Na companhia dos homens

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Fomos ver “Chef” anteontem, filme gostoso e caprichado, do tipo trickster, que são os livros e filmes-embusteiros, aqueles que parecem uma coisa quando são outra, que se passam por levinhos e despretensiosos, quando são, na verdade, densos e profundos. Claro que eles só são assim para quem tem gosto por descascar imagens como quem descasca uma cebola, chegando devagar, com alguma paciência, algum cuidado e muito prazer, ao sumo, ao núcleo, ao subtexto onde o arquétipo pulsa e vibra quase ao alcance da mão de tão aflorado, a desvelar o mistério que se oculta por trás de uma narrativa convencional e até um bocado previsível. Talvez eu ande pensando demais nos homens para deixar escapar uma oportunidade como esta. Deve ser por isso que “Chef” se abriu para mim feito um untuoso sanduíche de carne louca, lotada de molho picante. Semanas atrás, me peguei incomodadíssima com a vitimização crônica das mulheres. Escrevi até um post, “Chatas”, reclamando explicitamente do insuportável mimimi das fêmeas da espécie. Antes disso, há dois meses, mais ou menos, li um artigo do Francisco Daudt chamado “Inveja da vulva”, em que ele contava como muitos de seus pacientes homens se sentiam  em relação à opressão exercida pelas mulheres: a que elas aprenderam com os machos e aprimoraram com o feminismo pintudo, e a que elas exercem desde que o mundo é mundo, criando e educando todo tipo de escroto, de patriarcas potentes a fodões-merda (termo genial inventado pelo próprio Daudt numa outra crônica). Lidando com o tema da ferida dos homens que também sofrem, e muito, sob a canga do patriarcado, propus ao pessoal das matilhas a leitura de “Sob a sombra de Saturno”, do sempre afiado James Hollis, para contrabalançar nossas “leituras de mulher” e tentar nos colocar um pouco na pele desse outro cuja alma mal conhecemos, porém não nos constrangemos de julgar. A mulherada das matilhas topou, já que se trata de uma cachorrada de alma lupina, um povo da alma destemido para lidar com a própria sombra. Vi “Chef” no clima dessas imagens externas, mas também das internas, em especial as de um sonho que tive com um poderoso “homem vermelho”, um “ator e médico” (segundo a narrativa do sonho) aprisionado num calabouço muito pequeno para o tamanho dele. Não posso deixar de fantasiar que falar dos homens seja também uma demanda do meu animus, que anda se sentindo apertado na kitchenete psíquica aonde mora atualmente. Todavia vamos ao filme, com sua confraria iniciática masculina, na vibe da abordagem do tema pelo livro de Hollis: a urgência de reconectar os homens com seus pais pessoais e os ancestrais coletivos, por meio de rituais que tornem possível ativar, dentro deles, os poderes de cura que não conseguiram receber de fora. O protagonista é Carl Casper (o simpático gigante Jon Favreau), que acha que manda na cozinha de um restaurante chique de Los Angeles. Literalmente possuído por seu daimon, ele vive tão intensamente para o que ama fazer que  negligencia a relação com o filho, um menino fofo de uns dez anos, sensível, especialista em redes sociais da Internet e doido pelo pai. O dinamismo literal pai-filho está armado e o garoto, cuja mãe é a a gostosona Sofia Vergara, corre um sério risco de se tornar mais um prisioneiro do complexo materno. Ocorre que os deuses começam a mover as peças do tabuleiro, botando em campo dois “pais” simbólicos que intervêm, aparentemente para azarar com o “filho” chef. O primeiro “pai” coletivo de Casper é o dono do restaurante, um cara rígido, conservador, sem imaginação, vivido por Dustin Hoffman, que impede Casper de inovar o cardápio, impondo-lhe que continue preparando os mesmos pratos que, há dez anos, agradam os clientes. Para foder com (e também para resgatar) o chef, aparece um segundo “pai” coletivo: crítico gastronômico, blogueiro badalado, que o acusa de falta de criatividade e o espinafra em seu blog. Furioso, Casper se destempera e dá um piti, no restaurante lotado, com o blogueiro que veio para o jantar. Casper tem sua imagem pública devastada por um filminho do tal piti, que alguém posta no Youtube. Antes disso, porém, ele já havia sido demitido. A briga na Internet se torna viral e Casper não arruma emprego em lugar nenhum. Mais não vou contar, para não me assumir a “spoiler” que sou. De volta à estaca zero, na jornada e no mundão, o chef vai cruzar com um bando de figuras masculinas uma mais interessante que a outra, que irão testá-lo e apoiá-lo na construção da própria masculinidade profunda: um ex-marido da ex-mulher, bandalho, sedutor e rico; um irmão de alma que se alinha com ele para o que der e vier; duas lindas figuras de anima, uma que o desafia a mudar e outra que o apóia na mudança (a sorte de Casper é que ele está muito bem de mulher). Mais que todos, porém, está o co-protagonista, o filho que o chef decide enfim iniciar no seu amor pela comida e pelo trabalho com significado, o puer que não apenas aprende, como também ensina – e muito – ao senex inseguro que seu pai encarna. Para reforçar o time, ainda há a personagem do sogro cubano, artista como o genro, um cantor latino cheio de suíngue e sabedoria, um senex com tudo em cima, que faz muito bem o que gosta e mostra o que sabe ao neto fascinado. Uma imagem em especial me pegou de frente, pela riqueza do material simbólico que ela evoca: a do pai presenteando o filho com uma faca que ambos compram juntos. Tenho eu mesma um filho que quer ser chef e sei o que significa, nesse universo, comprar sua própria faca. Meu filho me ensinou que um verdadeiro cozinheiro leva sua faca para o trabalho. Ela atesta a sua habilidade, o seu domínio da técnica, a sua capacidade de discriminar, o seu respeito pela ferramenta e pelos materiais do artista, sem os quais ele não é capaz de realizar sua obra. Sua faca é, em suma, sua potência. E para lidar com ela, é preciso aprender a usá-la, de modo que ela não te mande para pronto-socorro. O risco e a experiência. O limite e a força. A cicatriz e o sangue da iniciação: uma queimadura na chapa quente, um corte do dedo. O menino aprendendo com a pai a lidar com o fogo e a usar sua faca é aquele momento que vale pelo filme, sabe? Mas aqui o filme inteiro vale muito.

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“Te adorando pelo avesso”

Zeus e Antiope

O deus atravessou a multidão com compostura e segurança dignas do primeiro escalão do Olimpo. Estava cercado por numerosos policiais que o constrangiam tanto quanto o protegiam da sanha do populacho, tomado por um frenesi. Ofensas, gritos, choro e ranger de dentes não pareciam intimidá-lo. Não pude deixar de pensar em Zeus, o grande estuprador e fecundador de mulheres mortais; em Dioniso, o deus da loucura; em Ares, o senhor da guerra, sempre acompanhado de seus leões de chácara Fobo (Medo) e Deimos (Terror). As mulheres compunham a maioria do séquito que aguardava a chegada do deus ao aeroporto. Não pude deixar de pensar que, como “As bacantes”, se os policiais não estivessem lá para contê-las, elas teriam partido para um ritual orgiástico de desmembramento, um “sparagmós” como aquele em que o rei de Tebas, Penteu, foi despedaçado por um grupo de respeitáveis senhoras, cidadãs exemplares, transformadas por Dioniso num bando de loucas selvagens. Três anos foragido, anos e anos passados da violência literal cometida por ele contra aquelas mulheres e elas ainda permanecem imobilizadas no evento, não procuraram psicoterapia (ou se procuraram, a psicoterapia não as ajudou a sair de lá), não conseguiram descer da maca onde ele perpetrou seus crimes, com a boa consciência de um ente sobrenatural que se crê acima do bem e do mal. Iguais às bacantes, elas ouviram o chamado e largaram o que estavam fazendo, seus negócios, sua casa, seus filhos, para responder à  convocação da divindade, tomadas por uma paixão sombria que as expunha e expunha suas famílias num circo de horrores bem ao gosto das feras midiáticas. Histéricas, elas gemiam e choravam ao microfone, alegando que precisavam testemunhar com os próprios olhos a prisão dele, que agora, sim, elas se sentiam verdadeiramente livres, revelando aos berros que ele implantara óvulos delas a torto e a direito, que elas tinham filhos ignotos espalhados por aí e outras barbaridades nelsonrodrigueanas que a gente enterra e esquece, por não haver outro modo de se lidar com elas. O discurso errático delas, porém, revelava bem o contrário do que mostrava a experiência. Desmascarado o criminoso, julgado e condenado, elas estariam livres para retomar a própria vida e se curar de suas feridas. Todavia era como se elas tivessem passado todos esses anos a impedir qualquer a cicatrização, cutucando a casca mal ela se formava, revolvendo a lesão para manter a carne viva, a paixão ativa ainda que pelo avesso, ainda que pelo ódio que, como todos sabemos, está longe de ser o oposto do amor, sendo apenas sua outra face. Já cantava Ellis, nos versos imortais de Aldir Blanc e João Bosco, que “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam…”. Aquele predador merecia de suas vítimas a mais gélida indiferença, uma tal que o lançasse na pocilga abjeta do opróbrio e do esquecimento, um lugar ainda mais frio e cinzento que qualquer cela de presídio. Recebeu, no entanto, uma ardente homenagem de mulheres que deveriam tê-lo assassinado em seus corações mas, ao contrário, acorreram para sacrificar a ele sua intimidade e as de suas famílias. Se, no ato do estupro, elas estavam literalmente anestesiadas, portanto incapazes de reagir, o ritual que protagonizaram em pleno aeroporto serviu para mostrar que continuam inconscientes, muito embora agora elas aparentem estar despertas.

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Conversando com a Ruth Toledo Altschuler, minha terapeuta de florais, ela me iniciou na ideia de “woundology”, um termo traduzido livremente como “feridologia”, isto é, a capacidade que temos de tirar valor de nossas feridas emocionais e de permanecer imobilizados nelas. Ruth me apresentou a Caroline Myss, que foi quem cunhou esse termo. Para Caroline, a cura emocional tem a ver com a necessidade de enxergar “o poder que as feridas têm sobre nós” e “reconhecer a energia que investimos para manter nossas feridas abertas”. Tem uma fala interessante dela no Youtube, no link http://youtu.be/pzVyNoFA9Es

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Nas matilhas lá do ateliê, enquanto lemos nosso clássico “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, noto o frisson que o conto do Barba Azul continua a desencadear e como essa imagem arquetípica do predador psíquico sempre retorna às nossas conversas, ainda que a gente esteja envolvida com outros enredos. A sedução do predador não pode ser subestimada, a menos que a gente queira cair de novo e de novo na teia de Barbas Azuis machos e fêmeas, individuais e coletivos, literais e simbólicos que pululam por aí, procurando pactuar com as vítimas ingênuas, sempre disponíveis. A grande questão é quando somos nós os nossos predadores, e a  “feridologia” parece falar da outra face da vítima, aquela que ama o predador e colabora com ele para sabotar o próprio desenvolvimento.

Uivos lá de Extrema

A Denise Felipe, lá de Extrema, MG, me manda esse comentário que vale por um lindo post. Aproveitei para fazer um reparo no “Anima Nobile Canina”: meu pai corrigiu o nome do Bobby para Dick (um bom nome para um cãozinho de formato fálico)! Putz! Enfim, minha memória não é tão elefantina assim e por isso eu deveria ter consultado os ancestrais antes de escrever. Deleitem-se.

Eli, lembrei também dos cachorros que tive (Teca, Tulipa, Xane, Noite…), de livros que li (Flush; Cão como nós ‒ cujo prefácio é do Cony, mencionado no texto abaixo ‒; Timbuktu; O cão e o dono; O chamado da floresta; Da dificuldade de ser cão; Caninos brancos, Vidas secas…).

Adote logo uma pessoa de quatro patas… Essa gente nos humaniza!

“Sempre me lembro [eu também!!] da crônica emocionada e emocionante que escreveu Carlos Heitor Cony a propósito da morte de sua cachorra Mila e de quanto o registro dessa perda nos ensina sobre nossas relações e sobre nós mesmos nas relações com os animais, dos animais conosco e de cada um de nós conosco e com outros semelhantes e dessemelhantes.

[O Eduardo Galeano, numa entrevista pro programa Sangue Latino, também conta uma história comovente: “Faz pouco tempo eu sofri uma tragédia, morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro, meu companheiro de passeio, que me acompanhava também escrevendo porque, quando eu perdia a mão, e já levava 18 horas escrevendo, com a sua perna me dizia: ‘Vamos, nos vamos. A vida não termina aqui, nos livros. Vem, vamos passear juntos’, e aí íamos os dois. E ele morreu assim que eu andava com uma música muito ruim na alma e, realmente, falando de perdas, a perda do Morgan foi muito importante para mim, me arrancou um pedaço do peito.”]

Umberto Eco na crônica ‘Da inteligência canina’, publicada recentemente pela Folha de S.Paulo, Ilustríssima (Domingo, 9, out., 2011, p. 6), e que traz, em linha  fina, o subtítulo ‘Quando o cão elabora um plano complexo’, faz um breve e longo passeio, no espaço e no tempo, para, a propósito de um incidente em que a cadela Queen vai em busca de ajuda para salvar sua dona que havia sido picada por uma vespa tendo em decorrência um choque anafilático, evocar ‘uma literatura antiquíssima e vasta sobre as capacidades de raciocínio dos cães’. Cita, então a História natural de Plínio, do ano 77 d.C., Crisipo, três séculos antes, Sexto Empírico cinco séculos depois, Plutarco, Eliano e Porfírio com argumentos em favor da inteligência e da racionalidade desse animais. Projeta esses temas sobre os nossos dias e termina a crônica com a desconfiança sagaz de que os cães estão, pela razão e pela emoção, mais próximos de nós do que sonha a nossa vã filosofia.

E conclui (e nós com ele):

‘Ainda que não se consiga definir bem a inteligência canina, deveríamos ser mais sensíveis a esse ministério. E se for muito difícil virar vegetariano, pelo menos que donos menos inteligentes que eles não abandonem seus cães nas estradas.’”

Carlos Vogt em <http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=73&print=true>

Anima nobile canina

Pupi

Puppy

Anima nobile (alma nobre) era como os seres humanos se autodesignavam, em oposição a anima vile (alma vil), a condição atribuída aos animais. Aprendi isso com Monteiro Lobato, meu pai número 2. Nada como ser Adão, aquele cara que dá nome às coisas. Ele usa as palavras a seu favor e as transforma numa fonte inesgotável de autoenganos. Hoje vou falar sobre almas verdadeiramente nobres e deixar o leitor decidir quem é vil de fato na ordem das coisas. Nenhuma das pessoas que meu post homenageia pertence à espécie humana, primeira razão, portanto, para serem consideradas nobres. Meus personagens são pessoas não humanas, porém completamente pessoas, animadas e almadas, plenas de afeto e memória, fieis aos seus vínculos profundos e também autênticas na expressão de seus afetos. Não faltam a elas as melhores qualidades humanas, aquelas que nos fariam dignos da verdadeira nobreza, a qual só existe na prática. Algumas dessas pessoas já partiram. Outras eu só conheci de ouvir suas histórias por anos a fio, desde pequena. Outras ainda estão por aí, passeando pelos quintais e telhados, ocupando almofadas e colos, encantando a vida dos humanos a quem dão a graça de sua companhia. Hoje achei que já está na hora de contar, por escrito e para mais gente, as histórias dos bichos da minha família. São boas histórias, simples e comoventes, cheias de gestos impregnados com os melhores valores humanos, entre eles gentileza, lealdade, coragem, altruísmo.Vou dividir meu assunto em dois posts, um dedicado aos cães e outro, aos gatos, e deixar para mais tarde um terceiro, protagonizado por um pássaro chamado Preto e Pessoa, um jabuti solitário.

JOLI: MUITO MAIS QUE UM BONITÃO

Joli foi o cachorro da infância do meu pai. Bonito, como diz o nome, mas duvido que os donos soubessem disso. Escolheram a palavra porque a acharam, ela sim, bonita e acabaram reunindo a qualidade ao sujeito por similaridade.Vira-latas de pelo longo e sedoso, branco raiado de preto, Joli era um valente do tipo Errol Flynn, que desafiava o laçador da carrocinha dando espetáculos de fuga que os garotos da rua aplaudiam, frenéticos. O homem da carrocinha odiava Joli, que o humilhava publicamente com suas performances. Consta que, diariamente, ele escoltava as meninas da família até o ponto de ônibus e os meninos mais novos até a escola. Certo dia, Joli acordou estranho. Jururu, inapetente, isolado num canto. Meu pai tem certeza de que ele pegou raiva, porque um cachorro da vizinhança com quem Joli não se dava morrera há pouco da doença. Mas Joli não arriscou ficar e a contaminar, a contragosto, a família que tanto amava. Sumiu simplesmente e nunca mais apareceu. Um gesto de infinita nobreza, do qual poucos seres humanos são capazes.

TIGRE CORAÇÃO DE LEÃO

Tigre era o cachorro da minha avó materna, um vira-lata sangue bom, grandalhão, preto, plutoniano, mas com um coração de príncipe. Ele a seguia aonde ela quer que ela fosse, qual um cavaleiro provençal a serviço da sua dama. Porém não foi com ela que ele revelou seu coração de leão. Meu avô era inspetor de quarteirão na cidadezinha, ou seja, era o valentão que defendia a vizinhança de outros valentões, ainda piores do que ele. Um dia, foi chamado para enquadrar um encrenqueiro que fazia arruaça no bairro. Tigre o seguiu. A princípio, meu avô botou o cara para correr no grito, Autoconfiante, contudo, deu as costas ao perigo, na pressa de voltar para a cama, já que era noite alta. Ocorre que o homem estava armado e pronto para lhe dar um tiro pelas costas, não fosse o timing de Tigre, que o interceptou e derrubou. O tiro desviou para o alto, o facínora foi para a cadeia e Tigre roubou do meu avô o título de herói do dia.

DICK, O ESCUDEIRO FIEL

Um tequel miúdo e esperto, pretinho, aficcionado pelo dono, Dick vivia na cola do meu pai, então um mocinho de seus 20 anos. Quando este começou a dar plantões noturnos na farmácia do bairro, aonde trabalhava, costumava voltar de madrugada, a pé, pelas ruas desertas do velho bairro do Cambuci. E Dick ia esperá-lo na porta da farmácia, para escoltá-lo para casa em segurança. Nos dias de trabalho normal, Dick ia levá-lo até o trabalho e então voltava para casa, feliz de ter cumprido sua missão. Acontece que, certo dia, o pior aconteceu. Dick foi atropelado por um carro mais afoito, por sorte, logo na saída da farmácia. Meu pai assistiu a tudo e, aflito, não titubeou: baixou a porta de ferro do estabelecimento e levou o companheiro até a Faculdade de Veterinária, que então ficava pelas bandas da Liberdade. Ele tinha um amigo que era aluno de lá e trabalhava no hospital, o Zezinho. Dick foi internado para entalar a perna quebrada, mas ia ter de ficar lá por algumas horas. E meu pai precisava voltar para reabrir a farmácia. Mal chegou ao balcão e o telefone já tocava. Era o Zezinho, dando a pior de todas as notícias: Dick escapulira do hospital e, mesmo com a fratura na perna, não fora recuperado. Meu pai ficou arrasado, porém não havia o que fazer. A distância entre a farmácia e a faculdade era razoável e Dick não tinha como saber o caminho de volta. Os clientes chegavam, havia injeções para dar, fórmulas para manipular, cortes para suturar… Naquele tempo, a vida de farmacêutico do bairro era bem mais emocionante do que é hoje em dia. O tempo passou, duas, três horas, meu pai trabalhando sem parar de pensar no destino do amigo. Enfim houve uma pausa para respirar e a farmácia esvaziou. Ele saiu à porta para olhar a rua e ficar melancólico à vontade, coisa de que gosta muito até hoje. Foi quando viu, subindo bem devagarinho o morro da rua Robertson, o Dick, de língua de fora, capengando com a perninha quebrada. Sabe Deus como, ele tinha encontrado o caminho de volta para casa, levando apenas o amor por seu dono como guia. Os dois se encontraram e foi uma grande alegria. Meu pai entalou a perna do Dick lá mesmo, na farmácia. E caso encerrado.

PUPPY, A GUARDIÃ DO TESOURO

Fox paulistinha brava como só ela, Puppy foi o presente de consolação que minha irmã ganhou de meu pai, porque ele não a deixou ficar comigo em Guararema, nas férias depois do carnaval. Eu cheguei de viagem e ela já estava lá, um filhote muito lindo, pentelhinho e inteligente como só um fox paulistinha sabe ser. Rabo cotó, latido ardido, sempre alerta, apesar do temperamento Puppy submetia-se a quase todos os abusos afetuosos da minha irmã, que queria fazê-la de boneca. Entre outras humilhações, saia fantasiada de noiva para passear de tarde pela rua, metida num velho carrinho de bebê, com um par de óculos de aros redondos e lentes vermelhas instalado no focinho. Claro que Puppy mordeu mais de uma vez sua dona, sendo que, na primeira, ainda não tinha sido vacinada, o que custou uma série de injeções na barriga que fizeram de minha irmã a celebridade do quarteirão. Nós a púnhamos para dormir conosco, coisa que meus pais proibiam terminantemente, e ele ficava quietíssima, metida debaixo dos nossos lençóis, cada noite na cama de uma. Todavia amar mesmo, perdida e completamente, ela só amava minha mãe, sua deusa. Quando minha mãe saia, Puppy ia buscar alguma peça de roupa ou pé de sapato dela no armário, arrastava até a almofada e lá ficava, guardando o tal objeto transicional com a devoção feroz de um talibã. Ai de quem tentasse tirar dela aquela coisa sagrada! Rosnados ameaçadores, tentativas histéricas de morder, ela fazia de tudo para evitar que qualquer um, até mesmo meu pai, chegasse perto do avatar da sua adorada dona. Velhinha, o faro a confundia e ela frequentemente pegava coisas de outras pessoas (principalmente visitas!), achando que eram de minha mãe. Um amigo da minha irmã viu seu pulôver de cachemir inglês novinho em folha virar um amarfanhado forro de almofada de cachorro e teve de esperar até minha mãe chegar para recuperá-lo, babado e cheio de pelos. Puppy viveu 14 anos e morreu docemente, com minha mãe, sua mais querida, ao lado dela. Foi posta para dormir por um veterinário bonito e bondoso que a chamava de “minha preazinha”.

FRIDA QUE QUASE FOI NOSSA

Frida era a cadelinha schnawzer da namorada do meu filho. Por alguns meses, tempo em que a família dela se mudou do Brasil e Frida ficou por aqui, fazendo companhia a sua dona, que também tinha ficado, fomos um pouco donos dela também. Já velhotinha, era uma pessoa deliciosa, divertida, animada, amorosa. Só entortou com o Carlinhos, nosso gato, claro. Cada vez que o via entrar pela janela, Frida nos avisava, muito ciosa de seus deveres, de que um gato tinha invadido nossa casa e, portanto, tínhamos que tomar providências enérgicas. Devagarinho, com a ajuda de alguns florais e da imensa paciência do Carlinhos, esse gentleman, Frida foi se acostumando com ele, de modo que os dois estabeleceram uma convivência um pouco tensa (por parte dela) e blasé (por parte dele), porém, no geral, respeitosa, embora os olhinhos dela continuassem a expressar, cada vez que ele passava por perto, uma certa perplexidade. Dengosa e diplomática, Frida ensinou meu marido a gostar de cachorros. Foi um adestramento afetivo muito bem sucedido porque não só ele se apaixonou por ela como também cultiva o desejo de adotar um cão, coisa que, até a Frida aparecer, era inimaginável. Já doente, ela passou em nossa casa os últimos meses de sua vida, período em que tivemos a sorte de cuidar dela como se realmente fosse nossa. Choramos muito quando Frida se foi, muito mesmo, ainda mais porque não foi aqui em casa, perto da gente, que ela morreu, mas num hospital veterinário. Até o Carlinhos sentiu a ausência dela, tanto que continua até hoje querendo que coloquemos sua ração em cima de uma mesa, que era a estratégia para evitar as investidas da Frida no prato dele. Da parte de um gato, não deixa de ser uma forma de homenagem.

 

Anima nobile felina

Zelda Fitzgerald, nossa gata pitbull

Zelda Fitzgerald, nossa gata pitbull

MINSK SEMPRE À MINHA ESPERA

Minsk ganhou seu nome do periquito de um conto chamado “Minsk”, se não me engano do Luis Jardim. O menino da história ganha um periquito, abre um mapa mundi em cima da mesa e põe o bichinho para andar sobre o mapa. O periquito para sobre Minsk, na antiga URSS e é batizado. Menina ainda, li o conto na escola e decidi que teria um bicho chamado Minsk, qualquer bicho. Foi um gato. Ganhei de uma aluna da 6a série, cuja gata tinha dado cria. Era preto e branco como o Tao, com uma máscara de Mickey Mouse muito engraçada pintada na cara. Carreguei ele da escola aonde trabalhava para casa metido numa caixa precária, todo nervoso e esticado, miando feito doido. Quando saiu da caixa, vimos que era um Frajola longilíneo, grande e lindo, apesar de um pouco arisco. Já tinha uns 4 meses e ainda não havia sido castrado. Mandamos prontamente cortar as bolinhas dele, que o veterinário veio nos mostrar na palma da mão, como quem oferece duas azeitonas e pede reembolso. Minsk gostava de ficar sentado num pilar ao lado do portão de casa feito uma estátua, na mesma pose da deusa-gata egípcia Bast, guardando orgulhosamente seu território. Era de uma elegância e de uma autoestima insuperáveis. Foi o gato da minha filha então com 5 anos, que o chamava de Minskeilândia, tão divertido ele era. Nas brincadeiras dela, Minsk se prestava resignado a bancar o bebê, até que se enchia de ser agarrado e ninado, dava umas arranhadas e sumia. Era meio selvagem, meio gato de rua e, mesmo castrado, tínhamos certeza de que mantinha casos com gatas da vizinhança. Pelo menos não as emprenhava, enchendo o mundo de órfãos desvalidos. Quando eu dava aulas até tarde, nas noites de quarta-feira, tinha de estacionar meu carro na rua, a um quarteirão de casa, por causa da feira que acontecia toda quinta. Claro que nem sempre eu conseguia parar no mesmo lugar. Mal abria a porta do carro, porém, estivesse aonde estivesse, eu dava de cara com Minsk me esperando na calçada. Era uma coisa mágica aquele gato saber aonde eu ia estacionar toda noite de quarta-feira. Eu o pegava no colo e juntos descíamos um quarteirão até chegarmos em casa. Depois de garantir que eu estava segura, ele escapava pelo vitrô da sala para mais uma noite de aventuras. Livre como era, Minsk acabou morrendo atropelado. Depois de morto, passei meses vendo-o atravessar a sala bem rápido, como ele sempre fazia, esticado e arisco feito uma fuinha.

ZELDA, A DAMINHA DE FERRO

Zelda ganhou o nome do video-game favorito do seu dono, meu filho. Eu soube agora que ela é xará da filha do recém finado Robin Williams e que ele escolheu o nome pelo mesmo motivo. Sempre foi uma gatinha minúscula, desde quando chegou aqui, metida numa caixa de papelão com seus irmãos, usando uma fita vermelha no pescoço. Nós a escolhemos porque ela era uma bolinha branca de pelos macios como algodão, com retoques de nanquim preto espalhados pelo corpo e uma mancha preta bem no meio do focinho. Linda e brava, Zelda nos divertia intimidando gatos e cachorros muito maiores do que ela, inclusive um pitbull que pôs para correr na casa da praia. Quando fica brava, ela incha e dobra de tamanho, bota as orelhas para trás e bufa de um jeito tão ameaçador que nos esquecemos que ela é uma anã e nos recolhemos a nossa insignificância. Recusou-se a aceitar Muriel, uma gata linda que adotamos numa ONG. Abrimos mão de Muriel para a segunda candidata da lista de postulantes a mãe adotiva, porque Zelda simplesmente adoeceu de ódio e ciúme da concorrência. Diga-se a seu favor que ela suportou bravamente a presença de Carlinhos, a quem  rapidamente ensinou quem estava no comando e que se dedicou a detestar estoicamente por todo o tempo em que dividiram um espaço que era dela e do qual ela o deixava ocupar um cantinho. Porém quando a vizinha arranjou uma gatinha siamesa gorducha e mansa, Zelda enlouqueceu. Territorial, obsessiva, paranóica, passava o dia de cá para lá, a vigiar o terreno, mijando em tudo, especialmente nos eletroeletrônicos: a TV de LED, o monitor do PC, as caixas de som, o amplificador da guitarra. Acabou estragando o HD de um computador. Vimos então que ela estava sofrendo muito, tensa, agressiva, inquieta o tempo todo, torturando o pobre Carlinhos, nosso macho beta feminino e complacente. Meu pai tinha acabado de enviuvar e minha mãe e Zelda sempre se deram muito bem. Decidi fazer um teste: levá-la para morar com ele por uns tempos, até o surto passar. Convivendo com meu pai no apartamento, assumindo os territórios que haviam sido de minha mãe, sua poltrona, seu travesseiro, os recônditos de seu guarda-roupa, Zelda fez um pacto com meu pai, um acordo de convivência e lealdade entre mal humorados possessivos e obsessivos. Hoje os dois são companheiros e ele diz que ela o segue e cuida dele o tempo todo. O temperamento dela melhorou muito e Zelda, the iron maiden, virou uma gata de colo, podem acreditar.

CARLINHOS GUSTAV JUNG DA SILVEIRA:  A EMOÇÃO DE LIDAR

Na gaiola do petshop, a ninhada de vira-latas nos obrigava a parar ali todo dia, para brincar com aquelas belezinhas multicoloridas. Eu confesso que remanchei um pouco, antes de aceitar outro gato em casa. Já tínhamos vivido a tentativa malograda de adaptar Muriel e Zelda, e me parecia que um filhote iria deixar nossa caudilha ainda mais maluca de ciúme. Meu marido e meu filho fizeram contrapeso às minhas argumentações e Carlinhos veio morar em casa, pequeno e fofo, um perfeito rajastani, filhote de jaguatirica de olhos amarelos e interrogativos. Foi tão bom que me arrependi de não ter adotado outro filhote da mesma ninhada, um negão de olhos verdes, lindo, que eu sabia que ia acabar sobrando na gaiola, pelos motivos mais desprezíveis. Até hoje me dói essa culpa. Botei o nome de Carlinhos por causa da dra. Nise da Silveira, junguiana que amava gatos e introduziu os bichos terapeutas no reino criativo e amoroso do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Ela tinha, entre muitos outros, um gato chamado Carlinhos, sujeito sofrido e com uma bela história, narrada num livro encantador chamado “Gatos: a emoção de lidar”. Daí o nome completo do nosso gato caçula, que também chamamos “o Bebê”: neto da dra. Nise e, portanto, bisneto em linha direta de Carl Gustav Jung, o grande pensador da cultura e criador da psicologia analítica. Meigo e fofo, um falador inveterado, dado a desenvolver longas narrativas, Carlinhos ficou um pouco marcado pela convivência difícil com a tirânica Zelda. Continua tímido, mesmo depois dela ter sido transferida para a casa do meu pai há já algum tempo, nos deixando só para ele.  Adora técnicos que vêm consertar todo tipo de equipamento, o pessoal dos cupins, pintores, pedreiros, instaladores de Tv a cabo e persianas em geral, o que revela sua boa índole. Na difícil provação que foi aprender a conviver com a schnawzer Frida, ele suportou com elegância a animosidade, os latidos agudíssimos (logo ele, que odeia barulho), as perseguições nada lúdicas pela casa. Portou-se como um perfeito cavalheiro, de A a Z. Interesseiro, um verdadeiro esteta na escolha de colos para dormir, Carlinhos escolhe criteriosamente o mais aconchegante em meio a todos disponíveis, tateia e afofa um pouco, para melhorar a textura. Então, depois de rodar em torno de si mesmo, ritualisticamente, por duas ou três vezes, ele se instala no colo eleito como se este fosse uma poltrona viva. Pode permanecer horas a fio aninhado ali, se o escolhido, digno de receber essa alta honraria, assim o permitir. Gosto muito de cães, mas o mistério dos gatos me intriga e atrai para essas criaturas belas e seguras de si, que nos amam e sabem, sim, demonstrá-lo, contra todos os preconceitos que o senso comum construiu a respeito deles. Ser misterioso e independente num mundo de gente óbvia e carente é uma ofensa, quase uma contravenção. Por isso eu amo os gatos. Tenho muito a aprender com eles, com sua diferença (e indiferença para com os caretas), eu que sou, por natureza, uma alma canina.

 Carlinhos medita