Odisseia

PRELÚDIO COM HOMERO

A Radio France Internationale remunerou um sortudo para comentar a Odisseia, instalado numa ilha do mar Egeu, em pleno verão grego. Síntese de férias arquetípicas com um trabalho dos sonhos, o projeto resultou numa série de podcasts, transmitidos em 2016. A Sonia me deu de aniversário o livrinho precioso, com a transcrição da série. Posso não ter o verão grego, nem uma ilha no mar Egeu, nem mesmo uma rádio que ache relevante transmitir podcasts sobre a Odisseia (embora dê para ouvir “Un eté avec Homère”, de Sylvain Tesson, na Radio France Inter, é só baixar o APP). Mas trago comigo, há 44 anos, uma versão amarelada e deveras remendada com fita adesiva (várias gerações dela) desse clássico dos clássicos que nunca nutriu veleidades de livro sagrado e, por esse motivo, não fundou doutrinas nem inspirou dogmas, graças a Zeus. Contentou-se em iluminar um vasto cabedal de vidas humanas, em sua longa e fecunda existência. Gosto de pensar que tenho a Odisseia em comum com meu querido Michel de Montaigne, por exemplo. E se não tem vocação para revelação divina, a Odisseia tampouco arroga-se a condição de relato histórico. Pura fantasia politeísta, a narrativa do retorno de Odisseu para sua amada Ítaca, continua sendo um farol aceso em meio à grossa neblina da História. Depois de alumiar as mais densas trevas, continua a apontar um rumo para dentro de nós, nesta não menos tenebrosa era da pós-verdade digital.

 

VALEU, MONOTEÍSMOS!

Escrita há aproximadamente 2500 anos, ela e sua irmã, a Ilíada, ainda servem de vacina e antídoto contra fundamentalismos, sejam eles religiosos ou políticos. Aliás, desfavor supremo que as ideologias monoteístas (com ou sem Deus) nos prestaram, esse de literalizar os mitos, a fim de arrancar deles uma verdade única, para uso de poucos e sujeição de muitos. Hoje em dia, com a palavra “mito” sendo reiteradamente tomada como sinônimo de mentira, fica quase impossível compreender o poder de contraveneno que os mitos oferecem aos seres humanos, uma imunidade simbólica que ajuda a prevenir, podendo até mesmo curar, toda sorte de intoxicação racionalista, além de nos fazer mais espertos na identificação de divindades ilegítimas e oportunistas.Vejo na perversão literalista que confunde mito com mentira uma clara intenção, consciente ou não, de impedir nosso contato com a verdade em forma de metáfora, essa estratégia genial da mente simbólica para submeter a realidade bruta ao escrutínio da imaginação. O problema é que, carentes de imunidade mítica, a gente acaba por atuar os mitos, relegados ao inconsciente pela marcha inexorável da todo-poderosa razão lógica, mascarada de ego monocrático. Daí que, quando emergem, na forma dos complexos coletivos e individuais, os mitos nos avassalam por completo, seja na escolha de um parceiro, seja na de um candidato.

 

NOSSOS DEUSES RASTAQUERAS E OUTRAS PORCARIAS

Na deplorável campanha política que rola enquanto escrevo, a figura do Pai arquetípico, Odisseu perdido no mar, tentando voltar para casa, foi reduzida a dois estereótipos polares, igualmente indigentes e perigosos: o pai permissivo e o pai controlador. E a tragédia se avizinha, quando seres humanos mortais são possuídos por uma energia inconsciente, transpessoal, e fazem uso dela de forma ímpia, confundindo-se, eles mesmos, com deuses. Aprenderemos, como a Odisseia ensina, a assumir a responsabilidade pelo nosso destino? Tenho sérias dúvidas. Na Alemanha nazista, o mito inconsciente, manipulado por marqueteiros pra lá de sinistros, fez o que fez e nem por isso o monstruoso imaginário nazista foi erradicado de psique coletiva. O mesmo ocorreu na finada URSS stalinista, transformada na Rússia subjugada por uma terceira modalidade de czarismo. Nem na Venezuela chavista, tampouco na Espanha franquista. As pessoas são tão tolas que acreditam que o mal tem mão única, como certas avenidas. O mal é multiforme e resiste ao nosso bom-mocismo politicamente correto. Ele não será erradicado jamais, a menos que a raça humana seja, ela mesma erradicada. A Sombra é, também ela, um arquétipo. Nossa única defesa contra seus subprodutos, o nazismo, o racismo, o sexismo, os totalitarismos etc, todos reduzidos pelo ego a categorias racionais manobráveis, é perceber que eles, os subprodutos, se enraízam no irracional absoluto, na densa noite antropológica, nos porões viscosos do nosso cérebro límbico, lá onde a razão lógica é calcinada à chegada. Conscientes, narrados, vividos na imaginação, restaurados no mundo como estratégia calibradora da mente frente ao real, os mitos nos dão acesso à razão simbólica, a qual não subestima a eternidade e o poder de nossos titãs e monstros, precariamente encarcerados no Tártaro. Aprender superficialmente com as teorias do ego racional não é, nem de longe, aprender na profundidade da alma, que nos pede sensibilidade e experiência…

 

POSLÚDIO COM HOMERO

Li a Odisséia na adolescência, mais interessada nos deuses do que nos homens, eu, menina batista, herege, louca por imagens e interditada delas por um tipo muito específico de discurso literal. E a li ávida, pulando partes, pecado do qual já fui absolvida por Umberto Eco e Alberto Manguel. Ao longo dos anos, pesquei o livro na estante muitas vezes, fosse para reler algum trecho, fosse para encontrar uma epígrafe ou matar a saudade de um personagem. Gosto de repassar meus epítetos favoritos, Atena deusa dos olhos verde-mar, Odisseu progênie de Zeus, Agamenon pastor de guerreiros, Aurora de dedos róseos, Helena de longos peplos, o altivo Telêmaco, a sensata Penélope, o louro Menelau… Porém nunca mais retomei o livro inteiro. Foi o livrinho que a Sonia me deu e a inveja de Sylvain Tesson que tiraram a Odisseia do esquecimento honroso da estante, para coroar com ela minha precária pilha de criado-mudo. Prova de que a alma pode dar sentido e utilidade, mesmo às emoções mais inadequadas.