Requiem para um vizinho

Ele era um homem simples que, nas manhãs de sábado, escutava Ray Conniff e clássicos em versões standard enquanto trabalhava numa oficina de marcenaria improvisada na garagem. Eu nunca soube se aquilo era um hobby ou trabalho de verdade, mas ele cantava e assobiava o tempo todo, o que sugeria que, se fosse trabalho de verdade, ele trabalhava feliz. Fazia uns 10 anos que era meu vizinho, os 8 primeiros coabitando com duas guerreiras em permanente prontidão, mãe e filha, a esposa e a sogra dele, amazonas sempre dispostas a iniciar um confronto por nada, uma diferença no jeito de regar as plantas, uma divergência no trato com a lavadora de roupas. Ele era o ponto de inflexão. Enquanto as duas se engalfinhavam, saia para andar de bicicleta, fazer uma compra no mercadinho da rua, ouvir Ray Conniff na garagem, com a serra tico-tico zunindo ao fundo. Eu não me incomodava nem um pouco com o zunido a serra, menos ainda com a seleção musical, que me dava uma certa nostalgia de minhas tias nos anos 1970. Era gostoso de ouvir, nunca alto demais, nunca baixo de um jeito que eu o ignorasse. Assim ele encobria o ruído das discussões infindáveis e, ao mesmo tempo, providenciava para si um refúgio, uma trincheira suave em meio ao campo de batalha. As duas morreram, com talvez um ano de diferença. E de repente ele era o dono da casa, com seu sorriso simpático, sua gentileza, sua conversinha amena. Passado algum tempo, retomou um namoro de juventude. Estava feliz e me contava dessa surpresa que a vida lhe reservara em pleno crepúsculo. Me trouxe uma caixa de doces caipiras, de uma viagem para a terra da namorada. Contudo não imaginava que o destino lhe reservava mais uma carta ainda, desta vez muito sombria. Quando o câncer foi diagnosticado, ele lutou brava e nobremente, como deve lutar um guerreiro quando a guerra se lhe apresenta, não antes, talvez arrebatado pela ilusão de um derradeiro ato vivido em paz e melhor companhia. Hoje, domingo, dia em que a família se reunia na casa do meu vizinho para almoços ruidosos e alegres, escuto um eco de canções de Ray Conniff com coral, orquestra e zumbido de serra tico-tico. Espero que sua alma esteja em paz.