Ida e o Pai de Ida

Algo deve morrer. Ou alguém, o que fica mais difícil de dizer em voz alta. Se temos sorte, essa morte será uma metáfora, um aviso pousado sobre a mesa: Cresça! Assinado: Moiras. Ou Saturno, se você gosta de astrologia. Se eles forem gentis, as Moiras e Saturno, saiba que foi por puro acaso. Pode ser um valor ou um relacionamento que deve morrer. Pode ser uma crença, uma fé, um ideal, um projeto, uma projeção, um herói, um deus. Por vezes, uma forma de vida mal abotoa e já se despede. Outra, em plena floração, é arrancada pela raiz. Por outro lado, um cadáver há anos apodrece no meio da sala e nos recusamos a enterrá-lo. Novas possibilidades se dissolvem ao mero contato com o miasma que o cadáver exala. O novo não está autorizado a se aproximar. Nâo pode nem quer. A necrofilia psíquica usa a morte como blindagem, uma desculpa para não viver.

Toda forma de vida carrega consigo sua própria forma de morte. Mal uma forma se insinua no mundo e já aniquilou impiedosamente a anterior. Eis um fato que só nos cabe aceitar: que fertilizantes um dia já foram árvores, frutas, legumes, excremento de animais vivos, ossos articulados em corpos viventes. A alternativa a fertilizar é esterilizar por envenenamento. Tudo phármakon.

Thomas Vinterberg na entrevista do tapete vermelho: desde que vi Druk e soube a história em torno do filme, ele me comove. Talvez pelo quanto me espelha num outro momento, quando eu também perdi uma filha. Não consigo deixar de ser projetiva quando o vejo falando de Ida em cada oportunidade, falando e falando de Ida sem pudor nem autocrítica, falando e falando e foda-se quem achar que isso é mórbido, oportunista, sei lá o quê mais. Quer escutá-lo? Porque ele falará de Ida. Com olhos transparentes marejados e um sorriso que já foi o meu. Ou ainda é. Que forma de vida se seguirá a esse evento inominável para nós, que nos separamos da natureza? Ao que a morte de Ida ainda dará a luz, em sua infinita potência germinativa? Outro filme? Outro filho? Um livro? Um jardim? Se pudesse, eu aconselharia que, recebido o prêmio, Thomas se recolhesse. Eu diria isso a ele, se pudesse, ao Thomas que não tem inclinação para cultuar cadáveres insepultos. Mas que já adotou o culto dos ancestrais, categoria na qual Ida se insere agora. Na entrevista, ele estava acompanhado da esposa pastora luterana que não parou de mexer na linda bolsinha enquanto ele falava. Gosto do paradoxo de uma pastora luterana revirando o conteúdo de uma bolsinha de grife enquanto o marido está sob os holofotes. Será que é ela a mãe de Ida?

Quaresma

Um ano depois, continuamos no mesmo lugar. Ou pioramos. Continua valendo.

Mulher-Esqueleto

“Os 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas até domingo de Páscoa, destinados, pelos católicos e ortodoxos, à penitência; quarentena.”

Novo Aurélio Século XXI, 1999

Não sou católica nem ortodoxa. Nunca fui e talvez tenha perdido para sempre a oportunidade de ser. Contudo sei muito bem em que época do ano estamos, até porque, nos últimos dias, as quaresmeiras do meu bairro deram de ostentar sua glória violácea pelas ruas, todas elas, sem exceção, das quase-mudinhas às senhoras mais frondosas. E confesso que hoje, quando recorri ao Aurélio na tentativa de confirmar o sentido de uma palavra ausente do meu vocabulário, menina de igreja batista que fui, dei de cara com este caso chocante (para mim) de sinonímia.

Quaresma quer dizer quarentena e se refere a um período de quarenta dias corridos em que a penitência é a tônica. Se ainda faltam razões para inaugurar a sua quaresma, o…

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Na Quaresma, um presente de Páscoa

Seis anos depois, o Superstar ainda brilha na minha memória!!

Mulher-Esqueleto

jesus cristo supersptar logoEram 5 horas da tarde de um domingo tempestuoso, como escreveria o Snoopy. Além das nuvens carregadas e do ar abafado anunciando o toró iminente, nós sequer desconfiávamos da batalha de imaginários que estávamos prestes a testemunhar bem ali, no bairro tão cotidiano e tributário de Pinheiros. Contentes e ingênuos, entramos na Ofner da esquina da Coropés com a Pedroso, decididos a fazer hora nos empanturrando com coxinhas e capuccinos. Eu tinha comprado ingressos para “Jesus Cristo Superstar”, a primeira ópera-rock da dupla Andrew Lloyd-Weber e Tim Rice, que fez muito bem feita a minha cabeça de menina evangélica mas nem tanto, nos idos dos anos 1970. Na época em que o espetáculo estreou no Brasil, em plenos anos de chumbo, fui assisti-lo levada por uma prima mais velha e seu marido, que tinha ganho as entradas. Não quero passar por semostradeira; eu tinha sorte, só isso. Teatro Aquarius (quem…

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IMUNIZAÇÃO IRRACIONAL

PRIMEIRA DOSE

Pensando em vacina, me lembrei de que nasci no mesmo ano em que começaram os ensaios clínicos da Sabin em seres humanos: 1957. A gotinha que salva contudo não chegou a tempo de salvar alguns colegas do grupo escolar onde eu fingia estudar e um ou outro companheiro de brincadeiras na rua. Quando a gente convive, na infância, com crianças sequeladas de poliomielite, é muito difícil entender o que se passa na cachola de um ativista antivacina. Testemunhar a recente aterrisagem dos terraplanistas pode ser de alguma ajuda. Afinal sempre podemos piorar. E pioramos. Segui pela vida tomando as vacinas que foram sendo inventadas, incluindo uma cubana contra meningite menigocócica meio suspeita. Eram os tempos de ditadura militar, então pode ser que a dita suspeição já fosse um caso precoce de fake news. Como passamos ilesas pelo surto dos anos 1970, ela deve ter funcionado. Meus sensatos pais nunca se revoltaram contra as vacinas, graças a Deus. Viram coisas horríveis demais em suas infâncias e adolescências para arriscar nos expor a tuberculose, varíola, difteria, tétano e outras doenças que haviam matado ou marcado tanta gente conhecida deles.

Mudando de pato para ganso, hoje de manhã me dei conta de uma vacina que eu nem sabia que tomei, mas que me imunizou contra outro tipo de contaminação menos explícita porque não física, embora não menos debilitante. Quero dizer que ninguém me vacinou com ela em sã consciência, ou talvez até tenha vacinado em sã inconsciência, o que pode mesmo ter potencializado o seu efeito protetor. O vetor foi Monteiro Lobato. O fator imunizante foi a mitologia grega. Sei que não estou usando os termos corretos mas, como isto é um delírio, a terminologia não faz a menor diferença. Aquela foi a minha imunização irracional, uma brincadeira mui piedosa que faço com a religião que tentou enquadrar o Tim Maia num certo “caminho do bem”. E que ele acabou detonando, salve, Tim!

Descobri hoje que foi meu pai quem começou meu processo de imunização irracional. Ele me aplicou a primeira dose. Ele foi uma espécie de vacina Salk (essa eu também tomei), preparando meu sistema imune psíquico para alguns dentre os agentes patogênicos que haveriam de chegar. Para começar, meu pai resistiu bravamente, como um estóico selvagem, a todas as investidas da religião de minha mãe para salvá-lo e desse modo garantir uma suíte de casal num resort do céu. Naquele planeta onde a gente vivia então, estar num “casamento misto” era uma saia justa, tipo um louva-deus ser casado com um espanador de pó. Minha mãe, tadinha, tinha uma crença ingênua de que a conversão de meu pai iria transformá-lo num marido do tipo que se pode exibir às amigas da sociedade de senhoras (meu pai era lindo), que carrega uma bíblia e canta no coro da igreja (que lindo que ele haveria de ficar, envergando uma beca verde com sua voz de barítono…) e que usa terno aos domingos (por baixo da beca verde). Meu pai, que usava terno de segunda a sexta e se recusava a botar gravata e paletó aos sábados e domingos (casual days em que ele trabalhava feito louco), agiu com a serenidade de um discípulo de Gandhi, coisa que não ornava em absoluto com seu sangue calabrês. Ele disse não e continuou dizendo não, com elegância e dignidade, por décadas a fio, até que minha mãe desistiu da empreitada.

Eu sentia um grande constrangimento pelo assédio proselitista que meu pai sofria, pressionado a aceitar Jesus e ser arrolado no seu rebanho de homens de terno, o que não fazia o menor sentido, considerando que Jesus usava túnicas brancas longas e pregueadas como peplos gregos, com faixas coloridas sobrepostas. Eventualmente a gente recebia em casa visitas piedosas, dirigidas à alma perdida de meu pai. Me incomodava demais, mesmo eu sendo uma menina, que esse proselitismo acontecesse nos seus muito raros dias de folga. Me incomodava ainda mais que minha mãe não participasse da conversa, ela que parecia ser a maior interessada. Mais tarde, descobri que ela também se constrangia por ele. E como era chata aquela conversa, sem nenhuma espontaneidade, burocrática, pontuada de citações bíblicas, mais ou menos apimentada com ameaças veladas de passar uma eternidade fritando no fogo do inferno. Aliás aquilo não era uma conversa. Era um mini-sermão tedioso e repetitivo. Raros foram os visitantes que quiseram saber de verdade quem ele era, o que fazia, que problemas tremendos tinha de enfrentar todos os dias.

Mas havia as exceções, sempre há. O teste de meu pai era oferecer um cálice de licor ou vinho do porto à visita, essa pessoa que, além de visar a salvação da alma dele, também pretendia engordar sua conta na poupança das almas e assim, quem sabe, fazer um up-grade no próprio plano de milhagem. A maioria recusava a oferta, afetando uma pureza educadamente enojada, alguns de olho comprido no cálice de meu pai (porque só bebendo mesmo). Em geral tomavam um café – isso porque não eram adventistas. Um ou outro aceitava o porto. E eram esses que geralmente abandonavam o script, mesmo porque meu pai os tinha enredado na tentação do álcool e virado o jogo a seu favor. Era quando eles se tornavam amigos. Com o tempo, esses amigos incidentais passaram a vir almocar em casa aos domingos, quando tomavam vinho escondido, como se fossem garotos de 5 anos. Meu pai amava desempenhar esse Mefisto. Certa vez, uma digníssima diaconisa emérita (a quem meu pai já tinha desviado do caminho estreito e que até dava garrafas de vinho de presente a ele) estava num dos concorridos almoços dominicais de nossa casa. Um desses amigos chegou e meu pai lhe ofereceu uma taça de vinho. Ele recusou: como podia beber na frente daquela lenda viva do protestantismo histórico? Meu pai então ofereceu a taça a ela, que aceitou com entusiasmo. E piscou para o ex-doutrinador agora seu amigo, antes de oferecer-lhe outra taça. E propor um brinde a três.

“No cemitério é bom de passear”: um memento para o Dia dos Mortos

Mulher-Esqueleto

Eu tinha dez anos e cursava o ginásio no instituto estadual de educação. Aquilo era a morte. Escola era a morte. Ficar dura, quieta, ouvindo a professora vociferar ou então falar com voz hipnótica, para boi dormir. Era ou medo ou sono, ainda mais no período da tarde, que era o meu. Eu odiava aquilo de ter de ficar ouvindo, ouvindo sem entender nada. As professoras falavam grego – arcaico a de matemática. Eu me sentia tão burra, mas tão burra que nem pergunta eu sabia fazer. Ou até sabia, mas… e se eu fizesse a pergunta errada? De vez em quando, alguém perguntava uma besteira e levava bronca, era humilhado na frente de todo mundo. E a gente ainda ria do coitado que perguntava o que a gente não tinha tido coragem de perguntar. Melhor ficar dura e quieta e me fingir de morta e esperar aquela eternidade terminar. Porque…

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Decameron Parte 1

Li o Decameron de Giovanni Boccaccio (1313-1375) numa edição de 1970 dos Clássicos da Literatura Universal, da Abril Cultural. Embora fosse universal essa literatura, não me lembro da coleção incluir algum contista marciano ou novelista saturnino. É que, mesmo depois de Copérnico, continuamos a acreditar que a Terra é o centro do universo. Enfim eu comprava os livros vermelhos de capa dura na banca de jornal em frente ao ponto de ônibus perto do Instituto de Educação Estadual Prof. Roldão Lopes de Barros, onde cursava o antigo ginásio. Muito lanche fiquei sem tomar ou tomei pela metade, a fim de juntar dinheiro todo mês para sustentar meu capricho. Não me fez nenhuma falta essa comida literal. Em compensação, a comida literária que esses livros me propiciaram continua a me alimentar com ambrosia e néctar, 50 anos passados.

O Decameron está entre os meus livros favoritos, da coleção e da vida inteira. Boccaccio foi um dos sobreviventes da epidemia de peste bubônica mais conhecida como Peste Negra que, durante o século 14, matou um terço da população da Europa, marcando o fim da Idade Média e abrindo caminho para o Renascimento. Quando a doença refluiu, depois de chacoalhar os alicerces do mundo medieval, iniciou-se um dos períodos mais criativos, divertidos, paradoxais e ousados da História da humanidade. O que me inclina a pensar que essa possibilidade também estará contemplada no mundo pós-coronavírus. É cedo para dizer, porque estamos no prelúdio da experiência e ainda vou escrever muitos posts de quarentena, estejam certos disso. Quem viver, verá e se tiver uma centelha de Boccacio no sangue, também fará.

Mas voltemos ao Decameron ou Deca ou Dequinha, apelidos que eu e a minha amiga e orientadora Rosinha demos a ele. Apesar de ter perdido pai, madrasta e uma filha pequena para a doença, Boccaccio elaborou seus lutos e as perdas de toda sorte escrevendo essa maravilha. Deve ter carpido muito seus mortos, se descabelado de dor e desespero, passado uma ou mais temporadas no inferno. Como forma de superação alquímica, porém, ele escolheu narrar. E em sua obra, longe de descartar a merda toda, soube transformá-la em ouro. Eu, que li o Deca entre 13 e 14 anos e o reli muitas vezes pela vida afora, tenho me lembrado dele todos os dias, desde que a pandemia do coronavirus começou, mais ainda quando ela recaiu sobre a Itália do século 21 com a violência de um flagelo medieval.

Me lembrei também de minha visita à Toscana, quando conheci Certaldo, a cidadezinha onde Boccaccio nasceu e voltou para morrer, 62 passados, minha idade. Certaldo Alto, onde a gente chega de funicular para visitar a casa encantadora e o túmulo. Foi uma dica da Graziella, que preparava o café da manhã no nosso B&B e com quem entretive ótimas conversas em dialeto babélico. Quando soube que eu amava Boccaccio e o Deca, ela imediatamente me pôs no caminho. Os livros amados fazem isso: promovem encontros, abrem portas, inauguram linguagens, nos põem no caminho. Hoje vou parar em Certaldo. Primeiro ao lado da laje de mármore entalhada com o relêvo do corpo de seu ocupante, em cujos pés depositei um buquê de florzinhas colhidas no mato ao redor. Depois tomando uma taça de vermentino e vendo, lá do alto e de mãos dadas com o Edu, o sol se pondo sobre os campos toscanos. Tempo bom.

Quaresma

“Os 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas até domingo de Páscoa, destinados, pelos católicos e ortodoxos, à penitência; quarentena.”

Novo Aurélio Século XXI, 1999

Não sou católica nem ortodoxa. Nunca fui e talvez tenha perdido para sempre a oportunidade de ser. Contudo sei muito bem em que época do ano estamos, até porque, nos últimos dias, as quaresmeiras do meu bairro deram de ostentar sua glória violácea pelas ruas, todas elas, sem exceção, das quase-mudinhas às senhoras mais frondosas. E confesso que hoje, quando recorri ao Aurélio na tentativa de confirmar o sentido de uma palavra ausente do meu vocabulário, menina de igreja batista que fui, dei de cara com este caso chocante (para mim) de sinonímia.

Quaresma quer dizer quarentena e se refere a um período de quarenta dias corridos em que a penitência é a tônica. Se ainda faltam razões para inaugurar a sua quaresma, o Aurélio desenha: este é um tempo de reflexão, arrependimento, introversão, revisão, recolhimento, reparação. Coisas aliás com as quais não queremos nos haver de jeito nenhum. Estados da alma que, se se aproximam de nós por qualquer motivo, logo espantamos com um comprimido de antidepressivo, duas doses de gin tônica, algumas fotos esfuziantes postadas no Insta e várias publicações triunfais no FB. Nossa vida desventrada, superexposta, carente de compostura e discrição, vazia de centro, não suporta imaginar que, mais dia menos dia, terá de enfrentar o quartinho de despejo embolorado de nosso mundo interno. Deus nos livre de carpir o matagal atulhado de lixo em que se transfomou nossa alma! Para fora e para cima, é só aonde queremos ir.

Só que agora virou. Você não escolheu. Você foi escolhido. Para dentro e para baixo nos leva esta quaresma, que compensa um excesso com outro igualmente descompensado. A natureza não é fofa, muito menos politicamente correta. Acabou o carnaval da locomotiva econômica chinesa, das hordas neobárbaras de turistas, da produtividade patológica, do consumo desmesurado. Como na tradição, o carnaval parece ter convocado seu próprio remédio em dose global e que está, inclusive, matando o paciente, esta incorrigível humanidade. Num tempo de contrição e isolamento forçado, as únicas frágeis estratégias de proteção de que dispomos, meditemos um pouco sobre a quaresma e seus símbolos melancólicos. Se formos capazes de formar massa crítica, talvez sejamos premiados, ao final, com o renascimento promissor da Páscoa. Antes porém, teremos de enfrentar as roxas angústias da Paixão. Com sorte, haveremos de tirar alguma lição deste perrengue.

Carta a Papai

MInha Irmã Anacris escreveu no aniversário de 93 anos de Pedrinho, Pietro, Pedro: nosso pai.

E eu assino embaixo.

L’esprit de l’escalier

L’ésprit de l’escalier é uma expressão que me representa demais. Jô Soares, quando era engraçado, tinha um quadro muito bom sobre o tema no programa Viva o Gordo. Nele, o personagem era destratado por alguém e, primeiro ficava mudo e paralisado, para, assim que o bully saía de cena, se dar conta da violação e ter mil ideias geniais de como responder à altura dela. Quer dizer: a resposta perfeita, a reação justa e reparadora só chega quando você já está descendo a escada de rabo entre as pernas. Posso levar anos descendo uma escada, antes de ser acometida por umésprit de l’escalier. Mas um dia ele chega. Muitas vezes, enquanto durmo. Um caso clássico: passei mais ou menos dois anos me responsabilizando pelo tratamento inaceitável e injusto que recebi do coordenador de um workshop do qual participei. Repito: demorei em torno de 24 meses para perceber que o coordenador, e não eu, tinha sido inadequado e narcisista, ainda mais levando em conta a posição que ocupava naquele contexto. Passado o evento, continuei a agir normalmente com ele, chegando ao absurdo de prestigiá-lo como coordenador de outro grupo (pasmem!), sem me dar conta do tamanho do estrago que ele me causara. Meses depois, tomada por um sentimento inexplicável de desconforto, larguei o grupo, porém sem saber direito porque o fazia. Foi então que do nada, de repente, que nem aconteceu com o Visconde de Sabugosa no pomar de dona Benta, fui soterrada por uma jaca madura, despencada do galho mais alto da jaqueira. Faz alguns anos, acordei de manhã e um ésprit de l’escalier baixou. Antes de me levantar da cama, e incapaz de me lembrar do sonho que certamente tive, eu revi, em câmera lenta e de trás para a frente, o incidente em todos os seus detalhes. Minha ingenuidade servil e masoquista se desnudou ali mesmo, como a névoa se desvanece na Imigrantes e desnuda a estrada que se estende diante de nosso carro em movimento. Naquele momento em que um daimon, impaciente com minha lerdeza, suspendeu enfim uma névoa que durava dois anos, tive vontade de preparar uma torta com a jaca, esperar o fodão em algum lugar estratégico e esfregar a torta na cara dele. Foi chocante, pedagógico, libertador. Até então, aquele episódio era uma espécie de buraco negro, a história contada por um louco, cheia de som e de fúria que não se encaixava na minha experiência. Até a chegada de l’ésprit de l’escalier, de capa e espada, para me salvar. O bom de ser aluna da escolinha do doutor Jung é que a gente sempre pode contar com os efeitos reparadores de uma sessão caseira de imaginação ativa, para acertar esse tipo de conta pendente. Graças a esse expediente altamente terapêutico, eu disse ao estafermo tudo o que pensava dele, de seu comportamento execrável e de sua coordenação equivocada, para então seguir na estrada da floresta um pouco menos chapeuzinho vermelho do que antes. Talvez também, espero, mais capaz de convocar o kairós da reação imediata, justa e reparadora, concomitante ao dano. E se o kairós não rolar, ainda assim sei que poderei convocá-lo mais cedo ou mais tarde, usando para isso o maravilhoso expediente retardatário de narrar e reparar, mal e mal imitando Ian Mc Ewan e Amos Oz. Que é o que acabo de fazer aqui.

Coringa: um post repleto de spoilers

“Quanto quis tirar a máscara, estava colada à cara.”

Álvaro de Campos

 

Quantos anos terá Arthur Fleck, o homem-criança a quem Joachim Phoenix emprestou corpo e alma para fazer o Coringa baixar, magnífico, na tela do cinema? Oito anos? Dez talvez? Certamente não mais que doze, porque ainda não viveu sequer a iniciação dos treze anos à adolescência, não passou pelo bar-mitzvá. Arthur nem mesmo é Arthur. Ele é Happy, um menino frágil, meigo, doce e um bocado esquisito também, um pagem encruado à serviço da Mãe, ela ainda mais frágil, meiga e doce do que ele, a única criatura neste mundo mau que parece valorizá-lo, amá-lo e aceitá-lo tal como é. Oh, a aceitação indiscutível de mamãe… quem não a conhece, que a compre… A maravilha do roteiro de Coringa, o filme, são as camadas, densas, múltiplas, variadas, camadas que vão se desvelando e ficando mais escuras à medida que o mito da Deusa e seu Filho consorte avança, arrastando consigo um cortejo de outros mitologemas, todos tão arcaicos quanto poderosos. Você pode ficar retido na camada mais externa, a do melodrama militante com veleidades rosseaunianas de crítica política e social, uma camada que definitivamente está lá e está na moda, embora não demande muita reflexão, até porque é basicamente projetiva. Nela você vai encontrar todos os clichês da hora, aqueles que confirmam o quanto você é legal, politicamente correto, solidário, nada preconceituoso, até mesmo um usuário irregular de Rivotril, olha só. Quase todas as resenhas que li ficaram presas nessa superfície pega-mosca, vociferando no deserto contra a lista usual de malvadezas que a humanidade pratica desde que fomos expulsos do Jardim do Eden, já faz tempo. Discurso inócuo. Será uma pena se você também resolver patinar com o rebanho nos clichês bom-mocistas que aliviam sua consciência, recusando-se a descer com Happy até o porão do Asilo Arkham, onde repousa, ocultado nas sombras fervilhantes de vida do arquivo-morto, o lado B de sua delicada e delirante mamãe, a que o chama por esse codinome maldito e o diagnosticou, em casa mesmo, como portador de uma “condição psiquiátrica”. Lá embaixo estão guardadas as lembranças, convenientemente apagadas por Happy, da loucura que o ata a essa mãe com o fio implacável das Moiras, do estigma que ambos compartilham, a mácula (fleck) de seu nome de família. O Pai arquetípico do herói mitológico (que não tem nada a ver com o estereótipo aguado do herói que nossa cultura cultua) emerge, ele também, como um sujeito arrogante, um ego superinflado, idealizado pela ex-amante e depois pelo próprio filho bastardo. O sr. Wayne encarna a divindade masculina indiferente, sedutora e elusiva, que inseminou a mulher mortal, renegou sua cria e subiu de volta ao topo, para onde ela, trinta anos passados, ainda envia cartas ansiosas, na esperança de ter acesso a algumas migalhas da opulência dele. O anfitrião do programa de entrevistas, personagem benevolente das fantasias infantis de Arthur, encarna momentaneamente um sucedâneo do Pai até revelar a faceta pragmática por trás de tanta empatia.  O colega palhaço mais velho, outra figura paterna que o chama de “meu garoto”, conta com a ingenuidade pueril de Arthur para pregar-lhe uma peça malévola e desestabilizá-lo ainda mais. Feminino e Masculino adultos são igualmente perversos, nada confiáveis, dementes em graus diversos no filme de Todd Phillips. Afinal estamos em Gotham City, a suprema distopia urbana onde o único homem decente é um anão e a única mulher acolhedora é uma alucinação. Todos os adultos, incluindo-se as duas psicoterapeutas com suas pautas monótonas, impotentes e irrelevantes, merecem ser aniquilados. Quanto às figuras parentais, essas serão eliminadas uma a uma, de modo literal, na medida em que Arthur não é capaz de separar-se psicologicamente delas para seguir seu próprio destino, rumo à vida adulta. Ele não tem escolha. É o clássico herói trágico, um joguete do destino – o genético e o biográfico -, um peão manipulado pelos deuses que o puseram no mundo e o traíram, que é o que todos nós, pais, fazemos com nossos filhos, até quando os cumulamos de privilégios (e mais ainda, quando o fazemos). Isso depois de termos sido traídos pelos nossos próprios pais, remontando assim, de novo, até o Jardim do Eden. O coringa, trunfo do baralho por excelência, a carta número zero e que, apesar de ou graças à sua valência nula, pode substituir qualquer carta, é a grande ausência no mito de Arthur Fleck. O que falta a Arthur é a resiliência do Louco do tarô, que precisa superar seus sofrimentos, ultrapassar seus genitores, esgarçar as projeções deles sobre si e assim expor a humanidade escondida por trás das máscaras aparentemente divinas. Arthur escolhe a máscara, em detrimento de seu próprio rosto. Se Happy não é ninguém, o Coringa tampouco é alguém. Ambos cumprem o destino que os pais de Arthur lhes impuseram, estão identificados com suas personas trágicas, sem que nenhum ego tenha coagulado por baixo delas, sem que Arthur tenha tido sequer uma chance de se diferenciar de Happy antes de ser avassalado pela sombra que o Coringa representa. Sem que seu estigma o tornasse um ser humano único, irrepetível, um pouco como a cicatriz de lábio leporino e aquele incisivo recuado típico fizeram com Joachim Phoenix.

 

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