Moira

três caras na fonte

 

Para Malu, que agora está sentada diante da roca.

A fiandeira. A que distribui ao acaso. A inflexível. Três mulheres alternam-se para reger nossas vidas,  segundo por segundo. Fazem isso desde que baixamos do poleiro das almas para encarnar num útero humano. Quase sempre trabalham juntas, em implacável harmonia, entremeando funções e atividades por vezes complementares, por vezes antagônicas. Infinitos são os nomes pelos quais as chamamos. Genética. Destino. Casualidade. Karma. Providência. Álea. Vontade divina. Processo histórico. Escolha aquele que melhor se ajustar às suas fantasias, sejam elas religiosas, científicas, filosóficas, ideológicas, estéticas. Escolha sua fantasia e, por favor, deixe que os outros façam, eles também, suas próprias apostas. Cada um lida com elas como pode. Eu prefiro chamá-las por seus nomes: Cloto, a que fia; Láquesis, a que enrola o fio; Átropos, a que o corta. Há também a nomeação coletiva, que aponta para a natureza indissociável de sua faina: Moira, o quinhão, a parcela, a parte que nos cabe neste latifúndio. Sobre a origem delas, o mito é, como sempre, ambíguo. São filhas de Nix, a Noite, uma força elementar impessoal e feroz, anterior ao cosmos e aos deuses, em cuja voragem a luz de nossas míseras lanterninhas se dissolve por completo. Também podem ser filhas de Zeus, o senhor da ação e da vontade, e de Têmis, a senhora das leis irrevogáveis. Para mim, essa origem paradoxal é, sem trocadilho, uma mão na roda. Porque há dias em que elas só poderiam mesmo ser filhas de Nix, esse fundo negro e oco, anterior ao mundo das formas e que, para nosso horror, insiste em persistir ameaçando nosso prestimoso esforço para criar ordem e sentido. Há dias, porém, em que as qualidades polares de Zeus e Têmis se combinam ou conflitam nelas. Então elas divergem e debatem, nos concedem escolhas, nos permitem viver a ilusão de um desejo capaz de revogar a lei de sua mãe… para, em seguida, nos golpearem com a revelação do beco. Dead end. No trespass. Como naquelas placas dos road-movies. Para mim, a imagem delas reunidas ao redor da roca e inclinadas sobre o fuso, as humaniza e pacifica. Afinal são apenas três mulheres concentradas em fazer seu trabalho repetitivo e infinito. Tecem cordões e mortalhas com o mesmo material neutro, a mesma atitude imperturbável. Não têm tempo para passeios, festas, maridos, filhos. Arcadas sobre a roca, são workaholics, prisioneiras, elas também, de sua tarefa infindável. São deusas e prisioneiras, como nós, que também vivemos para fiar, medir, cortar. Para criar e destruir. Para dar conta de nosso quinhão, seja ele um acre de deserto absoluto, um alqueire de floresta, um hectare de terra cultivável. Eis, talvez, a única possibilidade de escolha que temos: a do que haveremos de cultivar em nossa moira. Legumes. Frutas. Flores. Ervas daninhas. Poeira. Parece pouco, mas não deve ser.

“O círculo do destino”: a redundância que não vira clichê

Como cheira bem esse livro! Tinta vegetal, papel artesanal, óleo de linhaça, fumaça de fogareiro,  chapati tostado, lã secando ao sol… Duvida? Então vá lá na livraria cheirá-lo pessoalmente. É claro que, para você, os perfumes evocados serão outros. É também muito bom de tatear o seu papel granulado, espessado pelas camadas de tinta. Ganhei ele de presente de natal da Suzana, que sofre de incontinência dadivosa. Sou, inclusive, muito grata a ela por não ter se tratado dessa doencinha benigna. Num ano de livros lindíssimos (o Vermelho de Jung, por exemplo), “O círculo do destino” (de Radha Raut, Raja Mohanty e Sirish Rao, editado pela Martins Fontes) arrasa, com suas cores chapadas, seus delicados padrões étnicos de fundo, suas personagens solenes e a versão hindu de uma história que ecoa infinitas outras. Eu, pelo menos, conheço várias narrativas parecidas: uma, tradicional judaica; outra, islâmica; outra ainda, nordestina de Pernambuco; mais uma, da tradição caipira paulista; mais outra, mexicana… Conheço tantas versões dessa história – a do sujeito que tenta enganar a Morte – e, ainda assim, me surpreendi no final do livro. Talvez seja efeito da beleza. Talvez da força que subjaz às coisas muito antigas e que continuam tão misteriosas como quando eram novas. O texto, enxuto e preciso, apenas garante a coesão das imagens. No final, ficamos sabendo que as ilustrações seguem o estilo Patachitra de Orissa, uma cidade do leste da Índia, que começou com os artistas pintando histórias de deuses em “grafites”, nos muros dos templos da cidade. Os devotos queriam levar as histórias para casa e os artistas começaram então a imprimi-las em cartões, pergaminhos e até brinquedos. A tradição patachitra continua, nos dias de hoje, sendo transmitida de pai para filho. Gostei muito do tempero que essas informações deram à história, o que tornou o livro, já tão sensorial, também muito saboroso, ao estilo forte, colorido e picante da boa culinária indiana. Nós, comedores de livros – gente, traça ou broca-, adoramos falar dessas coisas. Boa leitura e … bom apetite!