Fantasmas

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“A colina escarlate”(Crimson Peak, 2015) é meu tema do Dia dos Mortos deste ano e o filme mais recente de Guillermo Del Toro, mexicano que ocupa um lugar de honra no meu panteão de diretores arquetípicos. Um genuíno filme de fantasma, coisa que Del Toro sabe fazer como poucos hoje em dia, com sua fina intuição para o manejo da metáfora. Se você tem medo de fantasma, não assista. Mas se, como eu, os fantasmas ressoam no seu mundo interno, coragem. Você não vai se arrepender. O filme recupera o melhor da tradição literária gótica vitoriana, seja na construção dos personagens, seja na estruturação da narrativa,  seja na ambientação pesada, opressiva: climas, adereços, figurinos e cenários, tudo coopera para espelhar a alma e seus labirintos. Do começo ao fim, permanecemos dependurados de cabeça para baixo, no fio tenso de um bom paradoxo. O Feminino encarna o agente redentor-destruidor do Masculino e, nesse sentido, “A colina” é uma maravilhosa história da parceria e mediação entre opostos-complementares, vivos e mortos, mães e pais, irmãos e irmãs, ego e inconsciente, razão e loucura…

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As fantasias favoritas de Del Toro retomam aqui, com a sensibilidade e a profundidade usuais – e sem maneirismos desnecessários -, o tema do feminino assombrado que inicia uma mulher ingênua nos mistérios do amor e da morte. Um pai superprotetor expõe a filha ao predador, enquanto seu amor por ela igualmente a provê de um animus que, despertado pelas circunstâncias, se revela excepcional. Uma mãe boa e frágil retorna da morte para revelar um importante segredo à filha, segredo que ela mesma acessou ao cruzar o portal, mas que a filha ainda não tem elementos para compreender. Outra mãe, longeva e devorante, investe inadvertidamente numa sucessora ainda mais mortífera. Um homem frágil é assujeitado por uma devastadora anima negativa. Um casamento infernal e outro, celeste, acorrentam os noivos numa tragédia de proporções míticas. Um oftalmogista que acredita no invisível vê o que está posto diante dos olhos, mas que os outros não conseguem enxergar. A natureza se rebela contra a máquina. Aliás a tecnologia aparece como coisa muitíssimo mal assombrada, pura verdade.

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A história fala das fantasias do estilo gótico novecentista como uma reação da imaginação à desolação que a Revolução Industrial impôs à Alma do Mundo, uma reação tão frágil quanto eficaz, porque é na alma que ela se instala. E a alma confronta, com suas fantasias terapêuticas, a sombra da ciência, da indústria e da filosofia positivista. Mais do que tudo, “A colina escarlate” me levou de volta a “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brönte, um dos livros da minha vida, numa viagem de revisão que me esclareceu sobre os motivos do apreço que tenho por fantasmas.  Eles nos assombram e afligem, penso eu, porque são, na essência, mensageiros do inconsciente que assediam o ego para alertá-lo de grandes perigos e ajudá-lo a tomar consciência de algo muito sombrio. O ego, contudo, se defende como pode das coisas que não quer saber.

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A forma fantasmagórica aterroriza o ego, embora não haja nela uma ameaça real, ao contrário. Os fantasmas pretendem revelar um estado de coisas intolerável deslocando o sujeito da zona de conforto, forçando-o a encarar uma realidade que clama por mudança, uma lealdade tóxica, um segredo que apodrece dentro dele. Assim o fantasma de Catarina de “O morro” vem pedir ao Sr. Lockwood tão somente uma escuta para sua história, um pouco de compaixão e ajuda para libertar-se e libertar a vida, ajudando-a a retomar seu curso. “A colina” remete a “O morro” até mesmo nas referências à topografia. Se você subiu numa, pode se arriscar a escalar o outro. Sua alma vai agradecer por mais esse fantasma.

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“No cemitério é bom de passear”: um memento para o Dia dos Mortos

Eu tinha dez anos e cursava o ginásio no instituto estadual de educação. Aquilo era a morte. Escola era a morte. Ficar dura, quieta, ouvindo a professora vociferar ou então falar com voz hipnótica, para boi dormir. Era ou medo ou sono, ainda mais no período da tarde, que era o meu. Eu odiava aquilo de ter de ficar ouvindo, ouvindo sem entender nada. As professoras falavam grego – arcaico a de matemática. Eu me sentia tão burra, mas tão burra que nem pergunta eu sabia fazer. Ou até sabia, mas… e se eu fizesse a pergunta errada? De vez em quando, alguém perguntava uma besteira e levava bronca, era humilhado na frente de todo mundo. E a gente ainda ria do coitado que perguntava o que a gente não tinha tido coragem de perguntar. Melhor ficar dura e quieta e me fingir de morta e esperar aquela eternidade terminar. Porque demorava, mas terminava. O sinal tocava feito um guincho de dragão furioso e a gente pulava da carteira como aqueles escravos que arrebentavam correntes com as mãos erguidas, na lição da Princesa Isabel assinando a Lei Áurea. Parecia uma boiada estourada que saia arrebentando a porta e se enfiava pelos corredores feito tromba d’água, todo mundo se atropelando, gritando, socando o ar, pulando, liberdade ainda que tarde, vamos embora deste lugar, vamos viver, andar, falar, mexer, perguntar, ser. Era muito linda a libertação. Dava medo e era linda. Eu amava o último medonho guincho do dragão furioso do sinal da hora da saída. Era um som celestial, um som que vinha direto do inferno. Fosse o que fosse, estava consumado. Tinha gente que jogava tudo para o alto, de tão feliz. Tinha gente que derrubava tudo no chão. Eu não tinha coragem de jogar tudo para o alto e raramente derrubava tudo no chão. Eu só ficava feliz. O melhor final de dia da semana era na sexta-feira, em que a gente não tinha a última aula. O guincho do dragão anunciava que a gente ainda tinha uma hora de luz do dia para passear na avenida Lins, xeretar as prateleiras da loja Momotaro, cheias de bobaginhas japonesas uma mais linda que a outra, passear no cemitério da Vila Mariana… Eu adorava passear no cemitério, do jeito que a Adelia Prado conta em seu poema “Campo Santo”. Eu e a Satiko, minha amiga japonesa com cara de lua cheia. As outras meninas tinham medo ou achavam besta. A gente não, mesmo porque passear no cemitério podia ser tudo, menos besta. Besta era ficar fumando bituca encostada no muro da escola e fazendo tipo para uns meninos fedidos, espinhentos e panacas. Quanto a dar um medinho, isso dava. Mas era um medinho gostoso, irmão da curiosidade. Eu e a Satiko, a gente andava de braço dado entre os túmulos, ia lendo as placas, fazendo contas das idades dos defuntos, conferindo os retratos, reparando nos vasos: os vazios, os com flores secas, os com flores frescas… As capelinhas davam um medo um pouco maior, porque elas tinham portas e janelas gradeadas e a gente sempre achava que o defunto ia aparecer de repente, vindo lá do fundo, e nos dizer: “Olá!”, com aquele sorriso eterno de caveira. Nunca apareceu nenhum. Uma pena. Mas a gente continuava olhando, cheias de esperança. Era bom demais passear no cemitério. Era calmo como a escola nunca era, e as folhas das árvores ciciavam com o vento, como se as almas nos dissessem: “Boa tarde, meninas, ainda bem que vocês vieram hoje. A gente passou a semana aqui, na maior solidão”. Às vezes, a gente fazia um piquenique de lanche mirabel com caçulinha morna em cima de uma lápide mais lisa e limpa. Era uma coisa bem japonesa de se fazer. A Satiko me contava de como, quando a avó dela morreu, teve festa na casa dela e os pais e tios levaram bandejas de doce de feijão (que a avó dela adorava) ao cemitério, para botar em cima do túmulo, feito flores. E que ela e o irmão tinham se empanturrado de doces, enquanto os adultos conversavam e riam de coisas da vida da avó dela, uma velha muito mandona. Meu pai não me deixava ver defunto, então me surpreendi com a história da Satiko. A primeira vez que fui a um velório, eu tinha uns doze anos e foi muito, muito triste, porque o morto era um mocinho, irmão da minha amiga da escola e da igreja. Teve muito choro, a mãe gritando, minha amiga gritando, o pai do morto muito quieto e arrasado, o pior de todos. Tive muita, muita pena do pai, mais ainda do que da mãe do moço morto. Não foi nada parecido com o que a Satiko tinha me contado lá no cemitério, entre um quadradinho de lanche mirabel e um gole de caçulinha morna. Muito tempo depois, eu soube da festa mexicana do Dia de los Muertos e aí entendi um pouco mais os meus passeios com a Satiko pelo cemitério da Vila Mariana. Ontem, lá no ateliê, a gente fez a segunda Festa do Dia de Muertos em que eu já fui na vida. Foi linda. Só não teve lanche mirabel com caçulinha morna, mas teve muitas outras coisas gostosas de comer e beber. A gente contou histórias, leu poemas, botou fotos dos mortos no altar que as crianças armaram, riu, chorou, viu filmes… Os mortos também viram, ouviram, sentiram, riram, beberam e comeram. Com nossos olhos, ouvidos, bocas e corações, é claro, porque os deles já não existem mais. E eu me senti de novo como se fosse um fim de tarde de sexta-feira, aos 10 anos de idade, vadiando pelo cemitério com minha amiga Satiko. Ouvindo o vento ciciar nas folhas as vozes dos fantasmas. Sentindo um medinho misturado com liberdade e prazer.  Logo depois, eu me lembrei dos passeios da Adelia: “Se um galo cantar e for domingo, será tanta a doçura que direi: vem cá, meu bem, me dá sua mão, vamos dar um passeio, vamos na casa de tia Zica pra ver se Tiantônio melhorou. Ressurgiremos. Por isso, o campo-santo é estrelado de cruzes”.