Efeitos de Mercury retrógrado

Quando eu era pequena, a TV Record tinha um programinha xarope, embora sem efeitos colaterais afora os decorrentes da ingestão de carboidratos e açúcar. Chamava-se Pullman Junior e passava no final da tarde, depois que a gente voltava de brincar na rua, fazia lição e tomava banho, esperando a hora do jantar. Era uma espécie de ritalina televisiva que servia para baixar nossa “excitação”, como dizia meu pai, e nos enquadrar no modo descanso. Apresentado por um arremedo de padeiro chatíssimo e inverossímil, o roteiro era basicamente esse mestre de cerimônias botar o microfone na frente da boca cheia de bolo das criancinhas presentes (todas engalanadas com coroinhas de papel crepom) e perguntar para quem elas queriam mandar beijos. Como o tempo, apareceram algumas entrevistadoras, mocinhas ainda mais tontas do que o padeiro, se é que isso era possível. As crianças respondiam e saiam coisas ininteligíveis, em meio a uma chuva ansiosa de bolo mastigado que emporcalhava o microfone. Decerto um programa ao qual certas mães perfeitas de hoje em dia jamais levariam seus rebentos, temendo de atos de pedofilia a graves contaminações por via oral. A parte entorpecente do programa servia para nos deixar meio aturdidos, enquanto tentávamos identificar, nem sempre com sucesso, a quem se destinava a burocrática homenagem que chafurdava num lamaçal de massa de bolo misturada com saliva. Alguns entrevistados se atrapalhavam, zelosos de citar todas as tias, padrinhos, avós e agregados que – eles sabiam – estavam, naquele momento, vegetando diante da tela em preto e branco, ansiosos por uma migalha de deferência com bolo Pullman. No interlúdio desse ritual modorrento, vinham os cartoons, que era o que nos interessava… nem sempre tão anestésicos quanto nossos pais gostariam. Para dar uma ideia, conheci os super-heróis da Marvel no Pullman Júnior, em desenhos semi-animados, cheios de imagens paradas com locução de fundo: Homem de Ferro, Namor, Capitão América, Hulk… Ainda sei a musiquinha de abertura dos desenhos, caso interesse (“… tem um viking imortal com um martelo infernal / e o galante lançador do escudo voador…”). Lembrei disso agora nem sei porque. Pode ser porque eu esteja vivendo mais uma temporada de Mercúrio retrógrado. Ou porque ontem vi o primeiro capítulo da série A Amiga Genial, da HBO, baseada nos livros da Elena Ferrante, e me lembrei como minha vida de menina era, ao mesmo tempo, muito limitada e muito interessante. Ou porque ando achando esta contemporaneidade digital, moralista e histérica um saco absoluto. Enfim, se você ainda está vivo e se lembra do Pullman Junior, por favor, poste um comentário!

Na metáxis

Há deuses que são cêntricos. Demarcam um território. Desenham fronteiras claras e o povoam de atributos, imagens, símbolos, emblemas, virtudes, vícios. No politeísmo, o universo está coalhado de centros, cada um deles regido por uma divindade que muda de forma, nome, cor, temperamento, roupa em resposta ao imaginário local que a engendrou e nutre. Nos monoteísmos, a coisa se complica. O território tem de ser o universo inteiro e não sobra nada para mais ninguém. Daí os problemas insolúveis que advêm desse unilateralismo exclusivista, que pode até funcionar nos protocolos ideológicos, nos dogmas, nas doutrinas, nas sharias, mas que, na prática, resulta num empurra-empurra cósmico-caótico de dimensões calamitosas. Deuses cêntricos não me interessam hoje. Quero falar de deuses que não têm centro, que não fazem questão nenhuma de ter um centro, que se constituem como descentrados e, por essa razão, estão livres para servir a centros alheios. São os deuses da metáxis, sobre quem aprendi com Rafael Lopez-Pedrazza. Circulam no espaço liminar. Enxameiam em torno da soleira. Regem o tecido conjuntivo. Presidem encruzilhadas. Zelam pelos caminhos. Guardam bordas e preservam divisas. Movem-se pelo território medial e nele tecem conexões que propiciam relações e trocas, enriquecendo os centros que deles dependem para comunicar-se. Um desses deuses é meu daimon Hermes, o Mercúrio duplo regente que me acompanha desde que estreei nesta encarnação, um padrinho paradoxal que me alterna entre a sensatez focada de Virgem e a dispersão inquieta de Gêmeos. Vou falar dele hoje, só dele e não de anjos, nem mesmo de Eros, “o grande demônio” a que se referiu Diotima, a mestra de Sócrates, citada n”O banquete”. Esse daimonismo das figuras da metáxis implica, segundo Pedrazza, uma certa impessoalidade, uma aparente recusa de adesão do arquétipo a formas definidas demais, a valores excessivamente coagulados. Os deuses da metáxis são elusivos, escorregadios, irredutíveis a um só domínio. Têm, em contrapartida, grande flexibilidade e permeabilidade, qualidades não heroicas fundamentais, quando a contribuição é pôr a psique em movimento, se e quando ela tenta estagnar num único polo, num centro egóico renitente e quebradiço. Deuses da metáxis trabalham para aproximar e reunir os opostos, promovendo intermitentemente a Solutio e a Coagulatio do ego, com o fito de aliviá-lo de suas ilusões fundamentalistas. Quando, porém, a região da metáxis se esvazia dessas figuras e nossa psique congela em opostos inconciliáveis, dando ensejo a todo tipo de polarização esquizofrênica, não importa a lateralidade, estamos ferrados, só para usar um termo técnico. E já que há muito os deuses viraram doenças, vêm tentando substituí-los (sem muito sucesso, segundo James Hillman) algumas figuras humanas a quem caberia viver (mais do que simplesmente teorizar) e trabalhar na zona da metáxis, tanto da psique individual quanto da coletiva. Como servos de Hermes que deveriam ser, espera-se que esses agentes funcionem como psicopompos, guias da alma, pequenos sacerdotes do baixo clero dos deuses subalternos e imprescindíveis, os mensageiros, arautos, motoboys alados em permanente movimento “entre”, promotores do insight, hermenêutas de sonhos e oráculos de outros deuses, pastores de almas de vivos e de mortos. Hermes é um deus servidor, ele mesmo patrono e ideal dos servos, menos digno que medalhões como Apolo e Palas Atena, como afirma o Pedrazza. E quando seus servos, a quem caberia trabalhar na metáxis, promovendo a flexibilidade e vascularização de nosso tecido conjuntivo psíquico, se bandeiam para a banalidade histérica reinante e perdem a noção de seu papel e função, então estamos mesmo fodidos. Com a metáxis virando um deserto da alma desprovida da capacidade de tecer conexões, interditada de insights, carente de sabedoria prática, impedida de acessar as mensagens que sussurram muito abaixo da demência das redes sociais; quando os que deveriam servir à metáxis se envolvem em debates paranóicos pelo Whatsapp e são incapazes de promover, com sua hermenêutica, visões menos superficiais e vulgares dos fatos brutos, rendidos que estão à polarização vigente, temos de nos virar sozinhos. O que talvez seja um excelente subproduto da loucura que acomete os que deveriam nos ajudar a lidar com nossa loucura. Temos de invocar nós mesmos, em nós mesmos, aos deuses sem centro: a Hermes e Eros e aos anjos, para que eles nos ajudem a enxergar além das projeções maniqueístas e escatológicas que instauram o delírio persecutório, talvez por parte daqueles que buscam algum tipo de experiência que os faça se sentir mais reais. Os quadros coletivos de pânico que acometem jovens e nem tão jovens assim, todos pueres, são, a meu ver, sinais catastróficos da irrupção de Pã, um filho de Hermes. Pã experimentado, neste momento, como sombra. O Grande Todo que ameaça o ego individual de dissolução anda estremecendo as estruturas da consciência, sem que haja hermenêutas com coragem e imaginação para divisá-lo e interpretar suas mensagens. Estão em surto de pânico, os hermenêutas teóricos. Diante desse cenário, que Hermes, Eros e os anjos valham àqueles que os reconhecem, neste interregno despovoado e ermo, destituído de imaginação e de emoções que não sejam as fabricadas pelas redes sociais,  ajudando-nos assim a viver a angústia individuadora deste episódio coletivo de Solutio e Coagulatio. Que eles nos auxiliem a buscar uma visão mais psicológica e mitológica dos eventos do cotidiano banal, a fim de que nossa vida ganhe mais utilidade e profundidade.

Odisseia

PRELÚDIO COM HOMERO

A Radio France Internationale remunerou um sortudo para comentar a Odisseia, instalado numa ilha do mar Egeu, em pleno verão grego. Síntese de férias arquetípicas com um trabalho dos sonhos, o projeto resultou numa série de podcasts, transmitidos em 2016. A Sonia me deu de aniversário o livrinho precioso, com a transcrição da série. Posso não ter o verão grego, nem uma ilha no mar Egeu, nem mesmo uma rádio que ache relevante transmitir podcasts sobre a Odisseia (embora dê para ouvir “Un eté avec Homère”, de Sylvain Tesson, na Radio France Inter, é só baixar o APP). Mas trago comigo, há 44 anos, uma versão amarelada e deveras remendada com fita adesiva (várias gerações dela) desse clássico dos clássicos que nunca nutriu veleidades de livro sagrado e, por esse motivo, não fundou doutrinas nem inspirou dogmas, graças a Zeus. Contentou-se em iluminar um vasto cabedal de vidas humanas, em sua longa e fecunda existência. Gosto de pensar que tenho a Odisseia em comum com meu querido Michel de Montaigne, por exemplo. E se não tem vocação para revelação divina, a Odisseia tampouco arroga-se a condição de relato histórico. Pura fantasia politeísta, a narrativa do retorno de Odisseu para sua amada Ítaca, continua sendo um farol aceso em meio à grossa neblina da História. Depois de alumiar as mais densas trevas, continua a apontar um rumo para dentro de nós, nesta não menos tenebrosa era da pós-verdade digital.

 

VALEU, MONOTEÍSMOS!

Escrita há aproximadamente 2500 anos, ela e sua irmã, a Ilíada, ainda servem de vacina e antídoto contra fundamentalismos, sejam eles religiosos ou políticos. Aliás, desfavor supremo que as ideologias monoteístas (com ou sem Deus) nos prestaram, esse de literalizar os mitos, a fim de arrancar deles uma verdade única, para uso de poucos e sujeição de muitos. Hoje em dia, com a palavra “mito” sendo reiteradamente tomada como sinônimo de mentira, fica quase impossível compreender o poder de contraveneno que os mitos oferecem aos seres humanos, uma imunidade simbólica que ajuda a prevenir, podendo até mesmo curar, toda sorte de intoxicação racionalista, além de nos fazer mais espertos na identificação de divindades ilegítimas e oportunistas.Vejo na perversão literalista que confunde mito com mentira uma clara intenção, consciente ou não, de impedir nosso contato com a verdade em forma de metáfora, essa estratégia genial da mente simbólica para submeter a realidade bruta ao escrutínio da imaginação. O problema é que, carentes de imunidade mítica, a gente acaba por atuar os mitos, relegados ao inconsciente pela marcha inexorável da todo-poderosa razão lógica, mascarada de ego monocrático. Daí que, quando emergem, na forma dos complexos coletivos e individuais, os mitos nos avassalam por completo, seja na escolha de um parceiro, seja na de um candidato.

 

NOSSOS DEUSES RASTAQUERAS E OUTRAS PORCARIAS

Na deplorável campanha política que rola enquanto escrevo, a figura do Pai arquetípico, Odisseu perdido no mar, tentando voltar para casa, foi reduzida a dois estereótipos polares, igualmente indigentes e perigosos: o pai permissivo e o pai controlador. E a tragédia se avizinha, quando seres humanos mortais são possuídos por uma energia inconsciente, transpessoal, e fazem uso dela de forma ímpia, confundindo-se, eles mesmos, com deuses. Aprenderemos, como a Odisseia ensina, a assumir a responsabilidade pelo nosso destino? Tenho sérias dúvidas. Na Alemanha nazista, o mito inconsciente, manipulado por marqueteiros pra lá de sinistros, fez o que fez e nem por isso o monstruoso imaginário nazista foi erradicado de psique coletiva. O mesmo ocorreu na finada URSS stalinista, transformada na Rússia subjugada por uma terceira modalidade de czarismo. Nem na Venezuela chavista, tampouco na Espanha franquista. As pessoas são tão tolas que acreditam que o mal tem mão única, como certas avenidas. O mal é multiforme e resiste ao nosso bom-mocismo politicamente correto. Ele não será erradicado jamais, a menos que a raça humana seja, ela mesma erradicada. A Sombra é, também ela, um arquétipo. Nossa única defesa contra seus subprodutos, o nazismo, o racismo, o sexismo, os totalitarismos etc, todos reduzidos pelo ego a categorias racionais manobráveis, é perceber que eles, os subprodutos, se enraízam no irracional absoluto, na densa noite antropológica, nos porões viscosos do nosso cérebro límbico, lá onde a razão lógica é calcinada à chegada. Conscientes, narrados, vividos na imaginação, restaurados no mundo como estratégia calibradora da mente frente ao real, os mitos nos dão acesso à razão simbólica, a qual não subestima a eternidade e o poder de nossos titãs e monstros, precariamente encarcerados no Tártaro. Aprender superficialmente com as teorias do ego racional não é, nem de longe, aprender na profundidade da alma, que nos pede sensibilidade e experiência…

 

POSLÚDIO COM HOMERO

Li a Odisséia na adolescência, mais interessada nos deuses do que nos homens, eu, menina batista, herege, louca por imagens e interditada delas por um tipo muito específico de discurso literal. E a li ávida, pulando partes, pecado do qual já fui absolvida por Umberto Eco e Alberto Manguel. Ao longo dos anos, pesquei o livro na estante muitas vezes, fosse para reler algum trecho, fosse para encontrar uma epígrafe ou matar a saudade de um personagem. Gosto de repassar meus epítetos favoritos, Atena deusa dos olhos verde-mar, Odisseu progênie de Zeus, Agamenon pastor de guerreiros, Aurora de dedos róseos, Helena de longos peplos, o altivo Telêmaco, a sensata Penélope, o louro Menelau… Porém nunca mais retomei o livro inteiro. Foi o livrinho que a Sonia me deu e a inveja de Sylvain Tesson que tiraram a Odisseia do esquecimento honroso da estante, para coroar com ela minha precária pilha de criado-mudo. Prova de que a alma pode dar sentido e utilidade, mesmo às emoções mais inadequadas.

Brio

brio

O brio é uma qualidade humana que, para o mal de nossos pecados, saiu de moda faz tempo. Prova disso é a tradução tosca do título do filme “Le Brio”, de Yvan Attal, que acabou virando “O orgulho”. O fulano que trocou brio por orgulho não entendeu rien de rien, como canta Edith Piaf. O “brio” tem uma complexidade e uma sofisticação de que o “orgulho” carece, mais aderido que é aos chiliques do ego do que às sutilezas da alma. O orgulho ostenta e o brio revela. E é sobre revelação esse filme simples, sem pretensões estéticas nem narrativas estroboscópicas, só uma historia demasiado humana, com começo, meio e fim. Se fosse um filme americano, suspeito que a gente receberia de “brinde” um maço em preto e branco de lições politicamente corretas. Como é um filme francês, podemos nos deleitar à vontade nas nuances. Se tem um ator que eu persigo, é Daniel Auteil. Faz trinta que sou fã de seu narigão gaulês e de seu talento. A primeira vez que o vi atuando foi em “Jean de Florette”, mocinho como eu, ao lado do grande Yves Montand (ele, não eu). Desde então, vou ver tudo o que ele faz, mesmo porque ele costuma ser maior do que a maioria de seus filmes. Nem ligo para o diretor, a crítica (essa então, eu passo reto), os prêmios… “O Brio” é um tour-de-force entre ele e uma jovem atriz maravilhosa, Camélia Jordana, que merecidamente ganhou o César 2017 de revelação pelo papel. Jordana e Auteil dão vida a Neila Salah e Pierre Mazard, aluna caloura e professor decano de Direito na Universidade Paris 6. Opostas e complementares, as personagens são, de saída, enredadas numa armadilha típica deste nosso espírito de época. Neyla, moradora da periferia de Paris, neta de imigrantes árabes, já chega atrasada à primeira aula de Retórica e na vibe certa para encarnar o tipo passivo-agressivo de vítima do sistema. O professor Mazard, por sua vez, cínico, desencantado, prepotente e vulnerável, é o algoz sob medida para ela. E os dois se entrechocam, a côncava e o convexo. Um incidente desagradável irá promover um encaixe e impedir que ambos se dissolvam no caldo ralo do maniqueísmo reinante. O que salva a ambos é justamente o brio. O brio que Neyla vai descobrir e que dá a ela resistência e auto-estima, impedindo-a de mergulhar no complexo cultural que está logo ali, de goela aberta, pronto para mastigá-la. O brio que o professor Mazard vai redescobrir e que lhe permitirá renovar seu compromisso com o papel de professor, revigorar-se como pessoa e salvar seu emprego. O roteiro pisa em ovos mas não resvala nos estereótipos, ao contrário: é o arquétipo do mestre-aprendiz que fala, com aluna e professor envolvidos num embate retórico e existencial que os reconecta, cada qual, com seu destino. Pensando sobre a perda do significado de brio em nossa língua, creio que compreendi porque a palavra caiu em desuso, a ponto de ser substituída pelo que não quer dizer. Num mundo em que é muito importante ter pena de si mesmo e, se possível, fazê-lo à luz das redes sociais, ao som e à fúria das narrativas midiático-digitais, o brio não é bem vindo simplesmente porque é o oposto da auto-piedade.  Para recuperar seu sentido, recorro ao bom e velho Aurélio: “Brio, do celta ‘brigos’, força, coragem. Sentimento da própria dignidade. Ânimo, valentia. Galhardia , garbo. Vibração, entusiasmo, fogo. Meter em brios: estimular alguém da melhor maneira possível”. Notaram como trocar brio por orgulho é um grave equívoco?

“Onde andará o Rocambole?”

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OBLÍVIO – Olvido, esquecimento (Novo Aurélio).

Oblivion, cidade imaginária de Monteiro Lobato, morreu muito antes das de Ítalo Calvino nascerem. “Cidades Mortas”, livro lindo, brasileiríssimo, anda meio esquecido, ele também, na barafunda sombria destes tempos em que Lobato virou racista e Flaubert, misógino. Os neo-puritanos não perdoam e por isso não tenho neles nenhum prazer, citando o Eclesiastes. Passarão, assim como as “cidades moribundas” de Lobato. Com a diferença de que as cidades, tendo sido bem vividas e imaginadas por ele, acabaram imortalizadas nesta pequenina maravilha. Eu mesma cabo de acordá-las, ao abrir meu livro velhinho, herança do pai da Denise, em busca de um trecho. Eu ouvia no rádio os resultados das últimas pesquisas sobre hábitos de leitura no Brasil e me lembrei de Oblivion.

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As “Cidades mortas” de que Lobato fala estavam localizadas no norte do estado de São Paulo, foram erigidas no rastro da “uberdade nativa do solo” e, “de repente”, viram-se “tolhidas de insanável caquexia”. Esvaia-se a fertilidade, “pela reiterada sucção de uma seiva não recomposta” – adoro isso. A alma humana é igual que nem. O “viver decrépito” de Oblivion, porém, ao contrário de muitas almas desertificadas, ocultava três tesouros. Prova da resistência da alma aonde quer que haja livros velhos, pó, mofo, pelo de gato e de cachorro, migalhas, traças etc. Aos viciados em limpeza e alérgicos em geral, esclareço que não estou sendo literal. Ainda bem que Lobato estava lá, morrendo de tédio nos fins de semana, sufocado pelo marasmo reinante, para decidir revirar cacarecos e trazer à tona a alma de Oblivion.

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Como eu dizia, e a propósito da Bienal do Livro, outro dia eu escutava no rádio a ladainha dos resultados das pesquisas sobre hábitos de leitura no Brasil, com seus números diminutos feito cocôs de barata (pode pôr na lista do parágrafo anterior). Enquanto eu ouvia, as perguntas fervilhavam. Comprar livro é o mesmo que ler livro? Ler lixo impresso conta? A pessoa que não lê, não lê porque não pode, porque não tem biblioteca pública nem sebo nem livraria na cidade, porque não tem vizinho, colega ou tia que lhe empreste livros? Ou não lê porque não quer, porque não tem vontade nem curiosidade, porque não se interessa em aprender a ler de verdade, porque está com o nariz grudado no celular e com os olhos vidrados numa tela (não de Kindle)? Estou perguntando sem sacanagem, porque afinal número de livros comprados não é número de livros lidos, por exemplo… E perguntar não ofende, certo?

Seja qual for a situação desses não-leitores da pesquisa, acredito que ela não deva ser pior que a dos moradores de Oblívion. Talvez continue igual, cem anos passados. “Desviou-se dela a civilização, o telégrafo não a põe à fala com o resto do mundo, nem as estradas de ferro se lembram de uni-la às redes por intermédio de um humilde ramalzinho”. Muitas cidades no Brasil continuam olvidadas como Oblívion. Com uma diferença capital, porém: em Oblívion, havia três livros, que circulavam incessantemente entre os habitantes. “Uns volumes truncados do “Rocambole”, para enlevo das imaginações femininas” (Observação de um cidadão: “Infelizmente está incompleto, faltam uns dezessete volumes”), “A ilha maldita”, de Bernardo Guimarães, para enlevo dos paladares nacionalistas” e “La mare d’Auteuil”, de Paulo de Koch, para uso dos conhecedores do francês”. Sim, a biblioteca circulante de três livros de Oblívion tinha uma “sessão” inteira de literatura francesa!

leitora na varanda

A origem da “biblioteca” de Oblívion desapareceu na aurora dos tempos. Talvez algum padre falecido a tenha legado à cidade, sem querer. Talvez tenha sido acidental, como o Big Bang e a caixa de livros velhos que a vizinha de minha tia Jenny botou na rua um dia. Por sorte, eu estava lá e resgatei dela o dobro do acervo da “biblioteca” de Oblívion. Não vou me delongar, até porque não quero roubar aos leitores deste post o prazer de ler, na íntegra, o capítulo e o livro inteiro de Lobato. Só quero contar que, certo dia, tendo esgotado os livros que levara, ele precisou recorrer à “biblioteca” e escolheu o “Rocambole”, de autoria de um certo Ponson, um livro “velho como um monumento egípcio e, como ele, revestido de inscrições. Cada leitor que passava, ia deixando o rastro gravado a lápis”(…) “E assim, por quanto espaço em branco tinha o livro, margens e fins de capítulos, as apreciações se alastravam, com levíssimas variantes ao sóbrio ‘Li e gostei. inicial. Havia nomes antigos, de pessoas falecidas, e nomes das meninas casadeiras da época”. Oblívion, mesmo na sua caquexia decadente, lia, comentava, circulava, conservava, compartilhava seus três livros.

Não tenho como não terminar senão ecoando de novo Lobato:

“Essa trindade impressa bastava à educação literária da cidade. Feliz cidade! Se é de temer o homem que conhece só um livro, a cidade que só conhece três é de se venerar.”

 

 

 

Páscoa

Mulher-Esqueleto

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Quem me conhece bem, sabe que, de todo o calendário canônico, a Páscoa é minha data favorita. Amo a Páscoa tanto quanto detesto o Natal, e por muitas e diferentes razões. Creio, porém, que o que mais me agrada na Páscoa é seu sincretismo, a recusa dessa festa a ser reduzida a uma única tradição e a um sentido de mão única. Nenhuma festa cristã é mais acolhedora das tradições pagãs, nenhuma é tão tolerante a imagens originárias de outras mitologias, nenhuma (fora as queridas festas juninas, recentemente demonizadas pelo protestantismo evangélico) é tão aberta e permeável ao folclore popular. Infelizmente, porém, aqui no Brasil, pelo menos, há muito tempo as crianças já não escutam de seus avós e pais as histórias que iluminam a Páscoa e a retiram da agenda do mercado para devolvê-la à da imaginação, que fertiliza a tradição, renovando seus significados e encantando com eles a vida cotidiana. Eu poderia ter…

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Gato

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Já faz uma semana, recebi um aviso. Para ocupar o nicho da deusa rotativa que integra meu altar doméstico – uma imagem do sagrado feminino que troco a cada domingo –  veio Bast, a deusa-gata egípcia. Ela me disse com clareza, ronronando: INDEPENDENTE. Foi preciso desenhar para eu compreender. E quem desenhou foi Carlinhos, meu amado raja, nariz-de-goiabinha, lucinho-pelucinho, Caco, o mais doce, terno, meigo, delicado entre os felinos, meu bebê-gato de 10 anos. Estava muito doente desde o carnaval de 2015, com meio rim funcionando de pura compaixão por nosso apego doentio. Não morreu há três anos, porque nos recusamos a aceitar a brevidade de sua linda vidinha. Internado para tratamento intensivo, Caco se enfureceu, reuniu toda a saúde da alma selvagem que resistia em sua alma felina e atacou os veterinários da UTI com garras e dentes que não sabíamos que ele tinha. Recebeu alta imediata de uma felinóloga de braços ferozmente arranhados e juramos que nunca mais o submeteríamos às torturas da ciência médica. Como bicho, ele contava com essa vantagem sobre nós, humanos. Essa foi a primeira manifestação de uma deusa-gata selvagem no dócil Caco: Sekhmet, a irada cabeça-de-leoa. Faz exatamente três anos. Aconselhados por uma veterinária sábia, ela também adoradora de gatos, adotamos um protocolo de florais e homeopatia, vitaminas e um pozinho branco mágico que a gente comprava na Amazon e amigos piedosos aceitavam trazer na mala, quando viajavam aos EUA. Duas vezes por dia, eu ministrava o ritual que ele suportava estoico (Caco era um estoico da linhagem do grande Marco Aurélio). Outra devota de Bast nos ajudava a cada 15 dias, aplicando uma fluidoterapia incômoda, que o deixava aflito por fazer desaparecer depressa, com lambidas prestimosas, a bolinha de soro que crescia em sua barriga. Bobinho querido, ele vinha quando o chamávamos para tomar os odiados remédios… Os bobinhos vivem mais do que os espertos, dizia a veterinária. No final, porém, o bobinho revelou-se mais esperto que todos nós.

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Passamos dias lindos na praia no derradeiro janeiro de Caco. Ele amava a casa, o gramado, a liberdade usada com sabedoria pelos gatos, de explorar o entorno sem nunca perder o rumo da voz do dono (que imbecil inventou que gatos não amam as pessoas?). Estava feliz, comendo bem, bebendo muita água, subindo nos troncos dos coqueiros, tirando longas sonecas no beliche e em colos cuidadosamente selecionados, suportando o banho, a medicação e a antipatia de sua bully-mor, Zelda, com a mais estoica das elegâncias. Era a despedida e a gente aproveitou-a intensamente, ainda que não soubéssemos que era. E como a gente nunca sabe, melhor é desfrutar o bom e suportar o ruim com o savoir-vivre de um felino, em nome da beleza e da integridade. Foi na quarta-feira de cinzas que ele sumiu, dia ruim de uma semana cheia de más notícias e eventos funestos, portal da quaresma. Caco não entrou pela janela do meu escritório miando, para nos acompanhar no café e ganhar a tirinha de presunto, duvidoso prêmio por tomar os remédios sem cuspir. Na semana anterior, ele tinha começado a vomitar e havíamos incluído mais um comprimido no já extenso repertório. Ele odiou, mas suportou sem se queixar. Não veio mais tarde acompanhar a faxineira na sua faina pela casa e pedir para beber água na torneira do tanque. Não veio quando chamamos, cada um do seu jeito, com assobios e entonações variadas. Não ouvimos o barulho de sua aterrisagem no telhado, não ouvimos seu miado longo e forte, avisando: Estou indo! Choveu, esfriou e ele não veio se enrodilhar no sofá do escritório, nem me fazer companhia, embolado sobre a impressora. Simplesmente não veio. Nem à noite, nem no dia seguinte. Confeccionamos cartazetes com a foto dele, nossos celulares, espalhamos pelos postes da rua… Ele trazia no pescoço uma coleira com sua medalhinha de identificação e meu telefone gravado, então, quem sabe… Choramos, continuamos chamando, mas acentuou-se o vazio da sua linda presença rajada em nossa vida. Até a rainha Zelda inquietou-se, pero no mucho. Hoje de manhã fui trocar a deusa rotativa, para a qual reservo um espaço no meu altar doméstico, entre Kuan-Yin e Notre Dame de Chartres. Tiro-a dentre as cartas de um oráculo do feminino divino que ganhei de uma amiga-irmã. Aos domingos, agradeço à deusa que tirei há uma semana, e sempre observo que a energia dela, a imagem dela, seus atributos me visitaram de algum modo e fizeram diferença. Medito diante dessa imagem todos os dias, uma entre deuses e mortos queridos, cuja presença não literalizo e que me aconselham e inspiram. Foi quando Bast, antes de ser trocada por Ísis, me ronronou ao ouvido : INDEPENDENTE. Irene já tinha me contado que bichos domésticos por vezes se afastam de casa para morrer, porque sua sabedoria selvagem, o instinto que perdemos, lhes orienta a não atrair aves comedoras de carniça para perto do lugar aonde viveram e dos seres que amaram. O mais doméstico dos felinos, meu amado raja Carlinhos, lindo e delicado, foi totalmente selvagem e livre quando escolheu não ser mais incomodado por nossa ansiedade e morrer como um gato de verdade. Sua independência foi puro amor.

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