Páscoa

Mulher-Esqueleto

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Quem me conhece bem, sabe que, de todo o calendário canônico, a Páscoa é minha data favorita. Amo a Páscoa tanto quanto detesto o Natal, e por muitas e diferentes razões. Creio, porém, que o que mais me agrada na Páscoa é seu sincretismo, a recusa dessa festa a ser reduzida a uma única tradição e a um sentido de mão única. Nenhuma festa cristã é mais acolhedora das tradições pagãs, nenhuma é tão tolerante a imagens originárias de outras mitologias, nenhuma (fora as queridas festas juninas, recentemente demonizadas pelo protestantismo evangélico) é tão aberta e permeável ao folclore popular. Infelizmente, porém, aqui no Brasil, pelo menos, há muito tempo as crianças já não escutam de seus avós e pais as histórias que iluminam a Páscoa e a retiram da agenda do mercado para devolvê-la à da imaginação, que fertiliza a tradição, renovando seus significados e encantando com eles a vida cotidiana. Eu poderia ter…

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Gato

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Já faz uma semana, recebi um aviso. Para ocupar o nicho da deusa rotativa que integra meu altar doméstico – uma imagem do sagrado feminino que troco a cada domingo –  veio Bast, a deusa-gata egípcia. Ela me disse com clareza, ronronando: INDEPENDENTE. Foi preciso desenhar para eu compreender. E quem desenhou foi Carlinhos, meu amado raja, nariz-de-goiabinha, lucinho-pelucinho, Caco, o mais doce, terno, meigo, delicado entre os felinos, meu bebê-gato de 10 anos. Estava muito doente desde o carnaval de 2015, com meio rim funcionando de pura compaixão por nosso apego doentio. Não morreu há três anos, porque nos recusamos a aceitar a brevidade de sua linda vidinha. Internado para tratamento intensivo, Caco se enfureceu, reuniu toda a saúde da alma selvagem que resistia em sua alma felina e atacou os veterinários da UTI com garras e dentes que não sabíamos que ele tinha. Recebeu alta imediata de uma felinóloga de braços ferozmente arranhados e juramos que nunca mais o submeteríamos às torturas da ciência médica. Como bicho, ele contava com essa vantagem sobre nós, humanos. Essa foi a primeira manifestação de uma deusa-gata selvagem no dócil Caco: Sekhmet, a irada cabeça-de-leoa. Faz exatamente três anos. Aconselhados por uma veterinária sábia, ela também adoradora de gatos, adotamos um protocolo de florais e homeopatia, vitaminas e um pozinho branco mágico que a gente comprava na Amazon e amigos piedosos aceitavam trazer na mala, quando viajavam aos EUA. Duas vezes por dia, eu ministrava o ritual que ele suportava estoico (Caco era um estoico da linhagem do grande Marco Aurélio). Outra devota de Bast nos ajudava a cada 15 dias, aplicando uma fluidoterapia incômoda, que o deixava aflito por fazer desaparecer depressa, com lambidas prestimosas, a bolinha de soro que crescia em sua barriga. Bobinho querido, ele vinha quando o chamávamos para tomar os odiados remédios… Os bobinhos vivem mais do que os espertos, dizia a veterinária. No final, porém, o bobinho revelou-se mais esperto que todos nós.

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Passamos dias lindos na praia no derradeiro janeiro de Caco. Ele amava a casa, o gramado, a liberdade usada com sabedoria pelos gatos, de explorar o entorno sem nunca perder o rumo da voz do dono (que imbecil inventou que gatos não amam as pessoas?). Estava feliz, comendo bem, bebendo muita água, subindo nos troncos dos coqueiros, tirando longas sonecas no beliche e em colos cuidadosamente selecionados, suportando o banho, a medicação e a antipatia de sua bully-mor, Zelda, com a mais estoica das elegâncias. Era a despedida e a gente aproveitou-a intensamente, ainda que não soubéssemos que era. E como a gente nunca sabe, melhor é desfrutar o bom e suportar o ruim com o savoir-vivre de um felino, em nome da beleza e da integridade. Foi na quarta-feira de cinzas que ele sumiu, dia ruim de uma semana cheia de más notícias e eventos funestos, portal da quaresma. Caco não entrou pela janela do meu escritório miando, para nos acompanhar no café e ganhar a tirinha de presunto, duvidoso prêmio por tomar os remédios sem cuspir. Na semana anterior, ele tinha começado a vomitar e havíamos incluído mais um comprimido no já extenso repertório. Ele odiou, mas suportou sem se queixar. Não veio mais tarde acompanhar a faxineira na sua faina pela casa e pedir para beber água na torneira do tanque. Não veio quando chamamos, cada um do seu jeito, com assobios e entonações variadas. Não ouvimos o barulho de sua aterrisagem no telhado, não ouvimos seu miado longo e forte, avisando: Estou indo! Choveu, esfriou e ele não veio se enrodilhar no sofá do escritório, nem me fazer companhia, embolado sobre a impressora. Simplesmente não veio. Nem à noite, nem no dia seguinte. Confeccionamos cartazetes com a foto dele, nossos celulares, espalhamos pelos postes da rua… Ele trazia no pescoço uma coleira com sua medalhinha de identificação e meu telefone gravado, então, quem sabe… Choramos, continuamos chamando, mas acentuou-se o vazio da sua linda presença rajada em nossa vida. Até a rainha Zelda inquietou-se, pero no mucho. Hoje de manhã fui trocar a deusa rotativa, para a qual reservo um espaço no meu altar doméstico, entre Kuan-Yin e Notre Dame de Chartres. Tiro-a dentre as cartas de um oráculo do feminino divino que ganhei de uma amiga-irmã. Aos domingos, agradeço à deusa que tirei há uma semana, e sempre observo que a energia dela, a imagem dela, seus atributos me visitaram de algum modo e fizeram diferença. Medito diante dessa imagem todos os dias, uma entre deuses e mortos queridos, cuja presença não literalizo e que me aconselham e inspiram. Foi quando Bast, antes de ser trocada por Ísis, me ronronou ao ouvido : INDEPENDENTE. Irene já tinha me contado que bichos domésticos por vezes se afastam de casa para morrer, porque sua sabedoria selvagem, o instinto que perdemos, lhes orienta a não atrair aves comedoras de carniça para perto do lugar aonde viveram e dos seres que amaram. O mais doméstico dos felinos, meu amado raja Carlinhos, lindo e delicado, foi totalmente selvagem e livre quando escolheu não ser mais incomodado por nossa ansiedade e morrer como um gato de verdade. Sua independência foi puro amor.

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Água

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O cinema é minha igreja, quem me conhece já sabe. Meu jardim também é, e o ateliê onde trabalho também, mas são igrejas diferentes, coisa de politeísta. O cinema é o templo amplo, público, repleto de gente que não conheço e que tanto pode estar em busca de uma visão quanto de um lugar pra tirar uma soneca ou dar uns amassos. É o lugar da escuridão que oculta o cotidiano banal enquanto levanta uma pontinha da cortina do mistério, o suficiente para deixar algum sentido escapar. Claro que o filme que a gente vai ver faz toda a diferença. Afinal homilia é homilia e se o pregador não presta, a gente, se sabe, nem aparece, se não sabe, puxa o carro discretamente, na primeira batatada que escuta. Se o filme é do Guillermo Del Toro,  sei que a homilia vai ser uma maravilha. Tem gente hiperrealista (do tipo que não sai do FB, sabe?) que reclama que o cinema do Del Toro é fantasioso demais. Eu já acho que fantasiosos são o telejornal e a reunião de condomínio. Claro que a fantasia de Del Toro é deslumbrante, ao contrário da lixarada do telejornal e da reunião de condomínio. A imaginação é a praia onde ele surfa com coragem, graça e competência, o lugar onde ele e o oceano do inconsciente coletivo se encontram, para fabular. Além de caprichar na verossimilhança interna, Del Toro reflete (sobre) a realidade com a profundidade de quem domina a metáfora, lindamente produzida e filmada, a mesma que nos dá acesso aos semitons da experiência e assim recusa os engajamentos reducionistas, sejam da natureza que forem. Entendo e lamento que devotos do Realismo racionalista, seja ele socialista ou capitalista, sofram de deficit de imaginação, nada mais natural. Não estão equipados para ver a A Forma da Água. Se você for um deles, aceite essa limitação, vá ler um site de notícias e me deixe em paz agora mesmo, por favor.

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Um mito. Um conto de fadas. Um filmão dos anos 1950, revisitado, desdobrado em camadas, ampliado e aprofundado. Há um deus do rio, raptado, acorrentado e violentado por um monstro pragmático e arrivista. Há também Sally, a Melusina suburbana, uma imagem pinçada direto da lenda medieval (Del To-ro! Del To-ro!Del To-ro!). Foi a música de Alexandre Desplat, bem francesinha e com direito a Madeleyne Peyroux cantando La Javanaise, que me levou direto a Melusina. Há o vizinho artista gay adorável, gateiro, que envelhece contrariado e anda à procura de um amor, nos tempos da cólera. Há a amiga da faxina diária no laboratório, faladeira, pau pra toda obra, protetora, farta do marido inútil. Essa me diz respeito porque seu nome do meio é Dalila, como o meu. E há o agente comunista, um espião-cientista mais cientista que espião, um homem íntegro que terá de fazer uma escolha afinal. Uma “comunidade de destino”, como diria Morin, todo mundo vivendo no porão do navio. Motivados pelo amor, a amizade, a “ciência com consciência”, eles desviarão o curso da narrativa, que passará de mística a heroica sem perder seu delicado equilíbrio. O monstro arrivista e pragmático é ferozmente protestante e iconoclasta. Para ele, o deus é uma abominação. Cabe a ele, Sansão, destruir esse ídolo. Acima dele na cadeia alimentar, há o general, que se orgulha de os EUA exportarem decência porque não têm uso algum para ela. E há sempre a água, turva, escura, misteriosa, insondável, imprevisível: a cápsula, o tanque, a banheira, o banheiro submerso, a chuva, o canal, o oceano, a água em ebulição que cozinha os ovos (a conexão), a do copo que entorna no carpete, a que as duas amigas secam o tempo todo, no chão sempre úmido do laboratório… Sally-Melusina mora em cima de um cinema, o Orpheu, um templo onde está em cartaz um filme bíblico brega, que, no entanto, deixa o deus fascinado. A imaginação é o chão aonde ela pisa, ela e seu vizinho pintor de cartazes de publicidade que ninguém mais quer, porque as fotografias são mais realistas. Como não se apaixonar por um deus do rio, prisioneiro, sendo ela quem é, ainda que não o saiba? Mais do que tudo A Forma da Água fala sobre o cinema, os velhos filmes que Del Toro (e eu também) assistia em preto e branco na TV, menino em Guadalajara. Há um devaneio de Sally-Melusina que se passa, inteiro, num musical de Hollywood. Minha alma de spoiler mal se contém e é melhor eu pará-la por aqui. Se você continuou a ler, vá ao cinema, sim, não espere estrear no Telecine ou no Netflix. Vá ao cinema, por favor. De vez em quando, um filme pede um templo. É esse o caso. Vá por mim.

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QUE VIVA VIVA!

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A Pixar de Wall-e e Nemo andou me decepcionando, depois que se juntou com a Disney. Sua animação mais recente, porém, Viva (Coco), junto com A Forma da Água, do sempre ótimo (e mexicaníssimo) GuillermoDel Toro, são os filmes mais engajados de 2017-18. Engajados com a imaginação e o sentimento, quero dizer, não com baboseiras militantes, discurseira vazia e palavras de ordem clichê, gritadas por representantes de lateralidades mutuamente excludentes, cegas de um olho e, por isso mesmo, interditadas de visão do conjunto. Viva é uma espécie de campanha de vacinação do imaginário contra a neoxenofobia do Império, como também de outras patologias ideológicas. Duvido que uma criança americana branca protestante (para não dizer um adulto que ainda porte consigo algum resquício de alma) saia do cinema sustentando teorias paranoicas sobre latinos psicopatas. Quando nos falta a consciência de nossa sombra, psicopata é o outro, norma que se aplica à perfeição àquele reizinho pançudo, de penteado ridículo e que tem um gêmeo idêntico, de quem foi separado no berço, mandando lá na Coréia do Norte do jeito que ele mesmo gostaria de mandar nos EUA. Viva inocula seu vírus atenuado diretamente no imaginário da cultura. E é na profundeza do imaginário que as coisas começam a mudar de verdade. Os recursos que Viva usa para sabotar uma ideologia escrota, em avançado estado de decomposição, são o encantamento, a memória, a fantasia, a comunidade e as conexões (de verdade), tudo carreado por um trabalho estupendo com as imagens. O México é tudo aquilo e muito mais, diz a mulher que é fã de carteirinha. E nem precisa ninguém gritar Fora Trump! para fazer aquela politiquinha mequetrefe, tão inócua quanto ao gosto de nosso mundo esquizofrênico. O poder de transmutar a única realidade passível de alguma transmutação – nossa subjetividade – está nas imagens, não as da tela rasa dos gadgets que nos guiam, mas as da alma que, ativadas pelo cinema, a arte, a literatura, a cultura, enfim, se engajam, nos engajam com o cultivo da alma no mundo, num maravilhoso circuito que se retroalimenta e nos abre para a vida. Porém é preciso saber que são imagens e que imagens devem permanecer, porque a péssima ideia de literalizá-las é o sustentáculo de todos os fanatismos. Viva é um daqueles filmes que trafica imagens de cura num imaginário de guerra, imagens de diálogo num imaginário de confronto, imagens de parceria num imaginário de aniquilação da diferença, imagens de morte num imaginário heroico negador de nossa finitude. E se imagens criativas não nos chegam, já na primeira infância, imagens deletérias as substituirão, para fazer a fortuna dos narcos  e dos gurus das redes sociais. Que Viva Viva então, e encontre frestas (e festas) por onde se infiltrar na Alma americana ( coisa que a nossa também é), subvertendo a pseudo política que a praga do populismo instituiu por lá, como fez e continua fazendo aqui, abaixo da linha do Equador. Só a alma nos livra dela.

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Unhas

Para Isabela

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Eu tinha 16 anos e era 1973. Queria assistir Horizonte Perdido, um musical xarope, com trilha sonora de Burt Bacharach. Minha mãe também queria e fomos juntas. O cinema era o finado Comodoro Cinerama, na avenida São João, som sensurround, película 70 mm, tela gigante. Era junho e fazia um frio da porra. Eu já disse que tinha 16? Classe média baixa, evangélica, estudando numa escola estadual de bairro e morando num conjunto habitacional popular que, para nós, era a glória? Fui com minha jaqueta de carneiro falso, uma ceroula de algodão embaixo da calça jeans e as unhas pintadas de preto. Essa informação é capital. Fazia alguns meses que minha mãe, desanimada com minha compulsão por roer unhas, tinha me autorizado a fazê-las. Nossa manicure, a Judite, de quem eu gostava muito, era uma mocinha paraguaia, pouco mais velha do que eu, cuja madrasta, dona de salão de beleza, obrigava a trabalhar o dia inteiro na rua, nos dias de semana. Ela atendia a gente em domicílio e me lembro muito bem do rosto dela, do sorriso largo, dos cabelos de índia que ela tingia de mil cores e cortava de mil jeitos, porque era, além de manicure, cobaia e mostruário da madrasta-patroa. Nos anos 1970, os esmaltes de cores fúnebres estavam na crista da onda, Hematoma, Sangue Pisado, Degenerescência, todos com nomes eufêmicos. Eu amava o negro (Petróleo Bruto?), porque me ajudava mais do que os outros a interromper a trajetória da mão em direção à boca, permitindo assim que minhas unhas crescessem até quase virar garras pontudas. Eu tinha 16 anos, mas confesso que, ainda hoje, aos 60, sou dada a puxar cutículas com os dentes, quando a tensão aumenta. Chegamos cedo para comprar balinhas Sonksen de cevada na bombonière (as da latinha bordô) e, assim equipadas, muito animadas, rumamos para a sala de projeção. Sentamos e logo todas as cadeiras ao nosso redor são ocupadas. Me desculpem se a memória remota é obscena de tão precisa, mas puxei minha mãe nesse quesito. Lembro da roupa, do clima, dos detalhes… Há muito já aceitei o que não posso mudar. Também gosto de narrar no presente, me ajuda a ver melhor o passado. A xaropada começa. E eu, a mais xarope de todas, canto, num inglês ultra-macarrônico, as canções aprendidas de orelhada com o LP da trilha sonora, tocado e retocado à náusea na minha vitrola portátil. A certa altura, a professora Liv Ullman (que devia estar precisando muito de dinheiro na época) dança e canta em estilo Broadway, tendo seus aluninhos tibetanos como chorus line e, como cenário, uma escola localizada num vale fértil, encravado entre os Himalaias. Tudo é de uma bizarria sem precedentes. Porém uma sensação ainda mais bizarra me assalta. Percebo que o cara sentado do meu lado esquerdo está com a mão colada na minha coxa. E já deve fazer algum tempo, porque esse calor que sinto no local aonde a mão do tarado repousa, confiante, não começou agora. Fico aflita. Afinal não quero estragar o programa de minha mãe, que quase nunca pode ir ao cinema. Fico aflita também porque não quero perder o filme. Fico aflita principalmente porque um escândalo vai interromper o transe da torcida para que Olivia Hussey não fuja de fake Xangrilá com Michael York. Afinal a gente sabe que vai dar merda. Aguento mais um pouco, enquanto procuro solução. Logo ela vem. Cravo as unhas da mão esquerda na mão do folgado e o faço com tal força que quebro três delas, na carne a do dedo médio. O oportunista geme, se levanta e vai saindo de fininho da fileira, pisando em pés, empurrando encostos. Eu não digo nada. Meu coração bate forte, três unhas estão destruídas, mas sei que tornarão a crescer. Relaxo. Não estrago o filme, que já nasceu ruim demais, não dava pra piorar. À saída, vejo que tenho sangue no dedos e corro ao banheiro, onde constato que o sangue não é meu. Sinto um certo orgulho de pensar que arranquei sangue de um babaca (naquela época era babaca mesmo, não essa coisa chique de assediador). A caminho do ponto de ônibus, conto a história a minha mãe, que não dá muita importância e me diz que fiz o certo. Me conta também que, quando mocinha, ela só andava de ônibus com um alfinete de fraldas preso na roupa, para espetar o saco dos tarados de ocasião. Gosto de pensar que, aos 16, embora não fosse nada empoderada, eu já era forte, tinha unhas e sabia usá-las.

De novo, Oaxaca

Mulher-Esqueleto

Dançarinas na Guelaguetsa

Na iminência da chegada do dias dos mortos, espero a hora de retornar a Oaxaca. A colorida e fervilhante. A misteriosa e solene. A universal e singular. Oaxaca para onde volto de modo a me certificar de que ela existe. Ou continuar duvidando. Minha primeira noite nela, faz mais de mais de dez anos: caminhando pela rua em meio à Guelaguetsa, festival na melhor tradição mexicana, com o catolicismo hispânico, cruel, brutal e avassalador das diferenças sendo devorado por uma centena de micro-religiões, qual uma barata comida por formigas. Cada cultura, uma etnia. Cada etnia, uma língua. E um artesanato particularíssimo, divindades singulares, tradição culinária singular… Oaxaca dos deuses surdos e indiferentes substituídos pelos mortos familiares e atenciosos. Sempre que me lembro dela, é a cidade numa tela de Rodolfo Morales, com cachorrinhos pelados e alados que flutuam no céu, anjos guardiões e guias para o submundo…

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Esqueleto-Maravilha (Parte 2)

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Então fui ver o filme e achei ruim. Fora esse fato incontornável (afinal gosto é gosto), se você acredita que “Mulher-Maravilha”, o filme, tem alguma remota relação com empoderamento feminino, mitologia grega, relações internacionais, moda e decoração no início do século 20, história das armas químicas e dos conflitos mundiais, tenho um único comentário a fazer: Santa Ingenuidade, Batgirl! “Mulher-Maravilha” é um blockbuster de super-herói da franquia DC que, numa jogada de marketing genialmente oportunista, manipulou o imaginário corrente para: (a) encher de dinheiro os rabos de estúdio e produtores e (b) entusiasmar incautes (atentem para o uso linguisticamente correto do sufixo de gênero neutro) que acham que feminismo é copiar o masculino e colar em cima uma etiqueta com duas bolinhas e um triângulo preto estampados (e encher de dinheiro etc). Amazonas que adoram Zeus? Oi? O galanteador-sedutor-eventualmente-estuprador que estaria hoje, no Brasil, dividindo cela com o doutor Abdelmassih, caso tivesse sido suficientemente temerário para abordar, com seu estilo, digamos, criativo explícito, alguma mortal no século 21?  Bom, temos aqui mesmo, na terrinha, alguns deuses machistas igualmente incensados por feministas, então nada de se estranhar. Entretanto é melhor não confundir fato com mito, muito menos pastiche com narrativa mitológica. As amazonas originais, as legítimas, adorariam sim é capar Zeus, caso tivessem alguma chance. Ártemis, a deusa que justificou minha existência naquela pífia entrevista, mesmo sendo uma das filhas favoritas de Zeus, não ia gostar nada nada nada de se ver, mais do que preterida, ignorada pelas moças belicosas que deveriam prestar-lhe culto. Her heart belongs to Daddy, mas cada qual com seu eleitorado, certo? Tá bom que deram o nome latino de Ártemis à mocinha, mas em Diana morreu a referência. Mais ainda porque essa Diana não é princess: é Prince, ou seja, macho pacas. Por falar em pai e filha, como se reproduzem as amazonas do filme? Por partenogênese? Quero também deixar registrada minha denúncia: não vi nenhuma amazona asiática, o que denota clara discriminação étnica por parte do pessoal do casting.

Em suma, o imaginário da Mulher-Maravilha é tão heroico quanto o de Thor, Superman, Batman, Capitão América e outros paladinos malhados e descompensados, cujas sagas-clichê abarrotam de ouro as guaiacas dos magnatas-alfa de Hollywood. Na cartilha deles, lucrativo é agradar aos habitantes da curva. Então distribuam-se porradas, explosões e golpes, aumente-se exponencialmente o volume, tudo isso com fundo de pastelão histórico-mitológico. A curva haverá de pagar ingresso, comprar pipoca e corcovear de gozo. Duas honrosas exceções recentes: (a) “Batman-Lego”, o melhor filme de super-herói dos últimos tempos, e (b) “Doutor Estranho”, que tem na personagem hierática e impenetrável de Tilda Swinton uma figura de mentora de heróis à altura de Palas Atena. Fora o Benedict Cumberbarch (confessa a “cumberbitch” aqui), encarnando o médico fodão que vai da hybris à miséria, reenviado aos próprios limites, e precisa se reinventar por completo. Em “Batman-Lego”, a fragilidade do protagonista sociopata, imaturo, mascarado e blindado fica ainda mais evidente na presença da fofa Barbara Gordon, uma mulher competente, resiliente, corajosa e sensível, engajada na proteção da polis. Querem ver filmes feministas de super-herói? Vão assistir Batman-Lego e Dr. Estranho, que falam de parceria entre os opostos e não de sectarismo idiota. Quanto à Diana Prince a mocinha vivida na tela pela linda Gal Gadot,  ela é eclipsada sempre que entra em cena a deliciosa sufragete Etta Candy, secretária do bonitón. Aliás, me lembrei da Barbara Gordon do Batman-Lego quando vi a Etta. Para mim, a Mulher-Maravilha da hora não passa de mais uma campeã do patriarcado, como tantas que abundam nos dias de hoje no mundo, guerreiras armadas com a espada luminosa da razão, um falo alentado e cortante que se compraz em fragmentar o mundo numa miríade de campos de batalha. Com seus traços perfeitos, seu romance meloso com o irresistível “capitão Kirk” e sua vistosa blindagem azul e vermelha, quase fundida ao corpo escultural, Diana Prince só empodera estúdio e franquia. E diverte, claro, aos fãs do gênero. Nada além disso.

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