Os doidos e eu

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O final das minhas séries favoritas na TV sempre soa sustenido. Foi assim com a saga da família Fisher, os papadefuntos complexos e reflexivos de “Six feet under”, da HBO, por exemplo. Era uma história que, desde o início, anunciava literalmente a própria morte e, mesmo assim, eu me recusei a acreditar que esse dia chegaria. Foi assim, mais recentemente, com “True detective”, também da HBO, quando tive de dizer adeus, em prantos, aos meus amigos Marty e Rust, no estacionamento daquele hospital em que os dois protagonizaram um dos diálogos mais profundos e bonitos que um roteirista de TV já escreveu, na história dos seriados. Já antevejo a morte de “Game of thrones”, em que o sábio e sádico autor dos livros e co-roteirista da série trata de ir matando renques de personagens queridos e odiados ao longo da história, desse modo nos ensinando, em doses cavalares, o necessário desapego às formas do seu mundo, tão belas e transitórias quanto as formas do nosso mundo (e, como no nosso, ainda mais belas porque transitórias). Agora me preocupa muito Sor Jorah Mormont, um dos meus personagens preferidos, com aquela mão infectada de escamagris… O primeiro da fila desta temporada? Bem, com George Martin como deus ex-machina, a gente nunca sabe, igualzinho à realidade…

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Hoje, contudo, vou falar dos doidos de “Madmen”, seriado da HBO, que assisto desde o primeiro capítulo, sempre dividida entre meu amor e meu ódio pelo herói Don Draper, o zé ninguém lindo de morrer, o apostador genial, o mentiroso patológico, o kamikase existencial, o menino carente e impermeável ao amor, o sociopata irresistível, a alma ferida de morte, o alcoólatra depressivo que acaba virando rei das ilusões viciosas da publicidade, na trepidante Manhattan nos anos 1950-60. Herói em todos os sentidos, da origem indigente ao complexo materno mastodôntico ao conchavo do destino que lhe confere uma identidade suspeita e o lança ao Olimpo dos publicitários criativo-destrutivos, Don transita por labirintos infectos arrastando na alma um Minotauro tamanho Extra Large, na medida para contrabalançar seu portentoso ego em busca de reparação. Don encarna com glamour e desespero essa miragem convincente, envolvida por uma bruma de fumaça de Luke Strike, mantida com doses titânicas de old-fashioned e outros spirits.

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Desta vez, penso que estou preparada para o fim. Aliás eu me preparo para a morte de Don desde que vi, pela primeira vez, a vinheta de abertura da série que, tenho certeza, foi baseada em Gilbert Durand e suas estruturas antropológicas do imaginário. Na animação, que me lembra a publicidade charmosa e mortífera dos cigarros Carlton, o herói mergulha no vazio, tendo como fundo as imagens sem alma com que manipulou à vontade as massas livres, protestantes e racionais da América, para isso tirando proveito do vício que corrói desde sempre a nossa querida civilização ocidental: o da perfeição, como diria Marion Woodman. Don é, ele mesmo, o produto e sua campanha: aparência sem concretude, um simulacro de si mesmo, uma vida totalmente vivida (e atuada) no polo inconsciente. Vou ter saudade da canalhice do Roger, da postura régia e continuamente humilhada da Joan, da infantilidade do Pete (tão na moda entre os homens ultimamente), da insegurança mal disfarçada em competência da Peggy (tão na moda entre as mulheres ultimamente), dos embates entre as mulheres mais importantes da vida de Don, Sally e Betty (a alma fria e defensiva de Don, condenada por um câncer de pulmão cuidadosamente cultivado ao longo de todas as temporadas).

Betty Draper (January Jones) - Mad Men - Season 4 - Gallery - Photo Credit: Frank Ockenfels/AMC

Betty Draper (January Jones) – Mad Men – Season 4 – Gallery – Photo Credit: Frank Ockenfels/AMC

Vou ter saudade das crises de consciência de Don, de suas amantes bizarras, de suas bebedeiras homéricas, de suas gafes em reuniões com clientes importantes, já na fase desconstrutiva… “Madmen”, que acaba hoje nos EUA e cujo último capítulo verei amanhã, em clima de velório regado a pipoca e cerveja, foi uma série perfeita na recriação do imaginário e na encenação dos mitos que regeram uma época em que as coisas precisaram mudar para continuar exatamente do mesmo jeito que estavam antes, nas palavras do príncipe de Salina, personagem de Lampedusa. Uma época em que eu já estava por aqui, assistindo “A feiticeira”, “Jeannie é um gênio”, “Perdidos no espaço”, “Patty Duke Show”, “Bonanza” e outros seriados que povoaram minha infância, cujos intervalos eram recheados de filmes de publicidade em preto e branco: cobertores Parayba, Café Seleto, biscoitos Aymoré, Guaraná Antártica, chocolates Neugebauer, bolo Pullman…

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Assistir “Madmen”, guardada a distância abissal entre a 5a Avenida e a rua Gama Cerqueira, no bairro operário do Cambuci, é, de certo modo, recuperar aquele mundo perdido e reencontrá-lo na memória, como também refletir sobre o processo de formação de minha alma, as canções, as roupas, os cabelos, os comportamentos, as esperanças e decepções que marcaram minha vida, representadas por imagens muito mais que por palavras… Fui tão determinada por tudo aquilo que, garota, escolhi cursar Publicidade, achando que as imagens pelas quais eu ansiava estavam lá. Ledo engano, um literalismo típico da imaturidade, descobri que as imagens que eu queria conhecer de verdade estavam em qualquer outro lugar, menos lá. Descansem em paz, queridos doidos. Obrigada por terem me esclarecido com suas histórias.

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Lucy, Patty, Samantha, Jeannie, Irmã Bertrile…

Seriados

Eram todas minhas amigas, ainda que eu fosse uma pirralha de dez anos de idade e elas, quase sempre, mulheres adultas ou algo parecido. Da decana Lucy, aprendi que ser doidivanas é só o pode nos resguardar da loucura literal de ser dona de casa e mãe. De Patty Duke, aprendi que ser boazinha (c0mo a Patty) é tão importante quanto ser malvadinha (como a Cathy): tudo é apenas uma questão de dose, timing e contexto. De Samantha, aprendi que, ainda que a gente tenha poder para melhorar certas coisas, deve evitar fazê-lo, pelo bem da mediocridade reinante. De Jeannie, aprendi que, se a gente tem poder é para usar e não para engarrafar e arrolhar. De Irmã Bertrile, aprendi que voar é apenas uma questão de combinar baixo peso com acessórios aerodinâmicos e uma boa dose de hiperatividade.

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Elas passavam o tempo todo às voltas com maridos chatos e controladores (Ricky Ricardo, péssimo cantor, que morria de medo do talento da Lucy, e James Stevens, cagão, intelectualmente limitado e, ainda por cima, feio como a peste), amados indecisos, atrapalhados e lindos de morrer (o major Anthony Nelson), vizinhas enxeridas e neuróticas (Ethel, a amiga inseparável de Lucy, e minha predileta, a sra. Gladys Kravitz, com seu impagável marido Abner), superiores paranóicos ou desonestos (o Dr. Bellows e Larry Tate), amigos vitimados pela implacável bondade feminina (Carlos Ramirez, dono do célebre Cassino Carlos a Go Go) ou amigos galinhas meio sociopatas (o major Roger Rilley), mães poderosas e manipuladoras (a maravilhosa Endora, que perseguia o insuportável James sem descanso), figuras femininas opostas complementares (a irmã da Jeannie, cujo nome nem eu mesma lembro, e a super-sexy Serena, prima da Samantha, ambas morenaças e, claro, malvadas, e a prima sapeca da Patty, Cathy, que era a cara e o avesso da primeira). E havia ainda tias(os) velhas(os) divertidas(0s) e infernizantes (tio Arthur, tia Ágata, tia Encanta e a tia Clara, todos da Samantha), etc etc etc…

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A ordem do dia era a seguinte: perder tempo e queimar neurônios na escola; voltar para casa, almoçar e fazer a inútil lição; brincar com as amigas da rua; voltar, tomar banho e assistir seriados até o hora do jantar. Que delícia era frequentar a escola sentimental vespertina dos maravilhosos seriados americanos que passavam na ingênua TV brasileira dos anos 1960!  As imagens do feminino que encontrei neles, ao mesmo tempo estereotípicas e arquetípicas, me ensinaram muitas coisas sobre ser mulher, num mundo em transformação feroz. Na Sessão da Tarde, a gente via e revia clássicos do cinema nos anos de ouro 1940-50: dramalhões como “Imitação da vida”, “Flores do pó”, “Jezabel”, “A malvada”, “Mulhezinhas”. Neles as mulheres eram intensas, um pouco maquiadas e penteadas demais, quase sempre trágicas: Bette Davis, Lana Turner, Jane Wyman, Deborah Kerr, que fizeram as cabeças e corações de nossas mães… Mas quando Vênus despontava no céu, aquelas queridas amigas, tão normais e leves, entravam em cena, para transformar em risadas todas as confusões literais e desagradáveis que nossas famílias viviam no dia a dia e nas quais éramos inadvertidamente arroladas como figurantes. Obrigada, garotas ! Foi muito bom ter sido educada por todas vocês!

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