Salve Saturno!

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Para quem ainda não sabe ou não se interessa em saber, mas continua a ser afetado por isso, 2013 é um ano de Saturno. Salve, Saturno, que finalmente chegou, para dar forma, limite, sentido e legitimidade às manifestações que começaram mal há três semanas, misturando atos políticos com atos de vandalismo perpetrados contra a avenida Paulista. Pouco a pouco, porém, o senex ou velho sábio Saturno começa a calibrar o puer ou jovem Dioniso. As lideranças do movimento e os representantes do poder público sentam-se na mesa para dialogar, estabelecem-se regras, negociam-se acordos. Salve, Saturno! As imagens das marchas realizadas ontem, salvo atos isolados de gente que só quer aparecer (e mal) na foto, eram outras.  Multidões saíram às ruas para expressar, de modo pacífico e ordeiro, uma indignação patriótica que não é, nem nunca foi, monopólio de grupelhos, mas que representa o sentimento genuíno da maioria do povo brasileiro, em todas as camadas da pirâmide social, do Oiapoque ao Chuí, da esquerda e da direita conscientes, que amam este país e não apenas o confronto. As grandes marchas do Rio e de São Paulo reuniram gente de todas as idades e classes sociais, misturadas na rua sem a orientação sectária dos pseudo-especialistas que, desta vez, não tiveram muita chance de gerar as divisões que tão somente fortalecem ainda mais os poderosos grudados no trono. Só uma turminha de punks extemporâneos deu um certo trabalho para sair do espelho d’água diante do Congresso, em Brasília. Foi engraçado. No Rio e em Sampa, assim como no DF (não acompanhei o que acontecia nas outras cidades, mas sei que havia muito mais capitais envolvidas no movimento), a bandeira escolhida como símbolo da mobilização foi a brasileira, embora ainda houvesse gente defendendo algumas bandeirolas de partidos. As concorrentes, contudo, não tiveram chance: simplesmente desapareceram diante da original. Uma das palavras de ordem era justamente a que evocava a superação do partidarismo esquizofrênico, em nome de uma nação que precisa se sentir como uma nação para poder transformar sua realidade injusta e desumana. O povo que ganha pão e o povo que compra circo do governo federal estavam lá, para azar dos monopolares sem imaginação. E quando as pessoas se olham sem mediadores discursivos, se conhecem e caminham lado a lado num evento como esse, fica difícil jogá-las umas contra as outros, por mais competentes que sejam os discursos. Na multidão, parece que não tinha lugar para classe média fascista e reacionária, nem para pobre folgado e dependente de bolsa-família, nem para estudante vagabundo e baderneiro. Engraçado como, com Saturno para moderar, discriminar e disciplinar, uma multidão pode, sim, dissolver as generalizações mais perversas. Nas marchas que vi pela TV, porque meu corpo não esteve lá, só minha alma, me pareceu que existe um povo brasileiro inteiro e não um povo partido em muitos povos que guerreiam em favor dos poderosos. Imagino que alguns políticos profissionais, daqueles que não temem nem a Deus nem à História, devem ter tremido nas bases, mesmo que só um pouquinho. Mas preciso dizer também que suspeito que o rito de iniciação que marcou essa transição qualitativa e quantitativa foi mesmo o confronto com a violência da polícia, ocorrido em Sampa, na semana passada. Alguma coisa mudou substancialmente desde então. Um pouco da melancolia de Saturno contaminou, sadiamente, a euforia de Dioniso e a calibrou com dor e responsabilidade. A expansiva energia da juventude (de Jove ou Júpiter) viu-se contraída e forçada a se consolidar num projeto. A gravidade pesada de Saturno curou a hiperatividade aérea e sem compromisso de outro puer, Hermes, o festivo deus-padroeiro das redes sociais. Não procuro de modo algum justificar a arbitrariedade e a falta de estratégia e treinamento da polícia para lidar com situações como essa. Quero apenas mostrar que as coisas são do jeito que são e a gente pode compreendê-las melhor a posteriori, quando todas as peças já tiverem sido devidamente encaixadas no tabuleiro pelo desenrolar dos eventos e então enxergamos com mais clareza o cenário, ou boa parte dele. Porém isso é processo e, portanto, depende do tempo. Saturno é o deus Tempo, Cronos para os gregos. Ele pode trazer abundância ou esterilidade. Sabedoria ou caduquice. Pode introduzir uma sadia depressão que nos faz enraizar nossa mania no peso da realidade concreta ou pode nos lançar nos ressentimentos remoídos sem trégua de um passado mal vivido ou não superado. O “ou” de todas as categorias depende da manutenção da faísca acesa: a paixão do puer, que enche o senex de vigor e entusiasmo; o idealismo de puer, que impede que o senex se torne um cínico pragmático; a alegria de puer, que ajuda o senex a ultrapassar as próprias decepções e desilusões; o bicho carpinteiro de puer, que ajuda senex a não se deixar estagnar no poder do jogo ganho. Nas marchas de ontem, o inesquecível dia 17 de junho de 2013, Hermes e Dioniso, Júpiter e Saturno encontraram-se, se abraçaram e, juntos, puxaram o cordão feito de elos que se consolidam, aos poucos, de cidade em cidade do Brasil, para dar um basta a esse mais do mesmo que aprendemos a confundir com política. Não mais. Não desse jeito.

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Um mestre das metamorfoses

Durão suave: um mediador de opostos

Se você ainda não entendeu o que é metanoia, a grande virada que a gente dá no meio do caminho da vida a fim de não virar estátua de sal, é só seguir a pista das histórias que esse homem conta. Começou encarnando, por anos a fio, um tipo cínico, vingativo e misantropo, de arma cronicamente engatilhada, poucas palavras, pouquíssimos amigos. Quando já parecia congelado, ele renegou e humilhou o estereótipo que lhe deu fama e fortuna (Os imperdoáveis). Depois se apaixonou por uma gordinha de meia idade, com quem co-estrelou uma história de amor de mulherzinha (As pontes de Madison). Daí retomou e reinventou o tipo durão, encarnando um treinador-demiurgo, rigoroso e paternal, que praticava eutanásia em sua adorada criatura (Menina de ouro). Ambivalente, polêmico, revisitou a Segunda Guerra com olhos orientais (Cartas de Iwo Jima) e ocidentais (A conquista da honra). Em Gran Torino, recuperou, pelo avesso, o campeão da democracia americana, um velho reaça e impotente, crucificando-o para salvar um bando de imigrantes orientais. Depois de adaptar com competência o bacanérrimo Sobre meninos e lobos, romance noir de Dennis Lehane, ele retomou o tema dos predadores em A troca, filme em que conseguiu a façanha de enquadrar Angelina Jolie no papel de mãe coragem. Não contente, armou um enredo político-esportivo em que puer e sênex se juntam numa complexa parceria de antagonismos e complementaridades, para tentar unir seu país dilacerado (Invictus). O arquétipo puer-senex, aliás, foi magnificamente explorado por ele, não apenas em Invictus, como também em Menina de ouro e Gran Torino, filmes sobre a dura e bela tarefa de integrar a alteridade, envelhecer e tornar-se sábio. Melhor aos oitenta que aos quarenta, agora fascinado pelo derradeiro mistério que se avizinha, ele nos olha de esguelha com seus olhos azuis sem idade, dá uma cusparada irônica e muda de pele, mais uma vez. Diante do arquétipo da morte, esse mediador de opostos resolve falar aos vivos sobre a vida que há para viver. No próximo post, leia minhas impressões sobre Além da vida, o mais recente filme do camaleão Clint Eastwood, atualmente em cartaz na cidade.