“No cemitério é bom de passear”: um memento para o Dia dos Mortos

Mulher-Esqueleto

Eu tinha dez anos e cursava o ginásio no instituto estadual de educação. Aquilo era a morte. Escola era a morte. Ficar dura, quieta, ouvindo a professora vociferar ou então falar com voz hipnótica, para boi dormir. Era ou medo ou sono, ainda mais no período da tarde, que era o meu. Eu odiava aquilo de ter de ficar ouvindo, ouvindo sem entender nada. As professoras falavam grego – arcaico a de matemática. Eu me sentia tão burra, mas tão burra que nem pergunta eu sabia fazer. Ou até sabia, mas… e se eu fizesse a pergunta errada? De vez em quando, alguém perguntava uma besteira e levava bronca, era humilhado na frente de todo mundo. E a gente ainda ria do coitado que perguntava o que a gente não tinha tido coragem de perguntar. Melhor ficar dura e quieta e me fingir de morta e esperar aquela eternidade terminar. Porque…

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Decameron Parte 1

Li o Decameron de Giovanni Boccaccio (1313-1375) numa edição de 1970 dos Clássicos da Literatura Universal, da Abril Cultural. Embora fosse universal essa literatura, não me lembro da coleção incluir algum contista marciano ou novelista saturnino. É que, mesmo depois de Copérnico, continuamos a acreditar que a Terra é o centro do universo. Enfim eu comprava os livros vermelhos de capa dura na banca de jornal em frente ao ponto de ônibus perto do Instituto de Educação Estadual Prof. Roldão Lopes de Barros, onde cursava o antigo ginásio. Muito lanche fiquei sem tomar ou tomei pela metade, a fim de juntar dinheiro todo mês para sustentar meu capricho. Não me fez nenhuma falta essa comida literal. Em compensação, a comida literária que esses livros me propiciaram continua a me alimentar com ambrosia e néctar, 50 anos passados.

O Decameron está entre os meus livros favoritos, da coleção e da vida inteira. Boccaccio foi um dos sobreviventes da epidemia de peste bubônica mais conhecida como Peste Negra que, durante o século 14, matou um terço da população da Europa, marcando o fim da Idade Média e abrindo caminho para o Renascimento. Quando a doença refluiu, depois de chacoalhar os alicerces do mundo medieval, iniciou-se um dos períodos mais criativos, divertidos, paradoxais e ousados da História da humanidade. O que me inclina a pensar que essa possibilidade também estará contemplada no mundo pós-coronavírus. É cedo para dizer, porque estamos no prelúdio da experiência e ainda vou escrever muitos posts de quarentena, estejam certos disso. Quem viver, verá e se tiver uma centelha de Boccacio no sangue, também fará.

Mas voltemos ao Decameron ou Deca ou Dequinha, apelidos que eu e a minha amiga e orientadora Rosinha demos a ele. Apesar de ter perdido pai, madrasta e uma filha pequena para a doença, Boccaccio elaborou seus lutos e as perdas de toda sorte escrevendo essa maravilha. Deve ter carpido muito seus mortos, se descabelado de dor e desespero, passado uma ou mais temporadas no inferno. Como forma de superação alquímica, porém, ele escolheu narrar. E em sua obra, longe de descartar a merda toda, soube transformá-la em ouro. Eu, que li o Deca entre 13 e 14 anos e o reli muitas vezes pela vida afora, tenho me lembrado dele todos os dias, desde que a pandemia do coronavirus começou, mais ainda quando ela recaiu sobre a Itália do século 21 com a violência de um flagelo medieval.

Me lembrei também de minha visita à Toscana, quando conheci Certaldo, a cidadezinha onde Boccaccio nasceu e voltou para morrer, 62 passados, minha idade. Certaldo Alto, onde a gente chega de funicular para visitar a casa encantadora e o túmulo. Foi uma dica da Graziella, que preparava o café da manhã no nosso B&B e com quem entretive ótimas conversas em dialeto babélico. Quando soube que eu amava Boccaccio e o Deca, ela imediatamente me pôs no caminho. Os livros amados fazem isso: promovem encontros, abrem portas, inauguram linguagens, nos põem no caminho. Hoje vou parar em Certaldo. Primeiro ao lado da laje de mármore entalhada com o relêvo do corpo de seu ocupante, em cujos pés depositei um buquê de florzinhas colhidas no mato ao redor. Depois tomando uma taça de vermentino e vendo, lá do alto e de mãos dadas com o Edu, o sol se pondo sobre os campos toscanos. Tempo bom.

Quaresma

“Os 40 dias que vão da quarta-feira de cinzas até domingo de Páscoa, destinados, pelos católicos e ortodoxos, à penitência; quarentena.”

Novo Aurélio Século XXI, 1999

Não sou católica nem ortodoxa. Nunca fui e talvez tenha perdido para sempre a oportunidade de ser. Contudo sei muito bem em que época do ano estamos, até porque, nos últimos dias, as quaresmeiras do meu bairro deram de ostentar sua glória violácea pelas ruas, todas elas, sem exceção, das quase-mudinhas às senhoras mais frondosas. E confesso que hoje, quando recorri ao Aurélio na tentativa de confirmar o sentido de uma palavra ausente do meu vocabulário, menina de igreja batista que fui, dei de cara com este caso chocante (para mim) de sinonímia.

Quaresma quer dizer quarentena e se refere a um período de quarenta dias corridos em que a penitência é a tônica. Se ainda faltam razões para inaugurar a sua quaresma, o Aurélio desenha: este é um tempo de reflexão, arrependimento, introversão, revisão, recolhimento, reparação. Coisas aliás com as quais não queremos nos haver de jeito nenhum. Estados da alma que, se se aproximam de nós por qualquer motivo, logo espantamos com um comprimido de antidepressivo, duas doses de gin tônica, algumas fotos esfuziantes postadas no Insta e várias publicações triunfais no FB. Nossa vida desventrada, superexposta, carente de compostura e discrição, vazia de centro, não suporta imaginar que, mais dia menos dia, terá de enfrentar o quartinho de despejo embolorado de nosso mundo interno. Deus nos livre de carpir o matagal atulhado de lixo em que se transfomou nossa alma! Para fora e para cima, é só aonde queremos ir.

Só que agora virou. Você não escolheu. Você foi escolhido. Para dentro e para baixo nos leva esta quaresma, que compensa um excesso com outro igualmente descompensado. A natureza não é fofa, muito menos politicamente correta. Acabou o carnaval da locomotiva econômica chinesa, das hordas neobárbaras de turistas, da produtividade patológica, do consumo desmesurado. Como na tradição, o carnaval parece ter convocado seu próprio remédio em dose global e que está, inclusive, matando o paciente, esta incorrigível humanidade. Num tempo de contrição e isolamento forçado, as únicas frágeis estratégias de proteção de que dispomos, meditemos um pouco sobre a quaresma e seus símbolos melancólicos. Se formos capazes de formar massa crítica, talvez sejamos premiados, ao final, com o renascimento promissor da Páscoa. Antes porém, teremos de enfrentar as roxas angústias da Paixão. Com sorte, haveremos de tirar alguma lição deste perrengue.

Carta a Papai

MInha Irmã Anacris escreveu no aniversário de 93 anos de Pedrinho, Pietro, Pedro: nosso pai.

E eu assino embaixo.

L’esprit de l’escalier

L’ésprit de l’escalier é uma expressão que me representa demais. Jô Soares, quando era engraçado, tinha um quadro muito bom sobre o tema no programa Viva o Gordo. Nele, o personagem era destratado por alguém e, primeiro ficava mudo e paralisado, para, assim que o bully saía de cena, se dar conta da violação e ter mil ideias geniais de como responder à altura dela. Quer dizer: a resposta perfeita, a reação justa e reparadora só chega quando você já está descendo a escada de rabo entre as pernas. Posso levar anos descendo uma escada, antes de ser acometida por umésprit de l’escalier. Mas um dia ele chega. Muitas vezes, enquanto durmo. Um caso clássico: passei mais ou menos dois anos me responsabilizando pelo tratamento inaceitável e injusto que recebi do coordenador de um workshop do qual participei. Repito: demorei em torno de 24 meses para perceber que o coordenador, e não eu, tinha sido inadequado e narcisista, ainda mais levando em conta a posição que ocupava naquele contexto. Passado o evento, continuei a agir normalmente com ele, chegando ao absurdo de prestigiá-lo como coordenador de outro grupo (pasmem!), sem me dar conta do tamanho do estrago que ele me causara. Meses depois, tomada por um sentimento inexplicável de desconforto, larguei o grupo, porém sem saber direito porque o fazia. Foi então que do nada, de repente, que nem aconteceu com o Visconde de Sabugosa no pomar de dona Benta, fui soterrada por uma jaca madura, despencada do galho mais alto da jaqueira. Faz alguns anos, acordei de manhã e um ésprit de l’escalier baixou. Antes de me levantar da cama, e incapaz de me lembrar do sonho que certamente tive, eu revi, em câmera lenta e de trás para a frente, o incidente em todos os seus detalhes. Minha ingenuidade servil e masoquista se desnudou ali mesmo, como a névoa se desvanece na Imigrantes e desnuda a estrada que se estende diante de nosso carro em movimento. Naquele momento em que um daimon, impaciente com minha lerdeza, suspendeu enfim uma névoa que durava dois anos, tive vontade de preparar uma torta com a jaca, esperar o fodão em algum lugar estratégico e esfregar a torta na cara dele. Foi chocante, pedagógico, libertador. Até então, aquele episódio era uma espécie de buraco negro, a história contada por um louco, cheia de som e de fúria que não se encaixava na minha experiência. Até a chegada de l’ésprit de l’escalier, de capa e espada, para me salvar. O bom de ser aluna da escolinha do doutor Jung é que a gente sempre pode contar com os efeitos reparadores de uma sessão caseira de imaginação ativa, para acertar esse tipo de conta pendente. Graças a esse expediente altamente terapêutico, eu disse ao estafermo tudo o que pensava dele, de seu comportamento execrável e de sua coordenação equivocada, para então seguir na estrada da floresta um pouco menos chapeuzinho vermelho do que antes. Talvez também, espero, mais capaz de convocar o kairós da reação imediata, justa e reparadora, concomitante ao dano. E se o kairós não rolar, ainda assim sei que poderei convocá-lo mais cedo ou mais tarde, usando para isso o maravilhoso expediente retardatário de narrar e reparar, mal e mal imitando Ian Mc Ewan e Amos Oz. Que é o que acabo de fazer aqui.

Coringa: um post repleto de spoilers

“Quanto quis tirar a máscara, estava colada à cara.”

Álvaro de Campos

 

Quantos anos terá Arthur Fleck, o homem-criança a quem Joachim Phoenix emprestou corpo e alma para fazer o Coringa baixar, magnífico, na tela do cinema? Oito anos? Dez talvez? Certamente não mais que doze, porque ainda não viveu sequer a iniciação dos treze anos à adolescência, não passou pelo bar-mitzvá. Arthur nem mesmo é Arthur. Ele é Happy, um menino frágil, meigo, doce e um bocado esquisito também, um pagem encruado à serviço da Mãe, ela ainda mais frágil, meiga e doce do que ele, a única criatura neste mundo mau que parece valorizá-lo, amá-lo e aceitá-lo tal como é. Oh, a aceitação indiscutível de mamãe… quem não a conhece, que a compre… A maravilha do roteiro de Coringa, o filme, são as camadas, densas, múltiplas, variadas, camadas que vão se desvelando e ficando mais escuras à medida que o mito da Deusa e seu Filho consorte avança, arrastando consigo um cortejo de outros mitologemas, todos tão arcaicos quanto poderosos. Você pode ficar retido na camada mais externa, a do melodrama militante com veleidades rosseaunianas de crítica política e social, uma camada que definitivamente está lá e está na moda, embora não demande muita reflexão, até porque é basicamente projetiva. Nela você vai encontrar todos os clichês da hora, aqueles que confirmam o quanto você é legal, politicamente correto, solidário, nada preconceituoso, até mesmo um usuário irregular de Rivotril, olha só. Quase todas as resenhas que li ficaram presas nessa superfície pega-mosca, vociferando no deserto contra a lista usual de malvadezas que a humanidade pratica desde que fomos expulsos do Jardim do Eden, já faz tempo. Discurso inócuo. Será uma pena se você também resolver patinar com o rebanho nos clichês bom-mocistas que aliviam sua consciência, recusando-se a descer com Happy até o porão do Asilo Arkham, onde repousa, ocultado nas sombras fervilhantes de vida do arquivo-morto, o lado B de sua delicada e delirante mamãe, a que o chama por esse codinome maldito e o diagnosticou, em casa mesmo, como portador de uma “condição psiquiátrica”. Lá embaixo estão guardadas as lembranças, convenientemente apagadas por Happy, da loucura que o ata a essa mãe com o fio implacável das Moiras, do estigma que ambos compartilham, a mácula (fleck) de seu nome de família. O Pai arquetípico do herói mitológico (que não tem nada a ver com o estereótipo aguado do herói que nossa cultura cultua) emerge, ele também, como um sujeito arrogante, um ego superinflado, idealizado pela ex-amante e depois pelo próprio filho bastardo. O sr. Wayne encarna a divindade masculina indiferente, sedutora e elusiva, que inseminou a mulher mortal, renegou sua cria e subiu de volta ao topo, para onde ela, trinta anos passados, ainda envia cartas ansiosas, na esperança de ter acesso a algumas migalhas da opulência dele. O anfitrião do programa de entrevistas, personagem benevolente das fantasias infantis de Arthur, encarna momentaneamente um sucedâneo do Pai até revelar a faceta pragmática por trás de tanta empatia.  O colega palhaço mais velho, outra figura paterna que o chama de “meu garoto”, conta com a ingenuidade pueril de Arthur para pregar-lhe uma peça malévola e desestabilizá-lo ainda mais. Feminino e Masculino adultos são igualmente perversos, nada confiáveis, dementes em graus diversos no filme de Todd Phillips. Afinal estamos em Gotham City, a suprema distopia urbana onde o único homem decente é um anão e a única mulher acolhedora é uma alucinação. Todos os adultos, incluindo-se as duas psicoterapeutas com suas pautas monótonas, impotentes e irrelevantes, merecem ser aniquilados. Quanto às figuras parentais, essas serão eliminadas uma a uma, de modo literal, na medida em que Arthur não é capaz de separar-se psicologicamente delas para seguir seu próprio destino, rumo à vida adulta. Ele não tem escolha. É o clássico herói trágico, um joguete do destino – o genético e o biográfico -, um peão manipulado pelos deuses que o puseram no mundo e o traíram, que é o que todos nós, pais, fazemos com nossos filhos, até quando os cumulamos de privilégios (e mais ainda, quando o fazemos). Isso depois de termos sido traídos pelos nossos próprios pais, remontando assim, de novo, até o Jardim do Eden. O coringa, trunfo do baralho por excelência, a carta número zero e que, apesar de ou graças à sua valência nula, pode substituir qualquer carta, é a grande ausência no mito de Arthur Fleck. O que falta a Arthur é a resiliência do Louco do tarô, que precisa superar seus sofrimentos, ultrapassar seus genitores, esgarçar as projeções deles sobre si e assim expor a humanidade escondida por trás das máscaras aparentemente divinas. Arthur escolhe a máscara, em detrimento de seu próprio rosto. Se Happy não é ninguém, o Coringa tampouco é alguém. Ambos cumprem o destino que os pais de Arthur lhes impuseram, estão identificados com suas personas trágicas, sem que nenhum ego tenha coagulado por baixo delas, sem que Arthur tenha tido sequer uma chance de se diferenciar de Happy antes de ser avassalado pela sombra que o Coringa representa. Sem que seu estigma o tornasse um ser humano único, irrepetível, um pouco como a cicatriz de lábio leporino e aquele incisivo recuado típico fizeram com Joachim Phoenix.

 

Requiem para um vizinho

Ele era um homem simples que, nas manhãs de sábado, escutava Ray Conniff e clássicos em versões standard enquanto trabalhava numa oficina de marcenaria improvisada na garagem. Eu nunca soube se aquilo era um hobby ou trabalho de verdade, mas ele cantava e assobiava o tempo todo, o que sugeria que, se fosse trabalho de verdade, ele trabalhava feliz. Fazia uns 10 anos que era meu vizinho, os 8 primeiros coabitando com duas guerreiras em permanente prontidão, mãe e filha, a esposa e a sogra dele, amazonas sempre dispostas a iniciar um confronto por nada, uma diferença no jeito de regar as plantas, uma divergência no trato com a lavadora de roupas. Ele era o ponto de inflexão. Enquanto as duas se engalfinhavam, saia para andar de bicicleta, fazer uma compra no mercadinho da rua, ouvir Ray Conniff na garagem, com a serra tico-tico zunindo ao fundo. Eu não me incomodava nem um pouco com o zunido a serra, menos ainda com a seleção musical, que me dava uma certa nostalgia de minhas tias nos anos 1970. Era gostoso de ouvir, nunca alto demais, nunca baixo de um jeito que eu o ignorasse. Assim ele encobria o ruído das discussões infindáveis e, ao mesmo tempo, providenciava para si um refúgio, uma trincheira suave em meio ao campo de batalha. As duas morreram, com talvez um ano de diferença. E de repente ele era o dono da casa, com seu sorriso simpático, sua gentileza, sua conversinha amena. Passado algum tempo, retomou um namoro de juventude. Estava feliz e me contava dessa surpresa que a vida lhe reservara em pleno crepúsculo. Me trouxe uma caixa de doces caipiras, de uma viagem para a terra da namorada. Contudo não imaginava que o destino lhe reservava mais uma carta ainda, desta vez muito sombria. Quando o câncer foi diagnosticado, ele lutou brava e nobremente, como deve lutar um guerreiro quando a guerra se lhe apresenta, não antes, talvez arrebatado pela ilusão de um derradeiro ato vivido em paz e melhor companhia. Hoje, domingo, dia em que a família se reunia na casa do meu vizinho para almoços ruidosos e alegres, escuto um eco de canções de Ray Conniff com coral, orquestra e zumbido de serra tico-tico. Espero que sua alma esteja em paz.

Só que não ou uma pedagogia da frustração de GoT

O habitual nhenhenhem da massa descontente sucede o encerramento da série mais eletrizante já produzida, na minha modesta opinião de seguidora decana de séries desde os anos 1960. Terminou ontem a magnífica Game of Thrones, de cujas referências técnicas genéricas pretendo poupar o leitor que não viveu os últimos 8 anos magnetizado pela saga mitológica narrada ao longo de temporadas aguardadas em agoniada expectativa. Homero, J.R.R. Tolkien e Joseph Campbell teriam endossado e decerto também seguido GoT, se é que não o fizeram em alguma galáxia muito, muito distante. A força com que arrastou e manteve em transe milhões de seguidores devotos e o modo como reuniu grupos em torno da fogueira primordial da imaginação comprova o DNA mítico de Got, bem como nossa necessidade de despertá-lo dentro de nós, a fim de que nossas vidas encontrem alguma relevância simbólica em meio ao deserto desta cultura conduzida pela banalidade da tela onde pululam estereótipos. Um caudal de histórias muito bem encadeadas, desveladas com capricho obsessivo em meio a excessos de toda natureza, histórias contadas sem pressa nem preocupação com a verossimilhança externa ou o IBOPE, o rio turbulento de GoT atingiu enfim seu delta inevitável, espraiou-se e virou lenda registrada com minúcia e letras góticas nas crônicas de gelo e fogo. Uma mitologia viva, orgânica e luxuriante, odisseia trançada de odisseias, um mundo erguido diante de nós, a se desvelar, logo de cara, na magnífica vinheta da abertura que mudava a cada temporada, GoT é um marco como foi O Senhor dos Anéis em sua época, imantado por elementos da realidade cotidiana e capaz de lançar uma compreensão não racional sobre seus eventos. Um cabedal de línguas e culturas exóticas exibidas ao longo da narrativa desmesurada de personagens, um melhor do que o outro, em especial os coadjuvantes, GoT se revelou uma metáfora modelar para nossos tempos medíocres, de mitos literalizados e vividos como complexos inconscientes. Até quanto errou, GoT acertou, acolhendo corajosamente a descontinuidade, os desvios, as decepções, as interrupções, os bloqueios, a traição das expectativas a que chamamos vida. Mas é lógico que, mal se fecham as cortinas sobre Westeros, entra em cena o coral dos descontentes, amplificado pelo habitat ruidoso e bidimensional das redes sociais. Que essa turma reclame com veemência da condução que os roteiristas deram ao desfecho, esse fato, para mim, só conta a favor da dupla intrépida. Se o público que se engalfinha por migalhas no FB gostasse do final de GoT, aí sim eu ia ficar preocupada. O arremate sombrio foi um acinte, uma provocação, uma ofensa à petizada digital que não sabe lidar com a frustração. GoT chutou no peito “istas” de todas as facções e seitas e afirmou o avesso do paradigma heroico: aquele que não se alinha conscientemente com seu destino, infla até explodir e ser reenviado aos próprios limites. Foi assim com Dani e Jon, o casal de protagonistas. Sobreviveram e superaram os que abraçaram seu destino sem perder a noção de si e da realidade: Tyrion arrasador, Bran supreendente, Arya extraordinária, Sansa convencional, Gendry honrado… Foi mesmo a vitória dos ferrados, dos que sofreram mas não morreram, dos que se frustraram em quase tudo e ainda assim, persistiram, dos que foram vitimados por toda sorte de violência mas não se deixaram reduzir a vítimas. O final foi dos resilientes. Se você não tiver essa inclinação, nem comece a assistir.

Tata

Tata tem 88 anos. Quando mocinha, era minha tia-ídola. Linda, respondona, pernóstica que só ela, cabeleira negra da asa da graúna, retocada nas raízes quase toda semana, em luta vã contra uma mecha branca precoce. Na minha fantasia de menina de cabelo crespo, seu cabelo basto de Branca de Neve era a fonte de onde provinha sua força. Tata era a tia ideal para uma menina de seis anos, porque era meio comprometida, meio blasé. De vez em quando, aos sábados, ela nos levava para visitar o laboratório de análises onde trabalhava. Lá chegando, nos exibia aos médicos e às colegas, ganhávamos elogios e distribuíamos beijos. Também visitávamos um banheiro sinistro onde, melancólicos prisioneiros de uma banheira, sapos aguardavam o momento de ser sacrificados no altar da ciência médica. Também brincávamos com coelhinhos idem, mantidos num viveiro no quintal. Era belo e horrível, mas ainda não sabíamos que era horrível. Alguns desses passeios se transformavam em efemérides, caso Tata tivesse recém-recebido o salário. Nesses dias muito especiais, ela nos levava para passear no centro da cidade. Ao Mappin, para comprar bobagens deslumbrantes, tipo tranças falsas de nylon, confete e serpentina, roupinhas de bonecas. Às Lojas Americanas, para comer cachorro-quente com molho.

Acho que foi em 1967, no meu décimo aniversário, que tudo aconteceu. Era uma manhã de sábado. À noite, haveria uma festa em casa e minha mãe se desvelava no preparo dos sanduíches e docinhos. Já tinha um tempo que eu notava que alguma coisa se passava com Tata. Uma tempestade subtropical, um ciclone, um tsunami se formava dentro e ao redor dela. Eu captava os sinais nela e no entorno, escutava comentários e sentia a pressão que parecia ter minha tia como epicentro. Frequentemente também escutava que Tata tinha “minhocas na cabeça”. Minhocas, eu só conhecia as que meu pai enfiava no anzol quando ia pescar e as que eu cutucava na terra dos vasos do quintal. Eu achava que minhocas tinham uma natureza resignada e benfazeja, ao contrário das taturanas, e portanto minhocas na cabeça não deviam ser um problema. Naquele tarde de sábado, as taturanas na cabeça de Tata a levaram a tomar uma atitude radical e literal. Ela decidiu que iria mudar assim, de uma hora para a outra. E iria estrear sua nova persona, sedutora, livre, poderosa, na minha festa da aniversário. De manhã, Tata saiu para ir à cabeleireira, decidida a voltar para casa transformada em outra pessoa. Mas só por fora. Mimada e teimosa, não valeu de nada a argumentação da pobre cabeleireira, em favor do bom senso. Para ela, bastava de bom senso e, nesse dia, as taturanas estavam com a macaca.

Chegou a hora da festa e Tata não chegava. Serviram-se os sanduíches e nada. Chegou a hora de cantar parabéns e nada. No final, quando os últimos convidados já se despediam, Tata chegou. Não sei se ela ficou retida no salão até aquela hora ou se se escondeu em algum lugar, evitando encarar as pessoas. Lembro bem do choque quando vi minha tia “linda maravilhosa”(como ela costumava classificar a si mesma e a nós, suas sobrinhas) com o cabelo num tom de cor de rosa-alaranjado, cortado rente à cabeça. A violência da descoloração queimou seu couro cabeludo e destruiu sua cabeleira esplendorosa de deusa. Um lugar dentro dela também foi destroçado e nunca mais se restabeleceu. Tata queria ter chegado loura platinada em minha festa. A outra dentro dela, que tanto queria emergir, deu um jeito de passá-la pelo fogo da transformação. Sabotada pela sombra, seu ego frágil e infantil não deu conta de responder à altura a tamanho desafio.

Hoje Tata tem mais ou menos 4 anos. De idade emocional. Seu ego mal coagulado estancou naquela noite, em 1967. Dali para a frente, sua vida emocional só fez regredir. Depois do episódio do cabelo, ela teve alguns surtos, nem sei bem do quê, e foi submetida a algumas internações. Eu vi minha linda tia, que sabia desenhar e “trabalhava fora”, desconstruir-se. Seu cabelo nunca mais recuperou o brilho e o volume. Tata seguiu sua vida como uma menina impotente e raivosa, cada vez mais dependente dos outros. Casou-se até, com um antigo namorado de adolescência. Contudo parou de crescer. Alguém dentro dela, talvez a bruxa que a levou a pôr fogo nos próprios cabelos, a manteve criança para sempre, tão superprotegida quanto amedrontada. Assim ela passou, da tutela da mamãe à de um e de outro irmão. Depois se tornou a menininha do marido e, quando enviuvou, sem filhos, retornou à tutela do segundo irmão, meu pai. Suas tentativas radicais e literais de se tornar independente a foram isolando cada vez mais daqueles que, por a amarem muito, interferiram demais na sua vida. E pior: com procuração dela. Aos 88 anos, Tata vive numa ilhota de consciência muito precária e é tutelada com desvelo e dedicação pela filha de um de seus irmãos-pais, minha prima linda maravilhosa. Mora numa casa de repouso cara e deprimente. Fui ajudar minha prima com ela, numa consulta médica esta semana. “Você gosta de mim?”, ela pergunta a todo mundo. Se a resposta é afirmativa, ela insiste: “Quanto? Muito ou pouco?” Nossa conversa, bem louca e engraçada, é a mesma que se entretém com uma criança pequena. Pergunto a ela quem eram seus seis irmãos e ela me responde, pelo nome, em ordem cronológica. “E eu sou a caçulinha!”, faz questão de pontuar ao final. Sim, Tata, você é.

Tut etc

As notícias do derradeiro rolê de Tutancamon me envolveram num certo clima de Mercúrio retrógrado que amo. Nada como passar alguns dias andando para trás e devagar, fluindo nas imagens que ressoam dentro da gente. Flashes da minha amizade com Tutancamon retornou com Mercúrio, ou melhor, com Thot, o Mercúrio egípcio. Entronizado faraó aos 9 e morto aos 18, ele me fez companhia em algum lugar no passado entre meus 14 e 17, pelas datas dos livros que resgatei na estante assim que soube de sua turnê pela Europa. Quando esta for encerrada, o faraó-menino deve voltar para casa e nunca mais sair de sua ala no Museu do Cairo. Uma página arrancada de uma National Geographic, estampada com seu lindo rosto, de lábios e nariz africanos e olhos bem delineados, ficou anos colada na parede do meu quarto. Era sua máscara mortuária de ouro, uma imagem que, a meu ver, só tem concorrente à altura no busto de sua mãe-sogra, a glamurosa Nefertiti. Die young, live forever é um adagio que orna com Tut. Vivo ele não fez quase nada. Ao contrário, desfez o que seu pai-sogro Aknaton, o faraó herege, tinha feito antes dele: instituir, pela força, o monoteísmo como religião oficial do Egito. Não foi pouca coisa restaurar a velha religião, combatendo o legado do próprio pai e devolvendo o poder aos velhos deuses (e principalmente aos seus sacerdotes). Morto, Tut mobiliza multidões loucas para ver as mesmas maravilhas que deslumbraram, primeiro e pela ordem, o arqueólogo americano Howard Carter, seus capatazes egípcios, os felás descendentes dos construtores de pirâmides e, por fim, Lady e Lord Carnavon (os mecenas da expedição), em 1922. Gosto de quando, pela primeira vez, Carter mete uma vela (!!!) dentro da fresta aberta na parede da tumba recém-descoberta e diz: “Estou vendo coisas maravilhosas!” Eu também, Howard! Todos os dias! Tut e sua fabulosa entourage vão se hospedar, de sábado que vem até setembro, no anexo do Louvre que fica no parque La Villette. Pergunta: o que é ser rico de verdade? Resposta: é pegar um jatinho só para visitar Tut em Paris pela última vez (a primeira foi em 1967).

Por falar em Egito, achei Pantera Negra horroroso. Assim como a Mulher-Maravilha reuniu estereótipos masculinos dotando-os, para faturar, de xereca e peitos, Pantera Negra é uma coleção de clichês de super-herói branco maquiados de preto. Roteiro mal amarrado, visual ultra-kitsch porém levado a sério, historinha maniqueísta de gritar, bons atores engessados em personagens planos. Os estilos de atuação são (a) o sapiente-grandiloquente e (b) o espertinho-sarcástico. Não há super-bonder que dê jeito na tentativa do filme de colar civilização ultratecnológica com cultura tradicional. Poderosa Ísis, que pastiche! A linha de sutura usada, no filme, para reunir esses e outros opostos, é sintética e de baixa qualidade. O resultado não poderia ser outro: ela esgarça logo de cara. Juntar as duas coisas num roteiro seria um trabalho para o Super-Roteirista, aquele que bebe nas fontes arquetípicas (as do HQ inclusive) e pede consultoria a um Joseph Campbell da vida. Não funciona para surfistas da mais nova onda sobre a qual tenta se equilibrar a puta velha Hollywood. Afinal o politicamente correto que arranha a superfície (e até por isso mesmo) dá bilheteria. E as mídia pira. O filme só convence quem ou se contenta com ensopado enlatado de HQ com mitologia ou acha tudo lindo só porque todos são pretos. A pobre deusa-gata Bast, mal citada e já empastelada, é apenas um exemplo da ruindade da coisa. O Egito já corria por fora quando a Grécia ainda mal engatinhava, gente! Fazer um filme desses é sobretudo um trabalho mercurial, o de tecer ou restaurar as conexões perdidas da imagem com o arquétipo, usando para isso as linguagens de cinema e HQ, com o objetivo de abordar os mesmos temas, sempre candentes, só que a partir de uma visada simbólica. Algo do tipo “segura na mão de Thot e vai” derretendo estereótipos ao invés de consolidá-los ainda mais. Só que não. Os caras confundem símbolo com efeitos especiais. Na minha modestíssima opinião, que é a de quem segue mitologia como alguns seguem o Face e o Insta, o imenso potencial que o filme tinha para mobilizar imagens potentes do imaginário africano e da alma negra profunda acabou encalhado numa loja de moda e decoração étnica. Uma pena. Que não é a de Maat.

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