Ode à vitamina S

Gosto muito de deixar minha imaginação pendular entre os opostos de que este mundo e nós mesmos somos feitos. Opostos que se encaixam e calibram mutuamente, que se estranham e se apaixonam, que antagonizam e colaboram em parceria, que podem até se destruir mutuamente, mas que não sobreviverão um sem o outro. Yang e Yin, côncavo e convexo, luz e trevas, bem e mal, essas coisas, enfim, de que os barrocos baianos e os metafísicos ingleses souberam falar como ninguém. Paradoxos. Oxímoros. O Feminino e o Masculino, por exemplo. Um quer o presente, o corpo em relação com o mundo, a experiência, a encarnação. O outro quer o projeto, o controle e a abstração espiritual e racional que sustentam as fantasias lógicas de um futuro. Só nascemos porque mamãe e papai entraram no jogo dos contrastes, os opostos de uniram e… bem vindo ao jogo você também! Refletindo sobre as pessoas que passam tempo demais a excluir uma polaridade para a afirmar a outra, me veio um insight: de todos os vícios que a gente inventou para dar conta dos perrengues de viver, o pior é o vício da perfeição. Primeiro porque ele quer negar o jogo. Segundo porque todos os outros vícios derivam dele, ou do desejo doentio que o instaura. Um mundo sem dor nem sofrimento, sem mal e pecado, sem ansiedade ou solidão, sem germes nem bactérias, sem preconceito ou pós-conceito, sem acne, celulite e peitos caídos, sem fracassos nem perdas, sem corruptos e bandidos espelha a expectativa irreal e paralisante de uma multidão de seres humanos que, incapazes de jogar com os contrastes, usam qualquer aditivo à mão para afirmar um polo e negar o outro. Tabaco, fármacos, religiões fundamentalistas, ideologias sectárias, treino físico compulsivo-obsessivo, birita, junkie food, ortorexia, drogas legais e ilegais, redes sociais e outras porcarias naturais e sintéticas pretendem – e por mais ou menos tempo, até conseguem – aliviar a aflitiva sensação de que somos filhos vulneráveis dessa mãe louca que nos joga de um lado para outro, chamada Vida. Corta.

No mundo de onde eu venho, a vitamina S era muito usada para melhorar a resposta imunológica das crianças aos invasores naturais, tão indesejáveis quanto inevitáveis. Quer dizer: não que muita gente soubesse disso objetivamente, mas havia uma forte intuição da necessidade dessa interação, até porque a tecnologia médica não era esse deus supremo que é hoje em dia. S é de “sujeira”, para quem desconhece o termo científico. Nossos pais não tinham noção do bem que estavam fazendo, quando se recusavam a desinfetar obsessivamente nossos brinquedos ou quando nos deixavam brincar com nosso grande mestre, o mundo, sem grandes frescuras. Já adulta, um conhecido meu, infectologista, me contou que as lombrigas que tive na infância foram grandes aliadas da minha resistência a gripes e resfriados. Segundo ele, elas ensinaram meu corpo a lidar com agentes patogênicos bem mais punks, como bactérias e vírus. Agradeço sempre às lombrigas que ajudaram a fazer de mim quem eu sou. Ah! O mundo real! Que grande companheiro ele pode ser, quando a gente não tenta inutilmente esterilizá-lo com litros de álcool gel e antibióticos perigosamente desnecessários! A terra e a areia, os pelos dos gatos e cachorros, o ranho e a baba dos amiguinhos com quem trocamos peças de Lego, os biscoitos com meleca e os crocantes tatus-bola que degustamos, num piscar daqueles olhos vigilantes, todas as porcarias invisíveis do chão aonde precisamos engatinhar livremente, a fim de virarmos bípedes competentes! Que beleza é a sujeira, quando ela intervém para moderar a limpeza descompensada! Metafórica e literalmente, a vitamina S (de Sombra, adoro isso) é a melhor imunização contra o vício da perfeição. Ela é uma dádiva, não do conhecimento científico, mas do bom senso, que anda muito em falta ultimamente, malgrado o excesso de informação que nos intoxica com múltiplas paranóias. A vitamina S é uma dádiva do Feminino profundo e escuro, essa dimensão úmida, viscosa da vida a qual atua em nossa psique para que encarnemos mais e melhor, a grande alquimista que trabalha para transformar conhecimento em experiência. Dá pra imaginar que o vício da perfeição anda higienizando os contos de fadas? Histórias sem vitamina S, sem megeras, órfãos, anões e gigantes, desgraceiras e lobo mau… e as crianças, coitadas, vão sendo impedidas de construir defesas simbólicas contra predadores concretos e crises reais.

Uma combinação equilibrada de liberdade e controle resulta na criação sensata e prazerosa de indivíduos mais resistentes, física e psicologicamente: os tais sujeitos resilientes. É a união dos opostos que traz integridade, a qual, por sinal, não tem nada a ver com a perfeição, nada mesmo. No caso da criação dos filhos, tem de ter principio feminino e princípio masculino dinamizando o tempo todo na relação, exercendo forças polares e cooperativas, afirmando parâmetros opostos, sendo cada qual respeitado e acolhido em seu papel e função de ajudar as crianças e os adolescentes a ancorar neste mundo velho sem porteira. Educação de filho é parceria de energias antagônicas. A exclusão de um dos lados desse jogo mutila nossa alma, fragiliza nosso corpo e nos torna prisioneiros de idealizações que nos impedem de viver de verdade. Assim estou aqui hoje para defender as lombrigas e os ogros que nos ensinam a jogar. Vou aproveitar para pedir às mães e aos pais que tentem, mas não com tanta força, como diziam ao Marvin, personagem do Jerry Lewis em “O bagunceiro arrumadinho”: um cara que, de tão ansioso por organizar, convocava inconscientemente um caos proporcional (e calibrador) ao seu desejo excessivo pela ordem. Tudo é compensação, no mistério cósmico-bioquímico-psicológico que é nossa vida na Terra. “Nada em excesso”, ensina o sábio oráculo de Delfos. Nem limpeza, nem água, nem amor. Nem mesmo a bondade, que tem se manifestado, em nossa cultura, como a hipocrisia fashion da correção política, a mera aparência de bondade para exibir aos outros. Este mundo em que seus filhos terão o privilégio de crescer, se vocês permitirem, é lindo e perigoso, politicamente incorretíssimo, cheio de ameaças e oportunidades, de megeras e fadas, de vitórias e derrotas, de picos e vales. Quanto mais vocês aprenderem a transitar entre as polaridades e ensinarem a eles o jogo dos contrastes, melhor eles se sairão como pessoas inteiras e reais. Isso se vocês não quiserem que eles se juntem à horda de pseudo-pessoas, esses estereótipos mal encarnados que andam sonambulando por aí, afligidos pela sinistra doença que os obriga a sacrificar quem eles verdadeiramente são no altar daquilo que eles que nunca serão. Defendam-se e aos seus filhos do sinistro devorador de almas que é o vício da perfeição. O resto se ajeita. Sério.

P.S. – Recentemente ouvi uma notícia auspiciosa: que o FDA proibiu, nos EUA, a venda do sabonete antibactericia Protex, alegando que seu uso indiscriminado está relacionado com o aumento da resistência de agente patogênicos. Vitamina S nele!

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Vida na Lua

Minha lebre castanha no prado onde ela mora quando não está na Lua

Escrevo um dia depois do meu retorno da Lua, onde estive refugiada por 4 dias com minha mais recente amiga, uma lebre que deveria ser branca, mas acabou ficando marrom-perolado, por uma questão de falta de linha. A Lua é silenciosa e macia, arenosa, mas muito acolhedora, um pouco fria, mas repleta de cobertores e almofadas, inodora, porém não insípida: ela tem um leve sabor de amêndoas. Para quem achar que, agora sim, pirei de vez, vou fornecer algumas explicações que correm o risco de soar ainda mais alucinadas. Como fui parar na Lua, depois de passar uma semana em Buenos Aires, é justamente a história que vou contar aqui. Vamos a ela. No gargalo do ano que ora se encerra, chegam as três tradicionais provações de outubro. Batem na porta, as velhacas que sempre espero que passem direto por mim. Me faço de morta mas, como tias inoportunas, elas acabam dando um jeito de me  fazer uma visitinha. Este ano, elas chegaram no rebote da minha viagem, tal como chegaram de outras vezes, ou seja, depois de uma temporada prazerosa e irresponsável, dessas que a gente acha que nem merece, de tão boas. A primeira foi um herpes na coxa, bem no lugar onde o meu nervo ciático incomoda, às vezes, o que me fez pensar que o dito tinha rebentado ou dado um nó ou apodrecido de vez, tal era a dor que eu sentia. Fiquei encalhada no estaleiro por cinco longos dias consecutivos, logo eu, que tenho bicho-carpinteiro, mato a cobra e mostro o pau, faço em vez de mandar. Primeira etapa da viagem à Lua: lentidão (devido à ausência de gravidade). Quando a perna parou de doer, então a segunda se revelou: uma laringite que me deixou muda feito um criado-mudo em questão de duas horas. Segunda etapa da viagem à Lua: silêncio. E então, quando achei que ia enfim sair da cápsula e retomar a vida na Terra, veio a terceira: uma dor  medonha no coração, que me fez ser atendida em tempo recorde no PS e deixou como rastro uma suspeita de pericardite. Chegada à Lua: um coração ferido. No dia da minha alunissagem, ainda um pouco perturbada com a diferença de fuso, mas tentando colocar os acontecimentos em perspectiva, tirei uma carta no meu tarô diário da Deusa: Chang O, uma distinta e elegante divindade chinesa. Sua carta e meu bordado ilustram este post que escrevo, entre ontem e  hoje, enquanto esperava por meu salvo-conduto, que acabou chegando e me permitindo embarcar de volta à Terra. Esperei, contudo sem esperar: lendo, desenhando, bordando, recebendo amigas, escrevendo, assistindo a filmes ligeiros, tal como fazia a mãe da Scarlet O’Hara antes da guerra civil chegar para estragar suas cortinas. Em resumo: retida no polo passivo-receptivo, para onde  a gente vai à força, se não tem sabedoria para escolhê-lo, quando está precisando dele. Chang O mora na Lua e há duas versões para ela ter escolhido esse domicílio. Uma, muito patriarcal, bem óbvia na sua intenção de caluniar as mulheres, essas intrometidas traiçoeiras incuráveis. A outra, bem feminista, é a que vou contar aqui. Chang O é a guardiã do elixir da imortalidade, que o marido, com ciúmes, tentou surrupiar (rá! isso sim é mudança de paradigma!). Enfurecida, Chang O largou o marido e resolveu ir morar na Lua. De lá, diz-se que ela cuida das mulheres, para que estas não deixem seus maridos roubarem seu poder. Tá bom para vocês? Para não ficar sozinha, Chang O levou consigo uma linda lebre branca. Eu não tinha linha branca na minha caixa de bordado, mas tinha uma linda linha marrom clara, meio perolada, nova em folha, com a qual bordei a nova amiga que passou estes dias preguiçosos e criativos incubando comigo na Lua. Agora que acabo de saber que meu coração está OK de novo, posso soltar minha lebre castanha no prado florido que bordei para ela (suspeito que a lebre seja o meu gato Carlinhos, que me fez muita companhia, porque sabe viver na Lua). Agora toca voltar para a correnteza. Mas vou sentir saudades da Lua, para onde pretendo retornar mais vezes, voluntariamente.

A carta IX: Chang O, Contemplação

No jardim

Aprendendo com a horta

Em grande parte das mitologias que conheço, o Mundo começou num jardim. Nada mais natural. Nada mais cultural. No jardim, a ordem está inapelavelmente submetida à desordem. E vice-versa, se houver um jardineiro por perto. Um jardim ensina que Caos e Cosmos, desordem e ordem, são faces inseparáveis da mesma realidade, a totalidade bipolar da qual decorrem todas as dualidades que conhecemos e experimentamos: sombra e luz, amor e indiferença, consciência e inconsciente, bem e mal, beleza e feiúra, natureza e cultura, animal e humano, humano e divino etc etc etc… Nossa vida é fruto desse movimento pendular que a tece e destece, ao sabor da perpétua oscilação entre infinitos pares de opostos. A imagem do jardim serve, pois, para figurar o mundo objetivo tanto quanto nosso mundo interior e, nesse sentido, somos todos um jardim e seu jardineiro, simultaneamente sujeito e objeto de um cultivo e de um desleixo. Um jardim neoclássico é uma tentativa pretensiosa e rígida (para não dizer fracassada) de submeter Caos às leis de Cosmos. Um jardim abandonado é uma prova inconteste da supremacia de Caos sobre Cosmos. Um jardim zen budista é um diálogo tenso e sutil entre esses esses gêmeos opostos-complementares, a quem os gregos também chamaram de Eros e Tánatos, o Amor e a Morte,  as forças de coesão e dispersão que se alternam, se combatem e se entrelaçam na faina de urdir o mundo. Os antigos gregos, com sua excepcional competência para transformar percepções em imagens (e, mais tarde, também em conceitos), os nomearam mais de uma vez. Caos e Cosmos são os “nomes” inventados por esse povo que pariu nosso imaginário muito antes de Cristo, para designar as potestades indiferenciadas, primais, devastadoramente criativas, que se engalfinham pela eternidade afora, envolvidas em sucessivas batalhas e negociações pela posse do mundo e da alma humana. Por um momento, Zeus e seus irmãos olímpicos aprisionaram as forças de Caos nas profundezas da Terra e declararam a vitória de Cosmos. Embora fosse o próprio sr. Fodêncio, Zeus tinha uma grande sabedoria intuitiva e uma invejável verve diplomática, as quais conquistou, aliás, depois de ter engolido sua esposa Métis, preocupado que estava com o fato de ela ser muito mais inteligente do que ele. Sim, ele podia ser vaidoso e prepotente, mas sabia que não reinava sozinho. Sempre esteve ciente de que Caos continuaria a invadir intermitentemente, por imprevisíveis e invisíveis fissuras, aquele mundo recém-faxinado de monstros e vilões que ele fizera tanto gosto em arrumar.  Sempre esteve ciente, inclusive, de que a energia básica e incontrolável de Caos era a origem e a nutriz de  Cosmos, caso este quisesse se manter fecundo e criativo. Cercado por divindades mais antigas do que ele, por sinal, quase todas femininas, Zeus pragmaticamente concedeu espaço e status inalienáveis às forças da desordem. Para se sentir um pouco como Zeus, é só ter um jardinzinho em casa, ainda que sejam uma mini-horta de temperos, quatro ou cinco vasos de samambaias. A faina interminável de arrancar o mato, atacar as pragas, fazer mudas, podar na época propícia, reconhecer e retirar os cadáveres, regar cada planta conforme sua necessidade, adubar, rastelar folhas secas ou arrancar folhas amareladas, perseguir e desentocar lagartas famintas… Fazer isso é experimentar-se um pouco no papel de demiurgo. No jardim, a ordem é alimentada pela desordem, pela matéria orgânica em decomposição, pela força descomunal da vida que não foi convidada, pela resistência dos microvilões que fortalecem a quem não matam e nos convocam a sermos ainda mais resistentes do que eles… No jardim, a desordem se submete à ordem dos ciclos naturais, das chuvas sazonais, dos desafios naturais e artificiais que as plantas precisam vencer para vingar de verdade… Um olhar menos tosco, uma mente menos literal podem aprender muito sobre a existência humana, sobre finitude e eternidade, sobre equilibração ou homeostase, sobre economia psíquica, educação, física e metafísica, simplesmente cuidando de um pequenino jardim. O aprendizado pode parar no nível mais primário, do corpo ancorado no mundo e de uma educação dos sentidos. Se ficar aí, já está de ótimo tamanho – e quanto perdem os estudantes de todos os níveis porque essa escola sem alma e sem utilidade lhes rouba o tempo de aprender a viver plantando e cuidando de um jardim! O aprendizado do jardim também pode desenvolver-se em muitas etapas, cada vez mais profundas (literal e metaforicamente falando). No jardim, Caos e Cosmos, Eros e Tánatos são nosso mestres, mestres da vida e da morte, disputando nossa atenção, construindo nosso conhecimento na experiência, propondo conteúdos sempre muito significativos, obrigando-nos a sujar as mãos, obsessivamente desinfetadas com álcool gel, com a substância primeva da vida: o barro. Nos últimos dias de minha mãe, comprei um livro para ler em voz alta para ela, chamado “O poder do jardim”, nem sei de que autor, porque na espiral de dispersão convocada por Tánatos quando ela se foi, ele se perdeu por aí. Eu o li para ela e para mim mesma, naquele lugar sem jardim que é um quarto de hospital, onde a alma precisa ser bajulada e afagada o tempo todo para não fugir espavorida ou não ficar anoréxica. Foi um tempo de leituras delicado e suave, instalado em meio à névoa que sempre envolve os limiares de nossa vida. O jardim lido deu prazer e conforto a minha mãe e me ajudou a atravessar aquele território pantanoso e escorregadio como o mangue de Lerna, onde vivia a hidra que Héracles eliminou, a serviço de Zeus, seu pai devoto de Cosmos. Que a gente não se engane: a última cabeça da hidra era imortal e o herói só pôde enterrá-la bem fundo e colocar uma pedra em cima, como Zeus fez com os gigantes e os titãs que venceu. Caos deve ter gargalhado dessa estratégia copiada do papai poderoso. Penso que, frequentemente, em nossa vida, essa cabeça medonha, representante da desordem, ressurge à flor da terra para nos assombrar e desorganizar, mas também para nos desafiar e estimular a crescer. Gosto mais do gesto de Perseu, que também precisa enterrar a cabeça imortal da górgona Medusa e, para isso, cava um buraco bem fundo, que cuida de forrar e amaciar com delicadas algas marinhas. Por fim, ele coloca, com delicadeza, a face terrível do monstro voltada para esse berço de algas. Na mesma hora, petrificadas pelo olhar da Medusa, as algas transformam-se em corais. Não é lindo isso? O olhar de Caos a incitar o gesto delicado de um Cosmos compassivo, a um só tempo cuidadoso e destemido, numa palavra: integrador?

Milagritos

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… que um menino pobre continue a achar bonito estudar e trabalhar.

… que uma senhorinha sorria para mim antes de, juntas, cruzarmos a rua.

… que eu ligue a TV e “Volver”esteja só começando.

… que a enfermeira de olhos dourados ache que eu trabalho com moda, porque me visto “de um jeito especial”.

… que uma dose única de homeopatia faça um velho corpo responder, depois de quatro antibióticos capitularem.

… que Ana, minha nova vizinha, faça uma excelente caipirinha de romã.

… que a Lissa, um ano e meio, óculos cor de rosa e narizinho arrebitado, tenha vindo morar na casa ao lado da nossa.

… que tia Ligia me devolva, 42 anos passados, o caderninho de exercícios que me pediu emprestado, quando ainda era professora primária.

… que meu gato me saúde entusiasmado, todas as manhãs, mal eu saio do quarto.

… que ainda haja gente boa nesta merda de mundo.

… que esta merda de mundo continue a ser tão maravilhoso.

… que a Marina me empreste o “Asterios Polyp” bem no meio desta chuva de meteoros.

… que eu continue encontrando pessoas para amar e ser amada.

… que corações pisoteados tenham conserto e fiquem tão bons novamente.

… que Epicuro ainda me ensine um jeito fácil e sábio de ser feliz.

… que eu tenha descoberto esta deliciosa barrinha de damasco com ameixa.

… que a Jandira tenha aparecido na minha vida só para me indicar seu médico e depois tenha virado sorvete.

… que o Museu Afro-Brasil não cobre entrada e seja tão maravilhoso.

… que o Amos Oz e a Rosa Montero continuem escrevendo.

… que a escola, a igreja e a corporação não tenham embotado a cabeça e o coração de muita gente.

… que ainda haja quem dá uma receita sem negacear o “pulo do gato”.

… que gente muito ocupada se encontre toda semana para ler, conversar e tomar chá, vinho só de vez em quando.

… que um pé de gardênia meio morto renasça e faça questão de me dar de presente duas mirradas flores temporonas.

Um milagrito por dia. Quem sabe dois. Quando muito três. Quatro no máximo. Melhor não abusar, já que não se sabe quantos ainda temos guardados no misterioso saco do destino. Use os seus, porque parece que eles só valem para esta vida. Os da próxima, se houver (e espero que não haja), haverão de ser diferentes.

Macaca de auditório

Comprei o último CD do Arnaldo Antunes, “Ao vivo lá em casa”. Renovei minha assinatura de macaca de auditório. Há 25 ou 30 anos, eu fazia isso todo fim de ano com o LP do Chico. Não que a gente precise ser persuadida a cada novo lançamento de que o cara é o cara. Mas faz bem saber que ele continua sendo o cara e que vale a pena continuar sendo sua macaca de auditório, apesar dos constrangimentos inerentes à função. Minha entrada nessa categoria do Arnaldo já tem uns 10 anos. Confesso que gostei quando ele resolveu promover uma titanomaquia e inaugurou carreira solo.  Ficou Arnaldo concentrado: uma gota em 10 litros de água para renovar o velho e envelhecer o novo, para aplicar vida na veia da poesia e vice-versa. Esses dias, “Qualquer” grudou nas minhas sinapses e eu fiquei cantando, cantarolando, assobiando aquela melodia mais linda, estilo oriental de desenho animado, inventando pedaços da letra de que eu me esquecia … Passei o vírus para o meu filho, que também saiu assobiando, cantando, cantarolando… Arnaldo é assim: faixa etária não é com ele. O grude já era um aviso: hora de comprar o último CD. Até o próximo sair, esse será o meu predileto do Arnaldo, que está na minha lista das 50 melhores coisas do mundo. Por falar em 50, se você tem 50 ou mais, escute “Envelhecer”, para entender, agradecer e cantar bem alto no chuveiro: “Velho gagá, á-á-á!!”. No penúltimo CD, o arqueo-Arnaldo já tinha retirado algumas preciosidades do fundo da mina desabada do ié-ié-ié. Neste, ele faz um baile de fundo de quintal literal, com roquinhos falsamente toscos, arranjos engraçados, algumas letras ótimas ou que ele faz ficarem ótimas (ouça “Quando você decidir”, de Odair José, e “Vou festejar”, de Jorge Aragão, pra rolar de rir). Também convida uns dinossauros majestosos pra cantar junto (Erasmo e Jorge Benjor, sem falar em Adoniran, desencarnado, com quem ele fecha o CD). Arnaldo sabe fazer aquela reciclagem em que porcaria vira coisa boa e que caracteriza um jeito de ser e de fazer música que é inteligente por natureza, sem precisar posar de semiótico-pernóstico (e não estou me referindo ao Caetano, que pode ser pernóstico e não faz questão nenhuma de ser semiótico). ´”Órguinho”, bateria de garagem, backing vocals hilariantes: se você sabe o que foi o ié-ié-ié, vai se divertir. Se não sabe, vai aprender. Um aparte para a minha favorita:  “As melhores coisas”. Para ouvir rezando, relembrando, sorrindo-e-chorando. Arnaldoooooooooooooo!!! Lindooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!

“O mágico”: a vida que oscila entre graça e melancolia

Quem, como eu, adora rever “Meu tio” e “As férias do Sr. Hulot”, com o comediante francês Jacques Tati, pode agora matar as saudades desse delicioso “clochard” parisiense: discreto, elegante, gentil. Um filme roteirizado e estrelado por ele participa da 34a Mostra Internacional de Cinema de Sampa. Não, não é outra investida no filão espiritualista-new age, pode ficar sossegado. Jacques Tati, o original, já desencarnou faz tempo e, pela falta de graça que campeia por aí, ainda não deve ter reencarnado. O roteiro foi deixado por Tatit e reescrito pelo diretor Sylvain Chomet. Quem protagoniza “O mágico” (L’illusioniste) é, digamos, um avatar do querido Monsieur Hulot. O charme, a postura, o perfil, a economia verbal e o constrangimento atrapalhado estão todos lá, pode conferir. Chomet, que já tinha agradado os fãs de desenhos animados esquisitos (meu caso) com o divertido e sombrio “As bicicletas de Belleville”, agora assina essa delicada animação sobre a decadência de um mágico de teatro de revista, que tenta sobreviver com seu espetáculo naïve em tempos de roqueiros convulsivos e fãs histéricas (como você vai perceber pelos detalhes, o filme se passa no início dos anos 1960). Na companhia de um coelho branco obeso e agressivo, o sr. Tatischell apresenta-se em pulgueiros parisienses para meia dúzia de gatos pingados. Dispensado pelo dono do teatro, ele resolve cruzar o Canal da Mancha em busca de novas oportunidades para seu show. No pub de uma aldeia escocesa onde descola um trampo, ele faz seus truques mambembes para Alice, a faxineira adolescente. Graças a alguns encantadores equívocos, ele se tornará, aos olhos dela, uma espécie de “mago-padrinho” com poderes extraordinários, capaz de transformar botinas velhas em sapatinhos vermelhos, entre outras maravilhas. Por isso, ela o segue quando ele parte para Edimburgo, em busca de trabalho. E daí para a frente, tudo é poesia feita de luz e sombra, beleza e feiúra, verdade e mentira, novo e velho, risada e reflexão. Oscilando assim, entre a graça e a melancolia, o filme fala sobre a passagem do tempo e as ilusões que ora nos traem, ora nos atraem para sua luz falsa e gloriosa, de projetor de cinema. Ao combinar imagens poderosas a um quase-silêncio idem, o desenho de Chomet evoca nossos desejos, encontros, perdas, os pequenos paliativos que usamos para aliviar as dores de viver, crescer e envelhecer. Tudo temperado pelo humor de Tati, verossímil, contido, tão parecido com nossas próprias patetadas involuntárias… Um palhaço “com a máscara colada à cara”, feito Álvaro de Campos, um ventríloquo que não desgruda de seu boneco e outros personagens inesquecíveis esperam por “tio” e “sobrinha” postiços numa Edimburgo ao mesmo tempo feérica e realista. O mais legal é que ambos não se constrangem de andar juntos para cima e para baixo e de dividir um conjugado num velho H.O., afrontando assim a babaquice politicamente correta que enxerga pedófilos dentro do pote de margarina. Um toque: entre no site da Mostra só para ver a vinheta, em que um anjo sobrevoa a cidade, carregando um homem nos braços: a melhor definição de cinema que já “vi” na vida.

Dia dos Mortos no ateliê de artes

Este post relata uma experiência no ateliê livre de arte para crianças, coordenada pela arte-educadora e artista plástica Ana Cristina Ronconi, do ateliê Ocuili, no Itaim-Bibi, São Paulo. Trata-se de um trecho do artigo “Trabalhando para chegar ao significado”: pequenas histórias do ateliê de artes, sobre a importância da arte na vida e na educação das crianças. Damos notícias quando o texto integral for publicado.

Entrar num processo artístico significa não se fechar a nada. Significa perguntar: “Que uso posso dar a isso tudo?” (Anna-Maria Holm)

O ateliê de artes é sempre uma experiência em que as culturas e seus símbolos são deliberadamente convidados a participar e estão conscientemente representados por meio dos artistas e suas obras, dos materiais, das imagens que vêm enxamear ao redor do trabalho, das histórias que elas mobilizam ou que as mobilizam, das vivências das crianças etc. O ateliê de artes é um lugar onde valores opostos podem dialogar e reconciliar-se: vida e morte, alegria e dor, atividade e passividade, luz e sombra… Mais