Mudo em preto e branco

George-Manawee e Jack

Dois fazem um: razão arrogante e instinto sabido

A metalinguagem deitou e rolou na última cerimônia do Oscar. Metalinguagem já é uma coisa chique, vamos combinar. E quando a metalinguagem vem impregnada de nostalgia, da ingênua e poderosa ilusão de que nosso mundo já experimentou valores mais delicados, sonhou com fantasias mais inspiradoras, teve como modelos heróis mais interessantes, aí então ela fica chique no úrtimo. Mais ainda se levarmos em conta esta Idade do Ferro em que vegetamos, barraqueira, mesquinha, consumista, vulgar, xiita, ignorante e sem imaginação, da qual, por sinal, somos ativos participantes. OK. O Oscar é um prêmio comercial, decadente e cafona, sempre tem uma marmelada para nutrir nossas paranóias, os velhotes da academia são uns reaças (e existe palavra mais reaça que reaça?). Confesso, porém, e sem constrangimento, que continuo acordando (eu que durmo com as galinhas) muito curiosa pra saber quem levou o quê, quem chorou, quem agradeceu à mamãe, quem esnobou o prêmio, quem se vestiu de escada, de caixa gigante de Mayzena ou de piano de cauda e outras bobajadas. Este ano, fiquei intrigada com a grande ausência das listas: o fabuloso “J. Edgar”, de Clint Eastwood, que fez a grande má-criação de contar pra todo mundo que Hoover era gay e filhinho de mamãe dominadora, além de um maluco competentíssimo. Resultado (que eu inventei): a velharada acadêmica botou ele de castigo, juntamente com seu astro, Leonardo di Caprio, melhor ator de 2012 na minha lista de premiações. Eu tinha mal tinha saído do cinema no domingão e a festa do Oscar já ia começar. Saí, por sinal, enlevada pela grande zebra da noite, o delicioso “O artista”, que acabou levando cinco prêmios: sem efeitos especiais, sem cenas de sexo (nem mesmo um bom beijo na boca), de violência explícita, de carros explodindo, de cabeças realisticamente arrebentadas por tiros. E mudo. Em preto-e-branco. Nem Woody Allen, nosso esquisitão favorito em Hollywood, foi capaz de fazer um filme mudo, ainda que sua fantasia nostálgica deste ano esteja alinhada com o astral de “O artista”. Só Mel Brooks teve esse desplante nos anos 1980, mas nem me lembro se “A última loucura” era dos bons ou uma daquelas porcarias que ele filmava para pagar as contas. A transgressão radical de “O artista”está em contar, num formato anacrônico, uma história clichê, de amor, solidariedade, ruptura e superação. Só que um clichê bem descascado de suas camadas superficiais, já ressequidas e quebradiças, pode revelar um núcleo imprevisto, ativo e suculento, capaz de reavivar o melhor em nós. “O artista” fala de uma metanóia, uma grande virada da maturidade, quando um herói na melhor tradição de Campbell e Jung atinge os limites do próprio ego e precisa então matar-se metaforicamente para reinventar-se e assim não sucumbir literalmente (o que quase acontece). Saí do cinema pensando que, se alguém merecia levar o Oscar que deveria ter ido para Leo, esse alguém era o simpaticíssimo Jean Dujardin, com seu personagem a la Manawee (ver “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés), devidamente assessorado pelo adorável Jack, seu cachorrinho personal trainer, agente e psicoterapeuta de plantão. Dujardin é George Valentin, o astro do cinema mudo canastrão e sedutor, mistura irresistível de Douglas Fairbanks e Gene Kelly, com um toque francês dos bons tempos de Yves Montand (ah! aqueles dentões apinhados!) e Charles Boyer (e que olhar, hein? fala sério…). Resistir, quem haveria de? Os velhotes da academia caíram de quatro, assim como eu, que nem vivi a era do cinema mudo. Mas que me deu saudade das sessões da tarde em preto-e-branco da minha infância, em que os galãs eram do tempo da juventude das minhas tias, isso deu! E que graça de “it girl” é Peppy Miller, a partner de George, espevitada, segura de si e leal! O Oscar deste ano falou de um imaginário cinematográfico reprimido, mas que ultimamente anda forçando a portinhola do alçapão para retornar e reenviar o imaginário patente, dominante, patologicamente heróico, de um cinema comercial superficial, auto-referente e babaca, para o útero da Grande Puta que o Pariu, onde ele deveria ficar um século de quarentena, até se dissolver um pouco e voltar mais calmo e equilibrado, em condições de usar seu fabuloso poder para coisas melhores. Provam minha hipótese os outros filmes no páreo, em diversas categorias: “Cavalo de Guerra”, “Os descendentes”, “A separação”, “Meia-noite em Paris”, “A invenção de Hugo Cabret”, “Histórias cruzadas”. Esses todos eu vi e suas imagens me estimulam a pensar  que deve mesmo haver algo de refrescante no reino dos clichês que é Hollywood. Acredito piamente no poder da imagem em geral e das imagens do cinema em particular, feitas para justificar tiranos, plantar imagens e ideias daninhas em cabeças de bagre, vender quinquilharias e outras merdas, mas também para inspirar e transformar almas sequiosas de beleza, de justiça e de bondade. Assim como fazem as ideologias e religiões, sem tirar nem por. O novo-velho cinema eterno, clássico, que “O artista” evocou para mim, tem um jeito de Carlitos, o vagabundo que chega sem querer, sem ser convidado, tropeçando no tapete, atrapalhado e adorável, para revelar nosso perfil mais bonito, que é justamente aquele que temos mais vergonha de mostrar.

No jardim

Aprendendo com a horta

Em grande parte das mitologias que conheço, o Mundo começou num jardim. Nada mais natural. Nada mais cultural. No jardim, a ordem está inapelavelmente submetida à desordem. E vice-versa, se houver um jardineiro por perto. Um jardim ensina que Caos e Cosmos, desordem e ordem, são faces inseparáveis da mesma realidade, a totalidade bipolar da qual decorrem todas as dualidades que conhecemos e experimentamos: sombra e luz, amor e indiferença, consciência e inconsciente, bem e mal, beleza e feiúra, natureza e cultura, animal e humano, humano e divino etc etc etc… Nossa vida é fruto desse movimento pendular que a tece e destece, ao sabor da perpétua oscilação entre infinitos pares de opostos. A imagem do jardim serve, pois, para figurar o mundo objetivo tanto quanto nosso mundo interior e, nesse sentido, somos todos um jardim e seu jardineiro, simultaneamente sujeito e objeto de um cultivo e de um desleixo. Um jardim neoclássico é uma tentativa pretensiosa e rígida (para não dizer fracassada) de submeter Caos às leis de Cosmos. Um jardim abandonado é uma prova inconteste da supremacia de Caos sobre Cosmos. Um jardim zen budista é um diálogo tenso e sutil entre esses esses gêmeos opostos-complementares, a quem os gregos também chamaram de Eros e Tánatos, o Amor e a Morte,  as forças de coesão e dispersão que se alternam, se combatem e se entrelaçam na faina de urdir o mundo. Os antigos gregos, com sua excepcional competência para transformar percepções em imagens (e, mais tarde, também em conceitos), os nomearam mais de uma vez. Caos e Cosmos são os “nomes” inventados por esse povo que pariu nosso imaginário muito antes de Cristo, para designar as potestades indiferenciadas, primais, devastadoramente criativas, que se engalfinham pela eternidade afora, envolvidas em sucessivas batalhas e negociações pela posse do mundo e da alma humana. Por um momento, Zeus e seus irmãos olímpicos aprisionaram as forças de Caos nas profundezas da Terra e declararam a vitória de Cosmos. Embora fosse o próprio sr. Fodêncio, Zeus tinha uma grande sabedoria intuitiva e uma invejável verve diplomática, as quais conquistou, aliás, depois de ter engolido sua esposa Métis, preocupado que estava com o fato de ela ser muito mais inteligente do que ele. Sim, ele podia ser vaidoso e prepotente, mas sabia que não reinava sozinho. Sempre esteve ciente de que Caos continuaria a invadir intermitentemente, por imprevisíveis e invisíveis fissuras, aquele mundo recém-faxinado de monstros e vilões que ele fizera tanto gosto em arrumar.  Sempre esteve ciente, inclusive, de que a energia básica e incontrolável de Caos era a origem e a nutriz de  Cosmos, caso este quisesse se manter fecundo e criativo. Cercado por divindades mais antigas do que ele, por sinal, quase todas femininas, Zeus pragmaticamente concedeu espaço e status inalienáveis às forças da desordem. Para se sentir um pouco como Zeus, é só ter um jardinzinho em casa, ainda que sejam uma mini-horta de temperos, quatro ou cinco vasos de samambaias. A faina interminável de arrancar o mato, atacar as pragas, fazer mudas, podar na época propícia, reconhecer e retirar os cadáveres, regar cada planta conforme sua necessidade, adubar, rastelar folhas secas ou arrancar folhas amareladas, perseguir e desentocar lagartas famintas… Fazer isso é experimentar-se um pouco no papel de demiurgo. No jardim, a ordem é alimentada pela desordem, pela matéria orgânica em decomposição, pela força descomunal da vida que não foi convidada, pela resistência dos microvilões que fortalecem a quem não matam e nos convocam a sermos ainda mais resistentes do que eles… No jardim, a desordem se submete à ordem dos ciclos naturais, das chuvas sazonais, dos desafios naturais e artificiais que as plantas precisam vencer para vingar de verdade… Um olhar menos tosco, uma mente menos literal podem aprender muito sobre a existência humana, sobre finitude e eternidade, sobre equilibração ou homeostase, sobre economia psíquica, educação, física e metafísica, simplesmente cuidando de um pequenino jardim. O aprendizado pode parar no nível mais primário, do corpo ancorado no mundo e de uma educação dos sentidos. Se ficar aí, já está de ótimo tamanho – e quanto perdem os estudantes de todos os níveis porque essa escola sem alma e sem utilidade lhes rouba o tempo de aprender a viver plantando e cuidando de um jardim! O aprendizado do jardim também pode desenvolver-se em muitas etapas, cada vez mais profundas (literal e metaforicamente falando). No jardim, Caos e Cosmos, Eros e Tánatos são nosso mestres, mestres da vida e da morte, disputando nossa atenção, construindo nosso conhecimento na experiência, propondo conteúdos sempre muito significativos, obrigando-nos a sujar as mãos, obsessivamente desinfetadas com álcool gel, com a substância primeva da vida: o barro. Nos últimos dias de minha mãe, comprei um livro para ler em voz alta para ela, chamado “O poder do jardim”, nem sei de que autor, porque na espiral de dispersão convocada por Tánatos quando ela se foi, ele se perdeu por aí. Eu o li para ela e para mim mesma, naquele lugar sem jardim que é um quarto de hospital, onde a alma precisa ser bajulada e afagada o tempo todo para não fugir espavorida ou não ficar anoréxica. Foi um tempo de leituras delicado e suave, instalado em meio à névoa que sempre envolve os limiares de nossa vida. O jardim lido deu prazer e conforto a minha mãe e me ajudou a atravessar aquele território pantanoso e escorregadio como o mangue de Lerna, onde vivia a hidra que Héracles eliminou, a serviço de Zeus, seu pai devoto de Cosmos. Que a gente não se engane: a última cabeça da hidra era imortal e o herói só pôde enterrá-la bem fundo e colocar uma pedra em cima, como Zeus fez com os gigantes e os titãs que venceu. Caos deve ter gargalhado dessa estratégia copiada do papai poderoso. Penso que, frequentemente, em nossa vida, essa cabeça medonha, representante da desordem, ressurge à flor da terra para nos assombrar e desorganizar, mas também para nos desafiar e estimular a crescer. Gosto mais do gesto de Perseu, que também precisa enterrar a cabeça imortal da górgona Medusa e, para isso, cava um buraco bem fundo, que cuida de forrar e amaciar com delicadas algas marinhas. Por fim, ele coloca, com delicadeza, a face terrível do monstro voltada para esse berço de algas. Na mesma hora, petrificadas pelo olhar da Medusa, as algas transformam-se em corais. Não é lindo isso? O olhar de Caos a incitar o gesto delicado de um Cosmos compassivo, a um só tempo cuidadoso e destemido, numa palavra: integrador?