Transformações no mito de Ísis e Osíris, ao longo do Antigo Império

isis

No sonho, eu encontrava uma prima de segundo grau um pouco mais nova, com quem vivi uma rápida e intensa fase de amizade durante a adolescência. Eu tinha quatorze anos, enquanto ela andava pelos doze. Gostávamos muito de egiptologia. Trocávamos livros e informações sobre o Vale dos Reis, deuses, faraós, múmias, expedições arqueológicas espetaculares, o Livro dos Mortos… Era no tempo da pré-história digital. Dígitos mesmo, só os nossos polegares opositores, que funcionavam à perfeição. Naquele tempo, as coisas nunca chegavam de mão beijada e a gente tinha de procurar muito por elas, tinha de querer demais encontrá-las. Nós duas, eu e minha prima, procurávamos, descobríamos e compartilhávamos, quase sempre pelo correio, histórias e imagens que já eram a comida favorita da minha alma. Não sabíamos ainda, mas nossas almas estavam absorvendo esses materiais profundos para sobreviver, no então futuro distante, a  perdas irreparáveis. Isso, porém, foi bem mais tarde.

Esse comércio demandava, de nossa parte, uma competência razoável. Tínhamos de ser pacientes e esperar, porque o mundo era lento e não nos mimava com prontidões desnecessárias. Tínhamos de nos comunicar diretamente, por telefone, ou de pedir piedade a algum pai, para que nos desse carona até a casa uma da outra (ela morava em São Caetano e eu, no Brooklin Velho). Tínhamos de ler e escrever muito, já que esses eram os prazeres que nos permitiam esperar sem estressar. E como esperar era gostoso! Ler e escrever eram nossos supremos prazeres, que adorávamos exercitar em conexão uma com a outra. Ao sabor dessa aventura verdadeiramente interativa, minha prima terminou por virar historiadora, fiel (gosto de acreditar nisso) a um daimon manifesto no contato ingênuo com aquele imaginário mágico. Já eu virei e desvirei muitas coisas, sempre movida pelos mitos.

Volto ao sonho. Nele, somos ambas as cinquentonas de hoje em dia, conversando animadamente, como fazíamos quando éramos meninas. Muito amigas, completamente à vontade, relaxadas e em fluxo, falando de coisas realmente importantes: deuses, faraós, tumbas, múmias, mitos egípcios. De repente, ela sai da sala onde conversamos (que fica numa FFLCHUSP onírica), em busca de um jornal em que se divulgam cursos abertos. Retorna em seguida, folheando o jornal, e eu lhe digo:

– Ache aí um curso para fazermos juntas, sobre aqueles assuntos  da nossa adolescência.

Ela responde:

– Aqui tem um. Chama-se “Transformações no mito de Ísis e Osíris ao longo do Antigo Império”.

Acordo na penumbra morna das 6 horas da manhã e a luz me assegura de que é tempo de levantar, fazer ioga, rezar, molhar o jardim, caso uma chuva noturna não tenha caído. O título do curso me vem à memória, de imediato e por inteiro, trazendo consigo a narrativa do sonho, que se desvela dentro de mim como um texto sagrado, anotado num velho papiro. Eu o sussurro, para não esquecer: “Transformações no mito de Ísis e Osíris ao longo do Antigo Império”.

Certos sonhos são tão intensos e esclarecedores que me tiram da cama a qualquer hora da noite, para anotá-los. É urgente recuperar suas imagens, já que são sonhos imperativos. Não posso de modo algum desperdiçá-los, sob risco de jogar ouro na privada e dar a descarga. Naquele dia, como já eram seis da manhã, antes da ioga-reza-rega, fui até a escrivaninha e escrevi tudo, de um jato, como dizia Fernando Pessoa. E escrevi com fome de narrar, do jeito que eu fazia quando trocava cartas com minha prima, décadas atrás, sobre Ísis e Osíris, entre outros temas igualmente formidáveis. Escrevi a lápis, com letra caprichada de colegial antiga: “Transformações do mito de Ísis e Osíris ao longo do Antigo Império’. Depois narrei, no caderno, o restante da história.

Não sei se ainda temos alguma coisa em comum, eu e minha prima que se tornou historiadora, vive e trabalha em outro estado. Como Ísis, porém, perdemos as pessoas que mais amávamos e saímos em busca de recuperá-las, transformadas. Essa é uma grande magia e Ísis é a senhora da magia. Como Ísis em sua jornada em busca do corpo despedaçado de Osíris, perseguimos pacientemente o significado, que parecia perdido para sempre, dissolvido nas águas do grande rio. Juntamos um a um os fragmentos do mundo que ainda podiam servir, os costuramos a outros, que terminamos por descobrir e, enquanto o fazíamos, nosso luto se converteu em gravidez (a dela, de gêmeos, aos 50 anos ou quase). O Antigo Império encerrou-se  e um Novo Império se seguiu a ele. Talvez como eu, minha prima também desça ao reino dos mortos todas as noites, tendo os sonhos como guias. Nossa vida desperta precisa do húmus que a experiência de dormir-morrer a cada noite nos propicia. E se, como dizia Jung, o sonho é o mito do homem comum, então sonhar com um mito só pode ser uma epifania.

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Ecos

Poucas pessoas como a Denise Felipe, sabem me impactar logo cedo de manhã. Abro a caixinha e encontro grãos de ouro bateados do ribeirão da beleza, da inteligência, lampejos de Deus que a peneira revela aos meus olhos ainda remelentos, enquanto a água baixa e escorre pelos furos. Melhor: são grãos dourados de quirera nutritiva e apetitosa, espalhados generosamente (desculpe o advérbio, Dê) pelo chão bem varrido do terreiro. Minha alma galinácea sai correndo para ciscar, ronronando cacarejos satisfeitos. Não resisto à tentação de partilhá-los bem depressa com os meus leitores.

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“‒ A inteligência não é uma qualidade individual. É coletiva, nacional, intermitente.

‒ Uma nova teoria!

‒ Atenas, 416 a.C., Eurípedes apresenta a sua Electra. Dois rivais assistem, Sófocles e Aristófanes. E dois amigos, Sócrates e Platão. A inteligência estava lá.

Firenze, 1504, Palazzo Vecchio, a pintar paredes, dois pintores: Leonardo da Vinci e Michelangelo. Um aprendiz: Rafael. Um mestre: Niccolo Machiavelli.

Filadélfia, E.U.A., 1776‒ 1787. Declaração da Independência e a Constituição dos Estados Unidos. Adams, Franklin, Jefferson, Washington, Hamilton e Madison. Nenhum outro país foi tão abençoado.

Nasci em Chicoutimi, Canadá, em 1950. É um milagre não ser mais idiota. Em 1950, eram todos idiotas, em Atenas e em Chicoutimi. Na Itália, terias apoiado as Brigadas Vermelhas.

‒ Agora é o Berlusconi.

‒ A Filadélfia votou em George Bush.

‒ Você não é idiota.

‒ A inteligência desapareceu, e pode levar eternidades até voltar. De Tacitus até Dante, foram quê, 11 séculos?

‒ Os árabes mantiveram a inteligência viva.

‒ É verdade.”

(Diálogos do filme “As invasões bárbaras”, de Dennis Arcand”)>

“Passei todos os verões da minha vida fazendo planos para setembro.

Agora não mais.

Agora passo o verão lembrando das boas intenções que se foram.

Em parte por preguiça,

em parte por descuido.

O que há de errado na saudade?

É a única distração para quem não tem fé no futuro.

A única.

Sem a chuva, agosto está chegando ao fim

e setembro não vem.

E eu sou alguém tão comum…

Mas não precisa se preocupar.

Tudo bem, está tudo bem.

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Termina sempre assim.

Com a morte.

Mas primeiro havia a vida.

Escondida sob o blá, blá, blá.

Está tudo sedimentado sob o falatório e os rumores.

O silêncio e o sentimento.

A emoção e o medo.

Os insignificantes, inconstantes lampejos de beleza.

Depois a miséria desgraçada e o homem miserável.

Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo.

Blá, blá, blá, blá…

O outro lado é o outro lado.

Eu não vivo do outro lado.”

(Trechos do filme “A grande beleza”, de Paolo Sorrentini)