“Te adorando pelo avesso”

Zeus e Antiope

O deus atravessou a multidão com compostura e segurança dignas do primeiro escalão do Olimpo. Estava cercado por numerosos policiais que o constrangiam tanto quanto o protegiam da sanha do populacho, tomado por um frenesi. Ofensas, gritos, choro e ranger de dentes não pareciam intimidá-lo. Não pude deixar de pensar em Zeus, o grande estuprador e fecundador de mulheres mortais; em Dioniso, o deus da loucura; em Ares, o senhor da guerra, sempre acompanhado de seus leões de chácara Fobo (Medo) e Deimos (Terror). As mulheres compunham a maioria do séquito que aguardava a chegada do deus ao aeroporto. Não pude deixar de pensar que, como “As bacantes”, se os policiais não estivessem lá para contê-las, elas teriam partido para um ritual orgiástico de desmembramento, um “sparagmós” como aquele em que o rei de Tebas, Penteu, foi despedaçado por um grupo de respeitáveis senhoras, cidadãs exemplares, transformadas por Dioniso num bando de loucas selvagens. Três anos foragido, anos e anos passados da violência literal cometida por ele contra aquelas mulheres e elas ainda permanecem imobilizadas no evento, não procuraram psicoterapia (ou se procuraram, a psicoterapia não as ajudou a sair de lá), não conseguiram descer da maca onde ele perpetrou seus crimes, com a boa consciência de um ente sobrenatural que se crê acima do bem e do mal. Iguais às bacantes, elas ouviram o chamado e largaram o que estavam fazendo, seus negócios, sua casa, seus filhos, para responder à  convocação da divindade, tomadas por uma paixão sombria que as expunha e expunha suas famílias num circo de horrores bem ao gosto das feras midiáticas. Histéricas, elas gemiam e choravam ao microfone, alegando que precisavam testemunhar com os próprios olhos a prisão dele, que agora, sim, elas se sentiam verdadeiramente livres, revelando aos berros que ele implantara óvulos delas a torto e a direito, que elas tinham filhos ignotos espalhados por aí e outras barbaridades nelsonrodrigueanas que a gente enterra e esquece, por não haver outro modo de se lidar com elas. O discurso errático delas, porém, revelava bem o contrário do que mostrava a experiência. Desmascarado o criminoso, julgado e condenado, elas estariam livres para retomar a própria vida e se curar de suas feridas. Todavia era como se elas tivessem passado todos esses anos a impedir qualquer a cicatrização, cutucando a casca mal ela se formava, revolvendo a lesão para manter a carne viva, a paixão ativa ainda que pelo avesso, ainda que pelo ódio que, como todos sabemos, está longe de ser o oposto do amor, sendo apenas sua outra face. Já cantava Ellis, nos versos imortais de Aldir Blanc e João Bosco, que “as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam…”. Aquele predador merecia de suas vítimas a mais gélida indiferença, uma tal que o lançasse na pocilga abjeta do opróbrio e do esquecimento, um lugar ainda mais frio e cinzento que qualquer cela de presídio. Recebeu, no entanto, uma ardente homenagem de mulheres que deveriam tê-lo assassinado em seus corações mas, ao contrário, acorreram para sacrificar a ele sua intimidade e as de suas famílias. Se, no ato do estupro, elas estavam literalmente anestesiadas, portanto incapazes de reagir, o ritual que protagonizaram em pleno aeroporto serviu para mostrar que continuam inconscientes, muito embora agora elas aparentem estar despertas.

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Conversando com a Ruth Toledo Altschuler, minha terapeuta de florais, ela me iniciou na ideia de “woundology”, um termo traduzido livremente como “feridologia”, isto é, a capacidade que temos de tirar valor de nossas feridas emocionais e de permanecer imobilizados nelas. Ruth me apresentou a Caroline Myss, que foi quem cunhou esse termo. Para Caroline, a cura emocional tem a ver com a necessidade de enxergar “o poder que as feridas têm sobre nós” e “reconhecer a energia que investimos para manter nossas feridas abertas”. Tem uma fala interessante dela no Youtube, no link http://youtu.be/pzVyNoFA9Es

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Nas matilhas lá do ateliê, enquanto lemos nosso clássico “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, noto o frisson que o conto do Barba Azul continua a desencadear e como essa imagem arquetípica do predador psíquico sempre retorna às nossas conversas, ainda que a gente esteja envolvida com outros enredos. A sedução do predador não pode ser subestimada, a menos que a gente queira cair de novo e de novo na teia de Barbas Azuis machos e fêmeas, individuais e coletivos, literais e simbólicos que pululam por aí, procurando pactuar com as vítimas ingênuas, sempre disponíveis. A grande questão é quando somos nós os nossos predadores, e a  “feridologia” parece falar da outra face da vítima, aquela que ama o predador e colabora com ele para sabotar o próprio desenvolvimento.

O inverno está chegando 2: a hora e a vez de Jaime Lannister Matraga

jaime lannister

Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento. O adágio cai como uma luva para a personalidade número 1 de Jaime Lannister, o tio-pai do vilãozinho Joffrey. Outra imagem arquetípica poderosa, desta vez para o masculino perdido e ferido, órfão do Papaizão corporativo ocidental, aquele que “fora de mim não há salvação”. No artigo “A face oculta do novo”, publicado no Estadão do dia 09-06, Lee Siegel fala sobre o crescimento do número de suicídio entre os americanos adultos do sexo masculino, como efeito colateral de algumas das “tendências festejadas” do Império, aquelas que as periferias adoram copiar: hiperindivualismo, hiperracionalismo, hiperconsumismo, hiperprodutividade. Para escapar ao suicídio, Jamie Lannister, assim como o Augusto Matraga do conto de Guimarãe Rosa, vai ter de se auto-sabotar.  Jamie literalmente terá de matar um pedaço de si para continuar vivo. No caso de um exímio espadachim, nada mais expressivo do que a mão direita. Um metrossexual cinico, amoral, irresistível, metido na sua reluzente armadura Louis Vuitton, Jaime forma, com sua contraparte feminina, a irmã-amante Cersei, uma espécie de totalidade corrompida, um andrógino literal e perverso. Ambos são consumidos pela relação incestuosa que não permite  que suas vidas evoluam, retidas no pântano do mundo da mãe morta, a quem eles reverenciam inconscientemente. É preciso abrandar a dureza, a agressividade, as altíssimas expectativas do poderoso patriarca da casa Lannister, Tywin, que trata os próprios filhos como crianças sumamente decepcionantes. Apesar da inegável competência para manipular e seduzir, Jaime permanece, contudo, sob o estigma de “Regicida”, o epiteto que o persegue  aonde quer que ele vá. No passado, tendo matado, pelas costas, um rei louco e homicida, ele continua preso a essa dúbia façanha e, portanto, uma espécie de herói eternamente sob suspeita, até porque, além de matar um rei (louco, mas rei), Jaime não foi capaz de fazer mais nada que o distinguisse por seu verdadeiro valor. Na corte do cunhado a quem corneia com a irmã, Jaime não passa de um super-valete. Retido na adolescência, preso ao pai e à irmã, incapaz de instituir uma jornada solo, Jaime acaba sendo lançado pela narrativa a uma aventura “campbelliana”, ao longo da qual será reenviado aos próprios limites. De volta ao lugar de onde partiu, ele encontrará seu verdadeiro lugar e papel num mundo que se transforma violentamente. Sua vida vira do avesso e sua aventura realmente começa quando ele se vê separado, pelas circunstâncias, do seu clã de origem. Segue-se sua captura pela casa inimiga, os Stark, cujo filho ele aleijou, ao empurrá-lo do alto de uma janela onde o menino inadvertidamente testemunhara a relação incestuosa entre Jaime e Cersei. Aí começa o calvário que desencadeará sua iniciação e sua metamorfose, impedindo que Jaime se autodestrua. Enviado pela matriarca dos Stark, sob a guarda estrita e competente de uma paraíba mulher-macho sem retoques, a cavaleira Rienne, Jamie deve ser trocado pelas duas filhas dos Stark, retidas na corte do malvadinho rei Joffrey. Mas as peripécias ao longo do caminho o submetem a todo tipo de provação e humilhação. Sem a resiliência do irmão Tyrion, o anão, de longe a melhor personagem da história, Jaime não sabe como se comportar na posição de inferior e é duramente castigado por sua arrogância e impulsividade. Termina por construir um vínculo de honra e lealdade com a improvável Rienne, mas somente depois de ter a mão direita amputada por um miserável caçador de recompensas. O homem que, ao final da temporada, retorna a King’s Landing, não é nem de longe o mesmo que deixou os confortos e os excessos da vida palaciana. Na cena final, eletrizante, Jaime entra, sem ser notado, no quarto de uma Cersei desatenta, mergulhada em pensamentos sombrios. Irreconhecível, mendigo e maneta, imundo e andrajoso, ele me pareceu, de repente, um digno avatar do épico Augusto Matraga em sua trajetória invertida, de reparação e redenção. Por fora, pão bolorento, por dentro, bela viola, Jaime Lannister engrossa o exército de Brancaleone que cresce e aparece lentamente ao longo da trama, um contingente de “loosers” de todos os tipos e que prometem virar o jogo dos tronos.

O inverno está chegando

Final de temporada na série “Game of Thrones”, da HBO. O autor é um deus ex-machina sem misericórdia nem clemência, que rapidamente esvazia nossas apostas e mata um a um os personagens convencionais aos quais mais nos apegamos, dependentes que somos de uma visão de mundo que, numa expressão, já era. Quem leu os livros sabe de antemão para onde o enredo se encaminha, porém quem é fã da série de TV, meu caso, prefere continuar dependurado no fio tenso do excelente roteiro. Os deuses novos e antigos me livrem de saber antes o que vai acontecer. Pelo mesmo motivo, não frequento videntes e acho uma pobreza quem frequenta para saber o que vai rolar na semana que vem. É melancólico a gente não ser capaz de imaginar ou estar tão ausente de si mesmo a ponto de querer antever o futuro para ganhar alguma perspectiva. Olhe em volta. Olhe para dentro. Leia. Vá ao cinema. Aos museus de arte. Veja como se move o imaginário da época. Preste atenção, como aconselhava Montaigne. Enxergue os deuses que se movem, ocultos nos atos impudentes, inconscientes e mecânicos dos homens, essa raça mal acabada de demiurgos idiotas, como dizia Jung. Pergunte a esses deuses os seus nomes e eles lhe dirão, sem rodeios, quem são, de onde vêm, para onde nos levarão. Em “Game of thrones”, à medida que a história avança para o desfecho, as mulheres abusadas, as crianças, os aleijados, os disformes, os bastardos, os escravos, os miseráveis, os selvagens pouco a pouco roubam a cena dos heróis, dos senhores, dos príncipes, dos cavaleiros, dos reis, dos nobres, dos times da primeira e da segunda divisão. O patriarcado se desconjunta diante dos nossos olhos, em dez capítulos enxutos, vitimado por sua própria desmedida. A síntese está lá, primorosa e impactante porque é metáfora, e a metáfora resume e, ainda por cima, antecipa, já que está livre para imaginar, ao contrário dos discursos oficiais, dos dogmas e das doutrinas. Fiz uma lista das imagens arquetípicas que  mais me saltaram aos olhos nesta fase da história e que me esclarecem muito sobre os tempos sombrios que vivemos, se é que vivemos outra coisa neste mundo que não tempos sombrios. De qualquer modo, “o inverno está chegando”, o mote sinistro da casa Stark, me parece muito apropriado para nós, que esperamos ao invés de agir. Devagarinho vou recuperando aqui as personagens da série como cintilações do arquétipo, que sempre tem muito a nos dizer, no avesso da razão. Meu primeiro tema é:

JOFFREY, O REIZINHO EQUIVOCADO

joffrey baratheon

Joffrey Baratheon, o tiranete infantil, mimado e sociopata da história, é uma imagem nítida e incômoda da nossa juventude que tem tudo e, por isso mesmo, morre de tédio e soçobra na própria falta de empatia e imaginação. Quando não tem o que quer, também não se constrange em roubar e matar para conseguir. Indigente de caráter, valores morais e ideais, Joffrey sofre, entre outras coisas, de um déficit crônico de limites, que um corpo coletivo leniente e hipócrita não foi capaz de lhe impor. Você pode imaginar homens crescidos que cometem crimes bárbaros sendo tratados, pelo Estado, como criancinhas perversas, incapazes de escolher entre o bem e o mal? Se pode, então entendeu o cerne desta questão. Joffrey foi largamente convencido de seus direitos e assim acredita neles com uma fé fanática, embora seja bastante cético no que tange aos seus deveres. Como a atual geração dos micro-déspotas superprotegidos e refratários à autoridade, sejam eles ricos ou pobres, Joffrey prossegue sem vínculos, nem rumo, nem desejo, todavia possuído de uma violência e de um arbítrio sem limites, que já apontam para o destino funesto que o aguarda, pelo menos na ficção. Vi muito de Joffrey nos atos de vandalismo que destroçaram patrimônio público e privado na avenida Paulista, semana passada, em meio a um canhestro protesto contra o aumento da passagem de ônibus. O espírito de Joffrey, destrutivo, desrespeitoso, arrogante, que adora causar, embora não tenha outra causa além da sua própria, depositada no fundo do umbigo, estava por lá, encapetando a moçada, grande parte da qual nem sequer usa ônibus e até foi de carro ao local, como quem vai à balada. São, como Joffrey, filhos de reis fracos e ausentes, de rainhas incestuosas e permissivas, de uma sociedade de aparências, roída de culpa, louca para se livrar do mico de ter de servir de modelo. O rei  Robert, pai formal de Joffrey (para quem não assiste, seu verdadeiro pai é seu tio Jamie), começou bem e terminou poderoso demais, entediado, amargo, bebum e promíscuo. Só no leito de morte caiu-lhe a ficha da bisca que deixaria em seu lugar, por puro descuido. Interessante que, no derradeiro capítulo da temporada, Joffrey se confronta, enfim, com um inimigo à altura: o próprio avô, perto de quem a maldade do neto é pinto. Grandes expectativas desse que será um duelo inesquecível: o da antiga ordem, tão cínica quanto ciosa de sua honra, dos interesses de seu clã e do lugar que este ocupa no mundo, contra a nova ordem, representada, na série, por um montinho de merda pretensioso e prepotente, o qual, assim como foi alçado a um lugar de ilusório poder por força de um golpe do destino, dele será derrubado, a seu tempo, pelos mais velhos, mais safos e mais malvados do que ele. Olhem para o Joffrey, garotos e garotas insolentes e auto-referentes, tomem tento, baixem a crista e vão trabalhar para ver se conseguem conservar a única herança que lhes cabe de fato: este mundo despedaçado pelos seus pais e avós.

… e o velho volta a servir

Como deixar de fora a Frida?

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo

” Despreza-se o amor velho pelo novo, o novo vai e o velho volta a servir”, dizia minha mãe que, junto com Caetano Veloso, faz anos no dia 7 de agosto. Para provar que, como todo leonino, ela estava certa, aqui estou eu, escrevendo este post num notebook-estepe lento, burro e vira-latas. É que o meu reluzente mac sucumbiu às potências do inconsciente e não aguentou o tranco da última retrogradação de Mercúrio, meu duplo regente (sou Virgem ascendente Gêmeos). Meu mac pifou vergonhosamente, por sorte dois meses antes de vencer a garantia. Diferentemente de Steve Jobs, coitado, se minha máquina não tiver conserto, será substituída por outra, menos suscetível às flutuações zodiacais. Vamos, porém, voltar a minha mãe e seus ditados, herança de uma linhagem de “mulheres engolidas”, como a Metis grega, e que passaram a vida refugiadas no rés do chão da natureza feminina, a pretexto de sobreviver à calhordice patriarcal.  Guardo dela uma coletânea desses lugares-comuns que, se já tiveram o poder de ativar  fantasias matricidas, hoje me divertem e ensinam. À medida que a camada semântica superficial que os recobre vai oxidando, ficando quebradiça e caindo aos pedaços, vou descobrindo, encantada, camadas e mais camadas de imagens vivas, inquietas, suculentas. Tal como seus ditados gastos e remendados, também minha mãe pouco a pouco vai soltando as cascas e peles que  retiveram seu crescimento e a reduziram aos meus olhos. Decidi eu mesma, desde sua agonia, tomar parte dessa derradeira metamorfose. Peguei uma carona no voo da borboleta que se liberta com a dilaceração da pele da lagarta. Tenho provado a doçura dos caroços que a romã só pode oferecer depois da ruptura irreversível da casca, feita da sobreposição de tantas personas, blindagens, condicionamentos, complexos, retoques, de tanta lealdade e servidão ao coletivo e seus julgamentos. Todavia compreender a degradação da pele da lagarta, a fragmentação da casca da romã não é coisa dada. Deve-se aceitar algumas condições nem sempre agradáveis, deve-se obedecer às etapas de um ciclo vagaroso, sutil, aparentemente truncado que demanda muito trabalho invisível por parte de nós, os vivos, com frequentes descidas à escuridão labiríntica das minas da vida subjetiva. Nos meus sonhos, nas minhas flutuações de humor, nas lembranças recuperadas, nas visões da minha própria alma incubada, minha mãe retorna, um holograma vagarosamente desvelado no interior da retorta do alquimista: sendo e não sendo ela, sendo ela e sendo eu, sendo todas as que vieram antes dela, sendo todas as que virão depois de mim. O novo que se vai depois de algum tempo é o provisório e descartável, o que desbota, pega cheiro e perde as tiras. Já o Velho que volta a servir, depois que o prazo do “novo” expira, não é nem senil nem precário nem frágil nem dependente nem anacrônico. É fundador, original, radical, pristino, reparador. Passou de boca em boca, de mão em mão, de cultura em cultura sem se desgastar nem perder o viço, palpitando sob a banalidade redundante da vida (que só pode ser banal para quem a enxerga com olhos banais). O Velho arquetípico, que reenvia o estereótipo provisório e raso à sua natureza perene e profunda, esse Velho nos servirá sempre, na medida em que nós também o servirmos e honrarmos. Vai-se assim a minha mãe pessoal e vêm tomar seu lugar a Mãe transpessoal, a Grande Senhora de muitos rostos, ritmos e humores: Cibele, Shekinah, Ísis, Gaia, Demeter, Diana, a Virgem Maria, Pachamama, a Mulher-Aranha, imagens do feminino das quais minha mãe nunca pode desfrutar, porque sua religião a interditou delas.  Então eu faço isso por ela e sei que agora ela me compreende. Engraçado. Comecei este post  querendo escrever sobre a espetacular animação ” Valente”, da Pixar, mas tive de deixá-la para o próximo, embora aqui o assunto já tenha sido bem introduzido. Minha mãe se interpôs, até porque hoje é seu aniversário.

Senhor da Dança

Shiva

Conheço um físico, o Edu, que trabalha no acelerador de partículas do CERN (European Organization for Nuclear Research), na fronteira da Suíça com a França. Outro dia, ele me contou que o acelerador é muito parecido com aquela imagem clássica de Shiva, o deus da trimurte indiana responsável pela dissolução das formas da realidade. Shiva é parceiro do Brahma, o Criador, e de Vishnu, o Mantenedor. Se Shiva não faz sua parte, Brahma e Vishnu não dão conta de fazer as deles. Pelo que entendi, conversando com o Edu, cada vez mais a ciência confirma a metáfora do mito. O chavão “nada se cria, tudo se transforma” de Lavoisier já era porque, segundo ele, na dimensão incomensurável das partículas, tudo se destrói para virar nada e tudo se cria a partir do nada. A função de Shiva é demolir as formas vazias e esclerosadas, deixando assim o terreno limpo para as formas futuras. Nesse sentido, a energia que ele representa é muito parecida com a do Dioniso grego (que os gregos consideravam um deus estrangeiro), o padroeiro das metamorfoses. Ambos intervêm na realidade para suprimir aquilo que já perdeu o significado, abrindo espaço para que o novo possa nascer. Há quem diga até que Dioniso foi criado à imagem e semelhança de Shiva. No início, uma divindade andrógina, originária do noroeste da Índia, onde vicejava a cultura dravidiana, de agricultores sedentários e devotos de uma religião ginecolátrica, Shiva foi posteriormente  assimilado pelos agressivos conquistadores árias, guerreiros que o adaptaram a sua própria religião patriarcal.  Além de Dioniso, Jesus Cristo, com sua pregação transgressiva do status quo e confrontadora da hipocrisia da religião oficial, está alinhado com Shiva. Não custa lembrar aqui de suas provocações aos “sepulcros caiados”, como ele chamava os sacerdotes, ou de seu magnífico “piti” contra a transformação do templo de Jerusalém num shopping multimarcas. É claro que Cristo e sua mensagem demolidora também foram devidamente assimilados e desfigurados para legitimar os mais podres poderes, mas OK, esse não é nosso tema aqui. Fato é que ele emerge do mesmo arquétipo de que se originam Dioniso e Shiva: o do destruidor das formas esgotadas, ressequidas, estéreis. Essa imagem criativa no sentido amplo, simultaneamente negativa e positiva, aparece devidamente eufemizada para nosso limitado bico, até porque, para engolir os aspectos mais indigestos da vida, só mesmo tomando umas metáforas. Na representação clássica de Shiva, o destruidor é também o senhor da dança cósmica, lindamente instalado em meio a um círculo enfeitado por pequenas línguas de fogo, muito semelhantes, salvo engano meu, aos prótons no acelerador. Equilibrado numa postura tão complicada quanto natural para o iogue que é, Shiva mantém um pé erguido no ar e o outro, apoiado sobre o dorso de um sujeito estatelado, que representa, no entender do Edu, os cientistas, no meu, o mundo material, e, em última instância, todos nós. Seus quatro braços modulam-se em gestos delicados e expressivos, formando uma postura de odissi, aquela maravilhosa dança indiana tradicional. Duas de suas mãos seguram, cada uma, um objeto, e tocam os limites da roda, dos dois lados. Vejam que não se trata de um brucutu que sai dando porrada por aí, desbaratando os infiéis e os descrentes. Crentes e fiéis são parte da realidade que precisa ser destruída por Shiva e sua dança, segundo os Vedas, tende a se tornar cada vez mais acelerada nesta nossa Idade do Ferro, a Kali Yuga, marcada pela velocidade, o materialismo, a degradação objetiva e subjetiva da realidade. Minha descrição de Shiva baseia-se numa estatueta dele que mora aqui em casa. Coloco-a ao lado do meu MAC e gosto da composição. Na mão direita, ele segura uma urna (de cinzas?) e na outra, uma língua de fogo. Se você souber mais sobre esses objetos misteriosos, pode me ajudar a desvendá-los, por favor. As outras duas mãos movem-se em direções opostas, descrevendo um gesto que sintetiza a dualidade essencial de nosso mundo: uma aponta o céu e outra, a terra. Seu quadril ondula graciosamente, talvez recordando o tempo em que seu corpo ainda era andrógino. Em tudo, ele lembra mesmo uma concentrada dançarina de odissi. Um magnífico cocar de línguas de fogo rodeia sua cabeça. Na minha estatueta, as pontas de uma faixa apertada em torno de sua cintura estendem-se para tocar os dois lados do círculo que envolve sua figura. Shiva é paradoxal: ao mesmo tempo, um deus apaixonado e sensual, e um asceta. No hinduísmo, isso não é um problema. Edu me contou que o governo indiano presenteou o CERN com uma estátua enorme de Shiva. Se você achou que os cientistas a guardaram no porão, debaixo de um lençol, enganou-se. Segundo o Edu, ela ocupa uma posição de destaque, num hall onde todos passam, diante de uma grande porta que dá para um jardim. Assim, a luz natural o ilumina por trás, intensamente. À noite, a luz das lâmpadas projeta a sombra de Shiva sobre a parede do prédio do laboratório. E o símbolo está constelado: Shiva e o acelerador de partículas são duas metades completamente diversas da mesma realidade. Opostas e complementares, porque uma não é capaz de fazer o que a outra faz. Os cientistas do CERN parecem ter, de algum modo, entendido isso. Melhor para eles. Se eu pudesse, daria uma modesta e nada original sugestão aos poderosos devotos de Santo Estevão Trabalhos (a tradução do meu filho para “Steve Jobs”) que inventaram a tal Universidade da Singularidade, no Vale do Silício. Instalem um Shiva três vezes maior do que o do CERN (para ganhar dos europeus, é claro) num espaço de destaque da sua instituição. Seria uma tentativa de moderar, ainda que somente pela intervenção da imagem, tanta megalomania. Afinal a gente sabe que o ego só precisa de ar para ficar enorme. E Shiva só precisa de  um alfinete para transformar esse bonecão inflado e vazio em pó.

Onde está o herói?

Espelho encantado com a diferença

Aquelas revistas Manchete e Fatos & Fotos eram do mês anterior, mas a gente nem ligava. Pelo menos uma quinzena depois de terem saído nas bancas, elas aportavam lá em casa, dádivas requentadas oferecidas em terceira mão por uma prima, casada com publicitário. Primeiro iam para a casa da mãe dela, minha tia. De lá, derivavam para nossa casa, ainda muito inteiras, diga-se em favor de nossa “sócia” de reciclagem. Demorava um pouco, mas a gente aprendia a esperar com gosto. As revistas chegavam em casa e relaxavam, porque sabiam que, agora, durariam meses, quiçá anos. Da sala de estar, passariam ao quarto e do quarto, ao banheiro, onde ficariam até mofar ou se molhar em algum acidente com o chuveirinho. Ou  virar colagens, ter as modelos maquiadas com canetinha, as páginas centrais destacadas para encapar livros e cadernos, as fotos de ídolos fixadas com durex na porta do guarda-roupa… Na nossa casa, as revistas eram como os “animais úteis” de uma disciplina escolar  surreal, chamada Conhecimentos Gerais: tudo se aproveitava, carne, gordura, pele, ossos, dentes, unhas… E afinal, a dança cósmica de Shiva ainda não era tão frenética naqueles anos 1960-70. O prazo de validade de coisas, pessoas e relacionamentos tendia à longevidade. Tinha lá suas desvantagens, claro, mas, no geral, era bom ver o tempo passar e não ser atropelada por ele. Uma semana durava uma semana e não três dias. Dava para esperar cinco minutos sem surtar. Uma revista mensal resumia os eventos e durava, pelo menos, o mês inteiro. Perto de Caras e Veja, aliás, Manchete e Fatos & Fotos eram quase revistas Qualis. Heróis e vilões amadureciam, engajados na batalha do bem contra o mal. O Super-Boy teve tempo para ganhar experiência e se transformar no Super-Homem. Já os meus heróis brazucas favoritos e suas aventuras saiam em quase todos os números das nossas fabulosas revistas recicladas, tão exóticos e  familiares quanto as trincas de príncipes dos contos de fadas e das mil e uma noites que eu tanto gostava de ler. Na verdade, foram mais dois príncipes que três, porque Leonardo já tinha sido expurgado quando tomei consciência do quão interessante era seguir aquela aventura em eletrizantes capítulos mensais. Meu imaginário absorveu aqueles fatos e fotos como faz uma esponjinha nova. E nunca mais os esqueceu. Orlando cabeludo feito um hippie, barba de monge, óculos de fundo de garrafa, dançando, em fluxo, no meio dos índios. Cláudio, comedido e composto, quase um funcionário público de carreira que, no meio da tormenta, e tal qual o Super-Homem, entrava numa maloca, sacava fora a roupa cáqui sempre amassada e saía transformado no Super-Branco-Índio: o cabelo cortado de tigela, a pele riscada de urucum, a máscara de negro jenipapo no lugar dos óculos de aro grosso. Era o máximo. Eles eram o máximo. Os índios eram o máximo. Em meio a reportagens bestíssimas (até a gente, que era criança, desconfiava de tanto ufanismo) sobre o Brasil Grande e o avanço da gloriosa Transamazônica, que já então profetizavam o Novo Código Florestal e outros terrores desenvolvimentistas, os três apareciam às voltas com seu cotidiano que, para mim, era mágico: armando varais de quinquilharias, entrando, destemidos, no coração da floresta, oferecendo aos índios seus espelhos rendidos ao mistério da diferença, metidos em pajelanças, respeitosos nos rituais e animados nas festas, afetuosos, tão sistemáticos quanto amalucados no seu projeto de desvendar brasileiros ancestrais a brasileiros modernos. Todos três expressavam, cada um a seu modo e principalmente quando reunidos na formidável fraternidade chamada “irmãos Villas Boas”, o daimon do herói genuíno, o servidor do coletivo, protetor das culturas, mediador das passagens, mestre-aprendiz, guardião dos limites, que sacrifica sua vida pessoal por amor ao outro. Sempre haverá babacas para dizer que eles estavam alinhados com os militares. Porém, para compreender a missão dos heróis Villas Boas é preciso recuperar o arquétipo e abandonar os estereótipos, os ideológicos em especial. Para quem se refugia da complexidade do real em teorias, doutrinas e dogmas reducionistas de toda sorte, os Villas Boas são, de fato, impenetráveis em sua ambiguidade, irredutíveis como os mais irredutíveis gauleses de aldeia de Asterix, conquanto feitos de carne e osso e contradições. Por isso, achei da hora a ideia de Fernando Meirelles e Cao Hamburger de apresentar o trio a gerações que sequer imaginam que eles existiram, formada, em sua maioria, por tolinhos tão pretensiosos quanto órfãos de heróis que prestem, e brasileiros, anda por cima. Porque a nossa escola inútil não faz isso, ah, mas não mesmo… Afinal a odisseia dos Villas Boas não cai no vestibular. Aliás, com essa escola e nossa cultura com Alzheimer, a moçada anda mesmo precisando de quem se disponha a ajudá-la a conscientizar o arquétipo do herói, por meio de imagens poderosas e transformadoras como as do filme “Xingu”. Quem sabe se, expostos a elas, nossos jovens consigam escapar de uma existência vivida na sombra do herói, onde se tornam vítimas dos poderes defensivos e (auto)destrutivos do arquétipo. Numa cultura árida, materialista e rasa, filmes como “Xingu” funcionam como iniciadores dos cada vez mais frágeis egos jovens, aos potenciais criativos do arquétipo. Por fim, de todas essas imagens instauradoras (um antônimo para “redutoras”), a que ficou gravada mais fundo na minha memória foi a mesma da cena que encerra o filme de Hamburger: do lado de lá do varal de presentes vazio, a figura imóvel, ao mesmo tempo curiosa, tímida e ameaçadora, do gigante krenakarore todo pintado de negro. Uma visão numinosa, um relance do mistério daqueles que marcam a alma da gente para toda a vida.

Comédias profundas sobre ritos de passagem para adultos

Duas comédias, uma americana e uma francesa. Dois filmes para assistir muitas vezes e ir descascando, feito cebolas. Duas narrativas construídas em camadas (talvez até involuntariamente pelos roteiristas).  Histórias engraçadas e  profundas, verdadeiros tesouros sobre rituais de iniciação da vida adulta: “Se beber, não case” (“The hangover”, de Todd Phillips) e “A Riviera não é aqui” (“Bienvenu chez le ch’tis”, de Dany Boon).  Na primeira, três amigos programam uma tradicional despedida de solteiro em Las Vegas, às vésperas do casamento de um deles. Um quarto elemento – o irmão bobão da noiva – se junta de improviso à turma, no último momento. Esse personagem esquisito e irritante será o gatilho da aventura que todos viverão e que desencadeará mudanças cataclísmicas nas vidas de todos. Uma viagem coletiva ao mundo das sombras, guiada por um bufão dionisíaco, de onde todos retornam transformados, de moleques crescidos em homens de verdade. Na segunda história, uma pequena família complicada enfrenta as próprias fantasias de felicidade e infelicidade, quando o pai e marido, um burocrata dos correios, pede transferência para uma cidade da Riviera francesa e é enviado a Nord Pas de Calais. Entre expectativas traídas e preconceitos superados, as risadas fazem a gente pensar em como construímos nossos projetos sobre mentirinhas aparentemente inócuas, mas que nos impedem de viver a vida como ela merece ser vivida. Maravilhosamente engraçado, o filme aposta numa relação insólita entre o miniexecutivo contrariado e um carteiro abobalhado que, claro, servirá de guia ao primeiro em mais essa aventura  dionisíaca.

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