Ler, varrer, equilibrar

O artigo do Estadão de ontem (20-05) se chama “Troca-se serviço doméstico por leitura” e me fez lembrar dos tempos do mestrado. Quando minha cabeça começava a ferver, eu ia recolher e dobrar a roupa lavada, varrer o quintal, regar o jardim, fazer um bolo. Só no doutorado fui aprender a teoria, com Gilbert Durand. Trajetividade é a arte de oscilar entre dois polos, yin e yang, masculino e feminino, um e outro, excepcionalmente um ou outro, mas somente por breves períodos, porque toda unilateralidade é neurótica. Então era isso que acontecia comigo. Minha alma pedia equilíbrio. A partir daí, comecei a pendular conscientemente. Do tanque para o computador, do livro-cabeça para o fogão, da correção das redações para a lida com as plantas, das planilhas de avaliação para o varal, da espada para a vassoura…  Lendo o artigo, conclui que as moças que conceberam o projeto, atrizes da Coletiva Ela, devem ganhar tanto quanto as donas de casa a quem se oferecem para fazer o serviço doméstico de graça, enquanto as segundas leem. Eu diria que se trata de preservar o sagrado direito das mulheres ao bovarismo, se os livros propostos fossem romances e escolhidos pelas leitoras. Como se trata livros “didáticos”, tipo “Mulheres, raça e classe”, da Angela Davis, ou seja, formadores de seres militantes e não de seres devaneantes, não é o puro prazer de ler que se quer estimular. Para mim, poucas coisas são tão transgressivas quanto largar o serviço (qualquer serviço) para ler um romance. Aliás se Charles Bovary não guardasse Ema numa redoma e ela tivesse de alvejar, engomar e passar as próprias anáguas talvez a vida não lhe pesasse tanto.

E quando digo que as moças da Coletiva ganham tanto quanto as donas de casa com quem trocam de lugar, quero dizer que, no trajeto, essas moças que (imagino eu) foram à universidade, leem livros-cabeça, discutem usando o jargão ideológico-acadêmico e acreditam que a razão lógica é o topo da cadeia alimentar) devem se beneficiar um bocado quando se dispõem a cuidar do cotidiano horizontal, arrumando a casa, organizando a louça, passando a roupa, lavando o quintal, vivendo o presente absoluto da rotina perene dessas eternas cuidadoras da vida. Não há vida possível sem o trabalho diário, cíclico e infinito das donas de casa. Nem reflexões, nem teses, nem livros, nem artigos, nem nada que preste, já que toda(o) intelectual tem de comer, se vestir, viver numa casa minimamente habitável etc. Toda(o) pensador(a) depende da regência da vida tal como executada por uma dama de Ouros (o naipe da realidade concreta). É ela que garante o bom andamento de uma tarefa de Espadas (o naipe da vida mental). Liberar as donas de casa de sua faina gloriosa, ainda que por algumas horas, deve ser considerado não só uma honra, mas também uma oportunidade cada vez mais rara de aprendizado. Desse ponto de vista, não aprendem apenas as donas de casa com a douta Angela Davis e suas discípulas. Aprendem também – e muito – as discípulas de douta Angela Davis com as donas de casa. Desde que minha querida funcionária se aposentou, há 5 anos, vivo cada vez mais esse movimento pendular calibrador. Escudada pela minha faxineira semanal e apoiada pelos dois homens feministas que comigo dividem as tarefas, pude enfim tomar pé do meu território doméstico. E como amo desencardir uma fronha branca! E que deleite arrumar uma cama com capricho! E como alivia meu cabeção congestionado com leituras chiques preparar um almocinho gostoso! Que sorte têm essas moças, caso estejam mesmo abertas a experimentar a outra polaridade e desde que não se sintam superiores por imaginarem que o trabalho intelectual é superior ao trabalho doméstico! No meu entender, um título mais adequado para a matéria do Estadão de ontem seria “Troca-se serviço doméstico por leitura e leitura por serviço doméstico”. Há equidade nessa reciprocidade. Há uma proporção que honra Maat, a deusa egípcia da justiça. Ainda assim, eu diria, se acaso me perguntassem: mais romances, por favor. E mais liberdade de escolha. Porque se tem uma coisa que as donas de casa merecem é ter liberdade de escolha.

P.S. – Uma amiga que leu este post me escreveu ontem recordando que o psiquiatra da mãe dela costumava dizer que lavar um pouco de roupa no tanque todos os dias ajuda a manter a saúde mental. O que comprova minha hipótese sobre Ema Bovary e sua roupa de baixo.

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Páscoa

Mulher-Esqueleto

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Quem me conhece bem, sabe que, de todo o calendário canônico, a Páscoa é minha data favorita. Amo a Páscoa tanto quanto detesto o Natal, e por muitas e diferentes razões. Creio, porém, que o que mais me agrada na Páscoa é seu sincretismo, a recusa dessa festa a ser reduzida a uma única tradição e a um sentido de mão única. Nenhuma festa cristã é mais acolhedora das tradições pagãs, nenhuma é tão tolerante a imagens originárias de outras mitologias, nenhuma (fora as queridas festas juninas, recentemente demonizadas pelo protestantismo evangélico) é tão aberta e permeável ao folclore popular. Infelizmente, porém, aqui no Brasil, pelo menos, há muito tempo as crianças já não escutam de seus avós e pais as histórias que iluminam a Páscoa e a retiram da agenda do mercado para devolvê-la à da imaginação, que fertiliza a tradição, renovando seus significados e encantando com eles a vida cotidiana. Eu poderia ter…

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Voltar

Quando Mercúrio regride, ele me convida a andar para trás. A re-imaginar o passado, organizar documentos, rever decisões, limpar armários e estantes, desentupir ralos, revisar textos, reler livros queridos e velhos cadernos de sonhos, retomar projetos arquivados, rever filmes, superar convicções, abandonar ilusões, desmanchar diques, deixar o rio seguir seu curso. Nessas viagens de ré, acontece de eu reencontrar pessoas ou delas me reencontrarem. Posso também retornar a lugares em que vivi e que abandonei, concretos e abstratos, prédios, fantasias, visões de mundo… Morei em muitos lugares nestes 60 anos. Tenho aparência sedentária, mas minha alma é dada ao nomadismo. Habitei diversas casas que, de repente, viraram o “quarto do pânico”, blindado e claustrofóbico. Perdi a conta das peles ressecadas que soltei, não sem alguma dor, ao longo do caminho. A alternativa é estagnar, contudo Mercúrio não deixa. Ele me impele a revolver ruínas solenes, por vezes só mesmo a destinar algum entulho vulgar para o aterro sanitário. Hermes Psicopompo me guia nessas expedições a velhos sítios abandonados e o que já parecia esgotado de tão remexido ainda rende alguns achados de valor. Às vezes, retorno por escolha consciente. Outras, sou despachada de volta sem aviso, intempestivamente, por meio de um sonho, um encontro imprevisto, uma sincronicidade. E lá vou eu andar para trás, qual caranguejo, recobrar um fragmento perdido de quebra-cabeça, um lindo caco de vaso, uma ponta de flecha sem uso… “Tudo para mim é viagem de volta”, escreveu Guimarães Rosa. À medida que envelheço, tendo a concordar cada vez mais com ele. Cada passo para a frente que dou, sou manobrada pela vida de modo a dar dois ou mais passos para trás e assim me fincar nas profundezas da vida, aonde a morte aguarda. Refletir, revisar, retroceder, reavaliar, recuperar, reparar, re, re, re. Para morrer de coração leve, como aconselham os egípcios, tão leve quanto a pluma de Maat. A trajetória progressiva e ascendente rumo ao céu de qualquer monoteísmo, ao paraíso do proletariado, ao nirvana, ao futuro radiante ou sei lá que outra fantasia evolucionista, sempre me pareceu uma enganação do espírito para aniquilar a alma e seu peso, sua tendência a deprimir e aprofundar, justamente aquilo que nos dá sustança, que nos ancora no mundo, que nos torna livres e nos iguala pelo substrato daquilo que somos. Na iminência da Páscoa, Mercúrio começa a regredir. E vai até dia 15 de abril. Aproveite o movimento.

 

 

Gato

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Já faz uma semana, recebi um aviso. Para ocupar o nicho da deusa rotativa que integra meu altar doméstico – uma imagem do sagrado feminino que troco a cada domingo –  veio Bast, a deusa-gata egípcia. Ela me disse com clareza, ronronando: INDEPENDENTE. Foi preciso desenhar para eu compreender. E quem desenhou foi Carlinhos, meu amado raja, nariz-de-goiabinha, lucinho-pelucinho, Caco, o mais doce, terno, meigo, delicado entre os felinos, meu bebê-gato de 10 anos. Estava muito doente desde o carnaval de 2015, com meio rim funcionando de pura compaixão por nosso apego doentio. Não morreu há três anos, porque nos recusamos a aceitar a brevidade de sua linda vidinha. Internado para tratamento intensivo, Caco se enfureceu, reuniu toda a saúde da alma selvagem que resistia em sua alma felina e atacou os veterinários da UTI com garras e dentes que não sabíamos que ele tinha. Recebeu alta imediata de uma felinóloga de braços ferozmente arranhados e juramos que nunca mais o submeteríamos às torturas da ciência médica. Como bicho, ele contava com essa vantagem sobre nós, humanos. Essa foi a primeira manifestação de uma deusa-gata selvagem no dócil Caco: Sekhmet, a irada cabeça-de-leoa. Faz exatamente três anos. Aconselhados por uma veterinária sábia, ela também adoradora de gatos, adotamos um protocolo de florais e homeopatia, vitaminas e um pozinho branco mágico que a gente comprava na Amazon e amigos piedosos aceitavam trazer na mala, quando viajavam aos EUA. Duas vezes por dia, eu ministrava o ritual que ele suportava estoico (Caco era um estoico da linhagem do grande Marco Aurélio). Outra devota de Bast nos ajudava a cada 15 dias, aplicando uma fluidoterapia incômoda, que o deixava aflito por fazer desaparecer depressa, com lambidas prestimosas, a bolinha de soro que crescia em sua barriga. Bobinho querido, ele vinha quando o chamávamos para tomar os odiados remédios… Os bobinhos vivem mais do que os espertos, dizia a veterinária. No final, porém, o bobinho revelou-se mais esperto que todos nós.

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Passamos dias lindos na praia no derradeiro janeiro de Caco. Ele amava a casa, o gramado, a liberdade usada com sabedoria pelos gatos, de explorar o entorno sem nunca perder o rumo da voz do dono (que imbecil inventou que gatos não amam as pessoas?). Estava feliz, comendo bem, bebendo muita água, subindo nos troncos dos coqueiros, tirando longas sonecas no beliche e em colos cuidadosamente selecionados, suportando o banho, a medicação e a antipatia de sua bully-mor, Zelda, com a mais estoica das elegâncias. Era a despedida e a gente aproveitou-a intensamente, ainda que não soubéssemos que era. E como a gente nunca sabe, melhor é desfrutar o bom e suportar o ruim com o savoir-vivre de um felino, em nome da beleza e da integridade. Foi na quarta-feira de cinzas que ele sumiu, dia ruim de uma semana cheia de más notícias e eventos funestos, portal da quaresma. Caco não entrou pela janela do meu escritório miando, para nos acompanhar no café e ganhar a tirinha de presunto, duvidoso prêmio por tomar os remédios sem cuspir. Na semana anterior, ele tinha começado a vomitar e havíamos incluído mais um comprimido no já extenso repertório. Ele odiou, mas suportou sem se queixar. Não veio mais tarde acompanhar a faxineira na sua faina pela casa e pedir para beber água na torneira do tanque. Não veio quando chamamos, cada um do seu jeito, com assobios e entonações variadas. Não ouvimos o barulho de sua aterrisagem no telhado, não ouvimos seu miado longo e forte, avisando: Estou indo! Choveu, esfriou e ele não veio se enrodilhar no sofá do escritório, nem me fazer companhia, embolado sobre a impressora. Simplesmente não veio. Nem à noite, nem no dia seguinte. Confeccionamos cartazetes com a foto dele, nossos celulares, espalhamos pelos postes da rua… Ele trazia no pescoço uma coleira com sua medalhinha de identificação e meu telefone gravado, então, quem sabe… Choramos, continuamos chamando, mas acentuou-se o vazio da sua linda presença rajada em nossa vida. Até a rainha Zelda inquietou-se, pero no mucho. Hoje de manhã fui trocar a deusa rotativa, para a qual reservo um espaço no meu altar doméstico, entre Kuan-Yin e Notre Dame de Chartres. Tiro-a dentre as cartas de um oráculo do feminino divino que ganhei de uma amiga-irmã. Aos domingos, agradeço à deusa que tirei há uma semana, e sempre observo que a energia dela, a imagem dela, seus atributos me visitaram de algum modo e fizeram diferença. Medito diante dessa imagem todos os dias, uma entre deuses e mortos queridos, cuja presença não literalizo e que me aconselham e inspiram. Foi quando Bast, antes de ser trocada por Ísis, me ronronou ao ouvido : INDEPENDENTE. Irene já tinha me contado que bichos domésticos por vezes se afastam de casa para morrer, porque sua sabedoria selvagem, o instinto que perdemos, lhes orienta a não atrair aves comedoras de carniça para perto do lugar aonde viveram e dos seres que amaram. O mais doméstico dos felinos, meu amado raja Carlinhos, lindo e delicado, foi totalmente selvagem e livre quando escolheu não ser mais incomodado por nossa ansiedade e morrer como um gato de verdade. Sua independência foi puro amor.

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Água

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O cinema é minha igreja, quem me conhece já sabe. Meu jardim também é, e o ateliê onde trabalho também, mas são igrejas diferentes, coisa de politeísta. O cinema é o templo amplo, público, repleto de gente que não conheço e que tanto pode estar em busca de uma visão quanto de um lugar pra tirar uma soneca ou dar uns amassos. É o lugar da escuridão que oculta o cotidiano banal enquanto levanta uma pontinha da cortina do mistério, o suficiente para deixar algum sentido escapar. Claro que o filme que a gente vai ver faz toda a diferença. Afinal homilia é homilia e se o pregador não presta, a gente, se sabe, nem aparece, se não sabe, puxa o carro discretamente, na primeira batatada que escuta. Se o filme é do Guillermo Del Toro,  sei que a homilia vai ser uma maravilha. Tem gente hiperrealista (do tipo que não sai do FB, sabe?) que reclama que o cinema do Del Toro é fantasioso demais. Eu já acho que fantasiosos são o telejornal e a reunião de condomínio. Claro que a fantasia de Del Toro é deslumbrante, ao contrário da lixarada do telejornal e da reunião de condomínio. A imaginação é a praia onde ele surfa com coragem, graça e competência, o lugar onde ele e o oceano do inconsciente coletivo se encontram, para fabular. Além de caprichar na verossimilhança interna, Del Toro reflete (sobre) a realidade com a profundidade de quem domina a metáfora, lindamente produzida e filmada, a mesma que nos dá acesso aos semitons da experiência e assim recusa os engajamentos reducionistas, sejam da natureza que forem. Entendo e lamento que devotos do Realismo racionalista, seja ele socialista ou capitalista, sofram de deficit de imaginação, nada mais natural. Não estão equipados para ver a A Forma da Água. Se você for um deles, aceite essa limitação, vá ler um site de notícias e me deixe em paz agora mesmo, por favor.

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Um mito. Um conto de fadas. Um filmão dos anos 1950, revisitado, desdobrado em camadas, ampliado e aprofundado. Há um deus do rio, raptado, acorrentado e violentado por um monstro pragmático e arrivista. Há também Sally, a Melusina suburbana, uma imagem pinçada direto da lenda medieval (Del To-ro! Del To-ro!Del To-ro!). Foi a música de Alexandre Desplat, bem francesinha e com direito a Madeleyne Peyroux cantando La Javanaise, que me levou direto a Melusina. Há o vizinho artista gay adorável, gateiro, que envelhece contrariado e anda à procura de um amor, nos tempos da cólera. Há a amiga da faxina diária no laboratório, faladeira, pau pra toda obra, protetora, farta do marido inútil. Essa me diz respeito porque seu nome do meio é Dalila, como o meu. E há o agente comunista, um espião-cientista mais cientista que espião, um homem íntegro que terá de fazer uma escolha afinal. Uma “comunidade de destino”, como diria Morin, todo mundo vivendo no porão do navio. Motivados pelo amor, a amizade, a “ciência com consciência”, eles desviarão o curso da narrativa, que passará de mística a heroica sem perder seu delicado equilíbrio. O monstro arrivista e pragmático é ferozmente protestante e iconoclasta. Para ele, o deus é uma abominação. Cabe a ele, Sansão, destruir esse ídolo. Acima dele na cadeia alimentar, há o general, que se orgulha de os EUA exportarem decência porque não têm uso algum para ela. E há sempre a água, turva, escura, misteriosa, insondável, imprevisível: a cápsula, o tanque, a banheira, o banheiro submerso, a chuva, o canal, o oceano, a água em ebulição que cozinha os ovos (a conexão), a do copo que entorna no carpete, a que as duas amigas secam o tempo todo, no chão sempre úmido do laboratório… Sally-Melusina mora em cima de um cinema, o Orpheu, um templo onde está em cartaz um filme bíblico brega, que, no entanto, deixa o deus fascinado. A imaginação é o chão aonde ela pisa, ela e seu vizinho pintor de cartazes de publicidade que ninguém mais quer, porque as fotografias são mais realistas. Como não se apaixonar por um deus do rio, prisioneiro, sendo ela quem é, ainda que não o saiba? Mais do que tudo A Forma da Água fala sobre o cinema, os velhos filmes que Del Toro (e eu também) assistia em preto e branco na TV, menino em Guadalajara. Há um devaneio de Sally-Melusina que se passa, inteiro, num musical de Hollywood. Minha alma de spoiler mal se contém e é melhor eu pará-la por aqui. Se você continuou a ler, vá ao cinema, sim, não espere estrear no Telecine ou no Netflix. Vá ao cinema, por favor. De vez em quando, um filme pede um templo. É esse o caso. Vá por mim.

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QUE VIVA VIVA!

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A Pixar de Wall-e e Nemo andou me decepcionando, depois que se juntou com a Disney. Sua animação mais recente, porém, Viva (Coco), junto com A Forma da Água, do sempre ótimo (e mexicaníssimo) GuillermoDel Toro, são os filmes mais engajados de 2017-18. Engajados com a imaginação e o sentimento, quero dizer, não com baboseiras militantes, discurseira vazia e palavras de ordem clichê, gritadas por representantes de lateralidades mutuamente excludentes, cegas de um olho e, por isso mesmo, interditadas de visão do conjunto. Viva é uma espécie de campanha de vacinação do imaginário contra a neoxenofobia do Império, como também de outras patologias ideológicas. Duvido que uma criança americana branca protestante (para não dizer um adulto que ainda porte consigo algum resquício de alma) saia do cinema sustentando teorias paranoicas sobre latinos psicopatas. Quando nos falta a consciência de nossa sombra, psicopata é o outro, norma que se aplica à perfeição àquele reizinho pançudo, de penteado ridículo e que tem um gêmeo idêntico, de quem foi separado no berço, mandando lá na Coréia do Norte do jeito que ele mesmo gostaria de mandar nos EUA. Viva inocula seu vírus atenuado diretamente no imaginário da cultura. E é na profundeza do imaginário que as coisas começam a mudar de verdade. Os recursos que Viva usa para sabotar uma ideologia escrota, em avançado estado de decomposição, são o encantamento, a memória, a fantasia, a comunidade e as conexões (de verdade), tudo carreado por um trabalho estupendo com as imagens. O México é tudo aquilo e muito mais, diz a mulher que é fã de carteirinha. E nem precisa ninguém gritar Fora Trump! para fazer aquela politiquinha mequetrefe, tão inócua quanto ao gosto de nosso mundo esquizofrênico. O poder de transmutar a única realidade passível de alguma transmutação – nossa subjetividade – está nas imagens, não as da tela rasa dos gadgets que nos guiam, mas as da alma que, ativadas pelo cinema, a arte, a literatura, a cultura, enfim, se engajam, nos engajam com o cultivo da alma no mundo, num maravilhoso circuito que se retroalimenta e nos abre para a vida. Porém é preciso saber que são imagens e que imagens devem permanecer, porque a péssima ideia de literalizá-las é o sustentáculo de todos os fanatismos. Viva é um daqueles filmes que trafica imagens de cura num imaginário de guerra, imagens de diálogo num imaginário de confronto, imagens de parceria num imaginário de aniquilação da diferença, imagens de morte num imaginário heroico negador de nossa finitude. E se imagens criativas não nos chegam, já na primeira infância, imagens deletérias as substituirão, para fazer a fortuna dos narcos  e dos gurus das redes sociais. Que Viva Viva então, e encontre frestas (e festas) por onde se infiltrar na Alma americana ( coisa que a nossa também é), subvertendo a pseudo política que a praga do populismo instituiu por lá, como fez e continua fazendo aqui, abaixo da linha do Equador. Só a alma nos livra dela.

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Unhas

Para Isabela

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Eu tinha 16 anos e era 1973. Queria assistir Horizonte Perdido, um musical xarope, com trilha sonora de Burt Bacharach. Minha mãe também queria e fomos juntas. O cinema era o finado Comodoro Cinerama, na avenida São João, som sensurround, película 70 mm, tela gigante. Era junho e fazia um frio da porra. Eu já disse que tinha 16? Classe média baixa, evangélica, estudando numa escola estadual de bairro e morando num conjunto habitacional popular que, para nós, era a glória? Fui com minha jaqueta de carneiro falso, uma ceroula de algodão embaixo da calça jeans e as unhas pintadas de preto. Essa informação é capital. Fazia alguns meses que minha mãe, desanimada com minha compulsão por roer unhas, tinha me autorizado a fazê-las. Nossa manicure, a Judite, de quem eu gostava muito, era uma mocinha paraguaia, pouco mais velha do que eu, cuja madrasta, dona de salão de beleza, obrigava a trabalhar o dia inteiro na rua, nos dias de semana. Ela atendia a gente em domicílio e me lembro muito bem do rosto dela, do sorriso largo, dos cabelos de índia que ela tingia de mil cores e cortava de mil jeitos, porque era, além de manicure, cobaia e mostruário da madrasta-patroa. Nos anos 1970, os esmaltes de cores fúnebres estavam na crista da onda, Hematoma, Sangue Pisado, Degenerescência, todos com nomes eufêmicos. Eu amava o negro (Petróleo Bruto?), porque me ajudava mais do que os outros a interromper a trajetória da mão em direção à boca, permitindo assim que minhas unhas crescessem até quase virar garras pontudas. Eu tinha 16 anos, mas confesso que, ainda hoje, aos 60, sou dada a puxar cutículas com os dentes, quando a tensão aumenta. Chegamos cedo para comprar balinhas Sonksen de cevada na bombonière (as da latinha bordô) e, assim equipadas, muito animadas, rumamos para a sala de projeção. Sentamos e logo todas as cadeiras ao nosso redor são ocupadas. Me desculpem se a memória remota é obscena de tão precisa, mas puxei minha mãe nesse quesito. Lembro da roupa, do clima, dos detalhes… Há muito já aceitei o que não posso mudar. Também gosto de narrar no presente, me ajuda a ver melhor o passado. A xaropada começa. E eu, a mais xarope de todas, canto, num inglês ultra-macarrônico, as canções aprendidas de orelhada com o LP da trilha sonora, tocado e retocado à náusea na minha vitrola portátil. A certa altura, a professora Liv Ullman (que devia estar precisando muito de dinheiro na época) dança e canta em estilo Broadway, tendo seus aluninhos tibetanos como chorus line e, como cenário, uma escola localizada num vale fértil, encravado entre os Himalaias. Tudo é de uma bizarria sem precedentes. Porém uma sensação ainda mais bizarra me assalta. Percebo que o cara sentado do meu lado esquerdo está com a mão colada na minha coxa. E já deve fazer algum tempo, porque esse calor que sinto no local aonde a mão do tarado repousa, confiante, não começou agora. Fico aflita. Afinal não quero estragar o programa de minha mãe, que quase nunca pode ir ao cinema. Fico aflita também porque não quero perder o filme. Fico aflita principalmente porque um escândalo vai interromper o transe da torcida para que Olivia Hussey não fuja de fake Xangrilá com Michael York. Afinal a gente sabe que vai dar merda. Aguento mais um pouco, enquanto procuro solução. Logo ela vem. Cravo as unhas da mão esquerda na mão do folgado e o faço com tal força que quebro três delas, na carne a do dedo médio. O oportunista geme, se levanta e vai saindo de fininho da fileira, pisando em pés, empurrando encostos. Eu não digo nada. Meu coração bate forte, três unhas estão destruídas, mas sei que tornarão a crescer. Relaxo. Não estrago o filme, que já nasceu ruim demais, não dava pra piorar. À saída, vejo que tenho sangue no dedos e corro ao banheiro, onde constato que o sangue não é meu. Sinto um certo orgulho de pensar que arranquei sangue de um babaca (naquela época era babaca mesmo, não essa coisa chique de assediador). A caminho do ponto de ônibus, conto a história a minha mãe, que não dá muita importância e me diz que fiz o certo. Me conta também que, quando mocinha, ela só andava de ônibus com um alfinete de fraldas preso na roupa, para espetar o saco dos tarados de ocasião. Gosto de pensar que, aos 16, embora não fosse nada empoderada, eu já era forte, tinha unhas e sabia usá-las.

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