Iniciações

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Limiares são horizontes de possibilidades que podem se transformar em pântanos de estagnação. Em nossa vida, sempre que os limiares se apresentam, é porque o significado prescreveu. Você olha para baixo, coisa rara numa época em que todo mundo só quer olhar para cima. Você enxerga a soleira e, depois dela, o vazio. Do outro lado tem alguma coisa, mas ainda não dá pra ver direito o que é. Você tem de ir lá para conferir. Então você fica sabendo que alguma coisa que você conhece e ama terá de morrer para que alguma coisa que você não sabe o que é possa nascer. Portanto, para cruzar a soleira, você terá de dar alguma coisa em troca, de abandonar um fardo valioso do lado de cá. Porque implica o sacrifício consciente de algo que lhe é caro, embora esteja vencido, nada infunde mais terror ao ego do que um limiar. Essa é a razão pela qual limiares pedem iniciações, isto é, ritos de passagem nos quais a dimensão simbólica socorre a dimensão cotidiana e tributável com recursos que são não racionais, posto que o cagaço de mudar é coisa da ordem do irracional, com os neurônios dos intestinos travando os do cérebro. Afinal todos os limiares evocam o primeiro e o último, o nascimento e a morte, daí o pânico que eles instauram em nosso eguinho metido a demiurgo. “Como assim, vou agora ter de dissolver o que me deu tanto trabalho para coagular? Vou deixar esse lugar quentinho e me meter nesse buraco estreito? A troco?”

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A lagarta morre para que nasça a borboleta. A noiva mata a moça solteira, livre e desobrigada. O noivo mata o garoto para dar lugar ao homem responsável. O formando mata o estudante e diz olá ao profissional. “Dissolve e coagula”, determina o Urobóros alquímico, o grande inconsciente iniciador do ego, a serpente que engole o próprio rabo e é imagem reitora dos nossos ciclos de vida, morte e renascimento. Para dissolver sem se aniquilar e coagular sem se deformar, precisamos dos velhos da tribo, das mães e pais do coletivo, que já viram tudo, já viveram tudo e podem nos ensinar a passar. Cadê eles, por falar nisso? Hoje em dia, de modo geral, estão eles mesmos apegados a formas esgotadas, o provedor, a mãe nutridora, o garanhão, a mocinha de cabelos longos e calça agarrada. Egos que não se dissolvem para se coagular em novas formas tendem a trincar mais adiante, provavelmente no próximo limiar. Empedrar é o que acontece com tudo o que enrijece em demasia, perde a flexibilidade, a permeabilidade, se torna estéril. Portanto a escolha que o limiar propõe ao postulante é simples: deixar morrer uma parte de si ou ficar petrificado na soleira, um gárgula de catedral gótica. Deixar morrer ou virar zumbi, o morto-vivo da tradição vodu haitiana, manipulado pela vontade do alheio. Acordar ou virar sonâmbulo, o que dorme a própria vida, embora aparente estar acordado, funcionando no piloto automático. Verter um pouco do próprio sangue ou virar vampiro, o morto-vivo que se nutre da energia alheia.

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Segundo limiar importante, depois de nascer: sair da infância para a adolescência, matando o amor irrestrito por quem nos pôs no mundo, ver as bundas do pai e da mãe expostas na janela. Abandonar sem volta os brinquedos e jogos de outrora, como escreveu o imperador Adriano para sua Pequena Alma Terna Flutuante. Nunca vou me esquecer da angústia que senti no dia em que peguei minhas bonecas e não sabia mais o que fazer com elas. Algo em mim morreu e eu carreguei aquele luto comigo por muito tempo. É preciso ter um lado de fera selvagem, uma parte com o demo para encarar que o paraíso inventado da infância chegou ao fim. Passamos então para a adolescência, que é um limiar do começo ao fim, paradoxo sem recreio de coerência, dor demais, prazer demais, a razão cardíaca dos incompletos, um peito que cresce e outro que teima em permanecer liso sob a blusa do uniforme, um dissolve-e-coagula a cada 45 minutos.

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Nossa experiência do ridículo atroz da adolescência será compensada por um narcisismo pontual e necessário: na verdade, somos belos e imortais, os filhos de um deus que foram sequestrados e abandonados por uma bruxa na soleira de uma casa suburbana, habitada por dois idiotas. Passaremos anos retraídos e paranóicos, expostos ao olhar dos outros, que parece escarnecer de nós o tempo todo. Passaremos anos amotinados contra toda e qualquer autoridade, provocando o instituído em busca de seu reconhecimento, de um vínculo significativo com ele. Não sabemos disso, então quase todos passamos a vida recusando-nos a aceitar que o que queremos é nos tornar, de instituinte em instituído, se possível, sem perder a alma na transição. Porque no final, tudo tende à compensação. E se ela for vivida inconscientemente, como destino, dizia Jung, tenderemos ao ciclo Revolução Francesa-Reinado do Terror-Império Napoleônico repetido ao infinito.

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A soleira é o território aonde passamos a adolescência. Nem fora nem dentro, aliens vorazes que de repente saltaram de dentro da barriguinha fofa das crianças que fomos um dia, ou que as fotos no álbum nos garantem que fomos um dia (coisa de que duvidamos muito). Fundamentalistas, radicais, kamikazes, amotinados por natureza e função, os adolescentes são sujeitos-bomba que eclodirão, dando a luz a adultos mais ou menos interessantes, mais ou menos comprometidos com as provações da idade adulta. Ou não. Muitos estão fadados a persistir na condição de sujeitos-bomba encalacrados, coagulados numa forma vencida, ovos gorados, granadas ou minas falhadas a exibir sua aparência ameaçadora ou amorfa como qualidade definitiva. Esses, identificados com a rebelião, não encontram forças para cruzar o limiar que os levaria da adolescência à idade adulta, à ancoragem e à aceitação dos próprios limites, dos limites da realidade e a uma certa serenidade que nos permite criar depois de destruir. A revolução precisa da reação para calibrar-se. O caos precisa de cosmos. Dioniso precisa de Saturno e Shiva precisa de Vishnu e Brahma. A menos que atravessem a soleira, sacrificando seus extremismos narcísicos à adaptação, aprendendo a combinar tradição com ruptura, os adolescentes permanecerão congelados no limiar da vida adulta aos 30, 40, 50, 60 anos, e morrerão adolescentes sem ter experimentado o horizonte de possibilidades que pedia um sacrifício para descortinar-se.  Os sacrifícios literais apenas dramatizam o sacrifício genuíno, efetivo: algo em nós deve morrer para que algo em nós possa nascer.

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Numa cultura como a nossa, sem rituais de passagem e iniciação significativos, leviana, tola, arrogante e superficial, negadora do negativo da morte, em que o sagrado está degradado em reles comércio com o Eterno ou reduzido à ostentação, muitos permanecem paralisados nos limiares. As pessoas não iniciadas são trágicas e melancólicas como os heróis transformados em estátuas, a enfeitar o jardim da mansão de Medusa. A ação congelada no gesto que perdeu o sentido está coberta de musgo e raiada de fissuras. Eles são o ovo indês de que falava minha mãe, abandonado no ninho para enganar a galinha, são o piruá que resta no fundo da panela, queimado e imprestável. Seus potenciais profundos não se atualizaram, ainda que esses indivíduos tenham tirado diplomas, exercido profissões, cursado MBAs e ganho muito dinheiro, casado e tido filhos, sido presidentes de empresas e países. Deram conta da persona, mas sequer tangenciaram a própria essência. Estão congelados naquele limiar. Não foram capazes de enfrentar a morte cruzando a soleira que levaria à transformação. A intensa atividade exterior trai a imobilidade interna, a wasteland subjetiva que não pode prescindir de drogas lícitas ou ilícitas, de religiões e ideologias imbecilizantes para ser suportada, com mais sorte na próxima encarnação.

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Zumbis, sonâmbulos, vampiros, pode escolher. Talvez por essa razão, porque veem isso tudo e não sabem o que fazer para escapar do padrão do “cadáver adiado que procria”, by Fernando Pessoa, os jovens busquem experiências de iniciação literal, ritos de sangue e violência e conflito real com o instituído. A nostalgia da iniciação, contudo, é inconsciente, eis aí o fator trágico de todo herói, de Édipo a Julian Assange. Por isso, porque não sabe passar de herói a cidadão, não consegue refluir ao seu limite, descompensado que é, esse tipo tende à destruição, a própria e a do outro. Dos que se juntam às hostes do EI aos que têm saído, nos último dias, às ruas de São Paulo, desafiando a polícia e buscando, no confronto, uma experiência de estar vivo, de fazer alguma diferença na multidão dos manés na qual correm os risco de se dissolver destrutivamente. Querem cruzar o limiar para a idade adulta e encontrar-se com seu daimon, com sua comunidade de destino, todavia não sabem como fazer. Na falta de iniciadores sábios e experientes, deixam-se manipular por outros adolescentes empedernidos, viciosos, estagnados há mais tempo na transição para a vida adulta. Para nós, que testemunhamos de fora, eles podem aparecer encapuzados, portando armas letais e executando prisioneiros, como reis assírios de bem antes de cristo. Ou simplesmente ensanguentados, surrados pela PM em nome dos eternos 30 centavos, heroicamente expostos na Internet em fotos tiradas na avenida Paulista e adjacências. “Eis aqui meu sacrifício. Estou apto. Sou digno (Mas não sei bem do quê)”, eu os escuto clamar, os sem mito, os que procuram a iniciação pelo sangue e a violência, os que buscam no agressor anônimo da PM o iniciador de cuja ausência se ressentem, os órfãos de rituais significativos. As análises de rés do chão os classificarão de vítimas ou algozes, direita ou esquerda, Império ou República e blá blá blá… É pena. E sinceramente me dá muita preguiça.

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Rei da Zumbilândia

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Neste contexto, “rei” é um eufemismo. Muito mais apropriados seriam termos como “tirano”, “ditador” ou “autocrata”. Mas de novo, lá vou eu botando o carro adiante dos bois, isto é, explicando antes de narrar, ô, mania… Sábado passado íamos a uma festa que prometia ser muito legal. Não era uma simples festa de fim de ano. Era uma festa de aniversário de 50 anos, vejam bem, e no fim do ano, portanto emblemática. O aniversariante era uma pessoa duplamente legal. O bufê indicado no lindo convite já acenava com um espaço bonito e confortável, porém me sorria ainda mais a perspectiva de encontrar, nesse lugar especial, gente que eu não via há muito tempo e levar alguns papos interessantes. Um bufê de boa conversa me parece sempre o mais apetitoso de todos. Descolei de cara um figurino de que gostei muito, consegui fazer um risco tipo “gatinho” nos olhos, quase um milagre quando a gente usa óculos, estava, enfim, animada com a perspectiva de uma noite agradável, marcada por bons encontros, boa bebida, comida ótima e, claro, pista de dança. Tem coisa melhor de que encerrar o ano caindo na pista de dança? Porque se tratava de uma festa de 50 anos, eu me sentia segura de que eu conseguiria, enfim, cair na pista de dança, depois de algumas experiências sumamente frustrantes.

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As mais recentes festas com pista de dança em que estive foram alguns casamentos de meninada, festas “cool”, ou seja, frígidas, no sentido próprio como no figurado. Em eventos desse tipo, hoje em dia, há um trono no meio da sala para o rei da festa, Sua Majestade, o DJ. Desse trono, ele comanda o andamento de evento com mão de ferro, impedindo conversas agradáveis, estourando tímpanos inocentes, intensificando quadros de zumbido crônico, projetando, enfim, gerações de deficientes auditivos e sabe Deus o que mais. O DJ constitui uma das metáforas mais eloquentes da nossa cultura da sociopatia triunfante. Nessas festas de casamento, o noivo e a noiva não são mais os reis, mas súditos avassalados dessa personagem autorreferente, centralizadora, imperial, impeditiva, que ocupa o centro da vida e alimenta ininterruptamente o individualismo robótico que marca as novas gerações, não à toa tão interessadas em zumbis de cinema e videogame. O DJ é o rei da Zumbilândia, essa terra de seres que tiveram suas almas abduzidas e, com olhos vidrados e bocas tartamudeantes, não estão interessados em cultivar relações, a não ser que seja no espelho da dança em que cada um faz o que quer e ignora o que faz o parceiro, ignora o parceiro. Zumbis não olham para o lado, já perceberam? E quando olham para o outro que gesticula à sua frente, não o veem, não estão interessados nele, seu olhar vazio o ultrapassa, como se o outro fosse transparente. E como bebem os zumbis, meu deus. Beber até perder a consciência, até entrar em coma alcoólica, até sair vomitando para emporcalhar o banheiro chique é outra prerrogativa dos zumbis, seu supremo ato de isolamento, seu corte radical com o mundo que os cerca, como também seu patético reenvio aos próprios limites. Conversar e beber socialmente é coisa de velhos, ou melhor, de alguns velhos, porque outros já se renderam completamente à condição de zumbis de festa, só para parecerem mais jovens do que são. Escambo melancólico, que pouco efeito produz na realidade e torna os velhos ridículos. Depois de circular pelas ditas festas, encontrando gente que eu não vejo há tempos ou sendo apresentada a gente que eu adoraria conhecer um pouco mais, tentando, em vão, me comunicar por gestos e entender por leitura labial, geralmente desisto e vou embora, expulsa pelo mal estar que o volume abissal da música desencadeia: a péssima que se torna insuportável e a boa, que se torna ruim. A festa de sábado passado, porém, era uma festa de 50 anos, o que me parecia uma garantia de que teríamos alguns mini-simpósios ocorrendo nos sofás, alternados com momentos de folia na pista de dança. Ao chegar, envolvida pela beleza e o bom gosto da decoração, o esplendor dos arranjos florais, o volume razoável da música (boa), alguns rostos conhecidos e amáveis, não me dei conta de que o centro da festa era, mais uma vez, Sua Majestade, o DJ. Instalado na parede frontal, numa janelinha que lhe dava maior destaque porque estava cercada de imagens que se movimentavam hipnoticamente, lá estava ele, o supremo titereiro, o simposiarca autista, de óculos escuros como um ditador líbio, preparando-se para assumir todos os espaços, impedir todas as conversas, interromper todas as histórias, atrapalhar a digestão, induzir à bebedeira, em suma e para mim, pelo menos, estragar a festa. Claro que foi exatamente isso que ele fez, com a anuência do verdadeiro rei, de quem usurpou o trono legalmente, sem encontrar resistência (deve ter sido regiamente pago, inclusive), todavia com o sacrifício daquele valor que faz de uma festa um ritual de encontro entre seres humanos interativos. A Zumbilândia instalou-se gradualmente, até o volume tornar a música irreconhecível e o DJ conquistar cada rincão com seus exércitos tonitruantes, enquanto as pessoas simplesmente desistiam de berrar e tentar entender o que o outro (e elas próprias) diziam, para capitular, por fim, entregando-se sem remédio ao torpor dos sofás, da comida, da bebida e até da dança irremediável. Deu meia-noite e, qual Cinderela com o rabo entre as pernas, me escafedi de mais uma Zumbilândia com uma sensação melancólica de remanescente de uma espécie em extinção.

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“No cemitério é bom de passear”: um memento para o Dia dos Mortos

Eu tinha dez anos e cursava o ginásio no instituto estadual de educação. Aquilo era a morte. Escola era a morte. Ficar dura, quieta, ouvindo a professora vociferar ou então falar com voz hipnótica, para boi dormir. Era ou medo ou sono, ainda mais no período da tarde, que era o meu. Eu odiava aquilo de ter de ficar ouvindo, ouvindo sem entender nada. As professoras falavam grego – arcaico a de matemática. Eu me sentia tão burra, mas tão burra que nem pergunta eu sabia fazer. Ou até sabia, mas… e se eu fizesse a pergunta errada? De vez em quando, alguém perguntava uma besteira e levava bronca, era humilhado na frente de todo mundo. E a gente ainda ria do coitado que perguntava o que a gente não tinha tido coragem de perguntar. Melhor ficar dura e quieta e me fingir de morta e esperar aquela eternidade terminar. Porque demorava, mas terminava. O sinal tocava feito um guincho de dragão furioso e a gente pulava da carteira como aqueles escravos que arrebentavam correntes com as mãos erguidas, na lição da Princesa Isabel assinando a Lei Áurea. Parecia uma boiada estourada que saia arrebentando a porta e se enfiava pelos corredores feito tromba d’água, todo mundo se atropelando, gritando, socando o ar, pulando, liberdade ainda que tarde, vamos embora deste lugar, vamos viver, andar, falar, mexer, perguntar, ser. Era muito linda a libertação. Dava medo e era linda. Eu amava o último medonho guincho do dragão furioso do sinal da hora da saída. Era um som celestial, um som que vinha direto do inferno. Fosse o que fosse, estava consumado. Tinha gente que jogava tudo para o alto, de tão feliz. Tinha gente que derrubava tudo no chão. Eu não tinha coragem de jogar tudo para o alto e raramente derrubava tudo no chão. Eu só ficava feliz. O melhor final de dia da semana era na sexta-feira, em que a gente não tinha a última aula. O guincho do dragão anunciava que a gente ainda tinha uma hora de luz do dia para passear na avenida Lins, xeretar as prateleiras da loja Momotaro, cheias de bobaginhas japonesas uma mais linda que a outra, passear no cemitério da Vila Mariana… Eu adorava passear no cemitério, do jeito que a Adelia Prado conta em seu poema “Campo Santo”. Eu e a Satiko, minha amiga japonesa com cara de lua cheia. As outras meninas tinham medo ou achavam besta. A gente não, mesmo porque passear no cemitério podia ser tudo, menos besta. Besta era ficar fumando bituca encostada no muro da escola e fazendo tipo para uns meninos fedidos, espinhentos e panacas. Quanto a dar um medinho, isso dava. Mas era um medinho gostoso, irmão da curiosidade. Eu e a Satiko, a gente andava de braço dado entre os túmulos, ia lendo as placas, fazendo contas das idades dos defuntos, conferindo os retratos, reparando nos vasos: os vazios, os com flores secas, os com flores frescas… As capelinhas davam um medo um pouco maior, porque elas tinham portas e janelas gradeadas e a gente sempre achava que o defunto ia aparecer de repente, vindo lá do fundo, e nos dizer: “Olá!”, com aquele sorriso eterno de caveira. Nunca apareceu nenhum. Uma pena. Mas a gente continuava olhando, cheias de esperança. Era bom demais passear no cemitério. Era calmo como a escola nunca era, e as folhas das árvores ciciavam com o vento, como se as almas nos dissessem: “Boa tarde, meninas, ainda bem que vocês vieram hoje. A gente passou a semana aqui, na maior solidão”. Às vezes, a gente fazia um piquenique de lanche mirabel com caçulinha morna em cima de uma lápide mais lisa e limpa. Era uma coisa bem japonesa de se fazer. A Satiko me contava de como, quando a avó dela morreu, teve festa na casa dela e os pais e tios levaram bandejas de doce de feijão (que a avó dela adorava) ao cemitério, para botar em cima do túmulo, feito flores. E que ela e o irmão tinham se empanturrado de doces, enquanto os adultos conversavam e riam de coisas da vida da avó dela, uma velha muito mandona. Meu pai não me deixava ver defunto, então me surpreendi com a história da Satiko. A primeira vez que fui a um velório, eu tinha uns doze anos e foi muito, muito triste, porque o morto era um mocinho, irmão da minha amiga da escola e da igreja. Teve muito choro, a mãe gritando, minha amiga gritando, o pai do morto muito quieto e arrasado, o pior de todos. Tive muita, muita pena do pai, mais ainda do que da mãe do moço morto. Não foi nada parecido com o que a Satiko tinha me contado lá no cemitério, entre um quadradinho de lanche mirabel e um gole de caçulinha morna. Muito tempo depois, eu soube da festa mexicana do Dia de los Muertos e aí entendi um pouco mais os meus passeios com a Satiko pelo cemitério da Vila Mariana. Ontem, lá no ateliê, a gente fez a segunda Festa do Dia de Muertos em que eu já fui na vida. Foi linda. Só não teve lanche mirabel com caçulinha morna, mas teve muitas outras coisas gostosas de comer e beber. A gente contou histórias, leu poemas, botou fotos dos mortos no altar que as crianças armaram, riu, chorou, viu filmes… Os mortos também viram, ouviram, sentiram, riram, beberam e comeram. Com nossos olhos, ouvidos, bocas e corações, é claro, porque os deles já não existem mais. E eu me senti de novo como se fosse um fim de tarde de sexta-feira, aos 10 anos de idade, vadiando pelo cemitério com minha amiga Satiko. Ouvindo o vento ciciar nas folhas as vozes dos fantasmas. Sentindo um medinho misturado com liberdade e prazer.  Logo depois, eu me lembrei dos passeios da Adelia: “Se um galo cantar e for domingo, será tanta a doçura que direi: vem cá, meu bem, me dá sua mão, vamos dar um passeio, vamos na casa de tia Zica pra ver se Tiantônio melhorou. Ressurgiremos. Por isso, o campo-santo é estrelado de cruzes”.