Rebeldes sem calça ou Dioniso no meio do redemoinho

Dedico este post a minha querida amiga Bea Enger, que tem 19 anos e já foi aluna do Colégio Bandeirantes. A encomenda foi dela. Espero que ela goste.

dioniso

Foi James Hillman, um rebelde com causa (a causa da alma), renovador da melhor tradição da Psicologia Profunda, quem teve esse insight que considero o mais genial de um homem dado a insights geniais: quando estiver diante de um evento, pergunte qual é o deus (ou o diabo) que está ali, dançando no meio do redemoinho. Grosso modo, isso corresponde a cultivar “um olhar psicológico” sobre a realidade, o que não tem nada a ver com entender de Psicologia, mas está relacionado com uma facilidade de enxergar a alma atuando nos eventos, nos seres, no mundo, em todo lugar. A alma, a dançarina que cria as ilusões em cujo fluxo nos deslocamos ou estagnamos: Maya, Psiquê, Perséfone. Existem analfabetos com mais olhar psicológico que muito psicanalista e psiquiatra. Porém aqui estou, como sempre, me perdendo nos labirintos da alma, por onde adoro vagabundar. Certa vez, Jung disse que, expulsos da consciência individual e coletiva pelo Deus único, os antigos deuses  haviam se transformado em doenças. Isto corresponde a dizer que foram mandados para o inconsciente (ou para o Tártaro, onde Zeus trancafiou os titãs, de onde, em sua revolta titânica, eles desencadeiam os terremotos que sacodem nossos olimpos particulares). As potestades do inconsciente, forças psíquicas que Jung chamou de arquétipos, são inúmeras, diversas e infinitamente poderosas. Para melhor lidar com elas, as religiões politeístas as personalizavam em divindades antropomorfizadas, gerando assim a possibilidade de abordar, por meio da metáfora, algumas dessas energias incognoscíveis e inefáveis que nos habitam e movem, quase sempre sem que a mirrada consciência de nosso Eu sequer se dê conta delas. Nem quando eles nos derrubam e pisoteiam, conseguimos enxergar os deuses por trás de nossas doenças, de nossa realidade política decadente, da violência que assola nossas cidades, do fenômeno das redes sociais digitais e assim por diante. Semicegados pelos antolhos da razão técnico-instrumental, da religião institucional, das ideologias polarizadoras e de seus podres poderes, dos discursos mal ou bem urdidos que nos enganam e a gente gosta, nos submetemos a essa condição de meia visão (ou menos) geralmente por escolha e sem esboçar muita reação.  Em geral, e mesmo quando achamos que temos poder sobre o que somos e fazemos (talvez ainda mais neste caso), somos tangidos como ovelhinhas burraldas e heterônomas, manobradas, ansiosas por chegarem logo ao aprisco de algum lobo em pele de pastor. O legal de tentar enxergar a divindade que se manifesta por trás de um evento é que, desse modo, trazemos à consciência algo que nos manipula a partir de nossa sombra, sempre enganchada na poderosa sombra coletiva. Esse upgrade não tem preço. Interessante que a consciência nos chegue mais por meio da intuição, da sensibilidade, das imagens, das metáforas, das experiências do corpo, da meditação do que por meio dos discursos lógicos e ideológicos sobre como se tornar consciente. Nesse sentido, um filme pode ser imensamente mais potente do que um sermão. Uma obra de arte pode ser muito mais esclarecedora do que a minuciosa explicação de um especialista. Um belo romance desbanca cinquenta livros de auto-ajuda. Um mito faz barba e cabelo de um conceito. Uma piada desanca a lenga-lenga do político mais habilidoso e cínico. Como a imagem é a linguagem da alma, a divindade a dançar no olho do furacão nos chega à consciência tão somente através da imagem, visível apenas para o olhar psicológico. A arte do Renascimento fez isso de caso pensado e com resultados fabulosos. Ultimamente é Dioniso quem anda solto, ou “a sombra de Dioniso”, como já anunciava o título de um livro de Michel Maffesolli, publicado há mais de 20 anos. A sombra dele porque ninguém sabe que se trata dele, de Dioniso, e, portanto, ele está fora das análises sociológicas, das pesquisas com suas intervenções demagógicas e ingênuas, dos reducionismos cartesianos da mídia, dos maniqueísmos materialistas, enfim, da pequena zona fortemente iluminada e murada da consciência individual e coletiva. E isso torna o deus oculto na sombra imensamente perigoso e ameaçador, já que ele não pode ser visto e integrado, legitimado pelo coletivo e, desse modo, devidamente controlado, posto a serviço da vida na polis. Dioniso é o deus das metamorfoses, um Shiva helênico, mas também um deus estrangeiro na Grécia, o qual destrói as formas que já perderam o vigor e estão ocas, estéreis, sem sentido, mas não querem largar o osso. Mais conhecido como o deus do vinho, quando usa outro de seus nomes, Baco, ele está, por exemplo, nos excessos que marcam o comportamento destrutivo da moçada ao beber. A sombra de Dioniso está na diversão que se transforma em coma alcóolico, na overdose que incapacita ou mata, no desfile fantasmagórico dos nóias da Cracolândia, na violência gratuita de pobres e ricos que querem exercer algum tipo de poder, ainda que entrando pela porta dos fundos. Ninguém vê Dioniso na nossa cultura arrogante e defensiva, mas é ele quem comanda pessoalmente o cortejo de delirantes, como fez na peça “As Bacantes”, do velho e ultramodermo Eurípides. A sombra de Dioniso emerge na manifestação inconsequente que rapidamente degringola em vandalismo, como as que aconteceram na avenida Paulista, sm Sampa, há duas semanas. Dioniso estava lá, para afrontar o Rei Velho e Tolo do poder instituído, o Cronos que come os próprios filhos para não ceder o trono, para não acolher a mudança urgente e necessária. Era, porém, um Dioniso sem imaginação nem metáfora, literal no seu furor descompensado, arrasador no seu descomedimento, no seu intento de destruir de fato uma ordem que se recusa a enxergá-lo e a ritualizar criativamente sua energia. De um modo mais leve e bem humorado, todavia não mais consciente, Dioniso estava no “saiaço” que tomou de assalto o apolíneo Colégio Bandeirantes, em São Paulo, reduto dos filhos de uma certa elite sócio-econômica paulistana que faz das tripas coração para ver os nomes dos seus meninos de ouro estampados nas listas mais distintas da FUVEST. Duvido que o garotos que foram de saia à escola, em apoio ao colega ridiculamente expulso da aula no dia anterior por estar usando a mesma peça, duvido e faço pouco que eles saibam que o travestismo ritual é de Dioniso, que gosta de atuar através do feminino, diferentemente dos fodões patriarcais do panteão olímpico, que mandavam na religião oficial. Sim, a mulherada é de Dioniso, e para poder espiar, sem ser notado, as bacantes e as mênades endoidecidas nos ritos dionisíacos, o rei Penteu, de Tebas, se vestiu de mulher e acabou deposto e desmembrado. A moçada que quer desmembrar o rei precisa, contudo, identificá-lo e melhorar a pontaria. Tomara que isso comece a acontecer. Dioniso derrubou Collor, hoje quase transformado numa vestal pelo descaramento dos monarcas in charge. Dioniso cai muito bem quando se trata de desbaratar projetos de poder auto-referentes, que não estão abertos a nenhum tipo de moderação pela alteridade. Ou quando é preciso, por exemplo, desmantelar uma medida desavergonhada e anti-democrática como a PEC 37, em que um bando de Saturnos eunucos luta para preservar seus mais duvidosos privilégios, contra todos os interesses do povo brasileiro. Bom seria se fosse um Dioniso conscientizado, como aquele que destronou Penteu em Tebas, não sem violência. Vejo com certa inveja os jovens turcos resistindo bravamente ao conservadorismo que ronda seu cenário político, tendo algumas centenas de árvores como centelha de inspiração. No caso da praça Taksim, vejo Dioniso, o Puer impulsivo, e Cronos, o Senex sábio e metódico, associados para garantir as liberdades ameaçadas pelo endurecimento do regime. Por aqui, a moçada parece que começa lentamente a sair de trás das barricadas de maio de 68. A violência da polícia, indesculpável mas, cá entre nós, um clichê, é a reação igualmente desmedida, que acaba por, inadvertidamente, obrigar o rebelde a encontrar uma causa que valha mais do que R$0,20. A liberdade cobra seu preço aos que nasceram nela. E Saturno, o senhor deste ano de 2013, demanda limites, responsabilidade, forma. Como aconteceu no apolíneo colégio de que falei há pouco, Dioniso virá e espero que, com ele, venha também um Cronos que o ancore na realidade e o compense, em sua impulsividade. Assim o arquétipo se torna inteiro: puer-e-senex.  Se isso acontecer, estaremos diante de uma genuína mudança.

Pedro, o alquimista, ou uma questão de pele

O corvo (aquarela sobre papel)

Em “A pele que habito”, estamos às voltas com o arquétipo do hermafrodito, revisitado por uma ciência médica que nos seduz com promessas de perfeição e eternidade, nossas modalidades favoritas de hybris. No princípio, porém, antes mesmo de Hermafrodito nascer, eram os gêmeos polares. De um lado, Apolo: belo, culto e frio, tão eficiente no manejo da razão instrumental quanto incapaz de lidar com os próprios sentimentos.  Impermeável, seco, contundente como os afiados instrumentos cirúrgicos que maneja com maestria. Por outro lado, e já que se trata de Apolo, irremediavelmente mal sucedido com as mulheres. Seu projeto é movido, a princípio, por uma adoração a um feminino idealizado, posto que, com o feminino real, ele não consegue estabelecer uma relação de intimidade, sendo continuamente rejeitado. A oportunidade surge e ele a agarra, a fim de levar a cabo um duplo acerto de contas. Apolo decide então reunir o melhor das finadas mulheres de sua vida numa mesma criatura, o resultado esplendoroso de uma visão de mundo muito particular. Numa história em que apenas a aparência importa, nada é, contudo, o que parece, mesmo porque, quando se trata da retorta alquímica de Pedro Almodovar, forma e conteúdo nunca estão dissociados. Temos, pois, até aqui: (1) um Frankenstein comme il faut, mas também às avessas, porque mortalmente atraído por sua criatura monstruosa-deslumbrante; (2) um Barba-Azul sedutor-retalhador, cujo estigma (a loucura) está muito bem escondido dos olhos, ao contrário do que acontece com a personagem dos contos de fadas; (3) um Pigmalião narcisista e sua ambígua Galateia tecnológica; (4) um dândi psicopata, na melhor tradição do dr. Hannibal Lecter, reforçada ainda pela imagem da mulher-borboleta, cuja forma evolui misteriosamente no interior do macacão-casulo; (5) um Goya pós-moderno, às voltas com a minuciosa e obsessiva construção de sua deslumbrante maja desnuda, cuja versão digital, viva, estampa a parede de seu quarto (o que ainda me remete a “Janela indiscreta”, de Hitchcock).  Para honrar seus estereótipos favoritos, Pedro acrescenta a essa mistura explosiva uma figura de mãe que, presumo eu, deve ter muito em comum com a sua própria: assistente, guarda-costas, governanta, cozinheira, irredutível na lealdade cúmplice de quem se sabe responsável pela loucura do filho. Na verdade, loucura da prole, de que também faz parte El Tigre, um oposto complementar dionisíaco do irmão de sangue aristocrático e filho de patrão. El Tigre, o proscrito, a besta fera, é filho bastardo de um empregado. Sua natureza é animalesca, brutal, sem limites, inclinada ao lado obscuro. Como Pedro e Agustín, os filhos da senhora Almodovar, os filhos dessa mãe fictícia estão unidos pela sombra. No primeiro caso, a alquimia de Pedro cuida de transformar matéria sombria, a prima materia suja e corrompida, numa arte das mais criativas e originais. No segundo, será a mãe que, por excesso de amor e de sombra, levará sua prole à ruína. Retomando El Tigre: as mulheres -“todas umas vagabundas”, como dizia a Vaní de “Os normais”-, amam o monstro, atraídas que são por sua alteridade, por sua perversidade instintiva. Mais do que isso: entregam-se temerariamente a ele, deixam-se penetrar por ele, seguem-no até o fim. Em contrapartida, ele as liberta de suas gaiolas douradas, ainda que para destruí-las em nome de uma verdade íntima que elas temem e desejam conhecer. Retomando nossa lista de referências: (6) A Bela (Vera, que de verdadeira não tem nada) e a Fera (El Tigre, mais explícito impossível,  ainda por cima com sotaque brasileiro); (7) Jeckill e Hyde, o médico e o monstro; (8) o mito de Prometeu, sobreposto ao de Epimeteu e Pandora. No laboratório de Pedro, o alquimista, os opostos guerreiam, deixam-se fascinar um pelo outro, atraem-se tragicamente até fundir-se ou destruir-se mutuamente. Por isso é tão bom ter um novo filme de Almodovar para amar e odiar. Um filme do homem-oxímoro: coroinha e capetinha, conservador e revolucionário, chique e cafona, totalmente independente e filhinho da mamãe, lírico e épico, cômico e trágico, Vera e Vicente, El Tigre e Robert, inconsciente e ego, fantasista e pragmático.  Por esse motivo, com Pedro e seu cinema na parada, fica quase impossível polarizar. O espectador que detesta sabe que, lá no fundo, foi fisgado pela história delirante e incômoda. O espectador que ama sabe também que, lá no fundo, detestou enxergar suas micro-perversidades reveladas no espelho da tela. Em “A pele que habito”, para encanto da mulherada, Pedro Almodovar finalmente faz as pazes com Antonio Banderas, o alterego masculino que lhe cai melhor. Um evento assim, tão auspicioso, merecia mesmo uma história à altura.

 

Viagem tiética de Chico a Caetano

Aos dez anos de idade, eu amava Chico loucamente. Não surpreende: chispantes olhos verdes, dentes proeminentes de colegial, smoking alugado de moço de boa família em bailinho de clube. Já de Caetano, eu gostava e não gostava. O cabelo, demasiado parecido com o meu, portanto suspeito. O sorriso: grande demais para a cara miúda de mestiço. Aliás, moreno demais. O terno, nunca um terno de verdade. As canções: belas, mas estranhas, meio incompreensíveis para uma menina de dez anos. Caetano não se encaixava. Era um elemento que perturbava o mundinho tcháp-tchura da Jovem Guarda em que eu vivia mergulhada. Aos dez anos de idade, A Banda ressoava em mim muito mais do que Alegria, alegria. Torci por ela no festival em que Chico levou um prêmio duvidoso. Mas Caetano também ganhava todas as edições de um programa da TV Record que adorávamos assistir em família. Chamava-se Esta noite se improvisa e os participantes tinham de cantar uma canção em que aparecesse a palavra sorteada pelo apresentador. Caetano era imbatível. Não tinha para ninguém, quando ele estava presente. Tangos, boleros, ranchos, guarânias, marchinhas de carnaval… As palavras mais esdrúxulas… Ele se lembrava de tudo, cantava tudo de improviso (e sempre muito bem). Os outros convidados não tinham nem tempo de apertar o botão. Quando, décadas mais tarde, ouvi Jenipapo absoluto, entendi afinal. Era dona Canô, uma divindade ginecolátrica, espécie de Gaia-Mnemosine que acionava a competência de Caetano naqueles concursos como ainda faz hoje, de outras maneiras.  A prodigiosa memória afetivo-musical do menino ao pé da mãe fizera dele um competidor sem concorrentes. Desde sempre, Caetano foi, para mim, uma mistura de “tanino e mel”, como na metáfora que ele mesmo usa para caracterizar seu pai: doce-pungente, emoção filtrada pela peneira de uma razão completamente impregnada, ela também, de emoção. Mas vieram os anos de chumbo. Em meu coração adolescente, que não entendia bem o que se passava, Chico vencia Caetano por várias cabeças. Chico era Apolo, mesmo quando se fazia passar por Dioniso. No mito, as moçoilas amavam a imagem radiante de Apolo mas, em matéria de pegada, ele não fazia grande sucesso. Já Caetano era Dioniso e ponto. Ambivalente, polêmico, andrógino, inventivo, recusando os engajamentos óbvios impostos por aqueles tempos esquisitos… Chico não tinha ambiguidades: era um macho de esquerda. Caetano era uma metamorfose ambulante. Lembro de ter ido com uma prima mais velha ao centro da cidade e de lá ter comprado, num impulso, o LP recém-lançado que ele gravara no exílio em Londres. Museu do Disco. A capa me assustou e atraiu. Comprei e me arrependi na hora. A foto evocava e afrontava as fotos das capas dos LPs de Chico: sempre o close do moço bem apessoado em pose de estúdio fotográfico, foco nos olhos cujo verde se espalhava pela minha plantação. O rosto de Caetano, estampado na capa, era uma máscara de sofrimento. Os caracóis haviam crescido a ponto de virarem uma espessa juba ameaçadora. Uma barba incipiente, de adolescente, manchava o rosto abatido, emaciado, sem retoques de maquiagem. Um casaco branco peludo arrematava uma figura ao mesmo tempo vencida e provocativa. Cheguei em casa, botei o disco na vitrola portátil e ouvi pela primeira vez duas canções que até hoje me arrepiam quando escuto ou toco no violão: London, London e Maria Betânia. Também ouvi, pela enésima e primeira vez, Asa Branca ser cantada daquele jeito desgostoso, arrastado, denso, que é o jeito como eu mesma gosto de cantá-la, feito cego de feira. O verde que Caetano espalhava pela plantação era trágico: verde de gafanhotos, de inundação. O LP gravado em Londres por Caetano foi um marco no meu gosto musical. Tanto que logo me arrependi de ter me arrependido de tê-lo comprado. Chico passou. Caetano passou. Eu passei. E continuei comprando religiosamente, Natal após Natal, todos os LPs de Chico. Vez por outra, também comprava um de Caetano de que demorava a gostar, ao contrário do que acontecia com os discos de Chico, que eu sempre amava de primeira. Quando Caetano e Chico saiu finalmente (hoje sei disso), Apolo e Dioniso afinal se congraçaram e calibraram mutuamente. Mais tempo. Décadas. Nós três envelhecendo e envilecendo, como dizia o Rubem Braga. Chico ficando meio neurastênico e amargo, como todo marxista que ainda não levou a providencial tijolada do muro de Berlim na cabeça. Fazendo uns acordos mal ajambrados com o poder, passando procurações duvidosas… Em termos existenciais-musicais, Chico mudou pouco, penso eu. Já Caetano mudou tudo: afiando o senso de humor, rindo muito de si mesmo, encarando as maiores saias justas com estóica elegância, ainda recusando os reducionismos de qualquer natureza, experimentando-se em outras personas… Quando se deixou dilacerar, sem frescuras, pelas bacantes do Zé Celso no Teatro Oficina, entendi finalmente qual arquétipo Caetano encarna e com que precisa sutileza ele o faz, metamorfoseando-se em tudo sem, contudo, perder a essência de sua caetanice irrevogável. Olho agora para os dois, Caetano e Chico, quase a mesma idade, mesmíssima geração, experiências tão similares. Acho Chico acabado, sombrio. Acho Caetano lindo, vital. Ok. Ninguém ressoa, como Chico, as vozes do feminino; não sem temê-lo, é claro, e com toda razão. Todavia poucos homens sabem encarnar o feminino com a naturalidade de Caetano. Escuto, no estúdio de minha ruidosa cabeça, A Banda e depois Alegria, Alegria. Sei que a diferença entre ambos estava lá, desde sempre. Cheguei “em” Chico depressa demais. Demorei décadas para chegar “em” Caetano e ainda não estou lá. Chico está no controle de sua persona poética. Caetano não. Ele não teme o medo de se derramar, submeter, soar brega, cantar Coração materno, ser careta, incoerente e reacionário (uma palavra bestíssima, aliás, que não quer mais dizer rigorosamente nada). Caetano é um trovador no sentido original, provençal, do termo (não confundir com aquela cafonice plana do Oswaldo Montenegro, por favor). Se Chico é uma caixa de ressonância do coração feminino, Caetano é um servidor da vaca profana em tempo integral. Um cavalo da deusa, tataraneto da Senhora das Feras, bisneto de Cibele. Como Dioniso, Caetano atua pelo feminino e seu verbo é uma mulher, igual à protagonista de “Uma fábula sobre a fábula”, o conto de Malba Tahan: às vezes nua, às vezes coberta de peles rústicas, às vezes vestida como uma perua mítica. Voltando à maravilha que é Jenipapo absoluto, eu diria que, se Chico sabe, como poucos poetas, reunir o signo à rosa, Caetano põe o signo sob a rosa, o que, para mim, começa a fazer toda a diferença. O que não quer dizer que, na próxima semana, Chico não tenha recuperado a hegemonia.

Onde os deuses vêm repousar

Onde os deuses vêm repousar

Arranjinho de flores caseiro: uma oferenda à beleza que não dura

Tempos atrás, fui assistir a uma palestra do professor Junito Brandão sobre “As Bacantes”, no recém-inaugurado SESC-Ipiranga. Velhinho, fragilizado por uma cirurgia muito agressiva, ele parecia, contudo, envolvido por um halo de inspiração e entusiasmo, como se tivesse entrado no Hades e de lá retornado com uma braçada de dias luminosos ainda por viver, presenteados pelo casal infernal, Plutão e Perséfone. Por sorte, o auditório ainda não estava terminado. Uma mesa para o palestrante e algumas cadeiras para o público foram arranjadas num grande hall de entrada, que nem sei se existe ou se é fruto da minha memória truncada. No centro do hall, havia um imenso arranjo de flores, elaborado por uma velha amiga e disposto sobre uma grande mesa redonda, feita de rádica reluzente (estou rememorando, o que talvez signifique que esteja também inventando). No início da fala (que foi lindíssima), o professor Junito festejou seu (breve) retorno à vida que tanto amava e disse umas coisas memoráveis, como se estivesse um pouco alto, como se tivesse engolido um deus, naquele caso, o próprio Dioniso, o protagonista da noite. Um pouco ofegante e muito comovido, Junito declarou: “Se vocês pensam que os deuses estão lá em cima, nos andares e salas da administração, estão muito enganados. Os deuses estão em volta daquela mesa, reunidos ao redor das flores. Onde as flores estiverem, os deuses também estarão”.  Desde esse dia, nunca mais deixei de ter flores frescas dentro de casa. Enquanto ainda fazia suas excursões à feira, meu pai, outro velho dionisíaco a seu próprio modo, me trazia ramalhetes de flores do campo ou gérberas ou lisiantos (tinham de ser as flores que ele escolhia), mais uns chorinhos de botões de rosa, para eu colocar junto às fotos da neta. Depois que meu pai parou de ir à feira, eu mesma passei a sortir a casa com flores. Rosinhas francesas foram as minhas prediletas por muito tempo, com suas delicadas penquinhas lembrando decalques vitorianos.  Num dia em que elas estavam especialmente esplendorosas (o que acontecia pouco antes de começarem a despetalar) , pedi ao Edu para fotografá-las.  Agora ofereço a você, leitor, essa visão fugidia da beleza, que a imagem chapada não foi capaz  de eternizar, mesmo porque alguns sentidos ficaram interditados da experiência. Em seu livro “Meditações pagãs” (Vozes), a terapeuta junguiana Ginette Paris escreve um capítulo inteiro sobre Afrodite, a deusa do amor e também da beleza fugaz, que preside os arranjos florais, os bordados, os penteados, os vestidos, as comidas, tudo, enfim, que enfeita o dia para logo depois fenecer. Diversa da beleza majestosa e perene de Apolo, que perdura nos mármores e bronzes, a beleza de Afrodite é tão ou mais importante para a civilização, por tornar nossa vida possível, por se imiscuir nas frestas do concreto armado da realidade como as plantinhas que florescem entre as rachaduras da calçada. Naquela noite distante e inesquecível, o professor Junito me ensinou que os deuses eternos precisam da beleza efêmera da vida cortejada pela morte, para curar-se de tanto poder. A imagem de um deus-bebê, a dormir, tranquilo, numa manjedoura também ressoa essa verdade simbólica, precariamente equilibrada entre muitos pares de opostos. Pouco depois daquela palestra, eu soube que Junito retornara ao Hades… e dessa vez, não houve jeito de negociar. Hoje, minha imagem de ano novo é a foto de um velho bule de café cuja tampo se quebrou, recheado com um buquê de rosinhas francesas.  Ela contém o voto que faço a mim mesma e que estendo aos meus amigos e a todos que me fazem companhia, quando lêem o que escrevo: que em 2011, a gente saiba arranjar lugares belos, pequenos, provisórios, onde a eternidade se sinta, por um momento, convidada a repousar.

Apolo, Dafne e eu

Meu loureiro tem quinze anos de idade, trinta centímetros de diâmetro e mais ou menos seis metros de altura. Como a ninfa Dafne, cujo nome, em grego, quer dizer “loureiro”, ele lança seus dois lindos braços na direção do céu, um pouco suplicante, um pouco desafiador. Lutei anos contra as pragas que engruvinhavam suas folhas perfumadas. Até que um dia, meu jardineiro seu Aparecido me disse que não lutasse, que deixasse que o loureiro pegasse as pragas no meu lugar. Eu entendi, então, que ele era uma espécie de Cristo de quintal, vegetal e pagão. Depois das podas da última primavera, meu loureiro renovou-se e se encheu de brotos. Há uma semana, porém, suas folhas estropiadas secaram repentinamente e seu lindo tronco começou a rachar. Consultei o jardineiro (que não é mais o seu Aparecido), um agrônomo e a Ruth Toledo, minha mestra dos florais. O jardineiro embatucou. O agrônomo ecoou a Clarissa Pinkola Estés ao dizer que todos os seres vivos, mais dia, menos dia, têm de se haver com a degenerescência. A Ruth me entregou as metáforas que estavam faltando, como sempre faz. E eu juntei tudo neste post, que deve soar como uma louvação e um epitáfio ao meu querido loureiro agonizante: a árvore de Apolo, senhor das formas, das artes e da poesia, da medicina e da música, o grande clarividente, mas também o deus da peste e o doador da morte súbita. Apesar de ambíguo, como toda divindade que se preza, no território de Apolo reinam (ou ele espera que reinem) a razão luminosa e as proporções perfeitas. O que significa, em contrapartida, que não são bem vindas nem as sombras nem as dúvidas. Ao contrário de Zeus, seu pai, Apolo sempre foi meio azarado com as mulheres. Não à toa. O feminino teme esse excesso de secura, lucidez e claridade que devassa os cantos, expõe e ameaça o que deve permanecer oculto na umidade. Em nossas caprichosas bolsinhas anatômicas – vagina, peitinhos, útero -, as formas, tanto  as belas quanto as terríveis, esperam, protegidas na penumbra, pela hora certa de vir à luz. Por isso, as mulheres sempre preferiram o irmão barraqueiro de Apolo, Dioniso, o deus das transformações, com quem elas mantêm uma afinidade natural. Dioniso adora roubar a cena de Apolo, até porque é o deus do teatro. Hoje, porém, vou resistir ao seu charme debochado para continuar falando de seu irmão, o altivo e belo senhor do meu loureiro. O mito conta que Apolo apaixonou-se por Dafne, uma linda ninfa, filha de um rio-deus. Isso porque ele andara gozando da cara de Eros, coisa muito temerária de se fazer, já que o Amor carrega em sua aljava dois tipos diferentes de flechas: uma, que semeia a paixão e outra, que desencadeia a indiferença. Para se vingar dos gracejos de Apolo, Eros  condenou-o a amar Dafne e a ser, em contrapartida, repudiado por ela.  Doente de amor, o deus perseguiu inutilmente a ninfa, tão somente para ser humilhado e evitado repetidamente. Quando, enfim, conseguiu agarrá-la à força, ela suplicou ao pai que a livrasse e ele a atendeu, aliás, bem ao gosto de Dioniso: metamorfoseou a filha em árvore. Essa cena é linda e foi pintada e esculpida por não sei quantos artistas, ao longo da história da arte: entre seus braços, um Apolo atônito vê a pele branca e macia transformar-se em tronco escuro e rugoso, o corpo flexível enrijecer e imobilizar-se. Os braços erguidos tornam-se os dois grandes ramos principais, que eu tanto admiro em minha árvore.  Inconsolável, Apolo colheu alguns galhos, talvez mechas de cabelo da bem amada que o detestava, e com eles fez sua coroa, a mesma que premia os campeões, nem tão vencedores assim, como se pode perceber. Do seu jeito enviesado e belo, o mito sempre me esclarece. Estou eu mesma às voltas com as formas esgotadas de Apolo, condenadas à decadência, e com as transformações de Dionisos, inevitáveis e renovadoras. Acabo de substituir minhas calças tamanho 38 por novas, tamanho 42. Eu, que entrei nesse abraço como ninfa, saio dele lentamente transformada em árvore. Na minha fantasia, mais uma vez meu loureiro adiantou-se ao meu passo. A Ruth me disse assim: “Despeça-se dele e aproveite para transformar a ecologia do canteiro. Agora vai ter mais sol e espaço para arbustos e flores”. Não é lindo?