“O círculo do destino”: a redundância que não vira clichê

Como cheira bem esse livro! Tinta vegetal, papel artesanal, óleo de linhaça, fumaça de fogareiro,  chapati tostado, lã secando ao sol… Duvida? Então vá lá na livraria cheirá-lo pessoalmente. É claro que, para você, os perfumes evocados serão outros. É também muito bom de tatear o seu papel granulado, espessado pelas camadas de tinta. Ganhei ele de presente de natal da Suzana, que sofre de incontinência dadivosa. Sou, inclusive, muito grata a ela por não ter se tratado dessa doencinha benigna. Num ano de livros lindíssimos (o Vermelho de Jung, por exemplo), “O círculo do destino” (de Radha Raut, Raja Mohanty e Sirish Rao, editado pela Martins Fontes) arrasa, com suas cores chapadas, seus delicados padrões étnicos de fundo, suas personagens solenes e a versão hindu de uma história que ecoa infinitas outras. Eu, pelo menos, conheço várias narrativas parecidas: uma, tradicional judaica; outra, islâmica; outra ainda, nordestina de Pernambuco; mais uma, da tradição caipira paulista; mais outra, mexicana… Conheço tantas versões dessa história – a do sujeito que tenta enganar a Morte – e, ainda assim, me surpreendi no final do livro. Talvez seja efeito da beleza. Talvez da força que subjaz às coisas muito antigas e que continuam tão misteriosas como quando eram novas. O texto, enxuto e preciso, apenas garante a coesão das imagens. No final, ficamos sabendo que as ilustrações seguem o estilo Patachitra de Orissa, uma cidade do leste da Índia, que começou com os artistas pintando histórias de deuses em “grafites”, nos muros dos templos da cidade. Os devotos queriam levar as histórias para casa e os artistas começaram então a imprimi-las em cartões, pergaminhos e até brinquedos. A tradição patachitra continua, nos dias de hoje, sendo transmitida de pai para filho. Gostei muito do tempero que essas informações deram à história, o que tornou o livro, já tão sensorial, também muito saboroso, ao estilo forte, colorido e picante da boa culinária indiana. Nós, comedores de livros – gente, traça ou broca-, adoramos falar dessas coisas. Boa leitura e … bom apetite!

Apolo, Dafne e eu

Meu loureiro tem quinze anos de idade, trinta centímetros de diâmetro e mais ou menos seis metros de altura. Como a ninfa Dafne, cujo nome, em grego, quer dizer “loureiro”, ele lança seus dois lindos braços na direção do céu, um pouco suplicante, um pouco desafiador. Lutei anos contra as pragas que engruvinhavam suas folhas perfumadas. Até que um dia, meu jardineiro seu Aparecido me disse que não lutasse, que deixasse que o loureiro pegasse as pragas no meu lugar. Eu entendi, então, que ele era uma espécie de Cristo de quintal, vegetal e pagão. Depois das podas da última primavera, meu loureiro renovou-se e se encheu de brotos. Há uma semana, porém, suas folhas estropiadas secaram repentinamente e seu lindo tronco começou a rachar. Consultei o jardineiro (que não é mais o seu Aparecido), um agrônomo e a Ruth Toledo, minha mestra dos florais. O jardineiro embatucou. O agrônomo ecoou a Clarissa Pinkola Estés ao dizer que todos os seres vivos, mais dia, menos dia, têm de se haver com a degenerescência. A Ruth me entregou as metáforas que estavam faltando, como sempre faz. E eu juntei tudo neste post, que deve soar como uma louvação e um epitáfio ao meu querido loureiro agonizante: a árvore de Apolo, senhor das formas, das artes e da poesia, da medicina e da música, o grande clarividente, mas também o deus da peste e o doador da morte súbita. Apesar de ambíguo, como toda divindade que se preza, no território de Apolo reinam (ou ele espera que reinem) a razão luminosa e as proporções perfeitas. O que significa, em contrapartida, que não são bem vindas nem as sombras nem as dúvidas. Ao contrário de Zeus, seu pai, Apolo sempre foi meio azarado com as mulheres. Não à toa. O feminino teme esse excesso de secura, lucidez e claridade que devassa os cantos, expõe e ameaça o que deve permanecer oculto na umidade. Em nossas caprichosas bolsinhas anatômicas – vagina, peitinhos, útero -, as formas, tanto  as belas quanto as terríveis, esperam, protegidas na penumbra, pela hora certa de vir à luz. Por isso, as mulheres sempre preferiram o irmão barraqueiro de Apolo, Dioniso, o deus das transformações, com quem elas mantêm uma afinidade natural. Dioniso adora roubar a cena de Apolo, até porque é o deus do teatro. Hoje, porém, vou resistir ao seu charme debochado para continuar falando de seu irmão, o altivo e belo senhor do meu loureiro. O mito conta que Apolo apaixonou-se por Dafne, uma linda ninfa, filha de um rio-deus. Isso porque ele andara gozando da cara de Eros, coisa muito temerária de se fazer, já que o Amor carrega em sua aljava dois tipos diferentes de flechas: uma, que semeia a paixão e outra, que desencadeia a indiferença. Para se vingar dos gracejos de Apolo, Eros  condenou-o a amar Dafne e a ser, em contrapartida, repudiado por ela.  Doente de amor, o deus perseguiu inutilmente a ninfa, tão somente para ser humilhado e evitado repetidamente. Quando, enfim, conseguiu agarrá-la à força, ela suplicou ao pai que a livrasse e ele a atendeu, aliás, bem ao gosto de Dioniso: metamorfoseou a filha em árvore. Essa cena é linda e foi pintada e esculpida por não sei quantos artistas, ao longo da história da arte: entre seus braços, um Apolo atônito vê a pele branca e macia transformar-se em tronco escuro e rugoso, o corpo flexível enrijecer e imobilizar-se. Os braços erguidos tornam-se os dois grandes ramos principais, que eu tanto admiro em minha árvore.  Inconsolável, Apolo colheu alguns galhos, talvez mechas de cabelo da bem amada que o detestava, e com eles fez sua coroa, a mesma que premia os campeões, nem tão vencedores assim, como se pode perceber. Do seu jeito enviesado e belo, o mito sempre me esclarece. Estou eu mesma às voltas com as formas esgotadas de Apolo, condenadas à decadência, e com as transformações de Dionisos, inevitáveis e renovadoras. Acabo de substituir minhas calças tamanho 38 por novas, tamanho 42. Eu, que entrei nesse abraço como ninfa, saio dele lentamente transformada em árvore. Na minha fantasia, mais uma vez meu loureiro adiantou-se ao meu passo. A Ruth me disse assim: “Despeça-se dele e aproveite para transformar a ecologia do canteiro. Agora vai ter mais sol e espaço para arbustos e flores”. Não é lindo?

Fora os gregos, só o Rosa sabia de tudo

Guimarães Rosa me acompanha aonde vou. Não tem coisa que ele não saiba. Ele e os gregos, que também eram pau para toda a obra. Os gregos, segundo o Rosa, eram os únicos que sabiam de tudo. Só que ele também sabia (e por isso sabia que os gregos sabiam). O jeito dele saber era igual ao de Sócrates, o filósofo, não o craque de futebol. Falando em dialeto greco-mineiro: “Só sei que sei nada, não, nhora”. De Rosa, especialmente daquele livro maravilhosamente esquisito que é “Tutameia”, eu marisquei uns aforismos santos, que muitas vezes me salvam o dia e, vez por outra, a pele. Segue uma lista dessas pípulas roseanas, para uso de quem estiver precisado de umas maravilhinhas de bolso.

“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.”

“Esperar é reconhecer-se incompleto.”

“O tempo é engenhoso.”

” Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fingir de louco.”

“A alegria de Deus anda vestida de amarguras.”

“Toda grande distância pode ser celeste.”

“A gente se esquece – e as coisas lembram-se da gente.”

“Tudo, para mim, é viagem de volta.”

“Nada pula mais que a esperança.”

“Deus é curvo e lento.”

“Felicidade se acha é só em horinhas de descuido.”

“Mas o mundo não é remexer de Deus?”

“Todo mundo vive para ter alguma serventia.”

“Todo fim é exato.”

“O que Deus não vê, o senhor dê ao diabo.”

“O mal está apenas guardando lugar para o bem. O mundo supura é só a olhos impuros. Deus está fazendo coisas fabulosas.”

“Tudo se finge primeiro. Germina autêntico depois.”

Caçaram Pedrinho !!! Vida longa a Monteiro Lobato

Se tem uma coisa que infernizou a vida de Monteiro Lobato foram as patrulhas. Estéticas. Políticas. Ideológicas. Religiosas. Autêntico, bocudo, polêmico, ousado, emiliano, enfim, até a medula dos ossinhos miúdos, Lobato foi execrado por diversas patrulhas em atividade à sua época, por dizer e escrever o que lhe dava na telha e fazer o que achava certo. Era, em suma, um homem leal ao seu daimon, coisa que os medianos metidos a ótimos nunca lhe perdoaram. Por isso foi xingado de americanófilo, subversivo, reacionário, entre outras pérolas. Vira e mexe seu nome ainda é usado em vão por uma pobre gente que não teve a sorte de lê-lo na infância. E que, ao que parece, também não faz questão de lê-lo agora, antes de emitir julgamentos equivocados sobre sua obra. Semana passada, um tecnoburocrata da educação chamou-o de racista, baseado num trecho fora de contexto do delicioso “Caçadas de Pedrinho”. Foi assim: o livro apareceu numa lista de indicações de leitura elaborada por uma escola pública do Distrito Federal e o tal funcionário padrão, com seu olho de águia devidamente remunerado pelo contribuinte, encontrou lá uma menção a Tia Nastácia subindo numa árvore para fugir de onças, feito “uma macaca de carvão”. Baseado nisso, o servidor decidiu acertadamente incluir “Caçadas” no seu gosmento index. Acertadamente sim, porque tudo o que Lobato nunca quis na vida foi ser politicamente correto. Muito ao contrário. Por isso acho ótimo que excluam sua obra infantil das mofadas listas escolares, as mesmas que servem para imunizar crianças e adolescentes contra os perigos do prazer de ler. Quanto menos Lobato for lido como dever escolar, menos chance terá ele de ser desencantado pelo toque de anti-Midas da escola. E quem pode dizer se esse leitor bissexto não acabou prestando um serviço à obra de Lobato? Quem sabe se a  polêmica levantada por ele não acabará servindo para reviver as histórias contadas por esse brasileiro genial, na memória de uns tantos pais e avós que tiveram as infâncias iluminadas por seus livros? Assim já estaria de bom tamanho, se a turma do pano-quente não tivesse tido uma ideia realmente desastrada. Que funciona mais ou menos como pregar um cartaz nas costas do livro, do jeito que fez a Emília com o estafermo do João Faz-de-Conta, em seu famoso circo de “escavalinhos” (Reinações de Narizinho). OK, fica na lista, mas com uma bula de “politicamente incorreto” em anexo. Lindo. Apenas para esclarecer aqueles que não conhecem bem Lobato e suas criaturas, a diabinha da Emília em particular:  frequentemente eles descrevem pessoas brancas como “bichos de goiaba” e “baratas descascadas”. Será que isso configuraria um empate? Eu ainda tenho para mim que “O saci” resolve , no ato, essa pendenga, quando atua como orientador e guia de Pedrinho numa jornada de iniciação aos mistérios da floresta. O neto branco da aristocrata latifundiária dona Benta (na verdade uma sitiante metida a intelectual autodidata), posto sob o comando de um moleque negro, e de uma perna só, ainda por cima? Será que isso aplacaria os pruridos do tal moço zelozo? Ou poderíamos também considerar a hipótese “O minotauro”, em que tia Nastácia amansa e ceva o monstro mítico no interior de seu próprio labirinto, empanturrando-o com seus divinos bolinhos de polvilho… Aliás, em matéria de incorreção política, sugiro aos inquisidores de plantão que investiguem “Histórias de tia Nastácia” porque vão se fartar. Ali tem conteúdo que justifique, inclusive, um auto-de-fé. E vou parando por aqui, porque não ganho para dar consultoria sobre Monteiro Lobato a gente desinformada. Para encerrar, invoco a Emília. Ela que mande esses caras de coruja seca pentearem macacos. Ou descascarem baratas. Tanto faz.

“A estrada” para estômagos fortes e corações sensíveis

O apocalipse pode durar um minuto. Estamos lá, fazendo supermercado, assistindo aula, brigando no trânsito e… BUUUUUUUUUUMMMMM!!!! Em meio ao brilho do incêndio derradeiro, retornamos todos à grande mônada e a Terra se livra, num piscar de olhos, de seus piores pensionistas. O apocalipse também pode ser parecido com aquele de “Wall-e”, o desenho animado fofo e genial da Pixar. Detonamos tudo, poluímos a torto e a direito, nos fodemos geral e evacuamos o (e no) planeta. A civilização tecnológica, ainda competente, consegue embarcar um grupo de sobreviventes numa espaçonave à deriva. E lá ficam eles, boiando no limbo por séculos, cercados de gadgets eletrônicos, empanturrados de junkie food, reféns das máquinas, obesos, autorreferentes, à espera de que uma sonda os avise quando a Terra estiver novamente em condições de acolhê-los ou recolhê-los, tanto faz. No terceiro modelo, a meu ver o mais verossímil, o apocalipse pode durar anos, décadas, talvez séculos de lenta aniquilação da espécie  humana, que já tratou de aniquilar todas as outras, animais e vegetais. A humanidade da espécie, contudo, escafedeu-se rapidinho. No mundo completamente devastado, erram hordas daqueles que tiveram o azar de sobreviver à destruição do ambiente. Enquanto esperam pelo fim do firinfinfim, os homens vão regredindo a uma barbárie cada vez mais brutal. Em meio aos destroços da civilização, predadores humanóides sem culpa nem lei, sem vínculos que não os da horda, sem referências que não as próprias pulsões, saem à caça uns dos outros. Primeiro comem os bichos que sobraram. Depois comem os próprios filhos, a ponto de não restarem mais crianças no mundo. Por fim, comem os mais fracos, comem, enfim, qualquer um que cruze seu caminho. Essa é “A estrada” (The road) do título. Se você tem perfil de presa, é melhor ficar longe dela. O filme conta a história maravilhosa e medonha de duas pessoas unidas por um vínculo que as transforma em presas fáceis: um pai e seu filho de treze anos. No enredo, o homem exausto e essa rara criança estão envolvidos numa jornada épica até o litoral, onde acreditam que encontrarão uma saída do horror. Enquanto caminham a esmo, escondendo-se das feras, ambos partilham os fiapos da cultura e do afeto que ainda os sustentam, apesar da fome real. Essa versão hiperrealista do apocalipse é narrada por Cormand Mc Carthy no livro homônimo do belíssimo filme dirigido por John Hillcoat, estrelado pelo sensível Viggo Mortensen e que inclui uma participação inesquecível de Robert Duvall. Quase insuportável de assistir, tive de dividi-lo em três partes. Aguentei e confesso: valeu a pena. Sem clichês nem eufemismos, “A estrada” é um programa pesado, que indico a pais e mães com estômagos fortes e corações sensíveis, caso precisem de uma noção mais clara dos papéis que lhes cabem na educação dos próprios filhos. Saibam, porém, que não se sai ileso dessa estrada onde: a cada passo penoso é preciso escolher; o exemplo educa mais do que a conversa fiada; os papéis se invertem o tempo todo; a humanidade não é dada de bandeja, mas deve ser conquistada e mantida, ao preço de sangue, suor e lágrimas. Pode confiar. Você não vai morrer no final. Ao contrário: pode até ficar mais desperto. Como intui a mãe do menino, que é a alma da história, o mar encaminha uma saída. Civilização e barbárie não são polares. Cultura e barbárie são.

Eu resgato livros

Para toda a vida vou me arrepender de não ter resgatado aquele livrinho. Era uma edicão dos anos 1940, tipo “Biblioteca das Moças”, capa dura encardenada de azul escuro, pequeno, com um cheiro bom de mofo cicatrizad0, mais uns buraquinhos de caruncho sarapintando as páginas do miolo. Era uma edição de contos fantásticos de Théophile Gauthier. Dei com ele enfiado num prateleira da estante de livros na casa de uma prima. Perguntei respeitosamente a ela se podia pegar emprestado e ela me respondeu: – “Mpfhhhhh…”, e deu de ombros. Devia ser uma herança ignota do pai dela ou do sogro ou de alguma finada tia romântica. Eu tinha uns 15 anos e, durante um ano ou mais, ele ficou meu. E porque eu o tirara do limbo, ele me agradeceu com algumas das melhores histórias que já li na vida: “O pé de múmia”, “Jettattura”, “Avatar”… Eu relutava em devolver, mesmo porque, cada vez que tentava, ele me pedia: “Não faça isso. Ela nem sabia que eu estava lá”. E eu respondia: “Amanhã eu te devolvo”. Nunca que devolvia. E lia de novo, só para ter a desculpa de que ainda estava lendo. Certo dia, num surto de maldita consciência virginiana, decidi devolver.  Remanchei mais uns minutos, antes de reenviá-lo ao limbo dos livros ignorados. Ele ficou lá, com as orelhas caídas feito um cachorrinho largado no pátio da ONG. Passaram-se anos. Um dia, me lembrei dele e tive muita vontade de reler “Jettattura”, um conto ótimo sobre mau olhado (não sei o que faz esse povo de cinema que não recupera essas velhas boas estórias, ao invés de inventar novas ruins).  Fui lá e revirei a estante. Nem sombra. Inquiri a suposta dona: descrevi o livro em detalhes, forma e conteúdo, enquanto ela me olhava meio estupefata, como se eu tivesse acabado de descer de um disco voador. Quanto terminei, ela disse, incrédula: “Nunca  tive esse livro na vida”. Era verdade. Nunca. Ele tinha sido meu por um ano inteiro e eu o havia traído. Daquele dia em diante, virei uma resgatadora de livros. Sei que alguns dos meus amigos vão ler este post e correr para conferir a estante. Então acho bom esclarecer que só resgato livros que eu mesma dei de presente, porque não sou cleptomaníca. Sou justiceira. Afinal se fui eu que condenei um livro ao limbo, cabe a mim tirá-lo de lá. Assim, se depois da tal conferência, vocês não tiverem achado aquele livro que lhes dei há anos e nunca foi lido, podem acreditar: fui aí pessoalmente e o tomei de volta. Duvido, porém, que vocês sequer percebam que ele foi subtraído, já que mal notaram que o tinham ganho. Quem ama os livros, sabe na hora em que o presenteado desfaz o pacote. Esse vai ler.  Esse vai devorar. Esse vai encostar. Contudo é preciso dar uma chance, até ao que está na cara que vai encostar, mesmo porque os livros têm um poder de sedução nada desprezível. Depois é o tempo, como em tudo o mais. Me esqueço. Passam-se três ou quatro anos, até que um evento qualquer me leve para perto da estante do dito cujo. Minha memória funciona. É hora de planejar e, se for este o caso, executar o resgate. Não sou arbitrária. Faço perguntas. Faço referências. Tento entabular uma conversa genérica sobre a obra, o tema, o autor. Tem gente que nem se lembra do livro. Podia até mesmo dizer em sua defesa que o trocou por um CD do Jorge Vercillo ou por outro livro, um da Zíbia Gasparetto ou o terceiro volume da série “Deixados para trás”, por exemplo… Eu aceitaria resignadamente porque, afinal, presente é presente. É preciso desapegar-se de um presente dado. Aceitar, sem ressentimentos, que “A praia” do Ian Mc Ewan ou “Bom dia, angústia” do Comte-Sponville tenha sido permutado por alguma obra do Gabriel Chalita, esse escritor tipo algodão-doce: fofo, melado, sem nutrientes. Faz parte do jogo. Mas nada. E o livro lá, empoeirado e intacto. Por sorte, minhas bolsas são grandes. Vou enumerar alguns que resgatei e que agora moram aqui em casa, rabiscados, arreganhados e contentes: “Isto és tu” de Joseph Campbell, “A louca da casa” de Rosa Montero, “A mulher com o vaso de alabrastro” de Margareth Starbird, “A alma encantadora das ruas” de João do Rio, “A barca de Gleyre” de Monteiro Lobato… Me pergunte se alguém deu pela falta.