Em Lima como em Gaborone

Esperas de aeroporto costumavam me deixar doente. Eu disse “costumavam”. Até o dia em que fiquei presa no aeroporto do Recife, em pleno apagão aéreo de 2006. Tudo de ruim acontecendo ao mesmo tempo, em escala nunca vista. Vôos mais que atrasados: sem perspectiva alguma de decolar. Levas de almas perdidas vagando pelas alas, à mercê do arbítrio dos mais podres poderes. Lixo se acumulando sinistramente sobre e em torno das mesas dos cafés (sim, o Diogo Mainardi tem toda a razão ao dizer que brasileiro é muito porcalhão). Sinal de celular ruim. Marido e filho ansiosos, escutados a duras penas no oco de um orelhão ensebado. Na iminência de surtar, fui rezar na livraria, fui procurar refúgio naquela aparência de ordem e normalidade que as livrarias costumam ostentar, livres que estão do risco de depredação e pilhagem que correm os supermercados. Na livraria, Mario Vargas Llosa teve pena de mim e me valeu. Sua menina má me fez companhia e me devolveu ao centro, naquela tarde de limbo no aeroporto do Recife. Me aboletei numa cadeira desconfortável, com uma garrafa de água mineral na mão e as travessuras dela diante dos olhos. Devagarinho o caos objetivo foi saindo de foco e uma névoa delicada e protetora começou a baixar sobre meu espírito inquieto. Distraído, ele começou então a seguir a menina má e seu servo sentimental pelas ruas de Lima, de Londres, de Paris… Ancorado pela alma que a menina má encarnava, meu espírito descobriu que tinha coisas muito mais importantes a fazer do que ficar zanzando por labirintos de pensamentos obsessivos, impregnados pela energia ruim daquele limiar tenebroso.  Fui agindo automaticamente por fora e, quando vi, já estava na fila de embarque. Eu lia a penúltima página quando o comandante anunciou, com voz cansada, que estávamos descendo em São Paulo. Imaginem vocês que eu torcia para conseguir terminar a leitura antes do avião descer. Haviam sido exatas quatorze horas, entre minha chegada ao aeroporto do Recife e o pouso em Cumbica, quando era em Congonhas que eu deveria chegar. Mas tudo bem. Minhas preocupações eram de outra natureza agora. Minha alma tinha vencido a parada, para felicidade do meu espírito apaziguado. Cheguei em casa com o dia amanhecendo, ainda pensando na menina má e em seu escravo-amante. Foi lindo. Foi medonho. Foi inteiro. Semana passada, submetida à mesma lógica perversa dos aeroportos, cheguei ao JFK em Nova York a fim de embarcar para Sampa. Cheguei e, escaldada (ou melhor, iniciada), fui direto para a livraria. Eu até tinha um livro, até dois, para ler. Acontece que, para essa uma experiência ser completa, ela deve começar com a aquisição de um livro DE aeroporto NO aeroporto, vocês me entendem? Trata-se de uma espécie de ritual fetichista. Fui de pronto abençoada: logo no display da frente da loja, fui abordada por Alexander Mc Call Smith, um autor afro-escocês que está entre os meus atuais favoritos. Minha companheira de viagem seria então Mma Ramotswe, a gorda e pachorrenta proprietária da “Primeira Agência de Detetives Mulheres” de Botswana! Que felicidade! Que sorte! Mma Ramotswe, com seu físico tradicional, sua lógica matriarcal para desvendar casos enigmáticos, sua aplicada secretária Mma Makutsi, sua pequena van branca! Melhor ainda: Mma Ramostwe já casada com o Sr. J.L.P. Matekoni, dono da Tlokweng Road Speedy Motors, a melhor oficina mecânica de toda Botswana!  Eu ia viajar de Nova York a Sampa via Gaborone. E foi uma viagem magnífica. É claro que o fato de eu ter conseguido duas poltronas na Classe Econômica ajudou bastante, mas prefiro pensar que meu pequeno ritual mobilizou toda essa boa energia a meu favor.  Afinal a vida em Botswana é muito mais tranquila.

Viagem tiética de Chico a Caetano

Aos dez anos de idade, eu amava Chico loucamente. Não surpreende: chispantes olhos verdes, dentes proeminentes de colegial, smoking alugado de moço de boa família em bailinho de clube. Já de Caetano, eu gostava e não gostava. O cabelo, demasiado parecido com o meu, portanto suspeito. O sorriso: grande demais para a cara miúda de mestiço. Aliás, moreno demais. O terno, nunca um terno de verdade. As canções: belas, mas estranhas, meio incompreensíveis para uma menina de dez anos. Caetano não se encaixava. Era um elemento que perturbava o mundinho tcháp-tchura da Jovem Guarda em que eu vivia mergulhada. Aos dez anos de idade, A Banda ressoava em mim muito mais do que Alegria, alegria. Torci por ela no festival em que Chico levou um prêmio duvidoso. Mas Caetano também ganhava todas as edições de um programa da TV Record que adorávamos assistir em família. Chamava-se Esta noite se improvisa e os participantes tinham de cantar uma canção em que aparecesse a palavra sorteada pelo apresentador. Caetano era imbatível. Não tinha para ninguém, quando ele estava presente. Tangos, boleros, ranchos, guarânias, marchinhas de carnaval… As palavras mais esdrúxulas… Ele se lembrava de tudo, cantava tudo de improviso (e sempre muito bem). Os outros convidados não tinham nem tempo de apertar o botão. Quando, décadas mais tarde, ouvi Jenipapo absoluto, entendi afinal. Era dona Canô, uma divindade ginecolátrica, espécie de Gaia-Mnemosine que acionava a competência de Caetano naqueles concursos como ainda faz hoje, de outras maneiras.  A prodigiosa memória afetivo-musical do menino ao pé da mãe fizera dele um competidor sem concorrentes. Desde sempre, Caetano foi, para mim, uma mistura de “tanino e mel”, como na metáfora que ele mesmo usa para caracterizar seu pai: doce-pungente, emoção filtrada pela peneira de uma razão completamente impregnada, ela também, de emoção. Mas vieram os anos de chumbo. Em meu coração adolescente, que não entendia bem o que se passava, Chico vencia Caetano por várias cabeças. Chico era Apolo, mesmo quando se fazia passar por Dioniso. No mito, as moçoilas amavam a imagem radiante de Apolo mas, em matéria de pegada, ele não fazia grande sucesso. Já Caetano era Dioniso e ponto. Ambivalente, polêmico, andrógino, inventivo, recusando os engajamentos óbvios impostos por aqueles tempos esquisitos… Chico não tinha ambiguidades: era um macho de esquerda. Caetano era uma metamorfose ambulante. Lembro de ter ido com uma prima mais velha ao centro da cidade e de lá ter comprado, num impulso, o LP recém-lançado que ele gravara no exílio em Londres. Museu do Disco. A capa me assustou e atraiu. Comprei e me arrependi na hora. A foto evocava e afrontava as fotos das capas dos LPs de Chico: sempre o close do moço bem apessoado em pose de estúdio fotográfico, foco nos olhos cujo verde se espalhava pela minha plantação. O rosto de Caetano, estampado na capa, era uma máscara de sofrimento. Os caracóis haviam crescido a ponto de virarem uma espessa juba ameaçadora. Uma barba incipiente, de adolescente, manchava o rosto abatido, emaciado, sem retoques de maquiagem. Um casaco branco peludo arrematava uma figura ao mesmo tempo vencida e provocativa. Cheguei em casa, botei o disco na vitrola portátil e ouvi pela primeira vez duas canções que até hoje me arrepiam quando escuto ou toco no violão: London, London e Maria Betânia. Também ouvi, pela enésima e primeira vez, Asa Branca ser cantada daquele jeito desgostoso, arrastado, denso, que é o jeito como eu mesma gosto de cantá-la, feito cego de feira. O verde que Caetano espalhava pela plantação era trágico: verde de gafanhotos, de inundação. O LP gravado em Londres por Caetano foi um marco no meu gosto musical. Tanto que logo me arrependi de ter me arrependido de tê-lo comprado. Chico passou. Caetano passou. Eu passei. E continuei comprando religiosamente, Natal após Natal, todos os LPs de Chico. Vez por outra, também comprava um de Caetano de que demorava a gostar, ao contrário do que acontecia com os discos de Chico, que eu sempre amava de primeira. Quando Caetano e Chico saiu finalmente (hoje sei disso), Apolo e Dioniso afinal se congraçaram e calibraram mutuamente. Mais tempo. Décadas. Nós três envelhecendo e envilecendo, como dizia o Rubem Braga. Chico ficando meio neurastênico e amargo, como todo marxista que ainda não levou a providencial tijolada do muro de Berlim na cabeça. Fazendo uns acordos mal ajambrados com o poder, passando procurações duvidosas… Em termos existenciais-musicais, Chico mudou pouco, penso eu. Já Caetano mudou tudo: afiando o senso de humor, rindo muito de si mesmo, encarando as maiores saias justas com estóica elegância, ainda recusando os reducionismos de qualquer natureza, experimentando-se em outras personas… Quando se deixou dilacerar, sem frescuras, pelas bacantes do Zé Celso no Teatro Oficina, entendi finalmente qual arquétipo Caetano encarna e com que precisa sutileza ele o faz, metamorfoseando-se em tudo sem, contudo, perder a essência de sua caetanice irrevogável. Olho agora para os dois, Caetano e Chico, quase a mesma idade, mesmíssima geração, experiências tão similares. Acho Chico acabado, sombrio. Acho Caetano lindo, vital. Ok. Ninguém ressoa, como Chico, as vozes do feminino; não sem temê-lo, é claro, e com toda razão. Todavia poucos homens sabem encarnar o feminino com a naturalidade de Caetano. Escuto, no estúdio de minha ruidosa cabeça, A Banda e depois Alegria, Alegria. Sei que a diferença entre ambos estava lá, desde sempre. Cheguei “em” Chico depressa demais. Demorei décadas para chegar “em” Caetano e ainda não estou lá. Chico está no controle de sua persona poética. Caetano não. Ele não teme o medo de se derramar, submeter, soar brega, cantar Coração materno, ser careta, incoerente e reacionário (uma palavra bestíssima, aliás, que não quer mais dizer rigorosamente nada). Caetano é um trovador no sentido original, provençal, do termo (não confundir com aquela cafonice plana do Oswaldo Montenegro, por favor). Se Chico é uma caixa de ressonância do coração feminino, Caetano é um servidor da vaca profana em tempo integral. Um cavalo da deusa, tataraneto da Senhora das Feras, bisneto de Cibele. Como Dioniso, Caetano atua pelo feminino e seu verbo é uma mulher, igual à protagonista de “Uma fábula sobre a fábula”, o conto de Malba Tahan: às vezes nua, às vezes coberta de peles rústicas, às vezes vestida como uma perua mítica. Voltando à maravilha que é Jenipapo absoluto, eu diria que, se Chico sabe, como poucos poetas, reunir o signo à rosa, Caetano põe o signo sob a rosa, o que, para mim, começa a fazer toda a diferença. O que não quer dizer que, na próxima semana, Chico não tenha recuperado a hegemonia.