Sobre Alma e a Mulher-Esqueleto

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo, 1938

É PRECISO FALAR DA ALMA, NOSSA MULHER-ESQUELETO

A alma vive nas profundezas, diferentemente do espírito, que voa nas alturas. Não sou eu quem diz isso. É James Hillman, analista  pós-junguiano, criador da Psicologia Arquetípica, uma eflorescência da Psicologia Analítica ou Profunda. A alma mergulha na memória e nas imagens, porque elas são sua matéria e sua natureza, seu nascedouro e sua criação. A alma é aquática. Como dama das águas profundas e escuras, a alma se recorda e sente. Como senhora do fogo criativo, ela rodopia dentro de uma espiral feita de véus de fumaça. Porque sente, recorda e imagina, a alma é o contraponto do espírito e pode então calibrar esse asceta explicador que quer se livrar de todo peso e ascender, até se tornar uma abstração. A alma dói e, quando suas dores são tamponadas, ela faz adoecer o corpo. Corpo e alma formam uma unidade dual, uma dualidade íntegra, um oxímoro inconsútil. Inseparáveis,  eles fazem o espírito aterrar. Corpo e alma remetem o espírito aos seus devidos limites, aliviam suas compulsões, compensam suas obsessões. Pouca gente sabe disso. Quando a alma incomoda, basta calá-la com antidepressivos. Ou aliená-la de si mesma, com aditivos legais e ilegais. Por isso é preciso falar da alma, falar à alma. A dos adultos e a das crianças. Por meio da linguagem da alma, dos mitos e símbolos, dos contos e lendas, do cinema e da literatura, das imagens da arte e da memória, dos sonhos e das visões. É preciso falar da alma como se fala compulsivamente de economia, da Faixa de Gaza, de tecnologia digital, das eleições, como se fala, na escola, de ENEm e vestibular, de matemática e geografia, de sexualidade e consumo. Num mundo como o nosso, desencantado, desertificado pela racionalidade todo-poderosa, a voz da alma tem sido continuamente calada ou tem soado como delírio. No mundo da razão radicalizada e das imagens estereotipadas, da materialidade reduzida ao materialismo, é preciso dar voz à alma, falar sobre ela: suas habilidades, seus valores e parâmetros, sua perspectiva oposta e complementar à perspectiva do espírito, seu vínculo indissolúvel com o corpo. É preciso falar da alma, falar com ela, falar por ela, revisitá-la, honrá-la, dar a ela o lugar que lhe cabe em nossa vida desperta (porque, em nossos sonhos, é ela quem fala, embora quase nunca a ouçamos).  O poeta inglês John Keats escreveu que o mundo é o vale do cultivo da alma. É para isso que ele serve. É para isso que este blog pretende, ele também, humildemente servir.

ALMA E A MULHER-ESQUELETO

A Mulher-Esqueleto é uma imagem da alma. Para virar esqueleto, ela teve de ser sacrificada à lei do Pai, o espírito do patriarcado hegemônico. O corpo dela, lançado do alto de um abismo, foi abandonado e esquecido. Ela viu-se reduzida a um monte de ossos e esperou muitos anos, antes de ser recuperada e de poder reparar o dano do masculino predador por meio do masculino parceiro, empático. E ela só emergiu das profundezas por acidente. Num primeiro momento, ela causou terror, mas foi apenas por um breve momento, porque a coragem do pescador reconheceu nela o complemento, ao invés da ameaça. Afinal, de esqueleto para esqueleto, acabamos nos reconhecendo naquilo que temos de mais eterno e comum: os ossos, a alma, os arquétipos. Para revelar suas dádivas, a Mulher-Esqueleto esperou pacientemente que o desajeitado e compassivo herói se dedicasse a desenredá-la e a tecer com ela um novo enredo. Minha vida, como a do pescador, tem sido desenredar a Mulher-Esqueleto. Minha vida tem sido trazer a alma à tona d’água, para que ela reencante o mundo a partir desta minha minúscula torneirinha (de asneiras, como diria a Emília).  Por isso escolhi a personagem da Mulher-Esqueleto como figura de proa e mestra de cerimônias deste blog. Eu e a Mulher-Esqueleto agradecemos muito a sua visita. Pode ficar à vontade. A alma é toda sua.

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30 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Mariluza Abrahao
    out 15, 2010 @ 15:58:53

    Que bom foi ler, reler e recordar a Clarissa ainda mais com essa tua visão tão esclarecedora. Bjs e Parabéns

    Responder

  2. Fabiana Corrêa Prando
    out 16, 2010 @ 20:27:42

    Eli, querida!
    Estou encantada e muuuuuito feliz! Escreva sempre, nossa alma sedenta agradece seu talento, inspiração e generosidade. Amei o blog. Parabéns!!!
    Agradeço a referência ao meu trabalho, uma honra estar ao seu lado.
    Você é tudo de bom!!!!!
    Beijos com afeto desmedido. Sou sua fã de carteirinha!
    Fabi

    Responder

  3. maria eugênia sá
    out 21, 2010 @ 12:30:35

    Oi Eliana,

    Gosto sempre de ler o que escreve. Muito lindo o conteúdo do blog!
    Que venha a mulher esqueleto!
    bjs

    Responder

  4. Denise Costa Felipe
    out 21, 2010 @ 13:53:22

    Oi, Eli!

    Uau! Que preciosidades! Depois de ler os textos, de fuçar cada abinha, lembrei de uma canção… Deixo um fragmento dela aqui. Beijo grande, Dê.

    “[…]

    Eu sou o pescador
    Que parte toda manhã
    Em busca do tesouro
    Perdido no fundo do mar…

    Desde o Oiapoque
    Até Nova York se sabe
    Que o mundo é dos que sonham
    Que toda lenda é pura verdade…”

    Atlântida. Rita Lee e Roberto de Carvalho.

    Responder

  5. Sueli Thomaz
    out 24, 2010 @ 21:52:34

    Querida Eliane,

    Fantático a Mulher-Esqueleto, vindo de você não poderia ser diferente.
    Faço a analogia da minha vida hoje, com o conto da Mulher-Esqueleto.
    Há muito estava ressequida, aguardando um “pescador” que eu pudesse roubar seu coração, para fazer pulsar o meu.
    Esse pescador se transformou no SOL( é assim que eu o chamo) na minha vida.
    Depois de conhecer alguns “Barba-Azul” e ficar com as mãos sujas de sangue e de não ter morrido porque gritei pelos meus irmãos ( o inconsciente), encontrar o pescador, que com calma acreditou que eu um dia entraria no seu saco de dormir, transformou meu esqueleto, antes massa amorfa, numa nova juventude, numa adolescência recuperada. Os ossos que ganharam carne.
    Parabéns!
    Beijos,
    Sueli Thomaz

    Responder

    • elianaatihe
      out 25, 2010 @ 08:55:04

      Querida Su,
      A mulher-esqueleto tem poder de conectar o que estava separado. Que bom te reencontrar na rede!
      Vamos nos esfoçar pra não romper essa costura.
      Bjs e fiquei mto feliz de saber que vc está feliz.

      Responder

  6. ana letícia
    out 29, 2010 @ 20:12:41

    Eli querida,

    que delícia “ouvir” suas palavras outra vez. Ler o blog é continuar sempre nossas conversas luminosas. Estou amando, não pare de escrever. Você nasceu para cuidar das palavras.
    Muitos beijos,
    Analê

    Responder

  7. silvana muniz
    dez 21, 2010 @ 10:38:25

    Salve Eli!
    Adorei as rosas no bule apoiadas nos tijolos limpos… dava para praticar Pratyahara, ou seja, a abstração e a retirada da mente para dentro de si mesma!
    Mas minha gratidão e pela frase final do texto “…que 201, a gente saiba arranjar lugares belos, pequenos, provisórios, onde a eternidade se sinta, por um momento convidada a repousar”. Saiba que a recíproca é verdadeira e que nos encontremos por mais um ano na senda do Yoga.
    Namastê!
    Silvana

    Responder

  8. Trackback: Os números de 2010 « Mulher-Esqueleto
  9. Sueli Thomaz
    jul 21, 2011 @ 09:16:15

    Para os meus amigos do Face, o Blog da Mulher-Esqueto. Muito, muito Bom!

    Responder

  10. Sueli Thomaz
    jul 21, 2011 @ 09:17:42

    Eliana,
    Postei seu Blog no meu face.
    Bjs.
    Sueli Thomaz

    Responder

  11. Maria de Lourdes F. Pereira
    out 25, 2012 @ 00:03:26

    Que prazer ter encontrado seu blog! Foi como pegar um livro ao acaso da prateleira de uma biblioteca, começar a lê-lo e só conseguir parar no final. Muito envolvente! Resumo numa palavra o que senti lendo seus textos: essência

    Responder

  12. Maria de Lourdes F. Pereira
    out 30, 2012 @ 00:18:03

    Oi Eliana, você não me conhece. Cheguei até a Mulher-Esqueleto por acaso, eu diria, numa “pescaria” bem sucedida pela net. Gostei tanto, que tomei a liberdade de dar de “presente” seu blog a uma grande amiga, que também adora escrever e com certeza vai adorar seus textos.

    Responder

    • elianaatihe
      out 30, 2012 @ 07:24:04

      Bom, agora eu já te conheço, Lourdes. Vc e seus amigos são muito bem vindos na baía da Mulher-Esqueleto. Se estiver em Sampa hoje e tiver tempo e vontade, vamos fazer a nossa 4a festa do dia dos mortos no nosso ateliê. Entre no site e pegue o endereço (www.ocuili.com). Vai ser às 20h00. Apareça! Bjs

      Responder

  13. Marilia Rodrigues
    fev 13, 2013 @ 16:26:31

    Esta neta de Campbell agradece sua generosidade em dividir com todos a capacidade de criação; capacidade esta inerente a todo ser humano mas que nem todos sabem (ou nem todos querem) compartilhar!
    Bjssss,
    Marilia Rodrigues

    Responder

  14. Vitor Meireles
    abr 03, 2013 @ 16:45:32

    Nunca te te vi… sempre te amei…

    Responder

  15. Fabiana
    abr 03, 2013 @ 20:53:11

    Ai, que coisa mais engraçada…

    Responder

  16. http://forum.americanenglish.ua/profile.php?id=80638
    abr 17, 2013 @ 12:41:33

    Estaba investigando para un trabajo de la escuela relacionado
    a banamex bancanet y encontre esta informacion.
    Me ahorro mucho trabajo.

    Responder

  17. Lucila Machado
    abr 21, 2013 @ 18:55:42

    Querida Eliana, sei que voce pode imaginar minha alegria ao encontra-la falante e obviamente feliz na conferencia do TED e agora aqui no seu blog.
    Nem preciso dizer que conheco a mulher esqueleto (apesar deste nao ser visivel no meu corpo…)
    Saudades.

    Lucila Machado

    Responder

  18. Natalina Bassani
    jun 29, 2017 @ 23:56:02

    Minha alma reverencia a sua ! Estou feliz e grata por este encontro aqui.

    Responder

  19. Fabiana Carvalho
    ago 16, 2017 @ 11:08:38

    Eliana, como essa mulher esqueleto me sacode, tempos em tempos! É cíclico, mas é assim mesmo, não é? Tanto que abro grupos para aprofundar os capítulos do Mulheres que correm com os lobos, e o próximo será A mulher esqueleto. Dá uma olhada na minha pg do facebook. Fabiana Carvalho, Recife.

    Responder

    • elianaatihe
      ago 18, 2017 @ 15:19:08

      Fabiana, essa é a energia de reparação de que tanto precisamos e que deveria substituir a polarização que exclui a diferença que tanto tememos. Prosseguimos juntas na Alma, querida, que é onde os opostos se reúnem. Beijo.

      Responder

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