Só que não ou uma pedagogia da frustração de GoT

O habitual nhenhenhem da massa descontente sucede o encerramento da série mais eletrizante já produzida, na minha modesta opinião de seguidora decana de séries desde os anos 1960. Terminou ontem a magnífica Game of Thrones, de cujas referências técnicas genéricas pretendo poupar o leitor que não viveu os últimos 8 anos magnetizado pela saga mitológica narrada ao longo de temporadas aguardadas em agoniada expectativa. Homero, J.R.R. Tolkien e Joseph Campbell teriam endossado e decerto também seguido GoT, se é que não o fizeram em alguma galáxia muito, muito distante. A força com que arrastou e manteve em transe milhões de seguidores devotos e o modo como reuniu grupos em torno da fogueira primordial da imaginação comprova o DNA mítico de Got, bem como nossa necessidade de despertá-lo dentro de nós, a fim de que nossas vidas encontrem alguma relevância simbólica em meio ao deserto desta cultura conduzida pela banalidade da tela onde pululam estereótipos. Um caudal de histórias muito bem encadeadas, desveladas com capricho obsessivo em meio a excessos de toda natureza, histórias contadas sem pressa nem preocupação com a verossimilhança externa ou o IBOPE, o rio turbulento de GoT atingiu enfim seu delta inevitável, espraiou-se e virou lenda registrada com minúcia e letras góticas nas crônicas de gelo e fogo. Uma mitologia viva, orgânica e luxuriante, odisseia trançada de odisseias, um mundo erguido diante de nós, a se desvelar, logo de cara, na magnífica vinheta da abertura que mudava a cada temporada, GoT é um marco como foi O Senhor dos Anéis em sua época, imantado por elementos da realidade cotidiana e capaz de lançar uma compreensão não racional sobre seus eventos. Um cabedal de línguas e culturas exóticas exibidas ao longo da narrativa desmesurada de personagens, um melhor do que o outro, em especial os coadjuvantes, GoT se revelou uma metáfora modelar para nossos tempos medíocres, de mitos literalizados e vividos como complexos inconscientes. Até quanto errou, GoT acertou, acolhendo corajosamente a descontinuidade, os desvios, as decepções, as interrupções, os bloqueios, a traição das expectativas a que chamamos vida. Mas é lógico que, mal se fecham as cortinas sobre Westeros, entra em cena o coral dos descontentes, amplificado pelo habitat ruidoso e bidimensional das redes sociais. Que essa turma reclame com veemência da condução que os roteiristas deram ao desfecho, esse fato, para mim, só conta a favor da dupla intrépida. Se o público que se engalfinha por migalhas no FB gostasse do final de GoT, aí sim eu ia ficar preocupada. O arremate sombrio foi um acinte, uma provocação, uma ofensa à petizada digital que não sabe lidar com a frustração. GoT chutou no peito “istas” de todas as facções e seitas e afirmou o avesso do paradigma heroico: aquele que não se alinha conscientemente com seu destino, infla até explodir e ser reenviado aos próprios limites. Foi assim com Dani e Jon, o casal de protagonistas. Sobreviveram e superaram os que abraçaram seu destino sem perder a noção de si e da realidade: Tyrion arrasador, Bran supreendente, Arya extraordinária, Sansa convencional, Gendry honrado… Foi mesmo a vitória dos ferrados, dos que sofreram mas não morreram, dos que se frustraram em quase tudo e ainda assim, persistiram, dos que foram vitimados por toda sorte de violência mas não se deixaram reduzir a vítimas. O final foi dos resilientes. Se você não tiver essa inclinação, nem comece a assistir.