“No cemitério é bom de passear”: um memento para o Dia dos Mortos

Eu tinha dez anos e cursava o ginásio no instituto estadual de educação. Aquilo era a morte. Escola era a morte. Ficar dura, quieta, ouvindo a professora vociferar ou então falar com voz hipnótica, para boi dormir. Era ou medo ou sono, ainda mais no período da tarde, que era o meu. Eu odiava aquilo de ter de ficar ouvindo, ouvindo sem entender nada. As professoras falavam grego – arcaico a de matemática. Eu me sentia tão burra, mas tão burra que nem pergunta eu sabia fazer. Ou até sabia, mas… e se eu fizesse a pergunta errada? De vez em quando, alguém perguntava uma besteira e levava bronca, era humilhado na frente de todo mundo. E a gente ainda ria do coitado que perguntava o que a gente não tinha tido coragem de perguntar. Melhor ficar dura e quieta e me fingir de morta e esperar aquela eternidade terminar. Porque demorava, mas terminava. O sinal tocava feito um guincho de dragão furioso e a gente pulava da carteira como aqueles escravos que arrebentavam correntes com as mãos erguidas, na lição da Princesa Isabel assinando a Lei Áurea. Parecia uma boiada estourada que saia arrebentando a porta e se enfiava pelos corredores feito tromba d’água, todo mundo se atropelando, gritando, socando o ar, pulando, liberdade ainda que tarde, vamos embora deste lugar, vamos viver, andar, falar, mexer, perguntar, ser. Era muito linda a libertação. Dava medo e era linda. Eu amava o último medonho guincho do dragão furioso do sinal da hora da saída. Era um som celestial, um som que vinha direto do inferno. Fosse o que fosse, estava consumado. Tinha gente que jogava tudo para o alto, de tão feliz. Tinha gente que derrubava tudo no chão. Eu não tinha coragem de jogar tudo para o alto e raramente derrubava tudo no chão. Eu só ficava feliz. O melhor final de dia da semana era na sexta-feira, em que a gente não tinha a última aula. O guincho do dragão anunciava que a gente ainda tinha uma hora de luz do dia para passear na avenida Lins, xeretar as prateleiras da loja Momotaro, cheias de bobaginhas japonesas uma mais linda que a outra, passear no cemitério da Vila Mariana… Eu adorava passear no cemitério, do jeito que a Adelia Prado conta em seu poema “Campo Santo”. Eu e a Satiko, minha amiga japonesa com cara de lua cheia. As outras meninas tinham medo ou achavam besta. A gente não, mesmo porque passear no cemitério podia ser tudo, menos besta. Besta era ficar fumando bituca encostada no muro da escola e fazendo tipo para uns meninos fedidos, espinhentos e panacas. Quanto a dar um medinho, isso dava. Mas era um medinho gostoso, irmão da curiosidade. Eu e a Satiko, a gente andava de braço dado entre os túmulos, ia lendo as placas, fazendo contas das idades dos defuntos, conferindo os retratos, reparando nos vasos: os vazios, os com flores secas, os com flores frescas… As capelinhas davam um medo um pouco maior, porque elas tinham portas e janelas gradeadas e a gente sempre achava que o defunto ia aparecer de repente, vindo lá do fundo, e nos dizer: “Olá!”, com aquele sorriso eterno de caveira. Nunca apareceu nenhum. Uma pena. Mas a gente continuava olhando, cheias de esperança. Era bom demais passear no cemitério. Era calmo como a escola nunca era, e as folhas das árvores ciciavam com o vento, como se as almas nos dissessem: “Boa tarde, meninas, ainda bem que vocês vieram hoje. A gente passou a semana aqui, na maior solidão”. Às vezes, a gente fazia um piquenique de lanche mirabel com caçulinha morna em cima de uma lápide mais lisa e limpa. Era uma coisa bem japonesa de se fazer. A Satiko me contava de como, quando a avó dela morreu, teve festa na casa dela e os pais e tios levaram bandejas de doce de feijão (que a avó dela adorava) ao cemitério, para botar em cima do túmulo, feito flores. E que ela e o irmão tinham se empanturrado de doces, enquanto os adultos conversavam e riam de coisas da vida da avó dela, uma velha muito mandona. Meu pai não me deixava ver defunto, então me surpreendi com a história da Satiko. A primeira vez que fui a um velório, eu tinha uns doze anos e foi muito, muito triste, porque o morto era um mocinho, irmão da minha amiga da escola e da igreja. Teve muito choro, a mãe gritando, minha amiga gritando, o pai do morto muito quieto e arrasado, o pior de todos. Tive muita, muita pena do pai, mais ainda do que da mãe do moço morto. Não foi nada parecido com o que a Satiko tinha me contado lá no cemitério, entre um quadradinho de lanche mirabel e um gole de caçulinha morna. Muito tempo depois, eu soube da festa mexicana do Dia de los Muertos e aí entendi um pouco mais os meus passeios com a Satiko pelo cemitério da Vila Mariana. Ontem, lá no ateliê, a gente fez a segunda Festa do Dia de Muertos em que eu já fui na vida. Foi linda. Só não teve lanche mirabel com caçulinha morna, mas teve muitas outras coisas gostosas de comer e beber. A gente contou histórias, leu poemas, botou fotos dos mortos no altar que as crianças armaram, riu, chorou, viu filmes… Os mortos também viram, ouviram, sentiram, riram, beberam e comeram. Com nossos olhos, ouvidos, bocas e corações, é claro, porque os deles já não existem mais. E eu me senti de novo como se fosse um fim de tarde de sexta-feira, aos 10 anos de idade, vadiando pelo cemitério com minha amiga Satiko. Ouvindo o vento ciciar nas folhas as vozes dos fantasmas. Sentindo um medinho misturado com liberdade e prazer.  Logo depois, eu me lembrei dos passeios da Adelia: “Se um galo cantar e for domingo, será tanta a doçura que direi: vem cá, meu bem, me dá sua mão, vamos dar um passeio, vamos na casa de tia Zica pra ver se Tiantônio melhorou. Ressurgiremos. Por isso, o campo-santo é estrelado de cruzes”.

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Uma entrevista: para que serve contar histórias às crianças

Íntegra da entrevista concedida em 27  de outubro a Michelle Barreto, para uma newsletter da Fundação Social Itaú

Quais são os benefícios da contação de histórias para a vida das crianças?

O maior benefício de todos é uma alma “bem feita”, o que envolve autoconhecimento,  emoções bem cultivadas e uma imaginação rica, capaz de interferir na realidade para transformá-la de um jeito criativo. Outra coisa é a percepção de que a abordagem objetiva e lógica não dá conta da realidade. Há uma dimensão do real que só pode ser apreendida e vivenciada por meio da linguagem simbólica: as narrativas de fantasia, as imagens, as metáforas, a arte e sua diversidade, as tradições da cultura, a literatura, as religiões (não as instituições religiosas, mas nossa experiência espiritual genuína e profunda), o cinema…  

– Em que áreas do conhecimento as contações de histórias podem impactar positivamente no aprendizado de crianças?

Em todas. O repertório cultural que as histórias oferecem às crianças fornece um fundamento significativo para toda a educação formal que elas irão receber. E para todo o resto também. As histórias servem de base para a construção de uma visão ética e estética do mundo, ou seja, do que é bom e do que é belo, sem a intervenção de moralismos e modismos. Ouvir histórias desde muito cedo ajuda a criança a entrar em contato com a beleza das palavras, dos sons, dos sentidos… Afinal letras e números também são símbolos, imagens que estão no lugar de coisas concretas, de emoções, de eventos e que os representam para nós. Entrar no universo do conhecimento sistematizado tendo as histórias como guias é começar com o pé direito, percebendo que a língua e a matemática não se esgotam na gramática e nas equações. Elas também têm uma dimensão encantadora e misteriosa, que torna o aprendizado formal uma aventura prazerosa e não uma chatice tediosa.

– As contações de histórias podem impactar nas relações familiares? Isto é, favorecer o estreitamento dos laços familiares entre pais e filhos? Como esta relação acontece?

Pais que não encontram um momento no seu dia para contar histórias para seus filhos estão se privando e privando aqueles a quem mais amam de uma experiência afetiva e educativa sem igual, com aquilo que a cultura produziu de melhor: a narrativa e a família. A herança das histórias precisa ser transmitida, em primeiro lugar, de pais para filhos. Ela fala de nossa ancestralidade, de nossa herança antropológica profunda e comum, dos laços que nos unem ao passado e ao futuro. As histórias que contamos aos nossos filhos vêm carregadas com o calor da nossa história pessoal, da nossa voz, do nosso amor… Não existe NADA mais importante do que isso na educação de uma criança.  

– Os pais estão mais abertos para sentar com os filhos e realizar as contações ou eles ainda encaram a contação como algo supérfluo e se prendem na falta de tempo para não contar histórias?

Em cafés e restaurantes, tenho visto pais dando aos filhos pequenos seus Blackberries e I-Pads para não ter de entretê-los com uma história, um desenho, um joguinho simples e concreto compartilhado (palitinho, da velha, forca…). Ficam todos lá, sentados juntos na mesa, mas completamente desconectados uns dos outros, cada qual olhando para a sua telinha. Isso é muito triste. Nos preocupamos tanto em dar boas escolas, em formar nossos filhos para o vestibular, mas nos esquecemos do mais importante: antes do intelecto, vêm as emoções e a imaginação. É uma simples questão de ordem cronológica. Um intelecto poderoso pode facilmente ser sabotado por emoções descontroladas e drenado por uma imaginação pobre ou infantilizada. Há um ditado africano que diz: “É preciso toda uma aldeia para educar uma criança”. Educar de verdade dá muitíssimo trabalho, consome tempo (e não apenas dinheiro), implica envolvimento genuíno com o outro. A contação de histórias é um bom exemplo disso.

– Você tem conhecimento de alguma pesquisa que indique a relação entre o fato da família contar histórias diariamente para os pequenos com o interesse pela leitura desta criança na vida adulta?

As pesquisas são inúmeras e quem só se convence com estatísticas pode rastreá-las em bibliotecas digitais de universidades espalhadas por todo o mundo. Mas um olhar mais sensível não precisará delas para se lembrar da própria infância, tenha ela sido encantada pela presença das histórias ou desencantada pela ausência delas. A narrativa é nossa segunda natureza. Nosso cérebro é um processador de histórias, do “case” ao B.O., do contrato à reportagem, do relatório à ata, da novela ao “vídeo-game”… A narrativa dá sentido a nossa existência. Graças a ela, o ser humano sobreviveu, mesmo sendo fraco, sem garras, sem pelo, sem caninos enormes. E construiu a cultura em meio a um ambiente hostil. A narrativa deu sentido à técnica. Ela ainda oferece (mas não sei até quando) significado à civilização tecnológica, para que a gente não regrida à barbárie digital. Se isso não é argumento suficiente para um pai e uma mãe contarem histórias aos filhos, então sinceramente não sei se as pesquisas serão.

 – Quando a leitura não é estimulada em casa porque os pais que não tiveram oportunidade de ter contato com a literatura e, por isso, não se interessam pela leitura. O que fazer? Existe alguma sugestão para este adulto fazer com que o filho seja um bom leitor?

Há duas palavras que ajudam a gente a entender o que fazer neste caso: reparação e superação. Quando algum conhecimento nos faz falta na vida profissional, corremos atrás dele, superamos essa “ignorância” e reparamos um vácuo de nosso repertório. Agimos assim porque sabemos que há uma melhoria objetiva envolvida na aceitação desse desafio. Isso vale 100% para nossa vida em família e nossa vida interior. Se meus pais não me ensinaram boas maneiras quando eu era pequeno, eu trato de aprendê-las sozinho, ou vou ter problemas em minhas relações. Se não tive exemplos de leitura em casa, nem fui formado leitor pela escola, vou atrás de superar esse déficit, ainda que seja em nome da formação dos meus filhos. E aí acabo reparando uma carência de minha própria vida. Em matéria de estímulo à leitura, vale a mesma máxima da educação: ao invés de dar “sermão”, dê exemplo. 

– O que fazer quando as crianças não se interessam pela leitura? Como estimulá-la e tornar a leitura um hábito?

Leia diante dela, para ela, com ela. Consagre um horário para a leitura compartilhada. Ouça-a ler as coisas de que gosta. Peça a ela para lhe contar histórias que ouviu na escola. Estimule-a a transformar os pequenos eventos do dia-a-dia em histórias (os “causos”): na mesa, no carro, na sala de espera… Leia junto com ela o livrinho que ela retirou na biblioteca da escola. Leve-a para ouvir contadores de histórias, para assistir peças de teatro infantil, para conhecer bibliotecas, para ver exposições de arte com temas e artistas interessantes para ela… Converse com ela sobre os filmes e desenhos que ela assiste, os personagens dos vídeo-games que ela joga, os enredos dos livros que ela lê e dos programas de TV a que ela acompanha. Como você vê, tudo isso implica convívio, tempo compartilhado, exemplo, diálogo, interatividade, investimento afetivo. Isso é educar uma criança. De verdade.

– Qual é a importância da contação de histórias para a vida adulta de crianças?

Crianças que ouvem muitas histórias (no contexto interativo de que venho falando) certamente serão adultos mais abertos, curiosos, criativos, tolerantes, cultos e livres. O etologista francês Boris Cirulnik também garante que o contato mediado com as histórias nos provê de uma qualidade importantíssima: a resiliência, ou seja, a capacidade de superarmos e repararmos os traumas inevitáveis que a vida nos impõe. Para ele, a narrativa de fantasia nos ajuda a construir um “refúgio” dentro de nós mesmos, para onde escapamos quando a realidade se torna intolerável. Isso é mais ou menos o que fazemos quando nos entregamos à leitura de um romance bem rocambolesco, em meio a uma crise na empresa ou no casamento. Isso se chama “evasão criativa” e é fruto de uma personalidade resiliente.

– É possível relacionar algumas características das crianças que lêem mais das que crianças que não têm acesso à leitura?

Um aspecto visível é o repertório: são crianças que se comunicam melhor, têm vocabulário maior, estruturam melhor seu texto, seja ele oral ou escrito, desenvolvem o gosto estético para além da oferta paupérrima da TV todo-poderosa etc. De um ponto de vista mais profundo, são crianças mais imaginativas, que aceitam melhor as diferenças, que têm mais senso crítico, que lidam melhor com o lado negativo da vida, mesmo porque as boas histórias nunca excluem os aspectos sombrios da experiência, como o abandono, a dor, a raiva, a perda… São crianças mais centradas, menos propensas à hiperatividade e mais aptas a se auto-entreterem, mais capazes de tolerar imprevistos e contrariedades, com uma vida interior mais rica e organizada. O hábito prazeroso de ler é, nesse sentido, estratégico para a vida.

– Segundo um estudo da ONG Proeco (Projeto Educacional de Conscientização e Orientação), as crianças que mais emprestam livros da biblioteca são as mesmas que passaram mais tempo nas oficinas de contação de histórias. Pela sua experiência é possível dizer que as contações de história contribuem para que as crianças se tornem freqüentadores de bibliotecas?

Sim, claro. Essa relação ocorre, principalmente quando se trata de famílias com menos recursos, mas que prezam a educação de seus filhos. Como essas crianças não podem comprar todos os livros que querem ler, tornam-se sócios das bibliotecas públicas ou frequentadores das escolares (quando elas existem). Quanto às crianças de famílias com mais recursos, isso depende de quanto as bibliotecas são realmente franqueadas às crianças. A biblioteca da escola está disponível e é acolhedora? Os professores mantêm uma interação com os bibliotecários, de modo a realizar atividades em parceria? Os pais levam seus filhos a bibliotecas públicas, ainda que seja apenas para ouvir/assistir contações? A família dá valor aos livros? Frequenta junta livrarias? Visitas a bibliotecas importantes e a boas livrarias fazem parte da programação das viagens em família?

– Segundo uma pesquisa da Universidade de Nevada ter livros em casa é crucial para o aumento do grau de escolaridade dos filhos – e é mais importante do que o nível educacional dos pais. Durante 20 anos, os pesquisadores analisaram hábitos de pais e crianças, assim como seus currículos, e chegaram à conclusão que as crianças que tiveram livros em casa avançaram pelo menos 3 anos no grau de escolaridade em comparação ao dos pais. Você acha que leitura pode impactar no grau de escolaridade conforme aponta a pesquisa da Universidade de Nevada? Por quê?

O impacto da narrativa na vida de uma criança não é de ordem quantitativa, mas qualitativa, o que quer dizer que a dimensão quantitativa será, a seu tempo, naturalmente contemplada. Esses números todos podem até impressionar os mais incautos, mas quem, desde criança, teve a personalidade verdadeiramente impactada pelas histórias sabe que essa pesquisa revela uma parte muito pequena da realidade. “Ter” livros em casa não significa ler livros, muito menos que livros são lidos pelos pais aos filhos. Sim, a leitura oferece um suporte considerável à educação escolar, mas nem sempre as coisas estão envolvidas numa relação simplista de causa e efeito. A “contação” de histórias envolve muito mais: envolve relação, cultivo da alma, transmissão de uma herança cultural que transcende, em muito, a produtividade na escola, essa obsessão das famílias contemporâneas.

 – Qual é a importância de ações como a do programa Itaú Criança da Fundação Itaú Social, que este ano distribuirá mais de 8 milhões de livros com intuito de estimular a leitura de crianças com até 6 anos de idade?  

É uma coisa maravilhosa, uma ação cujo impacto na sociedade brasileira será muito mais profundo, amplo e duradouro do que se pode prospectar objetivamente. Essa idade é chave. Tudo o que virá depois será acréscimo, construído sobre o fundamento dos primeiros anos da infância, que pode ser sólido ou frágil. O mais bonito é que essa é a idade da consciência mágica, em que fazer de conta é a coisa mais importante que uma criança pode fazer na vida. Daí depreende-se que a inteligência racional se constrói sobre uma base simbólica. A brincadeira e a contação de histórias são as atividades por excelência desse período da vida. O resto é perfumaria. O kit de livros é, nesse sentido, um presente às crianças, mas também ao futuro de um país que tem urgência de cidadãos mais educados (num sentido amplo), consistentes, criativos e éticos, capazes de pensar num projeto coletivo, num destino comum. Esse Brasil que nunca chega precisa ser primeiro construído na imaginação de seus cidadãos, para então baixar à dimensão material. Se a gente retoma a máxima de Monteiro Lobato de que “um país se faz com homens e livros”, então essa é uma iniciativa voltada a “fazer a alma” do Brasil, no sentido de recuperar e reparar essa alma que, apesar de vasta, bela e rica, anda abandonada e esgarçada.   

– Iniciativas como esta da Fundação Itaú Social podem contribuir para a formação de novos leitores? De que maneira?

Bom, a próxima etapa cabe exclusivamente aos adultos que receberem o kit. Como você diz, trata-se de uma “iniciativa”, ou seja, a Fundação Itaú Social puxa o primeiro fio da história e as pessoas tecem o restante do enredo. Os destinatários são as crianças. Os adultos são apenas os mediadores. Cansei de ver materiais maravilhosos estocados nas escolas ou guardados nas instituições “porque as crianças sujam e estragam”. Que tal a gente ensiná-las a se relacionarem com esses objetos de grande valor? Isso é parte da educação que elas precisam receber de nós. Se os adultos assumirem de fato o papel de narradores-transmissores da herança contida nas histórias que esses livros carregam, então a iniciativa será um sucesso retumbante. Muitas crianças serão enredadas nas teias encantadas da leitura e nunca mais se perderão dela. E essa história terá um final feliz, ou melhor ainda, não acabará nunca.

“O mágico”: a vida que oscila entre graça e melancolia

Quem, como eu, adora rever “Meu tio” e “As férias do Sr. Hulot”, com o comediante francês Jacques Tati, pode agora matar as saudades desse delicioso “clochard” parisiense: discreto, elegante, gentil. Um filme roteirizado e estrelado por ele participa da 34a Mostra Internacional de Cinema de Sampa. Não, não é outra investida no filão espiritualista-new age, pode ficar sossegado. Jacques Tati, o original, já desencarnou faz tempo e, pela falta de graça que campeia por aí, ainda não deve ter reencarnado. O roteiro foi deixado por Tatit e reescrito pelo diretor Sylvain Chomet. Quem protagoniza “O mágico” (L’illusioniste) é, digamos, um avatar do querido Monsieur Hulot. O charme, a postura, o perfil, a economia verbal e o constrangimento atrapalhado estão todos lá, pode conferir. Chomet, que já tinha agradado os fãs de desenhos animados esquisitos (meu caso) com o divertido e sombrio “As bicicletas de Belleville”, agora assina essa delicada animação sobre a decadência de um mágico de teatro de revista, que tenta sobreviver com seu espetáculo naïve em tempos de roqueiros convulsivos e fãs histéricas (como você vai perceber pelos detalhes, o filme se passa no início dos anos 1960). Na companhia de um coelho branco obeso e agressivo, o sr. Tatischell apresenta-se em pulgueiros parisienses para meia dúzia de gatos pingados. Dispensado pelo dono do teatro, ele resolve cruzar o Canal da Mancha em busca de novas oportunidades para seu show. No pub de uma aldeia escocesa onde descola um trampo, ele faz seus truques mambembes para Alice, a faxineira adolescente. Graças a alguns encantadores equívocos, ele se tornará, aos olhos dela, uma espécie de “mago-padrinho” com poderes extraordinários, capaz de transformar botinas velhas em sapatinhos vermelhos, entre outras maravilhas. Por isso, ela o segue quando ele parte para Edimburgo, em busca de trabalho. E daí para a frente, tudo é poesia feita de luz e sombra, beleza e feiúra, verdade e mentira, novo e velho, risada e reflexão. Oscilando assim, entre a graça e a melancolia, o filme fala sobre a passagem do tempo e as ilusões que ora nos traem, ora nos atraem para sua luz falsa e gloriosa, de projetor de cinema. Ao combinar imagens poderosas a um quase-silêncio idem, o desenho de Chomet evoca nossos desejos, encontros, perdas, os pequenos paliativos que usamos para aliviar as dores de viver, crescer e envelhecer. Tudo temperado pelo humor de Tati, verossímil, contido, tão parecido com nossas próprias patetadas involuntárias… Um palhaço “com a máscara colada à cara”, feito Álvaro de Campos, um ventríloquo que não desgruda de seu boneco e outros personagens inesquecíveis esperam por “tio” e “sobrinha” postiços numa Edimburgo ao mesmo tempo feérica e realista. O mais legal é que ambos não se constrangem de andar juntos para cima e para baixo e de dividir um conjugado num velho H.O., afrontando assim a babaquice politicamente correta que enxerga pedófilos dentro do pote de margarina. Um toque: entre no site da Mostra só para ver a vinheta, em que um anjo sobrevoa a cidade, carregando um homem nos braços: a melhor definição de cinema que já “vi” na vida.

Vidrou no Hundertwasser?

Então vá atrás. Ele não tem Tweeter e nem precisa. Seus seguidores estão conectados em outra rede, bem mais interessante e complexa. No Brasil, tem pouca coisa publicada sobre ele (em português, que eu saiba, nada além do verbete da Wikipédia e de umas coisas meio suspeitas na rede, algumas até que legais). A Taschen tem um bom livro iniciático à vida-obra desse maluco beleza: ” The power of art: Hundertwasser, the painter-king with five skins”, de Pierre Restany. Se você não entendeu esta conexão, vá para a categoria ANIMAMUNDI  e leia o post “Neobárbaros no rastro de Héstia: Hundertwasser”.

Neobárbaros no rastro de Héstia: as pistas de Hundertwasser

Um jardim no telhado. Uma toalete que capta o cocô da família e o redireciona, como húmus, para adubar as áreas verdes da casa. O sagrado direito às janelas. A arte que respeita a natureza e suas leis. A arte que respeita o homem e sua aspiração pela verdade e pelos valores que duram. “O manifesto da merda sagrada”… Se você está achando tudo isso pra lá de original, é porque provavelmente ainda não conhece Friedensreich Hundertwasser… ou conhece, mas ainda não deu a ele a atenção devida. Vienense, filho único de mãe judia (poderosa) e pai “ariano” (falecido quando ele tinha apenas um ano de idade), Hundertwasser foi um pintor criador de seu próprio movimento ético-estético, um “médico” da arquitetura, visionário, naturista (que gostava de discursar pelado, absolutamente fiel ao contexto dos discursos), agitador cultural e ativista ecológico em luta pela qualidade de vida na cidade e contra o racionalismo e as linhas retas na arquitetura, um inventor ousado e um reencantador do mundo em tempo integral. Nascido em terra muito firme em 1928, o artista morreu sobre a água em 2000, a bordo de um navio que singrava o Pacífico, rumo à Nova Zelândia. Mais mítico impossível. Muito antes da ecologia virar clichê, Hundertewasser  já era um ecologista completo, sem fissuras entre vida, arte, ciência e política. Quando ele morreu, a consciência ecológica, seja lá o que isso queira dizer, nem bem engatinhava. “Gugue”-o e você vai se deleitar com algumas visões de sua obra: quadros em que a arte nunca é uma abstração intelectual, mas uma experiência para ser vivida como presença no mundo; prédios sem linhas retas, com ávores pendendo de janelas e acabamentos deslumbrantes, feitos com sucata de material de construção; a Kunsthausswien, um conjunto arquitetônico que ele ergueu em Viena, com o apoio da municipalidade, à margem do rio Danúbio (www.kunsthausswien.com)… Desculpem a tietagem explícita mas, em matéria de Hundertwasser, sou tudo, menos objetiva. Um poema do artista: “A linha que traço com meus pés / quando vou ao museu / é mais importante e mais/ bela que a linha / que descubro pendendo / dos muros-paredes” (Paris, 1953, minha própria tradução afetiva). Apesar de sua urgência para nós, neobárbaros, de sua atualidade, de seu gênio modesto, empático e bem humorado, tão deficitário na arte desta nossa idade do ferro, Hundertwasser é, neste post, tão somente um pretexto (muito maior e melhor do que o texto!). Quero invocá-lo aqui para abordar, com a devida reverência, uma de suas teses mais geniais: a das 5 peles do ser humano. Pele número 1: a Epiderme. Pele número 2: as Roupas. Pele número 3: a Casa. Pele número 4: a Indentidade e o Meio-Ambiente Social. Pele número 5: o Ambiente Global / o Planeta. E eu, que outro dia falava de Héstia, acordei no meio da noite pensando nas 5 peles de Hundertwasser. Mas, como dizia o Júlio Gouveia, que era o mestre de cerimônias da versão para TV da minha infância do “Sítio do Picapau Amarelo”: “Este é uma outra história que fica para uma outra vez…” Quer saber mais sobre Hundertwasser? Vá até ANIMATECA e clique no post VIDROU EM HUNDERTWASSER?

O exílio de Héstia, a verdadeira rainha do lar

Quando eu tinha uns 11 anos, minha mãe me ensinou a lavar a calcinha no banho e a pendurá-la no varal, na área de serviço. Ela também me ensinou a enxugar a tampa da bacia da privada depois de usá-la e a aproveitar a toalha de papel usada no banheiro público para enxugar a pia, porque ela seria usada por alguém depois de mim. Quando eu punha certas roupas para lavar, ela dizia: “Esse vestido está limpo e bem pode ser usado de novo antes de ser lavado. Assim a gente economiza água e energia elétrica, sem falar que a roupa dura mais”. Minha mãe também me ensinou que a gente lá em casa não era sócio da Light, a Eletropaulo dos anos 1960-70. Isso queria dizer que cômodos vazios não mereciam a dádiva da luz acesa ou da televisão e som ligados, porque a energia não chegava de graça em nossa casa. Hoje sei que isso se chama civilidade. Inteligência prática. Racionalidade. Também se chama respeito pelo outro: o que paga as contas, o que usa o banheiro depois de nós, o que lava e passa a nossa roupa. Minha mãe dizia: “Aqui em casa não tem uma fadinha que faz tudo usando uma vara de condão”, mesmo que, na maior parte das vezes, ela mesma encarnasse essa fadinha. É claro que ser de Virgem ajuda muito nesses casos, mas sou muito grata a minha mãe por ter me criado com essa consciência do valor de uso e da conservação dos objetos, da necessidade de desenvolver uma independência e competência para lidar com a realidade concreta. Ao fazer isso, ela me ensinou a atribuir um valor visível e outro, invisível, ao mundo cotidiano, à dimensão banal da realidade. E eu aprendi com ela que nada é banal, nem a calcinha suja misturada com outras roupas no cesto, nem o prato de boa comida jogado quase inteiro no lixo, porque a mãe não teve bom senso para prepará-lo de acordo com o apetite do filho pequeno.  Minha amiga Marina, que foi gerente de uma pousada em Salvador, me contava outro dia de como os hóspedes brasileiros iam à praia, deixando para trás o ar condicionado e a TV ligados e as luzes acesas. Quando ela sugeria que desligassem tudo ao sair do apartamento, eles respondiam: “Mas nós estamos pagando…”. Esse ar condicionado zumbindo ao Deus dará, essa calcinha suja misturada no meio das outras roupas do cesto (quando não jogada no chão do quarto ou do banheiro), essa boa comida desperdiçada não são objetos sem alma, muito menos causas sem consequência. São mensagens de um modo de viver esgotado e decadente, mas também sintomas da repressão, em nossa cultura, de um arquétipo muito bem personificado, como sempre, por uma divindade do panteão grego: Héstia, a deusa guardiã do lar, a senhora do fogo da lareira, filha de Cronos, o Pai Tempo e neta de Gaia, a Mãe Terra. Mas vou falar dela só amanhã, para não desperdiçar a paciência do leitor.

Belo, claro, enigmático… do jeito que as religiões deveriam ser

“Para conhecer melhor as religiões” (Série Claroenigma, Companhia das Letras) é uma beleza de livro. Beleza no sentido grego clássico do termo, porque além de belo, ainda é bom e justo. O autor Patrick Bannon é um cientista das religiões com alma de poeta e o “ilustrador” (palavra mais besta) é um artista sagrado, descendente espiritual dos sacerdotes-pintores que, no neolítico, transformaram cavernas em catedrais. Essas duas feras produzem uma delicada bússola, que ajuda o leitor a planar sobre o oceano de obscurantismo, violência (literal e simbólica) e banalidade em que boiam as religiões em geral, neste nosso medíocre limiar de século 21. Feitas para reunir os homens por meio dos símbolos da trancendência que estes criam e partilham, as religiões, contudo, só fazem dividir. O livro, ao contrário, evoca o mistério tremendo e fascinante que resiste, apesar de tudo, por trás de tantas reduções mutiladoras da experiência do sagrado. Com palavras e imagens, os autores guiam seu leitor pelo eterno labirinto, cheio de armadilhas mortais, e que (eles reiteram sem afirmar) parece levar a um único e mesmo centro: a grande mônada, a divindade, a fonte da vida, o self cósmico, enfim, aquela imagem que você pode ou não revestir de palavra, mas que brilha dentro de você quando a água sobe ou a beleza te atinge direto no peito.

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