Um ano interessante

Em 2012, escrevi esse texto para um TED cujo link está na lista do blog, do lado direito da página. O Facebook o regurgitou ontem e eu me dei conta do quanto ele é importante e do quanto continua valendo, como expressão de um projeto de vida que prossegue e que eu gostaria que chegasse comigo à velhice. Num momento em que ser feminista muitas vezes tem significado estar tomada de histeria ou viver perpetuamente pintada para a guerra, creio que ele pode inspirar algumas boas conversas à antiga, entre parceiros e parceiras, regadas a chá e bolo, talvez a cerveja e mandioca frita, conversas que nos reenviem a nós, seres humanos de todos os sexos possíveis e imagináveis, para o mesmo lugar comum de amor e aceitação da diferença, que é tudo o que precisamos. Como post, ficou longo, mas não precisa ser lido de uma tirada. É até bom ler devagar, aos trechos, mesmo porque a divisão que fiz, com imagens colecionadas ao longo de tantos anos escrevendo este blog, amacia e ilumina o dito. Boa leitura. Bom ano novo. Que 2016 seja, como diz a maldição chinesa, um ano interessante.

A matilha de Hroshige

GRUPOS DE CORPO E ALMA

O lugar de onde quero falar a vocês hoje é o meu coração que envelhece e se transforma. É dele que sai o fio que liga todos os temas e as pessoas que fazem parte da minha vida e que me fazem sentir real: uma mulher de 55 anos de idade, vivendo numa cultura heroica e patriarcal, onde já começo a me tornar invisível. Quero falar de mulheres que se juntam para fazer mais do realizar atividades juntas. Quero falar de mulheres que se encontram para ficar juntas semanalmente, chova ou faça sol, apesar do trânsito, dos afazeres, das distrações com que o mundo nos afasta de nós mesmas e nos põe à deriva, girando feito piões no vazio. São mulheres que, depois de muito avançar, retornam aos mistérios simples e sagrados da natureza feminina, em busca de certas qualidades que andam esquecidas, num mundo que está muito carente delas. São mulheres que se reúnem para cultivar a alma em grupos de corpo presente. Talvez haja só mulheres envolvidas nesta história porque  parece que entendemos mais de cultivo da alma do que os homens. Não porque tenhamos mais alma do que eles, mas apenas por uma questão de sintonia com o corpo e a natureza. Essa afinidade entre a mulher e a natureza levou milênios para ser cozinhada e tecida.
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Agora ela corre o risco de desaparecer, levando consigo Gaia, nosso lindo planeta. Grupos de corpo e alma formados por mulheres falam de outro feminismo, muito antigo, perdido na aurora do tempo. Um feminismo que tem poder para curar nosso coração coletivo, despedaçado por uma civilização que já perdeu sua alma e que ameaça o mundo com uma novíssima barbárie. As experiências de grupos de corpo e alma sempre foram comuns entre as mulheres, que costumam perceber e expressar com facilidade o quanto precisam umas das outras para tocar a vida adiante. Descobri que isso acontece por um motivo simples: as mulheres sabem ficar. Ficaram para trás, plantando e colhendo. Ficaram cuidando das crianças, dos animais e das roças, ao redor do vilarejo neolítico e da maloca. Ficaram fiando e tecendo, narrando velhas histórias, costurando e bordando e lendo e escrevendo diários. Ficaram rezando e fofocando, lidando com plantas, fazendo simpatias, mezinhas, poções, unguentos. Ficaram benzendo, cuidando dos bebês e dos velhos, dos feridos e dos doentes. Ficaram mantendo aceso o fogo no centro da casa, cuidando do coração coletivo, em torno do qual se organizava a vida, onde as histórias eram contadas e as pessoas se aqueciam, conversavam, comiam juntas. A mulheres cultivaram os laços de afeto com a mesma dedicação com que cultivaram hortas e pomares. Os pomares e as hortas serviam para nutrir o corpo. Os laços serviam para nutrir a alma. Encarregadas de ficar para garantir a sobrevivência do corpo e da alma da comunidade, fazíamos duas coisas imprescindíveis para que a vida prosseguisse. Apertávamos os laços, providenciando o cuidado com quem estava nascendo e precisava ter sua alma feita para se tornar humano, porque ninguém nasce pronto. Na outra ponta, desatávamos os laços, garantindo o cuidado com quem ia morrer e precisava ter a alma liberada para partir.
Leda e o cisne, Eliana
Por uma questão cultural, porém, acabamos aprendendo a desprezar quem fica. Fomos levadas a acreditar que ficar significa não se desenvolver, estar sempre parado no mesmo lugar, depender, diminuir. Nesse sentido, fomos ótimas alunas do patriarcado. Num jogo onde quem é mais agressivo e dominador dá as cartas, o feminismo de primeira hora perdeu o rumo. Entendemos que, para sermos respeitadas, aceitas e valorizadas no grande mundo lá fora, precisávamos estar sempre em trânsito, como os homens, sempre envolvidas em atividades como lutar, competir, guerrear, triunfar. São todos verbos intransitivos, vocês perceberam?, verbos que expressam uma atitude individualista, que não considera a existência do outro, a não ser como competidor, servo e inimigo. Compramos esse pacote, jogamos o bebê fora, junto com a água do banho, e pagamos um preço alto demais, quando caímos em mais esse engodo patriarcal. Em troca de uma igualdade que acabou virando, para nós, sobrecarga e imitação do dominador, aceitamos perder nossa conexão com a natureza feminina profunda. Restaram somente as aparências para diferenciar. Consta que fomos nós que inventamos a agricultura, porque tínhamos a curiosidade, estabilidade e a atenção divergente para observar o sol, a lua, a direção do vento, as estações, os ciclos da natureza que ensinam a viver e a morrer. Para observar, é preciso ficar. Olhávamos em volta para coisas aparentemente insignificantes e acabávamos dando a elas significados que se revelavam importantíssimos. Foi assim que vimos as sementes eclodindo e resolvemos imitar a natureza, cultivando comida. Foi assim que encontramos o sagrado no mundo, muito antes dele ser transferido para o céu. Enquanto isso, os homens iam e vinham de realizar seus feitos, pequenos ou grandes, muitos deles relacionados com a pilhagem e a destruição da natureza e dos diferentes, que é outra palavra para “inimigo”.
Sem sapatilhas, só cascos
Deixadas para trás, nós mantínhamos o ciclo da vida fluindo no cotidiano miúdo e simples, que é tudo o queremos de verdade. Dizem que a agricultura e a cozinha nos ensinaram a lidar bem com as transformações. Éramos sedentárias, o que nos permitiu investir na criação de uma cultura estável. Paradoxalmente sabíamos mudar muito melhor do que os homens, que se movimentavam mais do que nós. Nossa sintonia com o corpo e a alma nos permitia ter uma mobilidade que os homens não tinham: desde pequenas, sabíamos viajar para dentro. Na primeira metade da vida, eu também saí, como todo mundo. Saí feliz, mas confesso que me sentia dividida. Eu era professora, o que me permitia ir e ficar. Eu tinha mais tempo livre. Eu me sentia importante, ainda que fizesse uma coisa considerada menos importante (educar, como vocês sabem, é uma coisa desimportantíssima). Mesmo  assim, fui convencida pela cultura dominante de que havia algo errado no meu modelo combinado de viver. Eu não precisava me sentir dividida porque, na verdade, estava integrada: o melhor dos mundos é poder transitar entre as polaridades. Eu deveria me sentir criativa, confortável e plena, mas a cultura patriarcal me convenceu de que eu não ganhava dinheiro suficiente, não me projetava suficientemente no mundo profissional, não era suficientemente agressiva e competitiva. Já minha intuição me dizia que ter tempo livre para cultivar minha alma, as almas dos meus filhos, da minha família, da minha casa (porque as casas também têm alma), era um imenso privilégio e me concedia um grande poder criador.

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo, 1938Eu queria ver meus filhos crescerem, estar com eles em suas passagens, contar-lhes histórias, ensiná-los a cantar, a ajudar, a gostar de animais e plantas, a comer bem, a preparar e partilhar refeições, a se relacionar. Queria ter tempo para namorar meu marido, ouvi-lo, ver filmes com ele, partilhar com ele o silêncio confortável  de ler juntos livros diferentes,  e conversar com ele sobre a nossa vida. Como minha mãe, eu tinha um imenso prazer em ficar: cuidar do jardim, da cozinha, da família, manter aceso o fogo no centro da casa em honra à poderosa e modesta Hestia, deusa do lar. Diferentemente de minha mãe, porém, eu podia sair e viver a vida no grande mundo, praticar minha vocação, circular com desenvoltura no espaço público. Algumas vezes, porém, o prazer de ficar, que eu partilhava com minha linhagem feminina, me deixava constrangida no grande mundo lá fora. Quando deixei a sala de aula, há alguns anos, o meu lado que sabia ficar me serviu de âncora. Saber ficar impediu que eu perdesse a sensação de realidade que vinha do meu papel profissional. Na época, eu vivia um momento de intensa metamorfose e as metamorfoses costumam nos dar essa sensação de perda da própria realidade. Formas externas com as quais eu me identificava estavam desaparecendo, e eu ainda não sabia direito como haveria de sair daquela experiência. A gente nunca sabe, mas às vezes pensa que sabe. Minha sintonia com meu corpo e minha alma me garantiu um razoável conforto para fluir na correnteza da vida que mudava. Eu tinha as histórias, as memórias de família, os estudos de assuntos que ecoavam a minha existência, a escrita, os mitos, a arte, a literatura, o jardim, as imagens nas quais eu me espelhava e que me diziam tudo o que eu precisava saber sobre qual era o meu valor. Minha intuição me dizia que o melhor estava por vir, ainda que eu não fizesse a menor ideia do que estava por vir. Então o melhor veio.

Tudo viagem de volta

Minha experiência com os grupos de corpo e alma começou com um laço muito íntimo e antigo: a aliança mítica das irmãs. Em 2008, minha irmã voltou de uma temporada de três anos no México e me convidou para embarcar com ela numa aventura. Minha irmã é artista plástica e arte-educadora. Ela queria montar um lugar para cultivar as almas das nossas crianças, massacradas por uma educação escolar em que o corpo, as emoções e a imaginação simplesmente não interessam, só atrapalham. Eu sabia disso, porque vinha de quase 30 anos dando aulas, nadando contra a correnteza de transformar adolescentes curiosos e interessantes em autômatos tarefeiros, insensíveis e consumistas. Como não tínhamos cacife para bancar o projeto sozinhas, convidamos outras mulheres que tinham projetos parecidos com o nosso, e formamos o primeiro grupo de corpo e alma: as “ocuilis” (palavra que minha irmã trouxe do México, do velho idioma “náuatle”, e que quer dizer “cobra”, um bicho que troca de pele e simboliza o eterno que sabe mudar). Começamos nosso ateliê depois de comemorar a festa do dia dos mortos. Foi quando meu casulo começou a se abrir e a revelar minha nova forma. No início, eu tinha pensado em coordenar grupos de leitura. Era um projeto mais intelectual, como se, saindo novamente para o mundo, eu precisasse ser apenas racional. Para minha sorte, as mulheres que aderiram à ideia propuseram leituras não literárias, leituras de conhecimento profundo de si, divergentes, analógicas e um bocado irracionais também, textos de mulheres fora da curva, destinados a mulheres fora da curva: contos de fadas, mitos, metáforas. Eram mulheres que tinham desenvolvido muito sua capacidade intelectual e agora queriam se tornar sábias.

a virgem santana e o menino

Assim nasceram as matilhas de leitura, grupos de mulheres que começaram lendo , juntas, o clássico “Mulheres que correm com os lobos”, da analista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés, de onde saiu a metáfora que nos define. Não é coisa nova, muitas mulheres já faziam isso antes de nós. Mas é único, porque fazemos isso de um jeito completamente nosso. Como não podíamos mais ser alcateias, porque já estávamos bem domesticadas, seríamos então matilhas em busca do DNA do feminino selvagem, a fonte de energia vital que continua a se renovar pela vida afora, de que falam os mitos e as velhas histórias tradicionais. As matilhas são grupos de corpo e alma. Nelas as mulheres se reúnem para compartilhar a experiência de ser e estar ao redor do seu próprio fogo criativo, onde são modeladas outras formas de ser e de viver além daquelas que a sociedade aprova. Cultivar a alma em grupo era o nosso objetivo embora, no início, nem soubéssemos disso. Juntas, aprendemos que, quando bem cuidada, a alma secreta os significados que umedecem e fertilizam a vida, fazendo brotar plantas novas em velhos jardins. Aprendemos também que o corpo se transforma criativamente quando a alma está preparada para lhe ensinar como se faz. Aprendemos que a alma é alquimista e o corpo, seu laboratório. Quando um não colabora, o outro adoece. Um não pode viver sem o outro. Aprendemos que o corpo e a alma equilibram a razão lógica e a tornam menos abstrata, prepotente e fria. Somos mulheres que estão reaprendendo a ficar. Cultivar a alma em grupo não tem segredo, só mistério, como canta Marisa Monte. Começa com a gente encontrando a trilha de migalhas de pão que nos leva à casa da bruxa iniciadora de princesas e mendigas , a velha sábia que vai nos iniciar nesse mistério. É preciso olhar para o chão para ver migalhas.

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No chão, estão gravadas nossas pegadas antropológicas. Saber de onde viemos é saber para onde vamos, porque a vida é um círculo, não uma linha reta. Em meio à aparência de novidade que o mundo quer nos impingir, seguimos juntas atrás do que é arcaico, do significado mais profundo e escondido de ser gente, daquela natureza real que não nos deixa ficar invisíveis só porque
envelhecemos. Aprendemos que só a conexão com o arcaico é capaz de convocar o novo verdadeiro. Como disse uma vez o Gerald Thomas, “quem não sabe o que veio antes, não sabe seguir adiante”.
Um grupo de corpo e alma é uma comunidade de iniciação onde aprendemos sobre o lado desvalorizado de nossa natureza feminina e o reparamos da melhor maneira possível: primeiro metaforicamente e depois, na prática. Queremos reinserir no cotidiano as qualidades simples, encantadoras, criativas, terapêuticas, conciliadoras, fecundantes, acolhedoras, ferozes quando necessário, e que espalham ao redor de si e à sua passagem as sementes da genuína beleza, a que nasce do amor e do sentido. Para nós, uma lista de fazeres que cultivam a alma precisa incluir: narrar e ouvir histórias, falar da vida, escutar atentamente, ler e comentar livros e filmes e obras de arte e encontros poderosos, partilhar assuntos importantes que apenas parecem insignificantes, estudar e jogar tarô, chorar de vez em quando, chorar de rir sempre, recuperar velhas prendas domésticas, rememorar as vidas de nossas mães e avós, trocar receitas, invocar imagens de deusas e antepassadas míticas, comemorar festas normais, como aniversários, e esquisitas, como o Dia dos Mortos… Ultimamente algumas lobas vêm se reunindo em outras formações, para cultivar a alma nos ateliês de arte que minha irmã coordena. Faço parte de um deles e posso dizer: é uma experiência impressionante de despertar da criatividade profunda e de cura (para quem sente que precisa de cura, claro).

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A experiência dos grupos de corpo e alma, as matilhas que continuam a se encontrar semanalmente, anos passados, sempre abertas a novas lobas, derivou, a seu tempo, para a Internet. Cultivar a alma na rede é uma coisa ótima e que muita gente já faz. Eu também resolvi fazer, escrevendo o blog da Mulher-Esqueleto. Num grupo de corpo e alma, a gente pode correr o risco de ser quem é. Não precisa dissimular juventude muito menos felicidade no atacado, não tem uma obrigação com o sucesso que esse mundo besta consagra. Podemos expor nossas dores e feridas protegidas por um continente que nos envolve, apoia e convence de que temos resiliência suficiente para superar. Num grupo de corpo e alma, a sensação de ser real é concreta. Sentir-se real não é coisa dada, a gente não nasce com ela, ainda mais numa cultura em que a gente é premiado por se transformar em abstração ambulante. É uma coisa para ser fiada todos os dias, na velha roca da vida, enquanto buscamos nossos elos com o mundo, a inteireza que depende de um pacto consciente com o outro. Só na relação com o outro somos reais, o outro humano e o outro não humano, esse grande Outro que é o mundo. Ninguém vai negar o quão importante foi aprender a partir. Agora precisamos reaprender a ficar. E ficar é verbo de ligação, como bem lembrou minha amiga-loba Regina. Os grupos de corpo e alma nos ajudam nessa jornada de volta para casa, à aurora dos tempos, quando Deus era mulher.
Eliana, Novembro de 2012

Faxina, colagem Eliana

 

Salve, preguiça!

Uma espreguiçadela arquetípica

Andei com preguiça de escrever no blog. Gosto muito de escrever no blog, mas também gosto de sentir preguiça. Não abuso nem de um nem de outro, porque se a preguiça e a escrita virarem coisas banais, acabarão perdendo o valor. Bem vivida, a preguiça pode ser tão criativa quanto a escrita. Sentir preguiça é mais ou menos como estar grávida por uma horinha ou duas. Este post é filho da minha última preguiça. Este e os próximos que pretendo escrever em seguida. Tudo bem que o clichê da boa preguiça já foi lindamente explorado por Michel de Montaigne, Dorival Caymmi, Domenico de Masi, Ariano Suassuna, Caetano, Gil, entre outros preguiçosos mais ou menos interessantes. Eu insisto, porém, que certos clichês são, na verdade, falsos clichês. Embora a mente racional os considere assim, eles ainda não foram devidamente experimentados, tão somente debatidos até o desgaste e abandonados no arquivo morto do plano mental. Ainda há muito que viver, na nossa cultura compulsivo-obsessiva, em termos de preguiça. A igreja cristã considera a preguiça um pecado. Muito natural. Afinal, num sistema em que o corpo e a alma foram dissociados e ainda são considerados como realidades antagônicas, a preguiça vira uma transgressão incontornável, mesmo porque, entregues a ela, percebemos que o corpo e a alma são inseparáveis. Na preguiça, a segunda convence o primeiro a fruir a si mesmo e ao mundo sem ter de ir a um restaurante ou cinema, nem botar um CD pra tocar, nem dar uma trepada, nem investigar a geladeira em busca de sorvete ou vinho, nem ler, nem escrever… A preguiça não precisa de aditivos. Ela produz sua própria química, seu próprio combustível. A preguiça é um daqueles estados em que nossa alma é feita, como diz James Hillman. O corpo responde a ela ficando pesado e sonolento quando, na verdade, está ainda mais aberto e disponível às coisas que a alma lhe sussura e revela. Os sentidos se aguçam, a gente ouve o próprio coração bater, às vezes os ouvidos zumbem, sem incômodo, com um zumbido que, suspeito eu, deve ser um eco da música das esferas. Por isso uma bela preguiça e uma gravidez são tão semelhantes. Em ambas, algo está sendo gestado na penumbra, na aparente imobilidade fervilhante de possíveis. Parece que se está vivendo em câmera lenta, contudo se está vivendo apenas, mas muito minuciosamente. Na preguiça, a alma convida o corpo a perceber o que quase sempre esteve lá (no mundo) e cá (em nós), e que raramente percebemos, “escravos cardíacos das estrelas” que somos, como disse Fernando Pessoa. É que a preguiça instala uma espécie de torpor no espírito. Ela manda o espírito dormir, como uma mãe manda um menino tirar uma soneca à tarde, porque não aguenta mais suas traquinagens. Natural então que, na preguiça, a gente baixe, a pressão baixe, as abstrações baixem e virem, todas, sensações. Como é macio este travesseiro. Como é linda aquela trepadeira indomável que eu queria cortar, mas agora não quero mais. Como é bom este cheiro de café que vem da casa do vizinho. Como gosto daquela gravura do Egon Schielle de que acabo de me lembrar, mas que não vou conferir, porque estou com preguiça, o que não me impede de reconstruir sua imagem de memória, num devaneio plástico. Minha preguiça de escrever aqui talvez seja uma resposta automática à mensagem que recebi da WordPress no começo de 2011, dizendo que meu blog é muito produtivo, movimentado etc etc. Na hora em que li, até fiquei orgulhosa. Depois, me deu uma baita leseira. Agora estou de volta, até porque o menino traquinas acordou e acaba de escapar para o quintal. Corro atrás dele, com o corpo e a alma mais pacientes, mais sincronizados. Até porque o menino-espírito é do chifre furado e precisa de um continente firme e flexível para nem ficar à deriva, nem virar um fundamentalista pentelho.  Sim, a preguiça é um paradoxo, ou um oxímoro, se você preferir. Para entendê-la sem vivê-la, só mesmo observando a soneca diurna de um gato, misto de entrega absoluta com a mais absoluta prontidão.

De matilhas a alcateias: dois anos lendo, juntas, “Mulheres que correm com os lobos”

Porta de lojinha em Lourmarin, na Provence

Talvez este devesse ter sido o derradeiro post de 2010. Agora será o primeiro de 2011. A agonia do ano velho costuma ser atropelada por uma ansiedade que inviabiliza os dias do mês de dezembro para as revisões, ao menos as que valem a pena. As que pedem quilômetros de caminhada sem rumo, horas de conversa fiada, noites bem sonhadas, páginas de livros preguiçosamente lidas, cenas de filmes assistidas e comentadas na companhia de gente de quem se gosta, uns tantos litros de caipirinha, eventuais rodadas de buraco, se possível um ou dois crepúsculos daqueles bem alaranjados… Revisões assim levam tempo para baixar, geralmente tempo de férias, palmilhado em sandálias havaianas, vivido na taba, gloriosamente desperdiçado. Uma combinação imprevista de trapalhadas de fim de ano com recordações de deuses e flores me livrou da tentação de escrever uma retrospectiva com padrão globo de qualidade. Hoje, na agonia das férias de verão, quero revisitar (e convidar outras pessoas a revisitarem) a estupenda experiência de ler em grupo, ao longo de dois anos, “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. Começamos em 2009, no ateliê Ocuili recém-nascido, com meia dúzia de mulheres inquietas, novidadeiras, porretas. Era a primeira de três matilhas, todas formadas por cachorrinhas bem adestradas, leitoras leais, sonhadoras sem medo, amigas velhas, novas e recém-descobertas. Almas nada básicas, todas vivendo limiares, trocando de pele, liberando filhos, tentando renovar votos, escrevendo teses, reinventando-se, encerrando histórias, estreando temporadas, desencavando dons… A gente não sabia no que ia dar, se ia pegar, se ia durar, como ia ser. Logo, porém, éramos três matilhas em marcha, nascidas para virar alcateias. Teve gente que caiu fora e a gente acha que foi de medo. Não somos falsas modestas. Dá muito medo mesmo chegar perto do coração da mulher selvagem. Não é para qualquer um. Só Vassilissas arretadas seguram essa onda. O primeiro grupo encerrou a leitura de “Mulheres” em dezembro e já começa 2011 comprometido com mais dois livros: “A ciranda das mulheres sábias”, da mesma Clarissa, nossa fêmea-alfa de plantão, seguido de “O código do ser”, de James Hillman, cuja leitura deve começar somente depois do carnaval. O segundo grupo segue na trilha da mulher-esqueleto, conto-tema deste blog e do capítulo 5 de “Mulheres”. O terceiro grupo, que era quinzenal, torna-se semanal em 2011, para poder caminhar mais depressa pela floresta lado a lado com Vassilissa, a heroína do capítulo 3. Nosso método é o do prazer. Nosso vínculo é o da amizade entre mulheres: ruidosa, bifurcada e bipolar, adubada com lágrimas e risadas, chá e biscoitinhos. Nosso ritmo é o do feminino: lento, circular, repetitivo, criador, com direito a ciclos de penumbra e umidade. Nosso tempo é dado: largamos tudo o que estamos fazendo e vamos desperdiçá-lo juntas, muito coerentemente, com certas coisas que o senso comum considera inúteis, mas que, para nós, são essenciais. Nossa rede de conexões é uma teia embaraçada com filmes, outros livros, baralhos de tarô, sonhos, viagens, amplificações em todas as direções, imagens e mais imagens. E prosseguimos, contra todos os vaticínios pragmáticos. Noite adentro, floresta adentro, alma adentro, despertando nossa intuição soterrada e aprendendo a devorar casinhas de chocolate, para fazer amizade com as bruxas que moram nelas. Como diz a Clarissa: jovens enquanto velhas, velhas enquanto jovens. Evoé, garotas!  Para cima com a viga em 2011!

“O mundo da criança” e as crianças do mundo

Minha edição é de 1954. Chegou ao mundo três anos antes de mim. Chegou e já começou a construir a casa-botina onde eu haveria de morar, a  plantar a árvore dos confeitos do meu jardim interior, a tricotar as luvinhas que os meus gatinhos haveriam de sujar… Quem eu teria sido sem ela, vermelha e sólida, enfileirada na estante, botando cor e movimento na casa boba e feia onde eu morava? Quem eu teria sido sem ela? Que forma minha alma teria assumido que ela não tivesse moldado? Você também foi assombrado e encantado pelos livros da coleção “O mundo da criança”? Tenho-a bem aqui, muito bem dividida em: alfarrábios esfarrapados em graus variados de degradação (volumes de 1 a 11) e livros bem velhos quase intactos (de 11 a 15, chatices educativas para famílias americanas em preto e branco). Brinquei, gastei, li, reli, treli, comi, molhei, engordurei, rasguei (sem querer, juro), desfiei, amei, arrastei, usei de travesseiro… Você também foi acalentado pelos versinhos de pé quebrado do volume 1? Você também esmolambou seu livro de “Histórias de fadas”? Você também deixou suas digitais gravadas em manteiga no seu volume “A arte ao alcance da criança” (não é engraçado e babaca esse título)? Se a sua alma também foi amassada, modelada e cozida no forno de bruxa do “Mundo da criança”, então você é da minha família, você também é uma criança do mundo. Não tem jeito de você perder a graça. Garantido.

Dia dos Mortos no ateliê de artes

Este post relata uma experiência no ateliê livre de arte para crianças, coordenada pela arte-educadora e artista plástica Ana Cristina Ronconi, do ateliê Ocuili, no Itaim-Bibi, São Paulo. Trata-se de um trecho do artigo “Trabalhando para chegar ao significado”: pequenas histórias do ateliê de artes, sobre a importância da arte na vida e na educação das crianças. Damos notícias quando o texto integral for publicado.

Entrar num processo artístico significa não se fechar a nada. Significa perguntar: “Que uso posso dar a isso tudo?” (Anna-Maria Holm)

O ateliê de artes é sempre uma experiência em que as culturas e seus símbolos são deliberadamente convidados a participar e estão conscientemente representados por meio dos artistas e suas obras, dos materiais, das imagens que vêm enxamear ao redor do trabalho, das histórias que elas mobilizam ou que as mobilizam, das vivências das crianças etc. O ateliê de artes é um lugar onde valores opostos podem dialogar e reconciliar-se: vida e morte, alegria e dor, atividade e passividade, luz e sombra… Mais