… e o velho volta a servir

Como deixar de fora a Frida?

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo

” Despreza-se o amor velho pelo novo, o novo vai e o velho volta a servir”, dizia minha mãe que, junto com Caetano Veloso, faz anos no dia 7 de agosto. Para provar que, como todo leonino, ela estava certa, aqui estou eu, escrevendo este post num notebook-estepe lento, burro e vira-latas. É que o meu reluzente mac sucumbiu às potências do inconsciente e não aguentou o tranco da última retrogradação de Mercúrio, meu duplo regente (sou Virgem ascendente Gêmeos). Meu mac pifou vergonhosamente, por sorte dois meses antes de vencer a garantia. Diferentemente de Steve Jobs, coitado, se minha máquina não tiver conserto, será substituída por outra, menos suscetível às flutuações zodiacais. Vamos, porém, voltar a minha mãe e seus ditados, herança de uma linhagem de “mulheres engolidas”, como a Metis grega, e que passaram a vida refugiadas no rés do chão da natureza feminina, a pretexto de sobreviver à calhordice patriarcal.  Guardo dela uma coletânea desses lugares-comuns que, se já tiveram o poder de ativar  fantasias matricidas, hoje me divertem e ensinam. À medida que a camada semântica superficial que os recobre vai oxidando, ficando quebradiça e caindo aos pedaços, vou descobrindo, encantada, camadas e mais camadas de imagens vivas, inquietas, suculentas. Tal como seus ditados gastos e remendados, também minha mãe pouco a pouco vai soltando as cascas e peles que  retiveram seu crescimento e a reduziram aos meus olhos. Decidi eu mesma, desde sua agonia, tomar parte dessa derradeira metamorfose. Peguei uma carona no voo da borboleta que se liberta com a dilaceração da pele da lagarta. Tenho provado a doçura dos caroços que a romã só pode oferecer depois da ruptura irreversível da casca, feita da sobreposição de tantas personas, blindagens, condicionamentos, complexos, retoques, de tanta lealdade e servidão ao coletivo e seus julgamentos. Todavia compreender a degradação da pele da lagarta, a fragmentação da casca da romã não é coisa dada. Deve-se aceitar algumas condições nem sempre agradáveis, deve-se obedecer às etapas de um ciclo vagaroso, sutil, aparentemente truncado que demanda muito trabalho invisível por parte de nós, os vivos, com frequentes descidas à escuridão labiríntica das minas da vida subjetiva. Nos meus sonhos, nas minhas flutuações de humor, nas lembranças recuperadas, nas visões da minha própria alma incubada, minha mãe retorna, um holograma vagarosamente desvelado no interior da retorta do alquimista: sendo e não sendo ela, sendo ela e sendo eu, sendo todas as que vieram antes dela, sendo todas as que virão depois de mim. O novo que se vai depois de algum tempo é o provisório e descartável, o que desbota, pega cheiro e perde as tiras. Já o Velho que volta a servir, depois que o prazo do “novo” expira, não é nem senil nem precário nem frágil nem dependente nem anacrônico. É fundador, original, radical, pristino, reparador. Passou de boca em boca, de mão em mão, de cultura em cultura sem se desgastar nem perder o viço, palpitando sob a banalidade redundante da vida (que só pode ser banal para quem a enxerga com olhos banais). O Velho arquetípico, que reenvia o estereótipo provisório e raso à sua natureza perene e profunda, esse Velho nos servirá sempre, na medida em que nós também o servirmos e honrarmos. Vai-se assim a minha mãe pessoal e vêm tomar seu lugar a Mãe transpessoal, a Grande Senhora de muitos rostos, ritmos e humores: Cibele, Shekinah, Ísis, Gaia, Demeter, Diana, a Virgem Maria, Pachamama, a Mulher-Aranha, imagens do feminino das quais minha mãe nunca pode desfrutar, porque sua religião a interditou delas.  Então eu faço isso por ela e sei que agora ela me compreende. Engraçado. Comecei este post  querendo escrever sobre a espetacular animação ” Valente”, da Pixar, mas tive de deixá-la para o próximo, embora aqui o assunto já tenha sido bem introduzido. Minha mãe se interpôs, até porque hoje é seu aniversário.

Amor e dor se fundem, na forja do coração feminino

O hermafrodita no centro do mundo

No boca a boca, o fogo se alastra. Assim tem sido com “Incêndios” (Incendies, 2010), filme do canadense Dennis Villeneuve e candidato “perdedor” na categoria Filme Estrangeiro do último Oscar. Depois de assistir aos grandes vencedores em cartaz, a gente começa a comer pelas beiradas. E essa é a melhor parte: imprevisível, nutritiva e saborosa, embora, por vezes, de um sabor que oscila entre o delicioso e o intragável. No caso deste filme magnífico, as beiradas continuam sapecando nossa língua por algum tempo, graças ao calor do prato de ferro incandescente onde ele nos é servido. Um conselho: vá preparado e bem acompanhado (de gente inquieta e sensível).  “Incêndios” não é uma experiência para incautos à procura de distração ligeira. Não é o tipo de filme que ganha Oscar, ah, não é mesmo, de jeito nenhum. Aliás o cartaz de divulgação deveria trazer um aviso: “Desaconselhável para desavisados; pense bem antes ou terá de pensar muito depois”. Seria mais honesto da parte dos distribuidores. Ou não seria. Os desavisados bem que merecem levar esse susto. Eu era um deles na matinê de domingo passado, enquanto esperava o filme começar, mascando ingênuas jujubas no saguão no meu querido Cine Lumiére, por cuja sobrevivência, sempre ameaçada, rezo pelo menos duas vezes por semana. Entro, sento, assisto aos trailers e… perplexidade: acho que estou no filme errado. Sem letreiros de abertura, uma sequência longa mostra uma paisagem verde meio calcinada. Dela passamos ao interior de um casebre arruinado, onde tipos que me parecem soldados de uma milícia tosquiam um grupo de meninos morenos, descalços, obedientes. Um rito iniciático cru, bruto, cujo sentido escapa completamente ao expectador. Enquanto a tosquia prossegue, um dos meninos olha diretamente para mim, que estou sentada na poltrona, com olhos indiferentes e trágicos. Engasgo com uma jujuba. Enquanto me refaço, a câmera revela que esse menino tem três pontinhos pretos idênticos, simetricamente tatuados no calcanhar. Três é o número desta história. Corta. Um grande título aparece na tela: “Os gêmeos”. Devo ter entrado no filme errado, coisa que já me aconteceu no Lumiére, devido à complexidade de ter de escolher entre duas salas. Pouco a pouco fica claro que entrei mesmo no filme errado. Eu, que apenas procurava uma distração razoavelmente inteligente para a tarde garoenta de um deprimente domingo. Mesmo estando no filme errado, caio no enredo feito uma mosca tonta na teia da aranha. Não vai dar para trocar de filme agora. Quero saber aonde vai dar essa história que começa com a morte de uma mulher misteriosa. Amo histórias narradas de trás para frente. Na tela, um casal de irmãos gêmeos, adultos jovens, senta-se diante de um tabelião competente e afável para ouvir a leitura do testamento da mãe. O texto soa (para nós e para eles) como um soco no estômago. A filha fica chocada com as exigências da mãe, mas as acolhe. Seu irmão, contudo, reage contrariado, afirmando que se a mãe não soube ser normal em vida, terá de ser, ao menos, um defunto normal. A filha quer ouvir até o fim. O filho sai da sala, consternado. O mediador, arquetípico, negocia pacientemente. Além de algumas exigências estapafúrdias, a defunta deixa-lhes um “mapa do tesouro” às avessas como herança. Movida pela compaixão, a moça, uma matemática de formação, decide desvendar essa mãe incógnita. Inicia-se então uma jornada épica entre o Canadá e o Líbano, ao longo da qual ela seguirá os rastros meio apagados de uma história da qual também é personagem principal. Relutante a princípio, o filho termina por aderir ao projeto. Nesse momento, os dois viram um: indivíduos polares e complementares, os gêmeos encarnam o arquétipo do hermafrodita, passando assim a alternar suas naturezas e competências, fundindo-se para encontrar, enfim, a verdade terrível e redentora para todos, vivos e mortos. Com essas informações truncadas, caro leitor, eu não pretendo macular sua ignorância, mas apenas instigá-lo a arriscá-la. Você está mal e porcamente preparado para viver uma experiência atordoante. Não posso lhe prometer imunidade, o que, na verdade, é sorte sua. Também não posso me meter a escolher seu acompanhante, mas repito: não vá sozinho, muito menos “mal” acompanhado. “Incêndios” é um filme que implora por uma conversa que acalme o incêndio que campeia dentro de nós, quando as luzes da sala se acendem. Uma conversa que dome as chamas. Para tentar compreender as chamas. Para acariciar as chamas e saber que elas tanto podem destruir o mundo quanto forjá-lo de novo. O choque do final estupendo depende de você ser, como eu, um não iniciado. Na forja do coração dilacerado de uma mulher, o ferro da violência que retalha pessoas, famílias e nações será integrado e transformado, a seu tempo – ao menos nessa metáfora -, por um feminino inundado de amor. Vocês entendem porque, quanto sinto vontade de ir à igreja, vou ao cinema.

Um mestre das metamorfoses

Durão suave: um mediador de opostos

Se você ainda não entendeu o que é metanoia, a grande virada que a gente dá no meio do caminho da vida a fim de não virar estátua de sal, é só seguir a pista das histórias que esse homem conta. Começou encarnando, por anos a fio, um tipo cínico, vingativo e misantropo, de arma cronicamente engatilhada, poucas palavras, pouquíssimos amigos. Quando já parecia congelado, ele renegou e humilhou o estereótipo que lhe deu fama e fortuna (Os imperdoáveis). Depois se apaixonou por uma gordinha de meia idade, com quem co-estrelou uma história de amor de mulherzinha (As pontes de Madison). Daí retomou e reinventou o tipo durão, encarnando um treinador-demiurgo, rigoroso e paternal, que praticava eutanásia em sua adorada criatura (Menina de ouro). Ambivalente, polêmico, revisitou a Segunda Guerra com olhos orientais (Cartas de Iwo Jima) e ocidentais (A conquista da honra). Em Gran Torino, recuperou, pelo avesso, o campeão da democracia americana, um velho reaça e impotente, crucificando-o para salvar um bando de imigrantes orientais. Depois de adaptar com competência o bacanérrimo Sobre meninos e lobos, romance noir de Dennis Lehane, ele retomou o tema dos predadores em A troca, filme em que conseguiu a façanha de enquadrar Angelina Jolie no papel de mãe coragem. Não contente, armou um enredo político-esportivo em que puer e sênex se juntam numa complexa parceria de antagonismos e complementaridades, para tentar unir seu país dilacerado (Invictus). O arquétipo puer-senex, aliás, foi magnificamente explorado por ele, não apenas em Invictus, como também em Menina de ouro e Gran Torino, filmes sobre a dura e bela tarefa de integrar a alteridade, envelhecer e tornar-se sábio. Melhor aos oitenta que aos quarenta, agora fascinado pelo derradeiro mistério que se avizinha, ele nos olha de esguelha com seus olhos azuis sem idade, dá uma cusparada irônica e muda de pele, mais uma vez. Diante do arquétipo da morte, esse mediador de opostos resolve falar aos vivos sobre a vida que há para viver. No próximo post, leia minhas impressões sobre Além da vida, o mais recente filme do camaleão Clint Eastwood, atualmente em cartaz na cidade.