“Um elogio da traição”

Achei o tema propicio ao momento e reprisei. Beijos!

Mulher-Esqueleto

solve et coagula

Hoje é Sábado de Aleluia. Dia de malhar o Judas, na tradição do cristianismo popular. Para mim, dia de meditar sobre o traidor necessário. Ou ainda sobre os poderes misteriosos e imprevistos da alma imoral, como chamou o rabino Nilton Bonder à libido que confronta o estabelecido para renovar a tradição ressequida e quebradiça, ao ousar traí-la. Malhar o Judas é não só um símbolo muito eloquente de nossa tendência a tentar inutilmente excluir a sombra das cercanias do ego. É também uma evidência do estado crônico de inconsciência desse mesmo ego que, quanto mais bem informado, mais equivocado. Malhamos o Judas fora de nós para não entrarmos em contato com aquela voz que, dentro de nós, sussurra que, sem Judas, não haveria cristianismo, talvez sequer houvesse um Jesus. Aos obsedados por finais felizes e premiações celestes, congelados na expectativa de que um deus ex-machina venha resolver os problemas que nós mesmos criamos, Judas aparece…

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Afrodite Go!


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Ouro, prata, bronze, sangue, suor e lágrimas. Rafaela, Robson, Thiago, Isaquias, Maicon, Rafael, Felipe, Mayra, Poliana, Artur, Diego… Na alquimia dos metais olímpicos, não tem almoço grátis e a meritocracia é o Dharma, a Grande Lei Geral. O espírito olímpico é o contrário do coitadismo bolsista sem contrapartida que assola o país e reinventa o coronelismo, agora mais à esquerda. Nas Olimpíadas, estrelas só mesmo os caras do futebol que ou se rendiam ao zeitgeist ou viravam buracos negros. Acabaram se rendendo. Fui contra essa Olimpíada desde o começo. A Olimpíada que nunca foi do Lula. Nem dele nem da Dilma nem do Temer nem do Paes nem do COI. A Olimpíada foi do Brasil dos campeões que trabalham, pagam imposto, fazem trabalho voluntário e se divertem sempre que podem, do Brasil dos campeões da Lava-Jato e das ONGs bem tocadas por gente honesta e inspirada. A Olimpíada foi a glória justa e tardia dos brasileiros pretos pardos pequenos pobres mas também dos brasileiros brancos amarelos louros morenos de olhos castanhos verdes azuis, todos valorosos disciplinados esforçados irredutíveis apaixonados.

meninas comemoram

A Olimpíada foi o discurso incontestável, sem palavras porque nem precisava, dos sem ideologia com propósito. Fui contra a Olimpíada e, no entanto, me rendi à Beleza do Corpo no poder. Me deixei arrebatar e subjugar completamente pela Beleza no poder. Me tornei devota da estética ética da Olimpíada, com aquele cenário absurdo de lindo ao fundo, Rio de Janeiro, como eu gosto de você! Até a mentira dos nadadores americanos virou a nosso favor, que anedota feliz e necessária para belos viralatas como nós, mestiços sem raça que ainda não abarcamos a imensa vantagem genética dessa condição! Os deuses nos sorriram lá do Olimpo, na mesa do banquete em que Zeus e Xangô se rendiam aos encantos de Oxum e Afrodite.

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Penso que as Olimpíadas sempre foram e continuarão a ser um portentoso ritual à verdadeira Beleza, a Beleza que vai muito, mas muito além da casca, do simulacro enganoso da aparência, do fantasma descarnado da perfeição retocada e rasa. A Beleza que fenece e pede para desabrochar em Sabedoria. Quanta variedade, que diversidade, que espantosa ode às diferenças, quantos formatos, cores, padrões, pesos, texturas, alturas, larguras, densidades, humores, estilos!

rio2016

E que infinidade de gestos, sorrisos, movimentos, penteados, dancinhas, expressões faciais, esgares, gritos, gemidos, sussurros, saudações, urros, quantas linguagens naturais ou convencionais, que comunicação mais eficaz e livre da tirania do verbo que a do corpo falando com habilidade, graça e vigor, unido no pacto indissolúvel com as almas dos atletas. O corpo-alma preciso, escorreito e ágil mas também errático, ferido e alquebrado. Tudo lindo porque íntegro: o topo e o tombo, a dor e a alegria, a frustração e o contentamento, a derrota e a vitória. E como amar um Corpo isento de contrastes? Impossível, diz Afrodite Dourada, a que banha de paixão todas as medalhas olímpicas, esposa que é de Hefésto, o Divino Ferreiro.

nascimento de venus

Não, a escola não ensinará nada que preste enquanto não se deixar arrebatar pela Beleza, que os gregos cultuavam porque sabiam que era ela, e não a superestimada razão, o pilar fundamental da civilização. Não vai prestar essa escola ridícula enquanto não servir, de joelhos, ao Corpo e à Beleza, a que se escora na Justiça e na Bondade para se manifestar em plenitude, a genuína força civilizadora do coração humano, a alma da política que serve para servir à polis, a única vacina contra a barbárie de todos os extremismos e fundamentalismos religiosos e políticos que querem dividir para dominar. Não à toa os guerreiros do EI combatem e destroem a Beleza, ocultam a Beleza, têm pavor da Beleza. Eles estão certos. A Beleza dissolve polarizações sem se perder em debates vazios simplesmente porque ela É. Afrodite bota Ares, o deus da guerra, de quatro. E ainda tem, com ele, uma filha chamada Harmonia.

Por causa da Olimpíada, Afrodite Go virou meu APP da hora, instalado de fábrica na minha cabeça, ativado desde o nascimento, agora em versão totalmente atualizada. Que mané Pokemon, suprema babaquice! Eu quero é rastrear a Beleza no Mundo!

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P.S. para Elke Maravilha, deusa encarnada, formidável Baba Yaga que se cansou desta brincadeira e gritou “Fui!”. Elke foi uma porta-voz do Feminino profundo, naturalmente pouco aproveitada e compreendida pelo feminismo patriarcal unilateral. Azar dele. A sabedoria temperada por um irresistível senso de humor, o amor e a originalidade continuam a ser atributos dessa personalidade singularíssima, que confrontou o mundo tolo e fosco da moda e viveu para ser quem o universo precisava que ela fosse, nada mais, nada menos. Elke não deixou herdeiro/a do mesmo porte neste rincão aonde veio aportar, fugindo de Stalin com sua família. Essa devemos a Stalin. Divirta-se, amor. Aliás nem precisava dizer. Beijos.

elke bruxa

Janaína ou a Consciência Lunar

Iemanjá

Até os mais empedernidos e binários racionalistas reconhecem, ainda que pelo viés do escárnio, que Janaína Paschoal está carregada de energia transpessoal. Eles acertam sem querer, digo, os “inteligentinhos” (salve, Pondé!) , quando dizem que, em sua defesa apaixonada do pedido de impeachment que protocolou em parceria com dois venerandos juristas, Janaína evoca uma mãe-de-santo ou uma pastora evangélica em transe. Mãe-de-santo e pastora, no caso dos memes de Janaína que se tornaram virais na Internet, são termos pejorativos, claro. Os detratores da moça, contudo, não são acusados de preconceito religioso ou coisa parecida pelos militantes da boa consciência. Está tudo bem, já que se trata de um julgamento de valor emitido por aquela ala que pode, impunemente, “xingar” pessoas de mão-de-santo e pastora. Afinal seus representantes são sempre os mocinhos de uma história de versão única, repetida à náusea na tentativa de produzir verdade pela redundância.

Maat

Num nível mais profundo do que o da casca das ideologias, porém, Janaína revela certos atributos arquetípicos que a tornam imprescindível como força de equilibração de um imaginário descompensado, manifestando assim uma energia que Bachof e Jung chamaram de “consciência lunar”. Começa que Janaína assume, sem constrangimento algum, tanto sua emotividade quanto seu fascínio pelo mistério. As feministas a agridem porque ela é feminina e não tem vergonha disso, mas principalmente porque ela se opõe sem temor ao zeitgeist que divide o mundo em dois exércitos inimigos. Em suma, elas preferem defender e praticar o modo de pensar patriarcal. Essa mulherada inadvertidamente a serviço do patriarcado ainda não percebeu que é Janaína, não a presidenta, um símbolo do genuíno feminismo, nestes dias turbulentos que vivemos. É natural que isso ocorra, quando se está congelado em dualismos inultrapassáveis, conquanto também seja uma pena, um equívoco a se lamentar, porque o pensamento unilateral endurece o coração para as variações de ritmo e cega o olhar para as nuances de cor. Aliás já faz tempo que muitas mulheres não reconhecem o feminino quando o veem. Ou talvez seja assim mesmo que tenha de ser. Janaína carrega uma qualidade de loucura sagrada que emana do mesmo arquétipo que, noutro contexto, com carga mais poderosa e consequências mais trágicas, pôs em movimento a formidável Joana D’Arc. Como Joana antes dela, Janaína se predispõe a ser caluniada, enxovalhada, julgada bruxa em defesa de um ideal, podendo mesmo, em nome dele, ser calcinada na fogueira de uma militância puritana e hipócrita. Como se deu com Joana, o valor de Janaína há de ser reconhecido mais adiante, pela revisão de uma Historiografia não aparelhada e aberta à complexidade das forças que nos vivem, coisa rara, mas não impossível de acontecer.

joana darc

Interessante que Janaína é o outro nome de Iemanjá, a senhora das águas da mitologia iorubá. Essa ressonância mítica pode ajudar a esclarecer, num nível mais analógico que lógico, mais imaginativo que racional, porque uma xará de tal orixá não se envergonha de exibir emoções e sentimentos em público, até mesmo derramando, em entrevistas, lágrimas que não parecem ser de crocodilo, sem se preocupar com os/as chauvinistas que a qualificam de histérica. Sim, Janaína tem útero, se é isso que eles e elas querem dizer, coisa que, para Freud, era um defeito de fábrica sem direito a recall. Tem útero, cabelos negros longos e desalinhados e um estilo personalíssimo, que pode incomodar mais pela autenticidade do que pela obediência à moda. Sim, ela chora pela mulher que quer “impichar”, com quem travou contato em dias melhores e de quem teve, àquela época, a melhor das primeiras impressões.

sekhmet

Refletindo mitologicamente, Janaína e sua demanda também me remetem a duas deusas do panteão egípcio: Maat e Seckmet. A primeira é a deusa da Justiça, mas de uma justiça vinculada ao Direito Materno, à Lei do Coração. A segunda, representada com corpo de mulher e cabeça de leoa, encarna a justa indignação e preside a guerra que defende o país contra invasores externos. Quando mobilizada, Janaína arranja e rearranja a cabeleira, o que me faz lembrar de Sekhmet. Quando prende a juba com um grampo, ela me faz lembrar Maat, que usa uma pena de avestruz espetada no cabelo negro e liso. Essa pena não é um enfeite inócuo, mas o símbolo dessa deusa, e serve de contrapeso para a balança em que é disposto o coração do morto, no julgamento derradeiro. Ademais, Janaína também me remete a grega Palas Atena, filha de Zeus (os “pais” e mestres que dividem com ela a demanda), padroeira da polis e de seu cuidado, a política, deusa que cuida para que os crimes sejam julgados e punidos e os miasmas que envenenam a alma coletiva, dissolvidos. Desse modo, Palas Atena protege a democracia ateniense, assim como Janaína se dispõe a defender a democracia brasileira. Sim, os detratores de Janaína temem sua autenticidade, seu destemor e por isso a desdenham. Mais que tudo, porém, intuem inconscientemente a numinosidade que envolve sua causa e transita por sua pessoa. O alinhamento pessoal de Janaína com uma verdade mais profunda ameaça a superficialidade do senso comum que a reduz a fascista, traidora e golpista. Como os gauleses de Asterix, Janaína, porém, é irredutível a estereótipos. No momento, ela está sendo cavalgada por arquétipos e embora talvez não saiba disso, quero crer que ela tem integridade suficiente para aguentar o tranco.

palas atena

Um vilão para chamar de seu

“Quando estou com você / quero ser o tipo de herói / que desejava ser / aos 7 anos de idade / um homem perfeito / que mata.” (Leonard Cohen)

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Ele é prático, conveniente, super-aderente, impermeável e fácil, muito fácil de sujar. Na verdade, ele já vem imundo, o que facilita a sua vida. Que sujeito mais útil e funcional! Quanta generosidade perversa! Que serviço inestimável ele presta ao nosso herói favorito, o ego! Todo ego, aliás, tem sua trupe particular de vilões, qual uma companhia mambembe de teatro. Sem vilão, não tem enredo nem catarse, o público não se envolve, impedido que é de se identificar com o mocinho. Nada como um vilão para fazer contraste com aquelas personagens que adoramos ostentar, o santo, o politicamente correto, o idealista que não cresceu, a jovem encruada etc. Acoitado num desvão do nosso bom-mocismo, o vilão é mantido e remunerado por algum recôndito caixa 2 do ego a quem faz falta um bom espelho. Para não ter de lidar com a própria porcaria, tenha sempre um vilão à mão. Receptivo, reflexivo, acolhedor de toda a sujeirada que você não tem a menor intenção de reconhecer como sua e com a qual não tem a mínima vontade de interagir, um vilão pode ser uma tela complacente e leniente, um aterro sanitário na frente do qual sempre se pode estender um lindo cenário pastoril, uma paisagem marinha, até um afresco da Capela Sistina. Sobre o vilão, o herói projeta, sem maior esforço, aqueles pecados inconfessáveis que corroem seu eterno coração de estudante, atributos e incidentes de percurso que não ornam de jeito nenhum com perfis do FB. Lembra do Dorian Gray? Então. O vilão dele é aquele retrato escondido no sótão, que envelhece, se acanalha e apodrece no lugar do modelo (ele mesmo). Fora do sótão, que Dorian mantém trancado, e para a torcida, ele continua a ser o moço lindo, cosmopolita, sempre jovem, o galã elegante e sedutor que faz o que quer e debita as próprias malvadezas na conta do retrato, inacessível ao olhar alheio.  Contudo a maior vantagem que um vilão oferece ao herói é poupá-lo de, de tempos em tempos, morrer e se transformar. O vilão nos protege da consciência que só tomamos por meio da responsabilização por quem somos e pelo que fazemos, ele nos blinda contra as duras revisões da autocrítica que nos possibilitam amadurecer (não falo da autocrítica marxista, que essa só serve se for conivente com a verdade do partido). De braços abertos, com um sorriso malevolente estampado no rosto, o vilão recebe, sem reclamar, todo o chorume que escorre da estátua dourada do herói de espada em riste, adorado por todos, a unanimidade que atrai nosso olhar sempre para o alto, ainda que o fedor do chorume continue a subir do chão. Se for um vilão clássico, inequívoco, histriônico de tão óbvio, será muito, muito melhor. O vilão estereotípico, do Diabo ao Bolsonaro, passando por Judas e Darth Vader, é, mais que um subproduto, uma necessidade do nosso imaginário dualista judaico-cristão-marxista-e-capitalista. Essa herança, uma e a mesma, nos garante que precisamos de heróis ou vilões higienicamente separados, embora ambos sejam faces da mesma moeda. O vilão, porém reconhece, ainda que apenas instintivamente, e muito melhor que o herói, o imenso valor de toda a energia sombria que é desviada das almas dos bons cidadãos diretamente para ele. Falem mal mas falem de mim, é seu lema. Cuspam em mim, por favor, ele suplica, o vilão, mas façam isso em público, se possível diante das câmeras de TV e dos Iphones, para que todos vejam como somos parecidos. Quanto mais simplórios e reativos nos tornamos diante dos vilões, menos nos damos conta de que é assim que reforçamos nossas ligações com eles, ligações essas que nem precisam de grampo telefônico para vir a luz: é só observar as reações-padrão que tanto nos aproximam da vilania. Quando mais maniqueísta nossa reflexão, quanto mais puros nos consideramos, mais o vilão cresce, mais poder ele adquire, mais território ele conquista. Para o vilão, a sombra do outro é força em estado puro. Ele come o lixo que envergonha o herói, e engorda. Destinatário de tantos conteúdos coletivos inconscientes nele projetados, o vilão amealha admiração, ódio e (o que estranhamente ainda nos surpreende), também votos e apoio popular. Hitler, Stalin, Franco, Pol Pot, Pinochet, Fidel, tiranos tão idênticos na essência quanto diferentes na aparência, somente chegaram aonde chegaram graças aos utilíssimos vilões do comunismo totalitário e do capitalismo imperialista, no fundo, a mesma bisca em duas versões igualmente deletérias do mundo e das pessoas. Como também, é claro, dependem do rebaixamento do nível mental da massa que os bancou e ainda banca, mesmo depois que sua volumosa sombra se tornou pública e notória. Começaram heróis e, em tempo, revelaram sua inequívoca inclinação para vilões, embora ainda convençam os pré-púberes psicológicos que se comprazem em acreditar em Papai Noel e na Cegonha.  Essa é a parte mais interessante do vilão. Sua sedução é longeva, assim como a do herói. Não surpreende, já que ambos são arquétipos. Assim como Eros e Tânatos, o Amor e a Morte, eles são gêmeos opostos e complementares. Um sempre puxa outro, é só esperar para ver. “Triste a nação que precisa de heróis”, o clichê de Brecht, bem merece uma versão para este momento: triste mesmo é a nação que precisa de vilões para desviar o olhar dos malfeitos de seus heróis. E dos próprios.

#belo, recatado e do lar

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R. já foi herói, numa encarnação vivida e, felizmente, esgotada. Ele se lembra dela como de uma bad bad trip. A história foi normal: o chamaram de fora e ele saiu desembestado. Derrubou portas, cruzou pontes levadiças, decepou a cabeça da Medusa, cavalgou em demanda do Santo Graal, matou alguns leões e foi devorado por outros, deu conta de doze trabalhos sem ter um deus a quem dedicá-los no final. Escalou o despenhadeiro rumo ao topo e de lá pôde ver milhares de cadáveres juncando a planície, apodrecendo. Virou zumbi e depois escravo, por artes de um poderoso feiticeiro do mercado financeiro, salvou uma princesa, contrariada, de ser ela mesma, perdeu sua alma não poucas vezes, a maioria no mesmo casino vagabundo de fachada resplandecente. E cada vez ele a recuperava, a sua alma, mais desfigurada e mutilada. Por fim, seu coração terrorista explodiu dentro do peito no meio de uma reunião com clientes estrangeiros. A pedra rolou de volta e passou por cima dele, arrastando-o consigo para as profundezas do abismo. R. caiu do cavalo no caminho de Damasco e, ao contrário de São Paulo, o apóstolo, mergulhou nas trevas dentro. Muitas e densas contudo penetráveis. Sem trevas, sem iluminação, sis, porque nesta vida não tem almoço grátis. R. passou um longo período vivendo no fundo, onde consertava portas derrubadas por ele e outros heróis reenviados aos próprios limites. Aos poucos, a reclusão forçada transformou-se em recolhimento voluntário e a depressão que não ousa dizer seu nome sussurrou-lhe ao ouvido: sou sua dor. Nessa fase, dia sim, dia não, a cabeça decepada da Medusa aparecia para tomar chá. Não demorou para R. perceber o quanto ela se parecia com sua finada mãe. Certa manhã, enquanto limpava o guarda-louça, ele descobriu o Santo Graal lascado, enfiado no fundo de uma prateleira. Estava lá o tempo todo. E mesmo lascado, era o seu Santo Graal. Fantasmas de leões aniquilados e espectros de velhos sonhos mal digeridos pelos leões que sobreviveram a sua espada vinham sempre rondar seu sono. Ele registrava essas visitas noturnas nas páginas remanescentes de velhos cadernos de receita e depois lia seus relatos para a terapeuta holística, uma senhora de cabelos de bombril, muito atenta, o sorriso maior que a boca. R. vendeu o apartamento equilibrado no alto de uma gélida torre e comprou uma casinha térrea numa vila, com quintal e jardim. O quintal, ele varre três vezes por dia, como forma de meditação animada. O jardim, R. plantou muda por muda e molha religiosamente, ao nascer e ao por do sol, com água de uma cisterna que ele mesmo construiu. Quando chove, R. se farta de escutar o velho som hipnótico das gotas nas calhas enquanto relê Rilke e “Mulheres que correm com os lobos”. Passados uns meses da queda, ele decidiu trocar o carrão por um carrinho de feira. Mais uns meses passados e ele descobriu, surpreso, que podia fazer a própria comida sem delegar aos outros o prazer de lidar com as delícias do mundo concreto. Dispensado de correr e vencer maratonas, ele agora caminha, desfruta a paisagem e, se calhar, ainda ganha o dia. Da produtividade à fecundidade, porém, foi um árduo percurso. R. aprendeu a fazer pão com uma senhora gordota que dá conselhos tolos e ótimas receitas numa revista vespertina da TV. Embora não seja propriamente um virtuose, o perfume saído do forno enche a casa e inebria seu coração remendado. Os companheiros de sua antiga ordem têm pena dele e ele, por sua vez, tem compaixão deles. R. também aprendeu a conversar com os diferentes, entre eles as vizinhas gêmeas octogenárias. Já íntimas, elas lhe contaram ter sido, alternadamente, amantes do mesmo homem por quase vinte anos, até a morte dele. Garotas interessantes para quem antes ele não dedicaria um segundo de seu tempo, quanto mais um olhar de desprezo. Enquanto pratica hatha ioga, R. escuta os eternos concertos de Bach para violoncelo. Inspirado num ásana e no ronronar do instrumento, adotou três gatos escalavrados e cuidou deles como Florence Nightingale cuidaria da própria alma ferida por um morteiro. Os três vingaram, mordem a mão que os alimenta e enfeitam a casa, sagrados e indiferentes. Por fim, R. percebeu que tinha um filho de nove anos, criança mimada, terceirizada e com veredicto de hiperatividade, conquanto prenhe de possibilidades sequer ensaiadas desde o nascimento. Disposto enfim a aceitar o papel, R. decidiu tomar para si a responsabilidade pelo cultivo dessa pessoa em botão, enquanto ainda há tempo para fazê-la medrar. Dessa maneira, agradou deveras a ex-princesa, liberando-a de todo para se tornar a rainha amazona que ela sempre sonhou ser, bem como para viver o tipo de vida do qual ele foi, por sorte, expropriado. Quando mamãe sai em viagem de negócios, ele e o menino vão pescar em Paraibuna, fazer lasanha, dar banho nos gatos, vagabundar, ler gibis. Agora ele tem o que legar ao filho, além de coisas. Foi só depois de entender isso que R. conheceu uma mulher que também adora cinema, aprecia ficar ao lado de alguém lendo em silêncio e, de modo geral, sabe dar valor a perdedores com conteúdo. Ambos se entenderam nos principais quesitos e bastou. Ela tem vocação e carreira, mas não é adicta. Fizeram um pacto que, ao que tudo indica, vem funcionando agradavelmente. Ele mantém seus dias de trabalhar “fora”, contudo ainda prefere ficar dentro, por exemplo, entretendo planilhas enquanto assa um bolo. A vida prossegue, a pendular entre polaridades. R. ama as prendas domésticas como nunca amou o mercado financeiro. Opressão era antes. Mas acabou.

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O sonho acabou

A democracia é um tipo de governo que opera pela vontade da maioria. O PT, de tanto mirar o próprio umbigo e se confundir com a democracia, impediu-se de apreender a essência dessa máxima incontornável. Para o partido do governo, democracia é só quando a maioria está a seu favor. Se estiver contra é golpe, fascismo, vai ter guerra e outros lugares comuns igualmente deletérios da reflexão crítica. Uma visão pueril, calcada em qualquer ideologia que funcione pela redução do mundo a dois campos de batalha mutuamente excludentes. Qualquer mesmo. Lamento que tenhamos chegado a esse ponto, levados pela insensatez da presidente e por sua incapacidade de antever os problemas e pedir ajuda em tempo hábil para encaminhá-los de modo razoável. Agora ela melancolicamente afirma que, se sobreviver, proporá um pacto. Agora? Carente de sabedoria e de outras qualidades femininas positivas, como a capacidade de reunir ao invés de dissociar, a presidente amarga as consequências de sua teimosia, arrogância e procrastinação. Nada mais anti-democrático que a ânsia de se perpetuar indefinidamente no poder e a qualquer preço, de qualquer jeito, fazendo qualquer coisa. O PT e seus mentores ainda têm muito o que aprender sobre a sombra que um ego dessa envergadura projeta e que termina por se voltar contra ele. Prova disso é a Lava-Jato, que refundou o PT e aqueles seus valores antes inegociáveis. O vasto ego petista, em nada melhor do que aqueles que o precederam no poder, não apreende metáforas, por excesso de materialismo sem imaginação. Mesmo assim, desconsiderando o mito e suas lições, atuando o mito ao invés de aprender com ele, o governo está sendo reenviado aos próprios limites, depois de uma hybris avassaladora. Pode aprender com a experiência ou se tornar ainda mais defensivo, reducionista e impermeável do que nunca, heróico que é. Pode recolher-se e revisar humildemente seu projeto ou pode botar suas hostes na rua, para matar ou morrer, por não ser capaz de aceitar o funcionamento democrático de uma sociedade pluralista. É espantosa a semelhança entre coronéis de direita e messias de esquerda. Eles são a cobra que engole o rabo. Todavia o sonho acabou e a vida desperta dá muito mais trabalho, ainda mais em meio à crise geral. Para os que ainda não perceberam a extensão dessa calamidade, o impeachment de um presidente é a humilhação generalizada e compartilhada por todos, seus eleitores ou não. Nada a comemorar portanto. O Brasil está de luto mais uma vez, por seu sebastianismo infanto-juventil que, aliás, já vai tarde.

Naum, meu profeta menor

naum 1Hoje morreu Naum, xará de um dos chamados profetas menores do Velho Testamento, que conheci faz exatos dez anos, durante a produção de uma festa em que eu estava envolvida. A arte na escola era o tema do evento. Quando me pediram sugestões sobre o que apresentar, me veio na cabeça, feito um raio, a cena da prova de artes da peça “A aurora da minha vida”, seu maior sucesso de público e crítica e minha favorita de sua obra, por muitos motivos. A Mônica, que naquela época era uma amiga recém-adquirida, saiu no rastro dele e o encontrou posto em sossego na sua casa em Pinheiros, entre gatos e outras coisas bonitas que ele sabia amar, fazer e reunir. Quando cheguei para uma reunião da tal festa, ele já estava lá, sentado na mesa com aquele sorriso de Monalisa estampado na cara. Quase tive um siricotico. Fiquei olhando para ele e sorrindo de volta, do outro lado da mesa, feito uma palerma. Por sorte, ele adorava palermas. Ficamos amigos. Fizemos o roteiro da tal festa juntos. Fui à casa dele uma ou duas vezes e a gente mais falava bobagem, ria e comia salgadinho japonês do que trabalhava. Naum era uma metralhadora de comentários hilariantes que sempre roçavam o catastrófico, o que os tornava ainda mais hilariantes. Tinha um repertório de tipos maravilhosos, que iam de piedosas velhotas perversas a fervorosos pastores gays, uma imaginação incontrolável e um vocabulário bíblico estupendo, fora os hinos estapafúrdios (e também os bonitos), os corinhos dementes, as citações descontextualizadas que, virava e mexia, ele sacava da cartucheira. Naum era de uma incorreção política escandalosa, não haveria de sobreviver muito tempo à estupidez totalitária das minorias militantes. Era uma espécie de irmão mais novo, mais desbocado e muito paulista de Nelson Rodrigues. Só quando o conheci e conversamos um pouco mais foi que descobri que tinha sido ele o trickster que, na aurora dos anos 1980, plantou na minha alma uma semente de heresia que só haveria de medrar bem mais tarde, sob condições atmosféricas muito tempestuosas. Na verdade, conheci Naum muito antes, em 1981, quando fui ver pela primeira de quatro vezes “A aurora da minha vida”, num festival de teatro que rolou no Municipal, com as melhores peças do ano a preço de banana passada. Um luxo impensável para nós, durangos kids. Naum e Maria Adelaide Amaral puxavam o cordão de ouro, ela com “Ossos do Ofício” e ele com “A aurora”. Acho que era o Pessoal do Vitor que encenava a peça dele, porque me lembro do Paulo Betti e da Eliane Giardini bem mocinhos, fazendo o Doido e a Adiantada, entre outros personagens que salvaram a minha alma do limbo do grupo escolar da ditadura aonde ela ainda penava de vez em quando. Aquilo foi pura catarse aristotélica, um milagre de Dioniso. Ri, ri, ri de ficar doente, de doer o peito, de perder o fôlego e também de chorar. OK, todo mundo ria, mas eu ria mais do que todo mundo e até das coisas que pareciam não ter tanta graça assim. Naum, o profeta menor, estava me curando com seu teatro. Depois vieram “No Natal a gente vem de buscar”, com o grupo Pod Minoga, e “Um beijo, um abraço, um aperto de mão”, com o JC Violla e a Cristina Mutarelli, e a magnífica montagem carioca de “Suburbano coração”, com Fernanda Montenegro e Otávio Augusto, peça musicada por Chico Buarque com canções pra lá de inesquecíveis. Eu pensava em como alguém podia ser tão irreverente e tão reverente, tão livre daquele mundo pegajoso e o  mesmo tempo tão acorrentado às suas imagens e recordações. Naum rasurava e demolia sua própria tradição religiosa para reenviá-la ao sagrado, que há muito andava distante dela. Segundo o profeta menor Naum Alves de Souza, o riso era o único caminho para se chegar a Deus. A beleza também, mas quando se tratava dele, riso e beleza eram companheiros inseparáveis. Artista plástico completo, inventivo, original, multimidia, sou a sortuda possuidora de um deslumbrante casaco de shantung vermelho, dourado e laranja todo desenhado (literalmente) por ele, a roupa mais linda do meu armário, comprada por meu marido num bazar de natal que Naum inventou com duas amigas. Da última vez em que estive com ele, numa exposição no espaço de dança do JC Violla, ri, ri, ri de chorar e perder o fôlego, enquanto desfilavam diante de mim seus desenhos deliciosos, bizarros, provocativos, acompanhados de textos engraçadíssimos, absurdos e também canônicos. Sagrado e vulgar, doutrina e loucura, pureza e perversão, todos os opostos se misturam sem nenhuma decência mas com toda compostura, na obra de Naum, histriônico e escatológico como terão sido os verdadeiros profetas, já que sua missão era sacudir os alicerces do estabelecido e convocar o novo, nem que fosse a golpes de malho. Obrigada, querido, pela sua coragem, talento e senso de humor. Obrigado por ter me ajudado a reciclar e ressignificar minha herança protestante. O Brasil atual, das figuras reptilianas que se arrastam muito abaixo da linha da mediocridade, ficou hoje ainda mais babaca. Com tanto estafermo que bem podia bater as botas, vai logo o Naum, logo ele. Uma merda. Vai entender. Parece bem coisa dele.

P.S. – Ontem me lembrei de que o Naum me chamava de menina-pastora, pura gozação baseada numa garota de uns 12 anos que pregava o evangelho no youtube do jeito mais, digamos, heterodoxo.  naum 3

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