Salve Saturno!

saturno

Para quem ainda não sabe ou não se interessa em saber, mas continua a ser afetado por isso, 2013 é um ano de Saturno. Salve, Saturno, que finalmente chegou, para dar forma, limite, sentido e legitimidade às manifestações que começaram mal há três semanas, misturando atos políticos com atos de vandalismo perpetrados contra a avenida Paulista. Pouco a pouco, porém, o senex ou velho sábio Saturno começa a calibrar o puer ou jovem Dioniso. As lideranças do movimento e os representantes do poder público sentam-se na mesa para dialogar, estabelecem-se regras, negociam-se acordos. Salve, Saturno! As imagens das marchas realizadas ontem, salvo atos isolados de gente que só quer aparecer (e mal) na foto, eram outras.  Multidões saíram às ruas para expressar, de modo pacífico e ordeiro, uma indignação patriótica que não é, nem nunca foi, monopólio de grupelhos, mas que representa o sentimento genuíno da maioria do povo brasileiro, em todas as camadas da pirâmide social, do Oiapoque ao Chuí, da esquerda e da direita conscientes, que amam este país e não apenas o confronto. As grandes marchas do Rio e de São Paulo reuniram gente de todas as idades e classes sociais, misturadas na rua sem a orientação sectária dos pseudo-especialistas que, desta vez, não tiveram muita chance de gerar as divisões que tão somente fortalecem ainda mais os poderosos grudados no trono. Só uma turminha de punks extemporâneos deu um certo trabalho para sair do espelho d’água diante do Congresso, em Brasília. Foi engraçado. No Rio e em Sampa, assim como no DF (não acompanhei o que acontecia nas outras cidades, mas sei que havia muito mais capitais envolvidas no movimento), a bandeira escolhida como símbolo da mobilização foi a brasileira, embora ainda houvesse gente defendendo algumas bandeirolas de partidos. As concorrentes, contudo, não tiveram chance: simplesmente desapareceram diante da original. Uma das palavras de ordem era justamente a que evocava a superação do partidarismo esquizofrênico, em nome de uma nação que precisa se sentir como uma nação para poder transformar sua realidade injusta e desumana. O povo que ganha pão e o povo que compra circo do governo federal estavam lá, para azar dos monopolares sem imaginação. E quando as pessoas se olham sem mediadores discursivos, se conhecem e caminham lado a lado num evento como esse, fica difícil jogá-las umas contra as outros, por mais competentes que sejam os discursos. Na multidão, parece que não tinha lugar para classe média fascista e reacionária, nem para pobre folgado e dependente de bolsa-família, nem para estudante vagabundo e baderneiro. Engraçado como, com Saturno para moderar, discriminar e disciplinar, uma multidão pode, sim, dissolver as generalizações mais perversas. Nas marchas que vi pela TV, porque meu corpo não esteve lá, só minha alma, me pareceu que existe um povo brasileiro inteiro e não um povo partido em muitos povos que guerreiam em favor dos poderosos. Imagino que alguns políticos profissionais, daqueles que não temem nem a Deus nem à História, devem ter tremido nas bases, mesmo que só um pouquinho. Mas preciso dizer também que suspeito que o rito de iniciação que marcou essa transição qualitativa e quantitativa foi mesmo o confronto com a violência da polícia, ocorrido em Sampa, na semana passada. Alguma coisa mudou substancialmente desde então. Um pouco da melancolia de Saturno contaminou, sadiamente, a euforia de Dioniso e a calibrou com dor e responsabilidade. A expansiva energia da juventude (de Jove ou Júpiter) viu-se contraída e forçada a se consolidar num projeto. A gravidade pesada de Saturno curou a hiperatividade aérea e sem compromisso de outro puer, Hermes, o festivo deus-padroeiro das redes sociais. Não procuro de modo algum justificar a arbitrariedade e a falta de estratégia e treinamento da polícia para lidar com situações como essa. Quero apenas mostrar que as coisas são do jeito que são e a gente pode compreendê-las melhor a posteriori, quando todas as peças já tiverem sido devidamente encaixadas no tabuleiro pelo desenrolar dos eventos e então enxergamos com mais clareza o cenário, ou boa parte dele. Porém isso é processo e, portanto, depende do tempo. Saturno é o deus Tempo, Cronos para os gregos. Ele pode trazer abundância ou esterilidade. Sabedoria ou caduquice. Pode introduzir uma sadia depressão que nos faz enraizar nossa mania no peso da realidade concreta ou pode nos lançar nos ressentimentos remoídos sem trégua de um passado mal vivido ou não superado. O “ou” de todas as categorias depende da manutenção da faísca acesa: a paixão do puer, que enche o senex de vigor e entusiasmo; o idealismo de puer, que impede que o senex se torne um cínico pragmático; a alegria de puer, que ajuda o senex a ultrapassar as próprias decepções e desilusões; o bicho carpinteiro de puer, que ajuda senex a não se deixar estagnar no poder do jogo ganho. Nas marchas de ontem, o inesquecível dia 17 de junho de 2013, Hermes e Dioniso, Júpiter e Saturno encontraram-se, se abraçaram e, juntos, puxaram o cordão feito de elos que se consolidam, aos poucos, de cidade em cidade do Brasil, para dar um basta a esse mais do mesmo que aprendemos a confundir com política. Não mais. Não desse jeito.

Rebeldes sem calça ou Dioniso no meio do redemoinho

Dedico este post a minha querida amiga Bea Enger, que tem 19 anos e já foi aluna do Colégio Bandeirantes. A encomenda foi dela. Espero que ela goste.

dioniso

Foi James Hillman, um rebelde com causa (a causa da alma), renovador da melhor tradição da Psicologia Profunda, quem teve esse insight que considero o mais genial de um homem dado a insights geniais: quando estiver diante de um evento, pergunte qual é o deus (ou o diabo) que está ali, dançando no meio do redemoinho. Grosso modo, isso corresponde a cultivar “um olhar psicológico” sobre a realidade, o que não tem nada a ver com entender de Psicologia, mas está relacionado com uma facilidade de enxergar a alma atuando nos eventos, nos seres, no mundo, em todo lugar. A alma, a dançarina que cria as ilusões em cujo fluxo nos deslocamos ou estagnamos: Maya, Psiquê, Perséfone. Existem analfabetos com mais olhar psicológico que muito psicanalista e psiquiatra. Porém aqui estou, como sempre, me perdendo nos labirintos da alma, por onde adoro vagabundar. Certa vez, Jung disse que, expulsos da consciência individual e coletiva pelo Deus único, os antigos deuses  haviam se transformado em doenças. Isto corresponde a dizer que foram mandados para o inconsciente (ou para o Tártaro, onde Zeus trancafiou os titãs, de onde, em sua revolta titânica, eles desencadeiam os terremotos que sacodem nossos olimpos particulares). As potestades do inconsciente, forças psíquicas que Jung chamou de arquétipos, são inúmeras, diversas e infinitamente poderosas. Para melhor lidar com elas, as religiões politeístas as personalizavam em divindades antropomorfizadas, gerando assim a possibilidade de abordar, por meio da metáfora, algumas dessas energias incognoscíveis e inefáveis que nos habitam e movem, quase sempre sem que a mirrada consciência de nosso Eu sequer se dê conta delas. Nem quando eles nos derrubam e pisoteiam, conseguimos enxergar os deuses por trás de nossas doenças, de nossa realidade política decadente, da violência que assola nossas cidades, do fenômeno das redes sociais digitais e assim por diante. Semicegados pelos antolhos da razão técnico-instrumental, da religião institucional, das ideologias polarizadoras e de seus podres poderes, dos discursos mal ou bem urdidos que nos enganam e a gente gosta, nos submetemos a essa condição de meia visão (ou menos) geralmente por escolha e sem esboçar muita reação.  Em geral, e mesmo quando achamos que temos poder sobre o que somos e fazemos (talvez ainda mais neste caso), somos tangidos como ovelhinhas burraldas e heterônomas, manobradas, ansiosas por chegarem logo ao aprisco de algum lobo em pele de pastor. O legal de tentar enxergar a divindade que se manifesta por trás de um evento é que, desse modo, trazemos à consciência algo que nos manipula a partir de nossa sombra, sempre enganchada na poderosa sombra coletiva. Esse upgrade não tem preço. Interessante que a consciência nos chegue mais por meio da intuição, da sensibilidade, das imagens, das metáforas, das experiências do corpo, da meditação do que por meio dos discursos lógicos e ideológicos sobre como se tornar consciente. Nesse sentido, um filme pode ser imensamente mais potente do que um sermão. Uma obra de arte pode ser muito mais esclarecedora do que a minuciosa explicação de um especialista. Um belo romance desbanca cinquenta livros de auto-ajuda. Um mito faz barba e cabelo de um conceito. Uma piada desanca a lenga-lenga do político mais habilidoso e cínico. Como a imagem é a linguagem da alma, a divindade a dançar no olho do furacão nos chega à consciência tão somente através da imagem, visível apenas para o olhar psicológico. A arte do Renascimento fez isso de caso pensado e com resultados fabulosos. Ultimamente é Dioniso quem anda solto, ou “a sombra de Dioniso”, como já anunciava o título de um livro de Michel Maffesolli, publicado há mais de 20 anos. A sombra dele porque ninguém sabe que se trata dele, de Dioniso, e, portanto, ele está fora das análises sociológicas, das pesquisas com suas intervenções demagógicas e ingênuas, dos reducionismos cartesianos da mídia, dos maniqueísmos materialistas, enfim, da pequena zona fortemente iluminada e murada da consciência individual e coletiva. E isso torna o deus oculto na sombra imensamente perigoso e ameaçador, já que ele não pode ser visto e integrado, legitimado pelo coletivo e, desse modo, devidamente controlado, posto a serviço da vida na polis. Dioniso é o deus das metamorfoses, um Shiva helênico, mas também um deus estrangeiro na Grécia, o qual destrói as formas que já perderam o vigor e estão ocas, estéreis, sem sentido, mas não querem largar o osso. Mais conhecido como o deus do vinho, quando usa outro de seus nomes, Baco, ele está, por exemplo, nos excessos que marcam o comportamento destrutivo da moçada ao beber. A sombra de Dioniso está na diversão que se transforma em coma alcóolico, na overdose que incapacita ou mata, no desfile fantasmagórico dos nóias da Cracolândia, na violência gratuita de pobres e ricos que querem exercer algum tipo de poder, ainda que entrando pela porta dos fundos. Ninguém vê Dioniso na nossa cultura arrogante e defensiva, mas é ele quem comanda pessoalmente o cortejo de delirantes, como fez na peça “As Bacantes”, do velho e ultramodermo Eurípides. A sombra de Dioniso emerge na manifestação inconsequente que rapidamente degringola em vandalismo, como as que aconteceram na avenida Paulista, sm Sampa, há duas semanas. Dioniso estava lá, para afrontar o Rei Velho e Tolo do poder instituído, o Cronos que come os próprios filhos para não ceder o trono, para não acolher a mudança urgente e necessária. Era, porém, um Dioniso sem imaginação nem metáfora, literal no seu furor descompensado, arrasador no seu descomedimento, no seu intento de destruir de fato uma ordem que se recusa a enxergá-lo e a ritualizar criativamente sua energia. De um modo mais leve e bem humorado, todavia não mais consciente, Dioniso estava no “saiaço” que tomou de assalto o apolíneo Colégio Bandeirantes, em São Paulo, reduto dos filhos de uma certa elite sócio-econômica paulistana que faz das tripas coração para ver os nomes dos seus meninos de ouro estampados nas listas mais distintas da FUVEST. Duvido que o garotos que foram de saia à escola, em apoio ao colega ridiculamente expulso da aula no dia anterior por estar usando a mesma peça, duvido e faço pouco que eles saibam que o travestismo ritual é de Dioniso, que gosta de atuar através do feminino, diferentemente dos fodões patriarcais do panteão olímpico, que mandavam na religião oficial. Sim, a mulherada é de Dioniso, e para poder espiar, sem ser notado, as bacantes e as mênades endoidecidas nos ritos dionisíacos, o rei Penteu, de Tebas, se vestiu de mulher e acabou deposto e desmembrado. A moçada que quer desmembrar o rei precisa, contudo, identificá-lo e melhorar a pontaria. Tomara que isso comece a acontecer. Dioniso derrubou Collor, hoje quase transformado numa vestal pelo descaramento dos monarcas in charge. Dioniso cai muito bem quando se trata de desbaratar projetos de poder auto-referentes, que não estão abertos a nenhum tipo de moderação pela alteridade. Ou quando é preciso, por exemplo, desmantelar uma medida desavergonhada e anti-democrática como a PEC 37, em que um bando de Saturnos eunucos luta para preservar seus mais duvidosos privilégios, contra todos os interesses do povo brasileiro. Bom seria se fosse um Dioniso conscientizado, como aquele que destronou Penteu em Tebas, não sem violência. Vejo com certa inveja os jovens turcos resistindo bravamente ao conservadorismo que ronda seu cenário político, tendo algumas centenas de árvores como centelha de inspiração. No caso da praça Taksim, vejo Dioniso, o Puer impulsivo, e Cronos, o Senex sábio e metódico, associados para garantir as liberdades ameaçadas pelo endurecimento do regime. Por aqui, a moçada parece que começa lentamente a sair de trás das barricadas de maio de 68. A violência da polícia, indesculpável mas, cá entre nós, um clichê, é a reação igualmente desmedida, que acaba por, inadvertidamente, obrigar o rebelde a encontrar uma causa que valha mais do que R$0,20. A liberdade cobra seu preço aos que nasceram nela. E Saturno, o senhor deste ano de 2013, demanda limites, responsabilidade, forma. Como aconteceu no apolíneo colégio de que falei há pouco, Dioniso virá e espero que, com ele, venha também um Cronos que o ancore na realidade e o compense, em sua impulsividade. Assim o arquétipo se torna inteiro: puer-e-senex.  Se isso acontecer, estaremos diante de uma genuína mudança.

Nêmesis

Os deuses gregos continuam muito vivos e ativos, dizia ontem, numa entrevista mostrada no programa Saia Justa, um tal de Jonathan Gothshall, autor do livro “Storytelling animal” (“O animal contador de histórias”, sem tradução em português). Eu concordo com ele, e acrescento: os deuses sumérios, iorubás, aztecas, maoris, cananitas, nativo-americanos, bororos, nórdicos e os que mais você conseguir se lembrar.  Os deuses estão vivos, ativos e, pior, no mais das vezes, encarcerados no Tártaro do inconsciente, loucos para se vingar de séculos de negação, chacoalhando cada vez mais violentamente as estruturas do nosso frágil e presunçoso ego monoteísta ocidental, o coletivo, bem como dilacerando os nossos egos individuais. São forças obscuras que se erguem das profundezas da nossa vida subjetiva cada vez mais relegada ao abandono ou, pior ainda, entregue aos cuidados de uma grande variedade de charlatões oportunistas. Como dizia Jung: os deuses não morreram; apenas viraram doenças. Exemplo tão terrível quando didático, portanto carregado da energia trágica que deu origem ao teatro, foi o assassinato e desmembramento, pela esposa, do herdeiro do reino dos carboidratos, duas semanas atrás. A mídia fez o escarcéu de sempre, expondo a própria cabotinice inconsequente numa enxurrada de clichês para atrair a habitual freguesia “dois-neurônio”. Em primeiro lugar, explorou o lugar-comum mais manjado de todos: o da mulher fatal. A narrativa revelou-se mais profunda que uma embalagem média de margarina quando emergiu, dos depoimentos das criadas do palácio, outra imagem, bem mais reveladora e complexa: a da Gata Borralheira de Programa elevada à condição de princesa, para logo em seguida ver-se humilhada e traída pelo príncipe que a tirara do borralho da vida. Príncipe que nada tinha de gentil, nobre e audaz, muito pelo contrário. O excesso de dinheiro e de mimos encolheu e infantilizou sua alma, tornando-a insensível, egoísta e temerária. Equivocado a respeito dos limites de seu poder e controle no interior do pequeno e conturbado feudo afetivo que ele ajudara a criar, o príncipe logo se cansou do brinquedo novo (como acontece com a maior parte dos príncipes e já havia acontecido antes com ele) e se pos a provocar a fera enjaulada na alma da Borralheira, ela mesma diplomada na duríssima escola da sobrevivência que ele, por sua vez e para seu azar, nunca frequentou. Em sua arrogância típica de menino rico, talvez ele acreditasse que, diante de seus rompantes, ela agiria como um coelho assustado, fugindo de volta para o borralho. Contudo foi outro bicho que ele, inadvertidamente, acordou. A mitologia grega conta qual entidade foi essa que se ergueu das profundezas arcaicas da psique, uma dimensão mais para reptiliana do que para humana, a fim de realizar o acerto de contas final: Nêmesis, filha de Nyx, a Noite, a deusa que pune “a presunção humana em suas demonstrações de demasia e arrogância”. No dicionário de mitologia de Mario da Gama Kury, Nêmesis carrega um epíteto que remete à sua natureza e função: ela é Adrasteia, a Inevitável. Ou seja, mais dia menos dia, drástica como é, Nêmesis acabará chutando a porta dos fundos para rachá-la em dois. Não sei quem disse isso, se foi Jung ou Freud: não temos complexos; são os complexos que nos têm. Às vezes, cremos estar lidando com pessoas, como pensava o moço mimado, personagem de mais esta história sangrenta e demasiado humana. O que ocorre é que estamos verdadeiramente lidando com “trans-pessoas”: divindades que se refugiam no âmago de nossos complexos, aqueles nódulos psíquicos que escondemos de nós mesmos, carregados e dolorosamente inflamados de afetos mal resolvidos. As divindades que vegetam dentro deles ativam-se quando cutucadas, ainda que em situações aparentemente inócuas, irrelevantes, equivocadas para quem as vê atuando e leva um susto com o tamanho da reação, com a desproporção da revanche. Vemos muito claramente os complexos dos outros, seus deuses desembestados destroçando tudo em volta, as relações, as pessoas, os projetos longa e cuidadosamente construídos. São como feras famintas que arrebentaram as grades da jaula e não voltarão a sossegar enquanto não  se sentirem justiçadas a seu modo. Terminada a encenação trágica, elas refluem, saciadas, devolvendo ao cotidiano os egos que possuíram por minutos, horas, meses, anos a fio, e que agora estão lá, esfarrapados, esgotados e ridículos, tão aturdidos quanto nós, que testemunhamos o episódio de fora, sem entender o que estava acontecendo. Vemos nos outros sim, vemos e apontamos, com clareza e sem piedade, os “complexados” como essa Gata Borralheira de Programa duplamente possuída por Nêmesis e Dioniso, essa bacante pós-moderna que misteriosamente largou a filhinha dormindo no berço, fuzilou (c0m uma arma da coleção dele) e desmembrou ritualmente o rei Penteu dos carbohidratos, que há muito estava possuído de presunção desmedida (para mais informações, vá ler a tragédia “As Bacantes”, de Eurípides). Porém, como os deuses estão mortos e somos todos pessoas lógicas, racionais, objetivas e civilizadas, seguimos nossas vidas produtivas e bem condicionadas vendo o cisco no olho do outro, mas completamente cegos para a trave que bloqueia nossa própria visão da realidade, como bem disse Jesus. Ou seja, continuamos caminhando inconscientes das divindades que espreitam na sombra de nossos toscos eguinhos presunçosos, à espera da oportunidade para acertar as contas com ele. Pode ser uma continha merreca, de armazém de secos e molhados. Pode ser uma conta cara demais e cujo acerto resulte em consequências irreversíveis para todos os envolvidos. Uma das utilidades públicas de se ler mitologia com um olhar existencial, ou psicológico como propõe James Hillman, e não meramente informativo ou erudito, é tomar consciência dessas divindades como metáforas que são de nosso politeísmo psíquico, ou seja, da diversidade das figuras numinosas que nos habitam. Elas se tornam então as “ficções que nos curam”, de acordo com o mesmo Hillman, não mais os deuses que nos adoecem. Passamos assim a olhar para elas e a integrá-las, pela imaginação, em nossa vida consciente, considerando-as como aspectos de nossa personalidade que não devem ser subestimados e não podem ser erradicados, mesmo porque não há como fazê-lo sem convocar sua revanche. Desse modo, ao invés de uma Nêmesis e de um Dioniso furiosos, vingativos e destrutivos, podemos ativar energias criativas tais como a da busca legítima pela justiça que Nêmesis representa e a da transformação tão inevitável quanto necessária que Dioniso encarna. Fica bem melhor assim, além de muito mais divertido.

Senhor da Dança

Shiva

Conheço um físico, o Edu, que trabalha no acelerador de partículas do CERN (European Organization for Nuclear Research), na fronteira da Suíça com a França. Outro dia, ele me contou que o acelerador é muito parecido com aquela imagem clássica de Shiva, o deus da trimurte indiana responsável pela dissolução das formas da realidade. Shiva é parceiro do Brahma, o Criador, e de Vishnu, o Mantenedor. Se Shiva não faz sua parte, Brahma e Vishnu não dão conta de fazer as deles. Pelo que entendi, conversando com o Edu, cada vez mais a ciência confirma a metáfora do mito. O chavão “nada se cria, tudo se transforma” de Lavoisier já era porque, segundo ele, na dimensão incomensurável das partículas, tudo se destrói para virar nada e tudo se cria a partir do nada. A função de Shiva é demolir as formas vazias e esclerosadas, deixando assim o terreno limpo para as formas futuras. Nesse sentido, a energia que ele representa é muito parecida com a do Dioniso grego (que os gregos consideravam um deus estrangeiro), o padroeiro das metamorfoses. Ambos intervêm na realidade para suprimir aquilo que já perdeu o significado, abrindo espaço para que o novo possa nascer. Há quem diga até que Dioniso foi criado à imagem e semelhança de Shiva. No início, uma divindade andrógina, originária do noroeste da Índia, onde vicejava a cultura dravidiana, de agricultores sedentários e devotos de uma religião ginecolátrica, Shiva foi posteriormente  assimilado pelos agressivos conquistadores árias, guerreiros que o adaptaram a sua própria religião patriarcal.  Além de Dioniso, Jesus Cristo, com sua pregação transgressiva do status quo e confrontadora da hipocrisia da religião oficial, está alinhado com Shiva. Não custa lembrar aqui de suas provocações aos “sepulcros caiados”, como ele chamava os sacerdotes, ou de seu magnífico “piti” contra a transformação do templo de Jerusalém num shopping multimarcas. É claro que Cristo e sua mensagem demolidora também foram devidamente assimilados e desfigurados para legitimar os mais podres poderes, mas OK, esse não é nosso tema aqui. Fato é que ele emerge do mesmo arquétipo de que se originam Dioniso e Shiva: o do destruidor das formas esgotadas, ressequidas, estéreis. Essa imagem criativa no sentido amplo, simultaneamente negativa e positiva, aparece devidamente eufemizada para nosso limitado bico, até porque, para engolir os aspectos mais indigestos da vida, só mesmo tomando umas metáforas. Na representação clássica de Shiva, o destruidor é também o senhor da dança cósmica, lindamente instalado em meio a um círculo enfeitado por pequenas línguas de fogo, muito semelhantes, salvo engano meu, aos prótons no acelerador. Equilibrado numa postura tão complicada quanto natural para o iogue que é, Shiva mantém um pé erguido no ar e o outro, apoiado sobre o dorso de um sujeito estatelado, que representa, no entender do Edu, os cientistas, no meu, o mundo material, e, em última instância, todos nós. Seus quatro braços modulam-se em gestos delicados e expressivos, formando uma postura de odissi, aquela maravilhosa dança indiana tradicional. Duas de suas mãos seguram, cada uma, um objeto, e tocam os limites da roda, dos dois lados. Vejam que não se trata de um brucutu que sai dando porrada por aí, desbaratando os infiéis e os descrentes. Crentes e fiéis são parte da realidade que precisa ser destruída por Shiva e sua dança, segundo os Vedas, tende a se tornar cada vez mais acelerada nesta nossa Idade do Ferro, a Kali Yuga, marcada pela velocidade, o materialismo, a degradação objetiva e subjetiva da realidade. Minha descrição de Shiva baseia-se numa estatueta dele que mora aqui em casa. Coloco-a ao lado do meu MAC e gosto da composição. Na mão direita, ele segura uma urna (de cinzas?) e na outra, uma língua de fogo. Se você souber mais sobre esses objetos misteriosos, pode me ajudar a desvendá-los, por favor. As outras duas mãos movem-se em direções opostas, descrevendo um gesto que sintetiza a dualidade essencial de nosso mundo: uma aponta o céu e outra, a terra. Seu quadril ondula graciosamente, talvez recordando o tempo em que seu corpo ainda era andrógino. Em tudo, ele lembra mesmo uma concentrada dançarina de odissi. Um magnífico cocar de línguas de fogo rodeia sua cabeça. Na minha estatueta, as pontas de uma faixa apertada em torno de sua cintura estendem-se para tocar os dois lados do círculo que envolve sua figura. Shiva é paradoxal: ao mesmo tempo, um deus apaixonado e sensual, e um asceta. No hinduísmo, isso não é um problema. Edu me contou que o governo indiano presenteou o CERN com uma estátua enorme de Shiva. Se você achou que os cientistas a guardaram no porão, debaixo de um lençol, enganou-se. Segundo o Edu, ela ocupa uma posição de destaque, num hall onde todos passam, diante de uma grande porta que dá para um jardim. Assim, a luz natural o ilumina por trás, intensamente. À noite, a luz das lâmpadas projeta a sombra de Shiva sobre a parede do prédio do laboratório. E o símbolo está constelado: Shiva e o acelerador de partículas são duas metades completamente diversas da mesma realidade. Opostas e complementares, porque uma não é capaz de fazer o que a outra faz. Os cientistas do CERN parecem ter, de algum modo, entendido isso. Melhor para eles. Se eu pudesse, daria uma modesta e nada original sugestão aos poderosos devotos de Santo Estevão Trabalhos (a tradução do meu filho para “Steve Jobs”) que inventaram a tal Universidade da Singularidade, no Vale do Silício. Instalem um Shiva três vezes maior do que o do CERN (para ganhar dos europeus, é claro) num espaço de destaque da sua instituição. Seria uma tentativa de moderar, ainda que somente pela intervenção da imagem, tanta megalomania. Afinal a gente sabe que o ego só precisa de ar para ficar enorme. E Shiva só precisa de  um alfinete para transformar esse bonecão inflado e vazio em pó.

Pedro, o alquimista, ou uma questão de pele

O corvo (aquarela sobre papel)

Em “A pele que habito”, estamos às voltas com o arquétipo do hermafrodito, revisitado por uma ciência médica que nos seduz com promessas de perfeição e eternidade, nossas modalidades favoritas de hybris. No princípio, porém, antes mesmo de Hermafrodito nascer, eram os gêmeos polares. De um lado, Apolo: belo, culto e frio, tão eficiente no manejo da razão instrumental quanto incapaz de lidar com os próprios sentimentos.  Impermeável, seco, contundente como os afiados instrumentos cirúrgicos que maneja com maestria. Por outro lado, e já que se trata de Apolo, irremediavelmente mal sucedido com as mulheres. Seu projeto é movido, a princípio, por uma adoração a um feminino idealizado, posto que, com o feminino real, ele não consegue estabelecer uma relação de intimidade, sendo continuamente rejeitado. A oportunidade surge e ele a agarra, a fim de levar a cabo um duplo acerto de contas. Apolo decide então reunir o melhor das finadas mulheres de sua vida numa mesma criatura, o resultado esplendoroso de uma visão de mundo muito particular. Numa história em que apenas a aparência importa, nada é, contudo, o que parece, mesmo porque, quando se trata da retorta alquímica de Pedro Almodovar, forma e conteúdo nunca estão dissociados. Temos, pois, até aqui: (1) um Frankenstein comme il faut, mas também às avessas, porque mortalmente atraído por sua criatura monstruosa-deslumbrante; (2) um Barba-Azul sedutor-retalhador, cujo estigma (a loucura) está muito bem escondido dos olhos, ao contrário do que acontece com a personagem dos contos de fadas; (3) um Pigmalião narcisista e sua ambígua Galateia tecnológica; (4) um dândi psicopata, na melhor tradição do dr. Hannibal Lecter, reforçada ainda pela imagem da mulher-borboleta, cuja forma evolui misteriosamente no interior do macacão-casulo; (5) um Goya pós-moderno, às voltas com a minuciosa e obsessiva construção de sua deslumbrante maja desnuda, cuja versão digital, viva, estampa a parede de seu quarto (o que ainda me remete a “Janela indiscreta”, de Hitchcock).  Para honrar seus estereótipos favoritos, Pedro acrescenta a essa mistura explosiva uma figura de mãe que, presumo eu, deve ter muito em comum com a sua própria: assistente, guarda-costas, governanta, cozinheira, irredutível na lealdade cúmplice de quem se sabe responsável pela loucura do filho. Na verdade, loucura da prole, de que também faz parte El Tigre, um oposto complementar dionisíaco do irmão de sangue aristocrático e filho de patrão. El Tigre, o proscrito, a besta fera, é filho bastardo de um empregado. Sua natureza é animalesca, brutal, sem limites, inclinada ao lado obscuro. Como Pedro e Agustín, os filhos da senhora Almodovar, os filhos dessa mãe fictícia estão unidos pela sombra. No primeiro caso, a alquimia de Pedro cuida de transformar matéria sombria, a prima materia suja e corrompida, numa arte das mais criativas e originais. No segundo, será a mãe que, por excesso de amor e de sombra, levará sua prole à ruína. Retomando El Tigre: as mulheres -“todas umas vagabundas”, como dizia a Vaní de “Os normais”-, amam o monstro, atraídas que são por sua alteridade, por sua perversidade instintiva. Mais do que isso: entregam-se temerariamente a ele, deixam-se penetrar por ele, seguem-no até o fim. Em contrapartida, ele as liberta de suas gaiolas douradas, ainda que para destruí-las em nome de uma verdade íntima que elas temem e desejam conhecer. Retomando nossa lista de referências: (6) A Bela (Vera, que de verdadeira não tem nada) e a Fera (El Tigre, mais explícito impossível,  ainda por cima com sotaque brasileiro); (7) Jeckill e Hyde, o médico e o monstro; (8) o mito de Prometeu, sobreposto ao de Epimeteu e Pandora. No laboratório de Pedro, o alquimista, os opostos guerreiam, deixam-se fascinar um pelo outro, atraem-se tragicamente até fundir-se ou destruir-se mutuamente. Por isso é tão bom ter um novo filme de Almodovar para amar e odiar. Um filme do homem-oxímoro: coroinha e capetinha, conservador e revolucionário, chique e cafona, totalmente independente e filhinho da mamãe, lírico e épico, cômico e trágico, Vera e Vicente, El Tigre e Robert, inconsciente e ego, fantasista e pragmático.  Por esse motivo, com Pedro e seu cinema na parada, fica quase impossível polarizar. O espectador que detesta sabe que, lá no fundo, foi fisgado pela história delirante e incômoda. O espectador que ama sabe também que, lá no fundo, detestou enxergar suas micro-perversidades reveladas no espelho da tela. Em “A pele que habito”, para encanto da mulherada, Pedro Almodovar finalmente faz as pazes com Antonio Banderas, o alterego masculino que lhe cai melhor. Um evento assim, tão auspicioso, merecia mesmo uma história à altura.

 

Apolo, Dafne e eu

Meu loureiro tem quinze anos de idade, trinta centímetros de diâmetro e mais ou menos seis metros de altura. Como a ninfa Dafne, cujo nome, em grego, quer dizer “loureiro”, ele lança seus dois lindos braços na direção do céu, um pouco suplicante, um pouco desafiador. Lutei anos contra as pragas que engruvinhavam suas folhas perfumadas. Até que um dia, meu jardineiro seu Aparecido me disse que não lutasse, que deixasse que o loureiro pegasse as pragas no meu lugar. Eu entendi, então, que ele era uma espécie de Cristo de quintal, vegetal e pagão. Depois das podas da última primavera, meu loureiro renovou-se e se encheu de brotos. Há uma semana, porém, suas folhas estropiadas secaram repentinamente e seu lindo tronco começou a rachar. Consultei o jardineiro (que não é mais o seu Aparecido), um agrônomo e a Ruth Toledo, minha mestra dos florais. O jardineiro embatucou. O agrônomo ecoou a Clarissa Pinkola Estés ao dizer que todos os seres vivos, mais dia, menos dia, têm de se haver com a degenerescência. A Ruth me entregou as metáforas que estavam faltando, como sempre faz. E eu juntei tudo neste post, que deve soar como uma louvação e um epitáfio ao meu querido loureiro agonizante: a árvore de Apolo, senhor das formas, das artes e da poesia, da medicina e da música, o grande clarividente, mas também o deus da peste e o doador da morte súbita. Apesar de ambíguo, como toda divindade que se preza, no território de Apolo reinam (ou ele espera que reinem) a razão luminosa e as proporções perfeitas. O que significa, em contrapartida, que não são bem vindas nem as sombras nem as dúvidas. Ao contrário de Zeus, seu pai, Apolo sempre foi meio azarado com as mulheres. Não à toa. O feminino teme esse excesso de secura, lucidez e claridade que devassa os cantos, expõe e ameaça o que deve permanecer oculto na umidade. Em nossas caprichosas bolsinhas anatômicas – vagina, peitinhos, útero -, as formas, tanto  as belas quanto as terríveis, esperam, protegidas na penumbra, pela hora certa de vir à luz. Por isso, as mulheres sempre preferiram o irmão barraqueiro de Apolo, Dioniso, o deus das transformações, com quem elas mantêm uma afinidade natural. Dioniso adora roubar a cena de Apolo, até porque é o deus do teatro. Hoje, porém, vou resistir ao seu charme debochado para continuar falando de seu irmão, o altivo e belo senhor do meu loureiro. O mito conta que Apolo apaixonou-se por Dafne, uma linda ninfa, filha de um rio-deus. Isso porque ele andara gozando da cara de Eros, coisa muito temerária de se fazer, já que o Amor carrega em sua aljava dois tipos diferentes de flechas: uma, que semeia a paixão e outra, que desencadeia a indiferença. Para se vingar dos gracejos de Apolo, Eros  condenou-o a amar Dafne e a ser, em contrapartida, repudiado por ela.  Doente de amor, o deus perseguiu inutilmente a ninfa, tão somente para ser humilhado e evitado repetidamente. Quando, enfim, conseguiu agarrá-la à força, ela suplicou ao pai que a livrasse e ele a atendeu, aliás, bem ao gosto de Dioniso: metamorfoseou a filha em árvore. Essa cena é linda e foi pintada e esculpida por não sei quantos artistas, ao longo da história da arte: entre seus braços, um Apolo atônito vê a pele branca e macia transformar-se em tronco escuro e rugoso, o corpo flexível enrijecer e imobilizar-se. Os braços erguidos tornam-se os dois grandes ramos principais, que eu tanto admiro em minha árvore.  Inconsolável, Apolo colheu alguns galhos, talvez mechas de cabelo da bem amada que o detestava, e com eles fez sua coroa, a mesma que premia os campeões, nem tão vencedores assim, como se pode perceber. Do seu jeito enviesado e belo, o mito sempre me esclarece. Estou eu mesma às voltas com as formas esgotadas de Apolo, condenadas à decadência, e com as transformações de Dionisos, inevitáveis e renovadoras. Acabo de substituir minhas calças tamanho 38 por novas, tamanho 42. Eu, que entrei nesse abraço como ninfa, saio dele lentamente transformada em árvore. Na minha fantasia, mais uma vez meu loureiro adiantou-se ao meu passo. A Ruth me disse assim: “Despeça-se dele e aproveite para transformar a ecologia do canteiro. Agora vai ter mais sol e espaço para arbustos e flores”. Não é lindo?