EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 2: O ELOGIO DA DIFERENÇA

monteiro lobato 1

Sobre as reduções e os julgamentos sumários a que ML tem sido submetido pela variedade de ativismos agressivos, ressentidos e mal-informados que assolam o país e a época (muito semelhante à do FEBEAPÁ de Stanislau Ponte Preta), sugiro adotarmos, com o fito de defender quem, por excepcional, por si só deveria prescindir de defesa, um referencial teórico à altura da complexidade da obra desse destemido gigante sobrancelhudo. A teoria geral do imaginário, de Gilbert Durand, é o melhor referencial que conheço, por ser, mais que uma teoria, uma gnose, isto é, um saber orgânico, vinculado à experiência, do tipo que não visa esterilizar seu objeto mas, ao contrário, revelar o sujeito por trás dele, numinoso a ponto de despertar a paixão investigativa. A contribuição mais rica que os livros de ML fazem à cultura, especialmente a atual cultura brasileira de massa, aguada, vulgar e desnutrida, é, a meu ver e, na esteira dessa teoria, a ênfase no dinamismo dos contrários, na “coincidentia oppositorum” entre os regimes do imaginário heróico e místico, enraizados no pensamento seminal de C.G. Jung. Na construção de seu universo simbólico, ML investe nas imagens de opostos que se complementam e cooperam entre si, porém frequentemente também antagonizam, concorrem e se alternam, enriquecendo as narrativas com a qualidade que Morin denomina “complexidade”, grosso modo, a condição que prevê que os contrários precisam apaixonar-se e não destruir-se mutuamente, em que a  diferença é percebida como contribuição e não como ameaça à identidade. Assim Pedrinho e Tio Barnabé formam, juntos, um lindo dinamismo puer-sênex que se desdobra em outros, igualmente ricos, por exemplo, modernidade-tradição, consciência-Inconsciente (no sentido junguiano dos dois termos), entre outros pares de polaridades possíveis. O menino branco da cidade será iniciado pelo preto velho do campo em saberes que sua escola não lhe ensinou porque sequer suspeita que existam, enquanto finge desprezá-los. ML, conquanto seja um homem de seu tempo, deixa claro que o conhecimento de tio Barnabé emana de uma fonte bem mais antiga e venerável do que a que nutre os saberes superficiais e recentes que a escola promove. Tio Barnabé contribui assim para a formação integral de Pedrinho quando lhe ensina sobre os mistérios do natureza (não a que a ciência pretende esquadrinhar, mas uma outra Natureza, inapreensível aos métodos de investigação da ciência). O primeiro conhece o Outro Lado, os mistérios da floresta e os fantasmas da noite, as forças ocultas que podem dissolver o ego arrogante que investiga inadvertidamente, sem render reverência ao que é mais profundo e infinitamente maior do que ele. Em “O Saci”, para mim a obra-prima da série do Picapau Amarelo, o ego em formação encarnado em Pedrinho, o menino civilizado que se sente superior naquele mundo da roça, é colocado à prova pelo Inconsciente e quase soçobra. Isso só não acontece porque há um par de iniciadores se alternando para acompanhá-lo em seu rito de passagem: um, humano, tio Barnabé e o outro, sobrenatural, o Saci. Os afrodescendentes com inteligência e sensibilidade para perceber o valor e as ressonâncias dessa narrativa se sentirão honrados e lisonjeados com a deferência de ML à Grande Mãe África, a casa original de nossa espécie. Já dona Coisa e sua trupe de não leitores se sentirão humilhados e ofendidos pelo que ouviram dizer de outros desinformados que os precederam no telefone sem fio. Como não se comover com a delicadeza e o senso de humor com que Lobato trama a bela e consistente relação de amizade entre o menino do dia e da cidade e o ente da noite e da floresta, uma relação marcada pela horizontalidade que ao mesmo tempo deixa entrever a sapiência do Saci mentor e a inocência de Pedrinho discípulo.

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Outro dinamismo que ML elabora com encantadora precisão é o que se dá entre Dona Benta e Tia Nastácia e que, para o sujeito desavisado e raso, parecerá desvantajoso para a segunda. Novamente os opostos se alternam e se complementam na relação entre as personagens das duas velhas que dividem a regência do mundo do Pica-pau Amarelo. Uma, a avó branca, heróica, cientificista, positivista, metida a erudita, um poço de conhecimento enciclopédico. Outra, a avó negra, mística e nutridora, acolhedora, a poderosa feiticeira que dá vida e inteligência a um sabugo de milho e uma boneca de pano (seria a má-criação da Emília para com Tia Nastácia típica da relação mãe-e-filha?). No ótimo “O Minotauro”, dona Benta se hospeda na casa de Péricles, em Atenas e lá fica, a tietar filósofos e personalidades da época, alinhada com o patriarcado helênico em toda a sua pujança. Já Tia Nastácia é raptada para o mundo da Deusa, Creta, a fonte feminina e mística que nutriu os esplendores da civilização grega. Lá ela permanece como hóspede do Minotauro, retida no labirinto, temendo por sua vida. Enquanto dona Benta coleciona passivamente deslumbramentos, tia Nastácia vive a aventura dos picapaus na Grécia Antiga e termina resolvendo, na base do imaginário místico, sua questão de vida ou morte com o monstro. Uma cozinha instalada no labirinto, alguns ingredientes e a lembrança do povo do sítio, que ela crê que não tornará a encontrar, a estimulam a fritar os bolinhos pelos quais o Minotauro se apaixona e com os quais se empanturra a ponto de ficar obeso e sequer esboçar ameaça contra os meninos que vem salvar sua querida avó negra. Quem não leu, não sabe que, enquanto dona Benta conta a História do Mundo para as Crianças, tia Nastácia narra as Histórias de Tia Nastácia, um compêndio de contos tradicionais e de fadas, lendas e fábulas de culturas e épocas diversas, complementando-se assim os saberes, os sistemas, as abordagens, os imaginários. De novo, um afrodescentente leitor de Lobato saberá enxergar onde brilha o ouro de sua alquimia imaginativa. Quanto ao não leitor, seja qual for sua etnia, só posso sugerir que o leia antes de, tola e precipitadamente, julgá-lo culpado de racismo. Enfim os exemplos desse dinamismo em ML são tantos, tão ricos e eloquentes, que muitas teses acadêmicas não deram conta de elucidá-los em quase um século. Isso porque ML é, muito mais do que um clássico infanto-juvenil, um escritor-iniciador. Só reitero aqui que, agora mais do que nunca, é preciso ler e reler ML, ler para apaixonar-se por esse demiurgo e seu mundo, reler para defendê-lo da choldra que o enxovalha. Neste momento lamentável de nossa História, em que ML tem sido caluniado e condenado por crimes que não cometeu, é preciso contar furiosamente suas historias para as crianças (e para nós mesmos, que lemos para elas), falar dele, de suas contradições, de seus projetos bem mais futuristas que os projetos da inteligentsia modernista, de sua genialidade, de seu amor pelo Brasil, um sentimento que seus detratores parecem desconhecer, quando incendeiam polêmicas equivocadas ao invés de defenderem a cultura brasileira das saúvas que de fato a parasitam e devoram. Mais Monteiro Lobato e menos baboseira, por amor da infância brasileira. Pronto. Inventei um slogan.

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio

EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 1: DONA COISA E OUTRAS HISTÓRIAS ESTRANHAS

saci

Para entender e amar Monteiro Lobato é preciso primeiro ler Monteiro Lobato. Se possível, na infância, quando a gente ainda tem a moleira bem aberta para o simbólico e uma inteligência integral  e integrada, que não foi fragmentada pela escola nem violada pelos sonhos de grandeza, sucesso e neurose com que os pais sufocam as crianças cada vez mais cedo, acreditando tragicamente que se trata de expressar algum tipo de amor doentio e deformante. Se você não leu e não gostou de ML, cale a boca, por favor. Você não está remotamente autorizado a fazer qualquer tipo de julgamento preconceituoso e decontextualizado dessa figura única na cultura brasileira, um homem do seu tempo, autêntico, temerário na sua coragem e no seu inegociável amor pelo Brasil, visionário, maluco, frágil, paradoxal, complexo, honesto, brilhante, ousado, honrado e sei lá o que mais. Como vocês puderam perceber pelo ruído de rasgar de sedas precedente, eu amo ML como a um pai, o que ele foi de fato para mim. Meu pai de verdade me deu de presente meu pai Monteiro Lobato, encarnado numa coleção verde que foi a coisa mais linda e importante que ganhei em toda a minha vida passada, presente e futura. Por esse motivo não vou permitir que nenhum(a) desavisado(a) mal informado(a) (estou parecendo a Loretta da “Vida de Brian”) fale mal dele impunemente, ah, não senhor, não vou mesmo. Quem quiser caluniar ML vai ter de se haver com a minha Emília pessoal, que aprendeu tudo o que sabe com a Emilia primeira e única: desaforada como ela, eu boto a língua bem botada para todo o cara-de-coruja-seca que se meter a criticar um autor que não conhece, baseando-se no cretinismo e cabotinismo (palavras do dicionário lobatiano) da correção política vigente, esse vírus maldito e altamente contagioso que espalha uma epidemia de unilateralidade, reducionismo, conflito dispensável e burrice, a se alastrar pelo país feito fogo pelo mato seco. Uma certa dona Coisa cujo nome fiz questão de esquecer, recentemente consagrada cavaleira do reino, andou falando por aí que ia tirar a obra de ML das listas de livros didáticos porque, de acordo com o questionável julgamento dela, trata-se de um autor racista. Para essa senhora, pessoa, aliás, assaz desinformada, eu explico que sua atitude de censura explícita vem prestar um imenso favor à obra desse autor original e transgressivo, um daimon que, faz décadas, fecunda e alimenta a alma das crianças brasileiras, as amarelas, as rosadas, as negras e também as verdes, laranjas e azuis. Já não era sem tempo, dona Coisa! A obra de ML não merece continuar a ser desvitalizada, quiçá destruída, pela porcaria de trabalho que a escola formal faz com a literatura de modo geral, tirando dela todo o sumo e a transformando numa coisa seca, quebradiça, insípida e inodora, deserotizada, a serviço dos protocolos burocráticos broxantes da educação conteudista e sem libido que só enxerga o vestibular na frente e tem como finalidade última transformar seres humanos ricos, imaginativos, inquietos e afetuosos em reprodutores-consumistas-depressivos-e-babacas. Obrigada obrigada obrigada, dona Coisa!!!! Doravante as crianças brasileiras poderão ler ML livremente, sem ter de ler ML obrigadas pela escola para fazer provinhas sem pé nem cabeça e trabalhinhos bizarros que não mais entupirão as lixeiras das salas dos professores!!! Elas poderão ler ML escondido, que maravilha!!!, porque ele será… censurado pela escola!!!! Um golpe de gênio inoportuno esse seu, hein, dona Coisa? Agora as crianças vão se arriscar para roubar os livros de ML dos monturos onde eles serão empilhados, na iminência de virar cinza nos autos-de-fé da cultura do neopositivismo mequetrefe que assola o país. Vão fazer com os livros de ML o que fazia aquele pessoal doido pra ler em “Farenheit 451″( o filme do Truffaut, baseado no romance de Ray Bradbury, está no Youtube, vão lá ver antes que alguma senhora da mesma liga da dona Coisa mande tirar!). Elas vão arriscar a vida por Emília, o Visconde, Narizinho, Pedrinho e o saci! E Deus sabe o quanto eles merecem que as crianças corram esse risco… Que tesão, dona Coisa! Proibindo ML de ser lido na escola, a senhora presta um grande favor à cultura brasileira em geral e à obra de ML em particular. As crianças ficarão doidinhas para ler esse autor proibido, maldito, misterioso, acusado de dizer coisas medonhas e, portanto, excitante e interessante. Que maravilhosa estratégia! Torço muito para que ela dê certo, antes que o cérebro das crianças brasileiras vire mingau, exposto sem reservas como tem sido a diversos tipos de lixo de altíssima toxicidade, com o qual a senhora aparentemente não se preocupa nem um pouco. De minha parte, prometo me esforçar para ajudar na sua cruzada antilobatiana. Isso é o tipo de coisa que ML aprovaria.

Inesquecível tia Nastácia

Inesquecível tia Nastácia

 

 

Uma outra história, que fica para uma outra vez

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Querida Tatiana,

Escrevo esta carta minutos depois de saber que você partiu “deste mundo descontente”, como cantou Camões. O velho bardo lusitano que, por sinal, anda sendo usado inadvertidamente, por gente que mal sabe do que está falando, tinha não poucas razões para expressar assim a sua desilusão com o mundo. Eu tendo a concordar com ele: este mundo é mesmo um lugar muito e cada vez mais descontente. Espero que, contente como você sempre foi, encontre, do outro lado, um mundo mais parecido consigo. Especialmente porque você não partiu cedo, tinha 94 anos bem vividos, recheados de livros, de viagens, de amigos, de entrevistas, de palestras, de fãs, de leitores, de artigos, de aventuras, de atos verdadeiramente políticos, em defesa da alma das crianças… Você viveu a sua vida inteirinha, de cabo a rabo, e ainda nos deixou a mais maravilhosa das heranças. A morte de alguém importante e querida como você sempre nos leva de volta àquelas fantasias de infância que certos adultos continuam a alimentar, de um jeito meio extemporâneo e canhestro. Para encarar a realidade de nosso fim, do fim inadiável da nossa historinha, precisamos inventar continuações. Essa é a “outra história que fica para uma outra vez”, como dizia o Júlio Gouveia, o grande amor da sua vida, Tatiana, a cada final de capítulo da adorável e singela versão inaugural para TV de “O sítio do pica-pau amarelo”, que, juntos, vocês criaram, para nosso deleite. O Julio dizia isso e fechava aquele livrão dele, de onde saíam as histórias que a gente assistia de olhos estatelados, muitas vezes enquanto a imagem da TV era acometida de um surto de listas horizontais, que cortavam as imagens e as faziam rodar as telinhas (sim, aquelas eram verdadeiras telinhas!) feito frangos num espeto giratório. Quando ele dizia isso, a gente tinha um siricutico de nervoso, porque queria saber o que ia acontecer e ia ter de esperar uma semana, no mínimo, até a tal outra vez. Eu sinceramente achava que aquele homem sobrancelhudo e bonzinho (mas também ligeiramente malvadinho, dava para ver nos olhos dele que ele gostava de nos deixar dependurados) era o próprio Monteiro Lobato, que adiava nosso prazer por mais uma semana e nos mandava brincar na rua com nossas amigas ou ficar em casa mesmo, brincando de casinha com as nossas bonecas. Foi por causa do Julio e daquela estratégia antiquíssima e infalível que descobri o verdadeiro Monteiro Lobato, um homem muito mais sobrancelhudo do que ele. Monteiro Lobato morava nuns livros verdes que eu tinha lá em casa, mas nunca havia folheado, porque só gostava de ler as histórias da minha coleção vermelha do Mundo da Criança. Suspeito que a cor tinha mais a ver com a minha escolha do que o conteúdo. Eu era muito mais seletiva naquela época. Você e o Júlio me fizeram descobrir a coleção verde e me estimularam a virá-la do avesso, no começo apenas para saber o que ia acontecer na tal outra história que não ficava mais para outra vez, porque eu não conseguia mais largar aqueles livros, um mais maravilhoso que o outro. Minha vida era muito contente, não porque eu tivesse um monte de brinquedos, nem porque eu tivesse um quarto só para mim (eu dormia no sofá da sala), muito menos porque eu viajasse, nas férias, para a Disney. Meu contentamento quase sempre vinha dos livros da minha coleção do Monteiro Lobato. As histórias dos picapauzinhos aliviavam minha dura existência de aluna de escola pública, a semgracice da minha família, as infernais visitas que minha mãe me obrigava a fazer com ela, quando eu sempre podia levar um livro verde comigo, para me salvar do tédio das conversas dos adultos. “Ler não comporta imperativos”, você costumava dizer. Que verdade mais profunda! E como você e o Julio, de repente, fizeram de mim uma menina rica! Será que você pode contar isso ao Julio, quando encontrar com ele? Digo isso sempre para o Monteiro Lobato, mas acho que se você puder contar pessoalmente, ele vai entender melhor. Você me faz esse favor? Quantas lembranças boas eu tenho de você! Uma vez eu te encontrei pessoalmente, chegando de táxi à ECA, de onde eu estava saindo nem sei bem porquê, acho que só para encontrar você, que ia fazer uma palestra ou coisa parecida. Isso faz uns 15 anos, no mínimo. Quando reconheci você naquela senhora sorridente e gorducha, corri para ajudá-la a descer do táxi (acho que não teria feito isso se fosse outra senhora, peça para Jesus que me perdoe por isso, por favor). Você sorriu para mim com suas deliciosas covinhas, olhou dentro dos meus olhos com seus olhinhos vivos e sapecas e logo se agarrou ao meu braço, como se fosse uma tia querida. Eu estava no céu. Acompanhei você até a recepção, descobri não sei como aonde ia ser o tal evento do qual você participaria e levei você até a sala, sempre agarrada no meu braço e conversando um monte de coisinhas. Fui ouvindo aquela sua voz de menina fanhosa, que era uma graça. Entreguei você à moça que a esperava e nos beijamos efusivamente, como se fôssemos grandes amigas. Na verdade, éramos grandes amigas, porque foi assim que você me tratou. Ainda tenho uns livros seus autografados numa Bienal e que você dedicou à Helô, minha filha mais velha, que adorava seus versos traduzidos do russo e do alemão, seus limeriques, suas histórias engraçadas. Quando encontrar com ela, agarre no braço dela como fez comigo e saiam vocês duas, conversando coisinhas. Vai ser como se eu estivesse junto. Não quero viver “cá na terra sempre triste” porque você também se foi. Ao contrário. Fica comigo a sua imagem encantadora de menina-velha, sábia e sapeca, um lindo oxímoro, uma união de opostos, apontando para aquilo que eu quero me tornar quando for velha, sem pretender arremedar sua grandeza, mas somente o seu contentamento. Boa viagem, querida! Um grande beijo da Eli

Caçaram Pedrinho !!! Vida longa a Monteiro Lobato

Se tem uma coisa que infernizou a vida de Monteiro Lobato foram as patrulhas. Estéticas. Políticas. Ideológicas. Religiosas. Autêntico, bocudo, polêmico, ousado, emiliano, enfim, até a medula dos ossinhos miúdos, Lobato foi execrado por diversas patrulhas em atividade à sua época, por dizer e escrever o que lhe dava na telha e fazer o que achava certo. Era, em suma, um homem leal ao seu daimon, coisa que os medianos metidos a ótimos nunca lhe perdoaram. Por isso foi xingado de americanófilo, subversivo, reacionário, entre outras pérolas. Vira e mexe seu nome ainda é usado em vão por uma pobre gente que não teve a sorte de lê-lo na infância. E que, ao que parece, também não faz questão de lê-lo agora, antes de emitir julgamentos equivocados sobre sua obra. Semana passada, um tecnoburocrata da educação chamou-o de racista, baseado num trecho fora de contexto do delicioso “Caçadas de Pedrinho”. Foi assim: o livro apareceu numa lista de indicações de leitura elaborada por uma escola pública do Distrito Federal e o tal funcionário padrão, com seu olho de águia devidamente remunerado pelo contribuinte, encontrou lá uma menção a Tia Nastácia subindo numa árvore para fugir de onças, feito “uma macaca de carvão”. Baseado nisso, o servidor decidiu acertadamente incluir “Caçadas” no seu gosmento index. Acertadamente sim, porque tudo o que Lobato nunca quis na vida foi ser politicamente correto. Muito ao contrário. Por isso acho ótimo que excluam sua obra infantil das mofadas listas escolares, as mesmas que servem para imunizar crianças e adolescentes contra os perigos do prazer de ler. Quanto menos Lobato for lido como dever escolar, menos chance terá ele de ser desencantado pelo toque de anti-Midas da escola. E quem pode dizer se esse leitor bissexto não acabou prestando um serviço à obra de Lobato? Quem sabe se a  polêmica levantada por ele não acabará servindo para reviver as histórias contadas por esse brasileiro genial, na memória de uns tantos pais e avós que tiveram as infâncias iluminadas por seus livros? Assim já estaria de bom tamanho, se a turma do pano-quente não tivesse tido uma ideia realmente desastrada. Que funciona mais ou menos como pregar um cartaz nas costas do livro, do jeito que fez a Emília com o estafermo do João Faz-de-Conta, em seu famoso circo de “escavalinhos” (Reinações de Narizinho). OK, fica na lista, mas com uma bula de “politicamente incorreto” em anexo. Lindo. Apenas para esclarecer aqueles que não conhecem bem Lobato e suas criaturas, a diabinha da Emília em particular:  frequentemente eles descrevem pessoas brancas como “bichos de goiaba” e “baratas descascadas”. Será que isso configuraria um empate? Eu ainda tenho para mim que “O saci” resolve , no ato, essa pendenga, quando atua como orientador e guia de Pedrinho numa jornada de iniciação aos mistérios da floresta. O neto branco da aristocrata latifundiária dona Benta (na verdade uma sitiante metida a intelectual autodidata), posto sob o comando de um moleque negro, e de uma perna só, ainda por cima? Será que isso aplacaria os pruridos do tal moço zelozo? Ou poderíamos também considerar a hipótese “O minotauro”, em que tia Nastácia amansa e ceva o monstro mítico no interior de seu próprio labirinto, empanturrando-o com seus divinos bolinhos de polvilho… Aliás, em matéria de incorreção política, sugiro aos inquisidores de plantão que investiguem “Histórias de tia Nastácia” porque vão se fartar. Ali tem conteúdo que justifique, inclusive, um auto-de-fé. E vou parando por aqui, porque não ganho para dar consultoria sobre Monteiro Lobato a gente desinformada. Para encerrar, invoco a Emília. Ela que mande esses caras de coruja seca pentearem macacos. Ou descascarem baratas. Tanto faz.