressão radical de “O artista”está em contar, num formato anacrônico, uma história clichê, de amor, solidariedade, ruptura e superação. Só que um clichê bem descascado de suas camadas superficiais, já ressequidas e quebradiças, pode revelar um núcleo imprevisto, ativo e suculento, capaz de reavivar o melhor em nós. “O artista” fala de uma metanóia, uma grande virada da maturidade, quando um herói na melhor tradição de Campbell e Jung atinge os limites do próprio ego e precisa então matar-se metaforicamente para reinventar-se e assim não sucumbir literalmente (o que quase acontece). Saí do cinema pensando que, se alguém merecia levar o Oscar que deveria ter ido para Leo, esse alguém era o simpaticíssimo Jean Dujardin, com seu personagem a la Manawee (ver “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés), devidamente assessorado pelo adorável Jack, seu cachorrinho personal trainer, agente e psicoterapeuta de plantão. Dujardin é George Valentin, o astro do cinema mudo canastrão e sedutor, mistura irresistível de Douglas Fairbanks e Gene Kelly, com um toque francês dos bons tempos de Yves Montand (ah! aqueles dentões apinhados!) e Charles Boyer (e que olhar, hein? fala sério…). Resistir, quem haveria de? Os velhotes da academia caíram de quatro, assim como eu, que nem vivi a era do cinema mudo. Mas que me deu saudade das sessões da tarde em preto-e-branco da minha infância, em que os galãs eram do tempo da juventude das minhas tias, isso deu! E que graça de “it girl” é Peppy Miller, a partner de George, espevitada, segura de si e leal! O Oscar deste ano falou de um imaginário cinematográfico reprimido, mas que ultimamente anda forçando a portinhola do alçapão para retornar e reenviar o imaginário patente, dominante, patologicamente heróico, de um cinema comercial superficial, auto-referente e babaca, para o útero da Grande Puta que o Pariu, onde ele deveria ficar um século de quarentena, até se dissolver um pouco e voltar mais calmo e equilibrado, em condições de usar seu fabuloso poder para coisas melhores. Provam minha hipótese os outros filmes no páreo, em diversas categorias: “Cavalo de Guerra”, “Os descendentes”, “A separação”, “Meia-noite em Paris”, “A invenção de Hugo Cabret”, “Histórias cruzadas”. Esses todos eu vi e suas imagens me estimulam a pensar  que deve mesmo haver algo de refrescante no reino dos clichês que é Hollywood. Acredito piamente no poder da imagem em geral e das imagens do cinema em particular, feitas para justificar tiranos, plantar imagens e ideias daninhas em cabeças de bagre, vender quinquilharias e outras merdas, mas também para inspirar e transformar almas sequiosas de beleza, de justiça e de bondade. Assim como fazem as ideologias e religiões, sem tirar nem por. O novo-velho cinema eterno, clássico, que “O artista” evocou para mim, tem um jeito de Carlitos, o vagabundo que chega sem querer, sem ser convidado, tropeçando no tapete, atrapalhado e adorável, para revelar nosso perfil mais bonito, que é justamente aquele que temos mais vergonha de mostrar.

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