Carta a um amigo

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Ah, que linda essa crônica você me mandou, meu querido…  Como você escreve bem e que pegada sensível, que olho receptivo ao coração… Sei que você andou ligando pra cá e tentei te ligar de volta, mas acho que você estava tendo um papo sobre política com algum siri na praia… A vida é mesmo cheia de prioridades inadiáveis. Aqui também chove e o jardim explode em brotos delicados e abriga passarinhos muito ocupados com seus ninhos de primavera e seus ovinhos, sabiás, maritacas, bem-te-vis, sanhaços, pardais…

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Eu, que olho o mesmo cenário que você, diferentemente de você, porém, sou politeísta, e vejo deuses que se movem para lá e para cá, cruzando uns com os outros, suaves ou incisivos, radiosos ou sombrios, deuses caminhando no jardim sob o véu fino dessa chuva domingueira: a linda Afrodite, senhora de beleza e do amor, o estranho Dioniso, deus da vida em si mesma (a vida “zoe” e não a vida “bios”, genérica, implacável, embolada com a morte), da loucura, do teatro, da embriaguez, e também as encantadoras Horas, as três irmãs que regem a passagem do tempo, das estações… Desde menina, eu preciso dessa diversidade para ser eu mesma. Você bem sabe que eu tenho essa necessidade profunda de um Feminino Divino com o qual possa trocar coisas de mulher, uma divindade com seios e vagina, quem sabe, que acolha e compreenda integralmente a minha natureza, que não me condene por ser filha de Eva, a iniciadora de Adão nos mistérios da vida e da morte, que não me reduza a co-adjutora do macho e não me coloque aos pés de um homem, mas ao lado dele, como igual. Então, embora sigamos paradigmas opostos do sagrado (e também complementares, eu acredito), nós dois nos encontraremos sempre nesse lugar em que monoteísmos e politeísmos são perfumaria: o jardim de Epicuro, aonde os amigos passeiam pelas alamedas floridas, filosofando sobre as bobagens sumamente importantes que arrebatam os seres humanos.

Você me leva de volta a uma lembrança meio remota, semanas depois da morte  da Helô, quando eu fazia um curso sobre Epicuro, descobrindo esse filósofo mal compreendido, íntegro e sereno, que sofria de pedra nos rins (imagine isso na Grécia antes de Cristo) e ainda assim vivia uma vida plena e feliz, cuidando de seus jardim, o real e o simbólico, e reunindo nele os amigos que também tinham jardins para cultivar e – melhor – sabiam disso. Naquele época em que eu era outra pessoa, talvez um feioso casulo em gestação de outra forma ainda por vir, aprendi o Tetraphármakon de Epicuro, o quádruplo remédio, que ajudou a curar minha alma e a compreender que o desafio daquele momento era encarnar o troço estranho que se desenvolvia dentro do casulo que eu me tornara, fosse ele quem ou o que fosse. Então te mando o Tetraphármakon. porque foi você e sua crônica que me remeteram a ele e ele merece ser recordado, todos os dias, se possível:

NÃO HÁ O QUE TEMER AOS DEUSES.

NÃO HÁ NECESSIDADE DE TEMER A MORTE.

A DOR PODE SER VENCIDA.

A FELICIDADE É POSSÍVEL.

Simples assim. Um livro sagrado inteiro em 4 frases diretas.

Beijos e um lindo domingo chuvoso para você e seu jardim.

Eli

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EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 2: O ELOGIO DA DIFERENÇA

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Sobre as reduções e os julgamentos sumários a que ML tem sido submetido pela variedade de ativismos agressivos, ressentidos e mal-informados que assolam o país e a época (muito semelhante à do FEBEAPÁ de Stanislau Ponte Preta), sugiro adotarmos, com o fito de defender quem, por excepcional, por si só deveria prescindir de defesa, um referencial teórico à altura da complexidade da obra desse destemido gigante sobrancelhudo. A teoria geral do imaginário, de Gilbert Durand, é o melhor referencial que conheço, por ser, mais que uma teoria, uma gnose, isto é, um saber orgânico, vinculado à experiência, do tipo que não visa esterilizar seu objeto mas, ao contrário, revelar o sujeito por trás dele, numinoso a ponto de despertar a paixão investigativa. A contribuição mais rica que os livros de ML fazem à cultura, especialmente a atual cultura brasileira de massa, aguada, vulgar e desnutrida, é, a meu ver e, na esteira dessa teoria, a ênfase no dinamismo dos contrários, na “coincidentia oppositorum” entre os regimes do imaginário heróico e místico, enraizados no pensamento seminal de C.G. Jung. Na construção de seu universo simbólico, ML investe nas imagens de opostos que se complementam e cooperam entre si, porém frequentemente também antagonizam, concorrem e se alternam, enriquecendo as narrativas com a qualidade que Morin denomina “complexidade”, grosso modo, a condição que prevê que os contrários precisam apaixonar-se e não destruir-se mutuamente, em que a  diferença é percebida como contribuição e não como ameaça à identidade. Assim Pedrinho e Tio Barnabé formam, juntos, um lindo dinamismo puer-sênex que se desdobra em outros, igualmente ricos, por exemplo, modernidade-tradição, consciência-Inconsciente (no sentido junguiano dos dois termos), entre outros pares de polaridades possíveis. O menino branco da cidade será iniciado pelo preto velho do campo em saberes que sua escola não lhe ensinou porque sequer suspeita que existam, enquanto finge desprezá-los. ML, conquanto seja um homem de seu tempo, deixa claro que o conhecimento de tio Barnabé emana de uma fonte bem mais antiga e venerável do que a que nutre os saberes superficiais e recentes que a escola promove. Tio Barnabé contribui assim para a formação integral de Pedrinho quando lhe ensina sobre os mistérios do natureza (não a que a ciência pretende esquadrinhar, mas uma outra Natureza, inapreensível aos métodos de investigação da ciência). O primeiro conhece o Outro Lado, os mistérios da floresta e os fantasmas da noite, as forças ocultas que podem dissolver o ego arrogante que investiga inadvertidamente, sem render reverência ao que é mais profundo e infinitamente maior do que ele. Em “O Saci”, para mim a obra-prima da série do Picapau Amarelo, o ego em formação encarnado em Pedrinho, o menino civilizado que se sente superior naquele mundo da roça, é colocado à prova pelo Inconsciente e quase soçobra. Isso só não acontece porque há um par de iniciadores se alternando para acompanhá-lo em seu rito de passagem: um, humano, tio Barnabé e o outro, sobrenatural, o Saci. Os afrodescendentes com inteligência e sensibilidade para perceber o valor e as ressonâncias dessa narrativa se sentirão honrados e lisonjeados com a deferência de ML à Grande Mãe África, a casa original de nossa espécie. Já dona Coisa e sua trupe de não leitores se sentirão humilhados e ofendidos pelo que ouviram dizer de outros desinformados que os precederam no telefone sem fio. Como não se comover com a delicadeza e o senso de humor com que Lobato trama a bela e consistente relação de amizade entre o menino do dia e da cidade e o ente da noite e da floresta, uma relação marcada pela horizontalidade que ao mesmo tempo deixa entrever a sapiência do Saci mentor e a inocência de Pedrinho discípulo.

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Tio Barnabé e o Saci na série da Globo: João Acaiabe e Isak Dahora

Outro dinamismo que ML elabora com encantadora precisão é o que se dá entre Dona Benta e Tia Nastácia e que, para o sujeito desavisado e raso, parecerá desvantajoso para a segunda. Novamente os opostos se alternam e se complementam na relação entre as personagens das duas velhas que dividem a regência do mundo do Pica-pau Amarelo. Uma, a avó branca, heróica, cientificista, positivista, metida a erudita, um poço de conhecimento enciclopédico. Outra, a avó negra, mística e nutridora, acolhedora, a poderosa feiticeira que dá vida e inteligência a um sabugo de milho e uma boneca de pano (seria a má-criação da Emília para com Tia Nastácia típica da relação mãe-e-filha?). No ótimo “O Minotauro”, dona Benta se hospeda na casa de Péricles, em Atenas e lá fica, a tietar filósofos e personalidades da época, alinhada com o patriarcado helênico em toda a sua pujança. Já Tia Nastácia é raptada para o mundo da Deusa, Creta, a fonte feminina e mística que nutriu os esplendores da civilização grega. Lá ela permanece como hóspede do Minotauro, retida no labirinto, temendo por sua vida. Enquanto dona Benta coleciona passivamente deslumbramentos, tia Nastácia vive a aventura dos picapaus na Grécia Antiga e termina resolvendo, na base do imaginário místico, sua questão de vida ou morte com o monstro. Uma cozinha instalada no labirinto, alguns ingredientes e a lembrança do povo do sítio, que ela crê que não tornará a encontrar, a estimulam a fritar os bolinhos pelos quais o Minotauro se apaixona e com os quais se empanturra a ponto de ficar obeso e sequer esboçar ameaça contra os meninos que vem salvar sua querida avó negra. Quem não leu, não sabe que, enquanto dona Benta conta a História do Mundo para as Crianças, tia Nastácia narra as Histórias de Tia Nastácia, um compêndio de contos tradicionais e de fadas, lendas e fábulas de culturas e épocas diversas, complementando-se assim os saberes, os sistemas, as abordagens, os imaginários. De novo, um afrodescentente leitor de Lobato saberá enxergar onde brilha o ouro de sua alquimia imaginativa. Quanto ao não leitor, seja qual for sua etnia, só posso sugerir que o leia antes de, tola e precipitadamente, julgá-lo culpado de racismo. Enfim os exemplos desse dinamismo em ML são tantos, tão ricos e eloquentes, que muitas teses acadêmicas não deram conta de elucidá-los em quase um século. Isso porque ML é, muito mais do que um clássico infanto-juvenil, um escritor-iniciador. Só reitero aqui que, agora mais do que nunca, é preciso ler e reler ML, ler para apaixonar-se por esse demiurgo e seu mundo, reler para defendê-lo da choldra que o enxovalha. Neste momento lamentável de nossa História, em que ML tem sido caluniado e condenado por crimes que não cometeu, é preciso contar furiosamente suas historias para as crianças (e para nós mesmos, que lemos para elas), falar dele, de suas contradições, de seus projetos bem mais futuristas que os projetos da inteligentsia modernista, de sua genialidade, de seu amor pelo Brasil, um sentimento que seus detratores parecem desconhecer, quando incendeiam polêmicas equivocadas ao invés de defenderem a cultura brasileira das saúvas que de fato a parasitam e devoram. Mais Monteiro Lobato e menos baboseira, por amor da infância brasileira. Pronto. Inventei um slogan.

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio

Dona Benta e Tia Nastácia na série de Globo: Zilka Salaberry e Jacira Sampaio

EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO 1: DONA COISA E OUTRAS HISTÓRIAS ESTRANHAS

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Para entender e amar Monteiro Lobato é preciso primeiro ler Monteiro Lobato. Se possível, na infância, quando a gente ainda tem a moleira bem aberta para o simbólico e uma inteligência integral  e integrada, que não foi fragmentada pela escola nem violada pelos sonhos de grandeza, sucesso e neurose com que os pais sufocam as crianças cada vez mais cedo, acreditando tragicamente que se trata de expressar algum tipo de amor doentio e deformante. Se você não leu e não gostou de ML, cale a boca, por favor. Você não está remotamente autorizado a fazer qualquer tipo de julgamento preconceituoso e decontextualizado dessa figura única na cultura brasileira, um homem do seu tempo, autêntico, temerário na sua coragem e no seu inegociável amor pelo Brasil, visionário, maluco, frágil, paradoxal, complexo, honesto, brilhante, ousado, honrado e sei lá o que mais. Como vocês puderam perceber pelo ruído de rasgar de sedas precedente, eu amo ML como a um pai, o que ele foi de fato para mim. Meu pai de verdade me deu de presente meu pai Monteiro Lobato, encarnado numa coleção verde que foi a coisa mais linda e importante que ganhei em toda a minha vida passada, presente e futura. Por esse motivo não vou permitir que nenhum(a) desavisado(a) mal informado(a) (estou parecendo a Loretta da “Vida de Brian”) fale mal dele impunemente, ah, não senhor, não vou mesmo. Quem quiser caluniar ML vai ter de se haver com a minha Emília pessoal, que aprendeu tudo o que sabe com a Emilia primeira e única: desaforada como ela, eu boto a língua bem botada para todo o cara-de-coruja-seca que se meter a criticar um autor que não conhece, baseando-se no cretinismo e cabotinismo (palavras do dicionário lobatiano) da correção política vigente, esse vírus maldito e altamente contagioso que espalha uma epidemia de unilateralidade, reducionismo, conflito dispensável e burrice, a se alastrar pelo país feito fogo pelo mato seco. Uma certa dona Coisa cujo nome fiz questão de esquecer, recentemente consagrada cavaleira do reino, andou falando por aí que ia tirar a obra de ML das listas de livros didáticos porque, de acordo com o questionável julgamento dela, trata-se de um autor racista. Para essa senhora, pessoa, aliás, assaz desinformada, eu explico que sua atitude de censura explícita vem prestar um imenso favor à obra desse autor original e transgressivo, um daimon que, faz décadas, fecunda e alimenta a alma das crianças brasileiras, as amarelas, as rosadas, as negras e também as verdes, laranjas e azuis. Já não era sem tempo, dona Coisa! A obra de ML não merece continuar a ser desvitalizada, quiçá destruída, pela porcaria de trabalho que a escola formal faz com a literatura de modo geral, tirando dela todo o sumo e a transformando numa coisa seca, quebradiça, insípida e inodora, deserotizada, a serviço dos protocolos burocráticos broxantes da educação conteudista e sem libido que só enxerga o vestibular na frente e tem como finalidade última transformar seres humanos ricos, imaginativos, inquietos e afetuosos em reprodutores-consumistas-depressivos-e-babacas. Obrigada obrigada obrigada, dona Coisa!!!! Doravante as crianças brasileiras poderão ler ML livremente, sem ter de ler ML obrigadas pela escola para fazer provinhas sem pé nem cabeça e trabalhinhos bizarros que não mais entupirão as lixeiras das salas dos professores!!! Elas poderão ler ML escondido, que maravilha!!!, porque ele será… censurado pela escola!!!! Um golpe de gênio inoportuno esse seu, hein, dona Coisa? Agora as crianças vão se arriscar para roubar os livros de ML dos monturos onde eles serão empilhados, na iminência de virar cinza nos autos-de-fé da cultura do neopositivismo mequetrefe que assola o país. Vão fazer com os livros de ML o que fazia aquele pessoal doido pra ler em “Farenheit 451″( o filme do Truffaut, baseado no romance de Ray Bradbury, está no Youtube, vão lá ver antes que alguma senhora da mesma liga da dona Coisa mande tirar!). Elas vão arriscar a vida por Emília, o Visconde, Narizinho, Pedrinho e o saci! E Deus sabe o quanto eles merecem que as crianças corram esse risco… Que tesão, dona Coisa! Proibindo ML de ser lido na escola, a senhora presta um grande favor à cultura brasileira em geral e à obra de ML em particular. As crianças ficarão doidinhas para ler esse autor proibido, maldito, misterioso, acusado de dizer coisas medonhas e, portanto, excitante e interessante. Que maravilhosa estratégia! Torço muito para que ela dê certo, antes que o cérebro das crianças brasileiras vire mingau, exposto sem reservas como tem sido a diversos tipos de lixo de altíssima toxicidade, com o qual a senhora aparentemente não se preocupa nem um pouco. De minha parte, prometo me esforçar para ajudar na sua cruzada antilobatiana. Isso é o tipo de coisa que ML aprovaria.

Inesquecível tia Nastácia

Inesquecível tia Nastácia