Odisseia

PRELÚDIO COM HOMERO

A Radio France Internationale remunerou um sortudo para comentar a Odisseia, instalado numa ilha do mar Egeu, em pleno verão grego. Síntese de férias arquetípicas com um trabalho dos sonhos, o projeto resultou numa série de podcasts, transmitidos em 2016. A Sonia me deu de aniversário o livrinho precioso, com a transcrição da série. Posso não ter o verão grego, nem uma ilha no mar Egeu, nem mesmo uma rádio que ache relevante transmitir podcasts sobre a Odisseia (embora dê para ouvir “Un eté avec Homère”, de Sylvain Tesson, na Radio France Inter, é só baixar o APP). Mas trago comigo, há 44 anos, uma versão amarelada e deveras remendada com fita adesiva (várias gerações dela) desse clássico dos clássicos que nunca nutriu veleidades de livro sagrado e, por esse motivo, não fundou doutrinas nem inspirou dogmas, graças a Zeus. Contentou-se em iluminar um vasto cabedal de vidas humanas, em sua longa e fecunda existência. Gosto de pensar que tenho a Odisseia em comum com meu querido Michel de Montaigne, por exemplo. E se não tem vocação para revelação divina, a Odisseia tampouco arroga-se a condição de relato histórico. Pura fantasia politeísta, a narrativa do retorno de Odisseu para sua amada Ítaca, continua sendo um farol aceso em meio à grossa neblina da História. Depois de alumiar as mais densas trevas, continua a apontar um rumo para dentro de nós, nesta não menos tenebrosa era da pós-verdade digital.

 

VALEU, MONOTEÍSMOS!

Escrita há aproximadamente 2500 anos, ela e sua irmã, a Ilíada, ainda servem de vacina e antídoto contra fundamentalismos, sejam eles religiosos ou políticos. Aliás, desfavor supremo que as ideologias monoteístas (com ou sem Deus) nos prestaram, esse de literalizar os mitos, a fim de arrancar deles uma verdade única, para uso de poucos e sujeição de muitos. Hoje em dia, com a palavra “mito” sendo reiteradamente tomada como sinônimo de mentira, fica quase impossível compreender o poder de contraveneno que os mitos oferecem aos seres humanos, uma imunidade simbólica que ajuda a prevenir, podendo até mesmo curar, toda sorte de intoxicação racionalista, além de nos fazer mais espertos na identificação de divindades ilegítimas e oportunistas.Vejo na perversão literalista que confunde mito com mentira uma clara intenção, consciente ou não, de impedir nosso contato com a verdade em forma de metáfora, essa estratégia genial da mente simbólica para submeter a realidade bruta ao escrutínio da imaginação. O problema é que, carentes de imunidade mítica, a gente acaba por atuar os mitos, relegados ao inconsciente pela marcha inexorável da todo-poderosa razão lógica, mascarada de ego monocrático. Daí que, quando emergem, na forma dos complexos coletivos e individuais, os mitos nos avassalam por completo, seja na escolha de um parceiro, seja na de um candidato.

 

NOSSOS DEUSES RASTAQUERAS E OUTRAS PORCARIAS

Na deplorável campanha política que rola enquanto escrevo, a figura do Pai arquetípico, Odisseu perdido no mar, tentando voltar para casa, foi reduzida a dois estereótipos polares, igualmente indigentes e perigosos: o pai permissivo e o pai controlador. E a tragédia se avizinha, quando seres humanos mortais são possuídos por uma energia inconsciente, transpessoal, e fazem uso dela de forma ímpia, confundindo-se, eles mesmos, com deuses. Aprenderemos, como a Odisseia ensina, a assumir a responsabilidade pelo nosso destino? Tenho sérias dúvidas. Na Alemanha nazista, o mito inconsciente, manipulado por marqueteiros pra lá de sinistros, fez o que fez e nem por isso o monstruoso imaginário nazista foi erradicado de psique coletiva. O mesmo ocorreu na finada URSS stalinista, transformada na Rússia subjugada por uma terceira modalidade de czarismo. Nem na Venezuela chavista, tampouco na Espanha franquista. As pessoas são tão tolas que acreditam que o mal tem mão única, como certas avenidas. O mal é multiforme e resiste ao nosso bom-mocismo politicamente correto. Ele não será erradicado jamais, a menos que a raça humana seja, ela mesma erradicada. A Sombra é, também ela, um arquétipo. Nossa única defesa contra seus subprodutos, o nazismo, o racismo, o sexismo, os totalitarismos etc, todos reduzidos pelo ego a categorias racionais manobráveis, é perceber que eles, os subprodutos, se enraízam no irracional absoluto, na densa noite antropológica, nos porões viscosos do nosso cérebro límbico, lá onde a razão lógica é calcinada à chegada. Conscientes, narrados, vividos na imaginação, restaurados no mundo como estratégia calibradora da mente frente ao real, os mitos nos dão acesso à razão simbólica, a qual não subestima a eternidade e o poder de nossos titãs e monstros, precariamente encarcerados no Tártaro. Aprender superficialmente com as teorias do ego racional não é, nem de longe, aprender na profundidade da alma, que nos pede sensibilidade e experiência…

 

POSLÚDIO COM HOMERO

Li a Odisséia na adolescência, mais interessada nos deuses do que nos homens, eu, menina batista, herege, louca por imagens e interditada delas por um tipo muito específico de discurso literal. E a li ávida, pulando partes, pecado do qual já fui absolvida por Umberto Eco e Alberto Manguel. Ao longo dos anos, pesquei o livro na estante muitas vezes, fosse para reler algum trecho, fosse para encontrar uma epígrafe ou matar a saudade de um personagem. Gosto de repassar meus epítetos favoritos, Atena deusa dos olhos verde-mar, Odisseu progênie de Zeus, Agamenon pastor de guerreiros, Aurora de dedos róseos, Helena de longos peplos, o altivo Telêmaco, a sensata Penélope, o louro Menelau… Porém nunca mais retomei o livro inteiro. Foi o livrinho que a Sonia me deu e a inveja de Sylvain Tesson que tiraram a Odisseia do esquecimento honroso da estante, para coroar com ela minha precária pilha de criado-mudo. Prova de que a alma pode dar sentido e utilidade, mesmo às emoções mais inadequadas.

Brio

brio

O brio é uma qualidade humana que, para o mal de nossos pecados, saiu de moda faz tempo. Prova disso é a tradução tosca do título do filme “Le Brio”, de Yvan Attal, que acabou virando “O orgulho”. O fulano que trocou brio por orgulho não entendeu rien de rien, como canta Edith Piaf. O “brio” tem uma complexidade e uma sofisticação de que o “orgulho” carece, mais aderido que é aos chiliques do ego do que às sutilezas da alma. O orgulho ostenta e o brio revela. E é sobre revelação esse filme simples, sem pretensões estéticas nem narrativas estroboscópicas, só uma historia demasiado humana, com começo, meio e fim. Se fosse um filme americano, suspeito que a gente receberia de “brinde” um maço em preto e branco de lições politicamente corretas. Como é um filme francês, podemos nos deleitar à vontade nas nuances. Se tem um ator que eu persigo, é Daniel Auteil. Faz trinta que sou fã de seu narigão gaulês e de seu talento. A primeira vez que o vi atuando foi em “Jean de Florette”, mocinho como eu, ao lado do grande Yves Montand (ele, não eu). Desde então, vou ver tudo o que ele faz, mesmo porque ele costuma ser maior do que a maioria de seus filmes. Nem ligo para o diretor, a crítica (essa então, eu passo reto), os prêmios… “O Brio” é um tour-de-force entre ele e uma jovem atriz maravilhosa, Camélia Jordana, que merecidamente ganhou o César 2017 de revelação pelo papel. Jordana e Auteil dão vida a Neila Salah e Pierre Mazard, aluna caloura e professor decano de Direito na Universidade Paris 6. Opostas e complementares, as personagens são, de saída, enredadas numa armadilha típica deste nosso espírito de época. Neyla, moradora da periferia de Paris, neta de imigrantes árabes, já chega atrasada à primeira aula de Retórica e na vibe certa para encarnar o tipo passivo-agressivo de vítima do sistema. O professor Mazard, por sua vez, cínico, desencantado, prepotente e vulnerável, é o algoz sob medida para ela. E os dois se entrechocam, a côncava e o convexo. Um incidente desagradável irá promover um encaixe e impedir que ambos se dissolvam no caldo ralo do maniqueísmo reinante. O que salva a ambos é justamente o brio. O brio que Neyla vai descobrir e que dá a ela resistência e auto-estima, impedindo-a de mergulhar no complexo cultural que está logo ali, de goela aberta, pronto para mastigá-la. O brio que o professor Mazard vai redescobrir e que lhe permitirá renovar seu compromisso com o papel de professor, revigorar-se como pessoa e salvar seu emprego. O roteiro pisa em ovos mas não resvala nos estereótipos, ao contrário: é o arquétipo do mestre-aprendiz que fala, com aluna e professor envolvidos num embate retórico e existencial que os reconecta, cada qual, com seu destino. Pensando sobre a perda do significado de brio em nossa língua, creio que compreendi porque a palavra caiu em desuso, a ponto de ser substituída pelo que não quer dizer. Num mundo em que é muito importante ter pena de si mesmo e, se possível, fazê-lo à luz das redes sociais, ao som e à fúria das narrativas midiático-digitais, o brio não é bem vindo simplesmente porque é o oposto da auto-piedade.  Para recuperar seu sentido, recorro ao bom e velho Aurélio: “Brio, do celta ‘brigos’, força, coragem. Sentimento da própria dignidade. Ânimo, valentia. Galhardia , garbo. Vibração, entusiasmo, fogo. Meter em brios: estimular alguém da melhor maneira possível”. Notaram como trocar brio por orgulho é um grave equívoco?

“Onde andará o Rocambole?”

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OBLÍVIO – Olvido, esquecimento (Novo Aurélio).

Oblivion, cidade imaginária de Monteiro Lobato, morreu muito antes das de Ítalo Calvino nascerem. “Cidades Mortas”, livro lindo, brasileiríssimo, anda meio esquecido, ele também, na barafunda sombria destes tempos em que Lobato virou racista e Flaubert, misógino. Os neo-puritanos não perdoam e por isso não tenho neles nenhum prazer, citando o Eclesiastes. Passarão, assim como as “cidades moribundas” de Lobato. Com a diferença de que as cidades, tendo sido bem vividas e imaginadas por ele, acabaram imortalizadas nesta pequenina maravilha. Eu mesma cabo de acordá-las, ao abrir meu livro velhinho, herança do pai da Denise, em busca de um trecho. Eu ouvia no rádio os resultados das últimas pesquisas sobre hábitos de leitura no Brasil e me lembrei de Oblivion.

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As “Cidades mortas” de que Lobato fala estavam localizadas no norte do estado de São Paulo, foram erigidas no rastro da “uberdade nativa do solo” e, “de repente”, viram-se “tolhidas de insanável caquexia”. Esvaia-se a fertilidade, “pela reiterada sucção de uma seiva não recomposta” – adoro isso. A alma humana é igual que nem. O “viver decrépito” de Oblivion, porém, ao contrário de muitas almas desertificadas, ocultava três tesouros. Prova da resistência da alma aonde quer que haja livros velhos, pó, mofo, pelo de gato e de cachorro, migalhas, traças etc. Aos viciados em limpeza e alérgicos em geral, esclareço que não estou sendo literal. Ainda bem que Lobato estava lá, morrendo de tédio nos fins de semana, sufocado pelo marasmo reinante, para decidir revirar cacarecos e trazer à tona a alma de Oblivion.

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Como eu dizia, e a propósito da Bienal do Livro, outro dia eu escutava no rádio a ladainha dos resultados das pesquisas sobre hábitos de leitura no Brasil, com seus números diminutos feito cocôs de barata (pode pôr na lista do parágrafo anterior). Enquanto eu ouvia, as perguntas fervilhavam. Comprar livro é o mesmo que ler livro? Ler lixo impresso conta? A pessoa que não lê, não lê porque não pode, porque não tem biblioteca pública nem sebo nem livraria na cidade, porque não tem vizinho, colega ou tia que lhe empreste livros? Ou não lê porque não quer, porque não tem vontade nem curiosidade, porque não se interessa em aprender a ler de verdade, porque está com o nariz grudado no celular e com os olhos vidrados numa tela (não de Kindle)? Estou perguntando sem sacanagem, porque afinal número de livros comprados não é número de livros lidos, por exemplo… E perguntar não ofende, certo?

Seja qual for a situação desses não-leitores da pesquisa, acredito que ela não deva ser pior que a dos moradores de Oblívion. Talvez continue igual, cem anos passados. “Desviou-se dela a civilização, o telégrafo não a põe à fala com o resto do mundo, nem as estradas de ferro se lembram de uni-la às redes por intermédio de um humilde ramalzinho”. Muitas cidades no Brasil continuam olvidadas como Oblívion. Com uma diferença capital, porém: em Oblívion, havia três livros, que circulavam incessantemente entre os habitantes. “Uns volumes truncados do “Rocambole”, para enlevo das imaginações femininas” (Observação de um cidadão: “Infelizmente está incompleto, faltam uns dezessete volumes”), “A ilha maldita”, de Bernardo Guimarães, para enlevo dos paladares nacionalistas” e “La mare d’Auteuil”, de Paulo de Koch, para uso dos conhecedores do francês”. Sim, a biblioteca circulante de três livros de Oblívion tinha uma “sessão” inteira de literatura francesa!

leitora na varanda

A origem da “biblioteca” de Oblívion desapareceu na aurora dos tempos. Talvez algum padre falecido a tenha legado à cidade, sem querer. Talvez tenha sido acidental, como o Big Bang e a caixa de livros velhos que a vizinha de minha tia Jenny botou na rua um dia. Por sorte, eu estava lá e resgatei dela o dobro do acervo da “biblioteca” de Oblívion. Não vou me delongar, até porque não quero roubar aos leitores deste post o prazer de ler, na íntegra, o capítulo e o livro inteiro de Lobato. Só quero contar que, certo dia, tendo esgotado os livros que levara, ele precisou recorrer à “biblioteca” e escolheu o “Rocambole”, de autoria de um certo Ponson, um livro “velho como um monumento egípcio e, como ele, revestido de inscrições. Cada leitor que passava, ia deixando o rastro gravado a lápis”(…) “E assim, por quanto espaço em branco tinha o livro, margens e fins de capítulos, as apreciações se alastravam, com levíssimas variantes ao sóbrio ‘Li e gostei. inicial. Havia nomes antigos, de pessoas falecidas, e nomes das meninas casadeiras da época”. Oblívion, mesmo na sua caquexia decadente, lia, comentava, circulava, conservava, compartilhava seus três livros.

Não tenho como não terminar senão ecoando de novo Lobato:

“Essa trindade impressa bastava à educação literária da cidade. Feliz cidade! Se é de temer o homem que conhece só um livro, a cidade que só conhece três é de se venerar.”

 

 

 

Páscoa

Mulher-Esqueleto

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Quem me conhece bem, sabe que, de todo o calendário canônico, a Páscoa é minha data favorita. Amo a Páscoa tanto quanto detesto o Natal, e por muitas e diferentes razões. Creio, porém, que o que mais me agrada na Páscoa é seu sincretismo, a recusa dessa festa a ser reduzida a uma única tradição e a um sentido de mão única. Nenhuma festa cristã é mais acolhedora das tradições pagãs, nenhuma é tão tolerante a imagens originárias de outras mitologias, nenhuma (fora as queridas festas juninas, recentemente demonizadas pelo protestantismo evangélico) é tão aberta e permeável ao folclore popular. Infelizmente, porém, aqui no Brasil, pelo menos, há muito tempo as crianças já não escutam de seus avós e pais as histórias que iluminam a Páscoa e a retiram da agenda do mercado para devolvê-la à da imaginação, que fertiliza a tradição, renovando seus significados e encantando com eles a vida cotidiana. Eu poderia ter…

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Gato

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Já faz uma semana, recebi um aviso. Para ocupar o nicho da deusa rotativa que integra meu altar doméstico – uma imagem do sagrado feminino que troco a cada domingo –  veio Bast, a deusa-gata egípcia. Ela me disse com clareza, ronronando: INDEPENDENTE. Foi preciso desenhar para eu compreender. E quem desenhou foi Carlinhos, meu amado raja, nariz-de-goiabinha, lucinho-pelucinho, Caco, o mais doce, terno, meigo, delicado entre os felinos, meu bebê-gato de 10 anos. Estava muito doente desde o carnaval de 2015, com meio rim funcionando de pura compaixão por nosso apego doentio. Não morreu há três anos, porque nos recusamos a aceitar a brevidade de sua linda vidinha. Internado para tratamento intensivo, Caco se enfureceu, reuniu toda a saúde da alma selvagem que resistia em sua alma felina e atacou os veterinários da UTI com garras e dentes que não sabíamos que ele tinha. Recebeu alta imediata de uma felinóloga de braços ferozmente arranhados e juramos que nunca mais o submeteríamos às torturas da ciência médica. Como bicho, ele contava com essa vantagem sobre nós, humanos. Essa foi a primeira manifestação de uma deusa-gata selvagem no dócil Caco: Sekhmet, a irada cabeça-de-leoa. Faz exatamente três anos. Aconselhados por uma veterinária sábia, ela também adoradora de gatos, adotamos um protocolo de florais e homeopatia, vitaminas e um pozinho branco mágico que a gente comprava na Amazon e amigos piedosos aceitavam trazer na mala, quando viajavam aos EUA. Duas vezes por dia, eu ministrava o ritual que ele suportava estoico (Caco era um estoico da linhagem do grande Marco Aurélio). Outra devota de Bast nos ajudava a cada 15 dias, aplicando uma fluidoterapia incômoda, que o deixava aflito por fazer desaparecer depressa, com lambidas prestimosas, a bolinha de soro que crescia em sua barriga. Bobinho querido, ele vinha quando o chamávamos para tomar os odiados remédios… Os bobinhos vivem mais do que os espertos, dizia a veterinária. No final, porém, o bobinho revelou-se mais esperto que todos nós.

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Passamos dias lindos na praia no derradeiro janeiro de Caco. Ele amava a casa, o gramado, a liberdade usada com sabedoria pelos gatos, de explorar o entorno sem nunca perder o rumo da voz do dono (que imbecil inventou que gatos não amam as pessoas?). Estava feliz, comendo bem, bebendo muita água, subindo nos troncos dos coqueiros, tirando longas sonecas no beliche e em colos cuidadosamente selecionados, suportando o banho, a medicação e a antipatia de sua bully-mor, Zelda, com a mais estoica das elegâncias. Era a despedida e a gente aproveitou-a intensamente, ainda que não soubéssemos que era. E como a gente nunca sabe, melhor é desfrutar o bom e suportar o ruim com o savoir-vivre de um felino, em nome da beleza e da integridade. Foi na quarta-feira de cinzas que ele sumiu, dia ruim de uma semana cheia de más notícias e eventos funestos, portal da quaresma. Caco não entrou pela janela do meu escritório miando, para nos acompanhar no café e ganhar a tirinha de presunto, duvidoso prêmio por tomar os remédios sem cuspir. Na semana anterior, ele tinha começado a vomitar e havíamos incluído mais um comprimido no já extenso repertório. Ele odiou, mas suportou sem se queixar. Não veio mais tarde acompanhar a faxineira na sua faina pela casa e pedir para beber água na torneira do tanque. Não veio quando chamamos, cada um do seu jeito, com assobios e entonações variadas. Não ouvimos o barulho de sua aterrisagem no telhado, não ouvimos seu miado longo e forte, avisando: Estou indo! Choveu, esfriou e ele não veio se enrodilhar no sofá do escritório, nem me fazer companhia, embolado sobre a impressora. Simplesmente não veio. Nem à noite, nem no dia seguinte. Confeccionamos cartazetes com a foto dele, nossos celulares, espalhamos pelos postes da rua… Ele trazia no pescoço uma coleira com sua medalhinha de identificação e meu telefone gravado, então, quem sabe… Choramos, continuamos chamando, mas acentuou-se o vazio da sua linda presença rajada em nossa vida. Até a rainha Zelda inquietou-se, pero no mucho. Hoje de manhã fui trocar a deusa rotativa, para a qual reservo um espaço no meu altar doméstico, entre Kuan-Yin e Notre Dame de Chartres. Tiro-a dentre as cartas de um oráculo do feminino divino que ganhei de uma amiga-irmã. Aos domingos, agradeço à deusa que tirei há uma semana, e sempre observo que a energia dela, a imagem dela, seus atributos me visitaram de algum modo e fizeram diferença. Medito diante dessa imagem todos os dias, uma entre deuses e mortos queridos, cuja presença não literalizo e que me aconselham e inspiram. Foi quando Bast, antes de ser trocada por Ísis, me ronronou ao ouvido : INDEPENDENTE. Irene já tinha me contado que bichos domésticos por vezes se afastam de casa para morrer, porque sua sabedoria selvagem, o instinto que perdemos, lhes orienta a não atrair aves comedoras de carniça para perto do lugar aonde viveram e dos seres que amaram. O mais doméstico dos felinos, meu amado raja Carlinhos, lindo e delicado, foi totalmente selvagem e livre quando escolheu não ser mais incomodado por nossa ansiedade e morrer como um gato de verdade. Sua independência foi puro amor.

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Água

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O cinema é minha igreja, quem me conhece já sabe. Meu jardim também é, e o ateliê onde trabalho também, mas são igrejas diferentes, coisa de politeísta. O cinema é o templo amplo, público, repleto de gente que não conheço e que tanto pode estar em busca de uma visão quanto de um lugar pra tirar uma soneca ou dar uns amassos. É o lugar da escuridão que oculta o cotidiano banal enquanto levanta uma pontinha da cortina do mistério, o suficiente para deixar algum sentido escapar. Claro que o filme que a gente vai ver faz toda a diferença. Afinal homilia é homilia e se o pregador não presta, a gente, se sabe, nem aparece, se não sabe, puxa o carro discretamente, na primeira batatada que escuta. Se o filme é do Guillermo Del Toro,  sei que a homilia vai ser uma maravilha. Tem gente hiperrealista (do tipo que não sai do FB, sabe?) que reclama que o cinema do Del Toro é fantasioso demais. Eu já acho que fantasiosos são o telejornal e a reunião de condomínio. Claro que a fantasia de Del Toro é deslumbrante, ao contrário da lixarada do telejornal e da reunião de condomínio. A imaginação é a praia onde ele surfa com coragem, graça e competência, o lugar onde ele e o oceano do inconsciente coletivo se encontram, para fabular. Além de caprichar na verossimilhança interna, Del Toro reflete (sobre) a realidade com a profundidade de quem domina a metáfora, lindamente produzida e filmada, a mesma que nos dá acesso aos semitons da experiência e assim recusa os engajamentos reducionistas, sejam da natureza que forem. Entendo e lamento que devotos do Realismo racionalista, seja ele socialista ou capitalista, sofram de deficit de imaginação, nada mais natural. Não estão equipados para ver a A Forma da Água. Se você for um deles, aceite essa limitação, vá ler um site de notícias e me deixe em paz agora mesmo, por favor.

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Um mito. Um conto de fadas. Um filmão dos anos 1950, revisitado, desdobrado em camadas, ampliado e aprofundado. Há um deus do rio, raptado, acorrentado e violentado por um monstro pragmático e arrivista. Há também Sally, a Melusina suburbana, uma imagem pinçada direto da lenda medieval (Del To-ro! Del To-ro!Del To-ro!). Foi a música de Alexandre Desplat, bem francesinha e com direito a Madeleyne Peyroux cantando La Javanaise, que me levou direto a Melusina. Há o vizinho artista gay adorável, gateiro, que envelhece contrariado e anda à procura de um amor, nos tempos da cólera. Há a amiga da faxina diária no laboratório, faladeira, pau pra toda obra, protetora, farta do marido inútil. Essa me diz respeito porque seu nome do meio é Dalila, como o meu. E há o agente comunista, um espião-cientista mais cientista que espião, um homem íntegro que terá de fazer uma escolha afinal. Uma “comunidade de destino”, como diria Morin, todo mundo vivendo no porão do navio. Motivados pelo amor, a amizade, a “ciência com consciência”, eles desviarão o curso da narrativa, que passará de mística a heroica sem perder seu delicado equilíbrio. O monstro arrivista e pragmático é ferozmente protestante e iconoclasta. Para ele, o deus é uma abominação. Cabe a ele, Sansão, destruir esse ídolo. Acima dele na cadeia alimentar, há o general, que se orgulha de os EUA exportarem decência porque não têm uso algum para ela. E há sempre a água, turva, escura, misteriosa, insondável, imprevisível: a cápsula, o tanque, a banheira, o banheiro submerso, a chuva, o canal, o oceano, a água em ebulição que cozinha os ovos (a conexão), a do copo que entorna no carpete, a que as duas amigas secam o tempo todo, no chão sempre úmido do laboratório… Sally-Melusina mora em cima de um cinema, o Orpheu, um templo onde está em cartaz um filme bíblico brega, que, no entanto, deixa o deus fascinado. A imaginação é o chão aonde ela pisa, ela e seu vizinho pintor de cartazes de publicidade que ninguém mais quer, porque as fotografias são mais realistas. Como não se apaixonar por um deus do rio, prisioneiro, sendo ela quem é, ainda que não o saiba? Mais do que tudo A Forma da Água fala sobre o cinema, os velhos filmes que Del Toro (e eu também) assistia em preto e branco na TV, menino em Guadalajara. Há um devaneio de Sally-Melusina que se passa, inteiro, num musical de Hollywood. Minha alma de spoiler mal se contém e é melhor eu pará-la por aqui. Se você continuou a ler, vá ao cinema, sim, não espere estrear no Telecine ou no Netflix. Vá ao cinema, por favor. De vez em quando, um filme pede um templo. É esse o caso. Vá por mim.

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QUE VIVA VIVA!

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A Pixar de Wall-e e Nemo andou me decepcionando, depois que se juntou com a Disney. Sua animação mais recente, porém, Viva (Coco), junto com A Forma da Água, do sempre ótimo (e mexicaníssimo) GuillermoDel Toro, são os filmes mais engajados de 2017-18. Engajados com a imaginação e o sentimento, quero dizer, não com baboseiras militantes, discurseira vazia e palavras de ordem clichê, gritadas por representantes de lateralidades mutuamente excludentes, cegas de um olho e, por isso mesmo, interditadas de visão do conjunto. Viva é uma espécie de campanha de vacinação do imaginário contra a neoxenofobia do Império, como também de outras patologias ideológicas. Duvido que uma criança americana branca protestante (para não dizer um adulto que ainda porte consigo algum resquício de alma) saia do cinema sustentando teorias paranoicas sobre latinos psicopatas. Quando nos falta a consciência de nossa sombra, psicopata é o outro, norma que se aplica à perfeição àquele reizinho pançudo, de penteado ridículo e que tem um gêmeo idêntico, de quem foi separado no berço, mandando lá na Coréia do Norte do jeito que ele mesmo gostaria de mandar nos EUA. Viva inocula seu vírus atenuado diretamente no imaginário da cultura. E é na profundeza do imaginário que as coisas começam a mudar de verdade. Os recursos que Viva usa para sabotar uma ideologia escrota, em avançado estado de decomposição, são o encantamento, a memória, a fantasia, a comunidade e as conexões (de verdade), tudo carreado por um trabalho estupendo com as imagens. O México é tudo aquilo e muito mais, diz a mulher que é fã de carteirinha. E nem precisa ninguém gritar Fora Trump! para fazer aquela politiquinha mequetrefe, tão inócua quanto ao gosto de nosso mundo esquizofrênico. O poder de transmutar a única realidade passível de alguma transmutação – nossa subjetividade – está nas imagens, não as da tela rasa dos gadgets que nos guiam, mas as da alma que, ativadas pelo cinema, a arte, a literatura, a cultura, enfim, se engajam, nos engajam com o cultivo da alma no mundo, num maravilhoso circuito que se retroalimenta e nos abre para a vida. Porém é preciso saber que são imagens e que imagens devem permanecer, porque a péssima ideia de literalizá-las é o sustentáculo de todos os fanatismos. Viva é um daqueles filmes que trafica imagens de cura num imaginário de guerra, imagens de diálogo num imaginário de confronto, imagens de parceria num imaginário de aniquilação da diferença, imagens de morte num imaginário heroico negador de nossa finitude. E se imagens criativas não nos chegam, já na primeira infância, imagens deletérias as substituirão, para fazer a fortuna dos narcos  e dos gurus das redes sociais. Que Viva Viva então, e encontre frestas (e festas) por onde se infiltrar na Alma americana ( coisa que a nossa também é), subvertendo a pseudo política que a praga do populismo instituiu por lá, como fez e continua fazendo aqui, abaixo da linha do Equador. Só a alma nos livra dela.

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