Fantasmas

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“A colina escarlate”(Crimson Peak, 2015) é meu tema do Dia dos Mortos deste ano e o filme mais recente de Guillermo Del Toro, mexicano que ocupa um lugar de honra no meu panteão de diretores arquetípicos. Um genuíno filme de fantasma, coisa que Del Toro sabe fazer como poucos hoje em dia, com sua fina intuição para o manejo da metáfora. Se você tem medo de fantasma, não assista. Mas se, como eu, os fantasmas ressoam no seu mundo interno, coragem. Você não vai se arrepender. O filme recupera o melhor da tradição literária gótica vitoriana, seja na construção dos personagens, seja na estruturação da narrativa,  seja na ambientação pesada, opressiva: climas, adereços, figurinos e cenários, tudo coopera para espelhar a alma e seus labirintos. Do começo ao fim, permanecemos dependurados de cabeça para baixo, no fio tenso de um bom paradoxo. O Feminino encarna o agente redentor-destruidor do Masculino e, nesse sentido, “A colina” é uma maravilhosa história da parceria e mediação entre opostos-complementares, vivos e mortos, mães e pais, irmãos e irmãs, ego e inconsciente, razão e loucura…

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As fantasias favoritas de Del Toro retomam aqui, com a sensibilidade e a profundidade usuais – e sem maneirismos desnecessários -, o tema do feminino assombrado que inicia uma mulher ingênua nos mistérios do amor e da morte. Um pai superprotetor expõe a filha ao predador, enquanto seu amor por ela igualmente a provê de um animus que, despertado pelas circunstâncias, se revela excepcional. Uma mãe boa e frágil retorna da morte para revelar um importante segredo à filha, segredo que ela mesma acessou ao cruzar o portal, mas que a filha ainda não tem elementos para compreender. Outra mãe, longeva e devorante, investe inadvertidamente numa sucessora ainda mais mortífera. Um homem frágil é assujeitado por uma devastadora anima negativa. Um casamento infernal e outro, celeste, acorrentam os noivos numa tragédia de proporções míticas. Um oftalmogista que acredita no invisível vê o que está posto diante dos olhos, mas que os outros não conseguem enxergar. A natureza se rebela contra a máquina. Aliás a tecnologia aparece como coisa muitíssimo mal assombrada, pura verdade.

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A história fala das fantasias do estilo gótico novecentista como uma reação da imaginação à desolação que a Revolução Industrial impôs à Alma do Mundo, uma reação tão frágil quanto eficaz, porque é na alma que ela se instala. E a alma confronta, com suas fantasias terapêuticas, a sombra da ciência, da indústria e da filosofia positivista. Mais do que tudo, “A colina escarlate” me levou de volta a “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brönte, um dos livros da minha vida, numa viagem de revisão que me esclareceu sobre os motivos do apreço que tenho por fantasmas.  Eles nos assombram e afligem, penso eu, porque são, na essência, mensageiros do inconsciente que assediam o ego para alertá-lo de grandes perigos e ajudá-lo a tomar consciência de algo muito sombrio. O ego, contudo, se defende como pode das coisas que não quer saber.

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A forma fantasmagórica aterroriza o ego, embora não haja nela uma ameaça real, ao contrário. Os fantasmas pretendem revelar um estado de coisas intolerável deslocando o sujeito da zona de conforto, forçando-o a encarar uma realidade que clama por mudança, uma lealdade tóxica, um segredo que apodrece dentro dele. Assim o fantasma de Catarina de “O morro” vem pedir ao Sr. Lockwood tão somente uma escuta para sua história, um pouco de compaixão e ajuda para libertar-se e libertar a vida, ajudando-a a retomar seu curso. “A colina” remete a “O morro” até mesmo nas referências à topografia. Se você subiu numa, pode se arriscar a escalar o outro. Sua alma vai agradecer por mais esse fantasma.

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Um ano interessante

Em 2012, escrevi esse texto para um TED cujo link está na lista do blog, do lado direito da página. O Facebook o regurgitou ontem e eu me dei conta do quanto ele é importante e do quanto continua valendo, como expressão de um projeto de vida que prossegue e que eu gostaria que chegasse comigo à velhice. Num momento em que ser feminista muitas vezes tem significado estar tomada de histeria ou viver perpetuamente pintada para a guerra, creio que ele pode inspirar algumas boas conversas à antiga, entre parceiros e parceiras, regadas a chá e bolo, talvez a cerveja e mandioca frita, conversas que nos reenviem a nós, seres humanos de todos os sexos possíveis e imagináveis, para o mesmo lugar comum de amor e aceitação da diferença, que é tudo o que precisamos. Como post, ficou longo, mas não precisa ser lido de uma tirada. É até bom ler devagar, aos trechos, mesmo porque a divisão que fiz, com imagens colecionadas ao longo de tantos anos escrevendo este blog, amacia e ilumina o dito. Boa leitura. Bom ano novo. Que 2016 seja, como diz a maldição chinesa, um ano interessante.

A matilha de Hroshige

GRUPOS DE CORPO E ALMA

O lugar de onde quero falar a vocês hoje é o meu coração que envelhece e se transforma. É dele que sai o fio que liga todos os temas e as pessoas que fazem parte da minha vida e que me fazem sentir real: uma mulher de 55 anos de idade, vivendo numa cultura heroica e patriarcal, onde já começo a me tornar invisível. Quero falar de mulheres que se juntam para fazer mais do realizar atividades juntas. Quero falar de mulheres que se encontram para ficar juntas semanalmente, chova ou faça sol, apesar do trânsito, dos afazeres, das distrações com que o mundo nos afasta de nós mesmas e nos põe à deriva, girando feito piões no vazio. São mulheres que, depois de muito avançar, retornam aos mistérios simples e sagrados da natureza feminina, em busca de certas qualidades que andam esquecidas, num mundo que está muito carente delas. São mulheres que se reúnem para cultivar a alma em grupos de corpo presente. Talvez haja só mulheres envolvidas nesta história porque  parece que entendemos mais de cultivo da alma do que os homens. Não porque tenhamos mais alma do que eles, mas apenas por uma questão de sintonia com o corpo e a natureza. Essa afinidade entre a mulher e a natureza levou milênios para ser cozinhada e tecida.
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Agora ela corre o risco de desaparecer, levando consigo Gaia, nosso lindo planeta. Grupos de corpo e alma formados por mulheres falam de outro feminismo, muito antigo, perdido na aurora do tempo. Um feminismo que tem poder para curar nosso coração coletivo, despedaçado por uma civilização que já perdeu sua alma e que ameaça o mundo com uma novíssima barbárie. As experiências de grupos de corpo e alma sempre foram comuns entre as mulheres, que costumam perceber e expressar com facilidade o quanto precisam umas das outras para tocar a vida adiante. Descobri que isso acontece por um motivo simples: as mulheres sabem ficar. Ficaram para trás, plantando e colhendo. Ficaram cuidando das crianças, dos animais e das roças, ao redor do vilarejo neolítico e da maloca. Ficaram fiando e tecendo, narrando velhas histórias, costurando e bordando e lendo e escrevendo diários. Ficaram rezando e fofocando, lidando com plantas, fazendo simpatias, mezinhas, poções, unguentos. Ficaram benzendo, cuidando dos bebês e dos velhos, dos feridos e dos doentes. Ficaram mantendo aceso o fogo no centro da casa, cuidando do coração coletivo, em torno do qual se organizava a vida, onde as histórias eram contadas e as pessoas se aqueciam, conversavam, comiam juntas. A mulheres cultivaram os laços de afeto com a mesma dedicação com que cultivaram hortas e pomares. Os pomares e as hortas serviam para nutrir o corpo. Os laços serviam para nutrir a alma. Encarregadas de ficar para garantir a sobrevivência do corpo e da alma da comunidade, fazíamos duas coisas imprescindíveis para que a vida prosseguisse. Apertávamos os laços, providenciando o cuidado com quem estava nascendo e precisava ter sua alma feita para se tornar humano, porque ninguém nasce pronto. Na outra ponta, desatávamos os laços, garantindo o cuidado com quem ia morrer e precisava ter a alma liberada para partir.
Leda e o cisne, Eliana
Por uma questão cultural, porém, acabamos aprendendo a desprezar quem fica. Fomos levadas a acreditar que ficar significa não se desenvolver, estar sempre parado no mesmo lugar, depender, diminuir. Nesse sentido, fomos ótimas alunas do patriarcado. Num jogo onde quem é mais agressivo e dominador dá as cartas, o feminismo de primeira hora perdeu o rumo. Entendemos que, para sermos respeitadas, aceitas e valorizadas no grande mundo lá fora, precisávamos estar sempre em trânsito, como os homens, sempre envolvidas em atividades como lutar, competir, guerrear, triunfar. São todos verbos intransitivos, vocês perceberam?, verbos que expressam uma atitude individualista, que não considera a existência do outro, a não ser como competidor, servo e inimigo. Compramos esse pacote, jogamos o bebê fora, junto com a água do banho, e pagamos um preço alto demais, quando caímos em mais esse engodo patriarcal. Em troca de uma igualdade que acabou virando, para nós, sobrecarga e imitação do dominador, aceitamos perder nossa conexão com a natureza feminina profunda. Restaram somente as aparências para diferenciar. Consta que fomos nós que inventamos a agricultura, porque tínhamos a curiosidade, estabilidade e a atenção divergente para observar o sol, a lua, a direção do vento, as estações, os ciclos da natureza que ensinam a viver e a morrer. Para observar, é preciso ficar. Olhávamos em volta para coisas aparentemente insignificantes e acabávamos dando a elas significados que se revelavam importantíssimos. Foi assim que vimos as sementes eclodindo e resolvemos imitar a natureza, cultivando comida. Foi assim que encontramos o sagrado no mundo, muito antes dele ser transferido para o céu. Enquanto isso, os homens iam e vinham de realizar seus feitos, pequenos ou grandes, muitos deles relacionados com a pilhagem e a destruição da natureza e dos diferentes, que é outra palavra para “inimigo”.
Sem sapatilhas, só cascos
Deixadas para trás, nós mantínhamos o ciclo da vida fluindo no cotidiano miúdo e simples, que é tudo o queremos de verdade. Dizem que a agricultura e a cozinha nos ensinaram a lidar bem com as transformações. Éramos sedentárias, o que nos permitiu investir na criação de uma cultura estável. Paradoxalmente sabíamos mudar muito melhor do que os homens, que se movimentavam mais do que nós. Nossa sintonia com o corpo e a alma nos permitia ter uma mobilidade que os homens não tinham: desde pequenas, sabíamos viajar para dentro. Na primeira metade da vida, eu também saí, como todo mundo. Saí feliz, mas confesso que me sentia dividida. Eu era professora, o que me permitia ir e ficar. Eu tinha mais tempo livre. Eu me sentia importante, ainda que fizesse uma coisa considerada menos importante (educar, como vocês sabem, é uma coisa desimportantíssima). Mesmo  assim, fui convencida pela cultura dominante de que havia algo errado no meu modelo combinado de viver. Eu não precisava me sentir dividida porque, na verdade, estava integrada: o melhor dos mundos é poder transitar entre as polaridades. Eu deveria me sentir criativa, confortável e plena, mas a cultura patriarcal me convenceu de que eu não ganhava dinheiro suficiente, não me projetava suficientemente no mundo profissional, não era suficientemente agressiva e competitiva. Já minha intuição me dizia que ter tempo livre para cultivar minha alma, as almas dos meus filhos, da minha família, da minha casa (porque as casas também têm alma), era um imenso privilégio e me concedia um grande poder criador.

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo, 1938Eu queria ver meus filhos crescerem, estar com eles em suas passagens, contar-lhes histórias, ensiná-los a cantar, a ajudar, a gostar de animais e plantas, a comer bem, a preparar e partilhar refeições, a se relacionar. Queria ter tempo para namorar meu marido, ouvi-lo, ver filmes com ele, partilhar com ele o silêncio confortável  de ler juntos livros diferentes,  e conversar com ele sobre a nossa vida. Como minha mãe, eu tinha um imenso prazer em ficar: cuidar do jardim, da cozinha, da família, manter aceso o fogo no centro da casa em honra à poderosa e modesta Hestia, deusa do lar. Diferentemente de minha mãe, porém, eu podia sair e viver a vida no grande mundo, praticar minha vocação, circular com desenvoltura no espaço público. Algumas vezes, porém, o prazer de ficar, que eu partilhava com minha linhagem feminina, me deixava constrangida no grande mundo lá fora. Quando deixei a sala de aula, há alguns anos, o meu lado que sabia ficar me serviu de âncora. Saber ficar impediu que eu perdesse a sensação de realidade que vinha do meu papel profissional. Na época, eu vivia um momento de intensa metamorfose e as metamorfoses costumam nos dar essa sensação de perda da própria realidade. Formas externas com as quais eu me identificava estavam desaparecendo, e eu ainda não sabia direito como haveria de sair daquela experiência. A gente nunca sabe, mas às vezes pensa que sabe. Minha sintonia com meu corpo e minha alma me garantiu um razoável conforto para fluir na correnteza da vida que mudava. Eu tinha as histórias, as memórias de família, os estudos de assuntos que ecoavam a minha existência, a escrita, os mitos, a arte, a literatura, o jardim, as imagens nas quais eu me espelhava e que me diziam tudo o que eu precisava saber sobre qual era o meu valor. Minha intuição me dizia que o melhor estava por vir, ainda que eu não fizesse a menor ideia do que estava por vir. Então o melhor veio.

Tudo viagem de volta

Minha experiência com os grupos de corpo e alma começou com um laço muito íntimo e antigo: a aliança mítica das irmãs. Em 2008, minha irmã voltou de uma temporada de três anos no México e me convidou para embarcar com ela numa aventura. Minha irmã é artista plástica e arte-educadora. Ela queria montar um lugar para cultivar as almas das nossas crianças, massacradas por uma educação escolar em que o corpo, as emoções e a imaginação simplesmente não interessam, só atrapalham. Eu sabia disso, porque vinha de quase 30 anos dando aulas, nadando contra a correnteza de transformar adolescentes curiosos e interessantes em autômatos tarefeiros, insensíveis e consumistas. Como não tínhamos cacife para bancar o projeto sozinhas, convidamos outras mulheres que tinham projetos parecidos com o nosso, e formamos o primeiro grupo de corpo e alma: as “ocuilis” (palavra que minha irmã trouxe do México, do velho idioma “náuatle”, e que quer dizer “cobra”, um bicho que troca de pele e simboliza o eterno que sabe mudar). Começamos nosso ateliê depois de comemorar a festa do dia dos mortos. Foi quando meu casulo começou a se abrir e a revelar minha nova forma. No início, eu tinha pensado em coordenar grupos de leitura. Era um projeto mais intelectual, como se, saindo novamente para o mundo, eu precisasse ser apenas racional. Para minha sorte, as mulheres que aderiram à ideia propuseram leituras não literárias, leituras de conhecimento profundo de si, divergentes, analógicas e um bocado irracionais também, textos de mulheres fora da curva, destinados a mulheres fora da curva: contos de fadas, mitos, metáforas. Eram mulheres que tinham desenvolvido muito sua capacidade intelectual e agora queriam se tornar sábias.

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Assim nasceram as matilhas de leitura, grupos de mulheres que começaram lendo , juntas, o clássico “Mulheres que correm com os lobos”, da analista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés, de onde saiu a metáfora que nos define. Não é coisa nova, muitas mulheres já faziam isso antes de nós. Mas é único, porque fazemos isso de um jeito completamente nosso. Como não podíamos mais ser alcateias, porque já estávamos bem domesticadas, seríamos então matilhas em busca do DNA do feminino selvagem, a fonte de energia vital que continua a se renovar pela vida afora, de que falam os mitos e as velhas histórias tradicionais. As matilhas são grupos de corpo e alma. Nelas as mulheres se reúnem para compartilhar a experiência de ser e estar ao redor do seu próprio fogo criativo, onde são modeladas outras formas de ser e de viver além daquelas que a sociedade aprova. Cultivar a alma em grupo era o nosso objetivo embora, no início, nem soubéssemos disso. Juntas, aprendemos que, quando bem cuidada, a alma secreta os significados que umedecem e fertilizam a vida, fazendo brotar plantas novas em velhos jardins. Aprendemos também que o corpo se transforma criativamente quando a alma está preparada para lhe ensinar como se faz. Aprendemos que a alma é alquimista e o corpo, seu laboratório. Quando um não colabora, o outro adoece. Um não pode viver sem o outro. Aprendemos que o corpo e a alma equilibram a razão lógica e a tornam menos abstrata, prepotente e fria. Somos mulheres que estão reaprendendo a ficar. Cultivar a alma em grupo não tem segredo, só mistério, como canta Marisa Monte. Começa com a gente encontrando a trilha de migalhas de pão que nos leva à casa da bruxa iniciadora de princesas e mendigas , a velha sábia que vai nos iniciar nesse mistério. É preciso olhar para o chão para ver migalhas.

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No chão, estão gravadas nossas pegadas antropológicas. Saber de onde viemos é saber para onde vamos, porque a vida é um círculo, não uma linha reta. Em meio à aparência de novidade que o mundo quer nos impingir, seguimos juntas atrás do que é arcaico, do significado mais profundo e escondido de ser gente, daquela natureza real que não nos deixa ficar invisíveis só porque
envelhecemos. Aprendemos que só a conexão com o arcaico é capaz de convocar o novo verdadeiro. Como disse uma vez o Gerald Thomas, “quem não sabe o que veio antes, não sabe seguir adiante”.
Um grupo de corpo e alma é uma comunidade de iniciação onde aprendemos sobre o lado desvalorizado de nossa natureza feminina e o reparamos da melhor maneira possível: primeiro metaforicamente e depois, na prática. Queremos reinserir no cotidiano as qualidades simples, encantadoras, criativas, terapêuticas, conciliadoras, fecundantes, acolhedoras, ferozes quando necessário, e que espalham ao redor de si e à sua passagem as sementes da genuína beleza, a que nasce do amor e do sentido. Para nós, uma lista de fazeres que cultivam a alma precisa incluir: narrar e ouvir histórias, falar da vida, escutar atentamente, ler e comentar livros e filmes e obras de arte e encontros poderosos, partilhar assuntos importantes que apenas parecem insignificantes, estudar e jogar tarô, chorar de vez em quando, chorar de rir sempre, recuperar velhas prendas domésticas, rememorar as vidas de nossas mães e avós, trocar receitas, invocar imagens de deusas e antepassadas míticas, comemorar festas normais, como aniversários, e esquisitas, como o Dia dos Mortos… Ultimamente algumas lobas vêm se reunindo em outras formações, para cultivar a alma nos ateliês de arte que minha irmã coordena. Faço parte de um deles e posso dizer: é uma experiência impressionante de despertar da criatividade profunda e de cura (para quem sente que precisa de cura, claro).

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A experiência dos grupos de corpo e alma, as matilhas que continuam a se encontrar semanalmente, anos passados, sempre abertas a novas lobas, derivou, a seu tempo, para a Internet. Cultivar a alma na rede é uma coisa ótima e que muita gente já faz. Eu também resolvi fazer, escrevendo o blog da Mulher-Esqueleto. Num grupo de corpo e alma, a gente pode correr o risco de ser quem é. Não precisa dissimular juventude muito menos felicidade no atacado, não tem uma obrigação com o sucesso que esse mundo besta consagra. Podemos expor nossas dores e feridas protegidas por um continente que nos envolve, apoia e convence de que temos resiliência suficiente para superar. Num grupo de corpo e alma, a sensação de ser real é concreta. Sentir-se real não é coisa dada, a gente não nasce com ela, ainda mais numa cultura em que a gente é premiado por se transformar em abstração ambulante. É uma coisa para ser fiada todos os dias, na velha roca da vida, enquanto buscamos nossos elos com o mundo, a inteireza que depende de um pacto consciente com o outro. Só na relação com o outro somos reais, o outro humano e o outro não humano, esse grande Outro que é o mundo. Ninguém vai negar o quão importante foi aprender a partir. Agora precisamos reaprender a ficar. E ficar é verbo de ligação, como bem lembrou minha amiga-loba Regina. Os grupos de corpo e alma nos ajudam nessa jornada de volta para casa, à aurora dos tempos, quando Deus era mulher.
Eliana, Novembro de 2012

Faxina, colagem Eliana

 

Mezinhas

Para Bebel, que sofre nas garras da vaidade científica.

Em caso de saudade da minha mãe, escrevo. Ultimamente, por conta de uns perrengues em família, andamos nos falando muito, não em mesas brancas, que não gosto de literalizações reducionistas. E quando a membrana entre os mundos fica mais fina e porosa, a saudade aperta, claro, coisa mais que natural. Sinal de que ela está na área, qual aroma de bolo flutuando no ar. Pode estar no jardim que anuncia a primavera desafiando a estiagem, passando cheque sem fundo da chuva que há de chegar. Na fé de que as coisas se ajeitarão, de um modo ou de outro, afinal, porque tudo se ajeita e o tempo é o melhor remédio. No serviço da casa que retomo, com prazer, quando da aposentadoria de minha fiel escudeira. Hoje acordei e resolvi aplicar a terapia do soro fisiológico, boa e baratinha, coisa bem de minha mãe. Espirrei no nariz, gargarejei um pouco e dei um banho de gato com ele no rosto, deixando secar naturalmente. Soro fisiológico é um santo remédio para ressecamentos de qualquer natureza, físicos e espirituais. A pele fica mais viçosa, o nariz agradece a garganta se amacia de pronto. Uma das mezinhas de dona Dinorah, sendo mezinhas aquelas poções boas e baratinhas da medicina popular, mais para bruxaria que para ciência, porém quase sempre de comprovado resultado. O soro fisiológico me aliviou da saudade e, enquanto ele secava sobre a minha pele, pensei que não deixa de ser um correlato da lágrima, talvez daí sua eficácia. Mezinha para a secura literal e generalizada em que temos vivido, metáfora de um mundo em que as emoções não valem um tostão de mel coado e ficam por aí, feito mendigas loucas, parasitando a vida racional e produtiva dos heróis no comando. Que falta nos fazem as mezinhas, remedinhos para a alma companheira inseparável do corpo, legados das avós passados de mães para filhas! Canja quentinha para corpos exaustos, cera de ouvido para espinhas inflamadas, clíster de chá de erva-doce para lombrigas agitadas, esfoliante de limão com açúcar, máscara facial de clara de ovos para peles flácidas e capilar de abacate para cabelos quebradiços, cobrinha de papel higiênico metidas entre os dedos dos pés recém-lavados para precaver das frieiras e escalda-pés para friagens, água com açúcar para sustos, bolinhas de lã arrancadas do cobertor do nenê, umidecidas com a saliva da mãe e coladas bem no meio da testa da pessoinha, para aliviar crises de soluço, gargarejo de água morna, limão, sal e bicarbonato de sódio para voz rouca e garganta ardida, vaselina em pasta para narizes feridentos de tanto assoar, vaporização com chá de guaco para tosses gordas e de folhas de eucalipto para peitos que chiam, chá de folhas de goiabeira para piriris…

Faxina, colagem Eliana

Ainda hei de escrever um manual de mezinhas de minha mãe, em homenagem a esse mundo que se dissipa na névoa de nossa inteligência estéril e sem imaginação, como aconteceu com a ilha de Avalon quando da chegada dos padres. O que não tem remédio, remediado está, dizia ela, munida de frases feitas para aplicar, como emplastros, em todas as situações. Para todos os males humanos, todos mesmo, não bastam os remédios objetivos, posto que a vida é mais que a objetividade fria e a cortante eficiência. Aliás, a vida é sonho, já diziam Calderón de La Barca e Shakespeare, que também se tratavam com mezinhas, uma teia inconsútil tramada de coisas visíveis e invisíveis, todas muito reais, todas pedindo os devidos cuidados e devoções e atenções e lenitivos. Nosso coração é muito mais que uma bomba e um músculo. Nas mezinhas, a dose salvadora é a que introduz a fantasia, o quinhão da alma no remédio. Sua falta tem feito toda a diferença. O mundo sempre será o mundo, a pendular entre horrores e bençãos. Somos nós os fiéis da balança, que anda bem desconjuntada, por sinal, já que temos sido desleais com os valores que nos tornam verdadeiramente humanos. Mezinhas que amaciem, umideçam, aliviem, adocem, afofem, temperem, amenizem, embelezem, enfim tornem possível e viável a vida. Bença, mãe. Obrigada e um beijo.

Leda e o cisne, Eliana

Leda e o cisne,  colagem, Eliana

Anima nobile canina

Pupi

Puppy

Anima nobile (alma nobre) era como os seres humanos se autodesignavam, em oposição a anima vile (alma vil), a condição atribuída aos animais. Aprendi isso com Monteiro Lobato, meu pai número 2. Nada como ser Adão, aquele cara que dá nome às coisas. Ele usa as palavras a seu favor e as transforma numa fonte inesgotável de autoenganos. Hoje vou falar sobre almas verdadeiramente nobres e deixar o leitor decidir quem é vil de fato na ordem das coisas. Nenhuma das pessoas que meu post homenageia pertence à espécie humana, primeira razão, portanto, para serem consideradas nobres. Meus personagens são pessoas não humanas, porém completamente pessoas, animadas e almadas, plenas de afeto e memória, fieis aos seus vínculos profundos e também autênticas na expressão de seus afetos. Não faltam a elas as melhores qualidades humanas, aquelas que nos fariam dignos da verdadeira nobreza, a qual só existe na prática. Algumas dessas pessoas já partiram. Outras eu só conheci de ouvir suas histórias por anos a fio, desde pequena. Outras ainda estão por aí, passeando pelos quintais e telhados, ocupando almofadas e colos, encantando a vida dos humanos a quem dão a graça de sua companhia. Hoje achei que já está na hora de contar, por escrito e para mais gente, as histórias dos bichos da minha família. São boas histórias, simples e comoventes, cheias de gestos impregnados com os melhores valores humanos, entre eles gentileza, lealdade, coragem, altruísmo.Vou dividir meu assunto em dois posts, um dedicado aos cães e outro, aos gatos, e deixar para mais tarde um terceiro, protagonizado por um pássaro chamado Preto e Pessoa, um jabuti solitário.

JOLI: MUITO MAIS QUE UM BONITÃO

Joli foi o cachorro da infância do meu pai. Bonito, como diz o nome, mas duvido que os donos soubessem disso. Escolheram a palavra porque a acharam, ela sim, bonita e acabaram reunindo a qualidade ao sujeito por similaridade.Vira-latas de pelo longo e sedoso, branco raiado de preto, Joli era um valente do tipo Errol Flynn, que desafiava o laçador da carrocinha dando espetáculos de fuga que os garotos da rua aplaudiam, frenéticos. O homem da carrocinha odiava Joli, que o humilhava publicamente com suas performances. Consta que, diariamente, ele escoltava as meninas da família até o ponto de ônibus e os meninos mais novos até a escola. Certo dia, Joli acordou estranho. Jururu, inapetente, isolado num canto. Meu pai tem certeza de que ele pegou raiva, porque um cachorro da vizinhança com quem Joli não se dava morrera há pouco da doença. Mas Joli não arriscou ficar e a contaminar, a contragosto, a família que tanto amava. Sumiu simplesmente e nunca mais apareceu. Um gesto de infinita nobreza, do qual poucos seres humanos são capazes.

TIGRE CORAÇÃO DE LEÃO

Tigre era o cachorro da minha avó materna, um vira-lata sangue bom, grandalhão, preto, plutoniano, mas com um coração de príncipe. Ele a seguia aonde ela quer que ela fosse, qual um cavaleiro provençal a serviço da sua dama. Porém não foi com ela que ele revelou seu coração de leão. Meu avô era inspetor de quarteirão na cidadezinha, ou seja, era o valentão que defendia a vizinhança de outros valentões, ainda piores do que ele. Um dia, foi chamado para enquadrar um encrenqueiro que fazia arruaça no bairro. Tigre o seguiu. A princípio, meu avô botou o cara para correr no grito, Autoconfiante, contudo, deu as costas ao perigo, na pressa de voltar para a cama, já que era noite alta. Ocorre que o homem estava armado e pronto para lhe dar um tiro pelas costas, não fosse o timing de Tigre, que o interceptou e derrubou. O tiro desviou para o alto, o facínora foi para a cadeia e Tigre roubou do meu avô o título de herói do dia.

DICK, O ESCUDEIRO FIEL

Um tequel miúdo e esperto, pretinho, aficcionado pelo dono, Dick vivia na cola do meu pai, então um mocinho de seus 20 anos. Quando este começou a dar plantões noturnos na farmácia do bairro, aonde trabalhava, costumava voltar de madrugada, a pé, pelas ruas desertas do velho bairro do Cambuci. E Dick ia esperá-lo na porta da farmácia, para escoltá-lo para casa em segurança. Nos dias de trabalho normal, Dick ia levá-lo até o trabalho e então voltava para casa, feliz de ter cumprido sua missão. Acontece que, certo dia, o pior aconteceu. Dick foi atropelado por um carro mais afoito, por sorte, logo na saída da farmácia. Meu pai assistiu a tudo e, aflito, não titubeou: baixou a porta de ferro do estabelecimento e levou o companheiro até a Faculdade de Veterinária, que então ficava pelas bandas da Liberdade. Ele tinha um amigo que era aluno de lá e trabalhava no hospital, o Zezinho. Dick foi internado para entalar a perna quebrada, mas ia ter de ficar lá por algumas horas. E meu pai precisava voltar para reabrir a farmácia. Mal chegou ao balcão e o telefone já tocava. Era o Zezinho, dando a pior de todas as notícias: Dick escapulira do hospital e, mesmo com a fratura na perna, não fora recuperado. Meu pai ficou arrasado, porém não havia o que fazer. A distância entre a farmácia e a faculdade era razoável e Dick não tinha como saber o caminho de volta. Os clientes chegavam, havia injeções para dar, fórmulas para manipular, cortes para suturar… Naquele tempo, a vida de farmacêutico do bairro era bem mais emocionante do que é hoje em dia. O tempo passou, duas, três horas, meu pai trabalhando sem parar de pensar no destino do amigo. Enfim houve uma pausa para respirar e a farmácia esvaziou. Ele saiu à porta para olhar a rua e ficar melancólico à vontade, coisa de que gosta muito até hoje. Foi quando viu, subindo bem devagarinho o morro da rua Robertson, o Dick, de língua de fora, capengando com a perninha quebrada. Sabe Deus como, ele tinha encontrado o caminho de volta para casa, levando apenas o amor por seu dono como guia. Os dois se encontraram e foi uma grande alegria. Meu pai entalou a perna do Dick lá mesmo, na farmácia. E caso encerrado.

PUPPY, A GUARDIÃ DO TESOURO

Fox paulistinha brava como só ela, Puppy foi o presente de consolação que minha irmã ganhou de meu pai, porque ele não a deixou ficar comigo em Guararema, nas férias depois do carnaval. Eu cheguei de viagem e ela já estava lá, um filhote muito lindo, pentelhinho e inteligente como só um fox paulistinha sabe ser. Rabo cotó, latido ardido, sempre alerta, apesar do temperamento Puppy submetia-se a quase todos os abusos afetuosos da minha irmã, que queria fazê-la de boneca. Entre outras humilhações, saia fantasiada de noiva para passear de tarde pela rua, metida num velho carrinho de bebê, com um par de óculos de aros redondos e lentes vermelhas instalado no focinho. Claro que Puppy mordeu mais de uma vez sua dona, sendo que, na primeira, ainda não tinha sido vacinada, o que custou uma série de injeções na barriga que fizeram de minha irmã a celebridade do quarteirão. Nós a púnhamos para dormir conosco, coisa que meus pais proibiam terminantemente, e ele ficava quietíssima, metida debaixo dos nossos lençóis, cada noite na cama de uma. Todavia amar mesmo, perdida e completamente, ela só amava minha mãe, sua deusa. Quando minha mãe saia, Puppy ia buscar alguma peça de roupa ou pé de sapato dela no armário, arrastava até a almofada e lá ficava, guardando o tal objeto transicional com a devoção feroz de um talibã. Ai de quem tentasse tirar dela aquela coisa sagrada! Rosnados ameaçadores, tentativas histéricas de morder, ela fazia de tudo para evitar que qualquer um, até mesmo meu pai, chegasse perto do avatar da sua adorada dona. Velhinha, o faro a confundia e ela frequentemente pegava coisas de outras pessoas (principalmente visitas!), achando que eram de minha mãe. Um amigo da minha irmã viu seu pulôver de cachemir inglês novinho em folha virar um amarfanhado forro de almofada de cachorro e teve de esperar até minha mãe chegar para recuperá-lo, babado e cheio de pelos. Puppy viveu 14 anos e morreu docemente, com minha mãe, sua mais querida, ao lado dela. Foi posta para dormir por um veterinário bonito e bondoso que a chamava de “minha preazinha”.

FRIDA QUE QUASE FOI NOSSA

Frida era a cadelinha schnawzer da namorada do meu filho. Por alguns meses, tempo em que a família dela se mudou do Brasil e Frida ficou por aqui, fazendo companhia a sua dona, que também tinha ficado, fomos um pouco donos dela também. Já velhotinha, era uma pessoa deliciosa, divertida, animada, amorosa. Só entortou com o Carlinhos, nosso gato, claro. Cada vez que o via entrar pela janela, Frida nos avisava, muito ciosa de seus deveres, de que um gato tinha invadido nossa casa e, portanto, tínhamos que tomar providências enérgicas. Devagarinho, com a ajuda de alguns florais e da imensa paciência do Carlinhos, esse gentleman, Frida foi se acostumando com ele, de modo que os dois estabeleceram uma convivência um pouco tensa (por parte dela) e blasé (por parte dele), porém, no geral, respeitosa, embora os olhinhos dela continuassem a expressar, cada vez que ele passava por perto, uma certa perplexidade. Dengosa e diplomática, Frida ensinou meu marido a gostar de cachorros. Foi um adestramento afetivo muito bem sucedido porque não só ele se apaixonou por ela como também cultiva o desejo de adotar um cão, coisa que, até a Frida aparecer, era inimaginável. Já doente, ela passou em nossa casa os últimos meses de sua vida, período em que tivemos a sorte de cuidar dela como se realmente fosse nossa. Choramos muito quando Frida se foi, muito mesmo, ainda mais porque não foi aqui em casa, perto da gente, que ela morreu, mas num hospital veterinário. Até o Carlinhos sentiu a ausência dela, tanto que continua até hoje querendo que coloquemos sua ração em cima de uma mesa, que era a estratégia para evitar as investidas da Frida no prato dele. Da parte de um gato, não deixa de ser uma forma de homenagem.

 

Ler e escrever e cozinhar, tudo ao mesmo tempo

bolo de laranja

Carta que enviei para a Nina Horta, colunista da Folha de São Paulo, e que ela generosamente publicou no blog dela, link ao lado:

Prezada Nina,

Li, como faço sempre, sua coluna adorável do dia 15 de janeiro. Não compro a Folha e não tenho muito saco de ler jornal na tela, aliás não tenho muito saco para ler jornal ponto. Mas meu pai me repassa o caderno Comida, enfiado numa cesta, ao lado do bolo de laranja quentinho que a empregada dele, a Tania, faz toda semana para nós, aqui de casa. Andamos meio enjoados de comer o mesmo bolo semana após semana (meu pai é um cara obsessivo), mas se trata de uma oferenda, então a gente não olha os dentes do bolo e o reparte com todo mundo da rua: os guardinhas, os vizinhos, os agregados, os varredores, o povo que passa na porta, vendendo alho e sacos de lixo etc. Já a sua coluna providencia a diversidade no interior da cesta. Se o bolo é sempre o mesmo, sua coluna traz a diferença, embora se repita nos quesitos lindinha, um primor de bem escrita e arrematada. Contudo, desta vez achei por bem fazer um reparo ao que você diz, questão de sintonia fina entre o que pensamos sobre essa coisa medonha que é ir à escola por anos a fio e não aprender a ler, escrever e contar. Contar eu até conto, mas meu negócio sempre foi ensinar a ler e a escrever. Sou professora de Português, do tipo que chamam “especialista” (como se a língua não fosse a generalidade das generalidades), só que dos mais taludos, do Fundamental 2 até a faculdade. Em 25 anos de magistério, minha grande preocupação era a sua: ensinar a ler e a entender o que se lê. Não é tarefa simples. As famílias pouco ajudam e a sociedade brasileira muito menos. Ultimamente todo mundo acha que educar é preparar para o vestibular. Ou que educar é fabricar porcas, parafusos e arruelas para a grande engrenagem da produção e do consumo. Claro que tem tudo isso também, vestibular, mercado, isso faz parte, mas não é a parte mais importante. O Kant dizia que é a educação que nos torna humanos, coisa que não nascemos sendo. Largue o bebê no meio das vacas e, se sobreviver, ele será um bezerro esquisito, não um ser humano. É a cultura humana que modela nossa humanidade, assim como a cultura bovina modela os touros e as vacas. Agora vou direto ao meu ponto: o problema não é a horta, não mesmo, pode acreditar em mim. Às vezes, a horta é a solução, porque pode tornar o aprendizado da leitura e da escrita menos abstrato e mais interessante. Pense comigo: ler e escrever manuais de horticultura; fazer listas de legumes e verduras; calcular a produtividade; brincar de feira, de comprar e vender as coisas plantadas e colhidas; fazer um diário da horta; bolar, escrever e ler receitas em que se usam os ingredientes produzidos pela horta… O professor tem de saber fazer essa mediação, claro, o papel dele é botar as coisas em relação e, se ele não faz, bem, não é professor, sinto muito. Pense em quanta coisa têm em comum a horta e o aprendizado da leitura, da escrita e das contas! O problema é sempre a exclusão: ou isto, ou aquilo. Ou horta ou bunda na carteira por horas a fio, garatujando sinaizinhos que não têm a menor relação com o mundo concreto. Depois vem esse discurso politicamente correto e pentelho de “cuidar do planeta”, ah, me poupem! Mas se os caras nem sabem qual é a cor e que cheiro afinal a terra tem? Eu diria que hortas e jardins e pomares e cozinhas são preciosos colaboradores no processo da educação formal, são coadjuvantes inestimáveis das disciplinas desconjuntadas porque as reúnem num contexto de sentido, de realidade, e ensinam para que serve, de verdade, escrever e ler e contar. Hortas, jardins, cozinhas são representantes do tal mundo real, esse grande desconhecido, cujo acesso e compreensão devem ser mediados, facilitados e aprofundados pelas letras, os números, os símbolos coletivos que temos de aprender direito na escola… e em casa também, porque essa leseira a que você se refere, essa falta de gosto pelas coisas, de gente que não sabe, não faz questão de aprender e acha que tudo tem de chegar pronto e mastigado ou nada feito, essa falta de gosto generalizada vem de casa, da família que não conta histórias, não canta para dormir, não ensina a brincar, não ensina a cozinhar e a arrumar o próprio quarto, não valoriza a cultura material e imaterial que modela a alma das crianças (e a dos adultos também)… Outra coisa é que isso também não tem nada a ver com pobreza ou riqueza: a ausência de desejo, de encantamento com o mundo e suas maravilhas, de tesão por aprender, por se envolver com um trabalho legal é uma epidemia medonha, uma peste que grassa em todas as camadas sociais. O mundo está se transformando numa miniatura chapada, fria e inodora, projetada em telinhas cada vez menores. Minha deusa, por favor, hortas em todas as escolas, públicas e privadas, nas periferias e nos bairros chiques! E bibliotecas e museuzinhos da Emília nas salas de aula! E jardins também, porque somos seres carentes de beleza, porque a beleza nos abre para aprender as coisas em profundidade e para sempre! E muitas cozinhas também, com lições de casa caprichosamente escritas em letra cursiva, em lindos cadernos de receitas, por favor! As letras e os números estão aqui para servir à vida e não o contrário.

Beijos, querida.

Eliana Atihé

O dom do peso

Gravidade

Ryan Stone está sem chão. Literal e metaforicamente. É mulher, mas tem nome de homem. É da família Stone (pedra), mas está solta no espaço. Enquanto os machos da missão espacial que ela integra se divertem com a absoluta falta de peso, feito dois meninos tomados por uma brincadeira, Ryan transpira, luta contra a taquicardia, está na iminência de ter um surto de ansiedade. Mas fica firme. Ou quase. Ryan Stone é a protagonista de “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, filmaço que fui ver ontem.  Cuarón é um diretor simples e profundo, o que me soa como redundância, porque tudo o que é verdadeiramente profundo costuma ser, também, espantosamente simples.  Ele sabe contar uma história sem derrapar em estetismos e em excessos formais. Até os efeitos especiais, que não são poucos em “Gravidade”, estão a serviço do significado e não da mera pirotecnia, frequentemente usada por Hollywood para esconder a indigência ou mesmo a ausência de uma história. O 3D, de que eu nem gosto muito, orna com o filme que é uma beleza. A viagem arquetípica de “Gravidade” começa, portanto, pelo nome da personagem vivida por Sandra Bullock, uma amostra modelar do feminino pós-feminista, aflito, desvirtuado e oprimido pelo neopatriarcado complacente. O pai de Ryan queria que ela fosse um menino e por isso lhe deu esse nome. Então ela já estréia no mundo sob o signo da aceitação relutante do Pai. Ainda assim, ela passa a vida obedecendo a esse Pai cultural, como grande parte das mulheres em nossa cultura global, e para desgraça dessa mesma cultura, que precisa lidar com os devastadores efeitos colaterais da rejeição da condição feminina pelas próprias mulheres. Então o primeiro fio do enredo de “Gravidade” é o nome completo da protagonista, essa mulher tomada por homem, essa “pedra” que precisa ser “asa”, designada (designed) para ser herói e voar para alturas cada vez maiores, a fim de agradar a esse Pai sumamente decepcionado com a falta de pênis da cria. Por sorte, Cuarón se compadece de nós, pobres espectadores, e faz um filme curto, já que sua intenção é nos enfiar na pele da doutora Stone, para nos submeter a todas as experiências excruciantes vividas por ela no espaço, experiências de perda de referência, de conexão, de comunicação, do companheiro de viagem, do ar, de si, em suma, de perda do chão, literal e metaforicamente. Perda que Ryan já viveu até o limite, com a morte da filha de 4 anos, mas que ainda não elaborou. Leveza-peso, masculino-feminino, razão-instinto, espírito-corpo, criação-destruição, vida-morte, divino-humano são alguns dos opostos com que o roteiro brinca maldosamente, pedagogicamente. Mas se você estiver bem atento e não muito nauseado, certamente vai encontrar outros. Cientista, médica, astronauta mas, acima (ou abaixo) de tudo, mãe enlutada, Ryan, que nasceu pedra, não consegue, contudo, aterrar, ancorar, fixar-se no mundo. Como ela mesma relata ao enxerido doutor Kowalsky, o chefe da missão, Ryan viveu o luto da filha dirigindo, dirigindo, dirigindo noite adentro, de volta para uma casa sobre a qual ela não tem nada a dizer, à qual nunca conseguiu chegar de verdade. O Kowalsky de Clooney, por sua vez, é o herói caído e traído, o astronauta corneado, que estava flutuando no espaço quando a mulher decidiu trocá-lo por um homem mais concreto. Para sorte de Ryan, K. oferece-se como tela de projeção de um masculino enfim cooperativo, um animus eficiente  e sensível (ele é George Clooney, mulherada!), o parceiro recém-descoberto (ah, como a gente torce para esse casal vingar..), perdido e depois reencontrado sob nova roupagem, surpreendente. K. passa o tempo todo a cutucar e a espremer Ryan, a incomodá-la em seu doloroso isolamento, a forçá-la a falar de si e do passado, um pouco para ajudá-la e relaxar, mas principalmente para obrigá-la a interagir com outro ser humano. Uma bela inversão: nessa dinâmica, quem desempenha a função de relacionamento, que cabe ao feminino, é um homem com uma dor, do tipo “muito mais elegante”, como defendia Paulo Leminsky, outro descendente de polonês. Prova de que o feminino está lá, positivo e operante, em todas as variações de gênero e, ultimamente, anda se expressando melhor nos homens que nas mulheres. K. é um homem cheio de alma, o que nos faz amar ainda mais o George, oh my… Três momentos são, para mim, a síntese das lebres que Cuarón levanta, nesse filme que não tem muita pretensão de verossimilhança externa, mas que é um primor de verossimilhança interna, ao fazer ressoar suas imagens pregnantes dentro de nós. O primeiro momento precioso é aquele em que, na iminência de largar mão do esforço sobre-humano e se deixar morrer humanamente, Ryan capta, pelo rádio, a voz de um chinês que, primeiro lida com seus cachorros, para depois ir ninar seu bebê. Ela se comove com os latidos dos cães, uiva um pouco com eles, como se sua alma buscasse entrar em contato com algum substrato arcaico e instintivo, capaz de salvá-la da morte. Em seguida, ela escuta o choro do bebê e se emociona com o acalanto que o homem se põe a cantar, mais um homem tomado pelo feminino, um pai-mãe com quem ela pode identificar-se. O segundo momento é o da invasão da cápsula que está para se transformar em ataúde, quando K. intervém espetacularmente para dar a chacoalhada final em Ryan. O terceiro momento é epifânico e se divide, simbolicamente, em três partes. Primeira: a queda do herói, previsível e inevitável, porque ninguém consegue passar muito tempo sem peso, boiando sem corpo no espaço, entretido na mais pura abstração, vejam só Ícaro e Faetonte, isso para falar apenas em personagens míticos. Segunda parte: o mergulho da cápsula na água, seguido pela luta de Ryan para escapar do útero tecnológico aonde ela, depois de refeito seu pacto com a vida, corre novamente o risco de soçobrar. Mais uma inversão bacana aqui, a cápsula que passa de túmulo a útero e nem por isso deixa de representar uma ameaça à vida de sua ocupante. E como Ryan luta para renascer desse rito lustral! Um batismo vivido num território medial entre Terra e Céu, entre Mãe e Pai, água que representa a emoção que Ryan negou e represou, e com a qual ela parece finalmente pronta a acertar as contas. Por fim, a terra encharcada, vermelha e macia que acolhe seu corpo aliviado e exausto, que pode repousar, por fim, na posição horizontal. E na terra, na Terra, o peso que retorna, a dádiva da gravidade, o chão lamacento e fértil, sem idealizações nem mediações tecnológicas. Chão e pronto. Um presente para pés cansados de flutuar por aí, levados a alturas desmesuradas por cabeças hipertrofiadas. Na cena final, Ryan é Eva caminhando pela primeira vez no Jardim do Éden, é a criança que se ergue  sobre as próprias pernas, titubeante e maravilhada, sem brandir ferramentas, como no 2001 de Kubrick. Só dona do seu corpo. The End.

“Casinha pequenina”

mamae e caio bebe

Quando eu era pequena, minha mãe costumava cantar para me fazer dormir. Ela era meio desafinada, mas eu amava seu repertório heterodoxo e ecumênico, feito de marchinhas de carnaval, severos hinos do Cantor Christão, guarânias dolentes, modinhas sertanejas e cantigas tradicionais, algumas delas tristíssimas. Essas últimas eram as minhas favoritas. Uma canção em particular cortava em postas meu coraçãozinho tenro: “Casinha pequenina”. Pensando bem, triste mesmo é quem não teve, na infância, o privilégio de experimentar a tristeza pela metáfora e, com ela, viver o contraste que nos permite experimentar, por oposição, a mais perfeita alegria, quando ela se nos apresenta. Poucas crianças têm, hoje em dia, a mesma sorte, impedidas que são, pelos adultos, de aprender a lidar com os contrastes da vida mediados pelas metáforas, as imagens, a arte, as histórias, a (boa) música, o (bom) cinema etc. São as imagens que melhor nos ensinam a lidar com os opostos de que é feita a vida humana, para produzir resiliência. Déspotas obsedados pela ilusão de que a felicidade dos filhos é uma via de mão única, pais e mães interditam suas crianças de provar a tristeza, a dor, a morte por meio de fantasias protetoras e terapêuticas. A publicidade nos empastelou de um modo aviltante, viciando-nos com imagens falsas e vazias de uma felicidade que se pode comprar nas boas casa do ramo, enquanto nossas almas, reduzidas à mais negra miséria, passam fome. Boris Cirulnik, psiquiatra e etologista francês, foi o primeiro a usar o termo “resiliência” fora do contexto da física dos materiais, aplicado à psicologia, como a capacidade que todo ser humano pode desenvolver, se lhe for permitido, de se recompor e prosseguir, ferido mas íntegro, depois de sofrer um golpe da vida. Ele mesmo foi um menino judeu abandonado pela mãe num orfanato, porque esta não queria que o filho fosse levado para o campo de concentração nazista. A mãe foi e lá ela morreu. O filho sobreviveu, superou e transformou a resiliência no tema de sua vida. Num livro lindo, chamado “O murmúrio dos fantasmas”, Boris conta que pessoas com lesões na região do cérebro responsável por produzir a sensação de infelicidade, acabam se tornando, em decorrência, incapazes de sentir, também, felicidade. Não à toa, tantas crianças e jovens se tornam pessoas apáticas, astênicas, desinteressadas de tudo e de todos. Carentes de contrastes, polarizadas no prazer ou na dor, elas acabam precisando aditivar com drogas e álcool uma vida sem nuances. Assim ricos e pobres podem irmanar-se, democraticamente, na anomia e falta de sentido, caso os traumas inevitáveis do existir não lhes tenham ensinado resiliência.

Pupi

Pupi

A letra de “Casinha pequenina” dizia: “Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu. Tinha um coqueiro do lado que, coitado, de saudades já morreu”. Eu sei que tinha uma segunda estrofe, mais abstrata e romântica, mas a que eu guardei foi a primeira. Eu literalmente via as imagens enquanto minha mãe cantava. Eu vejo até hoje as imagens, como as via então. A casinha pequenina fechada e sombria, paredes descascadas, vidraças quebradas, a varanda tomada de mato. Na tela do meu cineminha subjetivo, a casinha chorava seu abandono, desintegrando-se à luz de um entardecer melancólico. O coqueiro do lado, coitado, o destino dele, então, me dilacerava. O tronco reclinado num arco desanimado, as palmas secas, sua ninfa evadida para sempre. Monteiro Lobato ainda não me contara que os gregos tinham uma alma com nome para cada ser da natureza, mas eu já intuía isso, como toda criança é capaz de intuir antes que os adultos tirem dela essa capacidade ou a transformem numa fome de lixo, de entulho, de venenos para a alma, muito parecida com a fome que eles mesmos carregam consigo. As imagens que reverberavam dentro de mim fluíam de todo lugar, das cantigas de minha mãe, das histórias, das imagens que meu lápis produzia incessantemente, dos quintais da minha rua, dos bichos, dos banheiros que eu visitava… É que, na minha cabeça, todo banheiro em que eu entrava pela primeira vez tinha um segredo escondido, um segredo que eu precisava descobrir. Honra seja feita ao banheiro da casa da dona Carmen, amiga rica de minha mãe, um cômodo vasto, com piso e parede verdes e peças feitas de louça preta. Puro mistério que devo ter desvendado, mas não me lembro mais qual era. Sim, o mundo concreto tinha sua própria luz e emitia essa luz para mim, como fez com os neoplatônicos e os alquimistas. O mundo era sagrado em si mesmo, um lugar “animado”, habitado por deuses, demônios, ninfas. Através daquela velha canção, a Anima Mundi se comunicava com minha alminha que, igual a de Zeca Baleiro, tinha (e ainda tem) muito que aprender. Ao escrever sobre a qualidade divina, orgânica, concreta e feminina que tem a matéria do mundo, Marion Woodman revestiu minha experiência com uma interpretação que não a violou, ao contrário, me esclareceu a ponto de fazê-la aflorar neste post. No último 2 de fevereiro, data em que se comemora Iemanjá, imagem afrobrasileira da Deusa, fez um ano que minha mãe passou para o outro lado. Há três meses, resolvi reformar o sobradinho que ela amava, literalmente vandalizado por um horda de inquilinos abjetos (se fosse por uma vara de porcos, eu até entenderia…). Esta semana, terminamos a reforma. Fiz questão de deixar a casinha do jeito que minha mãe gostava, com janelas e portões pintados de verde colonial, limpa e arrumada, luminosa e acolhedora. Hoje entendi que essa foi uma reparação que fiz àquela “Casinha Pequenina” da canção de minha infância, mas também à alma de minha mãe ou à sua ninfa, ou ainda a Héstia, a modesta e imprescindível deusa grega da lareira, que minha mãe encarnou muito bem. Ou a todas elas. O fato é que há uma porção da alma de minha mãe cuja luz a casinha real ainda irradia. Preciso contrastar essa luz recuperada com a boa morte que se anuncia para minha querida tia-madrinha Teresa, a quem minha mãe há de ajudar a fazer a travessia. As duas se gostavam muito, mas também se odiavam um pouco. Pobre mesmo é quem não tem metáforas.

Crianças na casinha

Crianças na casinha

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