Rei da Zumbilândia

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Neste contexto, “rei” é um eufemismo. Muito mais apropriados seriam termos como “tirano”, “ditador” ou “autocrata”. Mas de novo, lá vou eu botando o carro adiante dos bois, isto é, explicando antes de narrar, ô, mania… Sábado passado íamos a uma festa que prometia ser muito legal. Não era uma simples festa de fim de ano. Era uma festa de aniversário de 50 anos, vejam bem, e no fim do ano, portanto emblemática. O aniversariante era uma pessoa duplamente legal. O bufê indicado no lindo convite já acenava com um espaço bonito e confortável, porém me sorria ainda mais a perspectiva de encontrar, nesse lugar especial, gente que eu não via há muito tempo e levar alguns papos interessantes. Um bufê de boa conversa me parece sempre o mais apetitoso de todos. Descolei de cara um figurino de que gostei muito, consegui fazer um risco tipo “gatinho” nos olhos, quase um milagre quando a gente usa óculos, estava, enfim, animada com a perspectiva de uma noite agradável, marcada por bons encontros, boa bebida, comida ótima e, claro, pista de dança. Tem coisa melhor de que encerrar o ano caindo na pista de dança? Porque se tratava de uma festa de 50 anos, eu me sentia segura de que eu conseguiria, enfim, cair na pista de dança, depois de algumas experiências sumamente frustrantes.

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As mais recentes festas com pista de dança em que estive foram alguns casamentos de meninada, festas “cool”, ou seja, frígidas, no sentido próprio como no figurado. Em eventos desse tipo, hoje em dia, há um trono no meio da sala para o rei da festa, Sua Majestade, o DJ. Desse trono, ele comanda o andamento de evento com mão de ferro, impedindo conversas agradáveis, estourando tímpanos inocentes, intensificando quadros de zumbido crônico, projetando, enfim, gerações de deficientes auditivos e sabe Deus o que mais. O DJ constitui uma das metáforas mais eloquentes da nossa cultura da sociopatia triunfante. Nessas festas de casamento, o noivo e a noiva não são mais os reis, mas súditos avassalados dessa personagem autorreferente, centralizadora, imperial, impeditiva, que ocupa o centro da vida e alimenta ininterruptamente o individualismo robótico que marca as novas gerações, não à toa tão interessadas em zumbis de cinema e videogame. O DJ é o rei da Zumbilândia, essa terra de seres que tiveram suas almas abduzidas e, com olhos vidrados e bocas tartamudeantes, não estão interessados em cultivar relações, a não ser que seja no espelho da dança em que cada um faz o que quer e ignora o que faz o parceiro, ignora o parceiro. Zumbis não olham para o lado, já perceberam? E quando olham para o outro que gesticula à sua frente, não o veem, não estão interessados nele, seu olhar vazio o ultrapassa, como se o outro fosse transparente. E como bebem os zumbis, meu deus. Beber até perder a consciência, até entrar em coma alcoólica, até sair vomitando para emporcalhar o banheiro chique é outra prerrogativa dos zumbis, seu supremo ato de isolamento, seu corte radical com o mundo que os cerca, como também seu patético reenvio aos próprios limites. Conversar e beber socialmente é coisa de velhos, ou melhor, de alguns velhos, porque outros já se renderam completamente à condição de zumbis de festa, só para parecerem mais jovens do que são. Escambo melancólico, que pouco efeito produz na realidade e torna os velhos ridículos. Depois de circular pelas ditas festas, encontrando gente que eu não vejo há tempos ou sendo apresentada a gente que eu adoraria conhecer um pouco mais, tentando, em vão, me comunicar por gestos e entender por leitura labial, geralmente desisto e vou embora, expulsa pelo mal estar que o volume abissal da música desencadeia: a péssima que se torna insuportável e a boa, que se torna ruim. A festa de sábado passado, porém, era uma festa de 50 anos, o que me parecia uma garantia de que teríamos alguns mini-simpósios ocorrendo nos sofás, alternados com momentos de folia na pista de dança. Ao chegar, envolvida pela beleza e o bom gosto da decoração, o esplendor dos arranjos florais, o volume razoável da música (boa), alguns rostos conhecidos e amáveis, não me dei conta de que o centro da festa era, mais uma vez, Sua Majestade, o DJ. Instalado na parede frontal, numa janelinha que lhe dava maior destaque porque estava cercada de imagens que se movimentavam hipnoticamente, lá estava ele, o supremo titereiro, o simposiarca autista, de óculos escuros como um ditador líbio, preparando-se para assumir todos os espaços, impedir todas as conversas, interromper todas as histórias, atrapalhar a digestão, induzir à bebedeira, em suma e para mim, pelo menos, estragar a festa. Claro que foi exatamente isso que ele fez, com a anuência do verdadeiro rei, de quem usurpou o trono legalmente, sem encontrar resistência (deve ter sido regiamente pago, inclusive), todavia com o sacrifício daquele valor que faz de uma festa um ritual de encontro entre seres humanos interativos. A Zumbilândia instalou-se gradualmente, até o volume tornar a música irreconhecível e o DJ conquistar cada rincão com seus exércitos tonitruantes, enquanto as pessoas simplesmente desistiam de berrar e tentar entender o que o outro (e elas próprias) diziam, para capitular, por fim, entregando-se sem remédio ao torpor dos sofás, da comida, da bebida e até da dança irremediável. Deu meia-noite e, qual Cinderela com o rabo entre as pernas, me escafedi de mais uma Zumbilândia com uma sensação melancólica de remanescente de uma espécie em extinção.

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