Novo

Ano novo só mesmo na nossa cabeça que se imagina um caderno de papel milimetrado encapado em plástico azul e dotado de imensas orelhas. De verdade, um ano eterno sem começo nem fim, sem regulamento nem agenda, Aion de Urano, tempo circular da serpente cósmica a engolir o próprio rabo enquanto sibila o mantra sem fim nem começo: Dissolve e coagula! Tempo que não se deixa engaiolar por calendários, contem eles a partir da inauguração jardim do Éden ou do dia e hora do nascimento de Jesus, que nem de Jesus era (dizem que ele nasceu em março e era de Peixes, o que acho bem mais plausível do que ele ser de Sagitário, muito maníaco). No tempo cósmico, que é o que vale para tudo e para todos, 1957 nunca terminou, assim como 1968, muito menos 1975, 1986, 1992, 2001, 2012, 2015. Todos esses fragmentos de tempo maravilhosos-horríveis continuam sendo vividos por mim, não do mesmo jeito, mas de jeitos variados, continuam evolvendo dentro de mim, com seus eventos catastróficos e estupendos (e uso E não para separar os opostos em mescla permanente). O tempo se move para frente e para trás, em círculos, em espirais progressivas e regressivas, em volutas, em redemoinhos,  e nós vamos junto, arrastados feitos folhas secas. Nesse vendaval que despedaça calendários, os acontecimentos íntimos e coletivos, os fatos externos pelos quais somos vividos retornam. Eles nos pedem para ser retomados, elaborados, processados na alma (não na razão, não no intelecto), revistos e ampliados, reparados e sucateados, re-imaginados e remodelados à luz das coisas que aprendemos, se é que aprendemos alguma coisa entre eles e o agora. No presente absoluto da experiência quase sempre faltam recursos para apreender o que vivemos na chapa quente, pura e simplesmente. No depois, o presente contínuo, eles acabam chegando, os recursos, nunca com a presteza escandalosa do carro de bombeiros, nem como o brinde na caixa de Omo, muito menos pelo correio, num envelope do Sedex com nosso nome escrito em letras de forma. Temos de procurar e procurar, revirar lixo, revolver metros cúbicos de terra, sonhar e viajar na maionese, estripar gavetas, delirar, raciocinar, virar do avesso, ler poesia, invocar espíritos, adoecer, tatear, rezar, descascar, maldizer, desenhar esquemas, cavar, queimar pestanas, cantar mantras, pintar e apagar mandalas, fuçar arquivos vivos e mortos, tecer e destecer, reverenciar mestres, renegar mestres…  O diamante que se oculta na merda, a craca que se esconde na maravilha são dádivas da repetição, da rememoração, da insistência, da persistência, do eterno retorno, com a imaginação, o sentimento, a memória, ao mesmo lugar aonde estivemos mil vezes antes, só que com outros olhos, olhos de bobo, de criança, de cachorro, de detetive distraído, de catador de conchas. Nunca com olhos astutos. Meus olhos astutos enxergam o conceito, o nexo, os motivos, a linha teórica, a abordagem, as intenções e enquanto isso perdem o fiapo de brilho em que cintilam grãos de poeira suspensa, o rastro furta-cor da lesma, o caprichoso montículo de areia, a mensagem cifrada, entalhada pela água na parede por um deus da umidade e da decadência. Meus olhos astutos explicam ao mesmo tempo em que perdem o sentido, os múltiplos sentidos. Por exemplo, qual é o sentido da história do Evangelho em que a mulher que tem um fluxo de sangue contínuo toca a roupa de Jesus em meio à multidão que o espreme e ele pergunta, surpreso: quem me tocou? Penso e repenso nessa história desde que menstruei, aos 13 anos. Volto a ela e torno a voltar e cada vez que volto, ela se abre para revelar um compartimento imprevisto, oculto no mistério. Só escutei merda dos exegetas de olhos astutos ou nem tanto sobre essa história, todos uns ímpios no sentido grego do termo, uns babacas no sentido cristão. Cada vez que volto a ela, sou uma parte diferente dela: a mulher, a multidão, Jesus, a roupa tocada, o fluxo de sangue que não quer ser estancado. Cada vez que saio dela, mudamos um pouco, eu e ela. Nem sei porque falei dela aqui. Vai ver que era ela que queria ser rememorada. Vai ver que nossa relação demonstra de algum modo como o tempo atua em nós, quando compreendemos seu circuito e o internalizamos. Meu nascimento e os dos meus filhos continuam a me espantar, hoje muito mais do que no tempo das efemérides. As mortes, todas as que morri por amor a quem partia, continuam a me remeter ao Hades, de onde sempre emerjo enlameada, às vezes com um ramo de narcisos, outras com uma bela romã madura para fazer caipirinha. Minha infância é um presente que revivo todos os dias, e a luz que ela emite é ambígua, ilumina e ensombrece minha maturidade, me guia para a velhice com mãozinhas mornas e pequenas. Meus poucos amores, volto a eles sempre, sonho com eles, eles me despertam para renovar meu pacto com Afrodite, meu desejo sempre jovem de relação e vínculo. Minha brigas? Meus fracassos? Volto a eles constantemente, contudo não com a emoção que me consumiu naquele momento em que a ruptura me acenava com o fim de tudo. Retorno com o sentimento da distância que provê perspectiva e com a percepção do tempo que passa como um rio que apaga brasas dormidas e oferece seixos rolados para a gente jogar de volta na água. Ano novo? Nada de novo sobre a face da Terra, disse o sábio. E para que o novo se nem o que é velho de milênios a gente conseguiu aprender?

 

Visões

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Nada é, para mim, tão concreto e persistente quanto a memória. Nada é, para mim, tão real  e transformador quanto a imaginação. Nada precede a Beleza e o Amor, Afrodite e Eros, mãe e filho, na ordem da realidade como na do mistério, sendo as duas uma e a mesma. A verdade pode se tornar tirânica. A justiça pode se tornar arbítrio. A bondade pode ser pieguice. Já a Beleza nos põe de joelhos, muito antes que soe uma única vogal. O Amor a segue, qual um cãozinho ao seu dono. Eu sirvo à Beleza porque não tenho escolha. Quanto ao Amor, desconheço outra verdade, outra lei. O resto é vaidade e correr atrás do vento, disse Salomão, o homem que não fazia questão de ser nem melhor nem mais sábio do que os outros. Nada em excesso, e nisso o oráculo de Delfos é o único com licença para soar dogmático. Enquanto a vida prossegue, aprendo que menos é mais e mais é nada.

 

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MÚSICA

Não poderei ver um show ao vivo de Leonard Cohen por enquanto. Mas quando encontrá-lo, vou pedir que ele cante “Famous blue raincoat” ao violão, só para mim, de preferência com sua voz de mocinho. Vamos nos sentar numa esquina decadente da Montreal dos anos 1950, beber bourbon sem receio de ressaca e falar sobre sexo e religião, que também são uma e a mesma coisa. Jesus deve aparecer a qualquer momento, com sua mochila de lona verde. Lá vem ele: acaba de virar a esquina, bem acompanhado, como sempre. A morena agressiva, de lábios grossos, olhos chispantes e coxas de ébano, é Kali, a Negra, e não vai topar sentar com a gente, claro. Deixa ela, diz Jesus, largando a mochila no chão, entre resignação e alívio (“essa mulher é muita areia etc”). A morena se afasta furibunda (“ela é assim mesmo”, ele revira os olhos, como no retrato do Sagrado Coração). Penso que ambos formam o casal perfeito, a união dos opostos, a imagem-síntese das núpcias alquímicas. Jesus se junta a nós e pede “Hallelujah”, o que acho meio manjado da parte dele. Só que faz questão da voz demolida de profeta, pelo menos. A luz da tarde está linda, mescla de violetas e dourados, uma banda do mundo luminosa, a outra, já mergulhando em sombras. Obrigada, fui eu mesmo que fiz esse crepúsculo, diz Jesus, em resposta ao meu pensamento que não teve tempo de sair da cabeça. Isso irrita um pouco em Jesus, mas tudo bem. No resto, ele é ótima companhia. Começa a esfriar. As duas bandas da Terra estão escuras agora. Ainda bem que eu trouxe meu famoso xale azul. Pedimos mais uma rodada e Leonard recomeça.

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LIVROS

Eu e Agatha Christie flanando pelas ruas de Aleppo. Já embarafustamos por um souk ruidoso e colorido de doer nos olhos. Já tomamos café, comemos doces e eu consegui comprar, depois de vinte minutos de intensa barganha, duas cópias de cerâmica de figurinhas da deusa, embrulhadas em papel de seda amarfanhado. Chegamos a Estambul vindas de trem de Calais e depois viajamos até a Síria. Sou voluntária na equipe de Max Mallowan, o marido arqueólogo de Agatha, que vai escavar no vilarejo de Chagar Bazar, à beira do Eufrates, na temporada deste ano. Estamos nos anos 1930. Tenho 16 e pretendo ser arqueóloga. Fui aceita por Max com relutância, imagine se essa menina adoece, se se apaixona, que responsabilidade. Nem sei como meu pai deixou. Agatha intercedeu em meu favor, ela é muito convincente quando quer. Disse que vou ajudá-la com os originais do novo livro e estou que não caibo em mim, de alegria e medo. Eu e ela somos as únicas mulheres do grupo. Ela é a grande khatun e eu, sua ciosa carregadora de cauda. Sou um pouco mais velha que Rosalind, a filha que ela nunca leva nas viagens com Max. Aleppo é antiga e venerável, uma cidade sagrada cheia de sombras de deuses que teimam em continuar a existir, um emaranhado de ruas velhíssimas cruzadas por figuras embuçadas, saídas das histórias de Richard Burton.

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Um homem passa por nós, trajes brancos imaculados, capa multicolorida, tarbush negro emoldurando um rosto ocidental e quase feminino, olhos ardentes de Rodolpho Valentino. Falso como o sheik do livro de Edith Maud Hull que resgatei de uma caixa cheia de livros velhos, um tesouro abandonado na calçada pelos vizinhos de minha tia. Falso mas não menos galante por isso. Andamos Agatha e eu de braços dados e nos cutucamos quando o sheik passa por nós qual uma ventania, as roupas amplas farfalhando. A alvura dele me faz sonhar com a luz cremosa de Palmira, a deusa-cidade florescendo em seu oásis. Haveremos de ver Palmira a caminho para o Eufrates. Quero aprender a ser como Agatha: ao mesmo tempo uma khatun e uma menina que se diverte com tudo, que faz a mágica da reparação de revezes quando escreve. E olhe que ela não escreve sobre almas-gêmeas, nem potes de ouro no fim do arco-íris, nem prestimosos esforços para fugir da depressão em duas semanas. Aliás ninguém foi tão fundo na própria dor quando Agatha. Ela mergulhou e retornou da noite escura com uma braçada de crimes para narrar. Talvez por isso ela seja assim, tão inteira, tão honesta quando mente. Agatha me confessa que sente saudades de Aleppo, de Palmira, de Kamichlie, até mesmo da feiosa Amuda. Ela diz: “Inshallah, eu voltarei algum dia e as coisas que eu amo não terão desaparecido desta terra”. Sim, elas terão, minha querida. Nem a gloriosa Palmira restará, abandonada que foi pela civilização que não merecia o paradoxo de sua beleza. Mas que bom que você me levou lá antes.

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Natal

Cansada demais para escrever coisas novas, reitero este post para o Natal de 2016. Continua valendo! Beijos.

Mulher-Esqueleto

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Para as matilhas, com amor.

Tenho horror ao natal. Acho uma festa brega, vazia, redundante, tola, desalmada, superficial, convencional, hipócrita. Para começo de conversa, não vejo graça nenhuma em comemorar o aniversário de Mitra, um deus persa da guerra adorado por soldados e gente belicosa, mais chegada em Marte do que em Vênus, na velha Roma dos césares. Dia 25-12 é o dia dele, do retorno do Sol Invicto, caso o padre da sua paróquia ou o pastor da sua congregação ainda não tenham te contado (na verdade, a maioria deles sequer foi informada disso). Os patriarcas da igreja decidiram surrupiar a data para nela comemorar o nascimento de Jesus só porque Mitra era um cara muito popular e o povo costuma ser pra lá de distraído em questões de pilhagem do imaginário. Desvestir um deus para vestir outro sempre foi moeda corrente na velha Roma dos papas. Fora o fato deveras convincente…

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O Enforcado e Calígula

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Nosso grupo de estudos do tarô mitológico teve de rearranjar a data do encontro mensal, em função de feriados e ausências previamente anunciadas. O arcano maior do mês de novembro é O Enforcado, uma das imagens que mais tememos e rejeitamos no tarô, como se ela não tivesse nada a ver com nossa condição de pendurados pelo pé de cabeça para baixo. Enquanto esperávamos para encarar essa metáfora do desconforto e da precariedade do humano no mundo, o resultado das eleições americanas parecia fragilmente assegurado por nossas superestimadas estratégias de racionalização (do lado dos democratas, é claro). Projeções, pesquisas de intenção, estatísticas, os números aos quais o ego coletivo rende um culto quase insano de tão racional, separavam os dois candidatos por um fio de cabelo. Era empate técnico, mas Hillary aparecia à frente. Há quem a acuse de ter sabotado, por orgulho e teimosia, uma vitória democrata, já que tem grande índice de rejeição devido à história de Benghazi e aos famigerados emails. Eu, de minha parte, acho que o Império prefere ter um louco a ter uma mulher ocupando a Casa Branca. Pode oligofrênico, pode preto, mas mulher não pode. A folha corrida de Hillary, que nunca foi santa (e se até Madre Tereza teve seus podres…), não pode de modo algum ser pior que a de Calígula, certo?

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Errado. Calígula venceu porque não estamos falando de uma razão lógica que compara folhas corridas. Quando falamos de política, religião e futebol não estamos realmente falando de religião, política e futebol mas de arquétipos, deuses ou forças psíquicas, escolha o seu, cujo poder criativo-destrutivo desconhecemos, muito embora elas rejam, de fora e de dentro, nossas pobres vidinhas microscópicas. Movimentando-se fora da percepção racional do ego, o individual e o coletivo, essas forças transpessoais irracionais o destruirão se forem mantidas inconscientes, tal como fizeram com o ego germânico, entregue ao delírio de poder nazista (nem vou tocar na hybris do ego lulopetista porque ela está demasiado próxima no tempo e no espaço e ainda tem entusiasmados apoiadores). Isso a menos que o ego as reconheça, integre em sua vida consciente e recolha-se, modestamente, a sua insignificância. A vitória de Calígula é, pois, a vitória previsível e o retorno reiteradamente anunciado da Grande Sombra Americana, o chorume pestilento que escorre aos borbotões e fora da vista do lustroso ego heroico instalado no topo, para se aninhar nos desvãos mais baixos e sórdidos da vida psíquica dos cidadãos da maior nação do mundo. Já disse Jung: quanto maior o ego, maior a sombra. Venceram a KKK, o Tea Party, os rednecks, o white trash em grotesco conluio com o establishment wasp? Será essa criatura o fruto mal formado de um casamento, celebrado numa capela cafona de Las Vegas, entre a obesa mórbida loira e desempregada, mãe solteira depressiva e o ruivo aristocrata descendente dos peregrinos do Mayflower, pedófilo e gay enrustido?

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Fato é que foi a sombra do Império que venceu as eleições (e não pela primeira vez), o que deveria mobilizar toneladas de reflexão retardatária por parte dos mocinhos perdedores. Infelizmente, porém, eles já devem andar atolados no charco raso dos debates sobre as causas econômicas, sociopolíticas, étnográficas, demográficas e históricas da derrota. Terão os crentes da América por fim entronizado o Anticristo, a fim de que ele apresse o Armagedon e convoque o apocalipse? Aliás o apocalipse já está aí, ou a “revelação”, que é o que significa a palavra grega. Algo tremendo foi revelado como mais um resultado do longo processo de formação do imaginário americano, processo e imaginário que devem permanecer ignorados e subestimados pela gloriosa America pensante. Fiquemos, pois, e como sempre, com os resultados, adiando o encontro com a sombra e desse modo preparando a chegada de futuros Calígulas, se esse não apertar o botão do fim do mundo. O que nos aflige é tão somente imaginar que mundo ocupará o lugar desse que hoje morreu. Então volto aqui ao nosso arcano de novembro, que previu sem que perguntássemos o tipo de energia que estaria regendo o dia de hoje e que deve reger os próximos dias, meses, quicá anos, se os houver. No tarô mitológico, ele é representado por Prometeu, o titã que presenteou o fogo aos homens e por isso é tido como benemérito protetor da humanidade. Pai dos homens, a modelagem em barro de nossa espécie mal cozida foi encomendada a ele e ao irmão Epimeteu pelo grande Zeus, que não queria sujar as excelsas mãos com porcaria. Num trocadilho óbvio demais, Prometeu é o sujeito que promete. Isso faz dele, na prática, o padroeiro de todas as campanhas políticas. Assim qualquer sujeito arrogante o bastante para vender soluções ao alheio a troco de transferência de poder e usando as fragilidades e inseguranças desse alheio como estratégia para manipulá-lo a seu próprio favor, será um indivíduo prometeico, não importa se de direita ou esquerda, democrata ou republicano, conservador ou progressista, corinthiano ou palmeirense e toda essa baboseira dualista que persistimos utilizando para tentar explicar o que não se explica.

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Etimologicamente Prometeu é aquele que pensa antes, o que não o impede, contudo, de cometer erros titânicos ou até mesmo o leva a cometê-los, por excesso de autoconfiança, orgulho e prepotência. Na carta, ele pende, acorrentado de cabeça para baixo num rochedo, no topo do monte Caúcaso (é bom lembrar que nem todo topo é um pódio). Desafiou Zeus e está sendo punido por seus excessos. A águia olímpica vem devorar seu fígado durante o dia. À noite, o órgão se regenera, na genial intuição metafórica do mito grego. O Enforcado cai como uma luva para o dia de hoje. Serve para Hillary e os democratas, serve para o mundo virado de cabeça para baixo e refém de um demente que terá ao alcance de suas mãozinhas hipotrofiadas o controle da maior máquina de guerra do planeta, serve para o próprio demente, que mal ou bem terá de se haver com a imensidão da sombra que mobilizou para consagrar-se. Tudo o que é titânico pede para ser afundado, disse o junguiano Glen Slater numa palestra linda e profética. Nossas ideologias políticas e religiosas, bem como nossa medicina e tecnologia, são titânicas em sua pretensão ilusionista de construir paraísos artificiais em lugar de ajudar as pessoas a lidarem com o aqui e agora da realidade concreta. Não importa se mal ou bem intencionado, o titanismo nos convence de que é possível erradicar o polo negativo da experiência de viver: a dor, a pobreza, o sofrimento, o desemprego, a velhice, a morte. De uma perspectiva menos lógica e mais mitológica, e ainda de acordo com Slater, quando os titãs estão no comando, eles expulsam os deuses, os portadores do mistério cuja evocação pode aliviar nossas compulsões de perfeição e controle, as figuras de nossa imaginação que contêm a razão, em sua sanha por criar paraísos impossíveis, e a reenviam aos próprios limites. A possessão titânica, por sua vez, expulsa os deuses para presentear o mundo à humanidade na forma de uma idealização inatingível, como se essa dádiva não tivesse uma apavorante contrapartida. “O mundo existe para servi-los, meus filhos, e não o contrário”, eis a afirmação dele que melhor seduz os incautos. Neste momento em que o arquétipo do Pai está gravemente mutilado na psique coletiva, Prometeu vem encarnar uma figura de Pai permissivo e perverso, em sua afirmação irrestrita do desejo dos filhos, não importa o quão perversos eles mesmos sejam, até porque é nele que se espelham. Arrogância, prepotência, radicalismo, excessos, desrespeito à diferença, hybris, priapismo, orgulho, vaidade e paranóia são atributos que podemos odiar em Calígula, mas que seus devotos aprovaram incondicionalmente nas urnas. Prometeu personifica o pai-titã que engole os filhos para que eles se sintam protegidos, ainda que cegos e imobilizados, no interior de sua alentada pança. Assim ele os impede (em prol de seus interesses) de se desenvolver. E nisso Calígula está longe de ser um caso isolado. Mas é certamente o mais visível.

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Fantasmas

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“A colina escarlate”(Crimson Peak, 2015) é meu tema do Dia dos Mortos deste ano e o filme mais recente de Guillermo Del Toro, mexicano que ocupa um lugar de honra no meu panteão de diretores arquetípicos. Um genuíno filme de fantasma, coisa que Del Toro sabe fazer como poucos hoje em dia, com sua fina intuição para o manejo da metáfora. Se você tem medo de fantasma, não assista. Mas se, como eu, os fantasmas ressoam no seu mundo interno, coragem. Você não vai se arrepender. O filme recupera o melhor da tradição literária gótica vitoriana, seja na construção dos personagens, seja na estruturação da narrativa,  seja na ambientação pesada, opressiva: climas, adereços, figurinos e cenários, tudo coopera para espelhar a alma e seus labirintos. Do começo ao fim, permanecemos dependurados de cabeça para baixo, no fio tenso de um bom paradoxo. O Feminino encarna o agente redentor-destruidor do Masculino e, nesse sentido, “A colina” é uma maravilhosa história da parceria e mediação entre opostos-complementares, vivos e mortos, mães e pais, irmãos e irmãs, ego e inconsciente, razão e loucura…

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As fantasias favoritas de Del Toro retomam aqui, com a sensibilidade e a profundidade usuais – e sem maneirismos desnecessários -, o tema do feminino assombrado que inicia uma mulher ingênua nos mistérios do amor e da morte. Um pai superprotetor expõe a filha ao predador, enquanto seu amor por ela igualmente a provê de um animus que, despertado pelas circunstâncias, se revela excepcional. Uma mãe boa e frágil retorna da morte para revelar um importante segredo à filha, segredo que ela mesma acessou ao cruzar o portal, mas que a filha ainda não tem elementos para compreender. Outra mãe, longeva e devorante, investe inadvertidamente numa sucessora ainda mais mortífera. Um homem frágil é assujeitado por uma devastadora anima negativa. Um casamento infernal e outro, celeste, acorrentam os noivos numa tragédia de proporções míticas. Um oftalmogista que acredita no invisível vê o que está posto diante dos olhos, mas que os outros não conseguem enxergar. A natureza se rebela contra a máquina. Aliás a tecnologia aparece como coisa muitíssimo mal assombrada, pura verdade.

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A história fala das fantasias do estilo gótico novecentista como uma reação da imaginação à desolação que a Revolução Industrial impôs à Alma do Mundo, uma reação tão frágil quanto eficaz, porque é na alma que ela se instala. E a alma confronta, com suas fantasias terapêuticas, a sombra da ciência, da indústria e da filosofia positivista. Mais do que tudo, “A colina escarlate” me levou de volta a “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brönte, um dos livros da minha vida, numa viagem de revisão que me esclareceu sobre os motivos do apreço que tenho por fantasmas.  Eles nos assombram e afligem, penso eu, porque são, na essência, mensageiros do inconsciente que assediam o ego para alertá-lo de grandes perigos e ajudá-lo a tomar consciência de algo muito sombrio. O ego, contudo, se defende como pode das coisas que não quer saber.

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A forma fantasmagórica aterroriza o ego, embora não haja nela uma ameaça real, ao contrário. Os fantasmas pretendem revelar um estado de coisas intolerável deslocando o sujeito da zona de conforto, forçando-o a encarar uma realidade que clama por mudança, uma lealdade tóxica, um segredo que apodrece dentro dele. Assim o fantasma de Catarina de “O morro” vem pedir ao Sr. Lockwood tão somente uma escuta para sua história, um pouco de compaixão e ajuda para libertar-se e libertar a vida, ajudando-a a retomar seu curso. “A colina” remete a “O morro” até mesmo nas referências à topografia. Se você subiu numa, pode se arriscar a escalar o outro. Sua alma vai agradecer por mais esse fantasma.

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“Um elogio da traição”

Achei o tema propicio ao momento e reprisei. Beijos!

Mulher-Esqueleto

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Hoje é Sábado de Aleluia. Dia de malhar o Judas, na tradição do cristianismo popular. Para mim, dia de meditar sobre o traidor necessário. Ou ainda sobre os poderes misteriosos e imprevistos da alma imoral, como chamou o rabino Nilton Bonder à libido que confronta o estabelecido para renovar a tradição ressequida e quebradiça, ao ousar traí-la. Malhar o Judas é não só um símbolo muito eloquente de nossa tendência a tentar inutilmente excluir a sombra das cercanias do ego. É também uma evidência do estado crônico de inconsciência desse mesmo ego que, quanto mais bem informado, mais equivocado. Malhamos o Judas fora de nós para não entrarmos em contato com aquela voz que, dentro de nós, sussurra que, sem Judas, não haveria cristianismo, talvez sequer houvesse um Jesus. Aos obsedados por finais felizes e premiações celestes, congelados na expectativa de que um deus ex-machina venha resolver os problemas que nós mesmos criamos, Judas aparece…

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Afrodite Go!


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Ouro, prata, bronze, sangue, suor e lágrimas. Rafaela, Robson, Thiago, Isaquias, Maicon, Rafael, Felipe, Mayra, Poliana, Artur, Diego… Na alquimia dos metais olímpicos, não tem almoço grátis e a meritocracia é o Dharma, a Grande Lei Geral. O espírito olímpico é o contrário do coitadismo bolsista sem contrapartida que assola o país e reinventa o coronelismo, agora mais à esquerda. Nas Olimpíadas, estrelas só mesmo os caras do futebol que ou se rendiam ao zeitgeist ou viravam buracos negros. Acabaram se rendendo. Fui contra essa Olimpíada desde o começo. A Olimpíada que nunca foi do Lula. Nem dele nem da Dilma nem do Temer nem do Paes nem do COI. A Olimpíada foi do Brasil dos campeões que trabalham, pagam imposto, fazem trabalho voluntário e se divertem sempre que podem, do Brasil dos campeões da Lava-Jato e das ONGs bem tocadas por gente honesta e inspirada. A Olimpíada foi a glória justa e tardia dos brasileiros pretos pardos pequenos pobres mas também dos brasileiros brancos amarelos louros morenos de olhos castanhos verdes azuis, todos valorosos disciplinados esforçados irredutíveis apaixonados.

meninas comemoram

A Olimpíada foi o discurso incontestável, sem palavras porque nem precisava, dos sem ideologia com propósito. Fui contra a Olimpíada e, no entanto, me rendi à Beleza do Corpo no poder. Me deixei arrebatar e subjugar completamente pela Beleza no poder. Me tornei devota da estética ética da Olimpíada, com aquele cenário absurdo de lindo ao fundo, Rio de Janeiro, como eu gosto de você! Até a mentira dos nadadores americanos virou a nosso favor, que anedota feliz e necessária para belos viralatas como nós, mestiços sem raça que ainda não abarcamos a imensa vantagem genética dessa condição! Os deuses nos sorriram lá do Olimpo, na mesa do banquete em que Zeus e Xangô se rendiam aos encantos de Oxum e Afrodite.

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Penso que as Olimpíadas sempre foram e continuarão a ser um portentoso ritual à verdadeira Beleza, a Beleza que vai muito, mas muito além da casca, do simulacro enganoso da aparência, do fantasma descarnado da perfeição retocada e rasa. A Beleza que fenece e pede para desabrochar em Sabedoria. Quanta variedade, que diversidade, que espantosa ode às diferenças, quantos formatos, cores, padrões, pesos, texturas, alturas, larguras, densidades, humores, estilos!

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E que infinidade de gestos, sorrisos, movimentos, penteados, dancinhas, expressões faciais, esgares, gritos, gemidos, sussurros, saudações, urros, quantas linguagens naturais ou convencionais, que comunicação mais eficaz e livre da tirania do verbo que a do corpo falando com habilidade, graça e vigor, unido no pacto indissolúvel com as almas dos atletas. O corpo-alma preciso, escorreito e ágil mas também errático, ferido e alquebrado. Tudo lindo porque íntegro: o topo e o tombo, a dor e a alegria, a frustração e o contentamento, a derrota e a vitória. E como amar um Corpo isento de contrastes? Impossível, diz Afrodite Dourada, a que banha de paixão todas as medalhas olímpicas, esposa que é de Hefésto, o Divino Ferreiro.

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Não, a escola não ensinará nada que preste enquanto não se deixar arrebatar pela Beleza, que os gregos cultuavam porque sabiam que era ela, e não a superestimada razão, o pilar fundamental da civilização. Não vai prestar essa escola ridícula enquanto não servir, de joelhos, ao Corpo e à Beleza, a que se escora na Justiça e na Bondade para se manifestar em plenitude, a genuína força civilizadora do coração humano, a alma da política que serve para servir à polis, a única vacina contra a barbárie de todos os extremismos e fundamentalismos religiosos e políticos que querem dividir para dominar. Não à toa os guerreiros do EI combatem e destroem a Beleza, ocultam a Beleza, têm pavor da Beleza. Eles estão certos. A Beleza dissolve polarizações sem se perder em debates vazios simplesmente porque ela É. Afrodite bota Ares, o deus da guerra, de quatro. E ainda tem, com ele, uma filha chamada Harmonia.

Por causa da Olimpíada, Afrodite Go virou meu APP da hora, instalado de fábrica na minha cabeça, ativado desde o nascimento, agora em versão totalmente atualizada. Que mané Pokemon, suprema babaquice! Eu quero é rastrear a Beleza no Mundo!

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P.S. para Elke Maravilha, deusa encarnada, formidável Baba Yaga que se cansou desta brincadeira e gritou “Fui!”. Elke foi uma porta-voz do Feminino profundo, naturalmente pouco aproveitada e compreendida pelo feminismo patriarcal unilateral. Azar dele. A sabedoria temperada por um irresistível senso de humor, o amor e a originalidade continuam a ser atributos dessa personalidade singularíssima, que confrontou o mundo tolo e fosco da moda e viveu para ser quem o universo precisava que ela fosse, nada mais, nada menos. Elke não deixou herdeiro/a do mesmo porte neste rincão aonde veio aportar, fugindo de Stalin com sua família. Essa devemos a Stalin. Divirta-se, amor. Aliás nem precisava dizer. Beijos.

elke bruxa

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