Artistas da fome

Kafka. Que já nasceu 2.0. No conto “Um artista da fome”, publicado em 1922, ele conta a história do sujeito que vive de explorar a própria capacidade de jejuar por tempo indeterminado. O empresário, pragmático e cauteloso, limita o fenômeno a 40 dias, para não cansar o público e não matar a atração que, ao que tudo indica, é lucrativa. A espetacularização da miséria sempre deu IBOPE  e rendeu dividendos, do Coliseu a Datena. Mas o tal artista da fome é um virtuose, um insaciável perfeccionista em seu obsessão pela arte, um perene insatisfeito, que se sente roubado de sua competência por não poder jejuar indefinidamente. Ele sabe que pode mais. Ele quer se tornar uma abstração, um fiapo de consciência concentrada ao extremo pela ascese. O ganha-pão dele é paradoxal: não comer. O público gosta da figura assustadoramente esquálida, porém muito composta, paciente e polida com os curiosos, estranhamente mantida numa jaula, e que suporta essa contradição com a dignidade de um devoto de Shiva. Ele, contudo, não serve a divindade alguma, apenas ganha a vida exercendo, com maestria, a arte de não comer. Já nossos artistas da fome  não são tão dignos. A revista Elle, por exemplo, adora estampar aprendizes mequetrefes desse expert kafkiano em suas capas. Todo mês tem lá uma moçoila com ares de hipertireodea, olhos e ossos protuberantes, sinais evidentes de desnutrição crônica, expressão vazia no rosto emaciado, porém, muito bem maquiado. Obedientemente metida na sua exígua jaula retangular, adereçada e vestida, cercada de letrinhas que conseguem convencer os incautos de que, sim, ela é um modelo de beleza e juventude e sucesso e sedução (como se homens gostassem de roer ossos!). As revistas dos anos 1960-70 viviam cheias de fotos de gente como ela: os subnutridos da Somália e dos campos de concentração nazistas, os famélicos da Biafra, só que poeirentos, desesperados, esfarrapados, quando não nus (as criancinhas sempre nuas) ou metidos em deselegantes pijamas listrados, os olhos cheios de moscas, a foice de Tanatos pendendo sobre seus pescoços descarnados. Eles, pelo menos, tinham a dignidade da experiência a seu favor. Não eram artistas da fome. Passavam fome por contingência, não por arte, nem por perfeccionismo, muito menos por fama e fortuna. Mudou o entorno, reeditou-se o contexto e, em algum momento que nos escapa, Kafka passou a inspirar, inconscientemente, as imagens da moda, os padrões de beleza. A mídia impressa voltada ao segmento feminino escolheu ser kafkiana pelo avesso. E dá-lhe Photoshop para esconder as olheiras, as moscas que esvoaçam em torno e, principalmente, a foice de Tánatos pendendo sobre pescoços anoréxicos. Distorcer Kafka até fazer o desespero da busca por sentido se parecer com o sadomasoquismo de boutique de E.L. James: um processo, no mais, bastante kafkiano.

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