Dalila

Samson and Delilah 16

Minha mãe, profetisa incidental que era, resolveu me chamar de Dalila num certo período da minha vida. A intenção era a pior possível: me aproximar, por apóstata que eu era, da gói traiçoeira e malévola que desviou o santinho Sansão do caminho do Senhor, tosou rente sua cabeleira de filhinho da mamãe (ou do Papai, como preferirem) e acabou metendo o sujeito numa enrascada fatal para a escalada heróica que o pessoal lá do templo tinha projetado para ele. Sendo mamãe uma batista empedernida, chamar a filha de Dalila deveria soar a esta como ofensa, mas não. Quando me chamava de Dalila, minha mãe, sem saber, me atribuía uma força que ela mesma não possuía, contudo tenho certeza de que, inconscientemente, pretendia que eu encontrasse dentro de mim. Nunca me senti constrangida ou ameaçada por essa comparação, nunca mesmo, apesar de ter sido educada pelo mesmo imaginário no qual ela mesma havia sido educada. Talvez porque eu intuísse que “ser Dalila” tinha um significado mais profundo que aparentava o discurso lógico. Hoje compreendo que Dalila é uma metáfora e metáforas podem nos tirar da frigideira quente dos eventos e da dimensão pessoal e nos deslocar a um lugar mais arejado, com mais, digamos, perspectiva. Seria como me xingar de “filha de Eva” se ela fosse uma católica carola, fato aliás do qual muito me orgulho. Afinal nossa tão caluniada mãe mitológica, depois de ter sido talhada para a submissão e a inferioridade, ousou perverter a regra do jogo e dar início à História humana, libertando a si mesma, a Adão e a toda a criação dos limites estreitos jardim zoo-antropológico do Éden e lançando-os no campo do tempo e do espaço, para que a narrativa pudesse, enfim, começar. Como Eva, Dalila foi a iniciadora do masculino no campo da experiência, da qual Sansão, superprotegido e enquadrado demais na tradição, estava alijado, por interesses alheios a sua vontade. Isso sem levar em conta que ela estava defendendo seu povo, sua cultura e sua religião quando seduziu aquele homem feito que ainda ostentava os cachinhos da infância como símbolo de uma força que não provinha de dentro dele, mas era-lhe dada de fora, sob condições estritas. Quando eu era menina e, na igreja, me contavam a história de Sansão e Dalila, era de um ponto de vista literal, maniqueísta e tendencioso, que naturalmente fazia todo o mal recair sobre Dalila. Então eu odiava Dalila por ela ter “feito mal” a Sansão (olhem só a invertida do modelo!). Contudo, e como escreveu o apóstolo, quando eu era menina, pensava como menina. Agora que sou adulta, deixei de pensar como menina e de me deixar aprisionar por discursos dualistas, pendam eles para o lado que penderem. Depois de Jung, Hillman, Pedrazza e Thomas Moore, Dalila se tornou uma das minhas imagens favoritas de Anima. O ritual que ela protagoniza, da tosquia dos cabelos da criança que ainda persistem na cabeça de um macho adulto, é uma das cenas mitológicas mais lindas e significativas da relação homem-mulher, uma cena de iniciação do masculino pelo feminino, manipulada, adulterada e pervertida, ao longo dos milênios, pelos exegetas (quase todos homens) que se pelam de medo de feminino. A história infantil (a qual, porque não pode ser mito, fica retida no âmbito de versão oficial e literal) estilhaçou-se em milhares de caquinhos e eu pude compreender, enfim, porque ser chamada de Dalila por minha mãe nunca me ofendeu nem sensibilizou. Para dizer a verdade, eu adorava. E hoje descobri a razão.

Iniciações

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Limiares são horizontes de possibilidades que podem se transformar em pântanos de estagnação. Em nossa vida, sempre que os limiares se apresentam, é porque o significado prescreveu. Você olha para baixo, coisa rara numa época em que todo mundo só quer olhar para cima. Você enxerga a soleira e, depois dela, o vazio. Do outro lado tem alguma coisa, mas ainda não dá pra ver direito o que é. Você tem de ir lá para conferir. Então você fica sabendo que alguma coisa que você conhece e ama terá de morrer para que alguma coisa que você não sabe o que é possa nascer. Portanto, para cruzar a soleira, você terá de dar alguma coisa em troca, de abandonar um fardo valioso do lado de cá. Porque implica o sacrifício consciente de algo que lhe é caro, embora esteja vencido, nada infunde mais terror ao ego do que um limiar. Essa é a razão pela qual limiares pedem iniciações, isto é, ritos de passagem nos quais a dimensão simbólica socorre a dimensão cotidiana e tributável com recursos que são não racionais, posto que o cagaço de mudar é coisa da ordem do irracional, com os neurônios dos intestinos travando os do cérebro. Afinal todos os limiares evocam o primeiro e o último, o nascimento e a morte, daí o pânico que eles instauram em nosso eguinho metido a demiurgo. “Como assim, vou agora ter de dissolver o que me deu tanto trabalho para coagular? Vou deixar esse lugar quentinho e me meter nesse buraco estreito? A troco?”

rito homens e mulheres

A lagarta morre para que nasça a borboleta. A noiva mata a moça solteira, livre e desobrigada. O noivo mata o garoto para dar lugar ao homem responsável. O formando mata o estudante e diz olá ao profissional. “Dissolve e coagula”, determina o Urobóros alquímico, o grande inconsciente iniciador do ego, a serpente que engole o próprio rabo e é imagem reitora dos nossos ciclos de vida, morte e renascimento. Para dissolver sem se aniquilar e coagular sem se deformar, precisamos dos velhos da tribo, das mães e pais do coletivo, que já viram tudo, já viveram tudo e podem nos ensinar a passar. Cadê eles, por falar nisso? Hoje em dia, de modo geral, estão eles mesmos apegados a formas esgotadas, o provedor, a mãe nutridora, o garanhão, a mocinha de cabelos longos e calça agarrada. Egos que não se dissolvem para se coagular em novas formas tendem a trincar mais adiante, provavelmente no próximo limiar. Empedrar é o que acontece com tudo o que enrijece em demasia, perde a flexibilidade, a permeabilidade, se torna estéril. Portanto a escolha que o limiar propõe ao postulante é simples: deixar morrer uma parte de si ou ficar petrificado na soleira, um gárgula de catedral gótica. Deixar morrer ou virar zumbi, o morto-vivo da tradição vodu haitiana, manipulado pela vontade do alheio. Acordar ou virar sonâmbulo, o que dorme a própria vida, embora aparente estar acordado, funcionando no piloto automático. Verter um pouco do próprio sangue ou virar vampiro, o morto-vivo que se nutre da energia alheia.

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Segundo limiar importante, depois de nascer: sair da infância para a adolescência, matando o amor irrestrito por quem nos pôs no mundo, ver as bundas do pai e da mãe expostas na janela. Abandonar sem volta os brinquedos e jogos de outrora, como escreveu o imperador Adriano para sua Pequena Alma Terna Flutuante. Nunca vou me esquecer da angústia que senti no dia em que peguei minhas bonecas e não sabia mais o que fazer com elas. Algo em mim morreu e eu carreguei aquele luto comigo por muito tempo. É preciso ter um lado de fera selvagem, uma parte com o demo para encarar que o paraíso inventado da infância chegou ao fim. Passamos então para a adolescência, que é um limiar do começo ao fim, paradoxo sem recreio de coerência, dor demais, prazer demais, a razão cardíaca dos incompletos, um peito que cresce e outro que teima em permanecer liso sob a blusa do uniforme, um dissolve-e-coagula a cada 45 minutos.

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Nossa experiência do ridículo atroz da adolescência será compensada por um narcisismo pontual e necessário: na verdade, somos belos e imortais, os filhos de um deus que foram sequestrados e abandonados por uma bruxa na soleira de uma casa suburbana, habitada por dois idiotas. Passaremos anos retraídos e paranóicos, expostos ao olhar dos outros, que parece escarnecer de nós o tempo todo. Passaremos anos amotinados contra toda e qualquer autoridade, provocando o instituído em busca de seu reconhecimento, de um vínculo significativo com ele. Não sabemos disso, então quase todos passamos a vida recusando-nos a aceitar que o que queremos é nos tornar, de instituinte em instituído, se possível, sem perder a alma na transição. Porque no final, tudo tende à compensação. E se ela for vivida inconscientemente, como destino, dizia Jung, tenderemos ao ciclo Revolução Francesa-Reinado do Terror-Império Napoleônico repetido ao infinito.

solve et coagula

A soleira é o território aonde passamos a adolescência. Nem fora nem dentro, aliens vorazes que de repente saltaram de dentro da barriguinha fofa das crianças que fomos um dia, ou que as fotos no álbum nos garantem que fomos um dia (coisa de que duvidamos muito). Fundamentalistas, radicais, kamikazes, amotinados por natureza e função, os adolescentes são sujeitos-bomba que eclodirão, dando a luz a adultos mais ou menos interessantes, mais ou menos comprometidos com as provações da idade adulta. Ou não. Muitos estão fadados a persistir na condição de sujeitos-bomba encalacrados, coagulados numa forma vencida, ovos gorados, granadas ou minas falhadas a exibir sua aparência ameaçadora ou amorfa como qualidade definitiva. Esses, identificados com a rebelião, não encontram forças para cruzar o limiar que os levaria da adolescência à idade adulta, à ancoragem e à aceitação dos próprios limites, dos limites da realidade e a uma certa serenidade que nos permite criar depois de destruir. A revolução precisa da reação para calibrar-se. O caos precisa de cosmos. Dioniso precisa de Saturno e Shiva precisa de Vishnu e Brahma. A menos que atravessem a soleira, sacrificando seus extremismos narcísicos à adaptação, aprendendo a combinar tradição com ruptura, os adolescentes permanecerão congelados no limiar da vida adulta aos 30, 40, 50, 60 anos, e morrerão adolescentes sem ter experimentado o horizonte de possibilidades que pedia um sacrifício para descortinar-se.  Os sacrifícios literais apenas dramatizam o sacrifício genuíno, efetivo: algo em nós deve morrer para que algo em nós possa nascer.

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Numa cultura como a nossa, sem rituais de passagem e iniciação significativos, leviana, tola, arrogante e superficial, negadora do negativo da morte, em que o sagrado está degradado em reles comércio com o Eterno ou reduzido à ostentação, muitos permanecem paralisados nos limiares. As pessoas não iniciadas são trágicas e melancólicas como os heróis transformados em estátuas, a enfeitar o jardim da mansão de Medusa. A ação congelada no gesto que perdeu o sentido está coberta de musgo e raiada de fissuras. Eles são o ovo indês de que falava minha mãe, abandonado no ninho para enganar a galinha, são o piruá que resta no fundo da panela, queimado e imprestável. Seus potenciais profundos não se atualizaram, ainda que esses indivíduos tenham tirado diplomas, exercido profissões, cursado MBAs e ganho muito dinheiro, casado e tido filhos, sido presidentes de empresas e países. Deram conta da persona, mas sequer tangenciaram a própria essência. Estão congelados naquele limiar. Não foram capazes de enfrentar a morte cruzando a soleira que levaria à transformação. A intensa atividade exterior trai a imobilidade interna, a wasteland subjetiva que não pode prescindir de drogas lícitas ou ilícitas, de religiões e ideologias imbecilizantes para ser suportada, com mais sorte na próxima encarnação.

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Zumbis, sonâmbulos, vampiros, pode escolher. Talvez por essa razão, porque veem isso tudo e não sabem o que fazer para escapar do padrão do “cadáver adiado que procria”, by Fernando Pessoa, os jovens busquem experiências de iniciação literal, ritos de sangue e violência e conflito real com o instituído. A nostalgia da iniciação, contudo, é inconsciente, eis aí o fator trágico de todo herói, de Édipo a Julian Assange. Por isso, porque não sabe passar de herói a cidadão, não consegue refluir ao seu limite, descompensado que é, esse tipo tende à destruição, a própria e a do outro. Dos que se juntam às hostes do EI aos que têm saído, nos último dias, às ruas de São Paulo, desafiando a polícia e buscando, no confronto, uma experiência de estar vivo, de fazer alguma diferença na multidão dos manés na qual correm os risco de se dissolver destrutivamente. Querem cruzar o limiar para a idade adulta e encontrar-se com seu daimon, com sua comunidade de destino, todavia não sabem como fazer. Na falta de iniciadores sábios e experientes, deixam-se manipular por outros adolescentes empedernidos, viciosos, estagnados há mais tempo na transição para a vida adulta. Para nós, que testemunhamos de fora, eles podem aparecer encapuzados, portando armas letais e executando prisioneiros, como reis assírios de bem antes de cristo. Ou simplesmente ensanguentados, surrados pela PM em nome dos eternos 30 centavos, heroicamente expostos na Internet em fotos tiradas na avenida Paulista e adjacências. “Eis aqui meu sacrifício. Estou apto. Sou digno (Mas não sei bem do quê)”, eu os escuto clamar, os sem mito, os que procuram a iniciação pelo sangue e a violência, os que buscam no agressor anônimo da PM o iniciador de cuja ausência se ressentem, os órfãos de rituais significativos. As análises de rés do chão os classificarão de vítimas ou algozes, direita ou esquerda, Império ou República e blá blá blá… É pena. E sinceramente me dá muita preguiça.

EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 2: O ELOGIO DA DIFERENÇA

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Sobre as reduções e os julgamentos sumários a que ML tem sido submetido pela variedade de ativismos agressivos, ressentidos e mal-informados que assolam o país e a época (muito semelhante à do FEBEAPÁ de Stanislau Ponte Preta), sugiro adotarmos, com o fito de defender quem, por excepcional, por si só deveria prescindir de defesa, um referencial teórico à altura da complexidade da obra desse destemido gigante sobrancelhudo. A teoria geral do imaginário, de Gilbert Durand, é o melhor referencial que conheço, por ser, mais que uma teoria, uma gnose, isto é, um saber orgânico, vinculado à experiência, do tipo que não visa esterilizar seu objeto mas, ao contrário, revelar o sujeito por trás dele, numinoso a ponto de despertar a paixão investigativa. A contribuição mais rica que os livros de ML fazem à cultura, especialmente a atual cultura brasileira de massa, aguada, vulgar e desnutrida, é, a meu ver e, na esteira dessa teoria, a ênfase no dinamismo dos contrários, na “coincidentia oppositorum” entre os regimes do imaginário heróico e místico, enraizados no pensamento seminal de C.G. Jung. Na construção de seu universo simbólico, ML investe nas imagens de opostos que se complementam e cooperam entre si, porém frequentemente também antagonizam, concorrem e se alternam, enriquecendo as narrativas com a qualidade que Morin denomina “complexidade”, grosso modo, a condição que prevê que os contrários precisam apaixonar-se e não destruir-se mutuamente, em que a  diferença é percebida como contribuição e não como ameaça à identidade. Assim Pedrinho e Tio Barnabé formam, juntos, um lindo dinamismo puer-sênex que se desdobra em outros, igualmente ricos, por exemplo, modernidade-tradição, consciência-Inconsciente (no sentido junguiano dos dois termos), entre outros pares de polaridades possíveis. O menino branco da cidade será iniciado pelo preto velho do campo em saberes que sua escola não lhe ensinou porque sequer suspeita que existam, enquanto finge desprezá-los. ML, conquanto seja um homem de seu tempo, deixa claro que o conhecimento de tio Barnabé emana de uma fonte bem mais antiga e venerável do que a que nutre os saberes superficiais e recentes que a escola promove. Tio Barnabé contribui assim para a formação integral de Pedrinho quando lhe ensina sobre os mistérios do natureza (não a que a ciência pretende esquadrinhar, mas uma outra Natureza, inapreensível aos métodos de investigação da ciência). O primeiro conhece o Outro Lado, os mistérios da floresta e os fantasmas da noite, as forças ocultas que podem dissolver o ego arrogante que investiga inadvertidamente, sem render reverência ao que é mais profundo e infinitamente maior do que ele. Em “O Saci”, para mim a obra-prima da série do Picapau Amarelo, o ego em formação encarnado em Pedrinho, o menino civilizado que se sente superior naquele mundo da roça, é colocado à prova pelo Inconsciente e quase soçobra. Isso só não acontece porque há um par de iniciadores se alternando para acompanhá-lo em seu rito de passagem: um, humano, tio Barnabé e o outro, sobrenatural, o Saci. Os afrodescendentes com inteligência e sensibilidade para perceber o valor e as ressonâncias dessa narrativa se sentirão honrados e lisonjeados com a deferência de ML à Grande Mãe África, a casa original de nossa espécie. Já dona Coisa e sua trupe de não leitores se sentirão humilhados e ofendidos pelo que ouviram dizer de outros desinformados que os precederam no telefone sem fio. Como não se comover com a delicadeza e o senso de humor com que Lobato trama a bela e consistente relação de amizade entre o menino do dia e da cidade e o ente da noite e da floresta, uma relação marcada pela horizontalidade que ao mesmo tempo deixa entrever a sapiência do Saci mentor e a inocência de Pedrinho discípulo.

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Outro dinamismo que ML elabora com encantadora precisão é o que se dá entre Dona Benta e Tia Nastácia e que, para o sujeito desavisado e raso, parecerá desvantajoso para a segunda. Novamente os opostos se alternam e se complementam na relação entre as personagens das duas velhas que dividem a regência do mundo do Pica-pau Amarelo. Uma, a avó branca, heróica, cientificista, positivista, metida a erudita, um poço de conhecimento enciclopédico. Outra, a avó negra, mística e nutridora, acolhedora, a poderosa feiticeira que dá vida e inteligência a um sabugo de milho e uma boneca de pano (seria a má-criação da Emília para com Tia Nastácia típica da relação mãe-e-filha?). No ótimo “O Minotauro”, dona Benta se hospeda na casa de Péricles, em Atenas e lá fica, a tietar filósofos e personalidades da época, alinhada com o patriarcado helênico em toda a sua pujança. Já Tia Nastácia é raptada para o mundo da Deusa, Creta, a fonte feminina e mística que nutriu os esplendores da civilização grega. Lá ela permanece como hóspede do Minotauro, retida no labirinto, temendo por sua vida. Enquanto dona Benta coleciona passivamente deslumbramentos, tia Nastácia vive a aventura dos picapaus na Grécia Antiga e termina resolvendo, na base do imaginário místico, sua questão de vida ou morte com o monstro. Uma cozinha instalada no labirinto, alguns ingredientes e a lembrança do povo do sítio, que ela crê que não tornará a encontrar, a estimulam a fritar os bolinhos pelos quais o Minotauro se apaixona e com os quais se empanturra a ponto de ficar obeso e sequer esboçar ameaça contra os meninos que vem salvar sua querida avó negra. Quem não leu, não sabe que, enquanto dona Benta conta a História do Mundo para as Crianças, tia Nastácia narra as Histórias de Tia Nastácia, um compêndio de contos tradicionais e de fadas, lendas e fábulas de culturas e épocas diversas, complementando-se assim os saberes, os sistemas, as abordagens, os imaginários. De novo, um afrodescentente leitor de Lobato saberá enxergar onde brilha o ouro de sua alquimia imaginativa. Quanto ao não leitor, seja qual for sua etnia, só posso sugerir que o leia antes de, tola e precipitadamente, julgá-lo culpado de racismo. Enfim os exemplos desse dinamismo em ML são tantos, tão ricos e eloquentes, que muitas teses acadêmicas não deram conta de elucidá-los em quase um século. Isso porque ML é, muito mais do que um clássico infanto-juvenil, um escritor-iniciador. Só reitero aqui que, agora mais do que nunca, é preciso ler e reler ML, ler para apaixonar-se por esse demiurgo e seu mundo, reler para defendê-lo da choldra que o enxovalha. Neste momento lamentável de nossa História, em que ML tem sido caluniado e condenado por crimes que não cometeu, é preciso contar furiosamente suas historias para as crianças (e para nós mesmos, que lemos para elas), falar dele, de suas contradições, de seus projetos bem mais futuristas que os projetos da inteligentsia modernista, de sua genialidade, de seu amor pelo Brasil, um sentimento que seus detratores parecem desconhecer, quando incendeiam polêmicas equivocadas ao invés de defenderem a cultura brasileira das saúvas que de fato a parasitam e devoram. Mais Monteiro Lobato e menos baboseira, por amor da infância brasileira. Pronto. Inventei um slogan.

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio