Um ano interessante

Em 2012, escrevi esse texto para um TED cujo link está na lista do blog, do lado direito da página. O Facebook o regurgitou ontem e eu me dei conta do quanto ele é importante e do quanto continua valendo, como expressão de um projeto de vida que prossegue e que eu gostaria que chegasse comigo à velhice. Num momento em que ser feminista muitas vezes tem significado estar tomada de histeria ou viver perpetuamente pintada para a guerra, creio que ele pode inspirar algumas boas conversas à antiga, entre parceiros e parceiras, regadas a chá e bolo, talvez a cerveja e mandioca frita, conversas que nos reenviem a nós, seres humanos de todos os sexos possíveis e imagináveis, para o mesmo lugar comum de amor e aceitação da diferença, que é tudo o que precisamos. Como post, ficou longo, mas não precisa ser lido de uma tirada. É até bom ler devagar, aos trechos, mesmo porque a divisão que fiz, com imagens colecionadas ao longo de tantos anos escrevendo este blog, amacia e ilumina o dito. Boa leitura. Bom ano novo. Que 2016 seja, como diz a maldição chinesa, um ano interessante.

A matilha de Hroshige

GRUPOS DE CORPO E ALMA

O lugar de onde quero falar a vocês hoje é o meu coração que envelhece e se transforma. É dele que sai o fio que liga todos os temas e as pessoas que fazem parte da minha vida e que me fazem sentir real: uma mulher de 55 anos de idade, vivendo numa cultura heroica e patriarcal, onde já começo a me tornar invisível. Quero falar de mulheres que se juntam para fazer mais do realizar atividades juntas. Quero falar de mulheres que se encontram para ficar juntas semanalmente, chova ou faça sol, apesar do trânsito, dos afazeres, das distrações com que o mundo nos afasta de nós mesmas e nos põe à deriva, girando feito piões no vazio. São mulheres que, depois de muito avançar, retornam aos mistérios simples e sagrados da natureza feminina, em busca de certas qualidades que andam esquecidas, num mundo que está muito carente delas. São mulheres que se reúnem para cultivar a alma em grupos de corpo presente. Talvez haja só mulheres envolvidas nesta história porque  parece que entendemos mais de cultivo da alma do que os homens. Não porque tenhamos mais alma do que eles, mas apenas por uma questão de sintonia com o corpo e a natureza. Essa afinidade entre a mulher e a natureza levou milênios para ser cozinhada e tecida.
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Agora ela corre o risco de desaparecer, levando consigo Gaia, nosso lindo planeta. Grupos de corpo e alma formados por mulheres falam de outro feminismo, muito antigo, perdido na aurora do tempo. Um feminismo que tem poder para curar nosso coração coletivo, despedaçado por uma civilização que já perdeu sua alma e que ameaça o mundo com uma novíssima barbárie. As experiências de grupos de corpo e alma sempre foram comuns entre as mulheres, que costumam perceber e expressar com facilidade o quanto precisam umas das outras para tocar a vida adiante. Descobri que isso acontece por um motivo simples: as mulheres sabem ficar. Ficaram para trás, plantando e colhendo. Ficaram cuidando das crianças, dos animais e das roças, ao redor do vilarejo neolítico e da maloca. Ficaram fiando e tecendo, narrando velhas histórias, costurando e bordando e lendo e escrevendo diários. Ficaram rezando e fofocando, lidando com plantas, fazendo simpatias, mezinhas, poções, unguentos. Ficaram benzendo, cuidando dos bebês e dos velhos, dos feridos e dos doentes. Ficaram mantendo aceso o fogo no centro da casa, cuidando do coração coletivo, em torno do qual se organizava a vida, onde as histórias eram contadas e as pessoas se aqueciam, conversavam, comiam juntas. A mulheres cultivaram os laços de afeto com a mesma dedicação com que cultivaram hortas e pomares. Os pomares e as hortas serviam para nutrir o corpo. Os laços serviam para nutrir a alma. Encarregadas de ficar para garantir a sobrevivência do corpo e da alma da comunidade, fazíamos duas coisas imprescindíveis para que a vida prosseguisse. Apertávamos os laços, providenciando o cuidado com quem estava nascendo e precisava ter sua alma feita para se tornar humano, porque ninguém nasce pronto. Na outra ponta, desatávamos os laços, garantindo o cuidado com quem ia morrer e precisava ter a alma liberada para partir.
Leda e o cisne, Eliana
Por uma questão cultural, porém, acabamos aprendendo a desprezar quem fica. Fomos levadas a acreditar que ficar significa não se desenvolver, estar sempre parado no mesmo lugar, depender, diminuir. Nesse sentido, fomos ótimas alunas do patriarcado. Num jogo onde quem é mais agressivo e dominador dá as cartas, o feminismo de primeira hora perdeu o rumo. Entendemos que, para sermos respeitadas, aceitas e valorizadas no grande mundo lá fora, precisávamos estar sempre em trânsito, como os homens, sempre envolvidas em atividades como lutar, competir, guerrear, triunfar. São todos verbos intransitivos, vocês perceberam?, verbos que expressam uma atitude individualista, que não considera a existência do outro, a não ser como competidor, servo e inimigo. Compramos esse pacote, jogamos o bebê fora, junto com a água do banho, e pagamos um preço alto demais, quando caímos em mais esse engodo patriarcal. Em troca de uma igualdade que acabou virando, para nós, sobrecarga e imitação do dominador, aceitamos perder nossa conexão com a natureza feminina profunda. Restaram somente as aparências para diferenciar. Consta que fomos nós que inventamos a agricultura, porque tínhamos a curiosidade, estabilidade e a atenção divergente para observar o sol, a lua, a direção do vento, as estações, os ciclos da natureza que ensinam a viver e a morrer. Para observar, é preciso ficar. Olhávamos em volta para coisas aparentemente insignificantes e acabávamos dando a elas significados que se revelavam importantíssimos. Foi assim que vimos as sementes eclodindo e resolvemos imitar a natureza, cultivando comida. Foi assim que encontramos o sagrado no mundo, muito antes dele ser transferido para o céu. Enquanto isso, os homens iam e vinham de realizar seus feitos, pequenos ou grandes, muitos deles relacionados com a pilhagem e a destruição da natureza e dos diferentes, que é outra palavra para “inimigo”.
Sem sapatilhas, só cascos
Deixadas para trás, nós mantínhamos o ciclo da vida fluindo no cotidiano miúdo e simples, que é tudo o queremos de verdade. Dizem que a agricultura e a cozinha nos ensinaram a lidar bem com as transformações. Éramos sedentárias, o que nos permitiu investir na criação de uma cultura estável. Paradoxalmente sabíamos mudar muito melhor do que os homens, que se movimentavam mais do que nós. Nossa sintonia com o corpo e a alma nos permitia ter uma mobilidade que os homens não tinham: desde pequenas, sabíamos viajar para dentro. Na primeira metade da vida, eu também saí, como todo mundo. Saí feliz, mas confesso que me sentia dividida. Eu era professora, o que me permitia ir e ficar. Eu tinha mais tempo livre. Eu me sentia importante, ainda que fizesse uma coisa considerada menos importante (educar, como vocês sabem, é uma coisa desimportantíssima). Mesmo  assim, fui convencida pela cultura dominante de que havia algo errado no meu modelo combinado de viver. Eu não precisava me sentir dividida porque, na verdade, estava integrada: o melhor dos mundos é poder transitar entre as polaridades. Eu deveria me sentir criativa, confortável e plena, mas a cultura patriarcal me convenceu de que eu não ganhava dinheiro suficiente, não me projetava suficientemente no mundo profissional, não era suficientemente agressiva e competitiva. Já minha intuição me dizia que ter tempo livre para cultivar minha alma, as almas dos meus filhos, da minha família, da minha casa (porque as casas também têm alma), era um imenso privilégio e me concedia um grande poder criador.

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo, 1938Eu queria ver meus filhos crescerem, estar com eles em suas passagens, contar-lhes histórias, ensiná-los a cantar, a ajudar, a gostar de animais e plantas, a comer bem, a preparar e partilhar refeições, a se relacionar. Queria ter tempo para namorar meu marido, ouvi-lo, ver filmes com ele, partilhar com ele o silêncio confortável  de ler juntos livros diferentes,  e conversar com ele sobre a nossa vida. Como minha mãe, eu tinha um imenso prazer em ficar: cuidar do jardim, da cozinha, da família, manter aceso o fogo no centro da casa em honra à poderosa e modesta Hestia, deusa do lar. Diferentemente de minha mãe, porém, eu podia sair e viver a vida no grande mundo, praticar minha vocação, circular com desenvoltura no espaço público. Algumas vezes, porém, o prazer de ficar, que eu partilhava com minha linhagem feminina, me deixava constrangida no grande mundo lá fora. Quando deixei a sala de aula, há alguns anos, o meu lado que sabia ficar me serviu de âncora. Saber ficar impediu que eu perdesse a sensação de realidade que vinha do meu papel profissional. Na época, eu vivia um momento de intensa metamorfose e as metamorfoses costumam nos dar essa sensação de perda da própria realidade. Formas externas com as quais eu me identificava estavam desaparecendo, e eu ainda não sabia direito como haveria de sair daquela experiência. A gente nunca sabe, mas às vezes pensa que sabe. Minha sintonia com meu corpo e minha alma me garantiu um razoável conforto para fluir na correnteza da vida que mudava. Eu tinha as histórias, as memórias de família, os estudos de assuntos que ecoavam a minha existência, a escrita, os mitos, a arte, a literatura, o jardim, as imagens nas quais eu me espelhava e que me diziam tudo o que eu precisava saber sobre qual era o meu valor. Minha intuição me dizia que o melhor estava por vir, ainda que eu não fizesse a menor ideia do que estava por vir. Então o melhor veio.

Tudo viagem de volta

Minha experiência com os grupos de corpo e alma começou com um laço muito íntimo e antigo: a aliança mítica das irmãs. Em 2008, minha irmã voltou de uma temporada de três anos no México e me convidou para embarcar com ela numa aventura. Minha irmã é artista plástica e arte-educadora. Ela queria montar um lugar para cultivar as almas das nossas crianças, massacradas por uma educação escolar em que o corpo, as emoções e a imaginação simplesmente não interessam, só atrapalham. Eu sabia disso, porque vinha de quase 30 anos dando aulas, nadando contra a correnteza de transformar adolescentes curiosos e interessantes em autômatos tarefeiros, insensíveis e consumistas. Como não tínhamos cacife para bancar o projeto sozinhas, convidamos outras mulheres que tinham projetos parecidos com o nosso, e formamos o primeiro grupo de corpo e alma: as “ocuilis” (palavra que minha irmã trouxe do México, do velho idioma “náuatle”, e que quer dizer “cobra”, um bicho que troca de pele e simboliza o eterno que sabe mudar). Começamos nosso ateliê depois de comemorar a festa do dia dos mortos. Foi quando meu casulo começou a se abrir e a revelar minha nova forma. No início, eu tinha pensado em coordenar grupos de leitura. Era um projeto mais intelectual, como se, saindo novamente para o mundo, eu precisasse ser apenas racional. Para minha sorte, as mulheres que aderiram à ideia propuseram leituras não literárias, leituras de conhecimento profundo de si, divergentes, analógicas e um bocado irracionais também, textos de mulheres fora da curva, destinados a mulheres fora da curva: contos de fadas, mitos, metáforas. Eram mulheres que tinham desenvolvido muito sua capacidade intelectual e agora queriam se tornar sábias.

a virgem santana e o menino

Assim nasceram as matilhas de leitura, grupos de mulheres que começaram lendo , juntas, o clássico “Mulheres que correm com os lobos”, da analista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés, de onde saiu a metáfora que nos define. Não é coisa nova, muitas mulheres já faziam isso antes de nós. Mas é único, porque fazemos isso de um jeito completamente nosso. Como não podíamos mais ser alcateias, porque já estávamos bem domesticadas, seríamos então matilhas em busca do DNA do feminino selvagem, a fonte de energia vital que continua a se renovar pela vida afora, de que falam os mitos e as velhas histórias tradicionais. As matilhas são grupos de corpo e alma. Nelas as mulheres se reúnem para compartilhar a experiência de ser e estar ao redor do seu próprio fogo criativo, onde são modeladas outras formas de ser e de viver além daquelas que a sociedade aprova. Cultivar a alma em grupo era o nosso objetivo embora, no início, nem soubéssemos disso. Juntas, aprendemos que, quando bem cuidada, a alma secreta os significados que umedecem e fertilizam a vida, fazendo brotar plantas novas em velhos jardins. Aprendemos também que o corpo se transforma criativamente quando a alma está preparada para lhe ensinar como se faz. Aprendemos que a alma é alquimista e o corpo, seu laboratório. Quando um não colabora, o outro adoece. Um não pode viver sem o outro. Aprendemos que o corpo e a alma equilibram a razão lógica e a tornam menos abstrata, prepotente e fria. Somos mulheres que estão reaprendendo a ficar. Cultivar a alma em grupo não tem segredo, só mistério, como canta Marisa Monte. Começa com a gente encontrando a trilha de migalhas de pão que nos leva à casa da bruxa iniciadora de princesas e mendigas , a velha sábia que vai nos iniciar nesse mistério. É preciso olhar para o chão para ver migalhas.

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No chão, estão gravadas nossas pegadas antropológicas. Saber de onde viemos é saber para onde vamos, porque a vida é um círculo, não uma linha reta. Em meio à aparência de novidade que o mundo quer nos impingir, seguimos juntas atrás do que é arcaico, do significado mais profundo e escondido de ser gente, daquela natureza real que não nos deixa ficar invisíveis só porque
envelhecemos. Aprendemos que só a conexão com o arcaico é capaz de convocar o novo verdadeiro. Como disse uma vez o Gerald Thomas, “quem não sabe o que veio antes, não sabe seguir adiante”.
Um grupo de corpo e alma é uma comunidade de iniciação onde aprendemos sobre o lado desvalorizado de nossa natureza feminina e o reparamos da melhor maneira possível: primeiro metaforicamente e depois, na prática. Queremos reinserir no cotidiano as qualidades simples, encantadoras, criativas, terapêuticas, conciliadoras, fecundantes, acolhedoras, ferozes quando necessário, e que espalham ao redor de si e à sua passagem as sementes da genuína beleza, a que nasce do amor e do sentido. Para nós, uma lista de fazeres que cultivam a alma precisa incluir: narrar e ouvir histórias, falar da vida, escutar atentamente, ler e comentar livros e filmes e obras de arte e encontros poderosos, partilhar assuntos importantes que apenas parecem insignificantes, estudar e jogar tarô, chorar de vez em quando, chorar de rir sempre, recuperar velhas prendas domésticas, rememorar as vidas de nossas mães e avós, trocar receitas, invocar imagens de deusas e antepassadas míticas, comemorar festas normais, como aniversários, e esquisitas, como o Dia dos Mortos… Ultimamente algumas lobas vêm se reunindo em outras formações, para cultivar a alma nos ateliês de arte que minha irmã coordena. Faço parte de um deles e posso dizer: é uma experiência impressionante de despertar da criatividade profunda e de cura (para quem sente que precisa de cura, claro).

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A experiência dos grupos de corpo e alma, as matilhas que continuam a se encontrar semanalmente, anos passados, sempre abertas a novas lobas, derivou, a seu tempo, para a Internet. Cultivar a alma na rede é uma coisa ótima e que muita gente já faz. Eu também resolvi fazer, escrevendo o blog da Mulher-Esqueleto. Num grupo de corpo e alma, a gente pode correr o risco de ser quem é. Não precisa dissimular juventude muito menos felicidade no atacado, não tem uma obrigação com o sucesso que esse mundo besta consagra. Podemos expor nossas dores e feridas protegidas por um continente que nos envolve, apoia e convence de que temos resiliência suficiente para superar. Num grupo de corpo e alma, a sensação de ser real é concreta. Sentir-se real não é coisa dada, a gente não nasce com ela, ainda mais numa cultura em que a gente é premiado por se transformar em abstração ambulante. É uma coisa para ser fiada todos os dias, na velha roca da vida, enquanto buscamos nossos elos com o mundo, a inteireza que depende de um pacto consciente com o outro. Só na relação com o outro somos reais, o outro humano e o outro não humano, esse grande Outro que é o mundo. Ninguém vai negar o quão importante foi aprender a partir. Agora precisamos reaprender a ficar. E ficar é verbo de ligação, como bem lembrou minha amiga-loba Regina. Os grupos de corpo e alma nos ajudam nessa jornada de volta para casa, à aurora dos tempos, quando Deus era mulher.
Eliana, Novembro de 2012

Faxina, colagem Eliana

 

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Menos triunfo. Mais sentido.

Deusa Minerva e o Centauro

Vou ter de confessar. A feminista acadêmica me intimidou. Sério. E olhem que eu me considero uma feminista. Apesar do visual familiar (eu também costumava me vestir de preto fechado aos dezesseis anos de idade), da iniciativa amistosa de me cumprimentar, do rosto bonito, o discurso logo me revelou de onde ela vinha e a quem ela servia. Saber disso me deu medo. A gente vê a sombra do outro e recua, é natural. Ver assombra. Ver a sombra do outro assombra ainda mais. E o auditório quase cheio. Na maioria garotas, mas também muitos garotos curiosos, animados. Era quase um milagre aquela moçada implume e baladeira ali sentada, querendo, com o sol brilhando lá fora, debater assuntos de mulheres. Logo percebi que não era recomendável enganchar na sombra espessa que vinha a reboque dela. Acontecesse o que acontecesse, eu tinha de sair de banda. Pensei isso logo que a feminista acadêmica engatou seu discurso, convincente como um AK 105. Era um verbo escorreito, sem fissuras, o verbo sedutor e agressivo dos machos-alfa. Uma fala dura, tão bem articulada quanto expurgada de sentimentos (os positivos, pelo menos). E pujante, esfuziante de citações, ecos de outras falas ainda mais autorizadas que a dela. Uma fala caudalosa, linear e lógica, rigorosamente fiel ao manual do neopatriarcado acadêmico, festonada de palavrões e outras expressões tão imaturas quanto anacrônicas. Muitos dogmas, nenhuma misericórdia, mais um bocado de populismo. Possuída da ilusão da objetividade, ela teceu um discurso assentado sobre pressupostos inquestionáveis, eivado de raciocínios cortantes, laudatório e ecoante de super-patriarcas como Freud e Marx (suprema contradição usar esses dois chauvinistas para referendar valores do feminino). Mais que tudo, era um discurso excludente da diferença, fosse ela representada pelos homens, as mães, as mulheres que gostam de se arrumar, entre outras vítimas sem nenhuma apelação possível. Um frêmito perpassou a plateia quase adolescente. Se vocês querem ser feministas, andem sempre em grupo, e grupo de amigas, porque os amigos homens não são de todo confiáveis. Ser mãe é um horror, não sejam mães, a maternidade é um engodo e uma servidão. Um aspecto de ser dona do própria corpo é que é preciso ser feia, parecer feia, não ceder à beleza como forma de dominação dos homens sobre as mulheres. E por aí foi. Sempre fico fascinada com o impacto que os discursos patriarcais anti-patriarcado continuam a ter sobre os militantes que os emitem e suas plateias transidas. O Grande Pai convence a maior das sabichonas, quando se traveste de Grande Mãe para vociferar palavras de ordem e dispensar veredictos incontestáveis. As meninas foram ficando nervosas e eletrizadas, enquanto eu me dava conta de como a capacidade de camuflagem do modelo patriarcal permanece intacta, muitos milênios passados de sua instauração. Mesmo hoje, alardeados os direitos das mais diversas minorias, o patriarcado 2.0  converte centenas de incautos pelo método certeiro do reducionismo maniqueísta. Parece fino, mas é tosco. Parece sofisticado, mas é genérico. Mudando um pouco as palavras aqui e ali, trata-se de um discurso adaptável a qualquer extremismo ideológico, seja ele religioso, social, político, mercadológico (embora, ao fim e ao fundo, tudo, neste mundo, termine por se revelar mercadológico). A tática por excelência, magistral, do patriarcado continua a ser sua formidável capacidade de infiltração, adaptaçãoe cooptação no interior dos movimentos que o combatem armados unicamente de uma racionalidade tão arrogante quando ingênua, que subestima o vasto poder da sombra coletiva. Mas então uma coisa aconteceu. Primeiro a feminista acadêmica teve de ir embora. No vácuo de discurso que ela deixou atrás de si, alguns meninos protestaram timidamente contra o julgamento que os transformou em ameaça latente às amigas. Encorajadas, algumas meninas contestaram com suavidade, evocando valores significativos para elas. Pequenas vozes discordantes se fizeram ouvir e me pareceram firmes, embora jovens, muito jovens. Sobrou para mim, no final, falar de outro modo de relação que não o da dominação de uma metade da humanidade pela outra, como diriam a Riane Eisler e o Umberto Maturana. Da superação da lutas de classes e de gêneros, porque a luta tão somente se alimenta de si mesma e tem sede de matar e morrer. De um encaminhamento que não pressuponha a erradição da diferença para chegar à síntese pela lobotomia. De uma negociação que reconheça o valor da diferença. Da beleza e da força da diferença. A identidade quer o poder e o poder pressupõe a instauração de uma hierarquia, esse constructo patriarcal em que alguns dominam e muitos são dominados. A diferença quer apenas que sua força seja reconhecida e respeitada pelo que é. Não me parece que seja pedir muito. A superação necessária desse feminismo feroz, que reafirma o patriarcado pelo avesso, talvez nos chegue por meio de um pacto da alma individual com a alma do mundo. A reparação de nossa condição feminina ferida virá na medida em que nos engajarmos com a reparação da Terra, da natureza espoliada, da cultura degradada pelo mercado e pelo consumo, da condição humana ferida em sua integridade pela fúria destruidora do patriarcado, também em seu aspecto de demolidora hiperracionalidade. Nesse sentido, acredito num feminismo em que mulheres e homens coloquem sua força a serviço da alma, uma força amorosa e coesiva, que busca o sentido e não o triunfo.

Xerecas, amotinai-vos!!!

Está no jornal de ontem. O tribunal do santo ofício da vez foi novamente fruto de um arranjo muito bem sucedido, armado entre Igreja e Estado, os dois maiores bullies da história do mundo. Neste caso, trata-se do soviete supremo versão 2.0 e da igreja ortodoxa russa. As rés são três garotas desbocadas, condenadas a três anos de xadrez. Assim a banda expressivamente intitulada Pussy Riot (algo como “rebelião da xereca”), uma obscura formação de tendência punk proletária, foi alavancada à súbita fama internacional, tendo reunido defensores em todo mundo, de hipócritas como o governo dos Estados Unidos da América a autênticos, como o eterno Beatle Paul Mc Cartney. Segundo a sentença da juíza ou grande inquisidora, à escolha, as perigosíssimas Nadezhda, Yekaterina e Maria Alekina pagam pelos crimes de sacrilégio, blasfêmia e quebra das regras da igreja. Tiveram sorte. A última herege condenada pelos mesmos motivos foi mandada para a fogueira, a fim de ser purificada dos seus pecados e consequentemente aceita no paraíso. Ao longo dos últimos 5000 anos, pelo menos, esse pacto infalível entre Deus e o Rei tem assegurado o sucesso retumbante do patriarcado calhorda, entronizado sem concorrentes no Oriente como no Ocidente, à esquerda como à direita.  O objetivo é, como sempre foi, desqualificar, submeter, amordaçar, domesticar, encarcerar, adoecer, lobotomizar, humilhar, seduzir, estuprar, ensandecer e abandonar  (quase não consegui sair da primeira conjugação, gente!) o feminino, essa estranha condição, e suas ameaçadoras representantes, herdeiras de Anaith, Cibele, Inana, Eva, Ceridwen e Diana dos efésios, entre outras, de cuja natureza misteriosa, curiosa e pecaminosa os neopatriarcas mercadocratas continuam a se proteger, conquanto lançando mão de novíssimas estratégias de sedição e exploração. É verdade que as três (e não 300.000) xoxotas rebeladas entraram na Catedral do Cristo Salvador para chamar os padres de vendidos e pedir à Virgem Maria para livrá-las de Putin (talvez tenham pedido à virgem errada, só isso). Disseram o que todo mundo já sabe há milênios e o que muitos russos desejam do fundo do coração. Como Lilith, a primeira esposa de Adão, reclamaram que gostariam de ficar por cima, de vez em quando. Como Lilith, foram transformadas em diabas e enviadas para uma temporada no mundo inferior, para aprenderem quem é que manda. Militantes da ecologia e dos direitos das mulheres, não devem ser lá grande coisa em matéria de música (como letristas, pelo menos, deixam muito a desejar), mas isso é o que menos importa aqui. No tribunal, riram o tempo todo da piada grotesca que se desenrolava ao redor. Corajosas, mantiveram-se bonitas e não perderam o senso de humor, para contrastar ainda mais com a feiúra e a estupidez reinantes, mistura do pior do comunismo com o pior do capitalismo confundido com democracia. Cafonice perversa. Espero que esses três anos de cana, caso a sentença termine por se cumprir, tornem as garotas mais rijas, sensíveis e sábias, menos temerárias e mais estrategistas, menos ingênuas e mais poéticas. Afinal nada como uma viagem ao reino das sombras da infernal, feroz e invejosa Ereshkigal para dar têmpera e  profundidade à amorosa e iluminada Inana de Babilônia. Para nós, as fêmeas que lemos as notícias e respiramos aliviadas com nossas liberdades de coleirinha comprida,  satisfeitas com as miçangas, espelhinhos e restos do banquete que o neopatriarcado balança diante dos nossos olhos vidrados, que achamos que virar Barbie na capa de Nova e ser alçada ao cargo de favorita do Papaizão corporativo é chegar ao topo da cadeia alimentar, uma sugestão: acordemos, nem que seja ao som dos insuportáveis ganidos punks das xoxotas amotinadas. Vamos ler mitologia, conhecer Jung e sua turma de rebeldes da imaginação e do sentimento descartados, pesquisar sobre a Grande Deusa em suas infinitas versões, sonhar e anotar os sonhos, convocar imagens de mudança, descobrir que a história não começou nem no Éden, nem com o nascimento de Cristo, nem com as teorias de Freud, nem com a Revolução Russa. Ela começou muito, mas muito antes. Só que ninguém conta a primeira parte. Vamos lá descobrir o porquê.

Moda e sacrifícios humanos

Deusa adormecida, estatua encontrada no interior do Hipogeu,  ilha de Malta

“O nosso objetivo como seres individuais corporificados é manifestar o processo somático como uma experiência mítica. Ao perdermos a realidade somática, tornamo-nos habitantes de uma terra de ninguém: o mito do corpo abandonado. Preencher-se novamente é o Graal.”                                                                                                                                                                   Stanley Kelleman

Não era uma Lua nova. Era uma Lua cheia em eclipse total. Era uma Lua cheia completamente obscurecida pela sombra da Terra. Com uma imagem dessas rondando a minha cabeça altamente impressionável, lá fui eu ao primeiro desfile da minha vida (sem contar os que a gente fazia no quintal de casa, em criança, onde a boneca Suzie era a top-model). Era uma noite de Lua cheia totalmente encoberta pela sombra de Gaia. E a Lua, como se sabe, é um símbolo do feminino e da feminilidade. Um símbolo que, segundo o historiador Jean Markale, nós, mulheres, recebemos como prêmio de consolação dos homens, no período neolítico, quando eles finalmente descobriram (sendo, afinal, meio lentinhos para essas coisas) que participavam do milagre da reprodução. Porque parece que, antes disso, o Sol era nosso, já que éramos exclusivamente nós, as misteriosas e dadivosas divindades capazes de gerar a continuidade da vida e do mundo. Perdemos o Sol para os machos fecundadores e ganhamos a Lua, o que já significava uma razoável repressão das nossas qualidades para a noite e a escuridão. Sem ressentimentos, porém, já que a Lua é infinitamente mais acessível, no sentido próprio, como no figurado: ela recebe e acolhe, com tolerante suavidade, nossas mais queridas projeções e fantasias. Gosto do Sol, é claro, mas a Lua é muito mais minha praia. Talvez porque eu tenha nascido à meia-noite e meia e meu meio do céu seja escuro e profundo. Mas estou divagando ao sabor da Lua. Fui a um desfile do São Paulo Fashion Week porque sou curiosa como Eva e Pandora e gosto de olhar miticamente certas experiências que o coletivo consagra. Encerradas as preliminares, começou o desfile propriamente dito, já que o que as pessoas mais fazem nesse evento, pelo que percebi, é desfilar. Sentada sobre os meus ísquios, lá na arquibancada, eu vi uma procissão de virgens e nem tanto caminhando lentamente para o sacrifício. Mais ou menos como acontecia na cidade tolteca de Chichen-Itza, no velho México. Esquálidas, inexpressivas, anêmicas, andróginas, o olhar vazio do transe que precede a queda no poço, jovens muito jovens caminhavam em fila sobre uma passadeira branca, estranhamente rígidas e inclinadas para trás, num bizarro passo de ganso antes do fígado virar patê. Depois desapareciam na escuridão de uma passagem estreita, mas não eram empurradas para o fundo do poço. Não literalmente. Reapareciam trajando roupas diferentes. Isso durou uns parcos quinze ou vinte minutos, quando então todas entraram e se postaram diante da plateia, esboçando tímidos sorrisos de triunfo. Saí cismando para a noite iluminada do parque do Ibirapuera, pensando na conversa entre Stanley Kelleman e Joseph Campbell, publicada no livro “Mito e corpo”, de onde retirei a epígrafe desde post. A perda da realidade somática do feminino de que fala Kelleman está estampada em tantas imagens por aí que só mesmo os cegos não conseguem vê-la: a mulher eunuco pós-feminista, a mulher fálica que não se percebe uma perpétua subalterna no mundo dos homens, a mulher cuja cisão interna continua a servir o patriarcado contemporâneo, com seu discurso complacente mas não menos calhorda, a anoréxica e a bulímica, a mulher que troca valores atemporais por quinquilharias descartáveis, a mãe que não é mãe, a companheira que só sabe ser antagonista, a furiosa messalina infantilizada e carente, o paradoxo do corpo feminino, tão abandonado em sua inteireza quanto supervalorizado em sua exterioridade… No mundo do exigente deus Moda, uma divindade de segunda classe submetida às leis do grande deus Mercado, a encenação desses arremedos do feminino chega ao paroxismo. Esgotado, ridicularizado, uniformizado, exilado de si mesmo, doentio como a Lua cheia eclipsada pela sombra de uma Gaia arrasada, o feminino continua, de corpo e alma, subserviente e leal ao velho patriarcado, ocultado sob novas, múltiplas e supreendentes máscaras. Infelizmente não puder ver o desfile de Ronaldo Fraga, esse valete da Deusa que é também um vírus criativo e transgressivo, inoculado na Matrix da moda. Hoje quem vai ajudar a preencher o meu Graal é Woody Allen, com seu novo filme “Meia-noite em Paris”. Aliás, meia-noite e meia, com Lua cheia!

P.S. – Me esqueci de falar sobre o polêmico desfile em que as modelos desfilaram manietadas e / ou encabrestadas. Não ouvi nenhuma crítica que valesse a pena sobre o tema. Tudo muito maniqueísta e superficial, porque ninguém pareceu enxergar o símbolo por baixo da óbvia intenção de chocar e aparecer. Nem gente inteligente, como Glorinha Kalil, nem mesmo o estilista, que funcionou apenas como uma espécie de medium para o inconsciente coletivo. Mas ele estava lá, o símbolo, pondo a nu a realidade que o mundinho fashion quer encobrir sob camadas e camadas de tecido e discurso: mulheres que, de poderosas, não têm nada, longe disso. Bem amarradinhas e caladinhas em seus glamurosos looks de festa, elas me lembraram a Maria Antonieta de Sophia Coppola: literalmente uma vítima da moda.