A rainha de todos os bullies

Um jovem amigo me indicou uma série da Netflix, chamada “13 razões”, sobre uma garota de high school que se suicida e deixa 13 fitas gravadas, destinadas a um grupo de colegas, sobre os motivos de sua demissão sumária desta vida. Larguei a história no quarto episódio, antes mesmo da quinta razão. Não porque o seriado seja forte demais, ou por causa do tema espinhoso. Raramente desisto de um bom enrêdo por motivo de desconforto simbólico. Desisti das “13 razões” porque a protagonista e seu corolário de adolescentes babacas e adultos adolescentes babacas me irritaram até o limite da razão. Quase morri de tédio de ter de testemunhar seus infindáveis mimimis, sua fragilidade auto-induzida, sua agressividade fashion e suas neuroses enjoativas. Que mala sem alça de rodinhas quebradas e zíper enguiçado, a tal suicida com treze razões que não somam uma! Não tenho nada contra o suicídio, ao contrário, acho que pode ser uma saída digna e legítima de uma vida que insiste em embotar ao invés de desabrochar. Agora se matar para botar a culpa nos outros de não saber o que fazer com a própria vida me parece um negócio pra lá de idiota, além de muitíssimo perverso. Perversa, aliás, é um adjetivo que cabe como uma luva na protagonista. Manipuladora, paranoica, mimada e histérica para citar cinco qualidades que me assomam à mente sem nenhum esforço. Poderia haver alguma nobreza na saga de Hannah, algum busca interior relevante, alguma razão minimamente substanciosa para seu ato extremo, como por exemplo, uma sensibilidade agredida e violada pelo coletivo, ou mesmo uma desilusão, como a do jovem Wether de Goethe ou da Ana Karenina de Tolstoi. Mas, acredite, não há nada que conceda um mínimo de peso trágico à decisão da garota, ainda que para torná-la verossímil. Hannah, tão esperta, cínica e articulada, tão sobeja de high-tech e recursos, é também incapaz de se defender, de identificar a empatia ao seu redor e de encontrar força e escuta num grupo de aliados. Fato é que, antes de decidir-se pela opção radical, ela não experimenta nenhuma alternativa intermediária. Assim Hannah profana a dor de um verdadeiro suicida com suas razões que são, na verdade, meras racionalizações tingidas de sentimentalismo com sabor artificial de morango. Onde, aliás, a razão se excede, o instinto se ausenta. Seu suicídio é uma abstração calculada para incomodar o alheio e por isso mesmo, não me comove em nada. Essa é a parte verdadeiramente trágica de seu caso. Não consegui ver o seriado inteiro, mas posso testemunhar um desfilar interminável de chororô superficial, um déficit crônico e generalizado de resiliência, um egoísmo feroz associado ao descaso absoluto com o outro, praticados tanto pela protagonista vitimada quanto por seus supostos algozes, todos eles transformados em vítimas pela grande bully onipotente que Hannah se torna depois de morrer. Parece, aliás, que ela só se suicida para poder praticar bully impunemente. Os bullies sempre existiram, desde Caim, e sempre representaram algumas das muitas provações pelas quais temos de passar para nos tornarmos mais fortes. Eles não desaparecerão do mundo por força de nossos esforços prestimosos para nos tornarmos criaturas de pura luz índigo. O que não mata fortalece, na versão de Nietzsche, e engorda, na de minha mãe. Abatida pela fragilidade extremada das crianças de cristal que caracterizam o espírito de nossa época, Hannah não encontra força para viver. Contudo a morte a torna poderosa. Ainda não atinamos para o fato de que os bullies vicejam, em nossas famílias, escolas e empresas, porque nossa cultura ama a agressividade, a independência, o poder, porque cultuamos heróis e guerreiros, os supremos bullies, aqueles que não desistem nunca, que impõem seu desejo ao outro e são amplamente admirados por isso, que justificam, na violência do outro, sua própria violência. Guerreiro é elogio e bullying é proibido, entenderam a contradição? Também sempre existiram e continuarão a existir as vítimas crônicas, que fantasiam as estações de seu calvário privado e disso tiram prazer e sentido para suas vidas, prontas a responsabilizar outras pessoas por seus perrengues. Masoquistas podem se tornar, e frequentemente se tornam, competentes sádicos. Um forte sadismo percorre a lenga-lenga da ex-masoquista Hannah nas fitas. Suas confissões, prescrições e julgamentos são ditados com voz fria, clara e objetiva, num tom distanciado, irônico, assustador quando se pensa no contexto. Não, Hannah não soa abalada com a execução gradual de seu “projeto”. Ela recusa a tecnologia digital “malévola”, marca de sua geração, elegendo um gadget inofensivo como mídia “ingênua” para transmitir seu testamento. Ela é criativa. Ao microfone, ela dita instruções precisas aos que ousaram fazer-lhe “mal”, voluntária ou inadvertidamente, não importa. Todos vão pagar. O poder está em suas mãos agora. Nas fitas, Hannah premedita a própria morte com gélido autocontrole, como forma de vingança infantil, irreparável. Assim ela se torna a rainha de todos os bullies. Em “13 razões”, o sentimentalismo corrói os sentimentos verdadeiros e a comunicação se confunde com o discurso ágil e ácido dos defensivos crônicos, que saem correndo assim que a iminência de um diálogo verdadeiro se desenha no horizonte. Os adultos da série são de um ridículo que, infelizmente suspeito, espelhe em muito a atual realidade. Dá pra imaginar uma mulher de 40 e tantos anos e um diretor escandalizados com as coisas escritas na parede do banheiro de uma escola de ensino médio? Oi? Onde vocês estudaram? Em Marte? Uma história ruim, e pior que isso, equivocada, travestida de intenções solenes, que já vejo sendo considerada “uma sensível reflexão” etc. Temo, aliás, que nossa cultura, tão ciente de si quanto inconsciente de si, ache que a história meia-boca da chatíssima Hannah acrescenta alguma coisa ao já indigente debate sobre bullying. O que Hannah vive na escola bem poderia ser experimentado como uma educação sentimental, em épocas menos esquizofrênicas, com a mocinha aprendendo a amar e sofrer e se tornando mulher adulta no percurso. Nada disso. Ninguém pode sofrer hoje sem dia. Sofrer é politicamente incorreto. É violação dos direitos humanos e, se Deus bobear, vai ser eleito o Bully Supremo e denunciado nas redes sociais. Um elogio do individualismo pueril, do sentimentalismo barato, da auto-vitimização como valor a ser cultivado, “13 razões” é uma grande, cara e superestimada porcaria. E Hannah, uma Hello Kitty zumbi.

Ode à vitamina S

Gosto muito de deixar minha imaginação pendular entre os opostos de que este mundo e nós mesmos somos feitos. Opostos que se encaixam e calibram mutuamente, que se estranham e se apaixonam, que antagonizam e colaboram em parceria, que podem até se destruir mutuamente, mas que não sobreviverão um sem o outro. Yang e Yin, côncavo e convexo, luz e trevas, bem e mal, essas coisas, enfim, de que os barrocos baianos e os metafísicos ingleses souberam falar como ninguém. Paradoxos. Oxímoros. O Feminino e o Masculino, por exemplo. Um quer o presente, o corpo em relação com o mundo, a experiência, a encarnação. O outro quer o projeto, o controle e a abstração espiritual e racional que sustentam as fantasias lógicas de um futuro. Só nascemos porque mamãe e papai entraram no jogo dos contrastes, os opostos de uniram e… bem vindo ao jogo você também! Refletindo sobre as pessoas que passam tempo demais a excluir uma polaridade para a afirmar a outra, me veio um insight: de todos os vícios que a gente inventou para dar conta dos perrengues de viver, o pior é o vício da perfeição. Primeiro porque ele quer negar o jogo. Segundo porque todos os outros vícios derivam dele, ou do desejo doentio que o instaura. Um mundo sem dor nem sofrimento, sem mal e pecado, sem ansiedade ou solidão, sem germes nem bactérias, sem preconceito ou pós-conceito, sem acne, celulite e peitos caídos, sem fracassos nem perdas, sem corruptos e bandidos espelha a expectativa irreal e paralisante de uma multidão de seres humanos que, incapazes de jogar com os contrastes, usam qualquer aditivo à mão para afirmar um polo e negar o outro. Tabaco, fármacos, religiões fundamentalistas, ideologias sectárias, treino físico compulsivo-obsessivo, birita, junkie food, ortorexia, drogas legais e ilegais, redes sociais e outras porcarias naturais e sintéticas pretendem – e por mais ou menos tempo, até conseguem – aliviar a aflitiva sensação de que somos filhos vulneráveis dessa mãe louca que nos joga de um lado para outro, chamada Vida. Corta.

No mundo de onde eu venho, a vitamina S era muito usada para melhorar a resposta imunológica das crianças aos invasores naturais, tão indesejáveis quanto inevitáveis. Quer dizer: não que muita gente soubesse disso objetivamente, mas havia uma forte intuição da necessidade dessa interação, até porque a tecnologia médica não era esse deus supremo que é hoje em dia. S é de “sujeira”, para quem desconhece o termo científico. Nossos pais não tinham noção do bem que estavam fazendo, quando se recusavam a desinfetar obsessivamente nossos brinquedos ou quando nos deixavam brincar com nosso grande mestre, o mundo, sem grandes frescuras. Já adulta, um conhecido meu, infectologista, me contou que as lombrigas que tive na infância foram grandes aliadas da minha resistência a gripes e resfriados. Segundo ele, elas ensinaram meu corpo a lidar com agentes patogênicos bem mais punks, como bactérias e vírus. Agradeço sempre às lombrigas que ajudaram a fazer de mim quem eu sou. Ah! O mundo real! Que grande companheiro ele pode ser, quando a gente não tenta inutilmente esterilizá-lo com litros de álcool gel e antibióticos perigosamente desnecessários! A terra e a areia, os pelos dos gatos e cachorros, o ranho e a baba dos amiguinhos com quem trocamos peças de Lego, os biscoitos com meleca e os crocantes tatus-bola que degustamos, num piscar daqueles olhos vigilantes, todas as porcarias invisíveis do chão aonde precisamos engatinhar livremente, a fim de virarmos bípedes competentes! Que beleza é a sujeira, quando ela intervém para moderar a limpeza descompensada! Metafórica e literalmente, a vitamina S (de Sombra, adoro isso) é a melhor imunização contra o vício da perfeição. Ela é uma dádiva, não do conhecimento científico, mas do bom senso, que anda muito em falta ultimamente, malgrado o excesso de informação que nos intoxica com múltiplas paranóias. A vitamina S é uma dádiva do Feminino profundo e escuro, essa dimensão úmida, viscosa da vida a qual atua em nossa psique para que encarnemos mais e melhor, a grande alquimista que trabalha para transformar conhecimento em experiência. Dá pra imaginar que o vício da perfeição anda higienizando os contos de fadas? Histórias sem vitamina S, sem megeras, órfãos, anões e gigantes, desgraceiras e lobo mau… e as crianças, coitadas, vão sendo impedidas de construir defesas simbólicas contra predadores concretos e crises reais.

Uma combinação equilibrada de liberdade e controle resulta na criação sensata e prazerosa de indivíduos mais resistentes, física e psicologicamente: os tais sujeitos resilientes. É a união dos opostos que traz integridade, a qual, por sinal, não tem nada a ver com a perfeição, nada mesmo. No caso da criação dos filhos, tem de ter principio feminino e princípio masculino dinamizando o tempo todo na relação, exercendo forças polares e cooperativas, afirmando parâmetros opostos, sendo cada qual respeitado e acolhido em seu papel e função de ajudar as crianças e os adolescentes a ancorar neste mundo velho sem porteira. Educação de filho é parceria de energias antagônicas. A exclusão de um dos lados desse jogo mutila nossa alma, fragiliza nosso corpo e nos torna prisioneiros de idealizações que nos impedem de viver de verdade. Assim estou aqui hoje para defender as lombrigas e os ogros que nos ensinam a jogar. Vou aproveitar para pedir às mães e aos pais que tentem, mas não com tanta força, como diziam ao Marvin, personagem do Jerry Lewis em “O bagunceiro arrumadinho”: um cara que, de tão ansioso por organizar, convocava inconscientemente um caos proporcional (e calibrador) ao seu desejo excessivo pela ordem. Tudo é compensação, no mistério cósmico-bioquímico-psicológico que é nossa vida na Terra. “Nada em excesso”, ensina o sábio oráculo de Delfos. Nem limpeza, nem água, nem amor. Nem mesmo a bondade, que tem se manifestado, em nossa cultura, como a hipocrisia fashion da correção política, a mera aparência de bondade para exibir aos outros. Este mundo em que seus filhos terão o privilégio de crescer, se vocês permitirem, é lindo e perigoso, politicamente incorretíssimo, cheio de ameaças e oportunidades, de megeras e fadas, de vitórias e derrotas, de picos e vales. Quanto mais vocês aprenderem a transitar entre as polaridades e ensinarem a eles o jogo dos contrastes, melhor eles se sairão como pessoas inteiras e reais. Isso se vocês não quiserem que eles se juntem à horda de pseudo-pessoas, esses estereótipos mal encarnados que andam sonambulando por aí, afligidos pela sinistra doença que os obriga a sacrificar quem eles verdadeiramente são no altar daquilo que eles que nunca serão. Defendam-se e aos seus filhos do sinistro devorador de almas que é o vício da perfeição. O resto se ajeita. Sério.

P.S. – Recentemente ouvi uma notícia auspiciosa: que o FDA proibiu, nos EUA, a venda do sabonete antibactericia Protex, alegando que seu uso indiscriminado está relacionado com o aumento da resistência de agente patogênicos. Vitamina S nele!