Dalila

Samson and Delilah 16

Minha mãe, profetisa incidental que era, resolveu me chamar de Dalila num certo período da minha vida. A intenção era a pior possível: me aproximar, por apóstata que eu era, da gói traiçoeira e malévola que desviou o santinho Sansão do caminho do Senhor, tosou rente sua cabeleira de filhinho da mamãe (ou do Papai, como preferirem) e acabou metendo o sujeito numa enrascada fatal para a escalada heróica que o pessoal lá do templo tinha projetado para ele. Sendo mamãe uma batista empedernida, chamar a filha de Dalila deveria soar a esta como ofensa, mas não. Quando me chamava de Dalila, minha mãe, sem saber, me atribuía uma força que ela mesma não possuía, contudo tenho certeza de que, inconscientemente, pretendia que eu encontrasse dentro de mim. Nunca me senti constrangida ou ameaçada por essa comparação, nunca mesmo, apesar de ter sido educada pelo mesmo imaginário no qual ela mesma havia sido educada. Talvez porque eu intuísse que “ser Dalila” tinha um significado mais profundo que aparentava o discurso lógico. Hoje compreendo que Dalila é uma metáfora e metáforas podem nos tirar da frigideira quente dos eventos e da dimensão pessoal e nos deslocar a um lugar mais arejado, com mais, digamos, perspectiva. Seria como me xingar de “filha de Eva” se ela fosse uma católica carola, fato aliás do qual muito me orgulho. Afinal nossa tão caluniada mãe mitológica, depois de ter sido talhada para a submissão e a inferioridade, ousou perverter a regra do jogo e dar início à História humana, libertando a si mesma, a Adão e a toda a criação dos limites estreitos jardim zoo-antropológico do Éden e lançando-os no campo do tempo e do espaço, para que a narrativa pudesse, enfim, começar. Como Eva, Dalila foi a iniciadora do masculino no campo da experiência, da qual Sansão, superprotegido e enquadrado demais na tradição, estava alijado, por interesses alheios a sua vontade. Isso sem levar em conta que ela estava defendendo seu povo, sua cultura e sua religião quando seduziu aquele homem feito que ainda ostentava os cachinhos da infância como símbolo de uma força que não provinha de dentro dele, mas era-lhe dada de fora, sob condições estritas. Quando eu era menina e, na igreja, me contavam a história de Sansão e Dalila, era de um ponto de vista literal, maniqueísta e tendencioso, que naturalmente fazia todo o mal recair sobre Dalila. Então eu odiava Dalila por ela ter “feito mal” a Sansão (olhem só a invertida do modelo!). Contudo, e como escreveu o apóstolo, quando eu era menina, pensava como menina. Agora que sou adulta, deixei de pensar como menina e de me deixar aprisionar por discursos dualistas, pendam eles para o lado que penderem. Depois de Jung, Hillman, Pedrazza e Thomas Moore, Dalila se tornou uma das minhas imagens favoritas de Anima. O ritual que ela protagoniza, da tosquia dos cabelos da criança que ainda persistem na cabeça de um macho adulto, é uma das cenas mitológicas mais lindas e significativas da relação homem-mulher, uma cena de iniciação do masculino pelo feminino, manipulada, adulterada e pervertida, ao longo dos milênios, pelos exegetas (quase todos homens) que se pelam de medo de feminino. A história infantil (a qual, porque não pode ser mito, fica retida no âmbito de versão oficial e literal) estilhaçou-se em milhares de caquinhos e eu pude compreender, enfim, porque ser chamada de Dalila por minha mãe nunca me ofendeu nem sensibilizou. Para dizer a verdade, eu adorava. E hoje descobri a razão.

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Iniciações

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Limiares são horizontes de possibilidades que podem se transformar em pântanos de estagnação. Em nossa vida, sempre que os limiares se apresentam, é porque o significado prescreveu. Você olha para baixo, coisa rara numa época em que todo mundo só quer olhar para cima. Você enxerga a soleira e, depois dela, o vazio. Do outro lado tem alguma coisa, mas ainda não dá pra ver direito o que é. Você tem de ir lá para conferir. Então você fica sabendo que alguma coisa que você conhece e ama terá de morrer para que alguma coisa que você não sabe o que é possa nascer. Portanto, para cruzar a soleira, você terá de dar alguma coisa em troca, de abandonar um fardo valioso do lado de cá. Porque implica o sacrifício consciente de algo que lhe é caro, embora esteja vencido, nada infunde mais terror ao ego do que um limiar. Essa é a razão pela qual limiares pedem iniciações, isto é, ritos de passagem nos quais a dimensão simbólica socorre a dimensão cotidiana e tributável com recursos que são não racionais, posto que o cagaço de mudar é coisa da ordem do irracional, com os neurônios dos intestinos travando os do cérebro. Afinal todos os limiares evocam o primeiro e o último, o nascimento e a morte, daí o pânico que eles instauram em nosso eguinho metido a demiurgo. “Como assim, vou agora ter de dissolver o que me deu tanto trabalho para coagular? Vou deixar esse lugar quentinho e me meter nesse buraco estreito? A troco?”

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A lagarta morre para que nasça a borboleta. A noiva mata a moça solteira, livre e desobrigada. O noivo mata o garoto para dar lugar ao homem responsável. O formando mata o estudante e diz olá ao profissional. “Dissolve e coagula”, determina o Urobóros alquímico, o grande inconsciente iniciador do ego, a serpente que engole o próprio rabo e é imagem reitora dos nossos ciclos de vida, morte e renascimento. Para dissolver sem se aniquilar e coagular sem se deformar, precisamos dos velhos da tribo, das mães e pais do coletivo, que já viram tudo, já viveram tudo e podem nos ensinar a passar. Cadê eles, por falar nisso? Hoje em dia, de modo geral, estão eles mesmos apegados a formas esgotadas, o provedor, a mãe nutridora, o garanhão, a mocinha de cabelos longos e calça agarrada. Egos que não se dissolvem para se coagular em novas formas tendem a trincar mais adiante, provavelmente no próximo limiar. Empedrar é o que acontece com tudo o que enrijece em demasia, perde a flexibilidade, a permeabilidade, se torna estéril. Portanto a escolha que o limiar propõe ao postulante é simples: deixar morrer uma parte de si ou ficar petrificado na soleira, um gárgula de catedral gótica. Deixar morrer ou virar zumbi, o morto-vivo da tradição vodu haitiana, manipulado pela vontade do alheio. Acordar ou virar sonâmbulo, o que dorme a própria vida, embora aparente estar acordado, funcionando no piloto automático. Verter um pouco do próprio sangue ou virar vampiro, o morto-vivo que se nutre da energia alheia.

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Segundo limiar importante, depois de nascer: sair da infância para a adolescência, matando o amor irrestrito por quem nos pôs no mundo, ver as bundas do pai e da mãe expostas na janela. Abandonar sem volta os brinquedos e jogos de outrora, como escreveu o imperador Adriano para sua Pequena Alma Terna Flutuante. Nunca vou me esquecer da angústia que senti no dia em que peguei minhas bonecas e não sabia mais o que fazer com elas. Algo em mim morreu e eu carreguei aquele luto comigo por muito tempo. É preciso ter um lado de fera selvagem, uma parte com o demo para encarar que o paraíso inventado da infância chegou ao fim. Passamos então para a adolescência, que é um limiar do começo ao fim, paradoxo sem recreio de coerência, dor demais, prazer demais, a razão cardíaca dos incompletos, um peito que cresce e outro que teima em permanecer liso sob a blusa do uniforme, um dissolve-e-coagula a cada 45 minutos.

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Nossa experiência do ridículo atroz da adolescência será compensada por um narcisismo pontual e necessário: na verdade, somos belos e imortais, os filhos de um deus que foram sequestrados e abandonados por uma bruxa na soleira de uma casa suburbana, habitada por dois idiotas. Passaremos anos retraídos e paranóicos, expostos ao olhar dos outros, que parece escarnecer de nós o tempo todo. Passaremos anos amotinados contra toda e qualquer autoridade, provocando o instituído em busca de seu reconhecimento, de um vínculo significativo com ele. Não sabemos disso, então quase todos passamos a vida recusando-nos a aceitar que o que queremos é nos tornar, de instituinte em instituído, se possível, sem perder a alma na transição. Porque no final, tudo tende à compensação. E se ela for vivida inconscientemente, como destino, dizia Jung, tenderemos ao ciclo Revolução Francesa-Reinado do Terror-Império Napoleônico repetido ao infinito.

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A soleira é o território aonde passamos a adolescência. Nem fora nem dentro, aliens vorazes que de repente saltaram de dentro da barriguinha fofa das crianças que fomos um dia, ou que as fotos no álbum nos garantem que fomos um dia (coisa de que duvidamos muito). Fundamentalistas, radicais, kamikazes, amotinados por natureza e função, os adolescentes são sujeitos-bomba que eclodirão, dando a luz a adultos mais ou menos interessantes, mais ou menos comprometidos com as provações da idade adulta. Ou não. Muitos estão fadados a persistir na condição de sujeitos-bomba encalacrados, coagulados numa forma vencida, ovos gorados, granadas ou minas falhadas a exibir sua aparência ameaçadora ou amorfa como qualidade definitiva. Esses, identificados com a rebelião, não encontram forças para cruzar o limiar que os levaria da adolescência à idade adulta, à ancoragem e à aceitação dos próprios limites, dos limites da realidade e a uma certa serenidade que nos permite criar depois de destruir. A revolução precisa da reação para calibrar-se. O caos precisa de cosmos. Dioniso precisa de Saturno e Shiva precisa de Vishnu e Brahma. A menos que atravessem a soleira, sacrificando seus extremismos narcísicos à adaptação, aprendendo a combinar tradição com ruptura, os adolescentes permanecerão congelados no limiar da vida adulta aos 30, 40, 50, 60 anos, e morrerão adolescentes sem ter experimentado o horizonte de possibilidades que pedia um sacrifício para descortinar-se.  Os sacrifícios literais apenas dramatizam o sacrifício genuíno, efetivo: algo em nós deve morrer para que algo em nós possa nascer.

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Numa cultura como a nossa, sem rituais de passagem e iniciação significativos, leviana, tola, arrogante e superficial, negadora do negativo da morte, em que o sagrado está degradado em reles comércio com o Eterno ou reduzido à ostentação, muitos permanecem paralisados nos limiares. As pessoas não iniciadas são trágicas e melancólicas como os heróis transformados em estátuas, a enfeitar o jardim da mansão de Medusa. A ação congelada no gesto que perdeu o sentido está coberta de musgo e raiada de fissuras. Eles são o ovo indês de que falava minha mãe, abandonado no ninho para enganar a galinha, são o piruá que resta no fundo da panela, queimado e imprestável. Seus potenciais profundos não se atualizaram, ainda que esses indivíduos tenham tirado diplomas, exercido profissões, cursado MBAs e ganho muito dinheiro, casado e tido filhos, sido presidentes de empresas e países. Deram conta da persona, mas sequer tangenciaram a própria essência. Estão congelados naquele limiar. Não foram capazes de enfrentar a morte cruzando a soleira que levaria à transformação. A intensa atividade exterior trai a imobilidade interna, a wasteland subjetiva que não pode prescindir de drogas lícitas ou ilícitas, de religiões e ideologias imbecilizantes para ser suportada, com mais sorte na próxima encarnação.

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Zumbis, sonâmbulos, vampiros, pode escolher. Talvez por essa razão, porque veem isso tudo e não sabem o que fazer para escapar do padrão do “cadáver adiado que procria”, by Fernando Pessoa, os jovens busquem experiências de iniciação literal, ritos de sangue e violência e conflito real com o instituído. A nostalgia da iniciação, contudo, é inconsciente, eis aí o fator trágico de todo herói, de Édipo a Julian Assange. Por isso, porque não sabe passar de herói a cidadão, não consegue refluir ao seu limite, descompensado que é, esse tipo tende à destruição, a própria e a do outro. Dos que se juntam às hostes do EI aos que têm saído, nos último dias, às ruas de São Paulo, desafiando a polícia e buscando, no confronto, uma experiência de estar vivo, de fazer alguma diferença na multidão dos manés na qual correm os risco de se dissolver destrutivamente. Querem cruzar o limiar para a idade adulta e encontrar-se com seu daimon, com sua comunidade de destino, todavia não sabem como fazer. Na falta de iniciadores sábios e experientes, deixam-se manipular por outros adolescentes empedernidos, viciosos, estagnados há mais tempo na transição para a vida adulta. Para nós, que testemunhamos de fora, eles podem aparecer encapuzados, portando armas letais e executando prisioneiros, como reis assírios de bem antes de cristo. Ou simplesmente ensanguentados, surrados pela PM em nome dos eternos 30 centavos, heroicamente expostos na Internet em fotos tiradas na avenida Paulista e adjacências. “Eis aqui meu sacrifício. Estou apto. Sou digno (Mas não sei bem do quê)”, eu os escuto clamar, os sem mito, os que procuram a iniciação pelo sangue e a violência, os que buscam no agressor anônimo da PM o iniciador de cuja ausência se ressentem, os órfãos de rituais significativos. As análises de rés do chão os classificarão de vítimas ou algozes, direita ou esquerda, Império ou República e blá blá blá… É pena. E sinceramente me dá muita preguiça.

Transformações no mito de Ísis e Osíris, ao longo do Antigo Império

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No sonho, eu encontrava uma prima de segundo grau um pouco mais nova, com quem vivi uma rápida e intensa fase de amizade durante a adolescência. Eu tinha quatorze anos, enquanto ela andava pelos doze. Gostávamos muito de egiptologia. Trocávamos livros e informações sobre o Vale dos Reis, deuses, faraós, múmias, expedições arqueológicas espetaculares, o Livro dos Mortos… Era no tempo da pré-história digital. Dígitos mesmo, só os nossos polegares opositores, que funcionavam à perfeição. Naquele tempo, as coisas nunca chegavam de mão beijada e a gente tinha de procurar muito por elas, tinha de querer demais encontrá-las. Nós duas, eu e minha prima, procurávamos, descobríamos e compartilhávamos, quase sempre pelo correio, histórias e imagens que já eram a comida favorita da minha alma. Não sabíamos ainda, mas nossas almas estavam absorvendo esses materiais profundos para sobreviver, no então futuro distante, a  perdas irreparáveis. Isso, porém, foi bem mais tarde.

Esse comércio demandava, de nossa parte, uma competência razoável. Tínhamos de ser pacientes e esperar, porque o mundo era lento e não nos mimava com prontidões desnecessárias. Tínhamos de nos comunicar diretamente, por telefone, ou de pedir piedade a algum pai, para que nos desse carona até a casa uma da outra (ela morava em São Caetano e eu, no Brooklin Velho). Tínhamos de ler e escrever muito, já que esses eram os prazeres que nos permitiam esperar sem estressar. E como esperar era gostoso! Ler e escrever eram nossos supremos prazeres, que adorávamos exercitar em conexão uma com a outra. Ao sabor dessa aventura verdadeiramente interativa, minha prima terminou por virar historiadora, fiel (gosto de acreditar nisso) a um daimon manifesto no contato ingênuo com aquele imaginário mágico. Já eu virei e desvirei muitas coisas, sempre movida pelos mitos.

Volto ao sonho. Nele, somos ambas as cinquentonas de hoje em dia, conversando animadamente, como fazíamos quando éramos meninas. Muito amigas, completamente à vontade, relaxadas e em fluxo, falando de coisas realmente importantes: deuses, faraós, tumbas, múmias, mitos egípcios. De repente, ela sai da sala onde conversamos (que fica numa FFLCHUSP onírica), em busca de um jornal em que se divulgam cursos abertos. Retorna em seguida, folheando o jornal, e eu lhe digo:

– Ache aí um curso para fazermos juntas, sobre aqueles assuntos  da nossa adolescência.

Ela responde:

– Aqui tem um. Chama-se “Transformações no mito de Ísis e Osíris ao longo do Antigo Império”.

Acordo na penumbra morna das 6 horas da manhã e a luz me assegura de que é tempo de levantar, fazer ioga, rezar, molhar o jardim, caso uma chuva noturna não tenha caído. O título do curso me vem à memória, de imediato e por inteiro, trazendo consigo a narrativa do sonho, que se desvela dentro de mim como um texto sagrado, anotado num velho papiro. Eu o sussurro, para não esquecer: “Transformações no mito de Ísis e Osíris ao longo do Antigo Império”.

Certos sonhos são tão intensos e esclarecedores que me tiram da cama a qualquer hora da noite, para anotá-los. É urgente recuperar suas imagens, já que são sonhos imperativos. Não posso de modo algum desperdiçá-los, sob risco de jogar ouro na privada e dar a descarga. Naquele dia, como já eram seis da manhã, antes da ioga-reza-rega, fui até a escrivaninha e escrevi tudo, de um jato, como dizia Fernando Pessoa. E escrevi com fome de narrar, do jeito que eu fazia quando trocava cartas com minha prima, décadas atrás, sobre Ísis e Osíris, entre outros temas igualmente formidáveis. Escrevi a lápis, com letra caprichada de colegial antiga: “Transformações do mito de Ísis e Osíris ao longo do Antigo Império’. Depois narrei, no caderno, o restante da história.

Não sei se ainda temos alguma coisa em comum, eu e minha prima que se tornou historiadora, vive e trabalha em outro estado. Como Ísis, porém, perdemos as pessoas que mais amávamos e saímos em busca de recuperá-las, transformadas. Essa é uma grande magia e Ísis é a senhora da magia. Como Ísis em sua jornada em busca do corpo despedaçado de Osíris, perseguimos pacientemente o significado, que parecia perdido para sempre, dissolvido nas águas do grande rio. Juntamos um a um os fragmentos do mundo que ainda podiam servir, os costuramos a outros, que terminamos por descobrir e, enquanto o fazíamos, nosso luto se converteu em gravidez (a dela, de gêmeos, aos 50 anos ou quase). O Antigo Império encerrou-se  e um Novo Império se seguiu a ele. Talvez como eu, minha prima também desça ao reino dos mortos todas as noites, tendo os sonhos como guias. Nossa vida desperta precisa do húmus que a experiência de dormir-morrer a cada noite nos propicia. E se, como dizia Jung, o sonho é o mito do homem comum, então sonhar com um mito só pode ser uma epifania.

Meus pedacinhos de Malu

As histórias da Malu já começaram a rolar na rede. Adoro. Parece o conto indiano dos cegos e do elefante. Cada um vê um pedacinho da Malu. Malu inteira, só mesmo agora, quando os opostos da vida e morte se encontraram e todos queremos evocar uma história na qual ela aparece dotada com as qualidades e os defeitos que a fizeram única, imperfeita e bela, como só a integridade pode revelá-la. Eu também tenho de falar dos meus pedacinhos de Malu. Do seu divertido mau-humor. Da sua presença gostosa e querida na nossa matilha de leitura, uma lobinha digna da mestra Clarissa. Das nossas polêmicas sobre os homens e o amor. Da sua compaixão pelas crianças com recursos demais e infância de menos. Da sua paixão pelos mitos, os gregos em particular (também por causa dos heróis guapos, fala a verdade, Malu!). Da sua aversão pela instituição educativa e a religiosa, e o infinito gás que ela tinha para polemizar sobre o tema. Do seu senso de humor ingênuo e impagável. Da sua inegociável elegância, sempre de unhas feitas e cabelo impecável, equilibrada no alto dos saltinhos. Da sua habilidade sonsa para ganhar no jogo de mau-mau. Do seu gosto pelas imagens, que resultou numa vontade de desenhar e pintar, coisas que ela fazia no ateliê fora do horário de atendimento. Da sua absoluta incompetência para a cozinha. Da sua falta de paciência com “gente tapada”, como ela mesma dizia, e das respostas curtas e grossas que ela dava para essa gente, que faziam a gente ficar se espremendo de dar risada. Da sua coragem para dizer as coisas que precisavam ser ditas. De beber vinho branco em turma, com ela junto, falando merda (para adubar a vida, Malu) e dando risada, lá na varanda em Barê. De comentar e compartilhar bons filmes e livros. De caminhar pela praia, ela em meio à mulherada, todas movidas a letrinhas (como dizia o Edu). Daquele pendant que ela me trouxe do Chile, um idolozinho andino com cara de mau humor, feito de lápis lazúli. Do dia em que a gente gravou, aqui em casa, o DVD do Beto e da Laura, sobre Jung e educação, com ela linda, loura e loquaz, falando com propriedade e inteligência. Das nossas conversas sobre o ego e a sombra. Da gente preparando a festa de Dia de Muertos no ateliê, em 2010, e lendo o artigo lindo do Gambini, “A morte como companheira”, que ela adorava. De estar com ela naquele Moitará inesquecível sobre a morte, lembra, Malu? De recebê-la aqui em casa para festar (nas nossas fotos de festas dos últimos 200 anos, lá está ela, irmãzinha querida, inclusive no último natal, tomando prosecco, a danada). De fofocar sobre Lorde Voldemort, o falso. Daquela ida ao colóquio do Rio, eu, ela e a Lelê partilhando o mesmo quarto de hotel, feito três meninas numa festa do pijama. De passear com ela por Olinda, enforcando o congresso do Imaginário, quando o frei sem vergonha quis tirar foto no meio de nós duas e nos deu um bom apertão. De ir com ela e as garotas do imaginário à maravilhosa Oficina do Brennand, no Recife, o jardim dos arquétipos, lembra, amiga? De ter ido ouvir as vésperas cantadas pelas freiras naquela igreja-convento cheia de morcegos, num maravilhoso entardecer a la Frans Post. De ter ido com ela ver e ouvir o Wisnik e o Caetano no lançamento da obra do Freud e de ela achar o Caetano um gato (coisa difícil, porque Malu era super-picky). Malu que me levou para o imaginário de Durand, que me apresentou para a Ciça da FEUSP, que me contratou para dar aulas de “12 trabalhos de Hércules” para ela, minha primeira aluna (e também mestra) de mitologia grega. Quantos pedacinhos da Malu, cada um, um delicado fragmento de cristal colorido que integra nosso pequeno vitral lateral, não a grande rosácea central que você agora encena, querida, mas apenas nosso vitralzinho particular, lindo e colorido e translúcido. Tomara que você tenha levado consigo alguns pedacinhos de mim também, querida, para esse lugar aonde você agora está. Do nosso vitral encarnado, eu continuo cuidando, pode deixar, enquanto estiver por aqui, no ateliê, na praia em Barê, na matilha, com as garotas da FEUSP, com a Laura, o Beto e a Bel, rodando pelo Itaim, festando aqui em casa, nas nossas festas do Dia de Muertos, com você agora no centro do altar das ofrendas, vendo um belo filme, estrelado pelo George Clooney, de preferência. Na véspera da tua partida, mais um pedacinho veio se juntar aos que eu já guardava comigo: você me visitou num sonho deslumbrante, chique a mais não poder, vestindo um mantô branco de lã muito fina, coisa de alta costura, linda e loura de chapinha, como você gostava. Estávamos numa casa ampla e luminosa, que também era um estúdio de gravação. Havia uma terceira personagem negra, gorda e muito linda, com um enorme sorriso no rosto. Era a zeladora da casa-estúdio. Você chegou e me disse que tinha ganho um fôlego novo e queria fazer uma festa, embora soubesse que não tinha sarado. A zeladora ouviu nossa conversa e se meteu, dizendo: “Vocês ouviram falar de um cientista que acaba de lançar um medicamento novo, chamado panaceia?” Fiquei radiante e te disse: “Olha que sorte, Malu! Você ganhou um fôlego só para tomar a panaceia”. Acordei sabendo que, embora eu já não pudesse te visitar, você havia me visitado. Obrigada, querida. Nos vemos. Muitos beijos. Seja feliz.

Moira

três caras na fonte

 

Para Malu, que agora está sentada diante da roca.

A fiandeira. A que distribui ao acaso. A inflexível. Três mulheres alternam-se para reger nossas vidas,  segundo por segundo. Fazem isso desde que baixamos do poleiro das almas para encarnar num útero humano. Quase sempre trabalham juntas, em implacável harmonia, entremeando funções e atividades por vezes complementares, por vezes antagônicas. Infinitos são os nomes pelos quais as chamamos. Genética. Destino. Casualidade. Karma. Providência. Álea. Vontade divina. Processo histórico. Escolha aquele que melhor se ajustar às suas fantasias, sejam elas religiosas, científicas, filosóficas, ideológicas, estéticas. Escolha sua fantasia e, por favor, deixe que os outros façam, eles também, suas próprias apostas. Cada um lida com elas como pode. Eu prefiro chamá-las por seus nomes: Cloto, a que fia; Láquesis, a que enrola o fio; Átropos, a que o corta. Há também a nomeação coletiva, que aponta para a natureza indissociável de sua faina: Moira, o quinhão, a parcela, a parte que nos cabe neste latifúndio. Sobre a origem delas, o mito é, como sempre, ambíguo. São filhas de Nix, a Noite, uma força elementar impessoal e feroz, anterior ao cosmos e aos deuses, em cuja voragem a luz de nossas míseras lanterninhas se dissolve por completo. Também podem ser filhas de Zeus, o senhor da ação e da vontade, e de Têmis, a senhora das leis irrevogáveis. Para mim, essa origem paradoxal é, sem trocadilho, uma mão na roda. Porque há dias em que elas só poderiam mesmo ser filhas de Nix, esse fundo negro e oco, anterior ao mundo das formas e que, para nosso horror, insiste em persistir ameaçando nosso prestimoso esforço para criar ordem e sentido. Há dias, porém, em que as qualidades polares de Zeus e Têmis se combinam ou conflitam nelas. Então elas divergem e debatem, nos concedem escolhas, nos permitem viver a ilusão de um desejo capaz de revogar a lei de sua mãe… para, em seguida, nos golpearem com a revelação do beco. Dead end. No trespass. Como naquelas placas dos road-movies. Para mim, a imagem delas reunidas ao redor da roca e inclinadas sobre o fuso, as humaniza e pacifica. Afinal são apenas três mulheres concentradas em fazer seu trabalho repetitivo e infinito. Tecem cordões e mortalhas com o mesmo material neutro, a mesma atitude imperturbável. Não têm tempo para passeios, festas, maridos, filhos. Arcadas sobre a roca, são workaholics, prisioneiras, elas também, de sua tarefa infindável. São deusas e prisioneiras, como nós, que também vivemos para fiar, medir, cortar. Para criar e destruir. Para dar conta de nosso quinhão, seja ele um acre de deserto absoluto, um alqueire de floresta, um hectare de terra cultivável. Eis, talvez, a única possibilidade de escolha que temos: a do que haveremos de cultivar em nossa moira. Legumes. Frutas. Flores. Ervas daninhas. Poeira. Parece pouco, mas não deve ser.

“O círculo do destino”: a redundância que não vira clichê

Como cheira bem esse livro! Tinta vegetal, papel artesanal, óleo de linhaça, fumaça de fogareiro,  chapati tostado, lã secando ao sol… Duvida? Então vá lá na livraria cheirá-lo pessoalmente. É claro que, para você, os perfumes evocados serão outros. É também muito bom de tatear o seu papel granulado, espessado pelas camadas de tinta. Ganhei ele de presente de natal da Suzana, que sofre de incontinência dadivosa. Sou, inclusive, muito grata a ela por não ter se tratado dessa doencinha benigna. Num ano de livros lindíssimos (o Vermelho de Jung, por exemplo), “O círculo do destino” (de Radha Raut, Raja Mohanty e Sirish Rao, editado pela Martins Fontes) arrasa, com suas cores chapadas, seus delicados padrões étnicos de fundo, suas personagens solenes e a versão hindu de uma história que ecoa infinitas outras. Eu, pelo menos, conheço várias narrativas parecidas: uma, tradicional judaica; outra, islâmica; outra ainda, nordestina de Pernambuco; mais uma, da tradição caipira paulista; mais outra, mexicana… Conheço tantas versões dessa história – a do sujeito que tenta enganar a Morte – e, ainda assim, me surpreendi no final do livro. Talvez seja efeito da beleza. Talvez da força que subjaz às coisas muito antigas e que continuam tão misteriosas como quando eram novas. O texto, enxuto e preciso, apenas garante a coesão das imagens. No final, ficamos sabendo que as ilustrações seguem o estilo Patachitra de Orissa, uma cidade do leste da Índia, que começou com os artistas pintando histórias de deuses em “grafites”, nos muros dos templos da cidade. Os devotos queriam levar as histórias para casa e os artistas começaram então a imprimi-las em cartões, pergaminhos e até brinquedos. A tradição patachitra continua, nos dias de hoje, sendo transmitida de pai para filho. Gostei muito do tempero que essas informações deram à história, o que tornou o livro, já tão sensorial, também muito saboroso, ao estilo forte, colorido e picante da boa culinária indiana. Nós, comedores de livros – gente, traça ou broca-, adoramos falar dessas coisas. Boa leitura e … bom apetite!

Belo, claro, enigmático… do jeito que as religiões deveriam ser

“Para conhecer melhor as religiões” (Série Claroenigma, Companhia das Letras) é uma beleza de livro. Beleza no sentido grego clássico do termo, porque além de belo, ainda é bom e justo. O autor Patrick Bannon é um cientista das religiões com alma de poeta e o “ilustrador” (palavra mais besta) é um artista sagrado, descendente espiritual dos sacerdotes-pintores que, no neolítico, transformaram cavernas em catedrais. Essas duas feras produzem uma delicada bússola, que ajuda o leitor a planar sobre o oceano de obscurantismo, violência (literal e simbólica) e banalidade em que boiam as religiões em geral, neste nosso medíocre limiar de século 21. Feitas para reunir os homens por meio dos símbolos da trancendência que estes criam e partilham, as religiões, contudo, só fazem dividir. O livro, ao contrário, evoca o mistério tremendo e fascinante que resiste, apesar de tudo, por trás de tantas reduções mutiladoras da experiência do sagrado. Com palavras e imagens, os autores guiam seu leitor pelo eterno labirinto, cheio de armadilhas mortais, e que (eles reiteram sem afirmar) parece levar a um único e mesmo centro: a grande mônada, a divindade, a fonte da vida, o self cósmico, enfim, aquela imagem que você pode ou não revestir de palavra, mas que brilha dentro de você quando a água sobe ou a beleza te atinge direto no peito.