Um ano interessante

Em 2012, escrevi esse texto para um TED cujo link está na lista do blog, do lado direito da página. O Facebook o regurgitou ontem e eu me dei conta do quanto ele é importante e do quanto continua valendo, como expressão de um projeto de vida que prossegue e que eu gostaria que chegasse comigo à velhice. Num momento em que ser feminista muitas vezes tem significado estar tomada de histeria ou viver perpetuamente pintada para a guerra, creio que ele pode inspirar algumas boas conversas à antiga, entre parceiros e parceiras, regadas a chá e bolo, talvez a cerveja e mandioca frita, conversas que nos reenviem a nós, seres humanos de todos os sexos possíveis e imagináveis, para o mesmo lugar comum de amor e aceitação da diferença, que é tudo o que precisamos. Como post, ficou longo, mas não precisa ser lido de uma tirada. É até bom ler devagar, aos trechos, mesmo porque a divisão que fiz, com imagens colecionadas ao longo de tantos anos escrevendo este blog, amacia e ilumina o dito. Boa leitura. Bom ano novo. Que 2016 seja, como diz a maldição chinesa, um ano interessante.

A matilha de Hroshige

GRUPOS DE CORPO E ALMA

O lugar de onde quero falar a vocês hoje é o meu coração que envelhece e se transforma. É dele que sai o fio que liga todos os temas e as pessoas que fazem parte da minha vida e que me fazem sentir real: uma mulher de 55 anos de idade, vivendo numa cultura heroica e patriarcal, onde já começo a me tornar invisível. Quero falar de mulheres que se juntam para fazer mais do realizar atividades juntas. Quero falar de mulheres que se encontram para ficar juntas semanalmente, chova ou faça sol, apesar do trânsito, dos afazeres, das distrações com que o mundo nos afasta de nós mesmas e nos põe à deriva, girando feito piões no vazio. São mulheres que, depois de muito avançar, retornam aos mistérios simples e sagrados da natureza feminina, em busca de certas qualidades que andam esquecidas, num mundo que está muito carente delas. São mulheres que se reúnem para cultivar a alma em grupos de corpo presente. Talvez haja só mulheres envolvidas nesta história porque  parece que entendemos mais de cultivo da alma do que os homens. Não porque tenhamos mais alma do que eles, mas apenas por uma questão de sintonia com o corpo e a natureza. Essa afinidade entre a mulher e a natureza levou milênios para ser cozinhada e tecida.
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Agora ela corre o risco de desaparecer, levando consigo Gaia, nosso lindo planeta. Grupos de corpo e alma formados por mulheres falam de outro feminismo, muito antigo, perdido na aurora do tempo. Um feminismo que tem poder para curar nosso coração coletivo, despedaçado por uma civilização que já perdeu sua alma e que ameaça o mundo com uma novíssima barbárie. As experiências de grupos de corpo e alma sempre foram comuns entre as mulheres, que costumam perceber e expressar com facilidade o quanto precisam umas das outras para tocar a vida adiante. Descobri que isso acontece por um motivo simples: as mulheres sabem ficar. Ficaram para trás, plantando e colhendo. Ficaram cuidando das crianças, dos animais e das roças, ao redor do vilarejo neolítico e da maloca. Ficaram fiando e tecendo, narrando velhas histórias, costurando e bordando e lendo e escrevendo diários. Ficaram rezando e fofocando, lidando com plantas, fazendo simpatias, mezinhas, poções, unguentos. Ficaram benzendo, cuidando dos bebês e dos velhos, dos feridos e dos doentes. Ficaram mantendo aceso o fogo no centro da casa, cuidando do coração coletivo, em torno do qual se organizava a vida, onde as histórias eram contadas e as pessoas se aqueciam, conversavam, comiam juntas. A mulheres cultivaram os laços de afeto com a mesma dedicação com que cultivaram hortas e pomares. Os pomares e as hortas serviam para nutrir o corpo. Os laços serviam para nutrir a alma. Encarregadas de ficar para garantir a sobrevivência do corpo e da alma da comunidade, fazíamos duas coisas imprescindíveis para que a vida prosseguisse. Apertávamos os laços, providenciando o cuidado com quem estava nascendo e precisava ter sua alma feita para se tornar humano, porque ninguém nasce pronto. Na outra ponta, desatávamos os laços, garantindo o cuidado com quem ia morrer e precisava ter a alma liberada para partir.
Leda e o cisne, Eliana
Por uma questão cultural, porém, acabamos aprendendo a desprezar quem fica. Fomos levadas a acreditar que ficar significa não se desenvolver, estar sempre parado no mesmo lugar, depender, diminuir. Nesse sentido, fomos ótimas alunas do patriarcado. Num jogo onde quem é mais agressivo e dominador dá as cartas, o feminismo de primeira hora perdeu o rumo. Entendemos que, para sermos respeitadas, aceitas e valorizadas no grande mundo lá fora, precisávamos estar sempre em trânsito, como os homens, sempre envolvidas em atividades como lutar, competir, guerrear, triunfar. São todos verbos intransitivos, vocês perceberam?, verbos que expressam uma atitude individualista, que não considera a existência do outro, a não ser como competidor, servo e inimigo. Compramos esse pacote, jogamos o bebê fora, junto com a água do banho, e pagamos um preço alto demais, quando caímos em mais esse engodo patriarcal. Em troca de uma igualdade que acabou virando, para nós, sobrecarga e imitação do dominador, aceitamos perder nossa conexão com a natureza feminina profunda. Restaram somente as aparências para diferenciar. Consta que fomos nós que inventamos a agricultura, porque tínhamos a curiosidade, estabilidade e a atenção divergente para observar o sol, a lua, a direção do vento, as estações, os ciclos da natureza que ensinam a viver e a morrer. Para observar, é preciso ficar. Olhávamos em volta para coisas aparentemente insignificantes e acabávamos dando a elas significados que se revelavam importantíssimos. Foi assim que vimos as sementes eclodindo e resolvemos imitar a natureza, cultivando comida. Foi assim que encontramos o sagrado no mundo, muito antes dele ser transferido para o céu. Enquanto isso, os homens iam e vinham de realizar seus feitos, pequenos ou grandes, muitos deles relacionados com a pilhagem e a destruição da natureza e dos diferentes, que é outra palavra para “inimigo”.
Sem sapatilhas, só cascos
Deixadas para trás, nós mantínhamos o ciclo da vida fluindo no cotidiano miúdo e simples, que é tudo o queremos de verdade. Dizem que a agricultura e a cozinha nos ensinaram a lidar bem com as transformações. Éramos sedentárias, o que nos permitiu investir na criação de uma cultura estável. Paradoxalmente sabíamos mudar muito melhor do que os homens, que se movimentavam mais do que nós. Nossa sintonia com o corpo e a alma nos permitia ter uma mobilidade que os homens não tinham: desde pequenas, sabíamos viajar para dentro. Na primeira metade da vida, eu também saí, como todo mundo. Saí feliz, mas confesso que me sentia dividida. Eu era professora, o que me permitia ir e ficar. Eu tinha mais tempo livre. Eu me sentia importante, ainda que fizesse uma coisa considerada menos importante (educar, como vocês sabem, é uma coisa desimportantíssima). Mesmo  assim, fui convencida pela cultura dominante de que havia algo errado no meu modelo combinado de viver. Eu não precisava me sentir dividida porque, na verdade, estava integrada: o melhor dos mundos é poder transitar entre as polaridades. Eu deveria me sentir criativa, confortável e plena, mas a cultura patriarcal me convenceu de que eu não ganhava dinheiro suficiente, não me projetava suficientemente no mundo profissional, não era suficientemente agressiva e competitiva. Já minha intuição me dizia que ter tempo livre para cultivar minha alma, as almas dos meus filhos, da minha família, da minha casa (porque as casas também têm alma), era um imenso privilégio e me concedia um grande poder criador.

Menina com máscara de morte, Frida Kahlo, 1938Eu queria ver meus filhos crescerem, estar com eles em suas passagens, contar-lhes histórias, ensiná-los a cantar, a ajudar, a gostar de animais e plantas, a comer bem, a preparar e partilhar refeições, a se relacionar. Queria ter tempo para namorar meu marido, ouvi-lo, ver filmes com ele, partilhar com ele o silêncio confortável  de ler juntos livros diferentes,  e conversar com ele sobre a nossa vida. Como minha mãe, eu tinha um imenso prazer em ficar: cuidar do jardim, da cozinha, da família, manter aceso o fogo no centro da casa em honra à poderosa e modesta Hestia, deusa do lar. Diferentemente de minha mãe, porém, eu podia sair e viver a vida no grande mundo, praticar minha vocação, circular com desenvoltura no espaço público. Algumas vezes, porém, o prazer de ficar, que eu partilhava com minha linhagem feminina, me deixava constrangida no grande mundo lá fora. Quando deixei a sala de aula, há alguns anos, o meu lado que sabia ficar me serviu de âncora. Saber ficar impediu que eu perdesse a sensação de realidade que vinha do meu papel profissional. Na época, eu vivia um momento de intensa metamorfose e as metamorfoses costumam nos dar essa sensação de perda da própria realidade. Formas externas com as quais eu me identificava estavam desaparecendo, e eu ainda não sabia direito como haveria de sair daquela experiência. A gente nunca sabe, mas às vezes pensa que sabe. Minha sintonia com meu corpo e minha alma me garantiu um razoável conforto para fluir na correnteza da vida que mudava. Eu tinha as histórias, as memórias de família, os estudos de assuntos que ecoavam a minha existência, a escrita, os mitos, a arte, a literatura, o jardim, as imagens nas quais eu me espelhava e que me diziam tudo o que eu precisava saber sobre qual era o meu valor. Minha intuição me dizia que o melhor estava por vir, ainda que eu não fizesse a menor ideia do que estava por vir. Então o melhor veio.

Tudo viagem de volta

Minha experiência com os grupos de corpo e alma começou com um laço muito íntimo e antigo: a aliança mítica das irmãs. Em 2008, minha irmã voltou de uma temporada de três anos no México e me convidou para embarcar com ela numa aventura. Minha irmã é artista plástica e arte-educadora. Ela queria montar um lugar para cultivar as almas das nossas crianças, massacradas por uma educação escolar em que o corpo, as emoções e a imaginação simplesmente não interessam, só atrapalham. Eu sabia disso, porque vinha de quase 30 anos dando aulas, nadando contra a correnteza de transformar adolescentes curiosos e interessantes em autômatos tarefeiros, insensíveis e consumistas. Como não tínhamos cacife para bancar o projeto sozinhas, convidamos outras mulheres que tinham projetos parecidos com o nosso, e formamos o primeiro grupo de corpo e alma: as “ocuilis” (palavra que minha irmã trouxe do México, do velho idioma “náuatle”, e que quer dizer “cobra”, um bicho que troca de pele e simboliza o eterno que sabe mudar). Começamos nosso ateliê depois de comemorar a festa do dia dos mortos. Foi quando meu casulo começou a se abrir e a revelar minha nova forma. No início, eu tinha pensado em coordenar grupos de leitura. Era um projeto mais intelectual, como se, saindo novamente para o mundo, eu precisasse ser apenas racional. Para minha sorte, as mulheres que aderiram à ideia propuseram leituras não literárias, leituras de conhecimento profundo de si, divergentes, analógicas e um bocado irracionais também, textos de mulheres fora da curva, destinados a mulheres fora da curva: contos de fadas, mitos, metáforas. Eram mulheres que tinham desenvolvido muito sua capacidade intelectual e agora queriam se tornar sábias.

a virgem santana e o menino

Assim nasceram as matilhas de leitura, grupos de mulheres que começaram lendo , juntas, o clássico “Mulheres que correm com os lobos”, da analista junguiana e contadora de histórias Clarissa Pinkola Estés, de onde saiu a metáfora que nos define. Não é coisa nova, muitas mulheres já faziam isso antes de nós. Mas é único, porque fazemos isso de um jeito completamente nosso. Como não podíamos mais ser alcateias, porque já estávamos bem domesticadas, seríamos então matilhas em busca do DNA do feminino selvagem, a fonte de energia vital que continua a se renovar pela vida afora, de que falam os mitos e as velhas histórias tradicionais. As matilhas são grupos de corpo e alma. Nelas as mulheres se reúnem para compartilhar a experiência de ser e estar ao redor do seu próprio fogo criativo, onde são modeladas outras formas de ser e de viver além daquelas que a sociedade aprova. Cultivar a alma em grupo era o nosso objetivo embora, no início, nem soubéssemos disso. Juntas, aprendemos que, quando bem cuidada, a alma secreta os significados que umedecem e fertilizam a vida, fazendo brotar plantas novas em velhos jardins. Aprendemos também que o corpo se transforma criativamente quando a alma está preparada para lhe ensinar como se faz. Aprendemos que a alma é alquimista e o corpo, seu laboratório. Quando um não colabora, o outro adoece. Um não pode viver sem o outro. Aprendemos que o corpo e a alma equilibram a razão lógica e a tornam menos abstrata, prepotente e fria. Somos mulheres que estão reaprendendo a ficar. Cultivar a alma em grupo não tem segredo, só mistério, como canta Marisa Monte. Começa com a gente encontrando a trilha de migalhas de pão que nos leva à casa da bruxa iniciadora de princesas e mendigas , a velha sábia que vai nos iniciar nesse mistério. É preciso olhar para o chão para ver migalhas.

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No chão, estão gravadas nossas pegadas antropológicas. Saber de onde viemos é saber para onde vamos, porque a vida é um círculo, não uma linha reta. Em meio à aparência de novidade que o mundo quer nos impingir, seguimos juntas atrás do que é arcaico, do significado mais profundo e escondido de ser gente, daquela natureza real que não nos deixa ficar invisíveis só porque
envelhecemos. Aprendemos que só a conexão com o arcaico é capaz de convocar o novo verdadeiro. Como disse uma vez o Gerald Thomas, “quem não sabe o que veio antes, não sabe seguir adiante”.
Um grupo de corpo e alma é uma comunidade de iniciação onde aprendemos sobre o lado desvalorizado de nossa natureza feminina e o reparamos da melhor maneira possível: primeiro metaforicamente e depois, na prática. Queremos reinserir no cotidiano as qualidades simples, encantadoras, criativas, terapêuticas, conciliadoras, fecundantes, acolhedoras, ferozes quando necessário, e que espalham ao redor de si e à sua passagem as sementes da genuína beleza, a que nasce do amor e do sentido. Para nós, uma lista de fazeres que cultivam a alma precisa incluir: narrar e ouvir histórias, falar da vida, escutar atentamente, ler e comentar livros e filmes e obras de arte e encontros poderosos, partilhar assuntos importantes que apenas parecem insignificantes, estudar e jogar tarô, chorar de vez em quando, chorar de rir sempre, recuperar velhas prendas domésticas, rememorar as vidas de nossas mães e avós, trocar receitas, invocar imagens de deusas e antepassadas míticas, comemorar festas normais, como aniversários, e esquisitas, como o Dia dos Mortos… Ultimamente algumas lobas vêm se reunindo em outras formações, para cultivar a alma nos ateliês de arte que minha irmã coordena. Faço parte de um deles e posso dizer: é uma experiência impressionante de despertar da criatividade profunda e de cura (para quem sente que precisa de cura, claro).

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A experiência dos grupos de corpo e alma, as matilhas que continuam a se encontrar semanalmente, anos passados, sempre abertas a novas lobas, derivou, a seu tempo, para a Internet. Cultivar a alma na rede é uma coisa ótima e que muita gente já faz. Eu também resolvi fazer, escrevendo o blog da Mulher-Esqueleto. Num grupo de corpo e alma, a gente pode correr o risco de ser quem é. Não precisa dissimular juventude muito menos felicidade no atacado, não tem uma obrigação com o sucesso que esse mundo besta consagra. Podemos expor nossas dores e feridas protegidas por um continente que nos envolve, apoia e convence de que temos resiliência suficiente para superar. Num grupo de corpo e alma, a sensação de ser real é concreta. Sentir-se real não é coisa dada, a gente não nasce com ela, ainda mais numa cultura em que a gente é premiado por se transformar em abstração ambulante. É uma coisa para ser fiada todos os dias, na velha roca da vida, enquanto buscamos nossos elos com o mundo, a inteireza que depende de um pacto consciente com o outro. Só na relação com o outro somos reais, o outro humano e o outro não humano, esse grande Outro que é o mundo. Ninguém vai negar o quão importante foi aprender a partir. Agora precisamos reaprender a ficar. E ficar é verbo de ligação, como bem lembrou minha amiga-loba Regina. Os grupos de corpo e alma nos ajudam nessa jornada de volta para casa, à aurora dos tempos, quando Deus era mulher.
Eliana, Novembro de 2012

Faxina, colagem Eliana

 

O-

Conteúdo da carteira do vovo

Passei anos cantando errado um verso de Puccini, achando que ele falava de um “bambino caro”, um menino querido. Hoje finalmente descobri, não sem tempo, que a ária se destina a um “babbino caro”, um papaizinho querido. Faz exatamente uma semana que meu pai se foi. Descobrir isso no dia em que decido escrever um pouco sobre ele e sua recente passagem me parece uma ressonância do tipo a que Jung chamou sincronicidade. Mais uma entre muitas que vivi, que temos vivido, nestes dias que se seguiram à partida do Pietro: Pedro para a família dele e os amigos do trabalho, Pedrinho para a família de minha mãe, vô Pedrinho para os netos, os próprios e os emprestados, seu Pedro para os condôminos do edifício Arpoador e da lojinha da Kopenhagen, das padarias Moema, Santa Marcelina e Manhattan, do ponto de taxi da esquina, da farmácia, do banco Itaú, da feira de sábado, do mercado Hirota… Foi esse o minúsculo circuito final, cumprido dia após dia nos últimos anos pelo nosso herói familiar, o pequeno deus tutelar que se foi às pressas, do jeito que ele gostava de ir, convocado afinal pela dama que roubou seu coração e se despediu há quase 4 anos, deixando-o partido ao meio, sem céu nem chão. A ária de Puccini é de um descabelamento digno do meu pai. Fala de um filho (deve ser uma filha, porque quem canta é uma mulher) que quer comprar um anel para dar de presente ao pai e, caso o pai não aceite o presente, o/a filho/a, irá se atirar no rio Arno. Isso é a cara do meu pai, ameaçar de se atirar no rio Arno, mas só ameaçar, porque ele não tinha perfil de suicida. Era simplesmente uma alma calabresa destemperada por natureza, encharcada de um amor selvagem, denso e fermentado qual massa de pão italiano. Era também uma mamma nutridora disfarçada de pai provedor, um aquariano típico que entendia a individualidade como doença grave, um birrento querido por quase todos, um generoso que frequentemente escorregava para o perdularismo, um homem de fé nada religioso e que detestava proselitismo, um cara com quem se podia contar, mesmo porque, se você não aceitasse a ajuda dele, ele ameaçava se atirar no rio Arno. Fui eu a encontrá-lo em casa há uma semana, deitadinho no chão do quarto de TV, tranquilo como a bela adormecida, isso depois de ter cumprido todos os seus ritos matinais, ajeitar o lençol, separar a roupa para vestir depois do banho, arrumar os remédios sobre o criado-mudo, abrir as janelas dos quartos. Tudo aconteceu exatamente como meu pai gostaria: ele saindo na carreira e eu sendo a primeira a descobrir. Esses rituais minuciosos e um pouco tirânicos que ele entretinha conseguiram garantir alguns fiapos de sentido à sua vida e o mantiveram funcionando pelos poucos anos que separaram a dolorosa e longa despedida de minha mãe da saída à francesa dele próprio. Há algumas semanas, segundo a Tânia que trabalhava na casa dele, nosso pai havia parado de dar corda no velhíssimo relógio de caixa que trouxe de sua amada Pharmácia Mesquita. Já o relógio instalado no peito dele, velho de 88 anos, parou de repente dentro de sua caixa frágil. Minha mãe deu alguma carteirada do lado de lá e Átropos, a Fatal Cortadeira, resolveu enfim mover sua tesoura implacável. Zapt! Lá se foi o velho fio esgarçado da vida do nosso papai querido. Sem hospitalizações torturantes, ainda retendo ferozmente os restos de sua autonomia e de sua condição de senhor do castelo arruinado. Dois meses atrás, ele foi ao geriatra e fez todos os exames de rotina, com resultados excelentes. A ciência médica ignora que a alma decide essas coisas e não sabe disso porque sequer acredita na alma, a pobre demiurga equivocada. Há uma semana, meu pai cruzou a ponte sobre o rio Arno ao invés de se jogar nele. Um homem de sorte, apesar das oportunidades magníficas que ele sempre se queixava de ter deixado escapar na vida, das perdas imaginárias e muito, muito reais, das decepções com pessoas que ele amava (algumas bem recentes e ainda doloridas), da solidão e do luto a que ele se entregou depois de perder a companheira de quase 70 anos, entre namoro e viuvez. Papai foi paradoxal, quando não radicalmente contraditório. Na morte, ele manteve essa complexidade. Gregário, ele era extremamente reservado. Ressentido, ele era de uma lealdade inegociável que, na hora de necessidade do outro que o ferira ou ofendera, se elevava (resolvido o problema, ele ficava de mal novamente). Muitas vezes frágil e amedrontado, ele soava firme e seguro de si, com sua linda voz de barítono. Falava o que queria na frente de qualquer um, mas conseguia guardar grandes segredos que lhe eram confiados. Por alguns anos, ele promoveu férias coletivas na praia para um bando de gente, temporadas inesquecíveis nas quais ele pagava tudo e trabalhava sem parar. Era assim que ele gostava de viver. Era assim que ele se divertia, por mais estranho que possa parecer. Meu pai era a comensalidade. Seu tipo sanguíneo era O negativo, o doador universal. A mesa era seu trono. Nos almoços de domingo, qualquer um que chegasse de surpresa na casa dele, além dos 15 convidados habituais, seria recebido com alegria e teria um lugar cavado às custas do conforto de todos (ele detestava refeições à americana, todos tinham de caber em volta da mesa). Ele odiava mudanças em geral e lutava bravamente contra elas. Perdia sempre. Ameaçava se jogar no rio Arno, mas se recuperava. O AVI que ele teve em 2010 foi um desafio hercúleo, mas ele era hercúleo, excessivo, titânico. Que não o tomem por santo, por favor, ele tinha seus demônios e não era nada básico lidar com eles. Na véspera da sua partida, nos falamos por celular e ele me encomendou algumas coisas para o dia seguinte. Eu lhe dei boa noite, mas ele sempre ligava de novo, mais tarde, para deixar uma mensagem com sua linda voz de mocinho. Só fui ouvir sua derradeira mensagem de voz na tarde do dia seguinte, depois do sepultamento. Eu havia segurado o choro até então, dando conta dos deveres, como ele mesmo fazia. Ouvir a voz dele, tão bonita e clara, com sua saudação habitual “É o papai!”, seguida de algumas palavrinhas banais e queridas, me nocauteou completamente. Me acabei de tanto chorar. No dia seguinte, sem querer, apaguei a mensagem quando estava tentando escutá-la de novo. Na hora, deu muita raiva. Depois entendi que a voz dele precisa ressoar dentro e não fora de nós, suas filhas, seus netos, seus amigos, vizinhos e sobrinhos. Seu legado, para nós que o amamos, um legado feito de lições a aprender e a não aprender, faz dele um sujeito imprescindível, cuja vida e morte marcaram profundamente aqueles que o conheceram.

 

P.S. – Na lista de links, procure “Amira, de 9 anos, canta “Ó mio babbino caro”. Puxe a falação dos chatos dos jurados e vá direto para a voz do anjo. Obrigada, Marthinha!

 

Meus pedacinhos de Malu

As histórias da Malu já começaram a rolar na rede. Adoro. Parece o conto indiano dos cegos e do elefante. Cada um vê um pedacinho da Malu. Malu inteira, só mesmo agora, quando os opostos da vida e morte se encontraram e todos queremos evocar uma história na qual ela aparece dotada com as qualidades e os defeitos que a fizeram única, imperfeita e bela, como só a integridade pode revelá-la. Eu também tenho de falar dos meus pedacinhos de Malu. Do seu divertido mau-humor. Da sua presença gostosa e querida na nossa matilha de leitura, uma lobinha digna da mestra Clarissa. Das nossas polêmicas sobre os homens e o amor. Da sua compaixão pelas crianças com recursos demais e infância de menos. Da sua paixão pelos mitos, os gregos em particular (também por causa dos heróis guapos, fala a verdade, Malu!). Da sua aversão pela instituição educativa e a religiosa, e o infinito gás que ela tinha para polemizar sobre o tema. Do seu senso de humor ingênuo e impagável. Da sua inegociável elegância, sempre de unhas feitas e cabelo impecável, equilibrada no alto dos saltinhos. Da sua habilidade sonsa para ganhar no jogo de mau-mau. Do seu gosto pelas imagens, que resultou numa vontade de desenhar e pintar, coisas que ela fazia no ateliê fora do horário de atendimento. Da sua absoluta incompetência para a cozinha. Da sua falta de paciência com “gente tapada”, como ela mesma dizia, e das respostas curtas e grossas que ela dava para essa gente, que faziam a gente ficar se espremendo de dar risada. Da sua coragem para dizer as coisas que precisavam ser ditas. De beber vinho branco em turma, com ela junto, falando merda (para adubar a vida, Malu) e dando risada, lá na varanda em Barê. De comentar e compartilhar bons filmes e livros. De caminhar pela praia, ela em meio à mulherada, todas movidas a letrinhas (como dizia o Edu). Daquele pendant que ela me trouxe do Chile, um idolozinho andino com cara de mau humor, feito de lápis lazúli. Do dia em que a gente gravou, aqui em casa, o DVD do Beto e da Laura, sobre Jung e educação, com ela linda, loura e loquaz, falando com propriedade e inteligência. Das nossas conversas sobre o ego e a sombra. Da gente preparando a festa de Dia de Muertos no ateliê, em 2010, e lendo o artigo lindo do Gambini, “A morte como companheira”, que ela adorava. De estar com ela naquele Moitará inesquecível sobre a morte, lembra, Malu? De recebê-la aqui em casa para festar (nas nossas fotos de festas dos últimos 200 anos, lá está ela, irmãzinha querida, inclusive no último natal, tomando prosecco, a danada). De fofocar sobre Lorde Voldemort, o falso. Daquela ida ao colóquio do Rio, eu, ela e a Lelê partilhando o mesmo quarto de hotel, feito três meninas numa festa do pijama. De passear com ela por Olinda, enforcando o congresso do Imaginário, quando o frei sem vergonha quis tirar foto no meio de nós duas e nos deu um bom apertão. De ir com ela e as garotas do imaginário à maravilhosa Oficina do Brennand, no Recife, o jardim dos arquétipos, lembra, amiga? De ter ido ouvir as vésperas cantadas pelas freiras naquela igreja-convento cheia de morcegos, num maravilhoso entardecer a la Frans Post. De ter ido com ela ver e ouvir o Wisnik e o Caetano no lançamento da obra do Freud e de ela achar o Caetano um gato (coisa difícil, porque Malu era super-picky). Malu que me levou para o imaginário de Durand, que me apresentou para a Ciça da FEUSP, que me contratou para dar aulas de “12 trabalhos de Hércules” para ela, minha primeira aluna (e também mestra) de mitologia grega. Quantos pedacinhos da Malu, cada um, um delicado fragmento de cristal colorido que integra nosso pequeno vitral lateral, não a grande rosácea central que você agora encena, querida, mas apenas nosso vitralzinho particular, lindo e colorido e translúcido. Tomara que você tenha levado consigo alguns pedacinhos de mim também, querida, para esse lugar aonde você agora está. Do nosso vitral encarnado, eu continuo cuidando, pode deixar, enquanto estiver por aqui, no ateliê, na praia em Barê, na matilha, com as garotas da FEUSP, com a Laura, o Beto e a Bel, rodando pelo Itaim, festando aqui em casa, nas nossas festas do Dia de Muertos, com você agora no centro do altar das ofrendas, vendo um belo filme, estrelado pelo George Clooney, de preferência. Na véspera da tua partida, mais um pedacinho veio se juntar aos que eu já guardava comigo: você me visitou num sonho deslumbrante, chique a mais não poder, vestindo um mantô branco de lã muito fina, coisa de alta costura, linda e loura de chapinha, como você gostava. Estávamos numa casa ampla e luminosa, que também era um estúdio de gravação. Havia uma terceira personagem negra, gorda e muito linda, com um enorme sorriso no rosto. Era a zeladora da casa-estúdio. Você chegou e me disse que tinha ganho um fôlego novo e queria fazer uma festa, embora soubesse que não tinha sarado. A zeladora ouviu nossa conversa e se meteu, dizendo: “Vocês ouviram falar de um cientista que acaba de lançar um medicamento novo, chamado panaceia?” Fiquei radiante e te disse: “Olha que sorte, Malu! Você ganhou um fôlego só para tomar a panaceia”. Acordei sabendo que, embora eu já não pudesse te visitar, você havia me visitado. Obrigada, querida. Nos vemos. Muitos beijos. Seja feliz.