Esqueleto-Maravilha (Parte 2)

catrina

Então fui ver o filme e achei ruim. Fora esse fato incontornável (afinal gosto é gosto), se você acredita que “Mulher-Maravilha”, o filme, tem alguma remota relação com empoderamento feminino, mitologia grega, relações internacionais, moda e decoração no início do século 20, história das armas químicas e dos conflitos mundiais, tenho um único comentário a fazer: Santa Ingenuidade, Batgirl! “Mulher-Maravilha” é um blockbuster de super-herói da franquia DC que, numa jogada de marketing genialmente oportunista, manipulou o imaginário corrente para: (a) encher de dinheiro os rabos de estúdio e produtores e (b) entusiasmar incautes (atentem para o uso linguisticamente correto do sufixo de gênero neutro) que acham que feminismo é copiar o masculino e colar em cima uma etiqueta com duas bolinhas e um triângulo preto estampados (e encher de dinheiro etc). Amazonas que adoram Zeus? Oi? O galanteador-sedutor-eventualmente-estuprador que estaria hoje, no Brasil, dividindo cela com o doutor Abdelmassih, caso tivesse sido suficientemente temerário para abordar, com seu estilo, digamos, criativo explícito, alguma mortal no século 21?  Bom, temos aqui mesmo, na terrinha, alguns deuses machistas igualmente incensados por feministas, então nada de se estranhar. Entretanto é melhor não confundir fato com mito, muito menos pastiche com narrativa mitológica. As amazonas originais, as legítimas, adorariam sim é capar Zeus, caso tivessem alguma chance. Ártemis, a deusa que justificou minha existência naquela pífia entrevista, mesmo sendo uma das filhas favoritas de Zeus, não ia gostar nada nada nada de se ver, mais do que preterida, ignorada pelas moças belicosas que deveriam prestar-lhe culto. Her heart belongs to Daddy, mas cada qual com seu eleitorado, certo? Tá bom que deram o nome latino de Ártemis à mocinha, mas em Diana morreu a referência. Mais ainda porque essa Diana não é princess: é Prince, ou seja, macho pacas. Por falar em pai e filha, como se reproduzem as amazonas do filme? Por partenogênese? Quero também deixar registrada minha denúncia: não vi nenhuma amazona asiática, o que denota clara discriminação étnica por parte do pessoal do casting.

Em suma, o imaginário da Mulher-Maravilha é tão heroico quanto o de Thor, Superman, Batman, Capitão América e outros paladinos malhados e descompensados, cujas sagas-clichê abarrotam de ouro as guaiacas dos magnatas-alfa de Hollywood. Na cartilha deles, lucrativo é agradar aos habitantes da curva. Então distribuam-se porradas, explosões e golpes, aumente-se exponencialmente o volume, tudo isso com fundo de pastelão histórico-mitológico. A curva haverá de pagar ingresso, comprar pipoca e corcovear de gozo. Duas honrosas exceções recentes: (a) “Batman-Lego”, o melhor filme de super-herói dos últimos tempos, e (b) “Doutor Estranho”, que tem na personagem hierática e impenetrável de Tilda Swinton uma figura de mentora de heróis à altura de Palas Atena. Fora o Benedict Cumberbarch (confessa a “cumberbitch” aqui), encarnando o médico fodão que vai da hybris à miséria, reenviado aos próprios limites, e precisa se reinventar por completo. Em “Batman-Lego”, a fragilidade do protagonista sociopata, imaturo, mascarado e blindado fica ainda mais evidente na presença da fofa Barbara Gordon, uma mulher competente, resiliente, corajosa e sensível, engajada na proteção da polis. Querem ver filmes feministas de super-herói? Vão assistir Batman-Lego e Dr. Estranho, que falam de parceria entre os opostos e não de sectarismo idiota. Quanto à Diana Prince a mocinha vivida na tela pela linda Gal Gadot,  ela é eclipsada sempre que entra em cena a deliciosa sufragete Etta Candy, secretária do bonitón. Aliás, me lembrei da Barbara Gordon do Batman-Lego quando vi a Etta. Para mim, a Mulher-Maravilha da hora não passa de mais uma campeã do patriarcado, como tantas que abundam nos dias de hoje no mundo, guerreiras armadas com a espada luminosa da razão, um falo alentado e cortante que se compraz em fragmentar o mundo numa miríade de campos de batalha. Com seus traços perfeitos, seu romance meloso com o irresistível “capitão Kirk” e sua vistosa blindagem azul e vermelha, quase fundida ao corpo escultural, Diana Prince só empodera estúdio e franquia. E diverte, claro, aos fãs do gênero. Nada além disso.

Esqueleto-Maravilha (Parte 1)


Semana passada, me ligaram de uma emissora de TV, pedindo uma entrevista sobre a Mulher-Maravilha, que anda bombando nas bilheterias. Eu disse que não tinha visto o filme e, se me quisessem, tinha de ser com meu background vintage: os gibis dela, que meus primos mais velhos me repassavam, orelhudos e gastos (eu preferia Cripta, mas OK, a cavalo dado não se olham os dentes) e o seriado da TV nos anos 1970, com a mulherona Lynda Carter vestida de bandeira dos EUA. A pessoa do outro lado da linha topou, talvez por falta de opção melhor. Pesquisei por alto o filme no Google e vi o trailer: um começo paradisíaco – corta – seguido de porradas, efeitos especiais, voos, saltos ornamentais, golpes de espada, pancadaria, explosão, enfim, mais do mesmo. Na manhã seguinte, bem cedo, um trio educado e eficiente baixou na minha casa. Sugeri uma pauta à repórter, que ela aparentemente topou: será mesmo motivo de comemoração para as mulheres que uma mulher seja aceita no clube do Bolinha um tanto constrangedor dos super-heróis, para fazer tudo exatamente do jeito que eles fazem? Bem que podia ser a Edna Moda de “Os Incríveis”, para renovar aqueles figurinos ridículos, pensei mas não falei. Conversamos eu e a repórter sobre minhas impressões, retocadas com pinceladas de mitologia, ligeiras menções à teoria dos arquétipos de Jung, saltos de patins sobre a jornada do herói de Campbell… Então despachei o povo e saí para trabalhar. Pouco depois do meio-dia, uma amiga me mandava uma filmagem caseira, feita da tela da TV. O tom comemorativo da reportagem era evidente. A Mulher-Maravilha celebrada como campeã do empoderamento feminino!!! Poderosaaaa!!!! Guerreiraaaa!!!! Gostosaaaa (ooops… foi mau)… Enfim RÁ-TIM-BUM! Entra minha parte: um miserável farrapo de quinze segundos, se tanto, em que eu explico que Diana era o nome latino de Ártemis, deusa grega da natureza selvagem, solteira, independente, avessa ao masculino. Corta rápido a velhota que fala de coisas velhas! Seguem-se imagens das HQ, alternadas a duas generosas aparições da jovem e descolada especialista em Mulher-Maravilha, sentada entre almofadas de Mulher-Maravilha, cercada de memorabilia da Mulher-Maravilha. Entendi tudo. Complexidade não rima com grande mídia, esse Tifão que fala ao mesmo tempo duzentas línguas em vozes tonitruantes e assim ameaça dissolver o cosmos no caos. Um cara mais aflitivo que informativo esse Tifão, e nada nada nada formativo, convenhamos. Me perguntei: o que de bom eu esperava de uma coisa feita entre oito da manhã e meio-dia? Perdi meu tempo, pensou meu ego-fodinha. Ganhei um tema, repensou a Mulher-Esqueleto, o oposto complementar da Maravilha e a mentora sombria do meu ego-fodinha. Foi então que decidi contar minha versão, pelo buraco escuro da boca da Mulher-Esqueleto. Vou assim tentar acalmar os amigos revoltados com o mesquinho quinhão que me destinaram as Moiras da Grande Mídia. Continua depois de eu ver o filme…

 

 

 

 

Emily e Paterson: dois poetas e um mistério

Duas idas ao cinema num único fim de semana. Luxo. Fora dois filmes legais na Netflix, “Bem vindos a Marli-Gomon” e “Uma viagem interior”, despretensiosos, tocantes, profundos. No cinema, a poesia, seu eros, sua pulsão de morte. “A Quiet Passion”, de Terence Davies, um recorte da vida da poeta Emily Dickinson, que trocou a intolerável incompletude da realidade (até mesmo a do seu pobre corpo) pela perfeição imperiosa da poesia. “Paterson”, de Jim Jarmush, uma semana na vida de Paterson, poeta e motorista de ônibus, homônimo de uma cidade feia. E também repleta de uma beleza fugidia, esquiva que, para ser vista, precisa de olhos atentos, cada vez mais raros num mundo de cegos virtuais. Nos limites estreitos de seu cotidiano, Paterson  bebe direto na fonte da poesia. Já Emily mora nela, em sua voragem, em seu fulgor. Costura caderninhos como uma adolescente e abandona até mesmo os passeios no jardim, para punir a vida de não ser impecável como sua obra. Para Emily, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Paterson tem um caderno só, e corre o risco. Para Paterson, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Os dois me lembram Pessoa, cada qual do seu jeito. Emily escreve no meio da noite, na mesa da sala, à luz de um lampião, com autorização paterna. Paterson escreve em cima do volante e no porão, mas principalmente na cabeça. Escreve não menos confinado que Emily, embora livre para transitar. Escrava de uma poesia perfeita e de um mundo puritano e claustrofóbico, Emily não consegue se abrir para o amor exógeno, a não ser como fantasia. Exigente, rígida, reclusa no universo circunscrito pelas paredes da casa familiar, ela exclui o mundo exterior de sua experiência. No entanto, esse mundo ressurge, glorificado, nos poemas dela. Paterson é todo amor e encantamento para com as miudezas que refletem o brilho de seu garimpo interno. Ele ama tudo, as fábricas desmanteladas, as ruas tomadas de mato, os passageiros banais e suas conversas, o percurso diariamente repetido, a pé até a garagem e depois, rodando pela cidade em seu ônibus, os recortes na parede do bar aonde toma a cervejinha de todas as noites… Paterson só não ama o buldogue Marvin, com quem tem de dividir a atenção de Laura, sua deusa volúvel e distraída. Paterson circula, risca cruzamentos, pula de um polo a outro, sente compaixão do pobre Donny, sempre à mercê dos azares da existência, encontra poetas incomuns como ele. Na vida, Emily estagna feito sua Rã, só que sem as palmas da Lama, que ficam para a inatingível posteridade. De cada um, a poesia exige um sacrifício igualmente incomensurável. O de Paterson, a vida abranda, até porque ele se volta para ela em busca de consolo. Para Emily, resta o holocausto. A poesia devora sua vida por completo.

PS – Nota zero para Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar, que ignoraram essas duas pequenas maravilhas não engajadas em militâncias raivosas. Não honrar, com uma menção que seja, o trabalho primoroso de Cynthia Nixon (Emily) e Adam Driver (Paterson) é, no mínimo, melancólico.

A rainha de todos os bullies

Um jovem amigo me indicou uma série da Netflix, chamada “13 razões”, sobre uma garota de high school que se suicida e deixa 13 fitas gravadas, destinadas a um grupo de colegas, sobre os motivos de sua demissão sumária desta vida. Larguei a história no quarto episódio, antes mesmo da quinta razão. Não porque o seriado seja forte demais, ou por causa do tema espinhoso. Raramente desisto de um bom enrêdo por motivo de desconforto simbólico. Desisti das “13 razões” porque a protagonista e seu corolário de adolescentes babacas e adultos adolescentes babacas me irritaram até o limite da razão. Quase morri de tédio de ter de testemunhar seus infindáveis mimimis, sua fragilidade auto-induzida, sua agressividade fashion e suas neuroses enjoativas. Que mala sem alça de rodinhas quebradas e zíper enguiçado, a tal suicida com treze razões que não somam uma! Não tenho nada contra o suicídio, ao contrário, acho que pode ser uma saída digna e legítima de uma vida que insiste em embotar ao invés de desabrochar. Agora se matar para botar a culpa nos outros de não saber o que fazer com a própria vida me parece um negócio pra lá de idiota, além de muitíssimo perverso. Perversa, aliás, é um adjetivo que cabe como uma luva na protagonista. Manipuladora, paranoica, mimada e histérica para citar cinco qualidades que me assomam à mente sem nenhum esforço. Poderia haver alguma nobreza na saga de Hannah, algum busca interior relevante, alguma razão minimamente substanciosa para seu ato extremo, como por exemplo, uma sensibilidade agredida e violada pelo coletivo, ou mesmo uma desilusão, como a do jovem Wether de Goethe ou da Ana Karenina de Tolstoi. Mas, acredite, não há nada que conceda um mínimo de peso trágico à decisão da garota, ainda que para torná-la verossímil. Hannah, tão esperta, cínica e articulada, tão sobeja de high-tech e recursos, é também incapaz de se defender, de identificar a empatia ao seu redor e de encontrar força e escuta num grupo de aliados. Fato é que, antes de decidir-se pela opção radical, ela não experimenta nenhuma alternativa intermediária. Assim Hannah profana a dor de um verdadeiro suicida com suas razões que são, na verdade, meras racionalizações tingidas de sentimentalismo com sabor artificial de morango. Onde, aliás, a razão se excede, o instinto se ausenta. Seu suicídio é uma abstração calculada para incomodar o alheio e por isso mesmo, não me comove em nada. Essa é a parte verdadeiramente trágica de seu caso. Não consegui ver o seriado inteiro, mas posso testemunhar um desfilar interminável de chororô superficial, um déficit crônico e generalizado de resiliência, um egoísmo feroz associado ao descaso absoluto com o outro, praticados tanto pela protagonista vitimada quanto por seus supostos algozes, todos eles transformados em vítimas pela grande bully onipotente que Hannah se torna depois de morrer. Parece, aliás, que ela só se suicida para poder praticar bully impunemente. Os bullies sempre existiram, desde Caim, e sempre representaram algumas das muitas provações pelas quais temos de passar para nos tornarmos mais fortes. Eles não desaparecerão do mundo por força de nossos esforços prestimosos para nos tornarmos criaturas de pura luz índigo. O que não mata fortalece, na versão de Nietzsche, e engorda, na de minha mãe. Abatida pela fragilidade extremada das crianças de cristal que caracterizam o espírito de nossa época, Hannah não encontra força para viver. Contudo a morte a torna poderosa. Ainda não atinamos para o fato de que os bullies vicejam, em nossas famílias, escolas e empresas, porque nossa cultura ama a agressividade, a independência, o poder, porque cultuamos heróis e guerreiros, os supremos bullies, aqueles que não desistem nunca, que impõem seu desejo ao outro e são amplamente admirados por isso, que justificam, na violência do outro, sua própria violência. Guerreiro é elogio e bullying é proibido, entenderam a contradição? Também sempre existiram e continuarão a existir as vítimas crônicas, que fantasiam as estações de seu calvário privado e disso tiram prazer e sentido para suas vidas, prontas a responsabilizar outras pessoas por seus perrengues. Masoquistas podem se tornar, e frequentemente se tornam, competentes sádicos. Um forte sadismo percorre a lenga-lenga da ex-masoquista Hannah nas fitas. Suas confissões, prescrições e julgamentos são ditados com voz fria, clara e objetiva, num tom distanciado, irônico, assustador quando se pensa no contexto. Não, Hannah não soa abalada com a execução gradual de seu “projeto”. Ela recusa a tecnologia digital “malévola”, marca de sua geração, elegendo um gadget inofensivo como mídia “ingênua” para transmitir seu testamento. Ela é criativa. Ao microfone, ela dita instruções precisas aos que ousaram fazer-lhe “mal”, voluntária ou inadvertidamente, não importa. Todos vão pagar. O poder está em suas mãos agora. Nas fitas, Hannah premedita a própria morte com gélido autocontrole, como forma de vingança infantil, irreparável. Assim ela se torna a rainha de todos os bullies. Em “13 razões”, o sentimentalismo corrói os sentimentos verdadeiros e a comunicação se confunde com o discurso ágil e ácido dos defensivos crônicos, que saem correndo assim que a iminência de um diálogo verdadeiro se desenha no horizonte. Os adultos da série são de um ridículo que, infelizmente suspeito, espelhe em muito a atual realidade. Dá pra imaginar uma mulher de 40 e tantos anos e um diretor escandalizados com as coisas escritas na parede do banheiro de uma escola de ensino médio? Oi? Onde vocês estudaram? Em Marte? Uma história ruim, e pior que isso, equivocada, travestida de intenções solenes, que já vejo sendo considerada “uma sensível reflexão” etc. Temo, aliás, que nossa cultura, tão ciente de si quanto inconsciente de si, ache que a história meia-boca da chatíssima Hannah acrescenta alguma coisa ao já indigente debate sobre bullying. O que Hannah vive na escola bem poderia ser experimentado como uma educação sentimental, em épocas menos esquizofrênicas, com a mocinha aprendendo a amar e sofrer e se tornando mulher adulta no percurso. Nada disso. Ninguém pode sofrer hoje sem dia. Sofrer é politicamente incorreto. É violação dos direitos humanos e, se Deus bobear, vai ser eleito o Bully Supremo e denunciado nas redes sociais. Um elogio do individualismo pueril, do sentimentalismo barato, da auto-vitimização como valor a ser cultivado, “13 razões” é uma grande, cara e superestimada porcaria. E Hannah, uma Hello Kitty zumbi.

Novo

Ano novo só mesmo na nossa cabeça que se imagina um caderno de papel milimetrado encapado em plástico azul e dotado de imensas orelhas. De verdade, um ano eterno sem começo nem fim, sem regulamento nem agenda, Aion de Urano, tempo circular da serpente cósmica a engolir o próprio rabo enquanto sibila o mantra sem fim nem começo: Dissolve e coagula! Tempo que não se deixa engaiolar por calendários, contem eles a partir da inauguração jardim do Éden ou do dia e hora do nascimento de Jesus, que nem de Jesus era (dizem que ele nasceu em março e era de Peixes, o que acho bem mais plausível do que ele ser de Sagitário, muito maníaco). No tempo cósmico, que é o que vale para tudo e para todos, 1957 nunca terminou, assim como 1968, muito menos 1975, 1986, 1992, 2001, 2012, 2015. Todos esses fragmentos de tempo maravilhosos-horríveis continuam sendo vividos por mim, não do mesmo jeito, mas de jeitos variados, continuam evolvendo dentro de mim, com seus eventos catastróficos e estupendos (e uso E não para separar os opostos em mescla permanente). O tempo se move para frente e para trás, em círculos, em espirais progressivas e regressivas, em volutas, em redemoinhos,  e nós vamos junto, arrastados feitos folhas secas. Nesse vendaval que despedaça calendários, os acontecimentos íntimos e coletivos, os fatos externos pelos quais somos vividos retornam. Eles nos pedem para ser retomados, elaborados, processados na alma (não na razão, não no intelecto), revistos e ampliados, reparados e sucateados, re-imaginados e remodelados à luz das coisas que aprendemos, se é que aprendemos alguma coisa entre eles e o agora. No presente absoluto da experiência quase sempre faltam recursos para apreender o que vivemos na chapa quente, pura e simplesmente. No depois, o presente contínuo, eles acabam chegando, os recursos, nunca com a presteza escandalosa do carro de bombeiros, nem como o brinde na caixa de Omo, muito menos pelo correio, num envelope do Sedex com nosso nome escrito em letras de forma. Temos de procurar e procurar, revirar lixo, revolver metros cúbicos de terra, sonhar e viajar na maionese, estripar gavetas, delirar, raciocinar, virar do avesso, ler poesia, invocar espíritos, adoecer, tatear, rezar, descascar, maldizer, desenhar esquemas, cavar, queimar pestanas, cantar mantras, pintar e apagar mandalas, fuçar arquivos vivos e mortos, tecer e destecer, reverenciar mestres, renegar mestres…  O diamante que se oculta na merda, a craca que se esconde na maravilha são dádivas da repetição, da rememoração, da insistência, da persistência, do eterno retorno, com a imaginação, o sentimento, a memória, ao mesmo lugar aonde estivemos mil vezes antes, só que com outros olhos, olhos de bobo, de criança, de cachorro, de detetive distraído, de catador de conchas. Nunca com olhos astutos. Meus olhos astutos enxergam o conceito, o nexo, os motivos, a linha teórica, a abordagem, as intenções e enquanto isso perdem o fiapo de brilho em que cintilam grãos de poeira suspensa, o rastro furta-cor da lesma, o caprichoso montículo de areia, a mensagem cifrada, entalhada pela água na parede por um deus da umidade e da decadência. Meus olhos astutos explicam ao mesmo tempo em que perdem o sentido, os múltiplos sentidos. Por exemplo, qual é o sentido da história do Evangelho em que a mulher que tem um fluxo de sangue contínuo toca a roupa de Jesus em meio à multidão que o espreme e ele pergunta, surpreso: quem me tocou? Penso e repenso nessa história desde que menstruei, aos 13 anos. Volto a ela e torno a voltar e cada vez que volto, ela se abre para revelar um compartimento imprevisto, oculto no mistério. Só escutei merda dos exegetas de olhos astutos ou nem tanto sobre essa história, todos uns ímpios no sentido grego do termo, uns babacas no sentido cristão. Cada vez que volto a ela, sou uma parte diferente dela: a mulher, a multidão, Jesus, a roupa tocada, o fluxo de sangue que não quer ser estancado. Cada vez que saio dela, mudamos um pouco, eu e ela. Nem sei porque falei dela aqui. Vai ver que era ela que queria ser rememorada. Vai ver que nossa relação demonstra de algum modo como o tempo atua em nós, quando compreendemos seu circuito e o internalizamos. Meu nascimento e os dos meus filhos continuam a me espantar, hoje muito mais do que no tempo das efemérides. As mortes, todas as que morri por amor a quem partia, continuam a me remeter ao Hades, de onde sempre emerjo enlameada, às vezes com um ramo de narcisos, outras com uma bela romã madura para fazer caipirinha. Minha infância é um presente que revivo todos os dias, e a luz que ela emite é ambígua, ilumina e ensombrece minha maturidade, me guia para a velhice com mãozinhas mornas e pequenas. Meus poucos amores, volto a eles sempre, sonho com eles, eles me despertam para renovar meu pacto com Afrodite, meu desejo sempre jovem de relação e vínculo. Minha brigas? Meus fracassos? Volto a eles constantemente, contudo não com a emoção que me consumiu naquele momento em que a ruptura me acenava com o fim de tudo. Retorno com o sentimento da distância que provê perspectiva e com a percepção do tempo que passa como um rio que apaga brasas dormidas e oferece seixos rolados para a gente jogar de volta na água. Ano novo? Nada de novo sobre a face da Terra, disse o sábio. E para que o novo se nem o que é velho de milênios a gente conseguiu aprender?

 

Natal

Cansada demais para escrever coisas novas, reitero este post para o Natal de 2016. Continua valendo! Beijos.

Mulher-Esqueleto

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Para as matilhas, com amor.

Tenho horror ao natal. Acho uma festa brega, vazia, redundante, tola, desalmada, superficial, convencional, hipócrita. Para começo de conversa, não vejo graça nenhuma em comemorar o aniversário de Mitra, um deus persa da guerra adorado por soldados e gente belicosa, mais chegada em Marte do que em Vênus, na velha Roma dos césares. Dia 25-12 é o dia dele, do retorno do Sol Invicto, caso o padre da sua paróquia ou o pastor da sua congregação ainda não tenham te contado (na verdade, a maioria deles sequer foi informada disso). Os patriarcas da igreja decidiram surrupiar a data para nela comemorar o nascimento de Jesus só porque Mitra era um cara muito popular e o povo costuma ser pra lá de distraído em questões de pilhagem do imaginário. Desvestir um deus para vestir outro sempre foi moeda corrente na velha Roma dos papas. Fora o fato deveras convincente…

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Fantasmas

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“A colina escarlate”(Crimson Peak, 2015) é meu tema do Dia dos Mortos deste ano e o filme mais recente de Guillermo Del Toro, mexicano que ocupa um lugar de honra no meu panteão de diretores arquetípicos. Um genuíno filme de fantasma, coisa que Del Toro sabe fazer como poucos hoje em dia, com sua fina intuição para o manejo da metáfora. Se você tem medo de fantasma, não assista. Mas se, como eu, os fantasmas ressoam no seu mundo interno, coragem. Você não vai se arrepender. O filme recupera o melhor da tradição literária gótica vitoriana, seja na construção dos personagens, seja na estruturação da narrativa,  seja na ambientação pesada, opressiva: climas, adereços, figurinos e cenários, tudo coopera para espelhar a alma e seus labirintos. Do começo ao fim, permanecemos dependurados de cabeça para baixo, no fio tenso de um bom paradoxo. O Feminino encarna o agente redentor-destruidor do Masculino e, nesse sentido, “A colina” é uma maravilhosa história da parceria e mediação entre opostos-complementares, vivos e mortos, mães e pais, irmãos e irmãs, ego e inconsciente, razão e loucura…

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As fantasias favoritas de Del Toro retomam aqui, com a sensibilidade e a profundidade usuais – e sem maneirismos desnecessários -, o tema do feminino assombrado que inicia uma mulher ingênua nos mistérios do amor e da morte. Um pai superprotetor expõe a filha ao predador, enquanto seu amor por ela igualmente a provê de um animus que, despertado pelas circunstâncias, se revela excepcional. Uma mãe boa e frágil retorna da morte para revelar um importante segredo à filha, segredo que ela mesma acessou ao cruzar o portal, mas que a filha ainda não tem elementos para compreender. Outra mãe, longeva e devorante, investe inadvertidamente numa sucessora ainda mais mortífera. Um homem frágil é assujeitado por uma devastadora anima negativa. Um casamento infernal e outro, celeste, acorrentam os noivos numa tragédia de proporções míticas. Um oftalmogista que acredita no invisível vê o que está posto diante dos olhos, mas que os outros não conseguem enxergar. A natureza se rebela contra a máquina. Aliás a tecnologia aparece como coisa muitíssimo mal assombrada, pura verdade.

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A história fala das fantasias do estilo gótico novecentista como uma reação da imaginação à desolação que a Revolução Industrial impôs à Alma do Mundo, uma reação tão frágil quanto eficaz, porque é na alma que ela se instala. E a alma confronta, com suas fantasias terapêuticas, a sombra da ciência, da indústria e da filosofia positivista. Mais do que tudo, “A colina escarlate” me levou de volta a “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brönte, um dos livros da minha vida, numa viagem de revisão que me esclareceu sobre os motivos do apreço que tenho por fantasmas.  Eles nos assombram e afligem, penso eu, porque são, na essência, mensageiros do inconsciente que assediam o ego para alertá-lo de grandes perigos e ajudá-lo a tomar consciência de algo muito sombrio. O ego, contudo, se defende como pode das coisas que não quer saber.

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A forma fantasmagórica aterroriza o ego, embora não haja nela uma ameaça real, ao contrário. Os fantasmas pretendem revelar um estado de coisas intolerável deslocando o sujeito da zona de conforto, forçando-o a encarar uma realidade que clama por mudança, uma lealdade tóxica, um segredo que apodrece dentro dele. Assim o fantasma de Catarina de “O morro” vem pedir ao Sr. Lockwood tão somente uma escuta para sua história, um pouco de compaixão e ajuda para libertar-se e libertar a vida, ajudando-a a retomar seu curso. “A colina” remete a “O morro” até mesmo nas referências à topografia. Se você subiu numa, pode se arriscar a escalar o outro. Sua alma vai agradecer por mais esse fantasma.

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