Ode à vitamina S

Gosto muito de deixar minha imaginação pendular entre os opostos de que este mundo e nós mesmos somos feitos. Opostos que se encaixam e calibram mutuamente, que se estranham e se apaixonam, que antagonizam e colaboram em parceria, que podem até se destruir mutuamente, mas que não sobreviverão um sem o outro. Yang e Yin, côncavo e convexo, luz e trevas, bem e mal, essas coisas, enfim, de que os barrocos baianos e os metafísicos ingleses souberam falar como ninguém. Paradoxos. Oxímoros. O Feminino e o Masculino, por exemplo. Um quer o presente, o corpo em relação com o mundo, a experiência, a encarnação. O outro quer o projeto, o controle e a abstração espiritual e racional que sustentam as fantasias lógicas de um futuro. Só nascemos porque mamãe e papai entraram no jogo dos contrastes, os opostos de uniram e… bem vindo ao jogo você também! Refletindo sobre as pessoas que passam tempo demais a excluir uma polaridade para a afirmar a outra, me veio um insight: de todos os vícios que a gente inventou para dar conta dos perrengues de viver, o pior é o vício da perfeição. Primeiro porque ele quer negar o jogo. Segundo porque todos os outros vícios derivam dele, ou do desejo doentio que o instaura. Um mundo sem dor nem sofrimento, sem mal e pecado, sem ansiedade ou solidão, sem germes nem bactérias, sem preconceito ou pós-conceito, sem acne, celulite e peitos caídos, sem fracassos nem perdas, sem corruptos e bandidos espelha a expectativa irreal e paralisante de uma multidão de seres humanos que, incapazes de jogar com os contrastes, usam qualquer aditivo à mão para afirmar um polo e negar o outro. Tabaco, fármacos, religiões fundamentalistas, ideologias sectárias, treino físico compulsivo-obsessivo, birita, junkie food, ortorexia, drogas legais e ilegais, redes sociais e outras porcarias naturais e sintéticas pretendem – e por mais ou menos tempo, até conseguem – aliviar a aflitiva sensação de que somos filhos vulneráveis dessa mãe louca que nos joga de um lado para outro, chamada Vida. Corta.

No mundo de onde eu venho, a vitamina S era muito usada para melhorar a resposta imunológica das crianças aos invasores naturais, tão indesejáveis quanto inevitáveis. Quer dizer: não que muita gente soubesse disso objetivamente, mas havia uma forte intuição da necessidade dessa interação, até porque a tecnologia médica não era esse deus supremo que é hoje em dia. S é de “sujeira”, para quem desconhece o termo científico. Nossos pais não tinham noção do bem que estavam fazendo, quando se recusavam a desinfetar obsessivamente nossos brinquedos ou quando nos deixavam brincar com nosso grande mestre, o mundo, sem grandes frescuras. Já adulta, um conhecido meu, infectologista, me contou que as lombrigas que tive na infância foram grandes aliadas da minha resistência a gripes e resfriados. Segundo ele, elas ensinaram meu corpo a lidar com agentes patogênicos bem mais punks, como bactérias e vírus. Agradeço sempre às lombrigas que ajudaram a fazer de mim quem eu sou. Ah! O mundo real! Que grande companheiro ele pode ser, quando a gente não tenta inutilmente esterilizá-lo com litros de álcool gel e antibióticos perigosamente desnecessários! A terra e a areia, os pelos dos gatos e cachorros, o ranho e a baba dos amiguinhos com quem trocamos peças de Lego, os biscoitos com meleca e os crocantes tatus-bola que degustamos, num piscar daqueles olhos vigilantes, todas as porcarias invisíveis do chão aonde precisamos engatinhar livremente, a fim de virarmos bípedes competentes! Que beleza é a sujeira, quando ela intervém para moderar a limpeza descompensada! Metafórica e literalmente, a vitamina S (de Sombra, adoro isso) é a melhor imunização contra o vício da perfeição. Ela é uma dádiva, não do conhecimento científico, mas do bom senso, que anda muito em falta ultimamente, malgrado o excesso de informação que nos intoxica com múltiplas paranóias. A vitamina S é uma dádiva do Feminino profundo e escuro, essa dimensão úmida, viscosa da vida a qual atua em nossa psique para que encarnemos mais e melhor, a grande alquimista que trabalha para transformar conhecimento em experiência. Dá pra imaginar que o vício da perfeição anda higienizando os contos de fadas? Histórias sem vitamina S, sem megeras, órfãos, anões e gigantes, desgraceiras e lobo mau… e as crianças, coitadas, vão sendo impedidas de construir defesas simbólicas contra predadores concretos e crises reais.

Uma combinação equilibrada de liberdade e controle resulta na criação sensata e prazerosa de indivíduos mais resistentes, física e psicologicamente: os tais sujeitos resilientes. É a união dos opostos que traz integridade, a qual, por sinal, não tem nada a ver com a perfeição, nada mesmo. No caso da criação dos filhos, tem de ter principio feminino e princípio masculino dinamizando o tempo todo na relação, exercendo forças polares e cooperativas, afirmando parâmetros opostos, sendo cada qual respeitado e acolhido em seu papel e função de ajudar as crianças e os adolescentes a ancorar neste mundo velho sem porteira. Educação de filho é parceria de energias antagônicas. A exclusão de um dos lados desse jogo mutila nossa alma, fragiliza nosso corpo e nos torna prisioneiros de idealizações que nos impedem de viver de verdade. Assim estou aqui hoje para defender as lombrigas e os ogros que nos ensinam a jogar. Vou aproveitar para pedir às mães e aos pais que tentem, mas não com tanta força, como diziam ao Marvin, personagem do Jerry Lewis em “O bagunceiro arrumadinho”: um cara que, de tão ansioso por organizar, convocava inconscientemente um caos proporcional (e calibrador) ao seu desejo excessivo pela ordem. Tudo é compensação, no mistério cósmico-bioquímico-psicológico que é nossa vida na Terra. “Nada em excesso”, ensina o sábio oráculo de Delfos. Nem limpeza, nem água, nem amor. Nem mesmo a bondade, que tem se manifestado, em nossa cultura, como a hipocrisia fashion da correção política, a mera aparência de bondade para exibir aos outros. Este mundo em que seus filhos terão o privilégio de crescer, se vocês permitirem, é lindo e perigoso, politicamente incorretíssimo, cheio de ameaças e oportunidades, de megeras e fadas, de vitórias e derrotas, de picos e vales. Quanto mais vocês aprenderem a transitar entre as polaridades e ensinarem a eles o jogo dos contrastes, melhor eles se sairão como pessoas inteiras e reais. Isso se vocês não quiserem que eles se juntem à horda de pseudo-pessoas, esses estereótipos mal encarnados que andam sonambulando por aí, afligidos pela sinistra doença que os obriga a sacrificar quem eles verdadeiramente são no altar daquilo que eles que nunca serão. Defendam-se e aos seus filhos do sinistro devorador de almas que é o vício da perfeição. O resto se ajeita. Sério.

P.S. – Recentemente ouvi uma notícia auspiciosa: que o FDA proibiu, nos EUA, a venda do sabonete antibactericia Protex, alegando que seu uso indiscriminado está relacionado com o aumento da resistência de agente patogênicos. Vitamina S nele!

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“Te adorando pelo avesso”

Zeus e Antiope

O deus atravessou a multidão com compostura e segurança dignas do primeiro escalão do Olimpo. Estava cercado por numerosos policiais que o constrangiam tanto quanto o protegiam da sanha do populacho, tomado por um frenesi. Ofensas, gritos, choro e ranger de dentes não pareciam intimidá-lo. Não pude deixar de pensar em Zeus, o grande estuprador e fecundador de mulheres mortais; em Dioniso, o deus da loucura; em Ares, o senhor da guerra, sempre acompanhado de seus leões de chácara Fobo (Medo) e Deimos (Terror). As mulheres compunham a maioria do séquito que aguardava a chegada do deus ao aeroporto. Não pude deixar de pensar que, como “As bacantes”, se os policiais não estivessem lá para contê-las, elas teriam partido para um ritual orgiástico de desmembramento, um “sparagmós” como aquele em que o rei de Tebas, Penteu, foi despedaçado por um grupo de respeitáveis senhoras, cidadãs exemplares, transformadas por Dioniso num bando de loucas selvagens. Três anos foragido, anos e anos passados da violência literal cometida por ele contra aquelas mulheres e elas ainda permanecem imobilizadas no evento, não procuraram psicoterapia (ou se procuraram, a psicoterapia não as ajudou a sair de lá), não conseguiram descer da maca onde ele perpetrou seus crimes, com a boa consciência de um ente sobrenatural que se crê acima do bem e do mal. Iguais às bacantes, elas ouviram o chamado e largaram o que estavam fazendo, seus negócios, sua casa, seus filhos, para responder à  convocação da divindade, tomadas por uma paixão sombria que as expunha e expunha suas famílias num circo de horrores bem ao gosto das feras midiáticas. Histéricas, elas gemiam e choravam ao microfone, alegando que precisavam testemunhar com os próprios olhos a prisão dele, que agora, sim, elas se sentiam verdadeiramente livres, revelando aos berros que ele implantara óvulos delas a torto e a direito, que elas tinham filhos ignotos espalhados por aí e outras barbaridades nelsonrodrigueanas que a gente enterra e esquece, por não haver outro modo de se lidar com elas. O discurso errático delas, porém, revelava bem o contrário do que mostrava a experiência. Desmascarado o criminoso, julgado e condenado, elas estariam livres para retomar a própria vida e se curar de suas feridas. Todavia era como se elas tivessem passado todos esses anos a impedir qualquer a cicatrização, cutucando a casca mal ela se formava, revolvendo a lesão para manter a carne viva, a paixão ativa ainda que pelo avesso, ainda que pelo ódio que, como todos sabemos, está longe de ser o oposto do amor, sendo apenas sua outra face. Já cantava Ellis, nos versos imortais de Aldir Blanc e João Bosco, que “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam…”. Aquele predador merecia de suas vítimas a mais gélida indiferença, uma tal que o lançasse na pocilga abjeta do opróbrio e do esquecimento, um lugar ainda mais frio e cinzento que qualquer cela de presídio. Recebeu, no entanto, uma ardente homenagem de mulheres que deveriam tê-lo assassinado em seus corações mas, ao contrário, acorreram para sacrificar a ele sua intimidade e as de suas famílias. Se, no ato do estupro, elas estavam literalmente anestesiadas, portanto incapazes de reagir, o ritual que protagonizaram em pleno aeroporto serviu para mostrar que continuam inconscientes, muito embora agora elas aparentem estar despertas.

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Conversando com a Ruth Toledo Altschuler, minha terapeuta de florais, ela me iniciou na ideia de “woundology”, um termo traduzido livremente como “feridologia”, isto é, a capacidade que temos de tirar valor de nossas feridas emocionais e de permanecer imobilizados nelas. Ruth me apresentou a Caroline Myss, que foi quem cunhou esse termo. Para Caroline, a cura emocional tem a ver com a necessidade de enxergar “o poder que as feridas têm sobre nós” e “reconhecer a energia que investimos para manter nossas feridas abertas”. Tem uma fala interessante dela no Youtube, no link http://youtu.be/pzVyNoFA9Es

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Nas matilhas lá do ateliê, enquanto lemos nosso clássico “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, noto o frisson que o conto do Barba Azul continua a desencadear e como essa imagem arquetípica do predador psíquico sempre retorna às nossas conversas, ainda que a gente esteja envolvida com outros enredos. A sedução do predador não pode ser subestimada, a menos que a gente queira cair de novo e de novo na teia de Barbas Azuis machos e fêmeas, individuais e coletivos, literais e simbólicos que pululam por aí, procurando pactuar com as vítimas ingênuas, sempre disponíveis. A grande questão é quando somos nós os nossos predadores, e a  “feridologia” parece falar da outra face da vítima, aquela que ama o predador e colabora com ele para sabotar o próprio desenvolvimento.

Madrasta

madrasta


Como lidar com a sombra da Santa Mãezinha? Onde enfiar toda aquela mesquinharia, o desejo de controle, o talento para manipular, o sentimento de posse, a tendência à auto-reparação usando a vida alheia, a perversidade, o autoritarismo, o narcisismo? Na madrasta, ora! Onde a primeira espelhava Nossa Senhora, a virgem-mãe obediente, extremosa e modesta, a madrasta refletia Eva e Lilith, a curiosa e a vadia, a insubmissa e a insaciável, duas fêmeas rebeladas que introduziram o mal no mundo. A imagem da madrasta foi uma verdadeira mão na roda, quando se tratou de expurgar os bichos peçonhentos que se escondiam nos desvãos da alma pura e boa de mamãe querida, com seu avental todo sujo de ovo. A sogra também servia, claro, e continua servindo, mas a madrasta… Que competência para receber projeções obscuras! Os contos de fadas estão repletos delas, sedutoras e loucas, invejosas e ciumentas, vaidosas e cruéis, ambiciosas e arrivistas. As santas mãezinhas morriam cedo, boas demais, frágeis, carentes de libido e de contrastes, se desmilinguindo de tanta luz, indo logo morar no céu, único lugar aonde é possível ostentar tanta pureza desencarnada. Deixavam assim suas filhas e filhos à mercê de pais distraídos, fracos, complacentes, hesitantes, em geral cúmplices por omissão das malvadezas de suas novas esposas, elas mesmas pujantes de saúde. Em todo caso, eles, os pais, também duravam pouco. Vejam os casos da Branca de Neve, de Cinderela e Vassilissa (essa pelo menos recebeu uma bonequinha mágica da mãe agonizante). Se alguns desses pais de contos de fadas não podiam ser culpados pela própria má saúde, outros, como os João e Maria e do Pequeno Polegar, nem mesmo mereciam ser chamados de pais, meros paus mandados que eram, manobrados à vontade pelas megeras a quem serviam, até mesmo contra a vida dos filhos. E havia os pais assumidamente perversos, capazes de suportar os próprios defeitos sem constrangimento, como o rei incestuoso, pai de Pele de Asno. É claro que os contos em versões mais cruas e originais estão repletos de mães ambíguas, bipolares. Mas essas versões foram sendo gradualmente revisadas pelos moralistas de plantão, de modo a garantir a dissociação entre mãe boa e mãe má, a madrasta, num grande desserviço para a consciência humana, individual e coletiva. Vivendo com alguma noção do realismo fantástico nosso de cada dia, não é difícil enxergar a matéria de contos de fadas a reverberar nos jornais, embora também não seja nada fácil. Era uma vez um menino de 11 anos de idade, órfão de mãe. O pai trabalhava como louco, do jeito que devem fazer todos os pais, neste mundo que consagra a produtividade e o consumismo sobre todos os outros valores. O pai do menino, pelo visto, não tinha nem jeito nem tempo para ser pai: conversar com ele, educá-lo, servir-lhe de exemplo, protegê-lo, amá-lo, dar-lhe limites. Por isso, ele se casou de novo, quem sabe pensando em arrumar alguém que fizesse essas coisas por ele. Deu azar. Ou melhor: o menino é que era azarado. Quantas oportunidades nos dá a vida de escolhermos se queremos ou não ter filhos, se temos mesmo vocação para a coisa, se não seria mais honesto e responsável de nossa parte desistir de botar no mundo um ser humano que não temos condições de criar… Quanta dor, quanta loucura, quanta miséria economizaríamos, exercendo esse grão de consciência! Mas o menino já tinha sido posto no mundo. Um estorvo, uma atrapalhação. A nova mulher do pai, jovem e bonita, era uma peste rematada. Chegava ao ponto de deixar o menino para fora de casa enquanto o pai estava ausente (que era quase sempre), sentadinho na calçada. Parecia aquela madrasta do conto de Câmara Cascudo. A da menina que tinha que cuidar da figueira e que foi enterrada porque os passarinhos bicaram alguns figos. O menino também foi enterrado, mas o pai dele nem notou, ao contrário do pai da história de Câmara Cascudo, quando voltou para casa de uma viagem de trabalho e deu por falta da filha. E se tivesse notado, o menino não estaria vivo ao ser desenterrado, como acontece na história. Desculpem: estou me adiantando a esta história. O menino não era bobo. Ele sabia que, se o pai dele não era capaz de cumprir com seus deveres de pai, havia outro Pai mais poderoso, o Rei, que podia obrigá-lo a fazer isso. A avó materna do menino lutava, também junto aos emissários do Rei, para ganhar a guarda do neto, porém era velha e usava um marca-passo. Todo mundo sabe que uma velha com marca-passo não serve para criar um menino. É uma coisa lógica. Nos contos de fadas, porém, muitas vezes a fada-madrinha, que vem em socorro do herói ou da heroína, aparece na forma de uma velha. É claro que também existem as avós desalmadas, como aquela da Cândida Erêndira, do conto de Garcia Marquez (embora a gente acabe por descobrir que a Erêndira tampouco era flor que se cheirasse, mas essa mistura irracional de bem com mal só pode ser coisa de realismo fantástico). O pai e a madrasta nem deixavam o menino ir visitar a avó, porque, todos sabem, não se deve deixar um menino aos cuidados de uma velha cardíaca, é uma irresponsabilidade. Os emissários do Rei, uma gente muito racional, que escreve e fala muito, e muito bem, escutavam as repetidas reclamações do menino e consideravam, ainda que com muitas reservas, os pedidos da avó dele. Em geral, os emissários do Rei estão sempre muito ocupados e preocupados em garantir a ordem lógica da realidade, por meio dos processos e dos seus trâmites burocráticos, enfim tudo aquilo que assegura o cumprimento rigoroso das leis, que levam um tempo imenso para ser aplicadas corretamente. As pessoas podem morrer enquanto esperam que a justiça seja feita. É normal e ninguém deveria se surpreender com isso. Assim os emissários do Rei adiaram a solução em favor daquilo que consideravam “o ideal”: pai, madrasta e menino vivendo felizes para sempre, e mais, quem sabe?, um cachorro para amar o menino de verdade, que era o que ele mais queria. Eles chamaram o pai do menino e conversaram muito racionalmente com ele que, por sua vez, se comprometeu em fazer tudo direitinho. No dia seguinte, ele saiu de casa para trabalhar e o menino ficou para trás, como de costume. E o que fariam vocês, se estivessem no lugar dos emissários do Rei? Entre a família ideal e uma família formada por um menino e sua avó cardíaca, o que vocês, pessoas razoáveis, escolheriam? Foi então que o ideal ergueu uma ponta e, por baixo, escapou uma revoada de bichos viscosos e peçonhentos. Duplamente exposto, pelo pai pessoal e pelo Pai coletivo, o menino foi, enfim, se encontrar com sua mãe lá no céu, aonde vive agora. Acabou-se a história, morreu a Vitória, entrou por uma porta e saiu pela outra. E quem quiser, que conte outra.

P.S. – (Tenho amigas madrastas que desempenham o papel de mães com mais amor, responsabilidade e generosidade do que as próprias. Infelizmente o menino da nossa história não teve a sorte de encontrar uma delas em seu caminho.)

O Outro

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Às vezes nos enganamos. Quase sempre nos enganamos. Certa vez Zeus perdeu as estribeiras com Ate, a deusa do engano. Por causa dela, ele, o supremo senhor dos céus cometeu um equívoco vergonhoso, de consequências olímpicas, tomado que foi por um súbito rompante de vaidade e prepotência. Pra lá de furioso, ele a agarrou pelas tranças e a jogou aqui na Terra, condenando-a a viver entre os mortais. Sobrou para nós, claro. E se Ate enganou o próprio Zeus, que dizer de nós, manezinhos? Ate é uma dessas divindades estranhas, mal adaptadas ao astral do Olimpo, assim como o são Ananke/a Necessidade, Nêmesis /a Vingança, Nix/a Noite, as Erínias e as Moiras, entre outras, quase todas fêmeas. Natural que, numa religião tão patriarcal, o Outro seja encarnado por mulheres. Zeus suporta essas divindades, sombrias e mal adaptadas, no interior de seu cosmos brilhante, limpo e organizado, unicamente porque se pela de medo delas, ciente de que lhe podem puxar o tapete sem cerimônia, a qualquer momento. Faríamos bem se, como Zeus, tivéssemos alguma sabedoria para lidar com o Outro que nos habita e que deseja ser conhecido por nosso Eu consciente, ainda que um minuto antes de nos destruir por completo, em sua revanche final. Confiar na hegemonia da razão sobre a emoção, da razão sobre a imaginação, por exemplo, é o maior de todos os nossos equívocos, o triunfo indubitável de Ate, a imperatriz deste mundo de enganos tomados como desastrosos acertos e venenosas verdades. Humberto Maturana subverte o clichê, quando diz que não é a razão, mas a emoção o elemento que determina nossa natureza. Somos seres emocionais, ele escreve, muito mais e muito antes de sermos seres racionais. A razão é uma conquista jovem demais, no processo de evolução de nosso aparelho neuronal, para se achar o último biscoito do pacote. O neocortex é a camada caçula do nosso cérebro. Imagine então esse sujeito arrogante que, só porque foi para a universidade e fez carreira acadêmica, acha que é melhor do que seus irmãos mais velhos, muito mais experientes e poderosos do que ele. Não contente com isso, o temerário ainda se mete a inferioriza-los, na vã tentativa de subjugá-los. Em geral, a razão se dá malíssimo quando a emoção e a imaginação (que frequentemente a engana com as mais destrambelhadas fantasias) cruzam sua radiante trajetória ascendente, rumo ao sol da explicação absoluta. Como o imaturo e impenitente Ícaro, ela despenca das alturas para mergulhar nas águas escuras da emoção, que a submergem e dissolvem. E apesar de todas as lições da tragédia grega e das misérias cotidianas que o jornal veicula, a razão desmedida nem aprende nem desiste de sua ambição de controle e hegemonia, ficando portanto à mercê dos titãs que acredita ter aprisionado para sempre no Tártaro. Os titãs são o Outro, esse alienígena, esse estrangeiro psíquico que não reconhecemos em nós (somente vemos nos outros) e que deve ser duramente reprimido, se possível extraditado (missão impossível, literal e metaforicamente, caso queiramos continuar a viver). Trabalham emparceiradas, para a supressão do sintoma aflitivo, para a redução da alma reprimida ao sexual, para o enquadramento do desviante ao estatuto normal (seja lá o que isso queira dizer), uma psiquiatria da medicalização e uma psicologia do ego, ambas a patinarem sobre a superfície mais externa e quebradiça da psique. Sua abordagem rasa não se aprofunda na alma porque também é um expediente racional e defensivo do Outro, atuando para favorecer a funcionalidade, a utilidade do sujeito que sofre, para restaurar sua produtividade e sua capacidade de continuar a consumir bens e serviços, o que me parece bastante coerente numa cultura em que só interessam nossas competências de produção e consumo. Entretanto o coração amordaçado estoura, na metáfora sangrenta do enfarto, quando as emoções se cansam de esperar e chutam a porta do calabouço aonde vegetam. O corpo recusado se transforma em pele e ossos, incapaz de enquadrar-se no modelo abstrato de beleza, juventude e vitalidade dos estereótipos do catecismo midiático. De quantas metáforas precisaremos, para escutar, lá nas profundezas de nosso inferno íntimo, os lamentos da alma abandonada e faminta, a nossa, a do mundo, o Outro em nós? Não se pode contar com a medicina do paradigma da razão técnico-científica, unilateral e todo-poderoso, porque ela não acredita em metáforas, por mais que elas se arregacem diante dos olhos de seus representantes. E lamentavelmente, a alma só fala através de metáforas. Mesmo Zeus, o senhor do cosmos, partilhava seu poder com os irmãos Posseidon, o senhor das águas turbulentas da emoção e Hades, o senhor das trevas do mundo inferior, o inconsciente. A ciência médica, a psicologia científica, porém, não partilham nada com ninguém, até porque Ate as convenceu de que já sabem tudo. Penso hoje na pediatra sensata e boa cidadã, mãe de uma família aparentemente harmoniosa, profissional respeitada, vizinha bem quista. Tínhamos a mesma idade: 56 anos. Para onde foi a razão dela, quando o surto se manifestou e essa boa pessoa assassinou, a tiros, o filho e a namorada, para suicidar-se em seguida? Há gente ingênua o bastante para tentar encontrar explicações racionais para esse cataclismo psíquico, que submerge em seu vórtice três seres humanos. Mas se ela era um ego enquadrado e sociável, a sustentar e alternar com eficácia, por anos a fio, suas personas sociais, sua funcionalidade, sua produtividade, sua condição de normalidade… O que aconteceu afinal? Não pretendo buscar entender, tão somente fornecer ao meu leitor mais elementos do que aqueles que costumam nos oferecer os “explicadores” de plantão. De acordo com o discurso midiático, a sombra já vinha dando o ar da sua existência, corroendo e se infiltrando nessa estrutura identitária tão consistente e convincente. Uma depressão, dizem os jornais, ecoando, talvez, as testemunhas. Ela andava meio deprimida, disseram os colegas de trabalho e o marido. Não, ela era não era louca, e isso é o que mais nos perturba, quando deveria nos ensinar alguma lição preciosa sobre como ela era parecida conosco. Ela foi raptada por um arquétipo, o mais poderoso de todos em nossa cultura: a Grande Mãe, aquela que tudo sabe e tudo pode e que, portanto, imagina-se no direito de tirar a vida de quem dela a recebeu e não parece estar aproveitando seu dom da maneira correta, pelo menos aos olhos dela. Não foi a boa pediatra e boa vizinha, nem mesmo a mãe responsável e amorosa quem engendrou e praticou esse crime horrendo, digno de ser recontado e encenado por Ésquilo e Eurípides. A mãe pessoal foi apenas um veículo para uma força transpessoal, carreada pela emoção descompensada e sem continente, pela a imaginação inculta que nos põe paranóicos, a perseguir os fantasmas que nos assombram de dentro, mas que projetamos fora de nós. Sobre esse Outro, é melhor ficar com as ficções que com as racionalizações. Alguns filmes maravilhosos nos esclarecerem por dentro, melhor do que qualquer artigo científico. Em “Clube de Compras Dallas”, o tosco e homofóbico cowboy vivido por Mathew Mc Conaghey precisa descer aos infernos para encontrar a si mesmo e transformar-se naquilo que estava destinado a ser, mas sua educação e a cultura em que vivia o impediam de ser. A AIDS ativou seu daimon, desencadeando uma impressionante jornada rumo à individuação. Em sua relação com o jovem transexual, seu odiado oposto, ele vai, pouco a pouco, integrando esse Outro e ampliando as fronteiras de sua personalidade. O tráfico de medicamentos não autorizados que ele promove, na fronteira dos EUA com o México, é uma imagem modelar de uma identidade que se torna permeável à alteridade, único caminho para uma transformação verdadeira. Em “Philomena”, a parceria bem sucedida dos paradigmas opostos complementares, o da razão e o da alma, aparece lindamente tipificada, na imagem do Tao que formam o jornalista-jovem-cético-intelectualizado-classe média alta e a aposentada-velha-devota-emotiva-classe operária. A jornada de ambos só triunfa porque os dois alternam suas qualidades de acordo com as necessidades e desafios que a aventura lhes impõe. Ao final, oscilando entre razão e emoção, cada um leva em si um pouco do Outro, e se transforma para melhor. No excepcional seriado para TV “True Detective”, da HBO, que acabou esta semana, o  Eu, Marty (Woody Harrelson), é um cara perfeitamente enquadrado nas falácias do american-way-of-life, enquanto o Outro, Rust (de novo, Mathew Mac Conaughey), é o desgarrado cínico, a alma torturada que reconhece e identifica a sombra coletiva terrível, para persegui-la com coragem, mas somente porque conhece a própria sombra. Ambos encaminham uma fabulosa parceria de opostos-complementares, que começa oficial e contrariada e se desenvolve para criativa e emocionada, no sentido da troca profunda e da transformação mútua. Enfim, as metáforas pululam. O Outro retorna e pede passagem, como possibilidade de calibragem e cura do Eu fora de si, mas também como ameaça de sua destruição. Quem tem olhos para ver, que veja.

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Miasma

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Tento estabelecer uma relação de proporção entre o dolorido desconforto com a falta de sentido que me envolve em determinadas circunstâncias da vida, e a dor coletiva, vasta, arrasadora, dilacerante da alma do mundo que acomete as vítimas de um genocídio, por exemplo, quando a falta de sentido atinge o zênite e o mundo inteiro se desconjunta. Não tem termo de comparação, claro. Mesmo assim, o miasma da falta de sentido que empesteia o cotidiano miúdo  não se deixa encobrir por fedores mais concretos como, por exemplo, o do rio Pinheiros em dias de grande calor. Os gregos falavam em miasma quando um membro da polis cometia um crime e permanecia impune, contaminando assim, com seu ato desprezível, toda a comunidade que não havia se engajado na reparação. Aquele algo de podre a que Hamlet se referiu, o miasma era, contudo, apenas o efeito de uma causa que clamava para ser exposta à luz da consciência coletiva. Como efeito, ele se manifestava sobre a comunidade na forma de peste, fome, guerra, loucura, entre outras mensagens politicamente incorretas enviadas pelos deuses que, desgostosos com o absurdo da situação, clamavam por justiça dos homens aos homens. Pensando em termos de miasma, dá para entender a pressa e a eficácia da Alemanha em levar a julgamento e condenar rapidamente os carrascos nazistas em Nuremberg. Dá para entender também o pântano no qual a democracia brasileira, e a latino-americana, com poucas exceções, continua a chafurdar (nosso miasma remonta à colonização), um brejo onde a vaca atolou aparentemente sem remédio e que se manifesta de muitas formas, sem iniciativa de reparação possível fora das manobras eleitoreiras habituais, todas, no fundo, em proveito dos que ocupam o poder. Ou talvez o miasma seja mesmo um subproduto daquela porção incorrigível de nossa sombra individual e coletiva, perpetuamente ocupada em produzir o mal puro e simples, o mal banal, como o chamou Hannah Arendt, já que me lembrei de Nuremberg. Nossa porção que milênios de cristianismo ajudaram apenas a escamotear, mas não a confrontar no tribunal de nossa boa consciência, obnubilada pelas ideologias políticas e religiosas. Nosso gêmeo encruado, o monstrinho que vegeta nos desvãos de nossa natureza e que é diabólico apenas porque se dedica a nos manter rachados ao meio, contra todas as oportunidades de integração que a vida oferece. Ultimamente estamos às voltas com a polarização oposta, tão perversa quanto: a banalidade do bem, em que bandidos e assassinos nadam de braçada num mar de direitos do qual suas vítimas estão impedidas de se aproximar. Claro que lidar com a imagem do miasma pressupõe uma capacidade óbvia de imaginar, coisa que pouquíssima gente sabe fazer hoje em dia, à pouco honrosa exceção dos delirantes patológicos e usuários de drogas alucinógenas. O miasma baixa quando o sentido se ausenta e nada é feito para recuperá-lo. Daí esse desconforto de que eu falava lá em cima. Estou, no momento, tentando reparar as causas de um miasma, ainda que apenas subjetivamente e por escrito. Um miasma de família. Estou, no momento, sob o efeito de um miasma que não posso dissipar porque não estou implicada em suas causas. Fui envolvida por ele inadvertidamente, como acontece quando desempenhamos o papel do inocente capturado no vórtice da loucura alheia, em que o alien é um outro que acreditávamos conhecer e amar. A banalidade do bem ataca quando abrimos nosso coração para a pessoa errada, certos de que nossa generosidade só pode gerar mais generosidade em troca. Ledo engano. Pior é perceber que caímos na armadilha de nosso próprio bom-mocismo, como se Poliana tivesse se aliado a mr. Hyde para armar essa tocaia. O complô do inconsciente, como diria o Rafael Lopez-Pedraza. Quando a loucura está no poder, o amor cumpre pena.

Menos triunfo. Mais sentido.

Deusa Minerva e o Centauro

Vou ter de confessar. A feminista acadêmica me intimidou. Sério. E olhem que eu me considero uma feminista. Apesar do visual familiar (eu também costumava me vestir de preto fechado aos dezesseis anos de idade), da iniciativa amistosa de me cumprimentar, do rosto bonito, o discurso logo me revelou de onde ela vinha e a quem ela servia. Saber disso me deu medo. A gente vê a sombra do outro e recua, é natural. Ver assombra. Ver a sombra do outro assombra ainda mais. E o auditório quase cheio. Na maioria garotas, mas também muitos garotos curiosos, animados. Era quase um milagre aquela moçada implume e baladeira ali sentada, querendo, com o sol brilhando lá fora, debater assuntos de mulheres. Logo percebi que não era recomendável enganchar na sombra espessa que vinha a reboque dela. Acontecesse o que acontecesse, eu tinha de sair de banda. Pensei isso logo que a feminista acadêmica engatou seu discurso, convincente como um AK 105. Era um verbo escorreito, sem fissuras, o verbo sedutor e agressivo dos machos-alfa. Uma fala dura, tão bem articulada quanto expurgada de sentimentos (os positivos, pelo menos). E pujante, esfuziante de citações, ecos de outras falas ainda mais autorizadas que a dela. Uma fala caudalosa, linear e lógica, rigorosamente fiel ao manual do neopatriarcado acadêmico, festonada de palavrões e outras expressões tão imaturas quanto anacrônicas. Muitos dogmas, nenhuma misericórdia, mais um bocado de populismo. Possuída da ilusão da objetividade, ela teceu um discurso assentado sobre pressupostos inquestionáveis, eivado de raciocínios cortantes, laudatório e ecoante de super-patriarcas como Freud e Marx (suprema contradição usar esses dois chauvinistas para referendar valores do feminino). Mais que tudo, era um discurso excludente da diferença, fosse ela representada pelos homens, as mães, as mulheres que gostam de se arrumar, entre outras vítimas sem nenhuma apelação possível. Um frêmito perpassou a plateia quase adolescente. Se vocês querem ser feministas, andem sempre em grupo, e grupo de amigas, porque os amigos homens não são de todo confiáveis. Ser mãe é um horror, não sejam mães, a maternidade é um engodo e uma servidão. Um aspecto de ser dona do própria corpo é que é preciso ser feia, parecer feia, não ceder à beleza como forma de dominação dos homens sobre as mulheres. E por aí foi. Sempre fico fascinada com o impacto que os discursos patriarcais anti-patriarcado continuam a ter sobre os militantes que os emitem e suas plateias transidas. O Grande Pai convence a maior das sabichonas, quando se traveste de Grande Mãe para vociferar palavras de ordem e dispensar veredictos incontestáveis. As meninas foram ficando nervosas e eletrizadas, enquanto eu me dava conta de como a capacidade de camuflagem do modelo patriarcal permanece intacta, muitos milênios passados de sua instauração. Mesmo hoje, alardeados os direitos das mais diversas minorias, o patriarcado 2.0  converte centenas de incautos pelo método certeiro do reducionismo maniqueísta. Parece fino, mas é tosco. Parece sofisticado, mas é genérico. Mudando um pouco as palavras aqui e ali, trata-se de um discurso adaptável a qualquer extremismo ideológico, seja ele religioso, social, político, mercadológico (embora, ao fim e ao fundo, tudo, neste mundo, termine por se revelar mercadológico). A tática por excelência, magistral, do patriarcado continua a ser sua formidável capacidade de infiltração, adaptaçãoe cooptação no interior dos movimentos que o combatem armados unicamente de uma racionalidade tão arrogante quando ingênua, que subestima o vasto poder da sombra coletiva. Mas então uma coisa aconteceu. Primeiro a feminista acadêmica teve de ir embora. No vácuo de discurso que ela deixou atrás de si, alguns meninos protestaram timidamente contra o julgamento que os transformou em ameaça latente às amigas. Encorajadas, algumas meninas contestaram com suavidade, evocando valores significativos para elas. Pequenas vozes discordantes se fizeram ouvir e me pareceram firmes, embora jovens, muito jovens. Sobrou para mim, no final, falar de outro modo de relação que não o da dominação de uma metade da humanidade pela outra, como diriam a Riane Eisler e o Umberto Maturana. Da superação da lutas de classes e de gêneros, porque a luta tão somente se alimenta de si mesma e tem sede de matar e morrer. De um encaminhamento que não pressuponha a erradição da diferença para chegar à síntese pela lobotomia. De uma negociação que reconheça o valor da diferença. Da beleza e da força da diferença. A identidade quer o poder e o poder pressupõe a instauração de uma hierarquia, esse constructo patriarcal em que alguns dominam e muitos são dominados. A diferença quer apenas que sua força seja reconhecida e respeitada pelo que é. Não me parece que seja pedir muito. A superação necessária desse feminismo feroz, que reafirma o patriarcado pelo avesso, talvez nos chegue por meio de um pacto da alma individual com a alma do mundo. A reparação de nossa condição feminina ferida virá na medida em que nos engajarmos com a reparação da Terra, da natureza espoliada, da cultura degradada pelo mercado e pelo consumo, da condição humana ferida em sua integridade pela fúria destruidora do patriarcado, também em seu aspecto de demolidora hiperracionalidade. Nesse sentido, acredito num feminismo em que mulheres e homens coloquem sua força a serviço da alma, uma força amorosa e coesiva, que busca o sentido e não o triunfo.

Bipolar 1

Bipolares somos todos, vamos combinar. Quer um exemplo que emudece os contra-argumentos? Dois hemisférios cerebrais, lobo esquerdo e direito, com funções e atributos opostos-complementares e um corpo caloso instalado entre ambos, fazendo as mediações para que a gente funcione como a totalidade dual que de fato somos, melhor ainda: uma unidade múltipla (a unitas multiplex, de Edgar Morin). Ninguém ensina isso na escola, claro, a menos que você faça algum curso que tenha anatomia entre as disciplinas, mas daí que seu aprendizado ficará limitado pelo reducionismo científico, que se contenta em escarafunchar o hardware. É muito pouco. Quase nada. A igreja ensina o contrário disso: afirme um lado, renegue o outro e vá para o céu (a metade renegada, claro, segue direto para o inferno). As mídias em geral apenas usam essa complexidade para nos condicionar a escolher certos produtos na gôndola. Mas o fato é que somos bipolares por natureza e isso é ótimo, ou deveria ser. Às vezes, porém, travamos num polo, por exemplo, o da euforia, que está super na moda. Na nossa cultura de aparência, ninguém quer deprimir. É preciso parecer sociável-animado-produtivo-jovial-inspirado 100% do tempo. Tanta mania, contudo, se não receber o tempero calibrador de uma saudável depressão, pode evoluir num crescente, até se tornar compulsão: pelo prazer, a boa forma, a assertividade (que palavra mais babaca!), o sucesso, o poder, a inspiração… Ninguém quer ser looser, muito embora todo mundo o seja, de algum modo, em alguma dimensão da vida, mesmo que a mais secreta. Com o botão do ego “encantado”  na posição EUFORIA,  uma vasta sombra expande-se às nossas costas, um subproduto do brilho da imagem que esse ego quer projetar  no mundo. Desse modo, a DISFORIA, tão necessária para nos moderar em meio à complexa experiência de viver, é pretensamente descartada por esse ego que se quer triunfante em tempo integral. Ao negar uma das metades de nossa integridade psíquica inata, contudo, ele a transforma, inadvertidamente, numa célula terrorista. Sem possibilidade de alternar mania e depressão, de combinar uma e outra, de fluir ao sabor das modulações de um corpo caloso eficiente e eficaz, a depressão sombria subjuga esse ego que não sabe desacelerar, que é incapaz de introverter, refletir, escutar, entristecer, regredir, devanear, entregar-se. Seco, defensivo e impermeável como é, ele terá de submergir e, muitas vezes, até mesmo de se dissolver na diferença, antes de encontrar outra forma para si. Uma espécie de colateral ou fogo amigo, como diriam os senhores da guerra.O polo reprimido arrebentou a comporta precária que separava dois estados emocionais indissociáveis, conquanto diversos. Inundados por uma depressão que é, essa sim, doentia, costumamos responsabilizar os outros por um processo psíquico que deveria ser vivido como nosso, pois se trata, ao fim e ao fundo, de um acerto de contas, amargo porque indefinidamente adiado, do jogador  mantido à margem do jogo por aquele que deveria ter agido como seu parceiro. Por outro lado, há também os que parecem transitar com mais desenvoltura entre os polos, ou melhor ainda, os que conseguem, não sem grande esforço, promover encontros, debates, colóquios e, sempre que possível, apaixonadas cópulas entre parâmetros que, além de competitivos, são também cooperativos. Na opinião auto-complacente do nosso eguinho se-achão, tendemos a acreditar que pertencemos, todos, à segunda categoria. Ledo engano. O tempo e a experiência nos trarão, se o permitirmos, a consciência de que não pertencemos. Mas de que também pertencemos. No contexto da nossa cultura dualista e heróica, temerosa e excludente da diferença, a competência para transitar, com elegância e flexibilidade, entre os opostos é um desafio nada básico, que exige a prática diária da alteridade, ou seja, da integração daquilo que, por natureza, não somos. Criativo, disse Jung, mas criativo de verdade, é o homem cuja consciência se faz permeável ao inconsciente, e não o diretor de arte da agência de publicidade cuja campanha de salgadinhos ganhou o último festival de Cannes.

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