Salve, limbo

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“Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto do paz”. Meu hino pátrio favorito, o “à bandeira”. Lindo. Canto sempre e sempre me emociono com o refrão deslumbrante: “Recebe o afeto que se encerra em nosso peito juvenil, / Querido símbolo da terra,/ Da amada terra do Brasil”. Aprendi esse e todos os outros hinos pátrios na escola, nas aulas de canto orfeônico da temível dona Rita, autora do hino do nosso altaneiro Instituto de Educação Estadual, devidamente sucateado pela dura e mais tarde também avacalhado pela mole, a nossa democracia meia-boca de direitos sem deveres. Dona Rita não admitia conversinhas nem risadinhas muito menos desafinos, ai que saudade que eu tenho de um tempo em que a educação era instrução (a primeira a gente recebia em casa) e era de verdade e quase todos nós tínhamos de resolver sozinhos, desde os 7 anos de idade, a maior parte dos enigmas que a escola nos propunha. Como sofríamos e como nos tornávamos resilientes! Quando olho hoje para esses pobres e ricos coitados (cada um prisioneiro do seu inferninho de classe particular), quase todos impedidos de receberem uma forma, uma “formação” por parte de pais-bananas, mães-tarântulas, professores deformados e deformantes, instituições cínicas, covardes e lenientes,  quando olho para esses tristes escravinhos dos sonhos de pais infantilóides, zumbizados desde bebês por Ipads e IPhones, teleguiados pelo marketing, precocemente sexualizados tanto quanto retidos talvez para sempre na infância dos sentimentos e da imaginação não cultivados… Peitos juvenis que não encerram outros afetos ou sonhos que não o mais recente lançamento da Nike ou o novo videogame do Assassin’s Creed. Os sem símbolo. Os sem pátria. Os que não aprenderam a amar o Brasil porque nem seus pais sabem como fazê-lo, e ninguém ensina o que nunca aprendeu. Quando olho para esses melancólicos menininhos e menininhas descompensados, sem continente, sem limites, condenados a uma liberdade que não pediram e que não têm recursos para administrar, aditivados a torto e a direito com ritalina ou cola de sapateiro, tanto faz, sim, confesso que sinto vontade de rezar para dona Rita, aonde quer que ela esteja agora, regendo anjos, talvez, uma professora que amava o que fazia e que fazia bem feito o que sabia muito bem fazer. E suplicar, de joelhos: Dona Rita, rogai por nós.

P.S. – Neste espaço inferior do post, eu tinha escrito um trecho sobre a última eleição, decidida pelos indecisos. Retirei porque estamos vivendo tempos realmente cinzentos neste país, como bem disse a Adelia Prado outro dia, em entrevista ao programa Roda Viva. Quando opiniões divergentes da corrente dominante são enxovalhadas mais do que discutidas, melhor a gente se recolher às receitas, como faziam os jornais dos tempos da ditadura militar. Viver no limbo, de metáforas, pode ser uma medida de sobrevivência.