“O mágico”: a vida que oscila entre graça e melancolia

Quem, como eu, adora rever “Meu tio” e “As férias do Sr. Hulot”, com o comediante francês Jacques Tati, pode agora matar as saudades desse delicioso “clochard” parisiense: discreto, elegante, gentil. Um filme roteirizado e estrelado por ele participa da 34a Mostra Internacional de Cinema de Sampa. Não, não é outra investida no filão espiritualista-new age, pode ficar sossegado. Jacques Tati, o original, já desencarnou faz tempo e, pela falta de graça que campeia por aí, ainda não deve ter reencarnado. O roteiro foi deixado por Tatit e reescrito pelo diretor Sylvain Chomet. Quem protagoniza “O mágico” (L’illusioniste) é, digamos, um avatar do querido Monsieur Hulot. O charme, a postura, o perfil, a economia verbal e o constrangimento atrapalhado estão todos lá, pode conferir. Chomet, que já tinha agradado os fãs de desenhos animados esquisitos (meu caso) com o divertido e sombrio “As bicicletas de Belleville”, agora assina essa delicada animação sobre a decadência de um mágico de teatro de revista, que tenta sobreviver com seu espetáculo naïve em tempos de roqueiros convulsivos e fãs histéricas (como você vai perceber pelos detalhes, o filme se passa no início dos anos 1960). Na companhia de um coelho branco obeso e agressivo, o sr. Tatischell apresenta-se em pulgueiros parisienses para meia dúzia de gatos pingados. Dispensado pelo dono do teatro, ele resolve cruzar o Canal da Mancha em busca de novas oportunidades para seu show. No pub de uma aldeia escocesa onde descola um trampo, ele faz seus truques mambembes para Alice, a faxineira adolescente. Graças a alguns encantadores equívocos, ele se tornará, aos olhos dela, uma espécie de “mago-padrinho” com poderes extraordinários, capaz de transformar botinas velhas em sapatinhos vermelhos, entre outras maravilhas. Por isso, ela o segue quando ele parte para Edimburgo, em busca de trabalho. E daí para a frente, tudo é poesia feita de luz e sombra, beleza e feiúra, verdade e mentira, novo e velho, risada e reflexão. Oscilando assim, entre a graça e a melancolia, o filme fala sobre a passagem do tempo e as ilusões que ora nos traem, ora nos atraem para sua luz falsa e gloriosa, de projetor de cinema. Ao combinar imagens poderosas a um quase-silêncio idem, o desenho de Chomet evoca nossos desejos, encontros, perdas, os pequenos paliativos que usamos para aliviar as dores de viver, crescer e envelhecer. Tudo temperado pelo humor de Tati, verossímil, contido, tão parecido com nossas próprias patetadas involuntárias… Um palhaço “com a máscara colada à cara”, feito Álvaro de Campos, um ventríloquo que não desgruda de seu boneco e outros personagens inesquecíveis esperam por “tio” e “sobrinha” postiços numa Edimburgo ao mesmo tempo feérica e realista. O mais legal é que ambos não se constrangem de andar juntos para cima e para baixo e de dividir um conjugado num velho H.O., afrontando assim a babaquice politicamente correta que enxerga pedófilos dentro do pote de margarina. Um toque: entre no site da Mostra só para ver a vinheta, em que um anjo sobrevoa a cidade, carregando um homem nos braços: a melhor definição de cinema que já “vi” na vida.

Dia dos Mortos no ateliê de artes

Este post relata uma experiência no ateliê livre de arte para crianças, coordenada pela arte-educadora e artista plástica Ana Cristina Ronconi, do ateliê Ocuili, no Itaim-Bibi, São Paulo. Trata-se de um trecho do artigo “Trabalhando para chegar ao significado”: pequenas histórias do ateliê de artes, sobre a importância da arte na vida e na educação das crianças. Damos notícias quando o texto integral for publicado.

Entrar num processo artístico significa não se fechar a nada. Significa perguntar: “Que uso posso dar a isso tudo?” (Anna-Maria Holm)

O ateliê de artes é sempre uma experiência em que as culturas e seus símbolos são deliberadamente convidados a participar e estão conscientemente representados por meio dos artistas e suas obras, dos materiais, das imagens que vêm enxamear ao redor do trabalho, das histórias que elas mobilizam ou que as mobilizam, das vivências das crianças etc. O ateliê de artes é um lugar onde valores opostos podem dialogar e reconciliar-se: vida e morte, alegria e dor, atividade e passividade, luz e sombra… Mais